REMOÇÃO DE CORPO ESTRANHO ESOFÁGICO COM RECURSO A LASER 155
Doente de 60 anos de idade com queixas de disfagia
para sólidos com uma semana de evolução, de aparecimento súbito após ingestão de peixe, que a doente localizava na região cervical. Não referia odinofagia, dispneia ou febre nem apresentava antecedentes digestivos.
Referia ter sido efectuada observação laringológica logo
após o início da disfagia mas sem detecção de qualquer
corpo estranho, tendo sido medicada com amoxicilina e
um anti-inflamatório.
Ao exame físico apresentava-se apirética, corada e
hidratada, sem tumefacções cervicais ou enfisema cutâneo. Não apresentava alterações da fala e afirmava deglutir líquidos sem problemas. Foi proposta à doente a
realização de endoscopia digestiva alta.
Ao exame endoscópico, efectuado sem sedação e com
boa tolerância, foi detectada espinha de peixe, com cerca
de 30mm de extensão, situada logo abaixo do esfíncter
esofágico superior, encravada profundamente nos seus
dois topos, condicionando estenose luminal infranqueável, não se observando qualquer sinal de hemorragia
(Figura 1). Foi tentada a sua mobilização com pinça de
corpos estranhos, sem sucesso pela fixação dos seus dois
topos e risco de perfuração ou laceração. Através da
insuflação de balão TTS abaixo do corpo estranho,
aumentando o diâmetro luminal, tentou-se libertar um
dos topos, também sem eficácia. Tentou-se de seguida a
fragmentação da espinha com recurso a árgon-plasma,
sem sucesso. Posteriormente utilizou-se Laser de
Nd:YAG numa dose total de 600J, a qual se revelou eficaz ao seccionar a espinha em dois fragmentos (Figura 2)
permitindo o fácil desencravamento dos topos e a sua
mobilização para a cavidade gástrica com uma pinça de
corpos estranhos. Ao controlo endoscópico foram observadas duas lacerações locais, sem hemorragia ou sinais
de perfuração (Figura 3).
A doente teve alta clínica com indicação de realizar dieta
líquida durante 24 horas e associando-se metronidazol
oral à antibioterapia já prescrita, tendo a sua situação
sido resolvida.
A presença de corpos estranhos no tubo digestivo é fre-
quente, quer por ingestão involuntária, quer voluntária,
sendo o tracto superior a sua localização mais frequente
(1). Em adultos, na maioria das situações trata-se da
impactação de alimentos no esófago distal, existindo em
mais de 75% dos casos algum tipo de estenose luminal
(benigna ou maligna) (2), enquanto os corpos estranhos
rígidos encravam predominantemente no esófago proximal (3).
O exame diagnóstico de eleição é a endoscopia digestiva alta, não só pela sua elevada acuidade diagnóstica (na
localização e caracterização do corpo estranho, patologia digestiva subjacente e complicações locais) mas
também pelas suas capacidades terapêuticas (2, 3, 4). De
preferência deve ser efectuada nas primeiras 24 horas
após a ingestão dado que, após este intervalo de tempo,
o risco de complicações aumenta significativamente (2).
A eficácia da remoção do corpo estranho depende da
forma deste, das suas dimensões e da localização do
mesmo, variando a taxa de sucesso entre 90 e 100% (1,
3, 4). Há vários métodos disponíveis para a remoção de
corpos estranhos, sendo a cesta de Dormia útil nos
objectos lisos e redondos, as pinças mais adequadas para
objectos pontiagudos e a ansa de polipectomia mais ver-
sátil pela capacidade de remoção assim como de fragmentação de corpos estranhos. A opção depende normalmente da forma e tipo de corpo estranho assim como
da experiência e das disponibilidades oferecidas por
cada unidade endoscópica (1, 2, 3, 4, 5).
No caso de objectos de grandes dimensões, não mobilizáveis e de elevada consistência, a sua fragmentação
pode ser tentada com recurso a árgon-plasma ou Laser,
tendo este último uma maior capacidade de destruição
tecidual. Nesta situação em particular, a não mobilização
do corpo estranho com os acessórios disponíveis, pelo
risco de agravar a lesão esofágica, assim como a demonstrada ineficácia do árgon-plasma, levou à utilização de Laser que permitiu o sucesso clínico obtido.