Promover a qualidade de cuidados de enfermagem
a pessoas idosas hospitalizadas
Introdução
Na velhice o risco de hospitalização em situações
agudas e crónicas aumenta, pois as pessoas idosas
tendem a apresentar multipatologias e níveis
acentuados de dependência. Aliás, constituem o
grupo etário da população que mais utiliza os cuidados
hospitalares (Pignatelli, 2006): em Portugal há mais de
75 mil reinternamentos por ano e cerca de metade
envolvem pessoas com idade igual ou superior a 65
anos, sendo que, mais de 290 mil internamentos por
ano são superiores a 7 dias.
A doença e a hospitalização na velhice envolvem
múltiplos significados (Carvalhais e Sousa, 2007):
i) associam-se, ou tornam mais real, o medo da
dependência física e/ou a percepção da proximidade
da morte; ii) oferecem a (virtual) possibilidade de
refazer a aliança com a saúde ou assegurar, pelo menos
temporariamente, a sobrevivência; iii) são ambientes
desconhecidos e despersonalizados, logo percebidos
como ameaçadores. O internamento hospitalar numa
pessoa idosa gera diversas emoções e conflitos difíceis
de vivenciar, resolver ou verbalizar, podendo gerar
depressão, desorientação e/ou declínio intelectual,
por vezes irreversível e comprometedor da posterior
qualidade de vida (Rocha, Vieira e Sena, 2008). As
reacções mais comuns dos doentes à doença são a
angústia e a ansiedade, estimando-se que 30% a 60%
apresentam elevado sofrimento psicológico à data da
hospitalização (Serra, 2005). Assim, a hospitalização
representa para as pessoas idosas um desafio que pode
ser vivenciado de diferentes formas, dependendo
de factores como a capacidade de adaptação,
experiências prévias e representações de saúde e
doença. Por exemplo, pessoas idosas com história
anterior de internamento poderão encarar o hospital
com alguma naturalidade, recorrendo às experiências
passadas para enfrentar os problemas actuais. Ocorre,
também, o conformismo face à hospitalização, pois
algumas pessoas idosas vivenciam a hospitalização
como algo que faz parte da vida (Antas et al., 2007).
Em geral, um internamento hospitalar associa-se a
diversos problemas e riscos específicos nas pessoas
mais idosas, principalmente, porque o envelhecimento
fragiliza diversos mecanismos fisiológicos protectores.
Acresce que muitas pessoas idosas chegam ao
hospital com problemas de auto-estima, pois algumas
vicissitudes da vida são fonte de depressão e sentido
de inutilidade, por exemplo: a reforma e a perda de
um papel social activo; a orientação social para a
juventude e a falta de respeito pela experiência de vida.
Durante o internamento ocorrem procedimentos
(simples e rotineiros para o profissional) que
promovem o sentimento de despersonalização no
doente, em particular, pela dificuldade em manter a
privacidade e individualidade. O doente hospitalizado
“é desprovido dos seus pertences, deve vestir um
pijama semelhante aos outros, tem espaços próprios
(uma cama) e reduzidos (um corredor ou sala de
estar) para circular” (Serra, 2005, p.54). O seu tempo
define-se pelas rotinas do contexto e a comunicação
com o exterior é limitada. Estes procedimentos
podem ser vivenciados como ameaçadores, geradores
de ansiedade, trazendo desconforto, insegurança e
stress (Lenardt et al., 2007).
Uma hospitalização tende a reforçar os sentimentos
negativos da pessoa idosa e remetê-la para uma
postura mais passiva e regressiva, o que pode ser
acentuado se os profissionais reforçarem, mesmo
que sem intenção, essa ideia da incompetência. Por
exemplo, a investigação demonstra que as crenças
sobre a velhice, por norma negativas, podem
enviesar a interpretação do que a pessoa idosa afirma
(cf. Carvalhais e Sousa, 2007): são julgados (por
comparação com doentes mais novos) como tendo
menos competências cognitivas.
Neste contexto, o papel do enfermeiro é fundamental
na promoção da qualidade de vida e do envelhecimento
bem sucedido. Os hospitais são, principalmente,
instituições de cuidados de enfermagem, todos os
dias e todas as horas os profissionais de enfermagem
prestam cuidados aos pacientes. As pessoas idosas
são pacientes que, por norma, necessitam de mais
cuidados e tempo (por comparação a pacientes mais
novos), porque tendem a estar mais doentes e ser
dependentes e/ou lentos na realização de actividades
funcionais (Idem). Por isso, tornam-se pacientes mais
incómodos num contexto em que os enfermeiros (e
outros profissionais de saúde) têm muito trabalho e
recebem diversas solicitações.
A investigação sugere que a qualidade dos cuidados
de enfermagem a pessoas idosas hospitalizadas tende
a ser comprometida por diversas razões (Idem): i)
os enfermeiros tendem a prestar os cuidados de
forma mais apressada, dispensando a esses utentes o
mínimo tempo necessário e procurando justificações
no cumprimento de rotinas impostas pela instituição;
ii) centram-se nos cuidados técnicos e na execução de
rotinas evitando os cuidados mais expressivos. Neste
contexto, a pessoa idosa hospitalizada entra num
ciclo vicioso de cuidados: é hospitalizada com uma
doença, sendo o meio hospitalar adverso; as rotinas
hospitalares tratam-no como dependente (incapaz
de…), substituindo-o nos cuidados e podendo levar à
atrofia das capacidades. Alguns estudos demonstram
uma associação entre o comprometimento funcional
e o aumento do número de dias de hospitalização
(Kawasaki e Diogo, 2007), justificado pelo repouso
prolongado no leito durante o internamento (Siqueira
et al., 2004).
Em Portugal, a formação inicial dos enfermeiros
em cuidados às pessoas idosas têm sido de baixa
incidência curricular. A prática de enfermagem à
população idosa aglutina-se em torno da satisfação
das necessidades humanas básicas de sobrevivência
e nos cuidados dependentes da prescrição médica
(Costa, 2000). Contudo, são muitos os enfermeiros
que prestam cuidados no seu quotidiano às pessoas
idosas. Assim, a formação dos enfermeiros para a
prestação de cuidados tem de se centrar num vasto
campo de acção: desde a pessoa idosa saudável à
pessoa dependente.
Objectivos
Este estudo centra-se nos seguintes objectivos: i)
identificar os cuidados de enfermagem prestados
aos pacientes idosos em contexto de internamento
hospitalar; ii) compreender melhor as dificuldades/
obstáculos dos enfermeiros na promoção de uma
relação de cuidados mais expressivos. Este estudo é
relevante para identificar factores de promoção da
qualidade dos cuidados a pessoas idosas internadas
em contexto hospitalar e para identificar modos de
fomentar, sensibilizar e motivar os enfermeiros para a
prestação de cuidados a pessoas idosas.
Metodologia
Este estudo foi submetido à Comissão de Ética do
Hospital Infante D. Pedro (Aveiro, Portugal) que
aprovou a pesquisa. Depois foi solicitada e obtida
autorização dos serviços de medicina (onde se
concentram os cuidados às pessoas idosas, devido
ao tipo de patologia associada ao envelhecimento)
para a realização do estudo. As pessoas idosas
são, tradicionalmente, internados nos serviços de
medicina dos hospitais, embora os serviços resistam
a assumir este facto, devido à elevada especialização
médica e muita tecnicidade no actual contexto
hospitalar. A recolha dos dados decorreu entre Abril
e Setembro de 2008.
Photovoice
A recolha de dados utilizou o photovoice, um
processo de investigação e intervenção participativo
(qualitativo), em que os participantes identificam a
sua vivência pela fotografia (imagem) e discutem-na
em grupo (voz). É uma forma de aceder às realidades
quotidianas dos participantes que são assumidos
como experts nas suas experiências (Wang et al.,
1998). É um método flexível que prevê a adaptação
a diversos tópicos de pesquisa e intervenção e, por
isso, tem sido usado com diversas populações (Wang
et al., 1998; Foster-Fishman et al., 2005), tais como
refugiados, crianças de rua e sem-abrigo. O photovoice
permite capacitar as pessoas para reflectirem sobre
os seus problemas e potencialidades e promover o
diálogo sobre temas importantes.
Desenvolve-se nas seguintes fases (Wang et al., 1998;
Foster-Fishman et al., 2005): i) conceptualização
do problema (neste projecto refere-se à qualidade
dos cuidados de enfermagem a pessoas idosas);
ii) definição das finalidades e objectivos (neste
caso centram-se os cuidados de enfermagem às
pessoas idosas em contexto hospitalar e na reflexão
sobre obstáculos e potencialidades para melhorar a
qualidade dos mesmos); iii) seleccionar e recrutar
os participantes (foram recrutados enfermeiros que
trabalham em serviço de medicina em contexto
hospitalar); iv) conduzir o Photovoice (fase de
desenvolvimento dos grupos descrita no quadro 1).
As fotografias são tiradas pelos participantes no
período que medeia entre as sessões centradas
na questão proposta. Neste sentido, na primeira
sessão são expostos os procedimentos éticos a usar
na obtenção de fotografias, com destaque para o
consentimento livre e informado. No intervalo das
sessões, os participantes tiram as fotografias e, antes
da sessão seguinte, seleccionam 3/4 que consideram
mais relevantes. Durante a sessão cada participante
apresenta as suas fotografias e o grupo elege a
fotografia que melhor traduz o pensamento do grupo
acerca do tema.
As sessões com espaçamento entre 1 e 2 semanas
foram conduzidas e moderadas pela primeira autora.
Tiveram duração entre 60m e 90m e todas foram
gravadas (com autorização dos participantes). Neste
processo foram sentidas algumas dificuldades: i) os
participantes referiam dificuldades em retratar em
fotografia a sua representação do tema (isto é, em
abstrair); ii) o grupo tinha tendência para dispersar
o discurso (por exemplo, referência a vivências do
serviço); iii) a marcação das sessões era difícil, pela
necessidade em conciliar horários de participantes
que fazem turnos.
Participantes
Para recrutar os participantes (informantes
privilegiados), a primeira autora realizou uma
breve apresentação do projecto aos enfermeiros
chefes dos serviços hospitalares de medicina, tendo
abordado: o problema, os objectivos, a metodologia
e a participação solicitada. No final, deixou um
resumo do projecto, juntamente com uma ficha de
inscrição, solicitando a divulgação e o pedido de
participação. Após uma semana recolheram-se as
folhas de inscrição, verificando-se 6 inscritos. Marcouse uma reunião individual para explicar em detalhe o
projecto e a colaboração solicitada. Todos acederam
em participar e assinaram o consentimento livre e
informado. Contudo, 3 participantes desistiram no
decorrer das sessões por indisponibilidade. Assim, 3
enfermeiros participaram em todas as sessões: 2 são
do sexo feminino (Teresa e Joana) e 1 do masculino
(Delfim1), com idades compreendidas entre os 26 e
43 anos.
Análise dos dados
Todas as sessões foram gravadas, transcritas e
submetidas a análise de conteúdo por três juízes
independentes (as autoras e uma enfermeira
especializada). Neste processo considerou-se a
literatura e investigação na área da qualidade do
cuidado em enfermagem a pessoas idosas, mas
procurou-se ser descritivo e manter, sempre que
possível, o discurso dos participantes (mantendo as
suas palavras e/ou expressões). Decidiu-se, sempre
que possível, adoptar as categorias sugeridas pelo
grupo e partir das fotografias eleitas em cada sessão.
O processo envolveu a construção de temas (Fortin,
1999) que traduzissem a opinião dos participantes. A
criação e teste do sistema de categorização seguiram
um processo de refinamento sucessivo. As entrevistas
ideia única (quadro 2).
Resultados
1ª Sessão
Centrou a pertinência do tema em estudo (promover
cuidados de enfermagem de qualidade a pessoas
idosas em contexto hospitalar); os participantes
consideraram “muito relevante”, pois na sua
experiência o cansaço e a falta de tempo acabam por
se traduzir em menos humanização dos cuidados (“há
muitas rotinas”).
2ª Sessão: O que é o cuidado em enfermagem?
Os participantes, para definir o cuidado em
enfermagem, elegeram a fotografia que representa
uma mão, pois entendem que envolve dar conforto,
carinho e disponibilizar tempo. Clarificam este tema
através de quatro aspectos: humanizar, dialogar/
comunicar, executar e estar disponível. Para humanizar
os cuidados salientam a relevância de estabelecer uma
relação de proximidade:
“Acima de tudo humanizar os cuidados é sermos
humanos em relação a outra pessoa!” [Joana, 29
anos]
Dialogar/comunicar, em especial quando confortam
e escutam o doente e/ou a sua família, são factores
fulcrais para criar essa relação de proximidade.
“[a humanização ocorre] a ensinar o utente, dar-lhe
conforto, conversar …” [Joana, 29 anos]
Executar é a tarefa diária a que dedicam mais tempo
e uma das componentes principais do cuidado
em enfermagem, que deve decorrer num clima
de humanização e diálogo. Dão alguns exemplos:
executar a higiene respeitando a privacidade do
utente; ou puncionar criando proximidade.
“Não é só as questões técnicas ou execução de uma
técnica, mas sim a relação de proximidade…”
[Joana, 29 anos].
O enfermeiro para prestar cuidados tem de estar
disponível, em termos emocionais e de tempo, ou os
cuidados perdem qualidade.
“Precisamos de conversar, de estar com o doente, de
ter disponibilidade, o que muitas vezes não temos!”
[Teresa, 26 anos]
3ª Sessão: O que é ser uma pessoa idosa internada?
Para os participantes ser uma pessoa idosa internada
significa “necessitar de ajuda”, mais especificamente,
precisam da execução de técnicas e necessitam de
apoio (especialmente, na percepção dos participantes
por terem sido abandonados pela família). Uma
pessoa idosa internada “precisa da execução de
técnicas” (tais como, alimentação, posicionamentos,
pensos), sobretudo porque a hospitalização tende
a ocorrer na sequência de um momento agudo de
doença. Os enfermeiros sublinham que a falta de
tempo implica que a componente humana seja mais
activada durante a execução das técnicas.
“Em todos os cuidados nós damos a nossa parte
humana. Mesmo que seja uma técnica, eu tenho
que compreender o doente que está ali!” [Joana, 29
anos]
Ser pessoa idosa internada é associado, também, a
precisar de ajuda por “ter sido abandonado pela
família”. Os enfermeiros relatam situações em que
a família não quer as pessoas idosas em casa e, por
isso, continuam internados até a assistente social
arranjar uma instituição. Outras vezes a família até
leva-os para casa, mas pouco tempo depois voltam
para o hospital (falta de cuidados por parte dos
familiares), tratando a pessoa idosa como uma bola
de pingue-pongue.
“Os familiares não querem os idosos em casa e
primeiro que a assistente social encontre um lar, os
utentes estão no hospital mais uns dias!” [Delfim, 43
anos]
4ª Sessão: O que é o cuidado de enfermagem ideal a
pessoas idosas?
Os participantes referem que os cuidados de
enfermagem ideais são aqueles que “satisfazem
as necessidades do doente”, o que inclui: envolver
a família; personalizar o ambiente; monitorizar e
executar rotinas. Envolver a família do utente pode
ser fomentado através do alargamento do horário
de visitas. Contudo, os enfermeiros consideram que,
em geral, os familiares de pessoas idosas apenas
aparecem para curtas visitas e para perguntar ao
médico se está tudo bem, tendendo a recusar a
colaboração noutras actividades (por exemplo,
alimentação).
“É essencial a família, porque faz parte da
identidade de cada pessoa e, além disso, a família
tem que se responsabilizar por aquela pessoa…”
[Joana, 29 anos]
Os participantes salientam a importância de
“personalizar o ambiente”, pois consideram que para
os cuidados serem ideais seria necessário: garantir
a privacidade e sossego dos doentes, existindo, por
exemplo, quartos individuais ou com duas camas; ter
música e televisão; disponibilizar espaço nos quartos
para os doentes terem alguns objectos pessoais (tais
como fotografias ou objectos religiosos); e, também,
garantir um espaço para os enfermeiros colocarem as
suas coisas.
“Os utentes não têm objectos pessoais: fotografias,
jarra de flores; não tem espaço para isso!” [Teresa,
26 anos]
Satisfazer as necessidades do doente exige monitorizar
e executar rotinas correctamente e com humanidade,
i.e. tal como aprendemos.
5ª Sessão: O que é o cuidado real de enfermagem a
pessoas idosas?
Os participantes salientam que o cuidado real
a doentes idosos é aquele “prestado no limite”,
traduzindo-se em: quartos sobrelotados; excesso de
doentes por enfermeiros; excesso de medicação; e
falta de apoio dos familiares.
Os quartos sobrelotados significam aumento
da dificuldade na prestação de cuidados, maior
probabilidade de infecção cruzada e menor
privacidade dos doentes.
“Dificuldade de prestar cuidados por falta de
espaço… numa ocasião, para se ter um bipap, tevese que retirar a mesa-de-cabeceira!” [Delfim, 43 anos]
Os cuidados de enfermagem a pessoas idosas
hospitalizadas tende a ocorrer com a ocupação
total das camas do serviço e com doentes muito
dependentes; nestas circunstâncias o número de
enfermeiros habitual torna-se muito escasso (excesso
de doentes por enfermeiro) e, por isso, asseguram-se
os cuidados técnicos, mas os de cariz mais humano
ficam num segundo plano. O cuidado a doentes
idosos em hospital caracteriza-se pelo excesso de
medicação, necessário devido às condições de saúde/
doença.
“A medicação é toda retirada no turno da tarde.
Algumas vezes, quando dá tempo, prepara-se antes
ou durante a passagem de turno!” [Teresa, 26 anos]
A situação tende a agravar-se com a falta de apoio dos
familiares, principalmente quando não os vêm buscar
e o tempo de internamento tem de se prolongar.
6ª Sessão: O que afasta os cuidados reais do ideal?
Para os participantes, os cuidados de enfermagem
reais afastam-se do ideal principalmente pela
“escassez e desorganização” no serviço que se traduz
em: falta de tempo; falta de recursos; e dificuldade de
adaptação dos enfermeiros.
A falta de tempo é uma consequência directa da
desorganização e escassez de recursos; assim, muito
tempo é retirado à prestação de cuidados ao doente
(ou há constantes interrupções) pois, tem de ser
utilizado a tentar arranjar material ou a atender o
telefone.
“Muitas vezes temos que deixar o utente para ir
atender o telefone. Um telefonema que grande parte
das vezes não é para nós!” [Delfim, 43 anos]
Os enfermeiros também enfrentam e têm de se adaptar
à falta de recursos, designadamente: i) escassez de
material (por exemplo de monitores, bombas ou
seringas perfusoras); ii) espaço (por exemplo, quando
há muitas camas numa enfermaria); iii) má articulação
entre serviços (por exemplo, não ser avisado com a
devida antecedência da transferência de doentes).
“Por exemplo: vamos pedir 50 pensos porque estamos
em contenção, sabendo que são precisos 100. Se
faltar depois pede-se a outros serviços!” [Joana, 29
anos]
Nestas condições enfrentam dificuldades de
adaptação aos serviços e, com frequência, têm de
contrariar as suas convicções.
“Temos de nos adaptar, mediante as condições que
existem e por aquilo que nos é imposto. Muitas vezes
indo contra as nossas convicções, mas fazemos!”
[Teresa, 26 anos]
7ª Sessão: O que aproximaria o cuidado real em
enfermagem do ideal?
Os participantes sublinham que o cuidado real se
podia aproximar do ideal através de “trabalho e
decisão em equipa multidisciplinar”, o que facilitaria:
i) continuidade e consistência dos cuidados (por
exemplo, existir um procedimento para fazer pensos);
ii) distribuir os doentes por enfermeiro considerando
o nível de dependência (em vez de um número
fixo); iii) tomada de decisões, que muitas vezes são
discutidas na passagem de turno por elementos
da equipa de enfermagem, não incluindo outros
profissionais de saúde.
“Num serviço em que faltam algumas coisas, se a
equipa não trabalhar em conjunto para o bem-estar
do doente, não se consegue nada!” [Joana, 29 anos]
O trabalho e decisão em equipa multidisciplinar
facilitaria a existência e disponibilidade do material
e equipamento necessário para realizar e executar
bons procedimentos, pois fomentaria a articulação
entre serviços e a troca de materiais e equipamentos.
Também tornaria as “condições de trabalho”
melhores, pois os enfermeiros e todo o restante
pessoal se sentiriam mais apoiados. Além disso,
facilitaria o acesso à “formação” dos profissionais de
saúde; é exigido que a instituição tenha um plano de
formação anual consistente com as necessidades, mas
com frequência, esse plano não é respeitado.
“A formação que se faz é a que se faz lá fora, por
nossa conta…Não há grandes incentivos!” [Teresa,
26 anos]
8ª Sessão: Promover cuidado de qualidade a pessoas
idosas internadas
Na última sessão, os participantes resumiram as suas
opiniões acerca da promoção de cuidados de qualidade
a pessoas idosas em contexto hospitalar em cinco temas
(e duas fotografias, Figuras 1 e 2): apoiar/comunicar
com o doente; estar com o doente; colher dados;
hidratar/alimentar; conforto/privacidade. Apoiar/
comunicar com o doente é uma forma de demonstrar
a nossa disponibilidade, o que nem sempre é possível
devido à falta de tempo e escassez de enfermeiros. Por
isso, os enfermeiros acabam por “estar com os doentes”
quando “colhem dados”, usando estes momentos para
estabelecer uma relação de proximidade e, assim,
minimizar a escassez de cuidados expressivos (por
vezes secundarizados por falta de tempo).
“Hidratar/alimentar” são cruciais e prioritários para a
promoção de cuidados de qualidade a pessoas idosas,
pois inscrevem-se nas suas necessidades. Salienta-se
a importância de garantir “conforto e privacidade”,
designadamente, durante a realização das técnicas.
O comentário dos participantes às fotografias sugere:
mais do que executar uma técnica é necessário
considerar a realização humana.
Relativamente ao método photovoice, os participantes
referiram como dificuldades a falta de tempo e
dificuldade em fotografar ideias e conceitos: a
fotografia é estática e às vezes não representa bem
o que queremos. Como impacto da participação neste
estudo referem a reflexão acerca do cuidar que ajuda
a melhorar o desempenho.
Discussão dos resultados
Cuidados de enfermagem a pessoas idosas
em hospital
Os enfermeiros participantes neste estudo definem
o cuidado em enfermagem principalmente pela
componente expressiva que representam através
da fotografia “mão”. Esta imagem tradicional em
enfermagem é símbolo da capacidade evolutiva (fazer
e transformar), representando um saber-fazer que
procura responder à necessidade de alguém. Contudo,
descrevem que a maioria dos cuidados de enfermagem
a pessoas idosas internadas em hospital se centra
nas técnicas e cumpre-se em rotinas. Paralelamente,
consideram a pessoa idosa como alguém que precisa
de ajuda, especialmente em termos de técnicas. Ou
seja, há alguma inconsistência no discurso: na definição
dos cuidados de enfermagem valorizam a componente
afectiva, embora reconhecendo que na prática assumem
um papel secundário face à técnica; caracterizam uma
pessoa idosa internada pela “necessidade de ajuda” que
especificam como precisar da execução de técnicas. Ou
seja, parece que a harmonia entre técnica e afectividade
ainda é um processo em desenvolvimento e mais fácil
de descrever do que praticar. De facto, o profissional
poderá não ser o informante mais privilegiado da
experiência das pessoas idosas (serão as pessoas
idosas hospitalizadas os melhores), mas a perspectiva/
percepção dos profissionais é relevante, pois traduz a
forma como olham ou vêem a pessoa idosa internada e
pode influenciar a sua acção.
Dificuldades/obstáculos a cuidados
expressivos
Os participantes centram os obstáculos em escassez
de tempo, falta de recursos e frágil envolvimento das
famílias dos doentes idosos.
A falta de tempo implica que os enfermeiros executem
as técnicas em rotinas, apesar de tentarem fazê-lo de
forma humanizada. As rotinas incluem os horários
do banho, refeições e as associadas às prescrições
médicas (como colheita de sangue e medicação). Estas
rotinas são essenciais para responder às necessidades
e fazem parte da experiência normativa de uma
instituição, mas acarretam algum distanciamento
entre enfermeiros e utentes (cf. Bocchi et al. 2007).
A falta de tempo decorre da escassez de recursos
humanos e materiais e, ainda, da desorganização em
termos de gestão. O ambiente social e organizacional
em que se trabalha condiciona a dinâmica de
funcionamento, podendo mesmo retirar o doente do
centro da acção. Perante a escassez e desorganização
descritas pelos participantes desencadeia-se um
contexto de trabalho nas enfermarias onde impera a
rapidez, agitação, cumprimento de tarefas e elevada
taxa de rotatividade dos doentes pelas camas,
proporcionando o desenvolvimento de mecanismos
de defesa nos enfermeiros que diminuem a sua
sensibilidade (Martinho, 2001). Os participantes
reconhecem que as pessoas idosas requerem mais
tempo de cuidados de enfermagem, mas reclamam
que os gestores raramente têm isso em consideração.
Também referem que tentam tirar o máximo proveito
das intervenções instrumentais para reforçar o
cuidado expressivo, por exemplo, comunicando
com o utente durante os cuidados de higiene ou a
execução de outras técnicas. Mas assumem que o
pouco envolvimento da pessoa idosa, muitas vezes
bastante dependente e com comprometimentos na
comunicação, dificulta o investimento nos cuidados
expressivos.
Além disso, o frágil envolvimento das famílias dificulta
os cuidados e principalmente a alta, em particular
quando os familiares não mostram interesse em levar
o familiar para casa. Contudo, a investigação indica que
o apoio a pessoas idosas está concentrado na família
e que o abandono é mais um mito limitado a uma
percentagem reduzida de pessoas idosas. Algumas
famílias recusam-se a levar as pessoas idosas para casa
após a alta hospitalar, alegando que não têm condições
para as receber nos domicílios e que não há vagas nas
instituições. Com frequência esta atitude é catalogada
como desinteresse e abandono, mas pode ser muito
realista, pois o aumento do número de pessoas idosas
com dependência não tem sido acompanhado pelo
desenvolvimento de estruturas sociais e de saúde.
Acresce que as alterações estruturais e funcionais na
família (tais como a integração da mulher no mercado
de trabalho e o aumento das e/migrações) exigem que
o apoio familiar seja combinado com o formal, isto é,
a família que quer cuidar dos seus elementos idosos
precisa de suporte de instituições e profissionais
(Marin e Angerami, 2002; Caldas, 2003). Além disso, o
cuidado às pessoas idosas emerge centrado no utente,
a família não recebe cuidados, i.e. não é integrada
na unidade de cuidado. Apenas se exige à família
que após a alta hospitalar leve o familiar para casa e
cuide dele, mas não se atende às suas necessidades,
verificando-se muitas vezes sentimentos de revolta e
tristeza por parte dos cuidadores. Num estudo acerca
do cuidar da família a pessoas idosas dependentes
por AVC, verificou-se que a origem de sentimentos
negativos por parte dos cuidadores era atribuída aos
profissionais de saúde (Araújo, Paúl e Martins, 2008).
Os obstáculos que os enfermeiros tendem a identificar
como inibidores da sua competência são extrínsecos
a si, focando a falta de enfermeiros e de condições de
trabalho (Costa, 2000). Deste modo, os enfermeiros
colocam-se numa postura de impotência adequada
(Sousa e Eusébio, 2007): não podem fazer mais nada,
pois não depende deles. Seria importante reflectirem
sobre os obstáculos intrínsecos para poderem sair
desta postura que é simultaneamente cómoda e
frustrante. Por exemplo, a escassez de recursos nem
sempre é impeditivo da prestação de cuidados de
qualidade, pode ser geradora de formas inovadoras e
criativas de resolução dos problemas (Cadete, 2004).
Promover a qualidade dos cuidados de
enfermagem
Os enfermeiros envolvidos neste estudo destacam
que para promover a qualidade dos cuidados
de enfermagem a pessoas idosas hospitalizadas,
é relevante a personalização do ambiente e o
envolvimento da família. Enfatiza-se a necessidade
de personalizar o ambiente, por exemplo, tendo um
espaço para colocar objectos pessoais do utente.
Deste modo cria-se um ambiente mais amistoso e
com identidade que ajudará o utente a vivenciar a
hospitalização da melhor forma. Envolver a família
é um processo em dois sentidos (Silva et al.,
2004): a equipa de saúde deverá acolher a família e
ajudá-la no processo de sofrimento; a família dará
continuidade aos cuidados seguindo os ensinos
da equipa de saúde. A equipa de saúde deverá
preparar e planear o momento da alta hospitalar,
assegurando que os familiares recebem informações
claras sobre a doença, cuidados e/ou indicação de
um serviço para prosseguir o tratamento. Por norma,
a orientação é superficial e centrada na medicação
e alimentação, deixando a família ansiosa e com
sentimentos de incapacidade; há ainda a ponderar
as situações de pessoas idosas que não têm família,
cujas famílias não tem condições financeiras ou em
que os familiares precisam de trabalhar e não podem
prestar os cuidados (Caldas, 2003). Principalmente os
participantes salientam a necessidade de trabalhar e
decidir em equipa, até porque esta seria uma forma
de gerir melhor os recursos humanos e materiais e
articular os serviços.
Conclusão
As pessoas idosas hospitalizadas tendem a receber
cuidados de enfermagem de rotina, sendo os
aspectos relacionais frequentemente negligenciados.
Os enfermeiros participantes neste estudo
valorizam mais a componente humana do cuidar,
mas reconhecem que é na técnica que a sua prática
se centra. A maioria dos cuidados de enfermagem
prestados pelos participantes nos serviços de medicina
hospitalares dirige-se a pessoas idosas e centra-se na
técnica e nas rotinas, que se esforçam por efectuar
de forma humanizada. Tal ocorre, essencialmente,
por falta de tempo e recursos humanos. Como meios
facilitadores de uma boa prestação de cuidados
referem o envolvimento da família e a personalização
do ambiente. Para além disso, é preciso trabalhar e
decidir em equipa multidisciplinar.
A prática de enfermagem neste contexto terá de
ser repensada: i) a nível de gestão considerando as
necessidades específicas comuns na população idosa
(designadamente os graus elevados de dependência
que aumentam as necessidades de cuidados de
enfermagem); ii) a nível da prática dos enfermeiros que
terão de reforçar os cuidados expressivos, associandoos aos cuidados mais técnicos; iii) atendendo às
necessidades das famílias que precisam de apoio e
formação para poderem retornar a casa com o seu
familiar idoso, prestando os cuidados necessários e
adequados. A formação dos enfermeiros na área da
geriatria e gerontologia também deve ser fortalecida e
alargada. Na Enfermagem verifica-se que a experiência
de trabalho com pessoas idosas tem precedido a
formação, o que poderá estar a gerar alguns dos
constrangimentos identificados: os profissionais de
enfermagem não conhecem as especificidades da
velhice e do envelhecimento, adoptando posturas,
atitudes e comportamentos que são adequados
em geral, mas não atendem às particularidades
das pessoas idosas e suas famílias. Contudo,
esta experiência que tem precedido a formação
especializada não pode ser negligenciada e deve ser
aproveitada para organizar a formação. Pensamos que
a investigação deve continuar a explorar a experiência
dos enfermeiros com pessoas idosas para ganhar
conhecimento sobre as necessidades de formação
e para identificar aprendizagens que decorrem da
experiência que podem inovar a formação.
Este estudo apresenta diversas limitações,
nomeadamente, a dimensão reduzida da amostra que
decorreu do método de recolha de dados que causava
receios nos participantes e lhes ocuparia muito
tempo. Contudo, o método de recolha é rico e pode
desvanecer alguns limites. Como perspectivas de
pesquisas futuras seria interessante ultrapassar estas
limitações e recolher dados em diferentes contextos
hospitalares, usar métodos de recolha paralelos para
comparar e ouvir outros actores: pessoas idosas, seus
familiares e outros profissionais.