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Representação em texto

EuPTCVHe0872-07542013000100007

variedadeEu
ano2013
fonteScielo

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Síndrome de Hanhart: caso clínico

INTRODUÇÃO A associação de malformações oromandibulares e dos membros é rara, tendo sido descrita pela primeira vez por Kettner (1907)(1). Posteriormente Rosenthal (1932) descreveu uma menina de três anos com microglossia, micrognatia, fenda labial, ausência de incisivos inferiores e deformidades das mãos e pés(2). Em 1950 Hanhart descreveu três casos de aglossia e deformidades dos membros(3).

Desde então, descrições na literatura de raros casos, verificando-se grande variabilidade fenotípica entre eles.

CASO CLÍNICO Gravidez vigiada sem intercorrências até às 24 semanas de gestação, altura em que é feito o diagnóstico pré-natal ecográfico de malformações dos membros. Às 29 semanas foi referenciada à nossa maternidade, onde repete ecografia que mostra: agenesia do direito (Figura_1A), ausência do primeiro dedo do esquerdo (Figura_1B), identificando-se apenas a primeira falange do primeiro e quinto dedos da mão esquerda (Figura_1C); a restante avaliação ecográfica não demonstrou outras malformações. O cariótipo fetal era normal (46,XY), assim como o ecocardiograma fetal. Não tinha antecedentes familiares relevantes, nomeadamente malformações congénitas ou consanguinidade e não tinha ocorrido exposição a agentes teratogénicos durante a gestação.

O recém-nascido, do sexo masculino, nasceu às 38 semanas, com hipotonia generalizada e dificuldade respiratória, necessitando de medidas de reanimação.

Por apresentar respiração irregular e necessidade de O2 suplementar foi internado na Unidade de Cuidados Intensivos Neonatais.

Ao exame físico apresentava as seguintes alterações: microretrognatia, rigidez mandibular, hipoglossia e microstomia; encurtamento do membro inferior direito com ausência do do mesmo lado (Figuras_2A,_2B e 3A), ausência de um dedo do esquerdo com encavalgamento e sindactilia dos restantes dedos (Figura_2C); sindactilia entre o segundo e terceiro dedos da mão direita (Figura_2D) e ausência das falanges distais e sindactilia dos dedos da mão esquerda (Figura 2Ee 3B); cifoescoliose (Figura_3C). A auscultação pulmonar revelou diminuição bilateral do murmúrio vesicular e ao exame neurológico apresentava fraca mobilidade espontânea, face inexpressiva, gemido, ausência dos reflexos de sucção e deglutição e hipotonia generalizada.

O radiograma do esqueleto confirmou as anomalias descritas anteriormente (Figura_3).

Na restante investigação efetuada não foram identificadas alterações significativas: ecografias cardíaca e transfontanelar, diagnóstico precoce e MLPA (Multiplex ligation-dependent probe amplification) das regiões subteloméricas.

Desde o primeiro dia de vida que apresentou apneias com dessaturações recorrentes difíceis de recuperar apesar da aspiração contínua de secreções, necessitando de ventilação não invasiva a partir do segundo dia. Ao sexto dia teve um episódio de apneia, do qual não recuperou com as medidas de reanimação.

DISCUSSÃO A associação de microstomia, microretrognatia, hipoglossia, adactilia / hipodactilia /agenesia congénita de mãos e pés e presença de sinais neurológicos sugestivos de atingimento dos pares cranianos, permite-nos estabelecer o diagnóstico clínico de Síndrome de Hanhart.

A Síndrome de Hanhart é uma doença rara (prevalência de 1:500.000 nascimentos) (4,5). Alterações que ocorrem entre a e semana de embriogénese condicionarão as malformações que caracterizam esta síndrome, cuja etiologia é desconhecida(5). Alguns autores apontam a possibilidade de ter uma base genética, secundária a mutações esporádicas(5-7). Outros salientam a importância de fatores ambientais como: fatores intrauterinos (bandas fibróticas, alterações vasculares), fármacos teratogénicos e biópsia das vilosidades coriónicas antes das 10 semanas de gestação(4,5,7,8).

O diagnóstico da Síndrome de Hanhart é clínico e radiológico(6). A presença de micrognatia e/ou aglossia/microglossia e de alterações do desenvolvimento dos segmentos distais dos membros são essenciais para o diagnóstico(5,7). Estas alterações dos membros são geralmente assimétricas e com atingimento mais frequente dos membros superiores. No nosso caso, o recém-nascido apresentava micrognatia, hipoglossia e microstomia com malformações assimétricas dos membros superiores e inferiores (agenesia de um , sindactilia, adactilia, hipodactilia).

No entanto, para além destas são descritas outras malformações que contribuem para a grande variabilidade fenotípica, e consequente dificuldade do diagnóstico: anquilose temporo-mandibular, fenda do palato, alterações dos dentes (hipodontia, amelogenese imperfeita, atraso da erupção dentária, problemas de implantação dentária), hipoplasia ungueal e parésia congénita de pares cranianos(4,5,7). Estão também descritos casos associados a ânus imperfurado, fusão espleno-gonadal, hipoplasia pulmonar(5).

As principais complicações traduzem-se nas limitações físicas inerentes às malformações dos membros, dificuldades alimentares e problemas respiratórios (5). Apresentam ainda dificuldades de audição e linguagem, no entanto sem alterações na função cognitiva(4,5,7).

No período neonatal a existência de compromisso da alimentação e insuficiência respiratória (consequentes das alterações oromandibulares e compromisso dos pares cranianos) poderá levar à morte destas crianças(5). No nosso caso, o recém-nascido evoluiu para uma insuficiência respiratória, decorrente de um quadro de apneias recorrentes.

Após o período neonatal, o tratamento reside na colocação de próteses nos membros e na cirurgia de reconstrução oromandibular, a qual permite a resolução dos problemas de deglutição(5). Nalguns casos é necessário a colocação de gastrostomia para uma adequada nutrição(6).

Os autores consideram que a apresentação deste caso é importante dada a raridade do mesmo. Ao conhecer as principais alterações ao exame físico que o caracterizam é possível estabelecer o seu diagnóstico clínico e assim oferecer um mais adequado apoio pré e perinatal.


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