As comunidades da aliança Genistion micranto-anglicae no sudoeste da Península
Ibérica e noroeste de Marrocos, significado biogeográfico
NOTAS DO HERBÁRIO FLORESTAL DO INIAV (LISFA): FASC. XXXVIII
A classe Calluno-Ulicetea, com distribuição maioritariamente Eurossiberiana é
constituída essencialmente por tojais e urzais que representam, quase sempre,
etapas subseriais dos bosques caducifólios da classe Querco-Fagetea. Prosperam
solos siliciosos, pobres, esqueléticos, cambissolos detríticos ou pódzois
férricos com húmus fortemente ácido e ocasionalmente propriedades gleicas. A
distribuição dos urzais e tojais é predominantemente atlântica (fachada
atlântica da Europa) desde a Noruega (DIERSSEN, 1996; FREMSTAD, 1997; CROSS,
2003) até ao norte de Marrocos (BENITO CEBRIÁN, 1948; QUÉZEL et al., 1988;
DEIL, 1984; DÍAZ GONZÁLEZ, 1998). Biogeograficamente distribui-se pelos
territórios Atlântico-Europeu, Cevenense-Pirenaica, Mediterrânea Oeste Ibérica,
Oroibérica, Lusitana-Andaluza Litoral e Tingitana (COSTA et al., 2012).
A diversidade florística destas comunidades na Europa atlântica de clima
temperado é máxima na Bretanha (DEIL et al., 2010) e é aí que segundo BOTINEAU
e GÉHU, 2005, se situa o "hotspot" da diversificação florística e ecológica.
Segundo LOIDI et al., 2007 na Península Ibérica a riqueza florística máxima da
Calluno-Ulicetea está localizada na província Cantabro-Atlantica de clima
temperado onde esta vegetação parece ter o seu óptimo. Ainda segundo o mesmo
autor verifica-se um empobrecimento florístico quando nos afastamos do litoral
para o interior do continente. LOIDI et al., 2007 referem, ainda, que a
humidade edáfica é uma condição fundamental para as comunidades de urzais-
tojais da Calluna-Ulicetea principalmente em ambiente mediterrâneo. Por esta
razão estas comunidades em áreas de baixa altitude, com clima mediterrâneo,
procuram sempre instalar-se em solos hidricamente compensados, principalmente
as da aliança Genistion micrantho-anglicae que dentro da Calluna-Ulicetea são
as mais exigentes em humidade.
Dentro da classe Calluno-Ulicetea, a aliança Genistion micrantho-anglicae reúne
os tojais/urzais que ocorrem em solos com propriedades gleicas, em bioclima
termo a supramediterraneo e termo a orotemperado inferior, com distribuição
cantabro-atlântica, mediterrâneo'central-ibérica, mediterrâneo-iberoatlântica,
lusitano-andaluza litoral e tangerina (COSTA et al., 2012; RIVAS MARTINEZ,
1979, 2007, 2011). Segundo DEIL et al., 2010 as comunidades da Genistion
micrantho-anglicae apresentam um carácter turfoso e claramente azonal. Quando
caminhamos para sul as comunidades desta aliança adquirem um carácter pontual,
tornam-se raras e nos terrenos de baixa altitude do SW da Península Ibérica e
NW de Marrocos procuram solos hidricamente compensados, maioritariamente areias
e arenitos que permitem a existência de água freática próximo da superfície
mesmo durante o Verão. Contudo nestes territórios maioritariamente de baixa
altitude e bioclima termo a mesomediterraneo ocorrem uma série de taxa Genista
anglica subsp. ancistrocapa; Ulex minor var. lusitanicus; Euphorbia uliginosa;
Erica lusitanica; Cheirolophus uliginosus; Myrica gale; Drosera intermedia;
Gentiana pneumonanthevar. majus que permitem, dentro da aliança Genistion-
micrantho anglicae separar estas comunidades das do noroeste e norte da
Península, as quais apresentam um cortejo de plantas orófilasNardus
stricta,Anthoxanthum odoratum,Galium verum, Potentilla montana, Pilosella
officinarum, Cruciata glabra, Achillea millefolium, Carex pilulifera, Vaccinium
myrtillus, Chamaespartium sagittale, Deschampsia flexuosa, Genista hispanica
subsp. occidentalis, Digitalis parviflora, Thesium pyrenaicum, Erythronium
dens-canis, entre outras, que estão ausentes nas comunidades mediterrâneas de
baixa altitude (Quadro_1) O contraste biogeográfico entre as comunidades
eurossiberianas e mediterrâneas da aliança Genistion micrantho-anglicae está
reflectido nas espécies transgressivas da vegetação envolvente que
frequentemente caracterizam as comunidades mediterrâneas. Estas espécies são
importantes na separação de diferentes associações da Genistion micrantho-
anglicae Juncus rugosus, Rhynchospora modesto-lucenoi, Ulex welwitschianus,
Lavandula viridis, Lavandula xalportelensis, Genista triacanthos, Halimium
halimifolium subsp. multiflorum, Myrtus communis, entre outras.
Os inventários por nós realizados na Serra de Monchique em 2013 e por DEIL et
al. 2010 permitem a identificação de uma nova subassociação pinguiculetosum
lusitanici subass nova Neto, J.C. Costa & Deil hoc loco no âmbito da
associação Lavandulo viridis-Ericetum lusitanicina qual Pinguicula lusitanica é
espécie diferencial.
Inventário (typus subass. pinguiculetosum): Serra de Monchique, numa depressão
junto à estrada Monchique-Fóia, próximo do miradouro dasBicas, altitude 700 m,
área 50m2: características e diferenciais de subassociação Pinguicula
lusitanica 2 (dif. sub.), Lavandula viridis +, Erica ciliaris +, Ulex minorvar.
lusitanicus 2, Erica scoparia 2, Calluna vulgaris 2, Erica lusitanica +,
Genista triacanthos 1, companheiras: Holcus lanatus 1, Pteridium aquilinum 1,
Molinia caerulea subsp. arundinacea, Lythrum salicaria 1, Scirpoides
holoschoenus 1, Rubus ulmifolius +, Cistus salviifolius +, Lotus pedunculatus
2, Juncus bulbosus 1, Hypericum undulatum 2, Danthonia decumbens 2, Carex
laevigata 1, Dittrichia revoluta 1, Cyperus longus 1, Scirpus cernuus1,
Anagallis tenella 1, Carex distans +.
Esta nova subassociação apresenta uma distribuição Serrano-Monchiquense nas
áreas mais elevadas da serra de Monchique (entre os 650 m e os 900 m de
altitude) em solos turfosos (orgânicos) desenvolvidos sobre sienitos, sempre em
áreas deprimidas com escorrência permanente de água e bioclima
mesomediterrâneo. Os dois inventários publicados por DEIL et al., 2010 na Serra
de Monchique (tab.1, inventários 1-2), correspondem a esta nova subassociação
embora tivessem sido colocados erradamente no sintaxa Genisto anglicae-Ericetum
ciliaris pinguiculetosum lusitanicae, descrito por ROMO, 2009 para as montanhas
do Rif (Marrocos). Relativamente à subassociação descrita por ROMO, 2009 os
inventários de Monchique não apresentam Oenanthe maroccana (endemismo
marroquino, considerado por ROMO, 2009 como diferencial da subassociação
pinguiculetosum lusitanicae) e Genista ancistrocarpa. Por outro lado, o sintaxa
marroquino não apresenta Erica lusitana, Lavandula viridis, Ulex minor var.
lusitanicus e Dittrichia revoluta, presentes na serra de Monchique sendo que os
dois últimos ocorrem apenas no sudoeste da Península Ibérica.
Também propomos a correcção sintaxonómica da associação marroquina, alterando o
seu nome para Genisto ancistrocarpae-Ericetum ciliarisQuézel, Barbero, Benabid,
Loisel & Rivas-Martínez 1988 corr hoc loco, visto que neste país só ocorre
Genista ancistrocarpa e não Genista anglica (GERALDES et al., 2014).
Sintaxonomia das comunidades da aliança Genistion micrantho-anglicae no
sudoeste da Península Ibérica e noroeste de África.
CALLUNO VULGARIS ' ULICETEA MINORISBraun-Blanquet & Tüxen ex Klika &
Hadac 1944
+ Ulicetalia minorisQuantin 1935
Genistion micrantho-anglicaeRivas-Martínez 1979
1. Genisto ancistrocarpae-Ericetum ciliarisQuézel, Barbero, Benabid, Loisel
& Rivas-Martínez 1988 corr. Neto, J.C. Costa, J.P. Fonseca, Monteiro-
Henriques & Deil hoc loco
ericetosum ciliaris
pinguiculetosum lusitanicaeRomo 2009
2. Cirsio welwitschii-Ericetum ciliarisNeto, Capelo, J.C. Costa & Espírito
Santo in Neto, Capelo, J.C. Costa & Lousã 1996
3. Erico ciliaris-Ulicetum lusitanicaeRivas- Martínez & Costa in Rivas-
Martínez, Costa, Castroviejo & E. Valdés 1980
4. Lavandulo viridis-Ericetum lusitaniciVila- Viçosa, Quinto-Canas, Mendes,
Cano-Ortiz, Rosa-Pinto, Pinto-Gomes 2012
ericetosum lusitanicae
pinguiculetosum lusitanicae Neto, J.C. Costa & Deil subass. nova hoc loco