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Representação em texto

EuPTCVAg0871-018X2008000100007

variedadeEu
ano2008
fonteScielo

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ADAPTABILIDADE DE TRIGO MOLE ÀS CONDIÇÕES MEDITERRÂNICAS EM FUNÇÃO DO SEU CICLO VEGETATIVO

INTRODUÇÃO Nos ambientes mais estáveis podem utilizar-se fenótipos de trigo menos flexíveis, ou seja, apresentam pequena variação quando crescem em meios pouco variáveis. Em ambientes com condições irregulares, sobretudo climáticas, requerem-se fenótipos flexíveis, porque têm um comportamento que lhes garante melhor adaptabilidade (MartínezGhersa et al., 2000). Parte desta, depende das diferentes exigências ao nível da vernalização e do fotoperíodo, e da sua interacção (Ferrara et al., 1997).

Relembra-se que nos ambientes mediterrânicos se deve considerar a irregularidade do começo das chuvas no Outono, afectando a data óptima de sementeira; a errática distri- buição da precipitação durante o Inverno e a Primavera, que afecta as fases vegetativa, reprodutiva e de formação do grão; o perigo de geadas tardias que causam prejuízos, principalmente quando espigamentos precoces e, a ocorrência de temperaturas elevadas na Primavera que provocam stress térmico, além do hídrico, durante o enchimento do grão (Carvalho, 1994; Calado, 2005).

Assim, a adaptabilidade é de extrema importância para conseguir um melhor ajustamento às limitações mencionadas. Carvalho (1994) refere que alguns genótipos com ciclo alternativo podem ser mais flexíveis, aumentando as suas potencialidades, sobretudo ao nível da adaptação a estas condicionantes ambientais.

O rápido crescimento inicial, com uma acumulação de biomassa nas primeiras fases de desenvolvimento, aproveitando a época mais favorável, parece ser uma característica relevante que contribuirá para o potencial de produção (Maçãs et al., 1998). Deste modo, poder-se-á garantir um número adequado de grãos por área, que segundo Calado (2005) é determinante para maximizar a produção sob condições mediterrânicas e deve ser obtido através de uma boa formação ao nível do número de grãos por espiga.

A data de floração é de extrema importância na adaptabilidade e na resposta produtiva dos genótipos (Richards et al., 2001; Slafer & Whitechurch, 2001). Em condições de secura, quando não existem riscos de geadas, o rendimento da cultura de trigo varia com a data da ântese, decrescendo com o seu avanço, embora seja dependente da interacção entre a duração do crescimento e a água utilizável do solo. Nas maturações tardias, podem ocorrer perdas, porque a água do solo é um recurso escasso e utilizado para a produção de biomassa em estados anteriores.

Nas regiões mediterrânicas, a curta duração do período de enchimento do grão parece favorecer a adaptação das variedades, até porque o peso do grão parece ser uma importante característica varietal (Calderini et al., 1999).

A verificação da adaptabilidade de germoplasma de trigo mole em função do seu ciclo vegetativo, é, devido às condicionantes referidas, importante para a cerealicultura das regiões mediterrânicas como o Sul de Portugal.

A flexibilidade na duração do ciclo vegetativo dos genótipos permitirá maior regularidade produtiva e, segundo Carvalho (1994) e Calado (2005), garantirá ao agricultor mais opções ao nível do período de sementeira. Por isso, neste trabalho estudou-se o comportamento de diferentes genótipos de trigo mole semeados em datas diferentes na região Alentejo durante cinco anos (1994/95 a 1999/00).

MATERIAL E MÉTODOS No início desta experimentação, que decorreu no ano de 1994/95, instalou-se o ensaio em dois locais diferentes: um foi na Herdade do Louseiro, que pertence ao concelho de Évora, distrito de Évora, a uma latitude de 38º 31 44 N e uma longitude de 48 22 W do meridiano de Greenwich, e outro na Herdade de Almocreva, no concelho de Beja, distrito de Beja, a uma latitude de 37º 59 9 N e uma longitude de 55 40 W do meridiano de Greenwich. Posteriormente, nos anos de 1996/97 a 1999/00, este estudo realizou-se na Herdade da Revelheira da Direcção Regional de Agricultura do Alentejo, concelho de Reguengos de Monsaraz, distrito de Évora, localizada a uma latitude de 38º 27 54 N e uma longitude de 28 W do meridiano de Greenwich.

No ano de 1994/95, o ensaio foi instalado na região de Beja no solo Barro CastanhoAvermelhado Calcário Muito Descarbonatado de dioritos ou gabros ou rochas cristalofílicas básicas (Bvc) e na de Évora no solo Mediterrâneo Pardo Para-Hidromórfico de quartzodioritos ou dioritos (Pmh). Para os restantes quatro anos, as condições edáficas sobre as quais decorreu o estudo, foram o solo Mediterrâneo Pardo de dioritos ou quartzodioritos ou rochas microfaneríticas ou cristalofílicas afins (Pm) nos anos de 1996/ 97 e 1998/99, e o solo Mediterrâneo Vermelho ou Amarelo de dioritos ou quartzodioritos ou rochas microfaneríticas ou cristalofílicas afins (Vm) em 1997/98 e 1999/00. Qualquer destes solos é caracterizado por Cardoso (1965).

Quanto às condições climáticas do primeiro ano (1994/95), registaram-se os valores mensais da precipitação e da média das temperaturas máximas, mínimas e médias do ar, nas estações meteorológicas de Beja e Évora (Figura 1). Os do ano (1994/95) foram cedidos pelo Instituto Nacional de Meteorologia e Geofísica e os referentes à média da precipitação de trinta anos (1951/80) obtidos por consulta da publicação do Instituto Nacional de Meteorologia e Geofísica (1991).

Relativamente às condições climáticas verificadas nos outros quatro anos em que decorreu a experimentação, apresentam-se nas Figuras 2 e 3 os valores mensais da precipitação e da média das temperaturas máximas, mínimas e médias do ar. Estes foram registados na estação meteorológica de Reguengos de Monsaraz do Instituto de Ciências Agrárias Mediterrânicas (ICAM), instalada na Herdade da Revelheira, onde decorreram os trabalhos de campo. Por sua vez, a precipitação mensal referente à média da precipitação ocorrida em trinta anos, foi obtida do Instituto Nacional de Meteorologia e Geofísica (1991), a partir de valores registados na estação udométrica de Reguengos de Monsaraz.

Os tratamentos realizados neste ensaio foram os seguintes: - Datas de sementeira (talhão principal).

-Quinze genótios de trigo mole (talhão dividido).

O delineamento experimental foi em blocos casualizados com divisão dos talhões (split-plot) e quatro repetições. Cada talhão era constituído por seis linhas distanciadas 20 cm e com um comprimento de 10,5 m, sendo a área à colheita de aproximadamente 11 m2.

Devido às condições termopluviométricas verificadas durante o período de Outono-Inverno dos anos em que decorreu o ensaio (Figuras 1, 2 e 3), semearam-se quatro datas no primeiro (1994/95), duas no segundo (1996/ 97), uma no terceiro (1997/98), três no quarto (1998/99) e três no quinto ano (1999/00) desta experimentação.

Quanto aos genótipos utilizados e aos hábitos de crescimento que os caracterizam de acordo com a informação dada pela Estação Nacional de Melhoramento de Plantas, estão indicados a seguir: TE 9202 (Sever) - alternativo; Anza Primavera; TE 93043 - alternativo; TX/AMI (Jordão) - alternativo; Centauro - alternativo; TE 9009 (Eufrates) - alternativo; TE 9111 (Nabão) - Primavera; TE 9104 - Primavera; TE 9301 - Primavera; TE 9113 - Primavera; TE 9114 - Primavera; TE 9112 - Primavera; TE 9403 - Primavera; TE 9405 - Primavera; HAHN”S”*2/PRL”S - Primavera.

Como este ensaio decorreu nas folhas destinadas à cultura do trigo nas Herdades de Almocreva e do Louseiro (ano 1994/95), e na Herdade da Revelheira (1996/97 a 1999/00), foi efectuada uma mobilização primária com a charrua de aivecas ou com o escarificador pesado (chisel) na Primavera ou no Verão do ano agrícola anterior ao das sementeiras das diferentes datas deste ensaio. Para preparar a cama da semente efectuaram-se mobilizações superficiais do solo com grade de discos ou escarificador mais vibrocultor nos cinco anos de ensaios e nas diferentes datas de sementeira. A densidade de sementeira foi de 300 grãos·m-2 e utilizou-se o semeador de ensaios Wintersteiger, que permite realizá-la em pequenos talhões. Por sua vez, a adubação de fundo foi efectuada a lanço, com 40 kg N·ha-1 e 100 kg P2O5·ha-1. As restantes técnicas culturais utilizadas durante o ensaio, encontram-se sintetisadas no Quadro 1, excepto a colheita realizada pela ceifeira debulhadora automotriz de pequenas parcelas, que se efectuou no mês de Junho de cada um dos anos agrícolas indicados.

As observações e verificações foram a produção de grão (peso seco em estufa 65 ºC ± 48 horas), e as datas de espigamento (visualização ao nível do talhão de pelo menos 51 % das espigas, código 59 na escala de Zadoks et al., 1974) e de maturação (visualização ao nível do grão, da sua dureza e penetração pela unha, código 92 na escala de Zadoks et al., 1974) dos quinze genótipos de trigo mole em estudo. Segundo Slafer & Whitechurch (2001), a data de espigamento é a variável mais comum, para determinar o efeito de factores genéticos e ambientais no desenvolvimento do trigo, sendo também influenciada pelos agronómicos.

Para verificar a flexibilidade do germoplasma em estudo, relacionaram-se as datas de espigamento e de maturação com a produção de grão, recorrendo a equações de regressão, que foram calculadas com o auxílio do programa SPSS 11.0 e do Excel versão 2000. Com o auxílio do coeficiente de determinação, procurou-se melhorar a qualidade de ajustamento dos diversos modelos aos dados (Maroco, 2003).

Dos quinze genótipos em estudo, seleccionaram-se seis, que apresentaram capacidade de adaptação à variação ambiental expressa por rendimentos aceitáveis nas condições mediterrânicas, para relacionar as diferentes datas de sementeira com o número de dias até ao espigamento e até à maturação. No conjunto dos seis genótipos, três que são varie- dades, Sever (TE 9202), Eufrates (TE 9009) e Nabão (TE 9111), enquanto os outros três, TE 9113, TE 9114 e HAHN”S”*2/PRL”S, apesar de não serem variedades, também apresentaram uma boa adaptação à variabilidade das condições nas diferentes datas de sementeira, com uma resposta produtiva aceitável.

RESULTADOS E DISCUSSÃO Para existir melhor adaptabilidade dos genótipos a determinado ambiente, deve a duração do seu ciclo vegetativo, definido pelo espaço temporal necessário até um determinado estado vegetativo, permitir-lhes um desenvolvimento adequado em função das suas características e do habitat (Kirby et al., 1999).

Na Figura 4, verifica-se que as produções de grão de trigo superiores a 2300 kg·ha-1 obtidas no ensaio realizado na herdade da Revelheira desde 1996/97 a 1999/00, corres- pondem a um intervalo de 125 a 145 dias desde a sementeira até ao espigamento da cultura (a) e de 170 a 195 dias até à maturação (b). Qualquer das relações está condicionada ao ambiente da região.

Por isso, na Figura 5 apresentam-se as relações do somatório da temperatura média do ar (ºC) desde a sementeira até ao espigamento (a) e até à maturação (b) com a produção de grão de trigo. As produtividades mais elevadas tendem a ser atingidas com a temperatura média acumulada até ao espigamento entre 1350 e 1550 ºC (Figura 5 (a)) e até à maturação do grão entre 2100 e 2400 ºC (Figura 5 (b)).

Recorrendo também às observações efectuadas em 1994/95 (Évora e Beja), cujas condições climáticas limitaram a produtividade do trigo, sobretudo em Beja, sendo no entanto, os rendimentos superiores a 2000 kg·ha-1 obtidos com valores de 176 a 205 dias até à maturação do grão (Figura 6).

De acordo com os intervalos de tempo atrás referidos, conclui-se que a variação de aproximadamente vinte a vinte e cinco dias desde a sementeira ao aparecimento da inflorescência do trigo mole, e à maturação do seu grão, permitiu uma boa resposta produtiva da cultura, indicando a existência de flexibilidade na duração do seu ciclo vegetativo.

Com base nesta resposta, é possível identificar genótipos flexíveis, nomeadamente em relação à data de sementeira, capazes de adaptarem o seu crescimento, de forma a variar o espaço temporal até ao espigamento e até à maturação dentro desses limiares e em função das condicionantes do meio (Kirby et al., 1999). Isto permite-lhes ficarem com tempo suficiente para o desenvolvimento adequado do seu ciclo vegetativo, de maneira a atingirem um rendimento igual ou superior ao que caracteriza à média da região, quando a sementeira decorre desde o fim de Outubro até ao fim de Novembro.

Conforme se constata no modelo apresentado na Figura 7, a variedade Nabão (TE 9111) apresentou um comportamento caracterizado pela estabilidade ao nível do número de dias até ao espigamento em diferentes datas de sementeira. Por esta razão, não grande oscilação no número de dias necessários para o aparecimento da inflorescência, particularmente nas sementeiras realizadas entre o fim de Outubro e o fim de Novembro.

Também a variedade Sever (TE 9202), referenciada inicialmente como tendo hábitos de crescimento alternativo, apresentou um ciclo não muito longo até ao espigamento, o que está dentro do padrão de Primavera.

Caracteriza-se, igualmente, pela estabilidade quanto à duração do seu ciclo vegetativo até ao aparecimento da inflorescência, desde que a sementeira decorra no mês de Novembro (Figura 7).

Por outro lado, a variedade Eufrates (TE 9009), de ciclo claramente alternativo, se caracterizou por maior variabilidade na duração do período até ao espigamento em função das diferentes datas de sementeira desde o fim de Outubro até ao fim de Novembro (Figura 7), podendo assim, o seu potencial produtivo ser mais prejudicado em sementeiras tardias, devido às condições ambientais condicionarem as fases do seu ciclo vegetativo.

Do conjunto dos seis genótipos, o TE 9114 com hábitos de crescimento de Primavera demonstrou ter um ciclo mais curto, o que lhe facilita a adaptação às épocas de sementeiras tardias (Figura 7).

Quanto ao número de dias desde a sementeira até à maturação do grão, confirma-se a maior duração do ciclo vegetativo do TE 9009, variedade Eufrates (Figura 8). Os outros cinco genótipos estão muito próximos e qualquer data de sementeira entre os finais de Outubro e de Novembro garante um número de dias incluído no intervalo de 170 a 200 (Figura 8), similar ao que foi mencionado para obter os rendimentos mais elevados. Até a variedade Eufrates de ciclo mais comprido, demonstrou estar dentro do período, que se relaciona com a obtenção de produções mais altas (Figura 8).

A pequena diferença verificada entre o número de dias até à maturação em quase todos estes genótipos, reflecte os condicionalismos térmicos e hídricos que, geralmente, ocorrem na fase de formação e maturação dos grãos dos cereais de Outono-Inverno em Portugal.

CONCLUSÕES A partir da resposta produtiva de quinze genótipos de trigo mole em função do seu ciclo vegetativo, conclui-se que o intervalo de tempo de 125 a 145 dias entre a sementeira e o espigamento está relacionado com produtividades mais elevadas nas condições mediterrânicas.

Relativamente ao somatório da temperatura média do ar desde a sementeira até ao espigamento, as produções de grão de trigo mais altas correspondem a valores compreendidos entre 1350 e 1450 ºC.

Alguns genótipos de trigo mole, como foi o exemplo da variedade Nabão, caracterizaram-se por uma menor variabilidade no número de dias desde a sementeira até ao espigamento, quando a época de sementeira decorreu no intervalo de aproximadamente um mês (fim de Outubro a fim de Novembro). Esta capacidade permite à variedade Nabão ter flexibilidade e, assim, um desenvolvimento adequado para obter rendimentos mais altos.

Em consequência, melhora-se a viabilidade e a sustentabilidade dos sistemas agrícolas nas regiões mediterrânicas.

Quanto ao tempo necessário até à maturação, conclui-se que os valores entre 170 a 195 dias e o somatório das temperaturas médias do ar entre 2100 e 2400 ºC desde a sementeira até ao fim do ciclo vegetativo do trigo se relacionam com produtividades mais altas.

Em síntese, as variedades de trigo com capacidade de adaptação às condições mediterrânicas em função do seu ciclo vegetativo (variedade Nabão), caracterizam-se por apresentar flexibilidade e podem ser utilizadas, por exemplo, segundo Carvalho (1994), Calado et al. (2002) e Calado (2005), para a estratégia de controlo da infestação potencial em pré-sementeira, particularmente, nos sistemas de sementeira directa de cereais de Outono-Inverno.


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