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Representação em texto

EuPTCVHe0872-81782012000600009

variedadeEu
ano2012
fonteScielo

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Alergia às proteínas do leite de vaca em adolescente com anafilaxia: uma opção terapêutica inovadora

Introdução As reações adversas a alimentos dividem-se em 2 tipos: as de causa alérgica, mediadas por mecanismos imunológicos nos quais pode participar ou não a IgE (alergia alimentar IgE ou não-IgE mediada), e as devidas a outras formas de hipersensibilidade / intolerância; esta última inclui as causas metabólicas/ enzimáticas, farmacológicas, tóxicas e idiopáticas1. Nas últimas décadas, a alergia alimentar tem assumido uma prevalência e gravidade crescentes, estimando-se que atinja atualmente 5% das crianças com menos de 5 anos e 4% dos adolescentes e adultos2. A apresentação clínica é variável, podendo ocorrer manifestações mucocutâneas, respiratórias, gastrintestinais e, em alguns casos, anafilaxia. As manifestações gastrintestinais são comuns2 (vómitos, diarreia, esofagite e gastrenterite eosinofílicas, proctocolite alérgica) e entram no diagnóstico diferencial com outros distúrbios deste foro, impondo em muitos casos o apoio do gastrenterologista. Trata-se atualmente de uma patologia relativamente à qual, para além da evicção alergénica, as opções terapêuticas específicas são muito limitadas. A possibilidade de uma abordagem ativa, para induzir a tolerância alimentar, tem sido empreendida com sucesso variável3-5.

Nos primeiros anos de vida, a alergia às proteínas do leite de vaca (APLV) afeta cerca de 2,5% das crianças e, considerando as formas IgE (cerca de 60%) e não-IgE mediadas, constitui a alergia alimentar mais comum em idade pediátrica6. Na maioria das crianças é ultrapassada até à idade escolar, mas uma percentagem considerável mantém a clínica durante a segunda década de vida6,7. O tratamento convencional da APLV consiste na evicção das proteínas do leite de vaca (LV), para além da resolução dos episódios agudos.

Nos casos de APLV persistente grave, o prognóstico é menos favorável e a probabilidade de acidentes por exposição a alergénio oculto é elevada, com uma prevalência anual que pode chegar a 20% dos doentes6.

Torna-se essencial, portanto, a identificação de uma alternativa terapêutica, o que justifica o forte empenhamento na investigação de indução de tolerância alimentar ao LV3-5.

Caso clínico Adolescente do sexo masculino, 16 anos de idade, com antecedentes familiares de atopia (mãe) e pessoais de asma intermitente e rinite alérgica persistente moderada (sem terapêutica preventiva), e urticária ao frio, encontrando-se sensibilizado a pólenes de gramíneas e de oliveira e a ácaros do doméstico.

No 1.◦ ano de vida foi-lhe diagnosticada APLV, tendo sido seguido em consulta de Imunoalergologia, onde terá sido recomendada a evicção de proteínas de LV e proposta alimentação com soja. Nos últimos anos acabou por abandonar a referida consulta, referindo como motivo o desânimo e a ausência de alternativas terapêuticas.

Em fevereiro de 2010, no bar do nosso hospital, poucos minutos após ingerir um folhado de salsicha que desconhecia conter queijo, teve uma reação anafiláctica (urticária generalizada, dificuldade respiratória e tonturas, sem perda do conhecimento). Não era portador de dispositivo para autoadministração de adrenalina. Foi transportado ao Serviço de Urgência onde foi tratado com adrenalina e metilprednisolona, com resolução do quadro em 6 horas. Foi referenciado à consulta de Imunoalergologia da nossa Unidade, referindo ter tido várias reações anafilácticas com alergénio oculto na adolescência, que motivaram internamentos. Foi-lhe prescrito corticóide nasal para controlo da rinite, esquema de crise de asma com agonista beta-2 de curta ação inalado e esquema terapêutico em caso de anafilaxia por contacto acidental com LV (dispositivo para autoadministração de adrenalina, anti-histamínico e corticóide sistémico).

Em março de 2010 apresentava IgE específicas (ImmunoCAP®, Phadia, Uppsala, Suécia) positivas para LV (59,8 KU/L), caseína (53,3 KU/L), _-lactoalbumina (6,92 KU/L) e _-lactoglobulina (0,87 KU/L) (valores normais < 0,10 KU/L), assim como testes cutâneos com extratos comerciais (Laboratórios Leti, Madrid, Espanha) positivos para LV (6mm de pápula média), caseína (8 mm), _- lactoalbumina (11 mm) e _-lactoglobulina (7 mm). Nessa altura, considerando o quadro clínico, e após explicação detalhada dos riscos e das vantagens do procedimento, é proposto ao adolescente e à família iniciar um protocolo de indução de tolerância às proteínas do LV (detalhado na tabela_1).

Foi recomendada a ingestão diária das doses de manutenção, sempre após a refeição e sem exercício físico vigoroso nas 2 horas subsequentes. Cerca de 5 dias após ter iniciado a dose de 100 ml 2 vezes por dia (3.a visita), manifestou dor abdominal tipo cólica, reprodutível, imediatamente após a toma da manhã, acompanhada de vómito e dispneia que resolveu com salbutamol.

Contactou a equipa médica e foi-lhe dada indicação para reduzir a dose para metade, que manteve sem mais intercorrências até à visita seguinte.

Não se verificaram mais intercorrências significativas até ao final do protocolo, cumprindo atualmente uma dieta sem restrições, com indicação para manter ingestão diária mínima de 200 ml de LV. Tem programadas consultas trimestrais. Em novembro de 2010 repetiu estudo analítico que evidenciou diminuição das IgE específicas para LV (25,8 KU/L) e caseína (35,4 KU/L) e elevação da IgE específica para _-lactoalbumina (23,2 KU/L) e _-lactoglobulina (1,76 KU/L).

Discussão Os mecanismos imunológicos implicados no aparecimento da alergia alimentar ainda não estão totalmente esclarecidos, embora provavelmente resulte de uma ausência de tolerância oral, ou seja, a inexistência de uma resposta ativa do sistema imunitário a um antigénio apresentado pela mucosa gastrintestinal. Nos doentes alérgicos, porém, essa resposta pode ocorrer naturalmente ou ser induzida. São vários os mecanismos responsáveis pela aquisição de tolerância, nomeadamente a indução de anergia clonal, a deleção clonal das células efectoras e a supressão celular ativa. Os 2 primeiros mecanismos justificariam a aquisição de tolerância favorecendo a alergia (intervenção de citocinas solúveis ou por interação entre recetores da célula T e das células apresentadoras de antigénio - CD80 e CD86) ou da deleção de clones de células T antigénio-específicas (por apoptose), ocorrendo quando o organismo se encontra exposto a elevadas concentrações de antigénio. O último, com indução de células T reguladoras produtoras de citocinas anti-inflamatórias, corresponderia à exposição mantida a baixas concentrações de antigénio.

O LV contém numerosas proteínas das quais 8 têm potencial alergénico, sendo as caseínas (Bos d 8) e as _-lactoglobulinas (Bos d 5) as mais frequentemente responsáveis pela ocorrência de APLV8.

As formas IgE-mediadas constituem mais de metade dos casos de APLV6, apresentando-se habitualmente por sintomatologia (tabela_2) imediata, poucos minutos após a ingestão, com quadros que variam desde apenas sintomas cutâneos (urticária, angioedema) ou gastrintestinais (vómitos, dor abdominal, diarreia), até quadros de anafilaxia potencialmente fatais2, mesmo com ingestão de pequenas doses9.

Dos doentes com APLV, 18 a 50% desenvolvem alergias a outros alimentos6,10,11, 32 a 41% desenvolvem asma, 20% eczema atópico e 20 a 31% rinoconjuntivite10, como é o caso do doente que reportamos. Muito embora no passado se acreditasse que o prognóstico era favorável, destacamos que os dados mais recentes revelam uma tendência para duração mais prolongada, reportando uma taxa de resolução da APLV IgE-mediada de 64% aos 12 anos e de 79% aos 16 anos7, sendo a caseína o alergénio mais associado a esta persistência7.

Tradicionalmente, a estratégia de abordagem adotada tem sido a dieta de evicção e o tratamento dos episódios acidentais, com base na justificativa teórica de que a ausência de exposição determinaria a deleção da memória imunológica. Esta abordagem, contudo, não assegura níveis aceitáveis de controlo do risco de ingestão dos alergénios na forma oculta, com consequente ocorrência de reações, face à enorme variedade de produtos alimentares processados e em diferentes situações, apesar do Decreto-Lei n.◦ 126/2005 ter vindo a alterar significativamente a legislação da rotulagem ao introduzir o conceito de alimentos com potencial alergénico majorde referenciação obrigatória nos rótulos. Neste cenário de pluralidade de fatores não controláveis potenciadores da ocorrência de reações adversas, com índices de gravidade elevados, como documentado no presente caso clínico, tendência para duração mais prolongada, e o forte impacto na qualidade de vida dos doentes e suas famílias, justifica-se ponderar uma alternativa.

Pensando nos mecanismos primários de tolerância que ocorrem após a exposição a alergénios alimentares, pode-se conceber que, utilizando a mesma metodologia é possível induzir secundariamente o estado de tolerância em indivíduos que a perderam ou que nunca adquiriram este estado de normalidade. Com o objetivo de induzir tolerância e reproduzir o processo natural mais fisiológico, o alergénio implicado deve ser preferencialmente apresentado, no caso dos alergénios alimentares, no tubo digestivo, por via oral ou sublingual.

A indução de tolerância às proteínas do LV tem sido investigada em vários centros, com diferentes protocolos e resultados bastante díspares12-17.

Atualmente, as metodologias são ainda muito variáveis, sobretudo na fase de indução, em que nos protocolos convencionais aumentos de dose diários ou a intervalos de poucas semanas, enquanto nos protocolos rápidos (rush) os aumentos de dose ocorrem em intervalos de minutos a horas; existem também protocolos mistos. A ocorrência de efeitos secundários tem sido a regra nos protocolos orais rápidos12,13. Por outro lado, a duração dos protocolos convencionais é extremamente longa14, tratando-se portanto de uma terapêutica morosa e que consome muito tempo, para doentes e médicos.

A administração de anticorpos monoclonais como terapêutica coadjuvante, tal como no caso da dessensibilização a aeroalergénios com Omalizumab, foi também investigada no contexto de indução de tolerância alimentar, tendo apresentado bons resultados18. Porém, o inovador protocolo misto que desenvolvemos19, com uma fase de indução rápida seguida de uma abordagem um pouco mais lenta, com via de administração sub-lingual e oral, usando como extrato alergénico o LV em natureza não-diluído, mas prevendo adaptações de doses, tem revelado excelente eficácia (com aquisição de tolerância para 200 ml de LV em menos tempo) e segurança mesmo em quadros com clínica de anafilaxia grave e sem necessidade de terapêutica imunológica coadjuvante, independentemente dos níveis das IgEs específicas, tal como ocorreu no caso em discussão, não tendo estas valor preditivo do sucesso do protocolo; no acompanhamento deste caso observou-se a redução imediata das IgEs específicas para LV e caseína, mas com subida da IgE específica para _-lactoalbumina e _- lactoglobulina.

Este procedimento, realizado em centros especializados e por equipas médicas experientes, com doentes e famílias esclarecidos e francamente motivados, afigura-se como uma estratégia terapêutica inovadora em casos de APLV IgEmediada, constituindo a única possibilidade de modificar a história natural desta patologia comprovada por estudo controlados15-17, e conferindo proteção relativamente à ingestão inadvertida, nomeadamente na forma de alergénio oculto, o que permite uma melhoria significativa da qualidade de vida destes doentes e dos seus familiares.

Durante a realização dos protocolos alguns fatores associam-se a um risco aumentado de reações para doses previamente toleradas; o esforço físico intenso, podendo associar-se a um processo de anafilaxia induzida pelo exercício dependente da ingestão do alimento, tem sido, na nossa experiência, o mais comum19. Esta possibilidade justifica que os doentes com história de anafilaxia continuem a ser portadores de dispositivo para autoadministração de adrenalina, mesmo após conclusão do protocolo. Especialmente na fase de indução, a administração do alergénio não deverá ser feita em jejum19. A terapêutica antialergénica indicada para o controlo das patologias coexistentes deverá ser mantida durante todo o protocolo.

Por fim, salienta-se que os dados disponíveis até à data não permitem estabelecer que a tolerância adquirida desta forma seja duradoura, pelo contrário, os estudos apontam para a dependência da ingestão sustentada do LV, podendo a sua interrupção levar à regressão do estado de tolerância alcançado17,19,20.


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