Distribuição de lamas e efluentes vinícolas no solo: uma alternativa eco-
eficiente para o seu tratamento
RÉSUMÉ
Dans ce travail nous avons analysé les principes et méthodes de traitement par
l'épandage des effluents d'établissement vinicoles et des bous dans le sol; la
description technique de la séquence du traitement; les limitations de ce
procédé d'épuration; les aspects relatives aux sols et des cultures adaptées à
la distribution; les aspects à considéré dans la mise en uvre d'un système de
distribution et finalement de la législation portugaise à ce propos.
L´épandage des effluents d'établissement vinicoles et des bous, pour sa
simplicité et le bas coût est une alternative très intéressante du point de vue
économique et technologique pour le traitement des effluents vinicoles, et très
usée dans plusieurs pays producteurs du vin, à savoir France, l'Australie,
l'Afrique du Sud et les USA. Dans quelque régions il est même préféré à autres
types de traitement, parce que c'est technologiquement moins cher et plus
simple qu'autres traitements alternatifs plus complexes et plus demandant quant
aux exigences spécialisées de travail, et simultanément un bon entraînement
agronomique qui, si correctement usée, contribue pour la nutrition du sol. Cet
entraînement est encadré parfaitement avec les préoccupations de
l'environnement, parce que les effluents liquides sont recyclés, en fournissant
de l'eau et des éléments nutritifs au sol, et dans l'autre main, résout le
problème de traiter ce type d'effluents.
Cependant au Portugal ce processus n'est pas trop utilisé, et il manque de
législation par rapport à cette matière qui doit être publiée d'urgence,
concernant les époques d'application de l'année, volumes et conditions
d'application en fonction du type du sol, afin que ce soit effectivement un
processus du traitement et pas un système de distribution de la pollution.
1. INTRODUÇÃO
A fileira vitivinícola, à semelhança dos outros sectores, deve minimizar o seu
impacto sobre o ambiente, adaptando as tecnologias de produção aos
constrangimentos ambientais e introduzindo sistemas de tratamento de efluentes
eficientes, adequados às especificidades das adegas portuguesas, nomeadamente
no que respeita à sua pequena a média dimensão e ausência de mão de obra
especializada.
O sector agro-alimentar está abrangido pela política ambiental, mas a poluição
causada pelas adegas e as suas consequências no meio onde se inserem são
frequentemente subestimadas. As práticas enológicas integradas, a qualificação
das explorações e a gestão ambiental, são passos imprescindíveis que exigem um
conhecimento aprofundado da gestão dos efluentes vinícolas (EVs). Para além dos
aspectos legislativos, a tomada de consciência da necessidade de protecção do
ambiente, redução dos consumos de água e da quantidade e carga poluente dos
efluentes fazem parte das novas preocupações sociais, contribuindo para uma
nova imagem da fileira vitivinícola e do seu produto final: o vinho (Rochard
& Viaud, 2000; Jourjon et al., 2001; Pirra et al., 2005).
Neste trabalho chama-se a atenção para o problema da gestão dos efluentes
vinícolas e das respectivas lamas de ETAR vitivinícola, dando-se um contributo
para a sua resolução através de uma revisão bibliográfica exaustiva centrada
numa alternativa que se propõe como eco-eficiente para o seu tratamento.
Salienta-se o facto de ser um tema de elevado interesse actual, sobre o qual
existe muito pouca bibliografia técnica em português (particularmente no que
diz respeito a efluentes e ETARs vinícolas (Pirra, 2008).
Como se constata, a bibliografia consultada é na maioria em língua inglesa e
francesa, e refere-se a países terceiros. De facto, nas diversas publicações de
referência portuguesas consultadas (Revista de Ciências Agrárias, Pastagens
e Forragens, Ciência e Técnica Vitivinícola, entre outras), não se
encontraram trabalhos sobre a distribuição de EVs e lamas de ETARs
Vitivinícolas em Portugal, verificando-se mesmo que são muito poucos os artigos
em congressos ou outros eventos em que se aborda a questão dos efluentes
vinícolas em Portugal. Já quanto à distribuição de outras lamas de ETAR,
encontraram-se diversas referências portuguesas visando examinar
experimentalmente o efeito da sua aplicação nos parâmetros indicadores de
fertilidade e/ou poluição do solo bem como as boas práticas da sua aplicação ao
solo (particularmente os trabalhos de Domingues et al. (1990, 1991, 1999,
2001), Serrão et al. (2001, 2002, 2005, 2007) e Dias (2004), além de outros que
se indicam nos capítulos seguintes).
2. O TRATAMENTO DE EVs POR DISTRIBUIÇÃO NO SOLO
A distribuição ou aplicação de EVs no solo é entendida como um tipo de
tratamento extensivo que, pela sua simplicidade de implementação, baixo risco
de impactos ambientais negativos, eficácia e custo reduzido, responde aos
principais objectivos procurados pelos pequenos e médios vitivinicultores
(Doré, 1998; Drevon, 1998; Galy e Menier, 1998; Jourjon et al., 1998, 2001,
2004a, Muller & Heil, 1998). É o tipo de tratamento preferido pelos
pequenos produtores vinícolas, nas zonas onde esta prática é possível, como por
exemplo na região de Champagne (Jusiak, 1994; Mathys, 1994).
Goliath (1998) e Hazel (1998) indicam que 72% das adegas Australianas
distribuem os EVs sobre vinha, floresta ou prados após um pequeno ou nulo pré-
tratamento; 15 % recorrem à evaporação; 6% recorrem à ETAR municipal e 6% não
fazem qualquer tratamento. Referem, no entanto, que o princípio do método é
frequentemente mal percebido, o que leva a que seja abusivamente utilizado. Em
algumas situações é possível proceder à rega de determinadas culturas com EVs
após um pré-tratamento (inclusivé da própria vinha) (Ryder, 1994 e 1995;
Serfontein, 1994 e 1995; Ryder & Crobak, 2004; Walsdorff e Kraayenburg,
2004).
2.1. Definição e princípios
De forma geral, na interface agricultura/ ambiente entende-se por resíduos os
sólidos ou semisólidos, de origem agro-pecuária ou não, que eventualmente
poderão ser aplicados/distribuídos no solo. O termo efluentes refere-se a
líquidos mais ou menos espessos produzidos numa exploração agrícola ou
indústria, cujo responsável tem a obrigação e o dever de lhes dar um destino de
forma ambientalmente mais correcta. As lamas correspondem ao decantado, mais ou
menos pastoso, obtido dos sistemas de tratamento biológico de efluentes,
urbanos ou não, após a retirada do sobrenadante clarificado. Chorumes e
estrumes são o resultado da mistura de água, restos alimentares, palhas e
dejectos sólidos e líquidos das explorações animais.
A distribuição no solo é entendida como a aplicação de resíduos ou de efluentes
sobre ou por incorporação nos solos agrícolas. Baseia-se nas propriedades
depuradoras do sistema solo-microrganismos-plantas tendo cada um deles um papel
específico. A camada superficial do solo filtra e retem os sólidos em
suspensão, incluindo eventuais agentes patogénicos e outros microrganismos; a
microflora e microfauna do solo, através do seu crescimento e multiplicação,
asseguram a degradação e mineralização da matéria orgânica, transformando-a em
húmus e compostos minerais, que são fixados pelo solo (Jourjon et al., 2001).
O rendimento de depuração depende fortemente da actividade microbiana, que por
sua vez é influenciada pelas características do solo (teor em água, pH,
composição da atmosfera do solo, temperatura e presença de compostos
antibióticos ou tóxicos). Jusiak (1994), Chapman et al. (1994 e 1995) e Chapman
(1998) referem que um solo bem estruturado que receba habitualmente EVs degrada
cerca de 80-95% do carbono orgânico nas primeiras 3 a 6 horas após a sua
distribuição (2 a 3 vezes mais rápido que um solo virgem). Jourjon et al.
(2001) indicam que um solo bem estruturado pode depurar até 20 a 30 toneladas
de Carência Química de Oxigénio (CQO) ha-1 ano-1.
Finalmente, as plantas retiram os elementos fertilizantes que se vão formando
por degradação da matéria orgânica. Esta fase limita a acumulação dos
nutrientes no solo e/ou a sua lixiviação. O volume das exportações depende da
espécie cultivada, do clima e da humidade do solo. O sistema depurador é tanto
mais eficaz quanto maiores forem as exportações das culturas (Mathys, 1994;
Drevon, 1998; Drevon et al., 1998; Jourjon et al., 2001, 2004a).
Comparando o valor fertilizante dos EVs com o de outros efluentes (Quadro 1),
veri-fica-se que os EVs possuem um elevado teor em matéria orgânica, expressa
como Sólidos Suspensos Totais (SST) e CQO; no entanto, o conteúdo em azoto e
fósforo é baixo, razão pela qual, normalmente, é o potássio o elemento
considerado no cálculo da dose de aplicação deste tipo de efluente.
Quadro 1 ' Composição e características dos EVs em comparação com outros
efluentes.
Winery effluents characteristics and composition in comparison with other
effluents.
Em alguns casos, a dose a aplicar poderá, eventualmente, ter de ser reduzida,
em função da composição do efluente, nomeadamente a presença de metais pesados
ou compostos fenólicos, que se estiverem presentes em níveis elevados no
efluente distribuído poderão ter alguma fitotoxicidade e cuja adição ao solo
seria prejudicial.
Este facto é particularmente importante no caso das lamas de ETAR, razão porque
se aborda este aspecto no capítulo referente à distribuição destas lamas,
principalmente as de origem vitivinícola. A este respeito, salienta-se o DL nº.
118/06 de 21 de Junho, que fixa os valores limite de concentração de metais
pesados nos solos e lamas de ETAR, e as respectivas quantidades máximas anuais
que podem ser introduzidas em solos cultivados.
Assim, e para um solo de fertilidade média em que se admite o principio do
enriquecimento e manutenção da fertilidade do solo normalmente utilizado para o
K, resulta que o cálculo da dose de aplicação anual de EVs é função do seu teor
de K, pelo que a dose de aplicação anual D (m3ha-1) seria:
Desta forma, apenas a necessidade da cultura em K é satisfeita, devendo
complementar-se a fertilização com os nutrientes em falta através de outros
fertilizantes. Note-se que a bibliografia consultada considera um solo de
fertilidade média, sendo omissa quanto à capacidade do solo em fixar ou reter o
K. Em geral, as necessidades de potássio de uma cultura variam ente 150 e 300
kg ha-1ano-1(Doré, 1998).
No Quadro 2 apresenta-se o equivalente fertilizante (em kg/100 m3) de
diferentes EVs e borras de vinho.
Quadro 2 ' Equivalente fertilizante de diferentes EVs e borras de vinho (em kg/
100m3).
Fertilizing value of different Winery effluents and wine lees (kg/100m3).
2.2 Descrição técnica da sequência de tratamento
Este processo de tratamento assenta em três etapas principais (Desautels et
al., 1994 e Rochard & Viaud, 2000): 1) Pré-tratamento através de uma
crivagem fina (1 mm), e eventualmente correcção de pH; 2) Armazenamento tampão
(reduz o risco de entupimento, homogeneíza o EV e evita picos de carga
hidráulica); 3) Encaminhamento até ás áreas de distribuição através de
canalização ou por cisterna.
Para fazer face a condições climáticas desfavoráveis, dificuldades de acesso às
parcelas ou a eventuais avarias, a adega deverá dispor de uma capacidade de
armazenamento que depende das suas características e dos terrenos utilizados,
ou seja do volume e tipo de efluentes, das culturas praticadas e do espaço
disponível na adega. O volume mínimo de armazenamento de EVs deverá
corresponder à produção de 5 a 30 dias de actividade da adega em período de
ponta (Jusiak, 1994; Drevon, 1998; Drevon et al., 1998; Jourjon et al., 2001,
Bidault, 2004).
Já na região de Maine-et-Loire (França), a legislação impõe um volume de
armazenamento ≥0,5 L L-1vinho produzido ano-1, devendo o armazenamento junto à
adega ser ≥ 0,1 LL-1de vinho ano-1. O volume de armazenamento tampão capaz de
homogeneizar os EVs deverá ser ≥ 50% da produção anual, de forma a permitir um
armazenamento durante cerca de 6 meses.
No que respeita a custos, Jusiak (1994) Drevon et al. (1998), Galy & Menier
(1998) indicam um valor médio de 0,7-1 euro hl-1EV distribuído. A distribuição
de EVs pode ser feita com cisterna ou canhão aspersor.
No Quaro 3 apresentam-se as vantagens e inconvenientes destes dois sistemas.
Quadro 3' Vantagens e inconvenientes da distribuição por cisterna vs canhão
aspersor.
Advantages and inconveniences of the distribution with cistern vs field
sprinkler.
2.3. Limitações da depuração por distribuição no solo
A eficácia deste processo está intimamente ligada às condições de
implementação, uma vez que práticas desadequadas conduzem à diminuição do
rendimento de depuração. Por exemplo, a sobredosagem (por aplicação individual
ou pelo total anual) aumenta o risco de escorrimento superficial de EVs brutos,
facilitando a lixiviação (ou percolação) dos elementos solúveis e a consequente
contaminação das toalhas freáticas (Doré, 1998). Chapman & Sefton (1994)
referem que o oxigénio contido por metro cúbico de terreno é, em média,
suficiente para a degradação microbiológica de 5-20 L de EV.
A distribuição de EVs no solo, exceptuando um ligeiro aumento dos teores em Na
(proveniente dos produtos de limpeza), em Cu (dos fitofármacos) e da
salinidade, tem um efeito global favorável sobre as principais propriedades do
solo (pH, condutividade e teores em N, P e K). Contudo, devem acompanhar-se os
teores de Cu e a salinidade no solo. Em simultâneo, deve seguir-se uma
estratégia de redução, optimização e reciclagem da utilização de soda cáustica
na adega e dos fitofármacos com cobre na vinha (Serfontein, 1994 e 1995;
Chapman, 1998 e Doré, 1998).
Para que a distribuição de EVs no solo seja considerada como um processo de
tratamento, é necessário: a) ausência de efeitos de toxicidade sobre as
plantas; b) existência de armazenamento tampão; c) ausência de escorrimento
superficial e/ou estagnação (encharcamento); d) manutenção dos solos e do
coberto vegetal em bom estado; e) distribuição exclusivamente sobre terrenos
cultivados (Dornier, 1992; Rochard & Viaud, 2000; Bidault, 2004).
O Quadro 4 apresenta uma grelha de classificação da eficiência da distribuição
em função das condições observadas.
Peres et al. (2004), após 4 anos de distribuição de EVs no solo em doses de 20-
60 m3ha-1ano-1, observaram um aumento da biomassa microbiana, do número e
biomassa total de minhocas, e do número de espécies presentes, resultando na
melhoria da fertilidade do solo. Contudo, doses superiores às referidas
mostraram um efeito nocivo para as minhocas do solo.
Debroux et al. (2004), em ensaios de campo realizados na Califórnia, concluíram
que o solo se mostrou eficaz no tratamento de EVs (nomeadamente na
regularização do pH, degradação do CBO5e teor em N) des-de que não se
ultrapassem 8,6 t CBO5ha-1(a partir deste valor surgiram problemas com odores
provocados por anaerobiose e fitotoxicidade).
Trabalhos laboratoriais realizados por Jourjon (1998) mostraram efeitos ao
nível da inibição de germinação das sementes, redução do crescimento radicular
em plântulas e do crescimento de plantas em vasos (milho e trigo) proporcionais
à dose de EVs aplicada. Os mesmos autores verificaram que em França a aplicação
de 400 m3ha-1de um EV com 50 g CQO L-1e 2,6 g SST L-1num prado natural provocou
30 a 50% de diminuição da produção de matéria seca relativamente à testemunha,
tendo observado sinais de fitotoxicidade e queimaduras nas folhas, associados à
presença de polifenóis provenientes das uvas tintas.
Quadro 4 ' Classificação da eficiência da distribuição de EVs no solo.
Efficiency of soil distribution of Winery effluents in the soil.
Condições climáticas extremas (períodos de gelo ou neve prolongados, chuvadas
fortes e persistentes) limitam fortemente o rendimento de depuração,
desaconselhando o uso desta prática nestas condições. No caso de se optar por
uma só aplicação, Jourjon & Arcanger (1998) preconizam a aplicação máxima
de 100 m3ha-1, desaconselhando concentrações ≥10 g L-1CQO e 2 g SST L-1,
devendo a aplicação ser feita, no mínimo, 1 mês após a sementeira (no caso de
culturas anuais).
Muller & Heil (1998), em trabalhos realizados na Alemanha, referem que a
actividade microbiana e os níveis de azoto do solo aumentam após a distribuição
de 600 m3ha-1de EVs, não tendo verificado efeitos eco toxicológicos, aumento
dos teores em metais pesados, ou presença de elementos provenientes dos EVs no
percolado. Estes autores indicam que os EVs apenas mostraram efeitos
toxicológicos nos testes Daphnia para concentrações superiores a 16%.
2.4. Distribuição sobre solos agrícolas ou florestais
A distribuição de EVs deve ser realizada em terrenos regularmente trabalhados
ou em prados normalmente explorados. Terrenos florestais e plantações
frutícolas também são possíveis, desde que a distribuição seja feita em
períodos adequados. Na maior parte dos casos, esta distribuição realiza-se
sobre prados permanentes e culturas cerealíferas ou forrageiras (trigo, milho,
cevada, luzerna, etc.) (Coignac et al., 1986).
Este processo pode ser associado não só ao tratamento de efluentes mas também à
rega, retirando-se dele, simultaneamente, proveitos económicos (Serfontein,
1994 e 1995). Na Austrália, onde esta prática é vulgar, uma das principais
adegas cooperativas abandonou o tratamento por evaporação, procedendo à
distribuição de 10000 m3ha-1ano-1dos seus EVs por alagamento numa área de 30 ha
de eucaliptos, após um ligeiro tratamento físico por crivagem e decantação
(carga diária aplicada inferior a 100 kg CBO5ha-1), sem que se verificassem
alterações significativas ao nível do equilíbrio físico e microbiológico do
solo (Chapman & Sefton, 1994; Kennedy, 1994).
Schoor (2001) e Schoor & Egypt (2001) referem que a distribuição de EVs na
África do Sul é autorizada até ao limite de 500 m3ha-1dia-1, desde que estes
cumpram as seguintes características: condutividade <200 mS m-1; pH 6-9; SAR <5
e CQO <0,4 g L-1. Para CQO até 5g L-1, o limite diminui para 50 m3ha-1 dia-1.
De forma geral, após um pré tratamento, os EVs constituem uma fonte de água
para a rega de culturas estivais como o milho, por exemplo (Doré, 1998; Clerc,
2004; Walsdorff & Kraayenburg, 2004). De resto, a utilização de águas
tratadas na rega de campos de golfe nas regiões mais secas do País é hoje uma
prática comum e com bons resultados, respondendo, simultaneamente, às
necessidades em água e nutrientes das culturas, sem contaminação microbiológica
dos relvados ou dos lençóis freáticos que coloque em perigo os seus
utilizadores (Dionísio et al., 1995; Beltrão, 2002; Beltrão et al., 2005).
2.5. Distribuição sobre vinhas
Em algumas regiões vitícolas a monocultura e a omnipresença da vinha torna
impraticável a distribuição sobre outros terrenos que não os ocupados com esta
cultura, o que pode ser vantajoso, pois responsabiliza os viticultores pela
gestão dos seus efluentes e diminui os custos de transporte. No entanto, esta
prática é ainda pouco comum, por falta de conhecimento científico e de
legislação, e pela presença de elevados declives em algumas regiões vitícolas,
que limitam fortemente a sua aplicação.
Baradeau et al. (1999), Jourjon et al. (1998 e 2004a) e Rochard & Viaud
(2000), em trabalhos realizados em França com doses de 20 a 60 m3ha-1ano-1de
EVs com 9 a 26 g CQO L-1aplicados durante 6 anos na mesma parcela de vinha,
estudaram diversos parâmetros do solo (escorrência, composição físicoquímica,
actividade microbiana e dos invertebrados) e da vinha (estado sanitário, vigor,
precocidade, nutrição mineral e qualidade das uvas), não tendo observado
quaisquer efeitos negativos no solo, nas plantas ou na qualidade das uvas. Pelo
contrário, observaram efeitos favoráveis sobre a actividade biológica e
microbiológica do solo, recomendando, pois, esta prática numa perspectiva
sustentável e duradoura.
Na região de Maine-et-Loire (França), a legislação impõe que a distribuição de
EVs seja efectuada fora da época vegetativa da vinha e com valores inferiores a
200 m3ha-1ano-1, distribuídos em pelo menos duas passagens de 100 m3ha-1cada, e
em solos com declive inferior a 5% (Jourjon et al., 2001).
Ryder (1994 e 1995) e Ryder & Crobak (2004) referem que na Califórnia a
distribuição de cerca de 70 a 100 m3ha-1ano-1de EVs (CBO5até 67 g m-2dia-1) com
10 a 20 g CQO L-1, 5 g SST L-1, pH de 3,5 a 5,5, efectua-se desde os anos 40,
sem que tenha ocorrido degradação da qualidade do solo ou das águas
subterrâneas, tendo obtido melhorias qualitativas e quantitativas na produção
de uvas.
3. ASPECTOS A TER EM CONTA NA IMPLEMENTAÇÃO DE UM SISTEMA DE DISTRIBUIÇÃO DE
EVs
3.1. Estudo prévio
Este sistema de tratamento pressupõe a disponibilidade de terrenos na
proximidade da adega com área suficiente e o estudo do perímetro de
distribuição, tendo em conta as características do solo, as condicionantes
ambientais, a legislação e as culturas praticadas, de forma a conhecer a
aptidão dos solos e definir as respectivas condições de distribuição e gestão
das culturas (Jusiak, 1994; Mathys, 1994; Ryder, 1994 e 1995; Drevon, 1998;
Drevon et al., 1998; Rochard e Viaud, 2000; Jourjon et al., 2001; Viaud et al.,
2004a, b).
Distâncias superiores a 2-3 km são possíveis, mas aumentam muito o tempo de
trans-porte e o custo da operação. Devem contactarse previamente os
agricultores que explorem os terrenos escolhidos, aspecto que é por vezes
problemático, porque frequentemente estes se opõem por conhecerem o seu
reduzido valor fertilizante (Katsiri & Dalou, 1994; Mathys, 1994; Jourjon
& Arcanger, 1998). De seguida, deve verificar-se se os terrenos são
adequados no que respeita às exigências legislativas (distância a habitações,
ribeiros e pontos de água) e técnicas (declive, coberto vegetal,
características pedológicas, presença de barreiras ou bandas relvadas na
bordadura da parcela, etc.) (Drevon, 1998; Viaud et al., 2004a, b).
Terrenos com pH <6 ou com declive superior a 7% não devem ser incluídos no
perímetro de distribuição, a fim de evitar riscos de acidificação do solo e
escorrimento superficial (Doré, 1998; Jourjon et al., 1998, 2001).
3.2. Dose e frequência da aplicação
A dose óptima a distribuir depende da capacidade depuradora do solo, do teor em
elementos fertilizantes do efluente e das necessidades das culturas (Drevon et
al., 1998). Devido à elevada variabilidade de composição dos EVs, é difícil
avaliar com precisão a quantidade de elementos fertilizantes real-mente
distribuída e disponível para as culturas.
Os principais factores que influem na capacidade de depuração do solo são o
volume distribuído, a precipitação, a evapotranspiração e as taxas de
percolação e escorrimento superficial (Mathys, 1994; Drevon et al., 1998;
Metcalf & Eddy, 2003).
Em geral, os volumes aplicados são de 100-600 m3ha-1ano-1(Drevon et al., 1998;
Rochard e Viaud, 2000). Na região de Champagne, por exemplo, preconizam-se
doses de 300-800 m3ha-1ano-1com um máximo por aplicação de 20-50 m3ha-1,
(Mathys, 1994; Rochard et Viaud, 1994 e Drevon, 1998).
Na região de Marne a distribuição máxima autorizada é de 300 m3ha-1(águas de
lavagem de prensas com ou sem borras); 150 m3ha-1(águas de lavagem resultantes
de vinificação) e 100 m3ha-1(águas residuais resultantes de lavagem de borras)
(Jourjon et al., 2001). Já na região de Maine-et-Loire (também em França) é
vulgar a distribuição de 200 m3ha-1ano-1, em pelo menos duas passagens de 100
m3 ha-1 cada (Jourjon et al., 2001).
Doré (1998), para o sul de França, recomenda a aplicação máxima de 200 m3ha-
1mês-1, num máximo de 1000 m3ha-1ano-1, e uma dose máxima de 20-30 t CQO
aplicado ha-1ano-1. Em qualquer caso, é necessário respeitar o limite máximo de
aplicação de fertilizantes, que varia conforme a região.
O período de aplicação dos EVs é normal-mente determinado pelo ciclo cultural
das culturas: a distribuição só se torna prática antes da sementeira (no caso
dos cereais de Inverno, do milho ou da beterraba, por exemplo) ou, no caso de
outras culturas, em épocas precisas (por ex. culturas florestais, fruteiras,
vinha e luzerna).
Os EVs produzidos na vindima podem ser distribuídos à medida que vão sendo
produzidos, uma vez que a época o permite. Já os resultantes dos processos de
vinificação posteriores deverão ser armazenados alguns meses, e distribuídos na
Primavera seguinte, assim que as condições climatéricas e culturais, e a
disponibilidade de terrenos o permitam.
3.3. Código de boas práticas de distribuição
A eficácia do processo e a sua perenidade dependem de uma gestão rigorosa, que
inclui o acompanhamento agronómico das parcelas beneficiárias da distribuição e
a existência de um caderno de registos de distribuição de EVs, cujo objectivo é
a verificação da eficácia agronómica e da inocuidade da distribuição no solo,
águas e culturas. (Jusiak, 1994; Doré, 1998; Drevon, 1998; Drevon et al., 1998;
Galy & Menier, 1998; Viaud et al., 2004a e 2004b).
O grau do acompanhamento dependerá da composição dos EVs (carga poluente,
variabilidade, etc.); da sensibilidade do meio receptor (presença de toalhas
freáticas, etc.); da regulamentação, capacidade técnica dos agricultores e do
custo. A distribuição deve ser feita com rigor, respeitando as características
do solo, a sua capacidade depuradora, os volumes máximos anuais e por
aplicação, os impactos no solo e na água, e as exigências regulamentares
(Mathys, 1994; Doré, 1998; Drevon, 1998; Hazel, 1998; Jourjon & Arcanger,
1998).
Alguns critérios técnicos, económicos, ambientais e sociológicos devem ser
respeitados, tais como: a) Assegurar uma repartição homogénea, não utilizando
material de distribuição que produzam gotas muito finas; b) Evitar a
estagnação, escorrimento superficial e a percolação; c) Volume aplicado em
função da capacidade depuradora do solo, evitando escorrimento superficial e
contaminação de rios e toalhas freáticas; d) Não distribuir em época chuvosa,
sobre solo gelado ou com neve; existência de registos de aplicação; e)
Racionalizar a fertilização; f) Respeitar os proprietários dos terrenos de
distribuição (no caso de não serem terrenos próprios).
A intensidade da distribuição por aplicação deve ser sempre inferior à
velocidade de infiltração dos EVs no solo, não devendo exceder 100 m3ha-1
(Drevon, 1998; Jourjon et al., 2001). Aconselha-se um intervalo de 1 a 4 anos
entre 2 distribuições sucessivas de EVs na mesma parcela, segundo o tipo de
solo e as culturas presentes. A fim de evitar problemas de erosão, a
distribuição deve ser feita em solos com declive inferior a 5% (Drevon et al.,
1998; Rochard & Viaud, 2000; Jourjon et al., 2001).
4. O TRATAMENTO DE LAMAS DE ETAR POR DISTRIBUIÇÃO NO SOLO
As lamas de ETAR são os sedimentos resultantes da depuração biológica de
efluentes, cuja composição varia segundo o tipo de efluente e de tratamento
seguido. A sua distribuição no solo, tal como a de EVs, é possível e
recomendável, devendo igualmente preverse um acompanhamento agronómico
posterior e a compatibilidade com a protecção do solo e da água, nomeadamente
quanto ao teor de metais pesados (Sorlini et al., 1998; Domingues, 1999, 2002;
Ferreira et al., 2002; Dias, 2004; Jourjon et al., 2004b & Serrão et al.,
2001, 2002, 2004). As lamas resultantes do tratamento de EVs ou de efluentes
urbanos deverão ser consideradas sempre numa lógica de valorização e não de
abandono.
A composição média das lamas de tratamento biológico de EVs e de efluentes
urbanos apresenta-se na Quadro 5.
Quadro 5 ' Valor fertilizante e teor médio em metais pesados das lamas
resultantes de tratamento biológico de EVs e de efluentes urbanos.
Fertilizing value and heavy metals composition from biological treatment
sludges from urban and winery effluents.
As lamas são normalmente distribuídas em terrenos agrícolas, devendo igualmente
respeitar-se o Código de Boas Práticas Agrícolas (MADRP, 1997; Dias, 2004).
Acresce, neste caso, a obrigatoriedade do seu enterramento durante ou após
distribuição (Levi-Minzi et al., 1997; Jourjon et al., 2001).
Saviozzi et al. (1994), após ensaios com uma mistura de solo em doses até 2,5%
(peso seco) de lamas resultantes do tratamento aeróbio de EVs, verificaram que
estas tinham elevado interesse agronómico, tendo melhorado quer a fertilidade
quer a actividade microbiológica do solo, sem efeitos de toxicidade.
Hermínia et al. (1991) e Domingues et al. (1990, 2002), após prolongada
caracterização das lamas de diversas ETARs domésticas em Portugal, concluíram
que os metais pesados presentes nas lamas apresentam baixa solubilidade,
podendo estas ser utilizadas com segurança como fertilizantes orgânicos sem
perigo de contaminação metálica ou fitotoxicidade, já que, em geral, os seus
teores em metais pesados não excedem os valores-limite aconselhados pelas
directivas comunitárias.
Ferreira & Serra (2002) obtiveram resultados idênticos distribuindo 5-50 t
ha-1MS ano-1de lamas de ETAR doméstica sobre pastagens, e ao longo de 6 ciclos
vegetativos das plantas. Estes autores observaram aumentos efectivos de
fertilidade do solo, da produção e a eliminação dos microorganismos
patogénicos. Registaram também que os teores de metais pesados no solo e nas
plantas foram sempre inferiores aos limites legais. A conclusões semelhantes
chegaram também Domingues et al. (1990, 2002), que, dos diversos ensaios
realizados em Portugal ao longo de doze anos, preconizam que a aplicação de
doses até 50 t ha-1de lamas não contaminadas, não oferece perigo de poluição
dos solos, dos lençóis freáticos e de fitotoxicidade ou contaminação das
culturas (e portanto não representa risco ambiental), apresentando,
adicionalmente, benefícios ao nível da produção das culturas e da fertilidade
dos solos. Fumi et al. (1995) chegaram a conclusões idênticas utilizando lamas
resultantes de uma ETAR vinícola a funcionar pelo sistema de lamas activadas,
propondo a sua utilização directa ou em compostagem.
Serrão et al. (2001, 2002, 2005, 2007), em ensaios em Portugal com aplicação de
4 a 24 t ha-1de lamas de uma ETAR doméstica, alguns deles complementados com a
adubação mineral, obtiveram aumentos de fertilidade (nomeadamente dos teores de
Ntotal, P e K assimiláveis) e da remoção de nutrientes e aumento da proteína
bruta pelo coberto vegetal, não tendo observado acumulação de compostos
poluentes com efeitos nefastos para a dieta animal nas plantas produzidas. No
geral, estes auto-res referem que a não complementação da aplicação de lama com
adubação mineral reduz o teor de K disponível no solo. Verificaram, também, que
não existe acumulação no solo de compostos poluentes (nomeadamente pesticidas)
que, devido à sua toxicidade e persistência, possam prejudicar os
microorganismos do solo, as plantas ou os animais.
Campos et al. (1998), em ensaios laboratoriais realizados em Portugal de
aplicação de lamas celulósicas e rega com águas residuais urbanas na cultura do
sorgo, obtiveram aumentos significativos de produção e melhoria do valor
nutritivo das plantas (nomeadamente dos teores em N, P, Ca e Mg) bem como do
teor em micronutrientes (nomeadamente Fe, Cu e Zn), sem que, no entanto, estes
limitassem a utilização das plantas na alimentação animal.
Serrão et al. (2004, 2007) e Esteves da Silva et al. (2005), após aplicação ao
solo plantado com culturas pratenses de lamas de ETAR doméstica em doses até 24
e 120 t ha-1respectivamente, verificaram que a produção total de biomassa
aumentou significativamente em resultado desta adição, referindo que esta
aplicação se revela promissora na preservação da qualidade do solo e no aumento
da produção e biomassa vegetal.
5. ASPECTOS REGULAMENTARES NA LEGISLAÇÃO PORTUGUESA
5.1. Distribuição de efluentes
No que respeita à distribuição de chorumes bovinos, sobre a qual não nos vamos
debruçar particularmente, aplicam-se as normas para Valorização agrícola dos
efluentes definidas pelo Anexo IV do DL 202/05, que define as épocas de
aplicação e impõe valores máximos de 20 a 140 m3ha-1ano-1consoante o tipo de
chorume ou estrume e o tipo de solo onde se faz a distribuição; o DL 236/98 que
condiciona a emissão ou descarga de águas residuais na água ou no solo a uma
autorização prévia da DRAmbiente, na qual são fixadas as condições de descarga
e o DL 235/97, que tendo por objectivo a diminuição da poluição causada por
nitratos de origem agrícola, promove as boas práticas agrícolas na distribuição
de resíduos (nomeadamente no que diz respeito a épocas e métodos de
distribuição), limitando a 170 kg ha-1ano-1a aplicação de azoto proveniente de
estrumes (nas zonas vulneráveis aos Nitratos-ZVN).
Quanto à distribuição de outros efluentes agroindustriais no solo, neste
momento a legislação existente contempla apenas as águas ruças (AR -efluentes
de lagares de azeite), e obriga a que exista um reservatório/lagoa estanque
para armazenar a totalidade das águas ruças produzidas na campanha pelo lagar.
Este deverá proceder a um pré-tratamento adequado obrigatório, nomeadamente com
correcção da acidez (Despacho conjunto 626/2000 de 6 de Junho).
A distribuição da AR no solo (geralmente de Março a Novembro) deve ter em conta
as condições meteorológicas de cada ano, ser aplicada em culturas arbustivas e
arbóreas; o volume a utilizar não deve exceder os 80 m3/ ha/ano, devendo o
proprietário do lagar preencher um mapa anual da utilização de águas ruças, com
indicação do volume, parcelas, tipo de culturas e período de aplicação. É
proibida a aplicação em áreas de REN, áreas protegidas, a menos de 50 m de
habitações, 100 m de poços ou furos, 200 m de aldeias, 35 m de linhas de água e
100 m do nível máximo das albufeiras. Deverão ser colhidas amostras de solo e
de AR, a monitorizar pela DRAgricultura e DRAmbiente, podendo as análises e o
acompanhamento ser realizado por laboratórios ou universidades.
Constata-se portanto em Portugal uma lacuna no que concerne à legislação
publicada referente à distribuição de outros efluentes agroindustriais no solo
(nomeadamente EVs), que urge colmatar à semelhança do que tem sido feito
noutros países produtores de vinho.
5.2. Distribuição de lamas de ETAR
No que respeita à distribuição de lamas de ETARs urbanas ou similares
(vinícolas incluídas) o DL nº. 118/06 de 21 de Junho que revoga o DL n.º 446/91
de 22 de Novembro, estabelece as normas de aplicação e utilização agrícola das
lamas de ETARs, transpondo as Directivas CEE n.º 86/278 de 12 de Junho e CEE
91/271 de 21 de Maio. Este DL visa evitar os efeitos nocivos das lamas sobre os
ecossistemas, encorajando o seu aproveitamento agrícola, fixa valores limite
quantitativos e qualitativos para a sua utilização e proíbe a sua deposição nos
rios, lagos ou no mar. Deste modo, apenas é permitida a utilização de lamas
tratadas, preconizando-se doses de referência de 6t de Matéria Seca ha-1ano-1
(valor dependente da concentração das lamas nomeadamente em metais pesados).
O DL nº. 118/06 de 21 de Junho que revoga a Portaria n.º 176/96 de 3 de Outubro
fixa os valores limite de metais pesados nos solos e nas lamas, acima dos quais
é interdita a sua utilização agrícola (Quadro 6).
Quadro 6 ' Valores limite de concentração de metais pesados nos solos e lamas e
respectivas quantidades máximas anuais que podem ser introduzidas em solos
cultivados.
Concentration limit of heavy metals in soils and sludges and respective maximum
annual amounts that can be introduced in cultivated soils.
Segundo esta legislação, as lamas deverão ser aplicadas sobre solos bem
desenvolvidos e profundos, com pH = 5,5 e tendo em conta as necessidades
nutricionais das plantas, por forma a proteger a qualidade do solo, águas
superficiais e subterrâneas, e nunca a menos de 100 metros de habitações e
captações de água para consumo. É proibida a aplicação de lamas nas margens de
rios e lagos, bem como a sua distribuição sob condições climatéricas adversas
(nomeadamente de pluviosidade), devendo estas ser incorporadas no solo no
máximo dois dias após a sua distribuição. É igualmente proibida a distribuição
de lamas em prados ou culturas forrageiras dentro das três semanas anteriores à
colheita ou do início da pastagem do gado, nas culturas hortícolas e frutícolas
(com excepção das frutícolas durante o repouso vegetativo). É obrigatória a
análise das lamas e dos solos sobre os quais estas sejam depositadas.
O DL nº. 118/06 de 21 de Junho revoga também a Portaria 177/96 (D.R. II Série)
e aponta a necessidade de se efectuarem análises das lamas e dos solos,
definindo os parâmetros e a frequência das análises: teores da matéria seca,
matéria orgânica, pH, azoto nítrico e amoniacal, fósforo total e metais pesados
(2 vezes por ano, no caso das lamas) e o pH, metais pesados, azoto e fósforo
(no caso dos solos, antes de cada aplicação).
CONCLUSÕES
O tratamento de EVs e lamas de ETAR por distribuição no solo é reconhecido como
uma solução simples e económica para o tratamento destes efluentes e resíduos.
A simplicidade do método não deve, no entanto, ser confundida com facilitismo,
já que o sucesso e sustentabilidade do método no tempo dependem do respeito
pelo equilíbrio do solo e do rigor da sua gestão.
Esta solução, apesar de algo controversa (particularmente no caso de alguns
tipos de lamas de ETARs industriais, que podem conter elevados teores de metais
pesados ou outras substâncias tóxicas), é, no entanto, comummente aceite como
adequada e melhoradora das propriedades físico-químicas e da fertilidade do
solo, sem quaisquer inconvenientes desde que correctamente realizada. No
entanto, pelo seu efeito mediático, todo este processo de tratamento pode ser
posto em causa se o processo for inadequadamente visto como uma forma do
produtor se livrar da poluição (Malthaner, 1998; Sorlini et al., 1998;
Domingues, 1999, 2002; Ferreira & Serra, 2002).
Para que esta via perdure, é portanto necessário o reforço do profissionalismo
dos seus intervenientes, que deve resultar da publicação urgente de legislação
ainda em falta e do seu respeito (principalmente no que respeita à distribuição
de EVs). Esta legislação, a elaborar, deverá incidir, nomeadamente, sobre as
condições de distribuição, dando ao produtor indicações precisas sobre a
oportunidade, o volume e as épocas de aplicação, de modo que a distribuição no
solo seja efectivamente um tipo de tratamento e não uma forma de disseminação
de poluição, oferecendo simultaneamente ao consumidor o máximo de garantias de
qualidade.
De forma geral conclui-se que o volume de EVs aplicado na maioria dos países
vinhateiros oscila entre 100-600 m3ha-1ano-1, distribuídos em 2 ou 3 aplicações
anuais, e em épocas precisas (fora do período vegetativo das culturas). Quanto
ao volume de lamas a distribuir este depende muito da sua composição, devendo
esta ser compatível com a protecção dos solos e das águas. Por este facto,
deverá ser feita uma análise caso a caso particularmente do teor do solo e das
lamas em metais pesados, a fim de se estabelecer a dose a aplicar. Em geral, e
em média, considera-se adequada a aplicação de doses até 50 t ha-1ano-1de lamas
não contaminadas (6 t Matéria Seca ha-1 ano-1).