Conhecimentos e práticas de Terapia Compressiva de enfermeiros de cuidados de
saúde primários
Introdução
É nossa perceção de que existem, em muitos enfermeiros, lacunas de
conhecimentos na área da viabilidade tecidular. Verifica-se que o mundo e a
ciência estão em constante mutação e que se não houver uma atualização
permanente, as práticas de hoje tornam-se obsoletas amanhã. Especificamente no
tratamento da úlcera venosa, ainda se usam muito ligaduras que não produzem
qualquer compressão. Os doentes vivem com a úlcera e respetivas implicações
bio-psico-sociais durante muito tempo, alguns durante muitos anos, sem nunca
atingir a cicatrização. Muitos recursos são consumidos e a qualidade de vida
destes doentes também fica prejudicada.
A terapia compressiva é há muito tempo altamente recomendada no tratamento da
úlcera venosa devido a altas taxas de cicatrização e baixos custos. No entanto,
a sua implementação em Portugal tem sido lenta e ainda é insuficiente em muitos
locais.
A curiosidade que motiva este estudo tem a ver com a tentativa de resposta a
questões como: Será a TC, prática imprescindível na cicatrização de úlceras
venosas, amplamente usada? Os enfermeiros conhecem os seus princípios? Aplicam-
na corretamente? Que formação em TC têm?
Assim, a questão de investigação que se coloca é: Quais os conhecimentos e as
práticas de terapia compressiva de enfermeiros de Cuidados de Saúde
Primários?.
Com esta questão, iniciou-se um estudo cujos objetivos foram: (1) Identificar o
nível de conhecimentos sobre a terapia compressiva de enfermeiros de Cuidados
de Saúde Primários; (2) Identificar as áreas de défice de formação no âmbito da
terapia compressiva; (3) Descrever a sua prática de terapia compressiva; (4)
Relacionar os seus conhecimentos de terapia compressiva com outras variáveis
como experiência profissional e formação.
Quadro teórico
A úlcera venosa
Num estudo realizado em vários Centros de Saúde portugueses, a úlcera de perna
revelou-se o tipo de úlcera mais frequente, sendo a maioria de etiologia venosa
(42% eram úlceras de perna, sendo 35,6% de origem venosa) (Pina, 2007).
O diagnóstico da etiologia da úlcera de perna é de extrema importância porque
vai determinar o tipo de tratamento a aplicar. Um diagnóstico inicial de úlcera
venosa é obtido através de uma história clínica cuidadosa, de uma observação
dos membros inferiores, ferida e pele circundante e através da exclusão de
doença arterial periférica. A exclusão de compromisso arterial é possível
através da determinação do Índice de Pressão Tornozelo-Braço (IPTB) (Pina,
Furtado e Albino, 2007).
No tratamento da úlcera venosa, existem alguns estudos que comparam vários
produtos, no entanto, não há provas suficientes para recomendar um produto em
vez de outro. Como a causa-base da úlcera venosa é a hipertensão venosa, o
tratamento recomendado é a terapia compressiva, sendo mais importante do que o
material de penso utilizado (CONUEI, 2009; Marston e Vowden, 2003; Pina,
Furtado e Albino, 2007; RCN, 2006; WUWHS, 2008).
A terapia compressiva
A terapia compressiva (TC) consiste na aplicação de um sistema compressivo
próprio no membro inferior, através de ligaduras específicas, meias de
compressão ou equipamento de compressão pneumática intermitente (Clark, 2003;
Marston e Vowden, 2003; WUWHS, 2008).
A revisão sistemática de O'Meara, Cullum e Nelson (2009) indicou que a TC
possui maiores taxas de cicatrização comparando com a não-compressão e que a
compressão elevada é mais efetiva que a compressão reduzida.
Apesar dos sistemas de compressão serem mais dispendiosos que o tratamento sem
compressão, o custo por semana e o custo total do tratamento da úlcera com TC
tornam-se muito menores devido a taxas de cicatrização elevadas e a mudanças de
penso apenas semanais com a maioria dos tipos de TC (Franks e Posnett, 2003).
A TC assenta em princípios baseados na Lei de Laplace, segundo a qual, para a
mesma tensão na aplicação da ligadura, a pressão será tanto maior quanto maior
a sobreposição das várias camadas e menor o diâmetro da perna. Assim, numa
perna morfologicamente normal, ao aplicar uma ligadura sempre com a mesma
tensão e com a mesma sobreposição de camadas, a pressão é máxima nos maléolos
(menor diâmetro) e vai gradualmente diminuindo ao longo da perna, no sentido do
joelho (porque vai aumentando o diâmetro da perna). Assim, é criado um
gradiente de pressão que facilita o retorno venoso (Clark, 2003).
A TC devidamente aplicada aumenta o retorno venoso, reduz a hipertensão venosa,
promove a drenagem de metabolitos, reduz mediadores inflamatórios, reduz o
edema, reduz o exsudado da ferida e, assim, promove a cicatrização da úlcera
venosa (Partsch, 2003).
Nas principais contraindicações da TC (CONUEI, 2009; Marston e Vowden, 2003;
Pina, Furtado e Albino, 2007) inclui-se a doença arterial (exceto com
prescrição e supervisão da cirurgia vascular, para um IPTB inferior a 0,8 não
se deve aplicar TC pelo risco de isquemia), a insuficiência cardíaca não
compensada (devido ao aumento do preload cardíaco há o risco de sobrecarga
cardíaca), doença dos pequenos vasos ou vasculite, dermatite em fase aguda e
pele friável ou delicada (pelo risco de úlceras de pressão, sobretudo nas
proeminências ósseas e em locais onde o diâmetro da perna é inferior).
Conhecimentos e prática em Terapia Compressiva
Nestes últimos anos tem sido dado grande ênfase à prática baseada na evidência
científica. No entanto, verifica-se que, sobretudo na área da viabilidade
tecidular, são identificadas lacunas de conhecimentos que colocam em causa a
boa prática e a eficiência na utilização dos recursos (Gaspar et al., 2010;
Pina, 2007).
Apesar de ser a melhor prática reconhecida no tratamento da úlcera venosa há
alguns anos, a terapia compressiva não se encontra muito divulgada e
implementada em Portugal. Tal pode dever-se a uma insuficiente formação dos
profissionais (Miguéns, 2006).
Para uma aplicação eficaz e sem riscos da TC, é exigido ao enfermeiro que
possua conhecimentos, experiência e competência técnica (Beldon, 2008; CONUEI,
2009; RCN, 2006). A compreensão limitada dos princípios da TC constitui um
problema prático major na aplicação de uma compressão eficaz, assim como a
falta de treino na aplicação (WUWHS, 2008).
A formação em TC
A formação profissional contínua em enfermagem tem-se evidenciado um pilar
importante na atualização de conhecimentos e práticas, de modo a garantir um
elevado nível de qualidade nos cuidados. A formação promove, ainda, a
satisfação profissional do enfermeiro, a implementação de novos métodos de
trabalho e o desenvolvimento de novas competências (Botelho, 1998).
A formação e treino dos enfermeiros em TC têm demonstrado efeitos positivos em
vários estudos realizados, nomeadamente maiores taxas de cicatrização,
diminuição da prevalência da úlcera venosa, redução dos custos e aumento da
qualidade de vida dos doentes (Clarke-moloney, Keane e Kavanagh, 2008; Dealey,
2006).
Metodologia
Este trabalho consistiu num estudo observacional, analítico-correlacional e
transversal, cuja população se constituiu pelos enfermeiros de Cuidados de
Saúde Primários do Distrito de Leiria e foi autorizado pela Direção da Unidade
de Apoio à Gestão dos Agrupamentos dos Centros de Saúde (ACES) onde foi
realizado. A amostra, acidental, ficou composta pelos enfermeiros que
responderam voluntariamente ao instrumento de colheita de dados, tendo sido
usado como critério de inclusão a prestação de cuidados a doentes com úlcera
venosa.
Todos foram previamente informados dos objetivos do estudo, da garantida de
anonimato e confidencialidade dos dados; e consideramos como consentimento
informado para a participação no estudo o preenchimento voluntário dos
questionários.
O instrumento de colheita de dados consistiu num questionário constituído por
uma primeira parte para caracterização sociodemográfica e dados relativos a
formação e experiência profissional. Numa segunda parte constava um teste de
conhecimentos com 24 questões de escolha múltipla (construídas com base no que
é considerado pelos autores e nas guidelines consultadas como o mais importante
a saber e fazer em TC) para avaliar os conhecimentos em terapia compressiva, e
que serviram para a construção e validação da Escala de Conhecimentos em
Terapia Compressiva (ECTC) ao ser transformada numa escala dicotómica (certo/
errado) codificando a base de dados para que em cada questão a resposta certa
assumisse o valor 1-certo e as restantes opções assumissem o valor 0-
errado.
Para os enfermeiros que referiram aplicar TC, o questionário apresentou ainda
um conjunto de questões, com 5 opções de resposta e que pretende avaliar a
frequência com que o inquirido realiza cada uma das práticas descritas.
O questionário foi submetido a um pré-teste com enfermeiros que fazem parte da
população-alvo, que sugeriram alterações a duas questões para melhor
compreensão.
Resultados e discussão
Caracterização sociodemográfica e experiência profissional
A amostra ficou constituída por 112 enfermeiros, com média de idade de 38,21
anos (DP=10,06 anos), sendo a maioria do género feminino (91,07%).
O tempo de exercício profissional dos enfermeiros apresenta uma média de 15,40
anos (DP=9,89 anos). A média de experiência profissional na área das feridas
crónicas é de 10,25 anos (DP=7,78 anos). Todos os enfermeiros cuidam de utentes
com úlcera venosa (critério de inclusão) e a maioria dos enfermeiros cuidam
destes utentes diariamente (5 dias por semana).
Formação e experiência em TC
Observámos que 38,74% dos enfermeiros não possui qualquer formação em TC. O
tipo de formação em TC mais referido foi a formação em serviço (29,73%), logo
seguida da aprendizagem com colega mais experiente (25,23%), congresso(s)/
jornada(s) (18,92%) e autoformação (18,92%).
Estes resultados convergem com Barrett, Cassidy e Graham (2009) que referiram
também, como principais fontes de conhecimento em TC dos enfermeiros, outros
enfermeiros experientes na área e a própria experiência na área (o que pode
colocar em causa a prática baseada na evidência e nas guidelines).
Analisando o tipo de formação (formal/informal), verifica-se que apenas 45,05%
dos enfermeiros possui formação formal em TC e os restantes 54,95% não possuem
formação ou possuem apenas formação informal (aprendizagem com colega mais
experiente e/ou autoformação). Tal como refere Miguéns (2006), os enfermeiros
apresentam uma deficiente formação em TC.
Da amostra, apenas 25,00% (28 enfermeiros) aplicam TC. A experiência em aplicar
TC situa-se entre 0,4 e 5 anos, com uma média de 2,13 anos (DP=1,30 anos).
Portanto, poucos enfermeiros aplicam TC, apesar de contactarem frequentemente
com a úlcera venosa. E os que utilizam a terapia aplicam-na há relativamente
pouco tempo.
Dos enfermeiros que aplicam terapia compressiva, 4 (14,29%) referem ter apenas
formação informal. Os restantes possuem algum tipo de formação formal em TC.
A maioria dos enfermeiros inquiridos não possui formação para avaliar o IPTB
(79,05%), não possui equipamento para isso (86,41%) e ainda menos possui
prática em avaliar o IPTB (92,31%).
Escala de Conhecimentos em Terapia compressiva (ECTC)
No quadro 1 apresentam-se os resultados da análise da homogeneidade dos itens e
fidelidade da ECTC, assim como algumas medidas de tendência central e
dispersão.
Quadro 1 ' Itens da ECTC: média, desvio padrão, intervalo de confiança,
frequência das respostas certas, correlação item-total e KR20
A consistência interna da escala foi avaliada pelo coeficiente de fidelidade de
Kuder-Richardson-20 (KR-20), por ser o mais indicado na análise de escalas com
resposta dicotómica em cada item. Este coeficiente é análogo do alpha de
Cronbach, e quanto mais próximo da unidade maior é a consistência interna do
instrumento. Adicionalmente foram calculadas as correlações dos itens com a
pontuação total da escala sem o item.
A escala apresentou uma boa consistência interna (KR-20 = 0,759). Para todos os
itens as correlações item-total foram positivas e em apenas um item não foi
próxima ou superior a 0,20 (item 10). Também se observou que o KR-20 retirando
o item foi (à exceção do observado no item 10) inferior ao valor observado para
o total da escala (0,759). Não obstante decidiu-se não eliminar estes itens por
se considerarem importantes do ponto de vista teórico nas várias referências
bibliográficas consultadas e porque a sua remoção não melhorou substancialmente
a consistência interna da escala.
As questões com correlações item-total superiores foram questões relacionadas
com técnica de colocação das ligaduras, valores de IPTB e efeito de guttering,
o que se pode dever ao facto de estas questões abordarem assuntos muito
específicos da TC, conseguindo assim distinguir os enfermeiros que possuem mais
conhecimentos nesta área.
A média das pontuações totais na ECTC foi de 8,97 (DP=4,21). Tendo em conta que
a pontuação total pode variar entre 0 e 24, observa-se, em média, baixos níveis
de conhecimentos em TC. Verifica-se, ainda, que apenas 28,57% dos enfermeiros
acertou em mais de metade das questões.
As questões mais pontuadas, e portanto onde os inquiridos revelaram mais
conhecimento, foram: questões relativas a diagnóstico da úlcera venosa
(questões 1, 2 e 4), questão relativa à indicação das meias de compressão
(questão 20) e questões referentes à técnica de aplicação das ligaduras
(questões 13 e 15). No entanto, noutra questão importantíssima para a correta
aplicação das ligaduras, a questão 14. Na terapia compressiva, para a mesma
tensão/força na aplicação da ligadura: a pressão subligadura diminui com o
aumento do diâmetro da perna, que aborda um princípio da TC baseado na Lei de
Laplace (Clarck, 2003), a taxa de respostas certas foi bastante baixa (16,07%).
Também a principal lacuna identificada por Barret, Cassidy e Graham (2009) foi
o desconhecimento sobre a Lei de Laplace e sobre o princípio da compressão
gradual ao longo do membro.
Houve, também, um maior número de respostas certas à questão 9. O tratamento
da úlcera venosa com terapia compressiva: está amplamente comprovada a sua
efetividade (53,57%), portanto, os enfermeiros parecem ter noção que a TC está
amplamente comprovada como custo-efetiva. No entanto, na questão 12. A
eficácia do tratamento da úlcera venosa deve-se principalmente: à terapia
compressiva, a taxa de respostas certas foi de 38,39%, ou seja, muitos
enfermeiros (61,61%) sugeriram que o efeito terapêutico da terapia compressiva
seria idêntica ou inferior ao material de penso e/ou aos procedimentos de
irrigação da ferida, ao contrário do que está amplamente comprovado (CONUEI,
2009; Marston e Vowden, 2003; Pina, Furtado e Albino, 2007; RCN, 2006; WUWHS,
2008).
As questões menos pontuadas foram a questão 11. A terapia compressiva: pode
ser usada em patologias não venosas (5,36% de respostas certas) e a questão
5. Na avaliação do IPTB, devem ser pesquisadas no pé: A artéria tibial
posterior e a pediosa (6,25% de respostas certas). A questão 11 refere-se às
indicações da TC. Muitos enfermeiros associam a TC exclusivamente às úlceras
venosas, no entanto, existem outras indicações para a TC. A questão 5 é muito
específica da técnica de avaliação do IPTB e, por isso, torna-se mais difícil,
sobretudo para quem não possui formação em IPTB (que é o caso de 79,05% dos
enfermeiros).
A questão 16. Antes de aplicar as ligaduras compressivas, deve-se aplicar
camada de almofadamento para: adaptar a forma da perna também teve uma taxa de
respostas certas baixa (13,39%), o que sugere que os enfermeiros têm alguma
incompreensão da importância de adaptar a forma da perna para manter o
gradiente de pressão, erro frequente segundo Beldon (2008).
Conjunto de questões relativas às práticas em TC
As questões relacionadas com as práticas em TC são baseadas nas recomendações
dos autores consultados e podem ser pontuadas de 1 a 5, sendo que 1 corresponde
à prática nunca ser realizada e 5 à prática ser sempre realizada. Pontuações
mais elevadas conotam-se com práticas mais adequadas. Os itens 1, 4, 7, 8, 11,
12, 18, 19, 20 e 21 são de cotação invertida. A este conjunto de questões só
responderam os enfermeiros que aplicam TC (28 enfermeiros).
Analisando o quadro 2, constata-se que em todas as práticas descritas a
pontuação média é igual ou superior a 3 (exceto a prática 5. Certifica-se que
o IPTB é avaliado durante a terapia compressiva) e que há muitas práticas com
pontuações médias superiores a 4. Assim, parece haver uma tendência para boas
práticas na aplicação da TC por parte destes enfermeiros.
Quadro 2 ' Conjunto de questões relativas às práticas em TC: média, desvio
padrão e intervalo de confiança
As práticas onde os enfermeiros, em média, apresentaram melhores resultados
foram 21. Aplica terapia compressiva em doentes com insuficiência cardíaca não
compensada (questão invertida) (M= 4,64; DP=0,81), e a prática 9. Aconselha
meias de compressão para prevenir recidivas, após a cicatrização (M=4,64;
DP=0,54). Estes resultados sugerem que os enfermeiros reconhecem a
insuficiência cardíaca descompensada como contraindicação da TC e não a aplicam
nestes casos. Os enfermeiros, frequentemente, após a cicatrização da úlcera
aconselham as meias de compressão, uma medida recomendada para prevenção de
recidivas e do edema (WUWHS, 2008).
As práticas referentes aos ensinos ao doente em TC (práticas 15, 16 e 17)
encontram-se, em média, igualmente bem pontuadas (médias superiores a 4,20).
Portanto, os enfermeiros parecem investir na educação para a saúde destes
doentes, o que tem efeitos muito positivos na adesão ao tratamento e mesmo na
sua efetividade, tal como referem Pina, Furtado e Albino (2007) e a WUWHS
(2008).
Os enfermeiros também evidenciam pontuações elevadas no que se refere aos
cuidados a prestar antes da aplicação do sistema compressivo: 10. Quando muda
o penso, presta cuidados de higiene a todo o membro (M=4,39; DP=0,67) e 13.
Aplica almofadamento de algodão ou espuma em toda a perna, antes de aplicar as
ligaduras compressivas (M=4,39; DP=0,98). Como refere Dealey (2006), o
tratamento da úlcera venosa também passa por uma adequada irrigação da ferida e
higiene da pele circundante. O almofadamento antes da aplicação das ligaduras é
importante para absorção do exsudado, prevenção de lesões por pressão e para
adaptação da forma da perna, tal como refere Beldon (2008).
A obtenção de uma história clínica adequada (prática 2) é importante para o
diagnóstico e tratamento adaptado ao doente (Pina, Furtado e Albino, 2007).
Esta colheita de dados é uma prática comum dos enfermeiros inquiridos (M=4,15;
DP=0,70).
Como seria de esperar, relativamente à prática 6. Perante uma úlcera venosa
diagnosticada devidamente e não existindo contraindicações, aplica terapia
compressiva, verifica-se que os enfermeiros aplicam frequentemente terapia
compressiva quando indicado (M=4,15; DP=0,97).
A prática menos pontuada foi a 5. Certifica-se que o IPTB é avaliado durante a
terapia compressiva (M=2,89; DP=1,07). A avaliação do IPTB durante a TC é
recomendada devido à possibilidade de se desenvolver uma doença arterial ao
longo do tempo de tratamento (RCN, 2006), no entanto parece ser uma prática
pouco frequente.
Outra prática igualmente pouco pontuada foi a 1. Classifica uma úlcera como
sendo venosa apenas através das suas características típicas, como a
localização, aspeto, tecido (questão invertida) (M=3,00; DP=1,22), o que
sugere que muitos enfermeiros que aplicam TC consideram uma úlcera de perna
como sendo venosa, observando apenas as suas características típicas, o que
poderá levar à aplicação de TC em úlceras venosas que têm também componente
arterial (Pina, Furtado e Albino, 2007).
A baixa pontuação na questão 7. Evita aplicar terapia compressiva a doentes
acamados com úlcera venosa, mesmo que sem contraindicações (questão invertida)
(M=3,00; DP=1,22), sugere que os enfermeiros evitam aplicar TC a doentes
acamados, apesar de estes poderem realizar TC com ligaduras elásticas, por
exemplo, desde que sem contraindicações (Morison, Moffatt e Franks, 2010).
As questões relativas à técnica de aplicação das ligaduras (questões 11 e 12)
apresentam igualmente pontuações baixas. Estes erros na aplicação das ligaduras
foram também identificados por Beldon (2008), que refere que aumentar a
extensão das ligaduras à medida que sobem no membro, sobreposição das camadas
superior a 50% e enchimento de proteção insuficiente ou não adaptado para a
forma da perna são os erros mais frequentes.
A referenciação dos doentes para a cirurgia vascular (questões 23 e 24), quando
indicado segundo as guidelines consultadas, parece ser relativamente pouco
frequente.
Na análise da relação entre os conhecimentos em TC e variáveis como a
experiência profissional e a formação optámos pela utilização de testes não
paramétricos pois a variável ECTC não apresentou uma distribuição normal,
conforme revelou o teste Kolmogorov-Smirnov (K-S =0,87; p=0,035).
Relação entre conhecimentos em TC e a experiencia profissional
Neste estudo verificamos que a pontuação total na ECTC é inversamente
proporcional ao tempo de exercício profissional e à experiência em feridas
crónicas, com correlações de Spearman de -0,319 e de -0,219 respetivamente
(p<0,05). Estes resultados indiciam que quanto mais anos de experiência
profissional genérica (tempo de serviço) e quanto mais anos de experiencia
específica (em tratamento de feridas crónicas), menos conhecimentos são
reportados.
Por outro lado, os enfermeiros que aplicam TC apresentam uma média de
experiência profissional (M=11,48; DP=7,84) inferior aos enfermeiros que não
aplicam TC (M=16,74; DP=10,20) e as diferenças são estatisticamente
significativas (U=811,5; Z= -2,309; p=0,021). Estes dados podem dever-se ao
facto de a TC só recentemente ter sido mais divulgada em Portugal, estando os
enfermeiros mais jovens mais atualizados nesta área, e ao facto de enfermeiros
mais experientes se encontrarem menos recetivos a mudanças nas suas práticas.
Observámos também que a média de pontuações totais na ECTC é superior no grupo
de enfermeiros que aplicam TC (M=11,14; DP=4,13) em relação ao grupo de
enfermeiros que não aplicam TC (M=8,97; DP=4,21) e as diferenças são
estatisticamente significativas (U=694; Z= -3,248; p=0,001). No entanto, a
média de pontuações contínua abaixo de 12 (M=11,14; DP=4,13) e apenas 50,00%
acertaram em mais de metade das questões.
Relação entre conhecimentos em TC e a formação
Quanto à formação em TC, verificamos no quadro 3 que quem não tem nenhuma
formação possui uma média de pontuação na ECTC mais baixa do que os enfermeiros
que possuem algum tipo de formação e que quem possui formação formal em TC
apresentou, em média, pontuações na ECTC mais elevadas do que quem possui
apenas formação informal (p<0,05).
Quadro 3 ' Conhecimentos em TC em função do tipo de formação em TC
Analisando cada tipo de formação formal, verificamos no quadro 4 que cada um
dos tipos tem impacto positivo nos conhecimentos, sobretudo a formação em
serviço e a pós-graduação em viabilidade tecidular (p<0,05).
Quadro 4 ' Conhecimentos em TC em função do tipo de formação em TC
Quem tem formação e prática em avaliar o IPTB parece possuir mais conhecimentos
em TC (p<0,05), conforme se pode analisar no quadro 5. Isto pode dever-se ao
facto de os conhecimentos e prática em avaliar o IPTB surgirem de formações
muito específicas e intensivas em TC, bem como de uma dedicação a esta terapia
por parte do enfermeiro, o que poderá refletir-se num aumento dos
conhecimentos.
Quadro 5 ' Conhecimentos em TC em função da formação e prática em IPTB
Em síntese, observámos neste estudo que a pontuação da ECTC diminui com a
experiência profissional, mas aumenta quando a formação se torna mais
consistente. Estes dados sugerem que a formação é mais importante na construção
de conhecimentos adequados em TC do que a experiência profissional. Esta
conclusão vai ao encontro do que referem, em 2005, Fabião e colaboradores,
segundo os quais a formação é o principal meio gerador de competências, o que
vai melhorar a qualidade dos cuidados prestados e obter ganhos em saúde. Deste
modo, o desenvolvimento dos recursos humanos através da formação profissional
contínua deve ser prioritário na mudança das práticas (Fabião et al., 2005).
Conclusão
Este estudo permitiu um conhecimento mais profundo acerca das práticas e do
nível de conhecimentos de enfermeiros em TC e dos fatores com eles
relacionados. Não obstante a amostra não ser representativa, permitiu-nos
compreender que a terapia compressiva não está ainda devidamente implementada
em todos os locais e que muitos enfermeiros não possuem os conhecimentos
adequados, sobretudo por falta de formação.
Por outro lado, os resultados indiciam que a formação formal temática, mais do
que a experiência profissional, tem um impacto positivo mais determinante no
nível de conhecimentos dos enfermeiros acerca da TC.
A úlcera venosa é o tipo de ferida crónica mais frequente nos centros de saúde
portugueses e possui múltiplas implicações psicossociais e económicas,
sobretudo para os doentes que a têm há vários anos. Sendo a terapia compressiva
o tratamento recomendado por todas as guidelines, porque aumenta
significativamente a taxa de cicatrização e reduz os custos, seria importante
todos os enfermeiros de Cuidados de Saúde Primários que cuidam destes doentes
terem formação e aplicarem a TC como tratamento padrão. No entanto, através
deste estudo, verifica-se que a maioria dos enfermeiros inquiridos não aplica
regularmente a TC e que muitos deles possuem défice de conhecimentos e de
formação nesta área. Por estas razões defendemos uma aposta clara na formação e
incentivo à aplicação da TC, porque, como podemos constatar neste mesmo estudo,
os enfermeiros com formação e experiência em TC apresentam mais conhecimentos e
práticas mais adequadas em TC. Assim, com a implementação efetiva desta terapia
será possível incrementar a qualidade dos cuidados de enfermagem à pessoa com
úlcera venosa e obter ganhos para os doentes (mais qualidade de vida, menos
sofrimento), ganhos para os serviços de saúde (sobretudo a nível económico) e
ganhos para a enfermagem.
Como principais limitações deste estudo destacamos a não representatividade da
amostra e a reduzida dimensão da subamostra de enfermeiros que aplicam terapia
compressiva. Por outro lado o facto de se abordar exclusivamente o problema de
falta de conhecimentos e de formação dos enfermeiros em terapia compressiva,
não considerando outros fatores que possam condicionar o pouco uso desta
terapia, limita o alcance do estudo.
Como trabalho futuro sugere-se uma replicação numa maior e mais representativa
amostra de enfermeiros que aplicam terapia compressiva de modo a validar o
conjunto de práticas aqui estudadas como uma escala, e sobretudo incluir outras
variáveis, para além da formação e experiência profissional, que possam
constituir barreiras à implementação da TC.