Avaliação da criança com alteração da linguagem
Avaliação da criança com alteração da linguagem
Rosa Amorim1
1Serviço de Fisiatria, CH Porto, Unidade Maria Pia
A linguagem consiste num sistema convencional de símbolos arbitrários e de
regras de comunicação dos mesmos, representando ideias que se pretendem
transmitir através de um código socialmente partilhado, a língua (Penã-Brooks
& Hedge, 2007). Existem vários tipos de linguagem, consoante os sistemas
utilizados ' verbal, não verbal ou gráfico.
A falacorresponde ao acto motor de comunicar pela articulação de expressões
verbais que requer uma complexa interacção de diversos sistemas estruturais e
funcionais.
A linguagem é caracterizada por quatro componentes:
As perturbações da linguagem podem confinar-se apenas a um destes subsistemas ou
podem evidenciar-se em vários simultaneamente.
As perturbações da fala avaliam-se nos seguintes níveis:
- Articulação (produção de fonemas pelos lábios, língua, dentes)
- Ressonância (fluxo aéreo pelo nariz)
- Voz (vibração das cordas vocais)
- Fluência (ritmo da fala)
- Prosódia (melodia da fala)
As alterações da fala e da linguagem constituem o problema mais frequente no
desenvolvimento infantil ' com incidências que variam entre 2 a 19% na
literatura. A maioria destas crianças não apresenta outras alterações
significativas no desenvolvimento, no entanto o impacto da sua permanência ao
longo da idade escolar pode interferir negativamente na literacia e
socialização ao longo de todo o percurso académico e até na idade adulta.
Assim, a detecção precoce das alterações da fala e da linguagem é fundamental,
de forma a permitir a orientação para equipas especializadas de intervenção,
preferencialmente na idade pré-escolar. O objectivo principal é que as
dificuldades estejam ultrapassadas na altura de iniciação da escolaridade
básica.
O desenvolvimento da linguagem e da fala processa-se de um modo previsível ao
longo das diversas etapas do desenvolvimento psicomotor, e a sua avaliação deve
fazer parte integrante do seguimento de todas as crianças.
A evolução da linguagem e da fala é considerada como um indicador útil para o
desenvolvimento global e cognitivo da criança que pode ser relacionado com o
desempenho escolar futuro, daí a importância da identificação precoce das
crianças em risco.
Antes de começar a falar a criança já comunica com o olhar, expressão facial ou
movimentos corporais. Nos primeiros meses acalma com a voz da mãe, presta
atenção aos sons, palra. Mais tarde, a partir dos 6-7 meses evolui para o
balbucio e a fase de ecolália (mamama, papapa), e aos 12 meses começa a dizer
as primeiras palavras com significado (mama, papá).
Temos assim a fase pré-linguística, até aos 11-12 meses.
A fase linguística inicia-se quando a criança diz a sua primeira palavra com
significado, e coincide habitualmente com o início dos primeiros passos, embora
possa haver uma grande variabilidade dentro dos padrões normais. Por esse
motivo as avaliações devem ser frequentes e regulares, para permitir comparar a
evolução com a própria criança e não apenas com as crianças da mesma idade,
evitando a colocação de rótulos prematuramente.
As diversas etapas da aquisição da linguagem estão bem estabelecidas e
funcionam como marcos do desenvolvimento:
- Aos 18 meses diz cerca de 10 palavras, usa ecolália e jargon frequentemente
- Aos 24 meses começa a juntar duas palavras e tem um vocabulário > 50 palavras
- Aos 3 anos faz frases com 3 ou mais palavras, usa pronomes e deixa de usar
jargon ou ecolália
- Aos 4 anos faz frases de 6 palavras, faz perguntas, conta histórias, usa o
plural, o passado; compreende regras de jogos simples
- Aos 5 anos faz frases completas e fala correctamente
- Aos 6 anos está apta para aprender a ler e a escrever
- O desenvolvimento da linguagem continua a evoluir até aos 15 anos, e mesmo na
idade adulta mantém-se o enriquecimento linguístico constante.
O desenvolvimento atípico da linguagem pode ser um sintoma comum a diversas
patologias, desde doenças do SNC, de origem genética ou psiquiátrica, podendo
mesmo ser o primeiro sinal de alerta em algumas situações.
Pode, ou não, estar associado a atraso mental, ou a comorbilidades várias,
como paralisia cerebral, alterações cromossómicas, fenda do palato, surdez, ou
surgir isoladamente.
O desenvolvimento atípico da linguagem divide -se em dois tipos básicos:
1. Atraso da linguagem ' evolução dentro dos parâmetros normais mas com ritmo
mais lento
2. Perturbação da linguagem
a) Dissociação ' discrepância entre o desenvolvimento da linguagem e as outras
áreas do desenvolvimento (ex: Perturbação específica do desenvolvimento da
linguagem)
b) Desvio ' aquisição anómala da linguagem (ex: Autismo)
Existem várias classificações descritas na literatura, embora nenhuma delas
seja usada universalmente. A DSM-IV (diagnostic and statistical manual) da
Associação Americana de Psiquiatria descreve três tipos de perturbação da
comunicação:
I. Perturbação da linguagem expressiva
II. Perturbação da linguagem mista-receptiva
III. Perturbação fonológica
A perturbação da linguagem expressiva caracteriza-se pelo uso de vocabulário
reduzido, dificuldade na aquisição de novas palavras, erros frequentes,
discurso com frases curtas e estrutura gramatical simplificada em crianças cujas
aptidões não verbais e desenvolvimento da linguagem receptiva são consideradas
dentro dos padrões normais para a idade, ao contrário do que acontece na
perturbação mista-receptiva, em que há também dificuldades na compreensão de
novas palavras e expressões.
A perturbação específica do desenvolvimento da linguagem (PEDL) insere-se no
tipo II (mista-receptiva) desta classificação. Corresponde a crianças com
desenvolvimento normal em todas as áreas excepto na linguagem. Foi denominada
como afasia ou disfasia do desenvolvimento, expressão actualmente em desuso.
São crianças com atraso na expressão, dificuldade na nomeação e também em
conceitos temporais (ontem, amanhã). O discurso é pobre e têm grande
dificuldade na compreensão das regras gramaticais.
A perturbação fonológica refere-se a alterações/distorções na produção dos
sons. Ocorre em cerca de 7,5% das crianças entre os três e os 11 anos. Consiste
em omissões, substituições, redução de consoantes, sendo o discurso dificilmente
perceptível por estranhos. O exame físico ' estruturas cranianas e orofaciais,
assim como a função oromotora ' é normal.
As perturbações da fala e da linguagem podem coexistir, com prevalência entre 5
a 8% descritas em diversos estudos nas crianças em idade pré-escolar.
Dentro das perturbações da fala, consideram-se os seguintes tipos:
- Perturbações articulatórias ' por alterações na produção dos fonemas pelos
lábios, língua, palato (substituições, omissões e distorção dos fonemas)
- Apraxia ' dificuldade na produção dos fonemas sem lesão específica
identificada
- Disartria ' alteração na fala por défice neuromuscular (ex. Paralisia
Cerebral)
- Gaguez ou disfluência' alteração no ritmo e velocidade na fala (bloqueio na
fase inicial, repetição ou prolongamento dos sons)
- Disfonia ' alteração na voz (nódulos ou pólipos nas cordas vocais)
A gaguez fisiológica surge em cerca de 3% das crianças entre os 2 e os 4 anos e
não necessita de tratamento, apenas de vigilância, uma vez que em 1% das
situações pode evoluir para gaguez.
Na avaliação da criança com alteração da linguagem devem ser focados os
seguintes aspectos:
- Desenvolvimento psicomotor /exame neurológico
- Antecedentes familiares (história de perturbação da linguagem/fala, surdez)
- Antecedentes pessoais, factores de risco peri-natais
- Audição ' excluir sempre défice auditivo
- Compreensão (a criança cumpre ordens simples?)
- Comportamento social (interage? / isola-se?)
- Padrão de mastigação / biberão? / chupeta?
A observação e o diálogo com a criança e os pais parecem ser os melhores
instrumentos para a avaliação da criança com atraso da linguagem, quando
comparados com a utilização de testes estandardizados. É importante ouvir as
preocupações dos pais, avaliar a atenção da criança, o seu conhecimento sobre a
função dos objectos, a descrição de imagens e a avaliação do desenho.
A presença de algum dos sinais de alarme seguintes obriga a intervenção
imediata:
- 8 semanas ' não reage a sons próximos
- 10 M ' não vocaliza
- 18M ' não diz nenhuma palavra
- 2A ' não diz frases
- 3A ' discurso incompreensível
- Uso inadequado da linguagem ou ecolália
- 6A ' persistência de alterações articulatórias
- Regressão na aquisição da linguagem
O despiste de um défice auditivo deve ser feito por rotina.
No entanto, o défice auditivo ligeiro e intermitente associado a otite serosa
não é suficiente para ter impacto no desenvolvimento da linguagem.
A intervenção deve ser precoce e individualizada, devendo incluir familiares e
professores como facilitadores da comunicação no dia-a-dia.
O objectivo é reforçar a capacidade comunicativa de acordo com as necessidades
específicas da criança. Para isso são utilizadas várias estratégias, incluindo
a utilização de meios alternativos e/ou gesto. Estes meios não vão atrasar a
aquisição da fala, mas sim estimular a comunicação.
O prognóstico é muito variável, dependendo das alterações subjacentes. As
perturbações da linguagem expressiva e da fala têm melhor prognóstico.
As crianças que mantêm alterações da linguagem na entrada para a escola estão
em maior risco de dificuldades na literacia e de aprendizagem ao longo do seu
percurso académico.
Foram encontrados défices residuais na linguagem de adultos que tinham sido
diagnosticados na infância com PEDL em vários estudos (Tomblin, Bishop).
Também outros autores encontraram maior incidência de alterações de
comportamento, ansiedade e fobia social em adultos jovens com antecedentes de
perturbação do desenvolvimento da linguagem (Beitchman).
O atraso/perturbação da linguagem é, por isso, chamado de handicap invisível,
pois pode ter repercussões muitas vezes subtis em vários níveis, cognitivo,
social e emocional, ao longo de toda a vida.