Cuidar em Humanitude: estudo aplicado em cuidados continuados
Introdução
O desenvolvimento contínuo que o Homem tem imprimido à sua espécie, originou um
enorme progresso no campo da saúde, o aumento da esperança de vida e o
consequente envelhecimento demográfico, de grande expressão nos países
desenvolvidos (Sequeira, 2007), que diminuiu a base da pirâmide de idades e
engrossou o seu cume (Imaginário, 2004). Esta mudança levantou um novo
problema, o da velhice, normalmente associada à perda nas capacidades físicas e
cognitivo-mnésicas, à vivência de luto e de pensamentos de finitude, às
diversas patologias e respetivas complicações, à prevalência de doenças
crónicas, em particular as demências e à maior dependência nas atividades de
vida diária com o respetivo impacto, quer ao nível da saúde quer ao nível
económico e social (Costa, 2006; Sequeira, 2007). Também em Portugal as
consequências do envelhecimento a nível social e da saúde são uma realidade
crescente contando com uma resposta interdisciplinar na Rede Nacional de
Cuidados Continuados Integrados (RNCCI).
Em França, a partir de uma revolução de bom senso e de mais de 30 anos de
trabalho de campo (Sicard, 2009), com observações, questionamentos, reflexões,
experimentações permanentes e vários estudos de investigação foi desenvolvido
um método de cuidados por Yves Gineste e Rosette Marescotti (MGM), tendo por
base a filosofia da humanitude, também por eles concebida. O MGM tem dado
provas de ser uma boa resposta a esta epidemia, através de cuidados onde o
valor dignificante do gesto está simultaneamente conjugado à técnica e ao calor
humano (Phaneuf, 2007). Pois, conservar os padrões de humanitude em pessoas
dependentes e vulneráveis é inerente à natureza dos cuidados de enfermagem
(Rappo, 2007) e é essencial à construção do humano (Simões, Rodrigues e
Salgueiro, 2011a). O MGM tem revelado ganhos indesmentíveis na recuperação da
qualidade de vida de doentes idosos acamados, com demência e outras situações
de fragilidade. Demonstrou também uma diminuição acentuada dos episódios de
Comportamentos Agressivos Perturbadores (CAP) que os autores denominam de
Comportamentos de Agitação Patológica (CAP), e quando ocorrem são menos
intensos e menos duradoiros, bem como uma menor oposição aos cuidados. Estes
ganhos em bem-estar e acalmia, proporcionam um ambiente de serenidade na
realização dos cuidados, que aliada a uma série de técnicas de manutenção,
muito suaves, se reflete positivamente na saúde dos cuidadores, na satisfação
profissional e no sentimento de realização profissional. Em consequência,
verifica-se uma baixa significativa da taxa de absentismo, por esgotamento
profissional e lesões músculo-esqueléticas, nas instituições onde está
implantado o MGM.
O impacto social do MGM foi de tal modo importante que rapidamente se expandiu
em França e a nível internacional, através de uma rede de Institutos Gineste-
Marescotti (IGM). As intervenções formativas, em contexto de cuidados reais,
obedecem a uma estrutura muito próxima da investigação ação, abrangendo todos
os intervenientes, diretos ou indiretos, nos cuidados, a começar pelos
dirigentes: diretor do estabelecimento, diretor clínico, enfermeiro diretor,
enfermeiro chefe e outros. É implantado no terreno um grupo de acompanhamento.
Outro de referentes, que são recrutados pelo seu perfil para esta função, de
entre os que fizeram a formação humanitude. Recebem formação especial, formação
de referentes, muito focada nas técnicas suaves de manutenção, a fim de no
terreno as implantarem e corrigirem técnicas inadequadas. O MGM está protegido
em França e no estrangeiro com marca registada ®, assim como os direitos de
autor referentes aos conceitos de "Toucher-tendresse® Philosophie de
l'humanitude® Capture sensorielle® Manutention relationnelle® Mourir
debout®". Do conhecimento destes trabalhos, através dos seus sites,
decorreu o estudo realizado na Região Centro, com o objetivo de determinar a
importância que os enfermeiros atribuíam aos procedimentos cuidativos inerentes
ao MGM e a perceção que tinham de os aplicar na sua prática quotidiana (Simões,
Rodrigues e Salgueiro, 2011b). Perante a necessidade de validar estes
procedimentos decorreu o primeiro contacto do investigador com os autores, aos
quais foi enviada uma versão das duas escalas (importância e perceção), numa
sequência estruturada de procedimentos cuidativos humanitude (SEPCH), que
tiveram a amabilidade de analisar e devolver, com os ajustes que acharam
pertinentes. Da relação estabelecida a partir destes contactos decorreu a vinda
de Gineste a Portugal para conferências de divulgação. Ainda a realização de um
estágio do investigador e um dos orientadores, em França, a convite dos autores
do MGM. Do exposto, resultou a firme determinação de introduzir o MGM no nosso
país, na área de cuidados a idosos em situação de grande fragilidade, dispondo-
se dos instrumentos de colheita de dados e dos dispositivos pedagógicos
necessários à realização do projeto. Após vários contactos falhados,
encontrámos uma unidade de cuidados continuados integrados, sita na cidade de
Coimbra, com condições favoráveis para desenvolver este projeto, que nela foi
realizado numa abordagem de Investigação Ação (IA). A abordagem de IA, sendo
adequado a estudos deste tipo, não é muito utilizada, possivelmente pelas
condicionantes do terreno e pelo horizonte temporal que exige. Justifica-se
deixar informação que permita compreender esta abordagem, o modelo escolhido e
o percurso metodológico efetuado. Neste artigo apresenta-se esse percurso,
desde a ideia inicial até ao diagnóstico da situação, isto é, as primeiras três
etapas do processo, descrevendo-as com algum pormenor, nos seus objetivos,
atividades e resultados. No final, estes resultados são interpretados/
discutidos, terminando com as conclusões, implicações e as referências
bibliográficas. As etapas seguintes serão objeto de um outro artigo. Estas
dizem respeito ao planeamento da intervenção formativa (formação pela ação),
realização da mesma e o acompanhamento, resultados e avaliação.
Metodologia
Optou-se por uma abordagem de IA. A expressão action research deve-se a Kurt
Lewin em 1948. Dizia que se queremos compreender um sistema devemos procurar
mudá-lo. A história da IA revela a sua função de mudança e transformação
institucional e social, utilizando uma estratégia de intervenção. Dolbec (2003)
e muitos outros autores, retomando o triângulo de Lewin, consideram a IA como
um processo que emerge da tripla finalidade investigação/formação/ação, de que
resulta produção de conhecimento, aprendizagem de todos os intervenientes e
mudança. Pode considerar-se semelhante à noção atual de Investigação e
Desenvolvimento (I&D). O modelo em espiral, o caráter autoavaliativo e
reflexivo, a dimensão prática e intervencionista e a implicação transformativa
dos participantes são algumas das características comuns a qualquer tipo de
investigação na/pela ação. Sendo intervencionista, um dos aspetos que a
diferencia da investigação experimental é ser flexível, isto é, ajustar-se e
progredir (Dolbec, 2003), evoluindo num contexto dinâmico. De realçar o seu
caráter de irreversibilidade, pois à medida que a IA avança os intervenientes
adquirem conhecimentos que lhes permitem alargar os seus pontos de vista e
modificar as suas práticas. Portanto, as condições de realização não são
constantes. Adverte-se que os resultados de uma IA estão, de algum modo,
imbuídos da perceção subjetiva dos intervenientes. Do exposto, deduz-se que é
prudente considerar os resultados não generalizáveis, mas transferíveis. Um
projeto de IA, pode resultar de um desejo de mudança ou inovação de uma
instituição ou de um grupo de atores, IA interna, ou de um grupo de
investigadores que movido por um determinado interesse o propõe a uma
instituição ou grupo de atores, IA associada (Liu, 1991), exigindo contratos
negociados. Daí, o carisma de um processo democrático. Neste caso, utilizou-se
IA, de tipo associada (IAA), congregando o interesse de um investigador externo
à instituição e a vontade de mudança dos cuidadores de uma UCCI, com a
aceitação dos dirigentes, aos vários níveis. No entanto, dado os interesses em
presença e o contexto da sua realização, não se anteviu a possibilidade de uma
IA integral, em que todos os parceiros: investigador e seus orientadores,
dirigentes da instituição e atores participassem ativamente em todas as etapas
do projeto, conforme a grelha de Morin e Landry (in Lavoie, Marquis e Laurin,
1996, p. 83). Havia, sim, o compromisso de diálogo permanente, de reflexão
conjunta sobre os resultados da informação colhida por questionário e
observação direta para o diagnóstico significante, e o contributo de todos os
intervenientes na tomada de decisão sobre os objetivos a atingir, as ações a
desenvolver, os contributos esperados aos vários níveis e a reflexão sobre os
resultados obtidos. Enquadrar-se-ia na modalidade proposta por Liu (1991) de
"Formação pela ação".
Adotou-se o modelo de Lavoie, Marquis e Laurin (1996), pela lógica de aplicação
concreta e etapas sequenciais, embora imbricadas umas nas outras e
interdependentes (figura 1). Além disso, o que se pretendia enquadrava-se nas
seis propriedades críticas referidas pelos autores: ter por origem
necessidades sociais reais; ser realizada em meio natural de vida; ter a
contribuição dos participantes aos vários níveis; ser flexível; comunicação
sistemática entre as pessoas implicadas; autoavaliar-se (p. 36). Este modelo
apresenta seis etapas: etapa prévia; etapa 1- reflexão inicial; etapa 2 '
precisão do problema e do seu contexto; etapa 3 ' planificação da ação; etapa 4
' ação e observação; etapa 5 ' avaliação e tomada de decisão. Cada uma destas
etapas é organizada de acordo com a seguinte estrutura:
Figura 1 ' Estrutura das etapas de investigação ação (Lavoie, Marquis e Laurin,
1996, p. 193)
Os objetivos a definir por investigadores e atores, ou pelo menos assumidos por
todos, as tarefas, dizem respeito ao conjunto das diversas atividades ligadas à
investigação e à ação, a realizar pelo investigador e atores, o produto é o
resultado do que foi realizado em cada etapa, correspondendo à concretização
dos objetivos, e o mandato o que deve ser realizado até ao fecho da etapa
seguinte.
Apresentamos, a seguir, a descrição do percurso metodológico efetuado, nas três
primeiras etapas, com algum pormenor, visto que o âmbito de um artigo não
permite uma descrição exaustiva.
Etapa prévia ' ponto de partida
O percurso efetuado até à firme decisão de introduzirmos o MGM, assente na
filosofia da humanitude, foi um longo caminhar de aquisições e amadurecimento.
Partimos com ideias pouco definidas e conhecimentos pouco consistentes. A
revisão sistemática da literatura (Simões, Rodrigues e Salgueiro, 2008) revelou
escassez de estudos científicos. A nível nacional não existiam. É certo que os
autores do MGM ao longo de 30 anos de observações, para dar resposta às suas
interrogações, realizaram diversos estudos que lhes permitiram transformar o
conceito de humanitude de Albert Jacquard (1986) numa filosofia de cuidados e
criarem o MGM, baseando as técnicas inerentes ao seu método em princípios
decorrentes da Gerontologia e da moderna Geriatria, das Neurociências, da
Psicomotricidade humana e outros, decorrentes da investigação científica. Esta
informação, contida em vários documentos e disponível nos seus sites, assim
como no livro de Gineste e Pelissier (2008), traduzido em português, permitiu-
nos realizar o estudo (maio a outubro/2009), posteriormente publicado (Simões,
Rodrigues e Salgueiro, 2011b), em que dos resultados se pode concluir que os
enfermeiros da Região Centro do país atribuem grande importância aos
procedimentos cuidativos inerentes ao método e têm a perceção de os realizarem
na sua prática quotidiana. Estes resultados não nos surpreenderam, eram até
esperados. Eles demonstram que os procedimentos vão ao encontro dos valores
profissionais que os enfermeiros perfilham, que estão inscritos numa lógica
prática que lhes faz sentido. Longe de ficarmos tranquilos, estes resultados
foram motivo de análise mais fina, detetando nos procedimentos menos
contemplados marcas de tradições e de formatações, levando o investigador a
estar atento ao que se passava no seu próprio contexto de trabalho, a tomar as
suas notas de campo que lhe mostravam uma realidade bem diferente. A ideia de
introduzir o MGM na prática e de fazê-lo numa abordagem de IA ganhou
consistência. A revisão da literatura inerente à IA levou à escolha do modelo
acima apresentado, evidentemente adaptado a esta situação concreta. E como já
mencionado seria uma IAA, não integral, enquadrada na categoria de
"Formação pela ação", isto é a formação, relativa ao MGM,
decorreria em contexto real de cuidados de toilette, tendo como alvo doentes
idosos em situação de grande vulnerabilidade, com perdas cognitivo-mnésicas na
UCCI anteriormente identificada.
A nosso convite, Gineste realizou um workshop em Coimbra (17/04/2009), a fim de
divulgar o método e criar apetência para as mudanças de cultura institucional e
de práticas que este implica. Na sua estada, Gineste convidou-nos para fazermos
formação em França.
Etapa 1 ' reflexão inicial
O workshop de Yves Gineste em Coimbra e as reuniões que com ele tivemos
dissiparam-nos muitas dúvidas, fortificaram a vontade de introduzir o método na
UCCI, mas também nos permitiu tomar consciência do caminho que nos faltava
percorrer para o pôr em prática. O investigador e um dos orientadores fizeram
formação teórica com os autores, e uma semana de estágio com uma das suas
formadoras. Consideramos estas duas experiências formativas fulcrais tanto numa
maior compreensão do método como na firme decisão de o pôr em prática, ficando
cientes que deveríamos incluir, pelo menos, dois grupos no projeto.
Objetivos gerais para esta etapa
Perceber a situação de partida; criar as condições burocráticas, de abertura,
tomada de consciência e vontade de mudança, a fim de que os intervenientes se
envolvam seriamente no projeto e preparar a etapa seguinte. Elegemos como
bússolas orientadoras as questões: Que condições orgânico-funcionais, de
cultura institucional, recursos humanos e outras nos oferece esta UCCI para a
realização do projeto?; É pertinente introduzir o MGM, face às pessoas alvo dos
cuidados?; Será que os enfermeiros se reveem na SEPCH, como os enfermeiros da
Região Centro?; O que nos fazem perceber as notas de campo em relação aos
procedimentos práticos face ao MGM? Estas questões permitiram levantar
objetivos específicos e determinar as atividades a realizar.
Encetámos uma série de contactos pessoais e formais com os dirigentes,
Administrador, Diretor Clínico, Enf. Coordenador e outros a quem expusemos o
nosso projeto, encontrando abertura e recetividade. Desde o primeiro momento o
Enf. Coordenador constitui-se parceiro privilegiado, assumindo o papel de
interlocutor entre as partes envolvidas e animador/mobilizador dos atores. Em
ambiente de partilha, transmitimos-lhe os nossos saberes sobre o MGM e as suas
potencialidades e recebemos as informações de que carecíamos. Discutimos o
projeto de IAA. Para o diagnóstico da situação tínhamos previsto colher dados
por questionário e observação direta, os resultados seriam postos à
consideração dos dirigentes e objeto de reflexão com os atores, a fim de
formularmos objetivos e estratégias em conjunto. Seguir-se-ia a intervenção
formativa, de quatro dias de formação pela ação, em contexto de cuidados real e
um período de acompanhamento do grupo que terminaria com a avaliação e o
relançamento da IAA num novo ciclo, caso os objetivos fossem só parcialmente
atingidos ou para objetivos mais amplos, se assim fosse entendido.
Esta UCCI tinha uma equipa multidisciplinar, constituída por profissionais, de
várias áreas. A sua lotação é de 100 camas, distribuídas pelas quatro valências
de internamento (curta, média e longa duração e Hospitel). Dispõe de um serviço
de Fisioterapia, bem equipado, com piscina para hidroginástica, cujos serviços
se destinam às pessoas internadas e em regime externo. Constatámos que possuía
2 verticalizadores. O Hospitel é uma residência protegida para idosos que
necessitam de cuidados de saúde devido a diversas patologias e a estados
demenciais, alguns em estado avançado de Alzheimer. As pessoas internadas no
Hospitel preenchiam os requisitos da pessoa alvo de cuidados do estudo. A
equipa de enfermagem era constituída por 16 enfermeiros em horário normal e
oito em horários parciais. A de Assistentes Operacionais (AO) por 18 em horário
normal e 15 em horários parciais.
Com o Enf. Coordenador, decidimos começar por aplicar o questionário do estudo
anterior aos oito enfermeiros (02/12/2009), com vínculo à unidade (incluídos no
quadro de pessoal) e comparar os resultados com os obtidos a nível da Região
Centro (Simões, Rodrigues e Salgueiro, 2011b).
Resultados e sua interpretação
Os resultados foram coincidentes, embora ligeiramente mais baixos. Apurou-se,
em relação à importância que estes enfermeiros atribuem aos procedimentos, um
score global de 77%, com 78% na categoria aproximação sintonia e 76% na
categoria consolidação pró-ação. À exceção do item Evita começar o procedimento
pelo rosto (especialmente no banho), com 33%, todos os outros obtiveram scores
acima de 62%. Em relação à perceção de os realizarem na sua prática quotidiana
apurou-se um score global de 69%, com um score de 70% na aproximação/sintonia e
67% na consolidação/pró-ação. Os itens estão iguais ou acima dos 50% exceto:
Descreve pormenorizadamente os gestos que executam (46%); Fala à pessoa doente
da experiência agradável que foi prestar-lhe aquele cuidado (42%) e Evita
começar o procedimento pelo rosto (especialmente no banho) (33%). Graficamente
os picos e as depressões, que representam scores elevados, alguns muito
elevados, e baixos coincidem nos dois estudos. De notar que o procedimento com
score mais baixo, tanto na importância atribuída como na perceção de o
realizarem (33%), está em consonância com o estudo anterior. Este achado condiz
com a técnica ainda hoje ensinada nas escolas superiores de Enfermagem, em que
no banho é utilizada uma sequência cefalo-caudal, apoiada no princípio do mais
limpo para o mais sujo, começando pela cara, que há muito os estudos
demonstraram ser falso, sendo a cara, as mãos e zonas íntimas as mais sujas,
diga-se que apresentam mais gérmenes. Pelos resultados, podemos concluir que
estes enfermeiros valorizavam e se reviam na grande maioria dos procedimentos
cuidativos descritos e consideravam que os aplicavam na sua prática quotidiana,
voltando a demonstrar que os enfermeiros compreendem o sofrimento humano quando
em intimidade, cuidam da pessoa dependente e vulnerável, procurando promovê-la
à altura da dignidade humana (Vielva, 2002), numa relação de respeito e
igualdade (Simões, 2005). Os procedimentos menos cotados, permitiram-nos
perceber o peso das tradições. No entanto, as notas de observações ocasionais e
da observação do investigador aquando da orientação de estudantes em estágio,
nesta própria unidade, davam-nos uma outra visão, os cuidadores estavam longe
de trabalhar de acordo com o MGM, faltava-lhes a técnica. Justificava-se colher
dados, por observação direta, em contexto real, como tínhamos planeado. O
confronto dos resultados apurados pelos dois métodos permitir-nos-ia um
diagnóstico mais preciso e aos cuidadores tomarem consciência das suas
formatações, pela reflexão destes resultados. A par da recetividade encontrada
e da capacidade mobilizadora do Enf. Coordenador, antevíamos algumas
dificuldades para as reuniões de grupo, sobretudo para a intervenção formativa.
Dado que uma parte dos enfermeiros trabalha em regime parcial (47,1%),
exercendo a sua atividade noutros estabelecimentos de saúde, será difícil fazer
os acertos necessários a que estejam totalmente disponíveis durante os quatro
dias de intervenção formativa e nas reuniões no decorrer do acompanhamento.
Grelha de observação
A construção do questionário permitia-nos, agora, construir uma grelha de
observação sistematizada. Esta grelha consta da descrição da Sequência
Estruturada de Procedimentos Cuidativos de Humanitude (SEPCH). Esta sequência
de procedimentos assenta nas etapas propostas pelos autores, preliminares/
captura sensorial, rebouclage sensorial e consolidação emocional (Gineste e
Pellissier, 2008) e (Gineste e Marescotti, 2009). Os procedimentos inscrevem-se
nos pilares da filosofia da humanitude: olhar, palavra, toque, verticalidade,
vestuário, tendo por base os princípios éticos e geriátricos e as regras de
arte da profissão. Ficaram agrupados nas duas categorias acima referidas:
aproximação sintonia (processo progressivo de construção de relação e cuidado)
e consolidação pró-ação (valorizar a experiência, a pessoa e os seus
progressos, assegurar compromissos na continuidade dos cuidados). Aquando da
formação em França, a grelha foi analisada e validada pelos autores. Cada
procedimento foi exemplificado, explicado nos seus fundamentos e observada a
sua realização no terreno, sendo melhorada a descrição de alguns, como o toque.
Acrescentou-se o bater à porta e/ou na barra da cama, pré-preliminar ao
cuidado, que inicia a estimulação da pessoa através do órgão do sentido
audição, pedindo entrada no seu espaço. Foi submetida à apreciação de um grupo
de peritos portugueses e da perita internacional Margot Phaneuf. A redação
final resultou da reflexão sobre todos os contributos obtidos, tendo ficado a
categoria aproximação sintonia com 23 procedimentos (no questionário 24) e a
consolidação pró-ação com os mesmos quatro procedimentos. A grelha permite
registar a presença ou ausência de cada um dos 27 procedimentos, cuja descrição
consta na própria grelha, se o procedimento não se aplicava ou não foi
observado ou se foi observado o contrário do procedimento descrito e outras
ocorrências que o observador considere significativas. Dado que a observação
seria focada nos cuidados de higiene, a grelha continha espaço para registar o
tipo de higiene realizado, o equipamento utilizado e o tempo gasto. Também
dados sobre a pessoa cuidada, segundo a tipologia dos autores: homens de pé; de
pé-sentados (mais de 40s de pé); sentados-de pé (menos de 40s de pé); sentados-
deitados, não se mantêm sobre as suas pernas; homens deitados, não podem ser
levantados (impossibilidade clínica). Portanto, permite saber e registar: quem
realizou o cuidado, a quem, quando, o que foi feito, com quê, como, quanto
tempo e respostas da pessoa cuidada. Evidentemente para a identificação da
pessoa cuidada e do cuidador ou cuidadores usar-se-ão códigos.
A observação e a posterior intervenção foram autorizadas formalmente, tendo
sido decidido realizar a observação no hospital, pelas razões já referidas.
Esta oferecia, também, a possibilidade de constituir um grupo de atores que
exercem nas outras valências, visto que a distribuição nos horários era feita
por escala (roulement), nas várias valências. Acertaram-se datas e fornecemos a
grelha de observação ao Enf. Coordenador para a viabilização da observação e
pelas suas diligências os atores consentiram em ser observados.
Etapa 2 ' precisar o problema no seu contexto
Como se disse anteriormente as etapas são interdependentes e imbricadas umas
nas outras, a anterior prepara a seguinte (mandato). Estavam criadas as
condições de responder à questão: Em que medida as práticas efetivas dos
enfermeiros desta UCCI estão conformes com a SEPCH? Esta questão implica a
observação dos procedimentos práticos, focados na prestação de cuidados de
higiene a pessoas vulneráveis e com perdas cognitivo-mnésicas. Dispúnhamos de
uma grelha de observação sistematizada, onde os procedimentos cuidativos
humanitude SEPCH relativos ao MGM estão inscritos de forma sequencial. A partir
dos dados colhidos, através desta grelha, foi possível comparar as práticas
efetivas com as percecionadas e verificar se há desvios entre os procedimentos
inscritos nela e os realizados. Mas a grelha vai mais longe, permitindo outras
análises.
Observação
Em janeiro de 2010, e em primeiro tempo, realizaram-se 10 observações de
cuidados de higiene para testagem da funcionalidade da grelha, treino de
observação e descentração da atenção dos cuidadores na situação de serem
observados. Não foram sentidas dificuldades na observação nem na utilização da
grelha, que embora complexa, se revelou funcional. Foi possível descentrar a
atenção dos cuidadores da observação. Nas primeiras observações, observou-se o
bater à porta (3 vezes), entrando e saudando, mas logo deixaram de o fazer.
Atribuímos a terem tido conhecimento da grelha de observação. Em segundo tempo,
foram observados 27 casos de cuidados de higiene, reservando-se o último dia
para algumas filmagens, tendo-se obtido autorização para o fazer (22 a 29
janeiro, 2010). A observação parou ao sétimo dia consecutivo por saturação de
dados. Cada dia de observação finalizou com a reunião dos dois observadores,
confrontando os resultados das suas observações, fazendo sínteses e
determinando pontos em que no dia seguinte deviam focar mais a sua atenção.
Resultados e interpretação
Nesta observação de diagnóstico, detetou-se 17,83% de presença dos 27
procedimentos que constam da SEPCH, com 20,77% na aproximação sintonia e 0,93%
na consolidação pró-ação. Com exceção dos itens 16 (100%), 21 (100%) e 20
(85,19%), verificam-se 13 itens a 0,00% e os outros 11 abaixo dos 50%. Havia de
facto um grande desvio entre o percecionado e a realização efetiva dos
procedimentos cuidativos, incluídos na SEPCH (tabela 1).
Tabela 1 - Score percentual obtido en cada um dos procedimentos da SEPCH
Os cuidados de higiene demoraram entre 17 e 35 minutos, média 27,85 minutos e
ocorreram maioritariamente no leito. Desde as primeiras 10 observações alguns
aspetos, reveladores da cultura institucional e de cuidados, chamaram a nossa
atenção. Estas primeiras impressões foram sendo consolidadas ao longo das 27
observações (tabela 2).
Tabela 2 ' Demora média por tipo de cuidado de higiene
O espaço aberto para as notas dos observadores revelou-se de capital
importância, produzindo uma grande quantidade de dados de natureza qualitativa.
Ao chegarmos, os carros de apoio aos cuidados tinham ficado do turno da noite
muito bem preparados. Enquanto os enfermeiros procediam à passagem de turno, os
AO partiam para os cuidados de higiene sem orientações precisas sobre o tipo de
higiene, capacidades restantes a estimular e outras particularidades que
personalizassem aquele cuidado, orientações que deviam decorrer do diagnóstico
de enfermagem. A distribuição de cuidados de higiene por enfermeiros e AO não
nos pareceu obedecer a uma lógica de menor ou maior grau de dependência ou
necessidade de estimulação das capacidades físicas e cognitivo-mnésicas da
pessoa cuidada. Tanto se observava um doente acamado, em limbo geriátrico,
fechado sobre si mesmo, rígido, com contraturas ou agitado, a ser cuidado por
um/a AO como por um/a enfermeiro/a. Os cuidados de higiene a pessoas ditas
acamadas (algumas tinham capacidade para se pôr de pé ou mesmo andar) foram na
maior parte realizados no leito, o tradicional banho na cama, numa sequência
cefalo-caudal, utilizando uma taça. Esta sequência foi utilizada nos 27
cuidados de higiene observados. Havia só duas macas-duche para as quatro
valências. Estas para entrarem na casa de banho exigiam algumas manobras, o que
não predispunha à sua utilização, daí que só fossem utilizadas em três casos.
No hospitel, não havia nenhuma cadeira sanitária. Quando possível, serviam-se
da cadeira de uma residente. Na UCCI existiam dois verticalizadores, que não
foram utilizados durante as observações. O olhar dos cuidadores não era de
acordo com o MGM, isto é, axial, horizontal, longo, próximo. Os cuidadores
chegavam, abeiravam-se da pessoa, começavam de imediato a executar o cuidado ou
diziam ao que vinham sem esperar resposta olhando para baixo, para o que
estavam a executar. Os seus olhares não encontravam os olhos da pessoa que
cuidavam.
A palavra também não estava profissionalizada. Não se apresentavam, se diziam
ao que vinham não era no sentido de obter o seu consentimento, avançavam sem
esperar qualquer resposta. Utilizavam linguagem familiar, com muitos
diminutivos, tanto em relação ao nome, como aos atos e objetos, mas sempre num
tom amistoso. Considera-se pertinente enumerar alguns achados (nomes e títulos
fictícios):
Em nenhuma das 27 observações foi expresso o pedido de consentimento e esperada
a resposta, assim como na consolidação só houve uma expressão "A Senhora
até deu uma ajudadinha, foi muito importante". Notou-se uma clara
diferença no uso da palavra, nos três tipos de higienes.
- Banhos na cama. Nos 16 banhos, em 5 a pessoa foi saudada (o cuidado decorre
em 2 casos com uma linguagem familiar, muitos inhos); em 6 a primeira palavra
foi dirigida à pessoa entre 5 a 30 minutos. Destas, duas só lhe foi dirigida a
palavra duas vezes: 1) aos 9 e 16 minutos (O4). 2) aos 13 e 19 minutos (O5). Em
4 a pessoa não recebeu qualquer palavra, uma foi-lhe dirigida a palavra quando,
ao iniciar o cuidado, sem o anunciar, ela reagiu (O24).
- Em três casos, em que o cuidado foi realizado por dois cuidadores,
verificaram-se conversas entre os dois, deixando o doente à margem (O4, O5 e
O24, acima). As palavras dirigidas às pessoas foram sobretudo em relação às
mobilizações no leito. Linguagem instrumental.
- Cadeira sanitária. Saudação nos 8 casos, ou seja em todos. Embora o cuidado e
os gestos não fossem anunciados nem descritos, em todos houve muitas falas dos
cuidadores sobre a temperatura da água, se estava boa, a seu gosto, quentinha
etc., a pedir ajuda nas mobilizações, muitos diminutivos. Mas também foi aqui
que houve duas recusas (O7 e O8, ver abaixo).
- Maca-duche. Nos três casos, só num a pessoa foi saudada. As primeiras falas
foram para pedir-lhes ajuda na transferência para a maca. Só num caso foi
informado do cuidado, já na maca e a caminho da casa de banho "Vamos
tomar banhinho".
- Notou-se resposta negativa a abordagens de surpresa, a gestos invasivos,
oferecendo resistência ou oposição expressa, por exemplo: iniciou o banho sem o
anunciar, notam-se sinais de agitação, a cuidadora diz "não esteja
nervosa, só vou dar banhinho" (O10); lavagem da boca, sem ser anunciada,
a pessoa mostra sinais de oposição (2 casos). 1) " deixe lavar, vai ficar
mais fresquinha" (O24). 2) ao lavar a boca com compressas, o procedimento
ocorre em oposição (O17); expressa que não quer o creme e a cuidadora responde
"Rosinha, tem que ser meu amor" (O7); começa a calçar as meias, sem
anunciar, a pessoa recusa (O8).
- Há sinais de procura da relação por parte da pessoa cuidada "A pessoa
procura o olhar do cuidador, não o encontra". Talvez por se aperceber
desta procura, o cuidador pegou-lhe na mão, olhou-a (de cima para baixo),
falou-lhe e a pessoa sorriu". "Há pouco tempo para dar
atenção", disse, justificando-se. O cuidado demorou 30 minutos (O2).
- O banho é realizado por dois cuidadores, falam entre si. Um dos cuidadores,
trinta minutos depois do seu início, fala a primeira vez à pessoa, com olhar
axial, horizontal e palavra amigável, a pessoa olha atentamente o cuidador.
"Não se faz mais vezes isto, porque não há tempo", disse
justificando-se. O cuidado demorou 35 minutos (O4).
- Há sinais de reação ao cuidado de higiene deitado (2 casos). 1) a doente
deitada no leito quer levantar-se, recebe então a primeira fala da cuidadora
(aos 11 min.) "Joanhinha deixe-se estar deitadinha". 2) a pessoa
queria sentar-se na maca-duche, o cuidador não deixou, justificando com medo de
queda.
- Verificou-se não existir uma filosofia de como tratar a pessoa: pelo nome
próprio, antecedido de Senhor ou Senhora ou como era habitualmente tratado no
seu meio social. A mesma pessoa, com perdas cognitivas profundas, era tratada
umas vezes por Sr. Doutor e outras por Senhor António (nome e título fictício).
- Também se notou não haver a regra de não-interrupção do cuidado. Verificaram-
se várias interrupções para atender o telefone e outros. Num dos banhos houve
duas interrupções.
- O toque, não se inicia, nem termina conforme o preceituado. Não é mantido
durante o cuidado. O toque ternura preconizado pelos autores, embora até
houvesse uma festinha (no rosto), necessita de ser profissionalizado.
Verificou-se a utilização de mão em garra e preensão com os dedos em pinça nas
mobilizações, nos levantes e na ajuda nas deambulações, exceto em dois dos 27
casos. Estes atos eram executados em força, com posturas ergonómicas incorretas
e de risco para os cuidadores e pessoa cuidada, como o apoio na região
cervical, o puxar pelas axilas. Na execução do banho, de modo geral, gestos
amplos, mas duros.
- Não se observaram sorrisos durante o cuidado, parece que a preocupação era a
execução do cuidado. Porque fora do cuidado existiram sorrisos.
- Não-utilização e reforço das capacidades restantes e da estimulação das
forças de vida das pessoas cuidadas. Vimos uma senhora a ser lavada vários dias
na cama, a defender-se na higiene das partes íntimas, em que os cuidadores se
referiram "a possível violação", tal como num dos filmes
pedagógicos, em que Gineste alerta para gestos dos cuidadores que fazem deles
violadores, neste tipo de doentes. Nos finais da nossa observação vimos esta
senhora a andar no corredor ajudada pela neta.
- Uso contínuo de luvas, mesmo para a massagem, que resultava num espalhar de
creme.
- No chuveiro a saída da água não era suavizada com a utilização de manápula na
cabeça do chuveiro.
- Durante o banho não se observava a preocupação de cobrir o corpo e houve até
doentes que verbalizaram ter frio. Foi justificado por ser mais prático e
também por não estar frio.
- Porém, verificou-se que os cuidadores têm um trato cortês, meigo, não
faltando até um beijo na face, e uma elevada preocupação com a boa apresentação
física (uma senhora foi maquilhada).
- Preocupam-se com levantamento do segmento torácico da cama e para o cadeirão,
mas não se verificou o esforço de colocar a pessoa a suportar o peso do corpo
sobre os seus pés.
- Mostravam-se muito cuidadosos com a secagem de pregas cutâneas e espaços
interdigitais, muito atentos ao conforto dos doentes e às suas necessidades,
segundo os seus referenciais.
- Grande preocupação com a hidratação e de que não saíssem para consultas ou
fisioterapia sem terem tomado o pequeno-almoço.
Consideramos que enfermeiros/as e AO constituíam um grupo de pessoas muitíssimo
generosas e disponíveis, faltava-lhes a formação técnica para cuidarem em
humanitude. No final da observação foi entregue ao Enf. Coordenador um
relatório com gráficos comparativos dos resultados apurados (questionário e
observação) além dos principais achados qualitativos e proposta de equipamento
a adquirir.
Discussão dos resultados
Os desvios encontrados são coincidentes com os achados dos autores: as
abordagens-surpresa; a pobreza de palavras e de olhares; as conversas de dois
cuidadores entre si, deixando a pessoa doente de fora; a não-consolidação; o
toque inadequado; a não-verticalidade; as pessoas com demência que receberam os
tradicionais banhos no leito, receberam também menos palavras, e os olhares não
foram ao encontro dos seus. No primeiro estudo que os autores realizaram (1982-
1984) a média de tempo de palavras nas 24 horas, que os doentes deste tipo
receberam, foi de 120s, (equiv. a 10 palavras). Dez anos depois, Mias e Décourt
(1993) apresentam resultados de estudos em que esta média é de 118s. Em 2004
Gineste e Marescotti, o estudo de Océane, para obtenção diploma universitário,
vem confirmar estes resultados (Gineste e Pélissier, 2008). A razão está no
sistema de comunicação humana que é retroalimentado pelo feedback. Quando este
sistema não é retroalimentado por uma comunicação interativa, morre. Então
criaram o auto-feedback, em que a retroalimentação é feita pela comunicação
não-verbal da pessoa doente, detetando informações muito subtis, por meio de
uma perceção muito fina do cuidador e é ele próprio que alimenta o sistema,
através de uma mensagem descritiva. A prova é que quando a pessoa comunica, o
resultado é diferente, como também constatámos. Também é difícil não ter
intervenções verbais desastrosas, quando não se aprendeu a ir ao encontro da
pessoa aonde ela está no seu mergulho retrógrado. O cuidador está no presente e
a pessoa no passado, 20, 30, 50 anos antes. Não há encontro possível e os nãos
que recebe vão fechá-la à comunicação. Um outro aspeto, e que neste estudo
também se verificou, é uma certa formatação profissional de concentração na
execução do procedimento. A consolidação emocional em doentes com Alzheimer ou
outros Síndromas Cognitivo-mnésicos (SCM) é da máxima importância, visto que
valorizar o encontro, com palavras positivas e gestos de ternura deixam um
Priming em memória emocional.
O bater à porta, aberta ou fechada, e/ou na barra da cama, como regra de
cidadania, baseada no direito à privacidade e ao domicílio e primeira
estimulação em doentes com SCM, os cuidadores e os próprios familiares não
acreditavam que tivesse qualquer efeito. O estudo realizado em Corréze, num
estabelecimento de longa duração em 1998, revelou que 40% responderam ao bater,
com uma demora média de resposta de 20s. Um mês depois de o continuarem a
utilizar repetiram o estudo e a demora média de resposta desceu para 3s
(Gineste e Pelissier, 2008). A verticalidade é um importante pilar da
humanitude, podemos destruir irremediavelmente a humanitude de uma pessoa
deixando-a acamada. Para os autores estar as 24h do dia acamada, ou 12h na cama
e 12h no cadeirão, produz síndromas de imobilismo, com repercussões desastrosas
a nível dos nossos sistemas vitais. Deixada nesta estabilidade de posição a
pessoa vai perdendo progressivamente o esquema corporal e a inteligência
sensório-motora, afetando mesmo a inteligência conceptual. É do conhecimento
geral que uma pessoa acamada perde por semana 10 a 15% da sua força muscular, e
num idoso de 80 anos acamado pode ir aos 40%, tornando-se definitivamente
acamado em menos tempo. Daí que os autores afirmarem que quem faz os
dependentes (acamados, rígidos, com úlceras de pressão ) são as instituições e
os próprios cuidadores, produzindo uma invalidez iatrogénica. Em 1982 criam o
conceito de "Viver e morrer de pé". Grumbach (1988) afirma que a
síndroma de imobilização é o opróbrio da medicina. Gineste, Marescotti e Mias
(1996) afirmam que a geriatria é uma medicina de pé, o cuidado gerontológico é
tanto quanto possível um cuidado de pé. A longa experiência de Gineste e
Marescotti, permite-lhes afirmar que bastam 20 minutos por dia sobre as suas
pernas para que um idoso não se torne um acamado, com as consequências bem
conhecidas. Criaram, em 1993 Les PAM, Programas de Atividade Mínima que
transformam os gestos dos cuidadores em ações de reabilitação orientadas,
valorizando os procedimentos durante as toilettes e outros. Advogam a
utilização do verticalizador como ajuda preciosa para a verticalização, para um
cuidado de pé. Na unidade deste estudo havia 2 verticalizadores que não vimos
utilizar, no entanto a maioria dos banhos foram realizados no leito.
O toque que observámos era duro, as mobilizações em força, a mão era utilizada
em garra e o puxar em pinça. Tudo isto desperta sensações punitivas, e é
contrário a um toque suave, carinhoso (toque ternura) e mobilizações suaves,
que despertam sensações de ternura, e se comunica de forma não-verbal com o
corpo para despertar as suas forças de vida. Os cuidadores necessitam de pelo
menos um ano de treino e correções diárias para o conseguir (Gineste e
Pelissier, 2008). O tempo médio dos cuidados de higiene por nós detetado é
superior aos 20m detetado pelos autores (Gineste e Pelissier, 2008). Estes
resultados não são generalizáveis, mas estamos convictos que noutros contextos
se obteriam resultados idênticos. Neste momento, noutras experiências
obtiveram-se resultados idênticos.
Diagnóstico da situação
A UCCI oferece as condições para a concretização deste projeto. Como condições
favoráveis temos a recetividade e abertura dos seus dirigentes, o podermos
contar com a capacidade dinamizadora do Enf. Coordenador, que desde o primeiro
momento se constituiu interlocutor privilegiado, entre nós, dirigentes e
atores; está bem equipada, à parte a necessidade de aquisição de cadeiras de
banho e pelo menos uma maca-duche; a sua localização e acessibilidade
constituem uma mais-valia. Os residentes/pessoas doentes do hospital preenchiam
os critérios de seleção para a prestação de cuidados. Os contactos que fomos
fazendo com os cuidadores revelaram-nos a sua vontade de mudança e a sua adesão
ao MGM, no qual reveem os valores profissionais que perfilham. Os resultados da
observação sistematizada permitiram-nos identificar onde as suas práticas se
afastavam do MGM e os procedimentos mais arreigados em tradições, algumas
assentam em falsos princípios que, passados de geração em geração, deram origem
a uma cultura de cuidados difícil de mudar, em que será necessária maior
intervenção, exigindo explicações alicerçadas em princípios científicos de
várias áreas do saber. Os Pilares da humanitude olhar, palavra, toque,
verticalidade, utilizados tecnicamente na relação de cuidados podem parecer
palavras que exprimem gestos naturais e que não necessitam de aprendizagem, no
entanto exigem fundamentação para se ter consciência que não são inócuos. Pois,
quando mal utilizados podem destruir a humanitude, despertar uma reação de CAP
e recusa ao cuidado. Urge mudar o paradigma de banho no leito, com uma taça com
água e gel, para um cuidado de pé, utilizando água corrente, passando do lavar
para um cuidado especializado com imensas possibilidades de estimulação e
reabilitação. As sequências das toilettes que fazem parte do MGM opõem-se ao
tradicional banho na cama numa única sequência cefalo-caudal conforme
observámos e nos foi justificada por ser da norma. O auto-feedback, o mergulho
retrógrado, a estimulação e utilização das capacidades restantes e forças de
vida da pessoa, o pedir o consentimento e esperar autorização, o anunciar e
descrever os gestos, e a compreensão do seu impacto positivo e de destruição
quando não forem respeitados. Esta é uma reflexão ética a fazer juntamente com
o respeito pela regra da não-interrupção do cuidado, assim como a forma como a
pessoa doente é tratada, para não agredir a sua identidade. O cuidado de
higiene, nas suas particularidades, para que resulte num cuidado personalizado,
terá que ser prescrito e decorrer do diagnóstico de enfermagem. Há também a
questão dos formadores, visto que é uma IAA que trata de uma formação na ação.
Sendo nós próprios que desempenhámos esse papel, contámos com material de apoio
que nos facilitou a tarefa. Ficámos bem cientes da situação existente, mas
também de que não era possível abarcar tudo ao mesmo tempo. Impôs-se realizar
com os cuidadores e dirigentes uma reflexão séria sobre os resultados das
nossas observações, para que em conjunto se identificasse o problema, se
negociassem objetivos realizáveis, bem como as estratégias e ações a pôr em
prática. Dado que por razões alheias à nossa vontade a reunião com os
cuidadores teve que ser acoplada à intervenção formativa, este assunto fará
parte da próxima etapa.
Conclusão
A descrição, algo pormenorizada, permitirá compreender o percurso efetuado, o
ir e vir, num processo flexível, ajustando-se às dinâmicas do terreno. O real
não é estático. Também se deixa perceber a importância de parceiros
privilegiados, sobretudo numa IAA, em que o investigador não pertence à
instituição. A necessidade de mudança não brotou de dentro para fora, mas é
criada por um agente externo. Fez-se o possível para que o projeto do
investigador se transformasse no nosso projeto, o que obrigou a contactos e
negociações a vários níveis.
Os resultados obtidos por questionário e observação, por um lado evidenciam uma
grande aceitação e valoração dos procedimentos cuidativos humanitude, o que não
surpreende, pois eles inscrevem-se numa lógica de boas práticas e em princípios
fundamentais da Enfermagem, como disciplina e profissão, muito caros aos
enfermeiros. Por outro lado verificaram-se grandes desvios entre a prática
percebida e a efetiva. Há também a marca de uma cultura de cuidados, uma
formatação, assente em princípios que não se ajustam aos conhecimentos e
necessidades do nosso tempo. Estamos muito distantes, quer em conhecimentos
científicos, quer em necessidades sociais da época em que algumas técnicas
foram concebidas.
Implicações
Os resultados mostram um enorme campo de possibilidades de investigação e urge
fazê-la. As escolas superiores de enfermagem têm nestes resultados um grande
campo de reflexões a fazer. É urgente que as escolas façam Escola. Há
princípios que os estudantes têm que integrar nos quatro anos de curso, caso
contrário será difícil assumi-los na sua vida profissional. Em relação aos
enfermeiros e às suas práticas e estruturas profissionais que os representam é
tempo de definirem com clareza o que querem ser. Se querem agarrar-se ao seu
papel próprio e não deixar fugir do seu âmbito de ação privilegiada os cuidados
de intimidade, o estar próximo, muito próximo do Homem caído, em situação de
fragilidade, reinventando e inventando novas formas de cuidar adaptadas ao
nosso tempo ou querem ir por outro caminho. É tempo de valorizar e defender
aquilo que nos diferencia de outros técnicos, senão poderemos vir a ser
submersos por uma miríade de outros profissionais. É possível que não se
revejam nestes resultados, que reajam mesmo a eles. Seria interessante
envolverem-se em estudos de observação das suas práticas.