A liga republicana das mulheres portuguesas e a enfermagem no século xx:
leituras na imprensa feminista
Introdução
As representações que, ao longo do tempo, a sociedade tem associado à profissão
de enfermagem e à enfermeira, muitas vezes contraditórias, persistem no
imaginário individual e coletivo e, atualmente, pouco têm a ver com evolução
verificada tanto no âmbito do exercício profissional (onde se assiste a uma
crescente complexidade dos cuidados) como no âmbito do ensino e da academia
(onde, progressivamente, se foram atribuindo os graus de licenciado, mestre e
doutor). Da enfermagem tem-se a ideia duma profissão necessária, de ajuda aos
que sofrem, mas também subserviente e com pouco reconhecimento social. Das
enfermeiras se diz serem compassivas, dedicadas, mas também insensíveis. Estas
imagens inscrevem-se na memória dum passado mais ou menos longínquo e poderão
ter uma justificação histórica, social e cultural. Passado menos longínquo, se
tomarmos como referência o século XIX, altura em que podemos começar a falar em
profissão de enfermagem de uma forma organizada; mais longínquo se pensarmos
que as atividades de prestação de cuidados ao Outro são tão antigas como o
Homem. Imagens que, inscritas no passado, continuam a influenciar o presente.
Como se constituem essas representações sociais? Como chegam até nós na forma
de um imaginário individual e coletivo que influencia e distorce a nossa
relação com a realidade? O desvendar do modo como as representações sociais
associadas à enfermeira e à enfermagem se constituíram no passado poderá
permitir-nos recriar, no presente, o percurso da nossa identidade profissional
e compreender como, enquanto grupo social, produzimos, consumimos, divulgamos e
assumimos imagens que definem essa própria identidade.
Propomo-nos, neste artigo, dar a conhecer como os movimentos feministas em
Portugal criaram uma imagem positiva da enfermagem.
O estudo que realizámos, no âmbito da investigação histórica, teve por base um
conjunto de artigos publicados na imprensa oficial da Liga Republicana das
Mulheres Portuguesas: A Mulher e a Criança, revista mensal publicada entre
1909 e 1911, e A Madrugada, jornal publicado de 1911 a 1915.
A pesquisa foi realizada através da consulta dos microfilmes dos referidos
periódicos existentes na Biblioteca Nacional. Fizemos a transcrição dos
excertos dos artigos usando a ortografia e sintaxe originais respeitando o
sentido do discurso.
A imprensa foi uma importante forma de divulgação e doutrinação das ideias
feministas. As várias associações existentes, além de terem os seus órgãos
oficiais, mantiveram uma presença assídua na restante imprensa. Em muitos dos
periódicos existentes publicaram-se as biografias de mulheres proeminentes na
sociedade enaltecendo as suas qualidades e sublinhando que a sua posição social
foi alcançada pelo seu mérito e trabalho. Na segunda metade do século XIX a
imprensa e a literatura surgem e são utilizadas como elementos organizadores da
sociedade. A imprensa é uma referência quotidiana, o espaço público em que a
sociedade e o Estado existem, onde as ideias circulam, os autores se
manifestam, onde a opinião pública se estabelece. A imprensa foi o instrumento
do debate público das ideias. Mesmo com uma elevada taxa de analfabetismo, os
periódicos tinham uma grande circulação no nosso país, sendo frequente a sua
leitura em voz alta em pequenas vilas e aldeias perante assistências
heterogéneas do povo analfabeto, que ouvia e comentava. (Marques, 1991, p.
600).
Revisão da literatura
A situação da mulher em Portugal na transição do século XIX para o século XX
Na viragem do século a vivência feminina organiza-se em torno do modelo
familiar. A família é o local de formação dos indivíduos e, em especial, das
raparigas. Estas aprendem os conhecimentos necessários à vivência adulta
perpetuando, de geração em geração, o que deve ser a missão da mulher: a
maternidade, a gestão doméstica e a fiel conjugalidade (Guinote, 1997). A
família é conservadora, encabeçada por um chefe-de-família masculino, que deve
ter a seu cargo o sustento económico da família.
O universo feminino é analfabeto! O acesso ao ensino era limitado e, quando as
raparigas frequentavam a escola, procurava-se sobretudo que a instrução
permitisse uma melhor preparação para o que a sociedade espera das mulheres:
serem esposas e mães. Mesmo quando alguns setores da sociedade portuguesa,
nomeadamente os republicanos e feministas, reivindicam o acesso das mulheres à
educação, essa reivindicação sublinha o papel da mulher na formação dos futuros
cidadãos base para a criação duma nova sociedade. O acesso ao ensino secundário
e superior era escasso. Neste último caso, o total de raparigas nas
instituições de ensino superior de Lisboa, Porto e Coimbra, no princípio do
século, não excedia a dezena (Marques, 1991).
Apesar da visão tradicional do papel da mulher ser a da gestão do espaço
doméstico, visão essa transversal a todas as classes sociais, as dificuldades
económicas em que vivia a maior parte da população portuguesa não permitiam
dispensar nenhuma fonte de rendimento. É assim que, à entrada do século, as
mulheres constituem já uma parte importante da população ativa: no mundo rural
trabalhando lado a lado com os homens e nos centros urbanos como operária ou
integrando o conjunto de profissões que se tornaram um símbolo da mulher
citadina de origem popular. De entre estas, as mais comuns eram: costureiras,
modistas, empregadas de comércio, criadas de servir e amas (Guinote, 1997).
Mas a presença da mulher no mercado de trabalho não se traduzia na sua
autonomia ou emancipação na sociedade. Sem quaisquer direitos políticos (não
podiam votar nem ser eleitas) estavam sujeitas à tutela dos pais e dos maridos
(não podiam dispor dos seus bens sem autorização do marido) e eram remetidas
para um plano de inferioridade perante a lei.
É nesta conjuntura que, na transição do século XIX para o XX, tomam forma os
ideais feministas debatidos nos salões literários onde uma elite intelectual,
composta por escritoras, médicas e professoras se reunia procurando assumir um
papel de intervenção na mudança da sociedade (Esteves, 2001). Alice Pestana
(sob o pseudónimo de Caiel), Maria Amália Vaz de Carvalho, Carolina Michaëlis
de Vasconcelos, Anna de Castro Osório, Adelaide Cabete são algumas das vozes
impulsionadoras e mais prestigiadas dum movimento que pretende chamar a atenção
para a situação de inferioridade das mulheres e para a necessidade de, através
da educação e valorização, a alterar definitivamente. À medida que a propaganda
republicana crescia já nos primeiros anos do século XX, crescia também a
organização de um movimento que congregava essas mulheres de prestígio. A
adesão feminina aos ideais republicanos tornou visível a luta pela alteração
das condições degradantes em que viviam as mulheres, que recusavam um papel
meramente passivo numa sociedade que as menorizava. As mulheres invadiram o
palco político, até aí fechado para elas, conduzindo reuniões, discursando em
sessões nos Centros Republicanos, secretariando comícios (Esteves, 2001). Esta
ação foi particularmente visível nas zonas urbanas onde crescia uma classe
média consciente do seu poder reivindicativo. A maioria das mulheres,
analfabetas, trabalhando nos campos ou na indústria estava longe das aspirações
das feministas. Nesta luta foi particularmente ativa a Liga Republicana das
Mulheres Portuguesas (Esteves, 2001).
Os movimentos feministas em Portugal seguiram um ideário que se desenvolveu ao
longo do século XIX, com grande vigor na Europa e nos Estados Unidos. Com um
caráter mais moderado, procuraram satisfazer as suas reivindicações mais pelo
uso da palavra do que pela força das manifestações. É neste período que o
feminismo nasceu, designando tanto mudanças estruturais, como por exemplo o
trabalho assalariado e o direito à instrução, como o aparecimento coletivo das
mulheres na política (Fraisse e Perrot, 1991). A Europa e os Estados Unidos
veem surgir uma realidade nova: as mulheres fundam associações, criam e dirigem
jornais e revistas, debatem, reivindicam, realizam conferências onde exprimem
as suas ideias. O espírito revolucionário e as novas ideias democráticas que
atravessam todo o período de transição do século XIX para o século XX favorecem
a visibilidade das mulheres e a possibilidade de lutar por igualdade de
direitos: na instrução (como o acesso ao ensino superior); no trabalho
(conquistando a independência económica) e no sufrágio (sendo este aliás um dos
principais eixos da luta feminista). A troca de experiências conseguida através
da imprensa, de visitas e da realização de congressos internacionais fará com
que, mesmo se em tempos diferentes, as ideias feministas se espalhem por todo o
mundo ocidental (Kåppeli, 1991).
A Liga Republicana das Mulheres Portuguesas
A Liga Republicana das Mulheres Portuguesas (LRMP) foi fundada em 1908. O voto,
o direito à instrução, ao trabalho e à administração dos bens, o combate à
prostituição e à mendicidade infantil constituíram-se como temas que nortearam
a sua ação.
Se a LRMP não foi o primeiro nem o único movimento que procurou divulgar os
ideais feministas criando as bases para uma nova conceção do papel da mulher na
sociedade foi, no entanto, o que conseguiu as estruturas mais sólidas que lhe
permitiu ser um expressivo grupo de pressão junto do poder político,
designadamente através: do número de associadas que alcançou; da quantidade de
núcleos locais que se constituíram; dos órgãos de imprensa própria que manteve;
do acesso a outros periódicos onde publicavam artigos e noticias e da
influência junto dos órgãos decisores republicanos (Esteves, 1991). O próprio
Partido Republicano Português apoiou a criação da Liga reconhecendo a
importância de congregar num único movimento todas as mulheres que,
reconhecidas pelo seu prestígio e valor intelectual, lutaram pelos ideais
republicanos. Sofrendo a influência das ideias iluministas e positivistas, o
republicanismo apresenta-se como uma visão do mundo assente numa explicação
geral da natureza e da sociedade onde os interesses específicos dos grupos
sociais se diluíam no interesse geral. A crença na perfectibilidade do homem,
conseguida através da educação e inoculação dos princípios de Liberdade,
Igualdade e Fraternidade, justificaria a crença ilimitada no progresso que
conduziria a humanidade a uma forma de governo universal e à pacífica
convivência entre os povos. O cidadão republicano deveria ser um exemplo de
patriotismo, noção de dever, solidariedade e responsabilidade. Este
aperfeiçoamento moral seria indissociável do aperfeiçoamento do corpo. O homem
republicano deveria conservar e melhorar a sua saúde, sendo um cidadão vigoroso
e enérgico, dedicado ao trabalho e ao estudo, com um forte sentimento
patriótico. Os ideais republicanos assentavam na crença da perfectibilidade da
ciência que tudo explica e que conduzirá o Homem no caminho da harmonia e do
progresso.
As mulheres viram nos ideais republicanos a possibilidade de modificarem o seu
papel na sociedade e, por sua vez, os republicanos evidenciaram a importância
das mulheres como educadoras dos futuros cidadãos, ao veicular nos seus filhos
a nova ideologia da República, como aliás é expresso nos Estatutos da Liga
Republicana das Mulheres Portuguesas, quando estabelecem a finalidade de
Orientar, educar e instruir, nos princípios democráticos a mulher portuguesa,
como mãe de família, esposa, filha educadora, tornando-a um individuo autónomo
e consciente pois que só um novo regímen libertado de preconceitos poderá
trazer á sociedade portuguesa a consciência e responsabilidade do povo livre e
altivo (Estatutos da Liga Republicana das Mulheres Portuguesas, 1909, p. 11).
A LRMP utilizou a palavra escrita como o veículo privilegiado de propaganda do
seu ideário, seguindo o fenómeno de expansão da imprensa periódica, sobretudo
desde os finais do século XIX. Deste modo, as principais ativistas da Liga não
só escreviam em jornais generalistas, mas principalmente na sua própria
imprensa periódica oficial, de distribuição nacional: A Mulher e a Criança,
revista mensal publicada entre 1909 e 1911, e A Madrugada, jornal publicado
entre 1911 e 1918.
A criação de condições que permitissem a independência económica da mulher em
relação ao marido ou à família foi um dos campos privilegiados de atuação da
Liga. E essa só seria conseguida através do exercício duma atividade
profissional. A Liga será particularmente ativa em fomentar a instrução da
mulher através do ensino de certas profissões e do estímulo pela aprendizagem
de temáticas verdadeiramente úteis, que não meros conhecimentos teóricos
veiculados nas escolas, ou em casa, e que para pouco serviam, sobretudo em
momentos de maior aflição (Esteves, 1991, p. 83).
A educação e instrução da mulher e a independência económica são assim dois dos
campos de intervenção mais expressivos desta associação. Só com educação e
instrução adequadas as mulheres poderiam evitar a miséria económica e moral:
é por haver tão grande descuido na educação da mulher que existem tantos
males na sociedade. A maior parte daquelles que nos educam, não pensam que, da
educação que nos dão, depende quasi sempre o futuro do paiz (d' Azevedo, 1909,
p. 6 -7). Anna de Castro Osório, uma das principais e prestigiadas dirigentes
da Liga, afirmava: uma das nossas maiores vergonhas nacionaes é, por certo, o
analfabetismo, mas o que agrava essa vergonha é que, no continente, é a grande
maioria das mulheres que eleva pavorosamente a cifra dos analfabetos (1905, p.
21). Assim, nas escolas oficiais e nos centros republicanos, a instrução foi um
dos campos de ação mais significativos da Liga, uma vez que, só instruída, a
mulher se poderia tornar uma cidadã reconhecida, com um novo posicionamento na
sociedade. A instrução não teria apenas como objetivo tornar a mulher uma
pessoa culta. Pretendia, também, dotá-la de conhecimentos que lhe
possibilitassem o exercício de diferentes profissões, criando-se assim as
condições que lhe permitissem a independência económica perante o marido e a
família: Educar a mulher dando-lhe meios de poder auferir com o seu trabalho o
suficiente para a sua sustentação ' quando é só - de auxiliar o homem, esgotado
pelo trabalho de sobre-posse que lhe exige a concorrência e a carestia da vida
moderna, - quando casada, - parece-nos a maneira mais pratica de a tornar um
ser livre, apta a escolher por motu-proprio o caminho a seguir direitamente na
vida. (Osório, 1905, p. 46).
A questão do exercício duma profissão era uma questão premente para as
feministas uma vez que, por viuvez ou abandono, muitas mulheres se viam sem
qualquer meio de subsistência, caindo na miséria ou na prostituição. A
dignificação do trabalho feminino e, por consequência, da mulher é uma
constante em artigos da imprensa da Liga. Sublinhando o valor do trabalho, o
trabalho fortifica a vontade, salubrisa o espirito (Zuzarte, 1913, p. 3)
utilizam-se por vezes os exemplos internacionais (estatísticas sobre o numero
de mulheres em diferentes profissões nos Estados Unidos, por exemplo) para
mostrar o avanço civilizacional que representa o trabalho da mulher: Recebida
a princípio com risos e troças, a mulher que vive do seu trabalho é hoje
absolutamente respeitada e querida nos povos que marcham na vanguarda da
civilização (Zuzarte, 1913, p. 3). Contesta-se também o casamento como um meio
para alcançar a independência: o seu futuro, a sua independência, se não é
rica, é ter um modo de vida, uma profissão (Pereira, 1914, p. 3). Mas na Liga
estas posições coexistiam com outras que só defendiam o trabalho feminino se
este não colidisse com as obrigações domésticas da mulher. Assim, a revista A
Mulher e a Criança dedica muitos números ao ensino da sericultura que, sendo
uma indústria caseira, poderia ser um complemento ao orçamento familiar sem
retirar muito tempo aos afazeres domésticos.
A Enfermagem na imprensa da Liga
Em Portugal, na transição do século XIX para o século XX assiste-se a um debate
aceso entre os defensores da enfermagem religiosa e os da enfermagem laica à
semelhança do que ocorria noutros países da Europa, como, por exemplo, em
França.
Embora as ordens religiosas tivessem sido extintas legalmente em 1834, o que
conduziu a uma degradação da enfermagem em Portugal (Pedrosa, 2004), elas
voltaram a instalar-se no país a partir de 1901, depois duma lei que autorizava
o seu regresso desde que dedicadas a atividades educacionais ou caritativas
(Marques, 1991). Na altura da proclamação da república existiam no país 31
congregações ou associações religiosas que dirigiam centenas de hospitais,
sanatórios, asilos e escolas (Marques, 1991). Contudo, nos hospitais mais
importantes do país (Hospitais da Universidade de Coimbra, Hospital Real de S.
José, Hospital Geral de Santo António da Santa Casa da Misericórdia do Porto),
locais de aprendizagem médica, a enfermagem era laica, exercida por homens e
mulheres, e foi neles que se criaram as primeiras escolas de enfermagem
(Soares, 1997). A necessidade da formação de enfermeiros era de há muito
sentida pelos médicos, decorrente da crescente complexidade dos cuidados de
saúde, mas na transição do século os enfermeiros que trabalhavam nos principais
hospitais aprendiam as bases do seu trabalho na prática, informalmente
ensinados pelos médicos.
O final do século XIX é um momento de grande desenvolvimento da ciência e de
importantes descobertas que, no campo da medicina, introduzem novos processos
diagnósticos e terapêuticos. Os trabalhos de Pasteur e a descoberta dos agentes
bacterianos específicos na etiologia das doenças infecciosas obrigam a rever as
teorias até aí existentes sobre o contágio e, em consequência, conduzem a novas
formas de organização do trabalho nos hospitais.
É neste contexto que decorre a discussão sobre a enfermagem laica versus
enfermagem religiosa. Os que defendem a enfermagem laica, e sobretudo a
necessidade de uma preparação mais científica das enfermeiras, argumentam com o
desinteresse das religiosas pelo trabalho técnico e pela desobediência a regras
e ordens necessárias ao bom funcionamento das enfermarias.
Em 1900, respondendo aos defensores do trabalho das religiosas, Miguel
Bombarda, médico psiquiatra e empenhado republicano (foi chefe civil do comité
revolucionário que implantou a República em 5 de Outubro de 1910) resume em 15
os requisitos necessários para que a assistência congreganista fosse
acceitavel para um medico(Bombarda,1910, p. 35) como, por exemplo: inscrição
em cursos de enfermagem, noções de asseio, vestuário adequado ao trabalho com
os doentes, completa subordinação técnica aos médicos, obediência às
prescrições clínicas, obrigação de imparcialidade no socorro aos doentes,
subordinação dos deveres religiosos ao serviço dos doentes. Reconhece o valor
das enfermeiras laicas afirmando: os hospitaes de Lisboa estão servidos por
larga população de enfermeiras, ás quaes nada mais se póde exigir além do que
já dão em zelo, dedicação e nítida comprehensão dos seus deveres (Bombarda,
1910, p. 5). E acrescenta que a instrução técnica que as enfermeiras têm só
poderia melhorar se entre nós se estabelecessem as escolas de enfermagem, como
as que em Paris funcionam com grande proveito dos doentes e até da fazenda
hospitalar (Bombarda, 1910, p. 6). Nos seus artigos, Miguel Bombarda utiliza
sempre a palavra enfermeira, seguindo já a tendência que se desenvolvia em
países como a França e a Grã-Bretanha, onde se considerava a enfermagem como
uma profissão à qual se adequavam as características femininas. E é
particularmente elogioso referindo que a dedicação das enfermeiras dos nossos
hospitaes tem chegado a traduzir-se por verdadeiros actos de heroísmo, que se
arriscam em nome do dever e fóra de preoccupações mysticas, que estão longe de
reflectir-se por modo innocente na pratica de enfermagem (Bombarda, 1910, p.
6).
É neste ambiente de argumentação que na imprensa da Liga surgem referências à
enfermagem. Primeiro referida como trabalho doméstico, depois como profissão
que a mulher portuguesa há-de em breve procurar (Enfermagem, 1910, p. 6). A
pluralidade de opiniões existente no seio da Liga permite compreender esta
diferença de opiniões. Logo no primeiro número da revista A Mulher e a Criança
inicia-se uma secção intitulada Escola Doméstica, onde se considera: É da
maior conveniência para todas as mães de familia saberem prestar os primeiros
socorros a qualquer doente, num caso de desastre ou de doença repentina, e por
isso, abrindo a secção Escola domestica na nossa revista não poderíamos deixar
no esquecimento o mister de enfermeira, em que a mulher sempre se tem
distinguido pela perícia, bondade e abnegação com que acerca da cabeceira dos
enfermos. E assim hoje começaremos por uma das coisas que mais necessárias são
a uma boa enfermeira, a de saber fazer ligaduras com solidez e perfeição
(Escola doméstica, 1909, p. 9). Não só a enfermagem é associada às competências
de uma boa mãe de família, como é referida como mister ou seja um ofício onde
se evidenciam características próprias duma mulher: perícia, bondade,
abnegação. A enfermagem é referida como mais uma das tarefas árduas do complexo
trabalho doméstico que abrange tudo. Nesta secção ensina-se a fazer ligaduras,
a tratar contusões, como atuar perante fraturas e entorses.
Em dezembro de 1909, na revista A Mulher e a Criança e em resposta às
perguntas colocadas pelas leitoras, surge pela primeira vez a referência à
enfermagem como profissão na publicitação do curso oficial de enfermeiras
ministrado no Hospital de S. José (a escola Profissional de Enfermeiros do
Hospital Real de S. José iniciou o curso de enfermagem em 1901, aberto também a
alunos exteriores ao hospital), para o qual é bom que se dirija a atenção das
mulheres (Curso de enfermeiras, 1909, p. 8). Aí se refere que o curso é
frequentado por 18 alunas, empregadas do hospital, o que É pouco, é muito
pouco mesmo, mas o futuro nos trará muitas, quando a mulher bem compreender o
seu dever e deliberadamente caminhar para uma existência mais enobrecida pelo
trabalho que dá a independência e a nobre altivez. (Curso de enfermeiras,
1909, Bombarda, 1910, p. 8). O texto refere as condições necessárias para
admissão no curso: idade igual ou superior a 18 anos e inferior a 24, saber
ler, escrever e contar, robustez física (necessária para os perigosos encargos
do mister a que se propõe e de ter sido vaccinado e de não sofrer de moléstia
contagiosa), e ter bom comportamento, atestado pelo pároco, pelo regedor e por
registo criminal. O artigo termina com a referência à necessidade de
qualificação não só técnica como moral para o exercício da enfermagem e a
necessidade de qualificar a profissão eliminando o pessoal não qualificado para
o seu exercício: É urgente que se eleve o número das enfermeiras diplomadas
para termos autoridade de impedir que exerçam o mister aquellas que de
conhecimentos technicos, como de higiene material e moral tem a mais absurda e
inferior das noções. (Curso de enfermeiras, 1909, p. 8). Nos números
seguintes, a secção Escola Doméstica passa a ter como subtítulo Enfermagem
e aí continua o elogio da profissão considerando a grandeza da sua missão e um
modo de vida que trará respeitabilidade e independência à mulher: é, sem
duvida, uma das profissões que a mulher portuguêsaha-de em breve procurar
exercer conscientemente, não só porque é um modo de vida que a torna útil,
independente e respeitada por todos que saibam encarar a grandeza da sua
missão, como também porque ela representa para a mulher na familia uma das suas
mais necessárias aptidões (Enfermagem, 1910, p. 6).
No número de outubro de 1910, na secção Expediente da Liga, faz-se o relato
duma assembleia-geral ocorrida no dia 19 desse mês onde Anna de Castro Osório,
presidente da Liga, apresentou à assembleia várias propostas para discussão,
entre as quais A Liga deve interessar-se pela propaganda da escola de
enfermeiras, levantando uma classe que tão necessária se torna ao nosso pais e
agora mais que nunca, visto a expulsão das congreganistas que desempenhavam
esses logares em quasi todos os hospitaes do pais (Expediente da Liga, 1910,
p. 11). Este apelo foi aprovado por unanimidade.
A revista A Mulher e a Criança terminou em maio de 1911 por razões económicas
e foi substituída por um jornal, também mensal, A Madrugada, que pretendia
ser mais acessível. A sua publicação inicia-se em agosto de 1911 e termina em
1915. Apesar de nos números existentes em arquivo não haver mais referências à
enfermagem, julgamos poder inferir que o trabalho de propaganda da Liga
continuou uma vez que, sempre que a República precisou, conseguiu reunir um
grupo de enfermeiras, como se refere no jornal de 31 de julho de 1912 (A
derrota de Couceiro, 1912) quando se elogia a prontidão com que se conseguiu
reunir um grupo de enfermeiras dispostas a atuar na luta contra o general Paiva
Couceiro.
Conclusão
Saúde e Fraternidade era uma das expressões de saudação entre os
republicanos. Adotada por decreto (Diário do Governo nº 4 / 10) para aplicação
na correspondência oficial passou também a ser usada como uma forma de saudação
popular. Ela exprime uma das principais ideias do republicanismo, que
considerava que a democracia só se alcançaria com cidadãos saudáveis,
instruídos e educados.
Se estes ideais, no campo político, se traduziram no combate a um regime
considerado decadente, no campo da saúde traduziram-se por uma luta contra as
condições degradantes existentes nos hospitais do país. Alguns dos mais
conhecidos médicos como Miguel Bombarda ou Curry Cabral, com prestígio
internacional, bateram-se pela criação dum corpo de enfermeiras cientificamente
preparado, que pudesse trabalhar ao lado do médico, com competência. Esta ideia
da enfermeira laica, cientificamente preparada e competente sobrepunha-se à da
enfermeira religiosa sem conhecimentos científicos e apenas cumpridora dos seus
deveres religiosos, tal como no ideário republicano a ciência se opunha à
religião, considerada uma o caminho do progresso da humanidade e a outra o
caminho do obscurantismo. Deste modo, podemos compreender que as feministas da
Liga Republicana das Mulheres Portuguesas, ao aderirem ao ideário republicano e
ao defenderem o trabalho como uma forma de alcançar a autonomia feminina e a
independência económica em caso de abandono ou viuvez, incluíssem a enfermagem
na lista das suas reivindicações transmitindo uma imagem de profissão digna e
honrosa, necessária no auxílio aos que sofrem. Sendo uma profissão desde sempre
associada a características femininas, no nosso país a sua dignificação surge,
nomeadamente através da Liga Republicana das Mulheres Portuguesas, não só com o
sublinhar dessas mesmas características, como a abnegação, a dedicação, a noção
do dever e da responsabilidade, características estas não reconhecidas nas
religiosas, mas também com a ênfase na preparação científica, agora
imprescindível para o seu exercício, tornando as enfermeiras competentes para
trabalhar à luz dos novos conhecimentos científicos na área da medicina. E
surge ligada à divulgação e consolidação dos ideais republicanos no nosso país.