O cuidado ao idoso portador de transtorno mental sob a ótica da família
Introdução
Fruto da eclosão do Movimento Sanitário da década de 70, as mudanças da
assistência em saúde mental, pautadas pelo início da Reforma Psiquiátrica,
objetivaram o processo de desconstrução do modelo hospitalocentrico, abrindo
espaço para novas possibilidades de atenção em saúde mental (Oliveira, Silva e
Silva, 2009).
Os serviços extra-hospitalares de saúde mental tornaram-se a base de uma nova
forma de cuidar, voltada para o tratamento do paciente dentro do seu próprio
meio social, buscando a sua reintegração, por meio de serviços alternativos
(Centros de Atenção Psicossocial ' CAPS). Além de medicalizar, esta nova forma
de cuidar disciplina, cuida e estabelece um intercâmbio do portador com o
espaço coletivo. Face a esse novo modelo de assistência, destaca-se a inserção
da família no processo de reabilitação, pois esta tem papel fundamental no
cuidado oferecido ao paciente, produzindo cuidados essenciais à saúde, como as
interações afetivas necessárias ao desenvolvimento da saúde mental e da
personalidade e a adesão aos tratamentos prescritos pelos serviços (Oliveira,
Silva e Silva, 2009).
Com a tendência para o crescimento da população idosa no mundo, surge também o
crescimento do número de casos de doenças, entre as quais doenças mentais.
Nasce, assim, um novo desafio para os profissionais de saúde e para as
famílias: a necessidade de mais cuidados, para que possam prover cuidados mais
complexos e por longos períodos de tempo ao idoso portador (Araújo, Paul e
Martins, 2010).
O cuidar em saúde está associado a dispensar atenção e intervenções a um
indivíduo ou a um grupo de maneira a obter êxito em um determinado tratamento.
Na área da saúde mental, as questões do cuidado e do cuidar têm sido alvo de
investigações, uma vez que as demandas existentes nos serviços de saúde mental
são mais complexas. A reorientação da assistência para o modelo extra-
hospitalar fez emergir um novo cenário que possibilitou a construção de novas
formas de pensar, tratar e cuidar em saúde mental. Para isto foi, e ainda é
necessária a criação de redes de serviços e cuidados interdisciplinares que
possam envolver profissionais de diversas áreas com os usuários, os familiares
e a comunidade onde estão inseridos; valorizando-os e reconhecendo a sua
liberdade, dignidade e singularidade (Ballarin, Carvalho e Ferigato, 2010).
Diante do exposto, devido às dificuldades ainda enfrentadas no cuidado ao idoso
portador de transtorno mental, traçou-se como objetivo analisar qual a conceção
da família em relação ao cuidar deste idoso, caracterizando os aspetos
socioeconómico e cultural, relacionando as dificuldades encontradas pela
família frente ao usuário e identificando as orientações estabelecidas pelos
profissionais de saúde.
Percebemos quando fomos entrevistar estes familiares / cuidadores um cansaço
aparente, e em alguns momentos foi possível identificar expressões de
sobrecarga, ficando evidente que estes também precisavam de cuidados. No
entanto, tais cuidadores acolheram-nos bem e mostraram-se recetíveis, mas fomos
descobrindo as suas aflições e sentimentos em relação a esta esfera tão
delicada do cuidado ao longo das entrevistas.
Nesse sentido, consideramos que este estudo desempenhou um importante papel na
avaliação dos cuidados da família com o idoso portador de transtorno mental, as
suas dificuldades e influências na qualidade de vida desses indivíduos.
Portanto, torna-se relevante por poder contribuir com conhecimentos aplicáveis
na melhora da qualidade do cuidado deste cliente, melhorando assim, a qualidade
de vida e convívio familiar.
Quadro teórico
A assistência psiquiátrica brasileira é algo bastante recente, datando da
segunda metade do século XIX. Inicialmente, a sociedade apresentava-se
tolerante com os portadores de transtornos mentais, porém com o aumento
populacional das cidades, a presença dos loucos nas ruas tornou-se algo
indesejável. Sendo aquele visto como uma ameaça à segurança pública, o
recolhimento aos asilos é a única maneira de lidar com a pessoa com transtorno
psiquiátrico. Embora o recolhimento lhe trouxesse um isolamento social e uma
vivência em condições subumanas, esta prática era autorizada e legitimada pelo
Estado pretendendo oferecer proteção à sociedade; culminando na construção do
Hospício Pedro II e na ampliação do modelo de assistência hospitalocentrico em
todo o território nacional. Essa prática acabou por evidenciar a não-
resolutividade dos hospitais psiquiátricos frente ao tratamento desses
pacientes e mostrando a existência de uma verdadeira indústria da loucura
(Oliveira, Silva e Silva, 2009).
A reforma psiquiátrica é um movimento histórico de caráter político, social e
económico, tendo suas raízes nos Estados Unidos e na Itália com objetivo de
substituir os aparatos manicomiais pelos serviços comunitários. Ficando clara a
importância da mudança de conceito e atitude culturalmente empregada em relação
à doença mental, para que, dessa forma, a assistência fosse baseada na
cidadania, ética, humanização e, além disso voltada para a integralidade do
cuidado, de tal modo que possibilitasse às famílias o entendimento que o
tratamento do doente mental era possível e aceitável fora dos hospitais
psiquiátricos (Villela e Scatena, 2004 apud Oliveira, Silva e Silva, 2009).
No Brasil, em 1991 o deputado federal Paulo Delgado unia as proposições do
movimento dos trabalhadores de saúde mental com o propósito de formalizar a
Reforma Psiquiátrica como lei nacional acontecendo apenas em 2001. Foi aprovada
a Lei n.º 10.216, que dispõe sobre a proteção e os direitos das pessoas
portadoras de transtornos mentais e redireciona o modelo assistencial em saúde
mental, garantindo a proteção das pessoas acometidas de transtorno mental
(Brasil. Ministério da Saúde. Secretaria de Atenção à Saúde. DAPE. Coordenação
Geral de Saúde Mental, 2005).
Nesse contexto, os CAPS assumem especial relevância no cenário das novas
práticas em saúde mental no país. Configura-se como serviço substitutivo
estratégico para a reversão do modelo hospitalar, oferecendo atendimento diário
à população, afim de, realizar o acompanhamento clínico e a reinserção social
dos utentes no trabalho, lazer, exercício dos direitos civis e fortalecimento
dos laços familiares e comunitários. Torna-se assim, um produtor de autonomia,
em que o utente é responsável por toda a sua trajetória e tratamento (Brasil.
Ministério da Saúde. Secretaria de Atenção à Saúde. DAPE. Coordenação Geral de
Saúde Mental, 2005).
A dinâmica de atendimento nestes serviços procura construir ações inventivas,
estabelecer vínculos afetivos e de confiança e desmistificar o olhar da
sociedade que vê no portador de transtorno mental, uma ameaça; aumentando a
capacidade do utente de estabelecer trocas sociais, possibilitando maior
autonomia deste (Oliveira, Silva e Silva, 2009).
Considerando a Portaria n° 2528 de outubro de 2006, que aprovou a Política
Nacional de Saúde da Pessoa Idosa, a questão da saúde mental passa a ter grande
representação no processo de cuidado em saúde aos idosos, uma vez que, além da
alta prevalência dos transtornos mentais neste grupo, existe uma escassez dos
serviços especializados oferecidos e acessíveis para a população idosa (Brasil.
Ministério da Saúde, 2006).
Em dezembro de 2011, o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística divulgou
a expectativa de vida da população brasileira no ano de 2010 em 73,5 anos.
Assim, acompanhamos a ocorrência de uma mudança demográfica populacional nas
últimas três décadas, fato este desencadeador de novos desafios, como, o
aumento no número de acometimento de pessoas idosas por diversos tipos de
doença (Tavares, 2009).Tomando apenas a saúde mental como foco, o aumento de
casos de fragilidade, depressão e demência certamente caracterizam esses
enormes desafios, estudos demonstram a prevalência de transtornos depressivos
em populações urbanas idosas brasileiras variando entre 19,8% até 38,5%
(Coutinho e Laks, 2012).
Os idosos são bem mais vulneráveis a desenvolver transtornos mentais, o
enfrentamento de fatores psicossociais. A perda de papéis sociais, perda da
autonomia, morte de amigos e parentes, saúde em declínio, isolamento social,
restrições financeiras e redução do funcionamento cognitivo, situações
recorrentes de discriminação ou mesmo humilhação sociais, caracterizam-se como
um desencadeador/agravador de sofrimento psíquico nessa população, predispondo
os idosos ao desenvolvimento de transtornos como demência, esquizofrenia,
transtorno depressivo, transtorno bipolar, transtorno delirante, transtorno de
ansiedade, transtorno somatoformes e transtornos por uso de álcool (Tavares,
2009).
A família, na sociedade contemporânea é, indubitavelmente, um pilar fundamental
de apoio. É a primeira unidade social onde a pessoa se insere e, também, a
primeira instituição que contribui para o seu desenvolvimento e socialização,
sendo uma realidade de chegada, permanência e partida do ser humano.
Ultimamente, observa-se que os sistemas de saúde atribuem às famílias algumas
responsabilidades dos cuidados aos seus familiares, delegando-lhes o papel
central nos cuidados em situação de doença e dependência (Araújo, Paul e
Martins 2010).
Para essas famílias, o aparecimento da enfermidade mental e as suas
consequências trazem o pior dos eventuais conflitos e dificuldades do
quotidiano, anteriormente enfrentadas por elas. Não há dúvidas de que precisam
de ajuda para enfrentar essas questões e outras, como a culpa, a sobrecarga, o
pessimismo e isolamento social, que surgem com o sofrimento que a loucura
imprime, tanto para eles quanto para a pessoa que adoece (Araújo, Paul e
Martins, 2010).
As mudanças causadas na organização e dinâmica da família que recebe uma pessoa
com transtorno mental pode gerar sentimentos de revolta e/ou esperança de um
retorno mais tranquilo e a melhora do quadro. Embora o período de adaptação
dessa família possa gerar uma situação stressante, tem-se observado o
surgimento dos novos modelos e arranjos familiares, demonstrando a importância
do cuidado com utentes de saúde mental, e a formação de redes sociais que
possam apoiá-los nesse processo de reinserção (Alves e Silveira, 2011).
Metodologia
Trata-se de um estudo de investigação exploratória, transversal com abordagem
qualitativa, desenvolvida nos Centros de Atenção psicossocial (CAPS II e CAPS
III), situados no município de Campina Grande/PB/Brasil, entre setembro e
outubro de 2009. A população do estudo foi constituída por 14 familiares
cuidadores de idosos portadores de transtorno mental utentes dos CAPS II e III.
A seleção da amostra obedeceu aos seguintes critérios de inclusão: 1) ser
familiar e cuidador de idosos em situação de sofrimento psíquico; 2) ser maior
de 18 anos; 3) ser de ambos os géneros; 4) que o familiar aceitasse participar
da pesquisa.
Para a coleta do material empírico foi utilizado um questionário
semiestruturado composto por perguntas objetivas e subjetivas, obedecendo a
todos os critérios éticos recomendados pela resolução 196/96 do Conselho
Nacional de saúde (Brasil. Conselho Nacional de Saúde, 1996. Foi previamente
solicitada autorização dos sujeitos participantes da pesquisa, solicitando a
assinatura do termo de consentimento livre e esclarecido.
A análise qualitativa foi realizada através do discurso do sujeito coletivo
(DSC), baseado na técnica do DSC. Trata-se de uma proposta de organização e
tabulação de dados qualitativos de natureza verbal, obtidos de depoimentos. O
Discurso do Sujeito Coletivo é uma modalidade de apresentação de resultados de
pesquisas qualitativas, que tem depoimentos como matéria-prima, sob a forma de
um ou vários discursos-síntese escritos na primeira pessoa do singular. Este
expediente visa expressar o pensamento de uma coletividade, como se esta
coletividade fosse o emissor de um discurso. Assim, o discurso dos
participantes foi submetido a uma análise prática, e posteriormente foram
feitas leituras individualizadas, objetivando uma melhor compreensão dos
resultados (Lefévre e Lefévre, 2003).
No DSC, temos a possibilidade de mostrar, com mais sensibilidade as falas que
convergem acerca de uma mesma temática. Esse método torna visíveis contextos e
falas fortes, que urgem serem propagadas e visualizadas. Aqui nesta pesquisa,
percebemos como foram recorrentes, falas que clamavam por ajuda, que remetiam
para as dificuldades de cuidar de idosos que, além de estarem neste estádio
natural de saúde, convalesciam de algum transtorno mental de moderado a grave,
o que promoveu sobrecarga e inabilidade destes cuidadores no manejo e no
cuidado a esses idosos.
O desenvolvimento do estudo foi iniciado após a sua adequação às normas do
Conselho Nacional de Saúde, através da Resolução N° 196, de 10 de outubro de
1996, que estabelece as diretrizes e normas regulamentadoras de pesquisas
envolvendo seres humanos, para assim, ser apreciado e aprovado pelo Comité de
Ética do Centro de Ensino Superior e de Desenvolvimento (CESED), tendo sido
aprovado número do CAAE: 2243.0.000.405.09(Brasil. Conselho Nacional de Saúde,
1996).
Resultados e discussão
Para se traçar o perfil dos sujeitos colaboradores e a sua conceção em relação
ao cuidar de idosos com transtornos mentais, mas também, com o propósito de
atender aos objetivos do estudo, utilizamos como instrumento de coleta de dados
um questionário composto por dois momentos. O primeiro momento pretendeu obter
elementos para traçar a caracterização dos participantes da pesquisa. O segundo
momento destinou-se a apresentar através do quadro-síntese, as ideias centrais
desencadeadas da análise de cada questão, bem como o discurso do sujeito
coletivo (DSC) acrescentado de comentários do pesquisador baseado na revisão da
literatura.
Primeiro momento: Caracterização dos sujeitos da pesquisa.
Constatou-se neste estudo que dos 14 familiares de idosos portadores de
transtorno mental acolhidos nos CAPS II e III, 85,7% destes são do género
feminino e 14,3% do género masculino. Quanto à faixa etária, observou-se que
57,1% dos entrevistados têm mais de 33 anos. No tocante ao grau de
escolaridade, foi observado que 35,7% são alfabetizados. Os dados obtidos em
relação à renda da casa revelam que 64,3% sobrevivem com salário igual ou menor
a um salário mínimo. Os demais sobrevivem com mais de um salário mínimo.
Na comunidade científica, aponta-se, em unanimidade, o perfil do familiar
cuidador como sendo do sexo feminino, principalmente as esposas (muitas vezes
idosas), as filhas e as netas. Historicamente, as mulheres desempenham funções
ligadas ao cuidado familiar em todos os âmbitos. Contudo, com a inserção social
da mulher no mercado de trabalho, essa realidade vem-se modificando, e o
cuidado familiar começa a ser distribuído entre os membros familiares, embora
na distribuição das tarefas uns (a mulher) tenham maior sobrecarga do que
outros (Novais et al., 2011).
No Brasil, a transição demográfica e a transição epidemiológica apresentam,
cada vez mais, um quadro de sobrevivência de idosos na dependência de uma ou
mais pessoas que suprem as suas incapacidades para a realização das atividades
de vida diária (Montezuma, Freiras e Monteiro, 2008).
Geralmente a função do cuidador é assumida por apenas uma pessoa, as decisões
para assumir o cuidado são mais ou menos conscientes. De fato, embora a
designação do cuidador seja informal e decorrente de uma dinâmica específica, o
processo obedece a certas regras refletidas em fatores relacionados a
parentesco e proximidade física considerando a proximidade afetiva de quem vive
com a pessoa que requer cuidados, sendo assim, destaca-se que o principal
cuidador do idoso incapacitado seja o cônjuge (Montezuma, Freiras e Monteiro,
2008).
Segundo momento: Cuidado para com o idoso portador de transtorno mental.
No referido estudo, de cada entrevista analisada, foram coletadas as
expressões-chave e as suas respetivas ideias centrais que emergiram das
questões norteadas na entrevista, desenvolvendo desta forma, o Discurso do
Sujeito Coletivo.
A seguir, serão apresentadas, as ideias centrais e o discurso do sujeito
coletivo dos participantes do estudo. Adiante, o quadro_1 trará as dificuldades
no processo de cuidar do idoso com transtorno mental.
Quadro_1
Discurso do sujeito coletivo (DSC)
Quadro_1: ideia central e discurso do sujeito coletivo de cuidadores do idoso
portador de transtorno mental em resposta a questão 1.
A primeira ideia central da questão 1 demonstra que os participantes do estudo
apresentam uma dificuldade ao cuidar do utente devido à sua agressividade
acarretada pelo transtorno mental.
Diante do exposto, os transtornos mentais destes utentes tornam-se um pesar na
vida do familiar cuidador o qual, ao conviver com a doença, enfrenta várias
fases, incluindo as crises de agressividade que lhe ocasiona uma sobrecarga
englobando desgaste físico e emocional. Alguns autores dizem que a interação
familiar com o doente acaba encontrando-se num estado de complicação onde
alguns integrantes não conseguem interagir com o doente, o que é extremamente
prejudicial para o utente e a família (Silva, Lippi e Pinto, 2008).
Existe grande complexidade no ato de cuidar. O cuidador e a pessoa a ser
cuidada podem apresentar sentimentos diversos e contraditórios, e às vezes,
agressivos tais como: raiva, culpa, medo, angústia, confusão, cansaço, stresse,
tristeza, nervosismo, irritação, choro, medo da morte e da invalidez. Esses
sentimentos podem aparecer juntos na mesma pessoa, o que é bastante normal
nessa situação. Por isso precisam ser compreendidos, pois fazem parte da
relação do cuidador com a pessoa cuidada. É importante que o cuidador perceba
as reações e os sentimentos que afloram, para que possa cuidar da pessoa da
melhor maneira possível (Brasil. Ministério da Saúde, 2009).
A rede informal de cuidado em saúde tem na família a sua essência que, através
de ações quotidianas, lhe permite o reconhecimento das doenças, a busca de
atendimento médico, o incentivo para o autocuidado e, não menos importante, o
apoio emocional (Gutierrez e Minayo, 2010).
Na história da humanidade, os cuidados prestados por familiares não são
reconhecidos tecnicamente, sendo culturalmente tratados como afeto,
espontaneidade e interações. Essa visão deixa o papel da família na produção da
saúde em segundo plano, sem atentar para o fato de a família produzir cuidados
indispensáveis e específicos, que, por vezes supera em importância os cuidados
produzidos nos serviços de saúde. Assim, a família ganha destaque como a
microestrutura de maior peso para compreensão de representações e práticas
relativas ao processo de saúde/doença/cuidado (Lacchini et al., 2011).
A segunda ideia central da questão aponta outra dificuldade no cuidado do idoso
portador de doença mental: devido à idade avançada o transtorno não é a única
patologia que o acomete, existem outras que os fazem ainda mais dependentes
(Brasil. Ministério da saúde, 2009).
Com o passar da vida e envelhecimento, os níveis de autonomia e independência
do homem naturalmente diminuem, já o aparecimento de doenças aumentam tronando-
os dependentes de cuidados. Esse nível de autonomia decresce mais ainda quando
o idoso é portador de transtorno mental, por isso, a participação e esforço da
família no cuidado deste é indispensável, sendo ela o início de tudo e a maior
representação de segurança e proteção.
Neste contexto, as desarmonias e dificuldades do ambiente familiar que a doença
ocasiona evidenciam a necessidade e importância dos serviços substitutivos de
saúde. Os profissionais devem não se deter apenas ao cuidado do utente, mas,
também ao cuidado do ente, ouvindo-o, atendendo as suas necessidades como
pessoa e fazendo interações com outros familiares para que haja aprendizado
através da expressão de emoções, sentimentos e troca de informações que possam
mudar a maneira destes de lidar com os seus, otimizando o relacionamento do
lar.
A ideia central 1.3 mostra que a baixa renda familiar e o déficit nos
medicamentos, tornaram-se mais uma agravante no que tange às dificuldades
enfrentadas pelo cuidador, pois, a escassez dos medicamentos oferecidos pelo
governo, remetem os familiares a comprar tais substâncias com dinheiro do
orçamento mensal da casa, causando, com isso, toda uma desestrutura nos seus
membros e, consequentemente, nos cuidadores. A Constituição da República
Federativa do Brasil garante instalar neste País um Estado Democrático de
Direito, fundamentado na cidadania, na dignidade da pessoa humana, nos valores
sociais do trabalho e da livre iniciativa, dentre outros. Visa construir, no
território nacional, uma sociedade livre, justa e solidária, como garantia do
desenvolvimento nacional, erradicando a pobreza e a marginalização e reduzindo
as desigualdades sociais e regionais. Também, garante aos trabalhadores urbanos
e rurais, a melhoria de sua condição social, o direito fundamental a um salário
mínimo, fixado em lei, nacionalmente unificado, capaz de atender as suas
necessidades vitais básicas e as da sua família com moradia, alimentação,
educação, saúde, lazer, vestuário, higiene, transporte e previdência social,
com reajustes periódicos que lhe preservem o poder aquisitivo, sendo vedada sua
vinculação para qualquer fim (Carvalho, 2008).
Se refletirmos sobre as necessidades básicas de uma família, é possível
concluir que, com uma baixa renda, estas não serão cumpridas e a adição de mais
uma obrigação imprescindível causa conflitos devido à debilidade no equilíbrio
orçamental.
A seguir encontraremos no quadro de síntese 2 as orientações dadas pelos
profissionais de enfermagem referente ao cuidado realizado ao familiar com
transtorno mental.
Quadro_2
Quadro_2: ideia central e discurso do sujeito coletivo de cuidadores do idoso
portador de transtorno mental em resposta à questão 2.
A primeira ideia central da questão 2, demonstra que as orientações dos
profissionais de enfermagem oferecidas à família com transtorno mental se detêm
ao direcionamento sobre a administração de medicamentos e sobre o exercício da
paciência.
É necessário, diante dessas evidências, que o cuidado na saúde mental seja
também prestado ao familiar, visando assim o utente de forma holística, pois,
ao melhorar a compreensão do cuidador o cuidado informal também melhora.
A rede de cuidado é considerada um valioso recurso no apoio às famílias podendo
dela, emergir novas práticas que possam melhorar o cuidado com os utentes e
efetivar a desinstitucionalização. O apoio à família pelas equipas de Atenção
Primária tem grande importância na efetividade do tratamento medicamentoso,
aumentando as possibilidades de controle dos sintomas e reduzindo as crises, o
que pode contribuir para uma melhor inserção na sociedade, com menos medo e
estigma (Novais et al., 2011).
Segundo o manual dos cuidadores do idoso do Ministério da saúde, o cuidador tem
como dever conferir o nome do medicamento e a data de validade; confirmar a
dose a ser administrada; se o medicamento for dado à noite: nunca fazê-lo com
as luzes apagadas; lavar as mãos antes de pegar no medicamento; saber como
conservar a medicação, bem como, o modo de ser administrado, devendo os
profissionais orientar e esclarecer as informações para esses cuidadores
(Brasil. Ministério da Saúde, 2009).
O cuidador é a pessoa designada pela família para o cuidado do idoso, quando
isto for requerido. Esta pessoa, geralmente leiga, assume funções para as
quais, na grande maioria das vezes, não está preparada. É importante que a
equipa tenha sensibilidade ao lidar com os cuidadores. Uma das maneiras mais
importantes de ajudar a pessoa é oferecer informação, pois, pessoas que possuem
informações estão mais bem preparadas para controlar a situação em que se
encontram. Alguns serviços e ações específicas de atenção às famílias e aos
cuidadores visam oferecer condições adequadas para o cuidado com pessoas
dependentes, na perspectiva de preservar o convívio familiar e social. Os
profissionais devem, junto aos familiares, planejar todas as atividades que o
cuidador vai realizar (Brasil. Ministério da Saúde, 2009).
Quando a rede de relações é restringida ou é inexistente, gera uma carência de
informações, de apoio e de orientações, que conduz a um leque de necessidades e
fragilidades no núcleo familiar. Por isso, a importância do apoio profissional,
especialmente em grupos de classe popular, em que os outros recursos são
inexistentes; pois, o fato de o indivíduo incluir-se no sistema de cuidado,
percebendo-se como parte dele, reconhecendo sua própria participação na
constituição da realidade por ele vivida, ajuda a construção de novas soluções
(Novais et al., 2011).
Os profissionais de enfermagem por consequência, como coadjuvantes, devem ter
comunicação efetiva com os familiares, observando cada caso com as suas
particularidades e necessidades, determinando estratégia para melhora do
tratamento e tirando suas dúvidas. Assim, entendemos que as conceções que o
profissional tiver acerca desta e a forma como faz o uso delas, em muito
definirá suas intervenções, contribuindo ou não para qualidade de vida
familiar.
Conclusão
Constatou-se, portanto, que a concessão da família sob o utente idoso com
transtorno mental e, consequentemente, assistidos e acolhidos pelos pelos CAPS
II e III, não tem conotação positiva e não atinge o bem-estar do ser cuidado e
cuidador.
Pôde-se observar que 64,3% das famílias entrevistadas têm uma renda mensal
menor ou igual a um salário mínimo, destes 35,7% estão no nível escolar abaixo
do esperado, apenas alfabetizados. A escolaridade é um fator de extrema
importância para os cuidadores, pois, estes precisam ter conhecimento não só
com relação ao ser cuidado, mas, aos cuidados a serem prestados.
Outro obstáculo que os entrevistados relatam é o aumento da responsabilidade
devido a soma de incapacidades que a idade trás, aumentando ainda mais o grau
de dependência do utente.
Entendemos que, com a reforma psiquiátrica onde os hospitais psiquiátricos
davam resposta apenas às necessidades do doente e passa a haver uma reinserção
deste no convívio familiar, a assistência ao transtorno mental precisou também
ser modificada fazendo da família foco significativo no tratamento do
transtorno. Os serviços substitutivos de saúde mental têm como princípio a
ressocialização do doente. Muitas mudanças já foram alcançadas neste âmbito,
porém, outras precisam ser traçadas para que estes novos serviços cresçam cada
vez mais, suprindo as necessidades para melhora de um transtorno.
A idade avançada do utente é um ponto importante, pois, as incapacidades
advindas do envelhecimento demandam mais responsabilidades ao cuidador que
devem ser facilitadas pelos profissionais de saúde com intuito de diminuir o
pesar que estas causam na vida do familiar.
Uma reflexão relevante no estudo se faz quanto à abordagem da família dos
profissionais de saúde com o familiar/cuidador, haja vista, as fragilidades
identificadas no acompanhamento completo e satisfatório das suas demandas. Logo
tais profissionais revelam, com isso, um déficit significativo de conhecimento
sobre o sofrimento psíquico desses cidadãos.
Infelizmente, esta realidade ainda é muito presente entre os profissionais que
atuam no CAPS, principalmente os da enfermagem, já que estes estão tão ligados
intimamente à esfera do cuidado. Percebemos que os profissionais de enfermagem
estão chegando aos serviços sem especialização em Saúde Mental e sem
capacitação para trabalhar com esta demanda crescente de idosos nos serviços de
base comunitária. O que demonstra por parte desses profissionais uma
inabilidade de lidar com esta clientela e uma impossibilidade de promoção da
saúde através de orientações viáveis para o cuidado em domicílio destinado aos
familiares e cuidadores.
Portanto, urgem as criações de políticas públicas que efetivem práticas de
educação permanente para estes profissionais que trabalham nos serviços de
saúde mental e na rede de atenção básica, evitando que se gere desassistência e
consequente incredibilidade nos profissionais que estão à frente dos serviços
de saúde e deveriam trabalhar com essa demanda. Pois, sabe-se que é
responsabilidade destes serviços traçarem planos assistenciais efetivos para os
seus utentes de saúde mental, através de um Projeto Terapêutico Singular bem
elaborado e, criarem estratégias para que tais utentes sejam bem assistidos na
sua família e comunidade. Para que isso aconteça, uma das estratégias viáveis é
capacitar os cuidadores que estão em contato direto com o idoso.
Notoriamente, ainda é um desafio integrar a família e o idoso de forma
harmoniosa. Para que isto aconteça é preciso intervir no sofrimento familiar
favorecendo cada uma com as suas singularidades. As práticas profissionais
devem ser cada vez mais capacitadas a compreender a demanda de necessidades de
cada uma e trabalhar a cooperação dos integrantes desta.
Para os profissionais de enfermagem, a pesquisa forneceu dados importantes para
se traçar, posteriormente, planos de assistência ao cuidador familiar, uma vez
que estes precisam ser cuidados para poder cuidar. Contudo, é necessário
estabelecer parcerias entre o profissional, o utente e os cuidadores, através
de reuniões para esclarecimento, interação e melhoria do relacionamento da
família com transtorno mental.
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Recebido para publicação em: 06.07.12
Aceite para publicação em: 10.01.13