Tratamento e valorização agrícola da casca de ovo
INTRODUÇÃO
A indústria de produtos e derivados de ovo produz actualmente uma quantidade
significativa de casca de ovo (CO) que é considerada como um sub-produto de
origem animal (SPOA) não destinado ao consumo humano. Estima-se que, a nível
Europeu sejam produzidos cerca de 30 mil t de casca de ovo por ano, e que em
Portugal esse valor ascenda às 3600 t (Agra CEAS Consulting, 2004).
Devido à indefinição de estratégias adequadas para a gestão deste sub-produto
que contém cerca de 94% (m/m) de CaCO3 na sua composição (Stadelman, 2000), a
deposição em aterro tem sido tradicionalmente utilizada como destino final. No
entanto, as possibilidades de reutilização deste resíduo podem incluir a
preparação de alimentos para animais ou de materiais adsorventes para a remoção
de corantes e a sua incorporação no solo (Park et al., 2007; Tsai et al., 2008;
Mezenner e Bensmaili, 2009), opções estas que têm sido apenas testadas à escala
laboratorial.
No enquadramento das actuais políticas da União Europeia que fomentam a
reciclagem e valorização de resíduos e tendo em conta normas sanitárias para a
eliminação e a transformação de resíduos de origem animal, desde 2002 que estão
definidos pelo Regulamento (CE) n. º 1774/2002 do Parlamento Europeu e do
Conselho, procedimentos de recolha, transporte, armazenamento, manuseamento,
transformação, utilização e eliminação de diversos SPOA. De acordo com a
referida legislação, a aplicação controlada destes subprodutos em solos
agrícolas apenas é possível, após pré-tratamento por acção térmica ou por
processo de compostagem, para eliminar o risco de propagação de microrganismos
patogénicos para o ambiente e para a saúde humana.
Apesar destas recomendações legais, estudos sistemáticos acerca dos efeitos no
solo da aplicação da CO, após tratamento térmico ou incorporada num composto
orgânico são escassos, sendo de realçar o trabalho realizado por Kemper e
Goodwin (2009) que avalia a compostagem da casca de ovo com outros SPOA, usando
agentes inoculantes externos para activar o processo de compostagem.
Desta forma, os principais objectivos deste trabalho consistem na obtenção de
resultados preliminares relativamente à: 1) utilização da casca de ovo, após
tratamento térmico, como correctivo alcalinizante, em alternativa ao
tradicional calcário agrícola; 2) incorporação de quantidades significativas de
casca de ovo num processo de compostagem de outros resíduos de origem animal
(estrume de cavalo, estrume de galinha) e vegetal (aparas de relva), utilizando
a comunidade microbiana naturalmente presente nos resíduos e avaliar o grau de
estabilidade, de maturação e a qualidade final dos compostos produzidos, com
vista à sua utilização agrícola.
MATERIAIS E MÉTODOS
O resíduo de casca de ovo (CO) utilizado neste trabalho foi facultado por uma
indústria nacional de produção de ovo líquido pasteurizado e ovo cozido,
situado na região centro de Portugal. Previamente à sua utilização, a casca de
ovo foi sujeita a tratamento térmico (120ºC durante duas horas e à pressão de 3
bar), seguido de moenda e crivagem com o crivo de 2,0 mm de malha.
Utilização da casca de ovo como correctivo alcalinizante
Com o objectivo de estudar o comportamento da CO como correctivo alcalinizante
do solo, foi efectuado um ensaio em vasos, com dois tipos de solos com
diferente poder tamponizante, cujas características se encontram no Quadro 1.
Quadro 1 ' Características dos solos utilizados.
Os correctivos alcalinizantes testados (Casca de Ovo e Calcário agrícola),
cujas propriedades estão presentes no Quadro 2, foram aplicados a cada tipo de
solo nas quantidades equivalentes a 3,5 e 7,0 t ha-1 (solo 1) e 5,0 e 10,0 t
ha-1 (solo 2). As doses escolhidas basearam-se no poder tampão esperado de cada
solo, e tiveram como referência as quantidades de calcário necessárias para
corrigir a acidez até pH(H2O) de cerca de 6,5 (Santos,1996) O ensaio constou de
quatro tratamentos para cada tipo de solo (dois tipos de correctivos e dois
níveis de aplicação), com seis repetições, num total de 48 vasos. A humidade de
cada mistura de solo foi mantida próxima da capacidade de campo. Durante 3
meses, foi monitorizada a evolução do pH (H2O) dos solos.
Quadro 2 ' Características dos correctivos alcalinizantes.
O tratamento estatístico dos resultados (análise de variância, médias e desvios
padrão e testes de comparação entre médias) foi efectuado com o programa
STATISTICA 6.0-1997. Nos casos em que se verificaram diferenças significativas,
utilizou-se o teste de Tukey (nível de significância de 0,05) para identificar
as diferenças entre tratamentos.
Incorporação da casca de ovo num processo de compostagem
Quatro pilhas do tipo windrow (pilhas 1-4) foram preparadas conforme as
composições descritas no Quadro 3, sendo utilizado estrume de cavalo (EC),
estrume de galinha (EG), aparas de relva (AR) e casca de ovo (CO).
Quadro_3 -
Composição de cada pilha testada no ensaio.
As misturas iniciais foram devidamente homogeneizadas e, ao longo do ensaio, as
pilhas foram revolvidas por meios mecânicos, de modo a promover o devido
arejamento das misturas.
O teor de humidade foi ajustado periodicamente para manter condições adequadas
para o desenvolvimento do processo. A temperatura foi monitorizada com uma
sonda de temperatura (Delta Ohm), a 56 cm de profundidade, em oitos pontos
distintos de cada pilha. A evolução do pH e da condutividade eléctrica em cada
pilha testada foi quantificada de acordo com a metodologia definida por FCQAO
(1994). Os compostos finais obtidos foram caracterizados em termos físico-
químicos e microbiológicos seguindo as metodologias estabelecidas no Quadro 4.
Quadro 4 ' Parâmetros físico-químicos e microbiológicos avaliados.
A amostragem de cada pilha compreendeu a recolha de dez sub-amostras a 20 cm de
profundidade, em 10 pontos da pilha igualmente distanciados ao longo do seu
comprimento. As sub-amostras foram homogeneizadas manualmente, dividas em 4
partes sendo uma delas rejeitada. Este procedimento foi repetido até obtenção
de amostras com 2-3 kg, para posterior análise.
A fitotoxicidade dos compostos finais obtidos em cada pilha de compostagem
testada foi aferida por quantificação do índice de germinação (GI). A
preparação dos extractos dos compostos foi realizada segundo a metodologia de
Albuquerque et al. (2006). Para cada extracto, foram uniformemente distribuídas
dez sementes de agrião de jardim num papel de filtro humedecido com 4 ml de
extracto e incubadas a 27 ºC, no escuro, durante 48 h. Após este período, foi
registado o número de sementes germinadas e medido o seu comprimento radicular.
Todas as determinações foram realizadas com cinco repetições. O índice de
germinação foi quantificado de acordo com a Eq. (1):
(1);
sendo RSG, a percentagem relativa de germinação de sementes, Eq. (2), e RRG a
percentagem relativa do crescimento das raízes, calculada pela Eq. (3).
(2);
(3).
Nas Eqs. (2) e (3) NSG é o número de sementes germinadas em cada extracto, e
LRC o comprimento das raízes das sementes germinadas no extracto de controle,
constituído por água desionizada.
O grau de estabilidade biológica dos compostos foi determinado por testes de
auto-aquecimento e por ensaios de respirometria. Os testes de auto-aquecimento
foram realizados em vasos de Dewar preenchidos com 1,5 dm3 de amostra húmida
(60%). A temperatura do conteúdo de cada vaso foi registada durante um período
de 10 dias. O grau de estabilidade do composto foi estabelecido em função da
diferença entre a temperatura máxima registada e a temperatura ambiente
diariamente registada, no exterior. Nos ensaios de respirometria foi utilizado
um sistema experimental constituído por uma sonda de oxigénio (WTW inolab Oxi
740 with StirrOx) acoplada a um frasco provido de agitação. A temperatura foi
mantida a 30 ºC, por imersão num banho de água com temperatura controlada. A
saturação após o decréscimo do oxigénio no conteúdo do frasco devido à
actividade microbiana foi realizada com uma pequena bomba de aquário. A
preparação da amostra seguiu os procedimentos definidos por Lasaridi e
Stentiford (1998). A taxa do consumo máximo de oxigénio, SOUR (mg O2 g−1 VS
h−1), foi calculado de acordo com:
(4),
onde 60 é o factor de conversão de minutos para horas, |S|max o declive das
rectas obtidas experimentalmente (mg O2 L-1 min-1), V o volume da suspensão
(L), m a massa do composto em base húmida (g), DS a fracção dos sólidos secos
(0 a 1), e VS a fracção dos sólidos voláteis (0 a 1) por (Lasaridi e
Stentiford, 1998).
RESULTADOS E DISCUSSÃO
Utilização da casca de ovo como correctivo alcalinizante
Os correctivos alcalinizantes são produtos cuja composição química é
susceptível de corrigir a acidez dos solos (Santos, 1995). O correctivo que
generalizadamente é usado para este efeito é o calcário e a sua aplicação
deverá ser na quantidade adequada ao tipo de solo, clima e às culturas que nele
vão ser instaladas. O poder tamponizante do solo e as características que mais
o influenciam como a textura e o teor de matéria orgânica, determinam a
quantidade de correctivo alcalinizante a aplicar.
Nas condições do ensaio efectuado, não severificaram no Solo 1 (com menor teor
de MO e textura ligeira), diferenças significativas no efeito sobre o pH, quer
dos correctivos utilizados, quer das quantidades aplicadas (Figura1a). O maior
acréscimo do pH verificado com a casca de ovo foi de 0,22 unidades e com o
correctivo calcário foi de 0,66.
Figura 1 ' Valor do pH dos solos 1 e 2, três meses após a aplicação dos
correctivos casca de ovo e Physiolith (valores médios±desvio padrão). Letras
diferentes indicam diferença significativa entre tratamentos, através da
análise de variância seguida do teste de Tukey (p<0.05)). SC: solo + casca de
ovo (3,5 t.ha-1 (solo 1); 5 t.ha-1 (solo 2)); SCC: solo + casca de ovo (7 t.ha-
1 (solo 1); 10 t.ha-1 (solo 2)); SP: solo + Physiolith (3,5 t.ha-1 (solo 1); 5
t.ha-1 (solo 2)); SPP: solo + Physiolith (7 t.ha-1 (solo 1); 10 t.ha-1 (solo
2)).
No que diz respeito ao Solo 2, com um teor elevado de matéria orgânica, a
aplicação da quantidade equivalente a cinco toneladas por hectare do calcário
agrícola teve um maior efeito no valor do pH do que a quantidade equivalente às
10 toneladas ou de qualquer dos tratamentos com a casca de ovo (Figura1b). A
quantidade de correctivo agrícola aplicada, equivalente a 10 toneladas de
calcário, pode ter constituído uma sobrecalagem e deste modo não produzir
efeitos na redução da acidez devido ao poder tamponizante deste solo. O maior
acréscimo do pH verificado, neste solo, com a casca de ovo foi de 0,35 unidades
e com o correctivo calcário foi de 1,17.
Apesar de possuírem poder neutralizante semelhante, os resultados obtidos
indicam que o correctivo calcário tende a ser mais eficaz na diminuição da
acidez do solo do que a casca de ovo. Esta eficácia do correctivo calcário pode
ser atribuída à sua menor granulometria (80% inferior a 0,16 mm), facto que
poderá ser esclarecido com estudos mais prolongados e utilizando uma moenda
mais fina da casca de ovo.
Incorporação da casca de ovo num processo de compostagem
As principais propriedades físicas e químicas das misturas inicialmente
testadas nas 4 pilhas são apresentadas no Quadro 5. O teor de humidade e a
razão C/N presentes na mistura inicial sujeita a compostagem são parâmetros
determinantes para que este processo microbiológico seja bem sucedido e devem
estar compreendidos entre 50-60% e 25-30:1, respectivamente (Liang, Das e
McClendon, 2003; Huang et al., 2004; Zhu, 2007).
Quadro_5
- Propriedades físico-químicas das misturas iniciais das pilhas de compostagem
testadas.
Neste estudo, o teor de humidade das misturas iniciais de cada pilha variou
entre 43-49%. No que diz respeito à relação C/N, os valores baixos foram
encontrados em todas as misturas iniciais (15,2-17,8), e este aspecto limitou a
evolução do processo (resultados discutidos na secção 3.2.2). Na verdade, Huang
et al. (2004) estudaram o efeito da baixa relação C/N (aproximadamente 15) na
compostagem de estrume de animais misturados com serradura e concluíram que
períodos mais longos de compostagem foram necessários para atingir a maturação/
estabilização do composto, mas que o perfil de temperatura registada atingiu o
valor máximo de 60 ºC, tendo a fase termofílica uma duração de 32 dias, o que é
suficiente para promover a higienização do composto.
Os elevados teores de cálcio em todas as misturas iniciais testadas, traduzem a
quantidade significativa de casca de ovo incorporada (20 a 33%). Outros
elementos importantes e necessários para o crescimento microbiológico, como P,
K, Na, e Mg, estavam presentes em concentrações suficientes nas matérias-primas
testadas. Os metais pesados tóxicos (Cd, Cr, Pb, Cu, Ni e Zn) foram detectados
em baixas concentrações, tal como esperado dada a natureza dos materiais.
Neste estudo, a monitorização de 4 pilhas do tipo windrow com elevados teores
de casa de ovo (Quadro_3) teve a duração de 50 dias e contemplou a
quantificação de pH, condutividade eléctrica, humidade e temperatura de cada
mistura.
Na Figura 2 está representada a evolução da temperatura registada em cada uma
das quatro pilhas, assim como a temperatura ambiente observada durante o
período em análise. De facto, a temperatura corresponde a uma das variáveis de
monitorização mais importantes no processo de compostagem, uma vez que
determina a dinâmica da actividade microbiana, a velocidade das reacções
biológicas e também a qualidade do composto final.
Figura_2 ' Perfil de temperatura do processo de compostagem (linhas verticais
representam a amplitude dos valores de temperatura medidos em diferentes pontos
da pilha): a)- pilhas com 20% de CO; b)- pilhas com ~30% de CO.
Os perfis de temperatura registados evidenciam que as matérias-primas já tinham
uma temperatura > 30 ºC quando as pilhas foram construídas, porque os materiais
utilizados já estavam envelhecidos. Com efeito, o estrume de cavalo utilizado
neste estudo foi armazenado por duas semanas num átrio, o que permitiu que a
degradação microbiana da matéria orgânica facilmente biodegradável tivesse
início. De acordo com Li, Zhang e Pang (2008) a compostagem de estrumes
envelhecidos atinge picos de temperatura mais baixos, demora mais tempo a
atingir a estabilidade e causa mais perdas de matéria seca e azoto. Portanto,
poder-se-ia esperar que os perfis de temperatura apresentados na Figura 2
apresentassem uma fase termofílica mais acentuada, se estrume fresco de cavalo
tivesse sido usado.
As pilhas 1 e 2 (com 20% de casca de ovo) apresentaram uma fase termofílica que
durou cerca de 20 dias; foram necessários cerca de 6 dias para se atingir os 50
ºC, que foi a média da temperatura máxima registada, apesar de valores de
temperatura superiores terem sido monitorizados em alguns pontos das pilhas,
especialmente na região central (linhas verticais na Figura 2(a)). A fase de
maturação do processo foi bem identificada, uma vez que a temperatura das
pilhas diminuiu para valores próximos da temperatura ambiente,
independentemente da correcção da humidade e do arejamento mecânico realizados.
A Figura 2(b) apresenta o perfil de temperaturas das pilhas 3 e 4 (com cerca de
30% de CO). Neste caso, a fase termofílica foi mais curta (durou cerca de 14
dias) e teve início 6 dias depois da fase termofílica das pilhas com 20% de
casca de ovo na sua composição. Para além disso, a temperatura média máxima
registada foi ainda menor (45 ºC e 43 ºC na pilha 3 e 4, respectivamente), bem
como a temperatura do núcleo pilha (49 ºC e 47 ºC na pilha 3 e 4,
respectivamente). Este facto poderá ser explicado pela maior percentagem de ovo
incorporada nas pilhas 3 e 4 em comparação com as pilhas 1 e 2, o que diminui,
em termos globais, a quantidade de matéria orgânica inicialmente presente nas
misturas.
Durante o processo de compostagem, a evolução do pH (Figura 3) apresentou um
perfil semelhante para as pilhas testadas e seguiu um padrão indicado por
outros estudos (Zhu et al., 2004; Yañez, Alonso e Díaz, 2009). Inicialmente,
durante a fase termofílica, o pH da mistura tendeu a aumentar, contudo a
estabilização em valores de pH mais próximos da neutralidade ocorreu quando
durante a fase de maturação. A condutividade eléctrica não sofreu alterações
significativas, tendo este comportamento sido consistente em todas as pilhas
analisadas.
Figura_3 ' Evolução do pH (linhas a cheio) e da condutividade eléctrica (linhas
a tracejado) durante o processo de compostagem.
As principais características físicas e químicas dos compostos produzidos neste
trabalho estão apresentados no Quadro 6, bem como os critérios para a
atribuição do Rótulo Ecológico Europeu (Decisão da Comissão 2001/688/CE). Todos
os compostos (C1 da pilha 1 a C4 da pilha 4) atingiram uma aparência escura
típica da presença de húmus, não sendo evidente qualquer odor desagradável.
Independentemente do conteúdo de CO nas misturas testadas encontraram-se
visíveis nos compostos obtidos, pequenas partículas de casca de ovo. Os teores
de humidade quantificados nos compostos finais estiveram de acordo com os
critérios estabelecidos pelo sistema comunitário de atribuição de Rótulo
Ecológico. No que diz respeito à condutividade eléctrica, os níveis
quantificados foram próximos do valor máximo permitido (1,5 mS cm-1),
provavelmente devido à utilização de estrumes de animais que tipicamente são
caracterizados por possuírem elevados níveis de condutividade eléctrica (Ko et
al., 2008).
Quadro 6 ' Caracterização física e química dos compostos (C1-C4).
Em geral, o teor de metais pesados em compostos destinados a valorização
agrícola pode ser considerado um parâmetro crítico, em termos de qualidade. Na
verdade, apesar de algumas quantidades de metais pesados específicos serem
essenciais para o crescimento da planta (por exemplo, Cu, Ni, Zn), outros,
mesmo em pequenas quantidades são motivo de preocupação devido ao seu potencial
impacte na biota do solo e na saúde humana. Ao comparar os teores de Cd, Cr,
Pb, Cu, Ni e Zn presentes nos compostos produzidos, com os critérios
estabelecidos para a obtenção de um rótulo ecológico não foram encontrados
valores críticos. Os compostos finais obtidos são claramente materiais ricos em
Ca e seu montante é quase duas vezes maior do que as matérias-primas (Quadro
5). Este facto é uma consequência da redução da massa total que tipicamente
ocorre durante um processo de compostagem e à estabilidade química dos minerais
de cálcio na casca de ovo (principalmente CaCO3). Na verdade, quando o pH
assume valores ligeiramente básicos (7,6-8,3), a taxa de lixiviação do cálcio é
muito baixa. Como já mencionado anteriormente, estes compostos podem ter um
efeito positivo quando aplicados para aumentar o pH do solo ou para corrigir os
níveis de solos pobres em cálcio.
Em termos microbiológicos, os valores de bactérias coliformes (CB), bactérias
coliformes termotolerantes (TCB), E. Coli e clostrídios sulfito ' redutores
(SSRC) quantificados nos compostos analisados estão presentes na Figura 4(a). A
contagem de microrganismos mesófilos totais, realizada nas misturas iniciais e
nos compostos finais, está apresentada na Figura 4(b).
Figura 4 ' Características microbiológicas dos compostos finais: a) total de
bactérias coliformes (CB), bactérias coliformes termotolerantes (TCB),
Escherichia coli (E. Coli), Esporos de clostrídios sulfito-redutores (SSRC); b)
microrganismos mesófilos totais (MB) no início do processo (misturas iniciais)
e nos compostos finais.
A presença de bactérias fecais é de especial interesse do ponto de vista
higiénico, porque pode ser usada como bioindicador da presença de potenciais
microrganismos patogénicos e do grau de higienização do composto. A
caracterização dos compostos produzidos neste trabalho demonstrou que bactérias
fecais estão presentes, independentemente das composições das misturas
testadas: os resultados mostraram que os níveis de TCB e de E. coli variam
entre 0,9-2,9 log NMP g-1 e 0,9 -2,7 log NMP g-1, respectivamente, contudo
estes valores são inferiores aos definidos pela Decisão da Comissão 2001/688/CE
(inferior a 1000 NMP g-1) para uso agrícola ou para a comercialização do
composto.
O composto obtido na pilha 4 apresentou os níveis mais elevados de TCB e E.
coli, indicando que provavelmente a duração da fase termófilica, não foi
suficiente para assegurar a inactivação completa de patogénicos. Na verdade, o
perfil de temperatura (Figura_2) para essa pilha atingiu a temperatura mais
baixa registada durante a monitorização do processo de compostagem.
Os resultados obtidos pela técnica de tubos múltiplos para os esporos de
clostrídios sulfito-redutores (SSRC) nos compostos finais (Figura_3)) são
relativamente elevados, sendo o menor valor determinado para a pilha 1. A
quantificação do SSRC é um parâmetro importante, uma vez que clostrídios são
bactérias formadoras de esporos que podem, através deste mecanismo, resistir às
altas temperaturas desenvolvidas nas pilhas durante o processo de compostagem
(Bustamante et al., 2008). Ausência de Clostridium perfringens por grama de
composto foi sugerida como uma exigência do produto final no segundo projecto
da Comissão Europeia (Second draft of the European Commission working document
on biological treatment of biowaste, 2001). Os resultados obtidos neste
trabalho, levantam a suspeita de que a relação de tempo e temperatura não terá
sido suficiente para destruir os esporos.
Os resultados também indicaram que os níveis de MB quantificados nas misturas
iniciais rondaram os 8,9 log UFC g-1 e no final do processo de compostagem, a
contagem bacteriana diminuiu para níveis em torno de 7,7-8,0 log UFC g-1. Esses
valores eram previsíveis, pois os microrganismos mesófilos ainda estão
presentes na fase de maturação, apesar da baixa actividade microbiana (Hassen
et al., 2001).
A partir dos resultados apresentados, não foram observadas diferenças
significativas na qualidade microbiológica dos produtos finais obtidos com
diferentes níveis de resíduos de casca de ovo.É também de salientar que o grau
de higienização dos compostos produzidos neste trabalho, pode não ter sido
exclusivamente dependente do perfil de temperatura alcançado durante a
compostagem, mas também influenciado por fenómenos de recontaminação associados
à utilização do equipamento mecânico para misturar e arejar as pilhas. De
facto, alguns autores (Hassen et al., 2001; Bustamante et al., 2008) referem a
recontaminação ou "redistribuição" de coliformes fecais durante os
revolvimentos de pilhas do tipo windrow. Por outro lado, as experiências
apresentadas neste trabalho foram realizados numa zona agrícola, onde o
equipamento mecânico também foi utilizado para misturar e arejar pilhas
constituídas por estrumes de animais com diferentes níveis de higienização.
Deste modo, será provável que o equipamento de revolvimento possa ter actuado
como vector de re-colonização dos compostos por outras comunidades bacterianas.
O índice de germinação (GI) é um parâmetro usualmente quantificado para avaliar
a toxicidade do composto, uma vez que compostos não maturados podem conter
substâncias inibidoras da germinação de sementes e desenvolvimento radicular
normal. Neste trabalho, os ensaios de germinação foram realizados com sementes
de agrião de jardim e os resultados obtidos estão resumidos na Figura 5.
Figura 5 ' Resultados dos ensaios de germinação (linhas verticais correspondem
aos desvios padrão) para os compostos C1 a C4, usando sementes de agrião de
jardim (n=5).
Independentemente da composição do composto, a percentagem relativa de
germinação, RRG, foi sempre superior a 100%. Estes resultados significam que o
desenvolvimento das raízes das sementes é favorecido por substâncias presentes
nos compostos. O índice de germinação obtido, GI, foi superior a 60%, variando
de 87% a 101%, o que indica que os compostos analisados não apresentam
propriedades fitotóxicas capazes de inibir a germinação (Komilis e Tziouvaras,
2009). Índices de germinação inferiores que variaram entre 32,5% e 50% foram
obtidos por Kemper e Goodwin (2009) em compostos produzidos a partir de
resíduos da casca e estrume de galinha. Estes resultados indicam que as
características fitotóxicas dos compostos produzidos a partir de resíduos de
casca de ovo só podem ser atribuídas às propriedades do estrume animal
utilizado na composição daquelas pilhas.
A estabilidade do composto representa o grau de decomposição da matéria
orgânica expressa em função da actividade microbiana e pode ser avaliada, por
exemplo, por metodologias respirométricas (Komilis e Tziouvaras, 2009). Neste
estudo, a estabilidade dos compostos produzidos foi avaliada por testes de
auto-aquecimento e por ensaios de respirometria.Independentemente do composto
analisado, a temperatura máxima registada durante o teste de autoquecimento não
ultrapassou os 29ºC, e o consumo máximo de oxigénio, SOUR rondou valores entre
os 0,19 e 0,36 mg O2 g−1 VS h−1
Ambos os testes demonstraram claramente que todos os compostos apresentam uma
estabilidade elevada, após 50 dias de compostagem e, portanto, a sua utilização
como substrato orgânico irá manter a disponibilidade de oxigénio no solo ou
meio de crescimento. Na verdade, o valor de SOUR obtido neste trabalho foi
inferior a 1 mg O2 g-1 VS h-1, para todas as pilhas testadas, o que é
indicativo de compostos estáveis (Lasaridi e Stentiford, 1998). Por outro lado,
também as temperaturas mais elevadas alcançadas durante o teste de aquecimento
foram inferiores a 30 ºC, permitindo classificar todos os compostos com um grau
de estabilidade V.
CONCLUSÕES
Nas condições do estudo realizado em vasos, a aplicação da casca de ovo ao solo
com baixo teor de matéria orgânica e textura arenosa, teve o mesmo efeito que a
aplicação de igual quantidade do correctivo agrícola, podendo deste modo
substituí-lo. Contudo, a exigência legal de um tratamento térmico antes da
aplicação da CO ao solo, constitui uma desvantagem relativamente ao calcário
agrícola. Relativamente a solos com elevado teor de matéria orgânica, e
portanto com um maior poder tamponizante, o correctivo calcário apresentou um
efeito significativamente maior na subida do pH do que com a casca de ovo, mas
apenas no tratamento em que se aplicaram o equivalente a 5 t ha-1. Estudos de
campo deverão ser efectuados para complementar e comprovar estas observações
preliminares.
No que diz respeito ao processo da compostagem, os resultados experimentais
indicam que quantidades significativas de casca de ovo (20 e 33%) podem ser
utilizadas juntamente com outros resíduos de origem animal e vegetal, sem haver
inconvenientes para o desenrolar do processo. Independentemente da formulação
testada a fase termofílica foi observada em todas as pilhas, apesar da baixa
razão C/N existente no início do processo. Do estudo da qualidade dos compostos
finais, feito através da análise das respectivas características físicas,
químicas e microbiológicas, pode-se concluir que apresentam propriedades
adequadas a aplicações agronómicas. Apesar dos baixos teores de E.coli
quantificados nos compostos finais, o aspecto sanitário do composto poderá não
estar garantido devido a provável recontaminação ocorrida durante o processo de
revolvimento e à pequena duração da fase termofílica.