TOXICIDADE DUODENAL AGUDA SECUNDÁRIA A RADIOTERAPIA:
ALTERAÇÕES ENDOSCÓPICAS NÃO DESCRITAS NA LITERATURA
A toxicidade secundária à radioterapia tem sido estudada ao nível do intestino delgado e do cólon, principalmente no que diz respeito aos seus efeitos tardios, mas
também no que se refere às lesões agudas observadas
durante a realização de terapêutica no contexto de neoplasias (1). A informação disponível relativa às alterações endoscópicas agudas a nível duodenal é reduzida
e provém de doentes com tumores dos quadrantes superiores do abdómen submetidos a radioterapia, consistindo na presença de erosões e úlceras (2-4).
Apresenta-se o caso clínico de um doente com 55 anos,
sexo masculino, com diagnóstico de neoplasia laríngea
em 2000, tendo sido, nessa altura, submetido a endoscopia digestiva alta para exclusão de neoplasia síncrona
do esófago. Não se verificaram alterações da mucosa na
progressão até à segunda porção do duodeno. O doente
foi submetido a quimioradioterapia com resposta completa.
Em 2003, detectou-se recorrência óssea, ao nível da coluna vertebral lombar e para paliação anti-álgica, foi
submetido a radioterapia local (dose total de 3000 cGy
durante 10 dias). Encontrando-se ainda sob radioterapia, referiu disfagia e realizou uma endoscopia digestiva alta, tendo-se observado uma estenose regular ao
nível do esófago cervical compatível com lesão rádica
tardia. Na mucosa duodenal, existiam alterações exuberantes, mais marcadas na primeira porção. A mucosa
apresentava um aspecto intensamente "arborescente" ou
"dendrítico", com pregas múltiplas com orientação
irregular e algum edema (Figura 1 e 2). Não se registou
friabilidade, erosões ou úlceras. As biópsias duodenais
revelaram a presença de estase, edema e erosão da
mucosa, que eram compatíveis com lesão isquémica
aguda, interpretadas neste contexto como toxicidade
secundária à radioterapia (Figura 3). Dois meses após
ter terminado a radioterapia, foi realizada uma endo-
scopia digestiva alta e registou-se regressão parcial das
lesões previamente referidas. .A literatura relativa a toxicidade duodenal aguda secundária à radioterapia é
reduzida e não identificámos nenhuma descrição idêntica à apresentada.