Cuidados Centrados na Família: impacto da formação e de um manual de boas
práticas em pediatria
Introdução/quadro teórico
Perante a conjetura atual e a complexidade do cuidar em Enfermagem, a produção,
renovação e desenvolvimento de conhecimentos oriundos da evidência científica
têm sido uma prioridade, no sentido de encontrar respostas seguras, visíveis e
eficazes aos problemas e alcançar a constante melhoria dos cuidados.
Na área pediátrica, constata-se uma crescente preocupação dos profissionais em
humanizar os cuidados à Criança doente. A procura de meios que a ajudem a
enfrentar as adversidades da hospitalização tem sido constante, representando a
permanência dos Pais/Família nos serviços de pediatria um exemplo do esforço
desenvolvido. Esta situação acarreta, em contrapartida, outras exigências, dado
que é consensual que a doença e hospitalização da Criança é multifacetada e tem
diversos efeitos na Família, constituindo-se geralmente como foco de
desestabilização familiar, podendo levar ao seu desequilíbrio (Schultz, 2007).
A hospitalização da Criança gera mudanças psicoemocionais nos relacionamentos e
na dinâmica da Família, não devendo por isso os cuidados de Enfermagem ser
desvinculados dela e das suas necessidades, o que implica conhecimentos
específicos e uma sensibilidade especial (Fernandes, Andraus e Munari, 2006).
A Comissão Nacional de Saúde da Criança e do Adolescente defende, para a área
da Saúde Infantil e Pediatria, uma conceção do cuidar baseada numa prática de
cuidados centrada na unidade familiar, que vise a sua promoção e que envolva
tomadas de decisão assentes numa parceria entre Crianças, Pais e Enfermeiros
(Portugal, 2009). Os CCF baseiam-se no pressuposto de que a Família é também
alvo dos cuidados, procurando-se manter e reforçar os papéis e laços da Família
com a Criança e ajudar a manter a normalidade das rotinas familiares (Cardoso,
2010). A sua essência, em Pediatria, é o reconhecimento do papel fundamental da
Família na vida da Criança, visando fornecer apoio profissional à Criança/
Família através do envolvimento, participação e parceria, alicerçados pela
capacitação das Famílias e pela negociação. As suas forças e capacidades são
reconhecidas, enaltecidas e valorizadas no planeamento e prestação de cuidados,
passando de espetadora passiva a coadjuvante e integrada no tratamento,
recebendo orientação e sendo treinada para participar nele (Pedro, 2009).
Apesar de reconhecidas as vantagens da aplicação dos CCF em Pediatria, a
revisão de literatura sugere que não existe uma implementação efetiva nos
serviços. A Família ainda é vista de forma fragmentada, continuando os cuidados
a ser dirigidos ao indivíduo, sem considerar o seu contexto familiar
(Figueiredo, 2009). Schultz (2007) acrescenta que a assistência à Família não é
uma realidade em muitos hospitais, e que embora os Enfermeiros saibam o valor e
o significado de cuidar a Família, poucos o colocam em prática, continuando a
abordagem centrada na Família a ser a expressão de um ideal e não uma vivência.
Os Enfermeiros continuam a assumir que a implementação dos CCF é difícil, a
demonstrar uma posição de controlo e poder (Gomes, 2007) e a não aplicar
efetivamente esses princípios (Cruickshank et al., 2005). De igual modo,
Cardoso (2010), ao avaliar a perceção dos Pais durante a hospitalização da
Criança, concluiu que alguns sentem que as suas necessidades não foram
valorizadas e que os Enfermeiros tiveram em atenção especialmente as dos
filhos. Isto é revelador de que cuidar a Família não é ainda muito explícito na
atividade dos Enfermeiros, o que torna evidentes os desafios a serem superados
para que os CCF se desenvolvam enquanto prática prevalente no contexto das
instituições.
Considerar a Família como uma perspetiva de trabalho ainda constitui, portanto,
um desafio para os profissionais de saúde, sendo necessário um maior empenho
para que esta corrente se reflita na prestação de cuidados. A aproximação e
sensibilização dos profissionais a pensarem na Família como unidade de cuidados
constituem, por isso, aspetos emergentes na pesquisa em Enfermagem (Silveira e
Angelo, 2006).
Como fatores condicionantes à implementação dos CCF são apontados a falta de
tempo, conhecimento e habilidades para os pôr em prática. Figueiredo (2009)
concluiu que, na opinião dos Enfermeiros, estes se localizam na estrutura
organizacional e estão relacionados com o tempo, inexistência de modelos
conceptuais ajustados às práticas e escassa formação quanto ao trabalho com
Famílias. Para Ferreira e Costa (2004) a atitude dos profissionais, as
políticas da instituição e das próprias unidades de saúde são também
determinantes.
Efetivamente, embora se considerem os CCF como um caminho para a excelência dos
cuidados em pediatria, as práticas continuam a focalizar-se nas necessidades da
Criança (Cardoso, 2010). Revela-se assim emergente prestar atenção a esta
problemática no sentido de a compreender e contribuir para a tornar evidente na
prática de Enfermagem.
Sabe-se que a atitude dos Enfermeiros relativamente aos CCF é determinante para
a sua implementação. Assim, conhecer a sua conceção acerca deste modelo de
cuidados pode esclarecer como estão a construir o conhecimento e como o
utilizam no exercício profissional.
Guerra (2008) enfatiza a formação como uma prática de recursos humanos cujos
objetivos passam pela promoção e modificação de comportamentos e competências
individuais no sentido de melhorar o desempenho coletivo e atingir os objetivos
organizacionais. Deste modo, a formação contínua dos Enfermeiros constitui um
meio de excelência para a concretização da missão dos serviços, o que justifica
a sua seleção como estratégia privilegiada de intervenção no âmbito deste
estudo.
A realização da formação, mediante a responsabilização de todos perante o
modelo, vai de encontro à sugestão de Mano (2002), que a define como estratégia
primordial para aumentar a sua aplicação na prática e para que se constitua
como cultura do serviço. De igual modo Figueiredo (2009), num trabalho
desenvolvido nos cuidados de saúde primários com o objetivo da efetivação de
uma prática de Enfermagem baseada nas premissas dos CCF, identificou o processo
formativo como fundamental na sua operacionalização. Concluiu ainda a sua
efetividade na melhoria das práticas centralizadas na Família e na sua
documentação. Sousa (2006) sugere que nas sessões seja potenciada a reflexão
sobre as práticas e os sistemas de valores associados às mesmas, pois esta
constitui a base processual da modificação de comportamentos e incorporação de
novos modelos de cuidados.
Complementarmente, considerou-se oportuna a criação de um manual de boas
práticas crendo que representaria um documento facilitador do percurso de
consolidação de uma intervenção sistematizada nesta área. Esta opção é
concordante com Moore et al. (2003), que sugere a elaboração de linhas de
orientação para nortear e definir a conduta dos profissionais.
O estudo atual teve como objetivo geral avaliar o impacto da formação e de um
manual de boas práticas nos conhecimentos dos Enfermeiros e na sua perceção
quanto à aplicação prática dos CCF em Pediatria. Os objetivos específicos foram
avaliar o nível de conhecimentos dos Enfermeiros sobre os CCF e a sua perceção
quanto à aplicação na prática diária, antes e depois da formação e da
apresentação do manual de boas práticas e identificar fatores condicionantes à
efetivação deste modelo em Pediatria.
Metodologia
O tipo de estudo selecionado foi quase experimental do tipo pré-teste, pós-
teste, sem grupo de controlo. Centrou-se na produção de conhecimento sobre uma
realidade com a finalidade de encontrar, num contexto específico da prática,
soluções para problemas, criando mudança. Incluiu o diagnóstico do problema, o
desenvolvimento e implementação de um plano de ação, e a avaliação dos seus
efeitos.
Foram definidas como variáveis dependentes os conhecimentos dos Enfermeiros
sobre os CCF e a sua perceção quanto ao desenvolvimento de práticas de cuidados
baseadas nessa filosofia e como independentes a formação realizada e a
implementação de um manual de boas práticas. As hipóteses foram as seguintes:
H1 ' A realização da formação e a apresentação do manual de boas práticas sobre
CCF é eficaz na melhoria dos respetivos conhecimentos dos Enfermeiros.
H2 - A realização da formação e a apresentação do manual de boas práticas sobre
CCF é eficaz na melhoria da perceção dos Enfermeiros quanto ao desenvolvimento
de práticas tendo em conta uma abordagem centrada na Família.
A amostra foi recrutada por acessibilidade e correspondeu a todos os
Enfermeiros do serviço de pediatria de um hospital da Administração Regional de
Saúde de Lisboa e Vale do Tejo, que engloba as valências de Urgência
Pediátrica, Consulta Externa, Internamento Pediátrico, no foro médico e
cirúrgico, e Unidade de Cuidados Especiais ao Recém-Nascido. Foram excluídos
apenas o Enfermeiro-Chefe, por se encontrar afastado da prestação de cuidados,
e duas Enfermeiras que desempenham funções apenas na Consulta Externa.
Para a recolha de dados utilizaram-se três questionários aplicados à mesma
amostra em diferentes fases do estudo e que foram alvos de pré-teste, dado que
a sua construção foi da autoria do autor tendo como base os referenciais
teóricos atualizados sobre a temática em estudo. O primeiro, aplicado no seu
início, permitiu a caracterização sociodemográfica e profissional da amostra; a
avaliação dos seus conhecimentos sobre os CCF, incluindo para esse efeito 33
asserções que os Enfermeiros assinalaram como "verdadeiras",
"falsas" ou "não sei", sendo atribuído o score 0 às
respostas erradas e às cuja resposta foi "não sei", e 1 às
respostas corretas; e a sua perceção quanto à aplicação prática desta filosofia
de cuidados onde a amostra assumia, perante as afirmações, a periodicidade da
sua implementação através de uma escala tipo Likert de 5 pontos, de 1
("poucas vezes") a 5 ("sempre"). Continha ainda uma
questão para identificar os fatores condicionantes à implementação das práticas
centradas na Família. O segundo, aplicado imediatamente após a realização da
formação e apresentação do manual de boas práticas, teve novamente a finalidade
de avaliar os conhecimentos dos Enfermeiros sobre os CCF, sendo por isso
utilizadas as mesmas asserções do questionário inicial. O terceiro,
implementado cerca de 1 mês após a intervenção, tinha as mesmas premissas que o
questionário inicial e permitiu avaliar novamente a perceção dos Enfermeiros
quanto ao desenvolvimento de práticas baseadas nesse paradigma.
A operacionalização do estudo obedeceu a três fases que se desenrolaram em
abril e maio de 2011. Uma primeira, em que foi aplicado o questionário inicial,
para efetivar o diagnóstico da situação. Numa segunda fase, foi realizada, a
todos os Enfermeiros envolvidos no estudo, uma sessão de formação que teve como
principal finalidade refletir sobre a prática de cuidados de Enfermagem à luz
dos CCF e, deste modo, promover a sua melhoria e uniformização. Foi
desenvolvida em pequenos grupos, utilizando uma metodologia ativa que potenciou
a discussão, reflexão, interatividade e partilha de opiniões. Foram abordados
alguns conteúdos teóricos, nomeadamente os princípios e fundamentos da prática
de CCF e a sua relevância em pediatria, e discutidos aspetos que se prendem com
o acolhimento, avaliação e intervenção na família. No decorrer da formação foi
apresentado o manual de boas práticas fazendo referência ao seu conteúdo, que
vai de encontro aos aspetos abordados na formação, e destacando e concretizando
aspetos que dele contam e que melhor caracterizam uma prática de cuidados
centrada na Família. Este manual ficou disponível no serviço para consulta a
partir desse dia sendo a sua existência relembrada nas passagens de turno. No
final da formação foi aplicado aos participantes o segundo questionário, e um
mês depois o terceiro.
Neste estudo foram tidas em conta as obrigações formais e éticas inerentes à
realização de investigação, como a obtenção de parecer favorável dos
responsáveis da instituição onde foi desenvolvido. Foram respeitados os
critérios éticos e direitos fundamentais das pessoas, protegendo a sua
individualidade, liberdade e dignidade. Procedeu-se ao consentimento informado
dos sujeitos e salvaguardou-se a confidencialidade e anonimato na apresentação
dos resultados que foram isentos de interpretações ou manipulações.
O tratamento dos dados foi efetuado com o programa informático SPSS
(Statistical Package for the Social Science) na versão 14.0. Utilizou-se a
estatística descritiva calculando as frequências absolutas e relativas
percentuais, limites mínimo e máximo, médias, medianas, desvios padrão e
coeficiente de variação. Para testar as hipóteses recorreu-se ao teste não-
paramétrico de Wilcoxon para amostras emparelhadas. As diferenças foram
consideradas estatisticamente significativas sempre que p< 0,05.
Resultados
A amostra incluiu 24 Enfermeiros, 21 (87,5%) do sexo feminino e com idades
entre 22 e 55 anos, correspondendo a uma média de 35,3 anos (DP=9,6). Tinham em
média 151,8 meses de experiência profissional (DP=121,1), o que equivale
aproximadamente a 13 anos, e 134,3 meses de experiência na área pediátrica
(DP=119,2), ou seja, cerca de 11 anos. Quanto às habilitações 14 (58,3%)
possuíam o Curso de Licenciatura em Enfermagem, 6 (25%) o Curso de Pós
Licenciatura de Especialização em Enfermagem de Saúde Infantil e Pediatria, 3
(12,5%) Curso de Bacharelato em Enfermagem e 1 (4,2%) o Curso de Enfermagem
Geral.
23 (95,8%) dos indivíduos assumiu saber o que significam os CCF. Apenas 6 (25%)
afirmaram que já assistiram a uma formação sobre essa temática embora a
totalidade da amostra considerasse que seria importante a sua frequência.
Relativamente à aplicação dos CCF no Serviço de Pediatria, 16 (66,7%)
indivíduos afirmaram que é muito importante, 6 (25%) bastante importante e 2
(8,3%) moderadamente importante. Ao serem questionados relativamente ao grau de
conhecimento que consideravam possuir sobre esta metodologia de trabalho, antes
da frequência da formação, 4 (16,7%) dos inquiridos assumiram ter pouco
conhecimento, 17 (70,8%) algum conhecimento, 2 (8,3%) bastante conhecimento, e
1 (4,2%) muito conhecimento. Após a formação 13 (54,2%) referiram possuir algum
conhecimento, 9 (37,5%) bastante conhecimento e 2 (8,3%) muito conhecimento.
O aumento no nível de conhecimentos percecionado pelos Enfermeiros é comprovado
mediante o aumento, em todos os indivíduos, do número de respostas corretas
quando comparados os dois momentos, ou seja, após a formação a apresentação do
manual de boas práticas todos evidenciaram possuir maiores conhecimentos, tal
como se depreende da análise do gráfico 1. Esse aumento representou um
acréscimo de respostas corretas que oscilou entre 15,1% e 42,4%, correspondendo
a uma média de aumento de 28,8% no segundo momento de avaliação. Constatou-se
também, em todas as asserções, um aumento do número de respostas corretas entre
os dois momentos.
GRÁFICO 1 ' Percentagem de respostas corretas antes e depois da formação e
apresentação do manual de boas práticas, por indivíduo.
Quando analisados os conhecimentos efetivos da totalidade da amostra verificou-
se que, de entre as 33 asserções apresentadas no questionário, esta, antes da
formação e apresentação do manual de boas práticas, assinalou corretamente como
verdadeiras ou falsas em média 18,9 (57,3%) (DP=2,7), o que corresponde a uma
mediana de 19 questões, e após a 29,3 (88,8%) (DP=1,7), ou seja, uma mediana de
29,5. Aplicando o teste estatístico adequado, nomeadamente o de Wilcoxon,
comprova-se que existem diferenças no sentido positivo (Z=-4,3; p=0,0) (quadro
1).
QUADRO_1 ' Estatísticas e resultados dos testes de Wilcoxon à comparação dos
conhecimentos dos Enfermeiros antes e depois da Formação e apresentação do
manual.
Particularizando os conhecimentos em três áreas fundamentais para a compreensão
desta filosofia de cuidados, as vantagens, princípios subjacentes e estratégias
de implementação na prática, pode-se inferir que em todas elas se verificou o
aumento dos conhecimentos dos Enfermeiros (quadro 1). Constatou-se também que
esse aumento foi maior nos princípios subjacentes à filosofia dos CCF, em que
se verificou um acréscimo de respostas corretas na ordem dos 37,1%. Essa era
também a área em que inicialmente os conhecimentos dos Enfermeiros eram
menores, respondendo corretamente apenas a 45% das questões, seguidos das
estratégias de implementação, em que acertaram em 65,4% e, por último, as
vantagens inerentes em que assinalaram acertadamente como verdadeiras ou falsas
70% das asserções apresentadas. Após a formação esta última área constituiu
também aquela em que os Enfermeiros demonstraram maiores conhecimentos (com
96,7% das questões respondidas corretamente), seguida das estratégias de
implementação na prática (com 92,3%) e por fim dos princípios inerentes aos CCF
que continuou a representar a área em que os conhecimentos são menores (com
82,1%), apesar do aumento constatado. Comprovou-se, mediante a aplicação do
teste de Wilcoxon, que foram encontradas diferenças, em todas as áreas, no
sentido positivo, como se pode observar no quadro_1.
Como condicionantes à aplicação dos CCF em pediatria 16 (66,7%) indivíduos
apontaram a falta de informação sobre estratégias de implementação na prática,
12 (50%) as rotinas hospitalares, 10 (41,7%) a existência de Famílias difíceis,
7 (29,2%) a divergência na equipa de cuidados quanto à sua aplicação e 6 (25%)
o desconhecimento da importância deste modelo.
Cerca de um mês após a apresentação e implementação do manual de boas práticas
19 (79,2%) elementos da amostra assumiram já o ter consultado. Quanto à opinião
que tinham sobre ele, 18 (73,7%) referiram considerá-lo muito adequado e 6
(26,3%) adequado.
Ao analisar a perceção dos Enfermeiros quanto à aplicação dos CCF na prática
diária pode constatar-se, no quadro 2, que houve um aumento da mediana e da
média de respostas em todos os aspetos introduzidos. No primeiro momento de
avaliação esta última foi de 3,20, o que significa que, relativamente aos
aspetos avaliados, a amostra assumiu a sua realização "algumas
vezes". Após a formação e implementação do manual de boas práticas, a
média rondou os 4,16, o que expressa a perceção dos Enfermeiros quanto a uma
aplicação mais efetiva dos CCF caracterizada como "muitas vezes".
Estes dados refletem a evolução conseguida.
QUADRO 2 ' Estatísticas e resultados dos testes de Wilcoxon à comparação da
perceção dos Enfermeiros quanto à aplicação dos CCF na prática diária, antes e
depois da formação e da implementação do manual.
Aplicando o teste de Wilcoxon, verificou-se que existiram diferenças na
totalidade dos itens (em todos no sentido positivo), destacando-se alguns em
que foi mais expressivo como a "Promoção da tomada de decisão da Família
sobre as suas vidas e sobre o tratamento e futuro da Criança",
"Preocupação com o bem-estar de toda a Família", "Realização
de intervenções de Enfermagem centradas no interesse da Criança e da
Família", "Desenvolvimento de estratégias de apoio à Família"
e "Capacitação da Família para a tomada de decisão em termos de
saúde". Em relação à "Utilização de práticas adaptadas às crenças e
valores da Família", "Partilha de informação com a Família",
"Avaliação das reações da Família à doença", "Encorajamento
da permanência constante da Família junto da Criança",
"Estabelecimento de relação honesta e comunicação aberta com a
Família", "Capacitação da Família", "Valorização do
sofrimento da Família e desenvolvimento de atividades no sentido de o
minimizar", "Realização de registos de Enfermagem sobre as
necessidades/problemas identificados na Família" e "Realização de
registos de Enfermagem sobre as intervenções realizadas na Família", as
diferenças são estatisticamente não significativas.
Da análise da tabela, pode-se ainda inferir que mesmo após a formação e
implementação do manual de boas práticas, existem aspetos percecionados pelos
Enfermeiros como menos aplicados que coincidem, na sua generalidade, com
aqueles em que as diferenças são estatisticamente não-significativas. Existem
também alguns que se destacam por apresentarem, no final, médias de respostas
mais altas o que demonstra que constituem aspetos percecionados como aplicados
com maior frequência, nomeadamente a "Estimulação das atividades que os
Pais devem desenvolver no âmbito do papel parental", "Envolvência
da Família na prestação de cuidados", "Valorização das capacidades
das Famílias", "Informação sistemática da Família",
"Permissão à Família para manter o controlo da situação da Criança"
e "Respeito pela opinião da Família em relação à melhoria e agravamento
da situação da Criança".
Discussão
Mediante a análise dos resultados verificou-se que a maioria dos Enfermeiros
consideram que a prática dos CCF em Pediatria se revela muito importante, à
semelhança do dados obtidos por Mano (2002) que, num estudo cujo objetivo era
identificar a predisposição dos Enfermeiros e dos Pais para aderir a um modelo
de parceria de cuidados, comprovou que estes manifestavam claramente uma
atitude positiva em relação ao modelo.
Constatou-se que os Enfermeiros, apesar de no início já terem alguns
conhecimentos sobre a temática, possuíam ainda lacunas importantes
desconhecendo ainda 42,7% das questões. No entanto, após a formação e
apresentação do manual de boas práticas, esses conhecimentos aumentaram
significativamente, passando a responder incorretamente apenas a 11,2% das
asserções e demonstrando assim possuir um elevado grau de conhecimentos. Pode-
se comprovar, mediante a aplicação do teste de Wilcoxon, que existem diferenças
no sentido positivo ao nível dos conhecimentos dos Enfermeiros sobre a
problemática em estudo antes e depois da formação e apresentação do manual de
boas práticas, o que significa uma melhoria nos conhecimentos e sustenta a
primeira hipótese em estudo. Desta forma, pode-se inferir que a formação foi
eficaz e que constitui uma estratégia de excelência que contribuiu para o
desenvolvimento dos conhecimentos dos Enfermeiros nesta área, tal como Mano
(2002) sugere. Estes resultados vão igualmente de encontro aos obtidos por
Figueiredo (2009), que comprovou a efetividade do processo formativo sobre CCF
quer nas práticas quer na documentação de cuidados associada.
Pode-se ainda depreender, analisando de forma mais particular as diferentes
áreas relacionadas com este modelo de cuidados, que a que evidenciou maior
défice de conhecimentos dos Enfermeiros, antes e depois da formação e
apresentação do manual de boas práticas, foram os princípios, seguidos das
estratégias de implementação e por último as vantagens. Estes dados vêm
demonstrar que, à semelhança do que defende Schultz (2007), os Enfermeiros são
conhecedores das vantagens deste modelo de prestação de cuidados. Por outro
lado, levanta a necessidade de investir mais na formação quanto às estratégias
inerentes a esta prática de cuidados pois, além de constituir uma área em que
existe défice de conhecimentos, considera-se que é determinante para a sua
operacionalização. Mas estará o défice de conhecimentos dos Enfermeiros sobre
os CCF relacionado com a sua formação de base? Figueiredo (2009), mediante a
análise do plano de estudos do Curso de Licenciatura em Enfermagem, verificou
que os conteúdos referentes a este tema eram muito deficientes. Sendo os CCF
uma temática de extrema relevância no contexto dos cuidados de enfermagem em
geral, e na Pediatria em particular, parece pertinente sugerir que seja
aprofundada na formação de base dos Enfermeiros, uma vez que após início da
prática, a mudança é mais difícil (Lee, 2007).
No que diz respeito à perceção dos Enfermeiros quanto à aplicação deste modelo
de cuidados na prática diária verificou-se que, no inicio do estudo, na maioria
dos itens apresentados, estes assumiram a sua aplicação "algumas
vezes" e que, no final, passaram a caracterizá-la como acontecendo
"muitas vezes". Verificou-se igualmente que em todos os aspetos se
apurou um aumento da média de respostas, sendo este estatisticamente
significativo na grande maioria, conforme resultados do teste de Wilcoxon. Isto
denota a evolução quanto à efetivação dos CCF na prática diária dos
Enfermeiros, conseguida com a formação e implementação do manual de boas
práticas, e comprova parcialmente outra das hipóteses, nomeadamente a de que A
realização da formação e a apresentação do manual de boas práticas sobre CCF é
eficaz na melhoria da perceção dos Enfermeiros quanto ao desenvolvimento de
práticas tendo em conta uma abordagem centrada na Família. Mais uma vez os
resultados coincidem com os de Figueiredo (2009).
Os aspetos em que se registou um aumento estatisticamente não-significativo
coincidem, de modo geral, com os que inicialmente já expressavam médias altas,
o que quer dizer que já eram de certa forma refletivos na prática. Este facto
pode justificar a ausência de evolução significativa. Como exceção destacam-se
duas premissas referentes aos registos sobre as necessidades/problemas
identificados na Família, assim como as intervenções realizadas, cujas médias
eram inicialmente das mais baixas e, após a formação e a implementação do
manual, essa condição se mantém. Esta situação é concordante com os resultados
obtidos por Figueiredo (2009), que, mediante a análise retrospetiva dos
processos clínicos, verificou que efetivamente as práticas de cuidados
centradas na Família eram pouco registadas. Revela-se portanto necessária a
reformulação dos registos, assumindo-se a possibilidade de a implementação da
linguagem CIPE® no serviço, já atualmente prevista, constituir um contributo
relevante neste âmbito. A seriação de diagnósticos e intervenções de Enfermagem
relacionados com os CCF poderá constituir uma forma de aumentar o seu registo.
Perante estes resultados constata-se que os Enfermeiros, apesar de predispostos
a aderir a este modelo de prestação de cuidados, conforme se pode perceber pelo
assumir da sua importância e de possuírem no final do estudo um nível elevado
de conhecimentos, continuam a demonstrar uma aplicação deficiente de
determinados aspetos relacionados. Revela-se assim ainda um longo trajeto a
percorrer para que os CCF se constituam em pleno como fundamento à prestação de
cuidados em Pediatria, tal como defende Moore et al. (2003), sendo necessário
um maior empenho para que se reflita na prática.
Surgem então outras questões: Que fatores estarão a impedir que esta prática de
cuidados se mostre efetiva? A cultura da organização? O método de trabalho
utilizado? Que outras estratégias poderão contribuir para uma melhoria nessa
área? Relativamente aos fatores percecionados pelos Enfermeiros como influentes
na aplicação dos CCF, os resultados demonstram que estes destacam a falta de
informação sobre estratégias de implementação desta metodologia de trabalho na
prática e a existência de rotinas hospitalares. Estes resultados são
consonantes com os obtidos por Figueiredo (2009). No que diz respeito à
organização em si, nunca serão demais os esforços no sentido da sensibilização
dos seus responsáveis para as vantagens desta metodologia de trabalho, mediante
resultados comprovados da sua eficácia. A flexibilização das normas e rotinas
institucionais poderá também constituir uma estratégia viável para uma
implementação mais efetiva e mais facilitada desta filosofia. Quanto ao método
de organização do trabalho, como facilmente se pressupõe, implica a existência
de uma profunda relação Enfermeiro/Família que parece facilitada pela
metodologia de trabalho por Enfermeiro responsável, com partilha de
competências entre este e a Família (Ferreira e Costa, 2004). O modelo de
Enfermeiro de referência pode ser também mais uma forma de operacionalizar os
CCF no serviço. Parece ainda oportuna a sugestão de Mano (2002) que sugere a
reestruturação do acolhimento da Criança/Família, pois é nessa altura que todo
o processo se inicia, com a identificação da mais-valia da Família e a
expressão do seu valor na participação nos cuidados. No contexto deste trabalho
foi já dada alguma atenção a esse aspeto na formação e na elaboração do manual
de boas práticas, embora se reconheça que seria importante maior investimento.
Conclusão
Com este estudo foi possível a concretização dos objetivos definidos e o teste
das hipóteses levantadas. Constatou-se uma melhoria ao nível dos conhecimentos
dos Enfermeiros sobre os CCF, assim como na sua perceção quanto à aplicação
deste modelo de prestação de cuidados na prática diária após a formação e a
implementação do manual de boas práticas. Comprovou-se, desta forma, a
adequação das estratégias de intervenção selecionadas. Identificaram-se como
principais fatores condicionantes à aplicação dos CCF na prática dos
Enfermeiros a falta de informação sobre estratégias de implementação e as
rotinas hospitalares.
Apesar da evolução conseguida, os resultados revelam ainda alguma centralização
dos cuidados na Criança, embora mais acentuada no início do estudo. Isto é
revelador de que cuidar da Família não é ainda uma componente muito explícita
na atividade dos Enfermeiros, evidenciando-se os desafios a serem superados
para que os CCF se desenvolvam enquanto prática prevalente no contexto dos
cuidados de Enfermagem da instituição.
Com a realização deste estudo não se pretendem efetuar conclusões nem
generalizações, mas sim refletir e tecer considerações sobre a prestação de
cuidados em Pediatria, baseada numa prática centrada na Família. É intenção do
autor que a sua realização permita a reflexão e abertura das mentalidades para
a consecução de um verdadeiro trabalho com Famílias, integrando um espírito de
confiança. Ambiciona que sirva para que os Enfermeiros reflitam e reconsiderem
os cuidados à Criança pensando a Família. Os resultados levantam algumas
questões que convidam não só à reflexão sobre a prática mas também ao potencial
desenvolvimento de projetos de investigação. Seria interessante a
complementação deste estudo com outro, exploratório e descritivo, que avaliasse
a perceção dos Pais e/ou outros cuidadores quanto à aplicação, pelos
Enfermeiros, dos CCF. A análise dos processos clínicos a fim de avaliar a
frequência com que a equipa de Enfermagem procede a registos referentes a
avaliações e intervenções na Família, assim como analisar esses mesmos registos
para identificar que informação é registada seria, neste contexto, igualmente
útil. Parece também relevante a realização de um trabalho que permitisse
averiguar em que medida esses aspetos se refletem efetivamente na prestação de
cuidados. O estabelecimento de correlações entre as diferentes variáveis em
estudo e os atributos da amostra poderia ainda revelar resultados
interessantes. Uma reavaliação posterior dos conhecimentos dos Enfermeiros
sobre os CCF poderia ainda ser útil para demonstrar que tipo de contributo a
consulta do manual de boas práticas poderia ter dado ou não no aumento dos
conhecimentos, assim como a necessidade de repetir a formação posteriormente.
Ao longo do percurso de investigação surgiram oportunidades privilegiadas e
momentos de reflexão e aprendizagem que contribuíram para o crescimento
profissional e pessoal do autor e para melhorar o desempenho da prática de
cuidados de Enfermagem. Surgiram também limitações, nomeadamente o facto de não
ter sido possível alargar o estudo a outras unidades de Pediatria, o que
constituiu uma condicionante à riqueza e significado dos resultados obtidos.
Pensa-se que uma intervenção mais continuada, com o desenvolvimento de outras
atividades formativas poderia ser relevante. De igual modo, dando continuidade
ao trabalho desenvolvido, considera-se oportuna a repetição da colheita de
dados passado um ano a fim de comparar novamente os resultados.
Uma vez refletida e discutida a prática de cuidados baseada no modelo centrado
na Família facilmente se percebe que efetivamente se está a operar uma
transformação do cuidar dos Enfermeiros em Pediatria rumo a práticas baseadas
no relacionamento entre Criança/Família/Enfermeiro e consequentemente à
excelência e qualidade dos cuidados. Sem perder, no entanto, a noção de que
efetivamente existe ainda um longo percurso a percorrer para que esta filosofia
de cuidados seja plenamente refletida nos cuidados prestados.
Em suma, considera-se que o estudo desenvolvido é pertinente e tem potencial,
podendo influenciar de alguma maneira a prática de Enfermagem beneficiando as
Crianças e Famílias, numa construção de competências dirigidas à promoção de
respostas aos problemas de saúde e aos processos de vida.