Efeito da dessecação com etefão na produção e qualidade da soja
Introdução
No processo de produção de sementes de soja, recomenda-se a realização da
colheita no momento mais próximo possível da maturidade fisiológica da cultura,
uma vez que as sementes, de maneira geral, atingem a maturidade fisiológica com
teores de humidade superiores a 30%, inviabilizando deste modo a sua colheita
mecânica (Carvalho e Nakagawa, 2012). A dessecação pode ser usada para acelerar
a perda de humidade, ou seja, promover a secagem artificial da planta. Os
dessecantes aceleram o processo de perda de água pelas plantas e sementes,
diminuindo o período de exposição prolongada a fatores bióticos e abióticos,
após a maturidade (Marcos Filho, 2005). A dessecação é uma prática realizada
com o objetivo de controlar as infestantes e provocar a desfolha da cultura.
Pode também antecipar a colheita, uniformizando e reduzindo as perdas,
diminuindo as impurezas, obtendo-se grãos mais limpos e de melhor qualidade.
Além de reduzir os prejuízos decorrentes do ataque de fungos e pragas de final
de ciclo (Terazawa et al.,2009; Toledo et al., 2009).
Segundo Inoue et al.(2003) a aplicação dos herbicidas diquato (0,3 kg ha-1),
paraquato (0,4 kg ha-1), amónio-glufosinato (0,5 kg ha-1) e carfentrazone-ethyl
(30g ha-1) no estádio R7,5, não apresentaram efeitos sobre a produtividade,
germinação, vigor de plântula e sanidade das sementes. Entretanto, Lacerda et
al.(2003) obtiveram sementes de soja com potencial fisiológico e sanitário
abaixo do necessário à comercialização, quando as plantas foram dessecadas com
80 e 90% de vagens amarelas e marrom, ou seja, próximas ao estádio R8.
Para a manutenção da qualidade das sementes, a melhor época para ser realizada
a dessecação é quando as plantas se encontram no estádio R7.3, independente do
dessecante utilizado (Kappes et al., 2008).
O herbicida que pode ser utilizado na dessecação da soja, por reunir algumas
características desejáveis, é o glufosinato de amónio. Entretanto, a aplicação
deste, reduz a germinação e a vigor das sementes (Inoue et al., 2003; Guimarães
et al., 2012).
O grau de dessecação está estritamente relacionado com os efeitos causados pelo
produto na membrana da célula, permitindo uma rápida perda de água. Um bom
dessecante deve acelerar a senescência sem prejudicar as características
normais das plantas, não ser translocado e não se acumular no produto a ser
colhido, promovendo a rápida e completa secagem das partes verdes da planta
(Lacerda et al., 2001).
Neste contexto, o ideal seria a aplicação de produtos de baixa toxicidade, como
o etefão que rapidamente é convertido em etileno. Carvalho et al.(2003),
relataram que o etefão, além de proporcionar antecipação e uniformização na
maturação dos frutos de cafeeiro, apresentam desfolha acentuada logo após a sua
aplicação. Como o etileno é produzido em quase todas as células de plantas
superiores, ainda há a vantagem da diminuição da acumulação de resíduos nas
sementes, ao contrário dos herbicidas atualmente utilizados.
Diante do exposto, objetivou-se avaliar a produção e a qualidade fisiológica de
sementes oriundas de plantas de soja dessecadas com etefão.
Material e Métodos
O estudo foi conduzido em duas etapas. A primeira foi realizada no Campo
Experimental Diogo Alves de Mello/UFV, em Viçosa, MG, no período de 21/11/
2012 a 30/03/2013). Localizado geograficamente a 20º 46' latitude sul e 42º 52'
de longitude oeste, o clima da região é, conforme classificação de Köppen, do
tipo Cwa, ou seja, clima temperado húmido com inverno seco. A precipitação
média é inferior a 60 mm em pelo menos um mês dessa estação do ano. Apresenta
verão quente e a temperatura média do mês mais quente é superior a 20 oC.
Os dados diários de temperatura máxima, mínima e precipitação referentes ao
período de estudo foram monitorizados a partir de uma estação meteorológica
automática do Instituto Nacional de Meteorologia ' INMET, situada no campus da
UFV (Figura_1). A temperatura do ar oscilou entre 18,4 e 25,8 oC, para a mínima
e máxima, respectivamente. Apesar da temperatura mínima em alguns dias ter sido
menor que o recomendado como condições ótimas para a soja 20 a 30 oC (Barros e
Sediyama, 2009), a temperatura média do período em estudo foi igual a 22 oC. O
registo de precipitação total foi de 893 mm.
O solo da área de estudo é classificado como Argissolo Vermelho-Amarelo (PVA),
de textura argilosa. Este foi amostrado na camada de 0-0,20 m, retirando-se uma
amostra composta, que foi encaminhada a um laboratório particular, para
realização de análise química. Os resultados da análise química constam no
Quadro_1, sendo o pH avaliado em água; P, K pelo Extrator Mehlich 1; Ca, Mg, Al
via Extrator: KCl ' 1 mol L-1; H + Al por Extrator Acetato de Cálcio 0,5 mol/
L ' pH 7,0; Matéria Orgânica (MO) via Oxidação: Na2 Cr2O7 4N + H2SO410N; SB,
Soma de Bases Brocáveis; CTC (t), Capacidade de Troca Catiônica Efetiva; V,
Índice de Saturação por Bases; m, Índice de Saturação por Alumínio.
Não foi realizada a correção de acidez do solo, porém, foi aplicado via sulco o
fertilizante formulado 08-28-16, na dose de 200 kg ha-1.
O ensaio foi conduzido em blocos casualizados com três repetições. A cultivar
MSOY 7211 RR foi semeada em filas espaçadas a 0,7 m na entre-linha, e 0,08 a
0,10 m na linha. Cada talhão tinha três filas com 2,0 m de comprimento. Como
área útil, foi considerada apenas a linha central, eliminando 0,5 m em cada
extremidade. A cultura da soja foi instalada e conduzida de acordo com as
recomendações de Sediyama (2009) e Embrapa Soja (2010), no que se refere ao
tratamento e inoculação das sementes, controle das infestantes, pragas e
doenças.
Quando as plantas atingiram o estádio R7.0, de acordo com Fehr e Caviness
(1977), foi realizada a dessecação com etefão (2-Chloroethylphosphonic acid),
precursor de etileno, nas doses 0 (testemunha), 100, 200 e 300 ppm ha-1,
juntamente com 0,5% de adjuvante. As aplicações foram realizadas ao final da
tarde, com pulverizador provido de válvula de controle da pressão (2,0 Bar ou
29 PSI) e barra de 0,5 m com duas pontas tipo leque, modelo Teejet TTI11002,
promovendo a cobertura em faixa de 1,0 m de largura, e com volume de calda de
200 L ha-1.
Aos 0, 3, 6, 9, 12 e 15 dias após a dessecação (DAD) foram colhidas duas
plantas da bordadura de cada talhão para a determinação do teor de água das se-
mentes pelo método da estufa (105 ± 3 ºC por 24 horas), conforme indicado pelas
Regras para Análises de Sementes (Ministério da Agricultura e Reforma Agrária,
2009).
Por ocasião da colheita foram determinados o número de plantas por metro (NP),
a altura de plantas (AP), o número de nós (NN), a altura de inserção da
primeira vagem (AIPV), o peso de 100 sementes (P100) e a produção de cada
talhão (expressa em kg ha-1). Os valores dos dois últimos parâmetros foram
corrigidos a humidade 13% (base húmida). Após a colheita, as sementes foram
encaminhadas para o Laboratório de Melhoramento de Oleaginosas/UFV. A qualidade
fisiológica das sementes foi inicialmente estabelecida pelo teste de
germinação.
Para cada tratamento, foram utilizadas quatro repetições de 50 sementes.
Utilizou-se o método do rolo de papel germitest®, humedecido com água destilada
na proporção de 2,5 vezes o peso do papel. Os rolos foram colocados em
germinador à temperatura de 30 ºC e as contagens realizadas ao quinto e oitavo
dia após a sementeira (Ministério da Agricultura e Reforma Agrária, 2009).
Determinou-se o número de plântulas normais que apresentaram estruturas
essenciais completas, desenvolvidas, proporcionais e sadias. No final do teste,
foram, ainda, contadas as plântulas anormais, sendo os resultados expressos em
percentagem.
Juntamente com o teste de germinação, foi realizado o teste de primeira
contagem de germinação, obtido pelo número de plântulas normais, determinado
por ocasião da primeira contagem do teste de germinação; ou seja, no quinto dia
após a montagem do teste, sendo os resultados também expressos em percentagem
(Ministério da Agricultura e Reforma Agrária, 2009). Ainda nesse teste,
retirou-se 10 plantas normais de cada repetição, sendo posicionadas no terço
médio do papel. Nestas foram medidas as partes das plântulas normais, divididas
em raiz e parte aérea, com auxilio de uma régua. Em seguida, a raiz e a parte
aérea das plântulas foram colocadas em estufa de circulação forçada à
temperatura de 65 °C, até atingirem peso constante, obtendo-se assim a matéria
seca. Os resultados médios das plântulas foram expressos em centímetros e a
matéria seca expressa em gramas/plântula. O ensaio de emergência das plântulas
também foi conduzido numa estufa, tendo quatro repetições, em substrato de
areia. Os resultados foram obtidos pelo número de plântulas normais,
determinado por ocasião do 14º dia após a sementeira. Executou-se ainda o
índice de velocidade de emergência (IVE), anotando-se, diariamente, no mesmo
horário, o número de plântulas emersas durante os dias de avaliação. Ao final
do teste, com os dados diários do número de sementes emersas, foi calculado o
índice de velocidade de emergência, empregando-se a fórmula proposta por
Maguire (1962). Seguido os 14 dias de avaliação, retirou-se as plantas de cada
parcela, separando a parte aérea e a raiz, estas foram colocadas em estufa de
circulação forçada à temperatura de 65 °C, até atingirem peso constante,
obtendo-se assim a matéria seca da raiz (MSR) e da parte aérea das plantas
(MSPA). Os testes de primeira contagem, germinação e análise de crescimento
foram conduzidos em delineamento inteiramente casualizado, enquanto a
emergência em areia e o índice de velocidade de emergência foram conduzidos em
blocos casualizados. Os dados foram submetidos a análise de variância pelo
teste F. Para o teor de água das sementes foi conduzido em esquema fatorial
4x6, correspondendo às dose de etefão e épocas de amostragem. Sendo o Teste F
significativo, foi realizado análise de regressão, onde utilizou-se o
procedimento de regressão polinomial conjunta e o teste de identidade de
modelo, considerando 5% de probabilidade para escolha do melhor método e para
rejeitar a hipótese de similaridade entre os modelos estatísticos. Além da
significância da regressão, foi considerado o coeficiente de determinação (R2).
A análise estatística dos dados foi realizada com o auxílio do Programa em
Estatística e Genética Quantitativa ' GENES (Cruz, 2013).
Resultados e discussão
A análise de variância dos componentes de produção demonstrou não haver
diferenças significativas (p>0,5) para o número de plantas por metro, altura
das plantas, número de nós na haste principal, altura de inserção da primeira
vagem, peso de 100 sementes e produção. No Quadro_2 encontram-se as médias
dessas variáveis para cada nível de dose de etefão. Os resultados obtidos
nestas variáveis são coerentes, uma vez que, no final do ciclo, desde que a
cultura tenha sido bem conduzida, é esperada a uniformidade das características
estudadas. No que concerne à produção, apesar das diferenças não significativas
em relação à testemunha, houve contudo uma tendência para a significância,
verificando-se uma diminuição com o aumento das doses de etefão aplicadas
(Quadro_2). Essa variação no presente estudo estima uma diferença de 400 kg ha-
1entre a testemunha e a modalidade com maior dose.
Alguns trabalhos têm mostrado que a predisposição para perdas na massa de grãos
é condicionada apenas quando as dessecações são antecipadas (Kappes et al.,
2008; Guimarães et al., 2012), ou seja, antes do grão atingir a sua maturidade
fisiológica.
O estádio R7.0, em que foi realizada a dessecação, é caracterizado pelo início
de maturação das vagens, de modo que ainda é possível encontrar na mesma planta
vagens em diferentes estádios de maturação. Neste caso, no momento da
dessecação, algumas sementes ainda não tinham atingido a maturidade
fisiológica, ou seja, a semente ainda se encontrava na fase de acumulação de
matéria seca. A morte prematura da planta resultou na interrupção da
translocação de fotossimilados às sementes, refletindo-se negativamente na sua
massa seca e produção final (Carvalho e Nakagawa, 2012; Coelho et al., 2012).
Lamego et al. (2013) apresentaram o estádio R7.3 como sendo aquele em que a
dessecação não permite perda do potencial produtivo da soja, e que as se-mentes
oriundas de plantas dessecadas nos estádios R6 e R7.1 exibiam menor vigor na
fase de plântula e maior velocidade de germinação, respectivamente. Em relação
ao teor de água nas sementes foi constatado existir uma interação (p<0,05)
entre a dose de etefão e o número de dias após a dessecação. No desdobramento
da interação, o efeito de dose por época não se ajustou aos modelos de
regressão linear e quadrática. No Quadro_3 constam as médias observadas,
verificando-se que apenas na amostragem antes da dessecação (DAD = 0) as médias
para as doses 100 e 200 ppm de etefão foram relativamente muito maiores que nas
doses 0 e 300 ppm.
O desdobramento da interação da dose dentro de cada época foi ajustado ao
modelo de regressão linear simples, que após aplicação do teste de identidade
de modelos foi confirmada a similaridade (p<0,05) entre eles. O modelo único
que representa o teor de água nas sementes da dessecação até a colheita,
apresenta um coeficiente de determinação de 0,98 (Figura_2).
Por ocasião da dessecação as sementes continham teor médio de água de 443 g kg-
1que diminuiu para 177,5 g kg-1no momento da colheita, considerando o intervalo
de 15 dias. Pelo observado, a desidratação das sementes ocorreu a uma taxa
diária de 19,27 g kg-1. Na Figura_1 pode ser observado que houve um aumento de
precipitação nos últimos 30 dias do estudo, coincidindo com o período de
dessecação e colheita das plantas. Em condições ideais de colheita, espera-se
teores médios de perda de água da ordem de 150 g kg-1. A taxa de desidratação
das sementes está intrinsecamente relacionada às condições climáticas no
período após a aplicação do dessecante, quanto mais seco, mais rápida será a
desidratação (Lacerda et al., 2001). Costa (1984) obteve redução no teor de
água das sementes de soja de 300 para 170 g kg-1, no período de três a cinco
dias após aplicação de dessecantes na cultura. O decréscimo no teor de água das
sementes após a dessecação, conforme comprovado no presente estudo, foi também
observado por Franco et al.(2013). É importante ressaltar que a aplicação de
produtos dessecantes acelera o processo de perda de água pelas plantas e
sementes, o que além de reduzir o tempo de exposição prolongada das sementes a
fatores bióticos e abióticos, ainda favorece a colheita no ponto de maturidade
fisiológica (Marco Filho, 2005; Carvalho e Nakagawa, 2012).
Na avaliação da qualidade fisiológica das sementes não houve diferença nos
parâmetros: matéria seca da raiz, comprimento da raiz e parte aérea. Verificou-
se que existem diferenças significativas (p<0,05) no teste de primeira contagem
nos parâmetros germinação e matéria seca da parte aérea. Todavia, em nenhuma
delas houve ajuste aos modelos de regressão linear e quadrática. Constam no
Quadro_4 as médias de cada uma dessas variáveis.
Os valores da primeira contagem e germinação na dose 200 ppm de etefão foram
discrepantes em relação às demais doses. Mesmo sendo valores menores, para
todos os níveis, a percentagem de germinação é um indicador da alta qualidade
fisiológica das sementes, pois a capacidade de germinação de um lote de
sementes, em condições de laboratório, deve ser superior a 80% para a obtenção
de um bom desempenho no campo (Marcos Filho, 1980).
De acordo com os dados apresentados, a dessecação com etefão não implicou uma
diminuição na germinação e vigor das sementes, pois no momento da dessecação
estas, provavelmente, já se encontravam próximas do seu completo
desenvolvimento. Kappes et al.(2009) verificaram que sementes oriundas de
plantas não dessecadas apresentaram as maiores percentagens de germinação,
quando comparadas com as plantas dessecadas nos estádios R6.0, R7.1 e R7.2,
mostrando que a dessecação nessas fases tem uma influência negativa na
germinação das sementes. Já Marcandalli et al.(2011), relataram que as sementes
obtidas com a aplicação de dessecantes no estádio R6.0 são de qualidade
fisiológica inferior às obtidas com aplicações nos estádios R7.0 e R8.0. No
entanto, Guimarães et al.(2012), afirmaram que o uso do herbicida paraquato
promoveu os melhores índices de germinação e vigor de sementes de soja quando
utilizado nos estádios R6.0 e R7.2, em comparação com o glufosinato de amónio e
o glifosato nas mesmas épocas.
No presente estudo, como as sementes foram dessecadas no estádio R7.0, não se
observou qualquer efeito negativo, o que também pode estar relacionado com o
facto de se utilizar um fitorregulador de origem natural, o etileno, visto que
este não parece exercer influencia na qualidade das sementes.
Para o índice de velocidade de emergência, matéria seca de raiz e parte aérea
das plantas, comprimento de raiz e da parte aérea não houve diferença (p>0,05).
Já a emergência em substrato de areia, foi significativa (p<0,05) e, exibiu um
pequeno decréscimo com o aumento da dose de etefão (Figura_3), da ordem de
98,75% na dose zero (testemunha), descendo para 96% na dose 300 ppm. Apesar da
redução, esta não comprometeu a qualidade fisiológica das sementes avaliada
pela massa das plantas. Os resultados não corroboram os apresentados por
Bervald et al.(2010) e, portanto, pode-se ter assim mais uma evidência da baixa
toxicidade do etefão.
O baixo coeficiente de ajuste da equação (R2=0,58) que representa o
comportamento da emergência em função da dose de etefão deve-se à maior
variação das percentagens de emergência nas doses 200 e 300 ppm.
Conclusões
Mesmo não sendo significativo, o incremento na dose de etefão reduziu o peso de
cem sementes e produtividade. O uso de etefão para a dessecação da soja não
afetou a qualidade fisiológica das sementes. A ocorrência de precipitações no
período de dessecação retardou a desidratação das sementes.