Identifique-se!o caso Henry Gates versus James Crowley como exercício
antropológico
No mundo moderno, documentos são objetos indispensáveis, sem os quais não
conseguimos demonstrar que somos quem dizemos ser. Precisamos de provas
materiais que atestem a veracidade da nossa autoidentificação, já que, por nós
próprios, esse reconhecimento é inviável. Nossa palavra não é suficiente, e,
sendo assim, estes pequenos objetos que carregamos nos bolsos e nas bolsas -
geralmente de papel plastificado (como a carteira de identidade ou a de
motorista), de plástico (CPF e cartões de crédito), ou livretos de papel
timbrado e numeração própria (passaporte e carteira de trabalho), mais
tradicionais (título de eleitor), ou mais atuais (com código de barras, dados
biométricos e tarjas magnéticas) -, emitidos por órgãos legalmente autorizados,
servem como amuletos modernos que abrem portas e, na sua ausência, fecham-nas.1
Identidade, noção de pessoa, concepção de indivíduo, técnicas corporais - todos
estes são temas clássicos e continuamente recorrentes na antropologia. Contudo,
ainda que o tópico dos documentos tenha aí sua fundamentação teórica,
interessa-me, neste ensaio, não a discussão conceitual abstrata, mas o exame
dos mecanismos por meio dos quais são realizados os processos que resultam em
algum modo de tipificação. Interesso-me, em especial, pela distinção entre as
várias formas que utilizamos para classificar e singularizar a nós e às pessoas
em nosso redor. Assim, em vez de identidade como fenômeno sociológico, meu
campo de investigação converge para a classificação. Aquilo que denominamos
"identidade" geralmente não leva em consideração que se trata de um processo em
permanente movimento, precário e variável, e que envolve mais de uma pessoa,
além da convenção que as une.2
Neste artigo, o evento etnográfico central ocorreu em julho de 2009 em torno da
prisão de Henry Louis Gates Jr. pela polícia da cidade de Cambridge,
Massachusetts, nos Estados Unidos. Especialista reconhecido (embora
controverso) em estudos afro-americanos da Universidade de Harvard, Gates foi
preso após uma denúncia de arrombamento da porta de entrada de uma casa no
centro nobre da cidade que, afinal, era sua própria residência. Depois de
apresentar o evento pelos olhos da mídia, examino a diferença proposta pelo
historiador Valentin Groebner (2007) entre "reconhecimento" e "identificação" -
dois processos distintos que, definidos adiante, se baseiam na comparação entre
uma pessoa e suas características. Esses dois modos esclarecem aspectos do caso
em pauta, o que me faz recontá-lo à luz desses dois processos. Em uma pausa,
examino então o dossiê sobre o incidente, produzido por um comitê independente
e divulgado um ano depois, em que os principais personagens, o professor e o
policial que o prendeu, são considerados "faltosos" (at fault) em termos de
responsabilidade em relação à segurança pública. Finalizo convocando Charles
Peirce para dialogar com Groebner e para introduzir o mecanismo do profiling e,
assim, arrematar a discussão sobre as lógicas implícitas na singularização de
uma pessoa por meio de papéis formais. Embora hoje os documentos de identidade
obtenham o reconhecimento social legítimo, eles convivem com outras formas
menos autorizadas, mas não menos familiares no nosso dia a dia. Esta ampliação
do ideário moderno é a possível contribuição deste exercício.
Antes, porém, uma nota importante: embora o evento que focalizo tenha um
componente racial que, inclusive, provocou sua intensa divulgação na mídia, não
me concentrarei neste aspecto específico. Muito já se escreveu sobre racismo e
identificação, mas minha abordagem é etnográfica - na qual importam os dados
nativos e seu lugar no conjunto de ideias e valores - e (talvez) pré-
sociológica - na qual, ao procurar o sentido lógico das classificações no mundo
moderno, enfatizo sua base semiótica.3 Assim, o caso torna-se interessante
basicamente por seu conteúdo polêmico e sensível no contexto norte-americano.
Ao procurar iluminar os mal-entendidos do evento, no entanto, inevitavelmente a
discussão será também sobre racismo, mas é fundamental ter em mente que a
análise e as conclusões aqui apresentadas têm a pretensão de serem válidas em
outros contextos.
O episódio
O relato da prisão do professor Henry Louis Gates, ocorrido no dia 16 de julho
de 2009, em Cambridge, Massachusetts, foi divulgado apenas no início da semana
seguinte pelo The Harvard Crimson.4 The Crimson, como é conhecido, é um jornal
universitário diário, de grande prestígio na comunidade local de alunos,
professores e população em geral.5 Segundo relato do jornal, o boletim policial
sobre o incidente dizia que Henry Gates, então com 58 anos, diretor do W. E. B.
Du Bois Institute for African and African American Studies, da Universidade de
Harvard, havia sido preso pela polícia de Cambridge logo após o meio-dia da
quinta-feira anterior por "exibir comportamento agitado e turbulento", durante
o qual ele supostamente acusou os policiais presentes de racismo. O boletim de
ocorrência dizia que uma mulher havia chamado a polícia depois de ver dois
homens à porta de uma casa e um deles "forçar com o ombro a porta da frente
para abri-la". Um sargento, que estava na redondeza quando o chamado foi
registrado pelo número 911, dirigiu-se para o endereço e foi mal recebido pelo
professor, que exclamava seguidamente em voz alta de que "[i]sto é o que
acontece com negros na América!" quando lhe foi solicitada uma identificação e,
ainda de acordo com o boletim, repetia seguidamente que o policial não sabia
"com quem estava se metendo".6 Os dois homens foram, então, para a varanda,
onde já estavam presentes outros policiais da cidade de Cambridge e da
Universidade de Harvard, enquanto Gates continuava a gritar que o sargento era
racista, chamando a atenção de mais ou menos sete transeuntes "surpresos e
assustados".7 Contatada pela redação do jornal, a assistente do professor
explicou que, sendo um período de férias acadêmicas, ele estava filmando
documentários no exterior e só faria visitas rápidas a Cambridge durante aquele
verão.
Nesta primeira reportagem do The Crimson, assim como nas seguintes e em outros
meios de comunicação, a controvérsia a respeito dos fatos jamais se resolveu,
ora abrindo espaço para o porta-voz de Gates, o advogado Charles Ogletree,
professor da Law School da mesma universidade, ora para o boletim do
Departamento da Polícia de Cambridge. Durante os primeiros dias, Gates absteve-
se de comentar o caso e refugiou-se em sua casa de veraneio, na ilha de
Martha's Vineyard, ao sul de Massachusetts.
Ao ser procurado, revela ainda The Crimson, o professor Ogletree explicou as
condições em que Gates foi preso: ele chegava da China, depois de uma longa
viagem, e simplesmente não conseguiu abrir a porta da casa. O motorista do
carro então o ajudou a forçá-la e a carregar sua bagagem para dentro. Ainda de
acordo com o mesmo relato, Gates notou a presença de um policial na varanda no
momento em que telefonava para o serviço imobiliário da universidade pedindo
que consertassem o defeito da porta. Ele permaneceu dentro da casa quando o
sargento pediu que saísse, mas teria fornecido a ele tanto a identificação de
Harvard quanto sua carteira de motorista como prova de que ensinava na
universidade e vivia na casa. Ao mesmo tempo, Gates teria pedido ao policial o
número da sua credencial e seu nome, sem receber resposta.
Diferente desta versão, o sargento relatou no boletim que forneceu múltiplas
vezes seu nome e credencial a Gates, e que o professor talvez não tivesse
ouvido porque simplesmente continuava gritando, o que o fez sair da casa e
propor que continuassem a discussão na varanda. A essa proposta, Gates teria
respondido: "Ya, I'll speak with your mama outside". O sargento advertiu-
o sobre seu comportamento turbulento e, não sendo atendido, prendeu Gates por
"conduta desordeira" na varanda.8 O boletim ainda nota a queixa de Gates sobre
o desconforto que as algemas produziam em um deficiente, o que fez com que os
policiais colocassem as algemas não nas mãos às costas, mas à sua frente.9 A
polícia de Cambridge manteve Gates preso por quatro horas, antes de soltá-lo
naquela mesma tarde.
A notícia do The Crimson termina com um breve currículo de Henry Louis Gates:
chefe do Departamento de African and African American Studies de Harvard de
1991 a 2006, fez seu mestrado e doutorado em Literatura Inglesa na Universidade
de Cambridge, Inglaterra, depois de completar sua graduação em História na
Universidade de Yale. Em 1981, recebeu da MacArthur Foundation uma bolsa Genius
Grant e, em 1997, foi nomeado um dos "25 americanos mais influentes" pela
revista Time. Gates é conhecido pela série African American lives, da rede de
televisão PBS (Public Broadcasting Service), sobre as histórias de família de
eminentes "African Americans".
Do dia 21 em diante a notícia tomou conta dos meios de divulgação, locais,
nacionais e mesmo da imprensa internacional: de The Boston Globe, The
Washington Post, The New York Times, CBS e ABC News, CNN Transcripts, até sites
como The Root (editado pelo próprio Gates). Naturalmente, o caso chamava a
atenção pelo inusitado fato de um aclamado scholar ter sido preso no momento
que entrava em sua própria casa, confundido com um invasor. Nos primeiros dias,
o foco dirigia-se a Gates, vítima do mal-entendido. Pouco se falava sobre o
sargento Crowley, responsável pela prisão. A referência à ação policial recaía
na corporação. Crowley permaneceu na sombra.

As versões contraditórias, no entanto, não desapareceram, mesmo com a exposição
mais ampla do caso. Ao contrário, a divulgação reforçou-as: por exemplo, o fato
de o policial argumentar que Gates apenas apresentou a carteira da universidade
quando questionado sobre sua identidade contrariava a insistência de Gates de
que havia também apresentado a carteira de motorista, ambas com sua fotografia,
sendo que na última constava seu endereço. Outra contradição recorrente dizia
respeito ao tumulto e aos gritos de Gates: estabelecidos como o motivo da
detenção, o professor argumentava que o pretexto era inacurado porque estava
incapacitado, naquele momento, de gritar devido a uma infecção nos brônquios.
Gates também negou, em entrevista, ter feito qualquer referência pejorativa à
mãe do policial. Ainda outra questão relacionava-se ao fato de o sargento James
Crowley dizer ter sido acusado por Gates de racial profiling - expressão usada
para indicar o preconceito racial via aparência -, o que substanciava o pedido
de desculpas formal que passou a exigir do policial. O sargento negou a
intenção de fazê-lo, sendo apoiado pela Associação dos Oficiais Superiores da
Polícia de Cambridge, que considerou seu comportamento consistente com o
treinamento policial e com os padrões aplicáveis ao caso.10
Naquele momento, isto é, na semana seguinte ao evento, um grande número de
personalidades foram entrevistadas, e a espinhosa questão do racismo apareceu
explícita: o governador de Massachusetts, Deval Patrick, negro, sentiu-se
"perturbado" pela situação; a prefeita de Cambridge, também negra, Denise
Simmons, sugeriu que o incidente poderia ter um lado positivo se tomado como
"um momento de aprendizado"; os defensores do policial Crowley, então com 42
anos, argumentavam que ele não apenas era dedicado e um profissional correto
(by the book), mas tinha sido escolhido por um superior, coincidentemente
negro, para ser o instrutor de um curso, não mais nem menos, de racial
profiling na Lowell Police Academy, curso que ministra desde 2004.11 O policial
Crowley continuou sendo apoiado publicamente por seus colegas, muitos deles
negros, que o descreveram como um policial bom e justo. Um deles, Leon Lashley,
presente ao incidente, disse que apoiava totalmente o comportamento de Crowley,
embora acrescentasse que, tivesse sido ele o primeiro a chegar na cena e
iniciado o contato com Gates, o resultado possivelmente teria sido diferente.
Em entrevista para a CNN, o general Colin Powell - para a mídia, sempre um
exemplo de moderação nas questões raciais difíceis - procurou ver os dois lados
da questão: a respeito de Gates, sugeriu que o professor deveria ter pensado
melhor se aquele era o momento para criar tamanha agitação; em relação a
Crowley, indicou que a intervenção de um supervisor poderia ter ajudado porque,
ao reconhecer que Gates estava em sua casa, provavelmente tiraria as algemas e
"deseja[ria] boa noite ao professor".12 A reitora da universidade de Harvard,
Drew Faust, disse ter se sentido muito afetada pelo incidente, acrescentando
que "o legado das injustiças raciais continuam a ser uma parte infeliz e
dolorosa da experiência americana".13
A despeito das controvérsias, a acusação policial foi retirada na terça-feira
seguinte: um comunicado conjunto da prefeitura (City of Cambridge), do
Departamento de Polícia e do próprio Gates considerava que o incidente tinha
sido "lamentável e infeliz". Tudo parecia chegar ao fim quando, no meio de uma
entrevista coletiva sobre o novo sistema de saúde que pretendia aprovar, o
presidente Barack Obama, ex-aluno de Harvard e amigo de Gates, não resistiu ao
ser perguntado sobre o incidente. Confessando que tinha um certo bias em
relação ao assunto, disse que qualquer pessoa ficaria bastante irritada ao se
ver no lugar de Gates. Para ele, a polícia tinha agido "estupidamente" ao
prender quem tinha provado estar em sua residência.14
No momento em que se considerava o caso resolvido com o comunicado apaziguador
dos envolvidos, as considerações de Obama reacenderam a questão.15 Neste novo
contexto, a figura do sargento Crowley, até então um personagem secundário,
ganhou espaço na mídia: com o apoio do Departamento de Polícia de Cambridge, os
oficiais sentiram-se insultados pelo comentário de Obama e reforçaram o apoio
ao policial, que não teria feito nada mais do que seguir o protocolo.16
A partir deste momento, Crowley passou a receber atenção especial da imprensa
e, ao ser entrevistado, disse que o presidente Obama não conhecia todos os
fatos. Especificamente, comentou que, pior do que as palavras do professor, foi
o tom que usou: embora ele não tivesse a aparência de quem invade uma casa, o
tom de sua voz era perturbador, especialmente agora que sabia que Gates era um
acadêmico. Argumentou que estava apenas se protegendo quando pediu que ele
saísse e se identificasse, já que não o conhecia. Crowley reafirmou que tentou
se identificar repetidas vezes, mas o professor gritava tão alto que não o
ouvia. E, à sugestão de que se acalmasse e baixasse a voz, não foi atendido. Da
mesma maneira, insistiu que Gates apenas mostrou o cartão de identidade da
universidade quando pediu sua identificação. Tivesse ele mostrado a carteira de
motorista, "isto teria ajudado".17 E, mais uma vez, nega o pedido de desculpas:
"Esta desculpa não virá. Não virá de mim como Jim Crowley, nem virá de mim como
sargento do departamento de polícia de Cambridge. Sei que fiz o que era
correto. Não tenho por que me desculpar".18 Mas, tendo o incidente adquirido as
proporções que tomou, diz ter, sim, um pedido de desculpa - o de desconhecer
Gates: "Desculpo-me por não saber quem era o professor Gates, mas continuo
pasmo que alguém com seu grau de inteligência desça a tal nível, ao insultar-
me, acusar-me de racista, de racial profiling".
A interferência de Obama multiplicou as notícias: artigos sobre a narrativa do
racismo nos Estados Unidos, sobre os dois mundos que colidiram em Cambridge
naquela quinta-feira, sobre a forma como policiais se conduzem em face do abuso
verbal, sobre a arrogância diante de policiais, sobre a presunção dos policiais
e sobre o fenômeno do racial profiling - todos estes temas se seguiram na
imprensa ao comentário do presidente.19
Situado no centro da controvérsia e não podendo se recusar a algum tipo de
interferência pacificadora, duas semanas após o incidente em Cambridge Obama
convidou os dois personagens para uma cerveja na Casa Branca, no final da
tarde. Repórteres tiveram quarenta segundos para fotografar o encontro, de uma
distância de onde não se podia ouvir a conversa. Como se vê na foto divulgada
pela mídia, o vice-presidente Joe Biden foi incluído no que a imprensa chamou
de beer summit, produzindo, com sua presença, um curioso equilíbrio. Ao redor
de uma mesa redonda, os pares opostos incluíam dois homens em mangas de camisa
(o presidente e seu vice, ao fim de um dia de trabalho) e dois cidadãos
"comuns", vestidos de terno (os visitantes); entrecruzando-se, dois "negros"
com raízes em Harvard e dois trabalhadores "brancos" (foi notado que, no
episódio, Joe Biden realçou seu vínculo com os blue-collar americanos). Ninguém
pediu desculpas a ninguém.
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Repórteres e fotógrafos tinham se posicionado à espera do encontro, todos
sabendo que também as famílias do professor Gates e do sargento Crowley haviam
sido incluídas no convite para conhecer a Casa Branca. Assim, ao surgir, de
repente, um grupo de cinco pessoas "brancas", os jornalistas se questionaram se
aqueles seriam os visitantes Crowley. Uma repórter não resistiu e os abordou:
"Excuse me, may I ask who you are?". A resposta imediata de quem conhecia as
implicações da pergunta: "Not who you think".20
Groebner: reconhecimento e identificação
A pergunta da repórter nos leva diretamente ao livro Who are you? (Groebner,
2007). Mudamos aqui de registro para trazer à discussão este texto instigante e
atraente, com um forte apelo antropológico pela maneira como é capaz de se
deter em detalhes etnográficos significativos da pesquisa histórica, sem
desconsiderar situações equivalentes contemporâneas.21
Groebner torna evidente, por exemplo, como as técnicas e os procedimentos de
identificação atuais têm vínculo estreito com métodos utilizados, pelo menos,
desde o século XIII, quando não existiam a assinatura, a fotografia e a
impressão digital a que estamos habituados. Como a identificação não pode
prescindir de objetos externos, o autor dedica grande parte do livro a examinar
cartas, certificados, selos, brasões, emblemas e outros aparatos que
codificavam as "naturezas" individuais, assim como a examinar sinais, marcas,
cicatrizes, cores, vestimentas e traços individuais, chegando até o século
XVII.22 São esses pequenos elementos dos antigos sistemas de conhecimento que,
argumenta ele, continuamos a carregar nas certidões e nos papéis oficiais que
demonstram, hoje, quem somos. Segundo Groebner, os documentos que levamos nos
bolsos são, de fato, totalmente medievais, ecos daquela época, o que faz o
autor não apenas renunciar, mas afastar a ideia de que existiu um momento
específico para o aparecimento do individualismo moderno. Recusando-se ao
contraste aparente entre a "Idade Média coletivizadora" e a "Renascença
individualista", Groebner insiste que, se indivíduos foram reconhecidos
antigamente pelos seus signos, é porque esses signos já eram disseminados na
coletividade, com um significado minimamente estável. Preferindo falar de
"identificação" e recusando-se ao termo "identidade", o autor enfatiza que a
identificação sempre se refere a um processo que envolve mais de uma pessoa:
quem somos depende do que outros dizem de nós, mesmo que usemos marcas e signos
para nos identificar. Há sempre, portanto, o envolvimento de ao menos duas
pessoas nos processos de identificação, o que significa que ela tem
protagonistas, enquanto a "identidade", não: "É apenas pelo olhar dos outros
que nos tornamos quem somos."23
Uma proposta específica do livro é importante no caso que examinamos: para
Groebner, há duas maneiras muito diferentes de afirmar que uma pessoa é quem
ela diz ser: uma é pelo reconhecimento; outra, pela identificação. A diferença
entre elas pode ser assim resumida: "reconhecemos um rosto familiar a despeito
da escuridão, fixando-nos nos menores detalhes, sejam eles a postura, o gesto,
uma simples palavra - e muitas vezes até contra a nossa vontade".24 Por outro
lado, identificamos alguém que nunca vimos antes por meio de "um procedimento
muito diferente e mais entediante. Comparamos sua descrição com as feições
individuais - gênero, altura, idade, cor dos olhos e cabelo - e quando temos um
número suficiente de correspondências, podemos assumir que é a pessoa em
questão" (2007, p. 17). Quando este processo resulta em um documento de
identificação, é a autoridade do emissor que legitima seu uso e atesta sua
validade.25 Como enfatiza Groebner em relação ao passaporte (mas que é válido
para os documentos em geral): "O passaporte não é uma criação do indivíduo, mas
da autoridade emitente" (2006, p. 156).26
Voltamos, assim, ao drama encenado em Massachusetts, para relatá-lo seguindo um
roteiro alternativo. A conduta do sargento Crowley pode ser assim resumida: ao
responder a um chamado de um possível arrombamento de uma casa no centro de
Cambridge, apesar de sua patente superior, atende a convocação por estar
próximo ao local. Na calçada, encontra a mulher que ligou para a polícia e, na
casa em questão, um senhor descontrolado, reclamando que um policial só
apareceu à sua porta porque ele é negro. O mesmo senhor recusa-se a mostrar uma
identidade que não a de professor de Harvard e ofende o policial com expressões
rudes, além de chamá-lo de racista. Na presença de outros policiais que haviam
chegado neste ínterim por solicitação de Crowley, o sargento o prende por
conduta desordeira.
O que o sargento Crowley demanda é um documento que prove que Louis Henry Gates
é mesmo quem dizia ser. Note-se que esta não é a razão alegada para a
corporação policial posteriormente defender Crowley, mas, sim, a conduta
descontrolada de Gates diante da autoridade do policial. Mas a exigência de um
documento é parte da altercação e explica, em parte, a recusa do sargento em
oferecer depois um pedido de desculpa pela detenção: como acrescenta em
entrevista após o envolvimento do presidente Obama, a apresentação da carteira
de motorista "teria ajudado". Da perspectiva do policial, então, ele age dentro
do roteiro do que Groebner chama de identificação, independentemente do fato de
a prisão ter sido um ato excessivo ou não. Podemos, inclusive, lembrar que,
chegado de uma viagem à China, Gates não mostra o passaporte - que certamente
tinha à mão - como documento oficial de identificação.
Já Gates evita o procedimento formal e não acede às demandas do policial por se
situar em outro registro, a saber, no que Groebner considera o contexto do
reconhecimento. Gates é uma figura pública - um scholar renomado dos estudos
afro-americanos de uma das maiores universidades do país, além de personagem
regular da rede de televisão PBS (Public Broadcasting System); ele é uma
espécie de "acadêmico-celebridade", cujos documentários ao redor do mundo sobre
questões de raça têm grande audiência nos Estados Unidos. Além disso, ele
estava em sua casa, em sua cidade, situação em que o reconhecimento seria, em
princípio, mais plausível do que a identificação. Assim, ele fornece ao
policial a identidade que lhe dá maior prestígio: a de professor de Harvard.
Mas um elemento impede o reconhecimento que Gates antecipa: o policial
desconhece quem ele é e, portanto, não pode (re)conhecê-lo. Ao menos
aparentemente, a identidade da universidade nada prova - ou, talvez, prove
tanto em um registro não oficial que o sargento a rejeita e não se satisfaz com
ela. Podemos inferir que o documento, sendo emitido por uma instituição
privada, não tem a autoridade que a polícia possa reconhecer legalmente. É o
que Crowley parece sugerir quando diz que, em todo o episódio, só tem uma
desculpa a oferecer, (des)conhecer Gates - mas este é o gancho para dizer-se
ainda mais perplexo por saber que um homem com tamanha erudição se comportava
de forma tão perturbadora.
Que Gates atuava no terreno do reconhecimento fica claro tanto no comentário
"You don't know who you're messing with" como no blog em que é entrevistado
pela filha: "Ele estava investigando? Ele deveria ter saído e dito: 'Desculpe-
me senhor, boa sorte. Adorei sua série na PBS - até mais!'". E continua: "Se
ele tivesse me dado o seu cartão, eu teria lhe enviado um DVD!", o que provoca
riso. Em outro momento, depois de elogiar o sistema de justiça, mas vê-lo
corrompido, pergunta: "E se eu fosse anônimo e estivesse em outro lugar?"27 É
por agir no terreno do reconhecimento que levanta a hipótese de um dia fazer um
documentário sobre a situação que viveu.28 O poder da mídia dá-lhe a munição
para revidar o des-conhecimento de Crowley e mostrar a ele "com quem estava
falando".29
Sugiro, portanto, que os mecanismos do "reconhecimento" e da "identificação"
ajudam a afinar a percepção deste evento cheio de nuanças e de controvérsias:
Gates recorrendo a uma exceção à identificação formal (porque já se sabe, ou
Crowley deveria saber, quem ele é, reconhecendo-o, se não por sua atuação
pública, pela identidade que a universidade produz); Crowley, by the book,
atendo-se tanto à identificação como uma regra definida legalmente por meio de
um documento oficial, quanto à civilidade e ao respeito como comportamentos
prescritos. Este caso mostra que, apesar de a identificação formal ser o modo
reconhecido e legítimo dos modernos Estados nacionais, ainda assim outras
formas de estabelecer quem é quem operam no dia a dia por meio de lógicas
aparentemente divergentes - embora seja a ausência do documento legítimo que
leva Gates a ser preso.30 Esta interpretação não invalida o comentário de
Warner (2009) de que "os dois homens estavam, conscientemente ou não, seguindo
[outros] scripts em suas mentes, estórias de vulnerabilidade e injustiça mais
significativas que a presente". Ou, ainda, o da colunista Maureen Dowd (2009)
que, condenando a prisão por princípio, nota a batalha de egos em jogo: "o
policial trabalhador branco vs. o mundano scholar negro, a cidade vs. a toga, a
Academia de Polícia de Lowell vs. a Academia de Artes e Letras", e relembra
que, de Shakespeare a Hitchcock, identidades dúbias são bases de poderosas
narrativas, especialmente quando envolvem "raça, classe e testosterona".
Os seis minutos do evento
Um ano depois, o episódio voltou às páginas dos jornais com a divulgação de um
relatório redigido por doze especialistas sobre legislação, administração de
conflitos, relações comunitárias, gestão policial e relações raciais -
especialistas oriundos de várias universidades e representantes dos próprios
moradores da cidade de Cambridge.31 Este relatório de sessenta páginas, com o
título "Missed opportunities, shared responsibilities", não culpa nenhum dos
principais personagens pelo ocorrido, mas considera ambos "faltosos" por terem
perdido a oportunidade de minimizar o conflito que, tendo durado apenas seis
minutos, ecoou em vários grupos em Cambridge e em todo o país, suscitando
opiniões das mais diversas. Nos dois extremos, segundo o próprio relatório,
enquanto alguns viram o encontro como um exemplo de racial profiling, outros o
perceberam como um exemplo de trabalho policial responsável. O comitê
responsabilizou os dois: "O incidente de 16 de julho serve como um manual de
como um policial e um membro da comunidade podem colidir se não partilham o
senso de responsabilidade sobre como cooperar para o objetivo comum de se
chegar a um encontro positivo que resulte no aumento da segurança pública" (CC,
2010, p. 4).
O longo relatório inclui uma sinopse do evento de 16 de julho de 2009,
biografias elogiosas dos dois protagonistas em suas respectivas áreas de
atuação, descrições obtidas em entrevistas com os dois envolvidos,
considerações sobre o treinamento policial e recomendações. Apêndices incluem
biografias breves dos membros do comitê, relatórios policiais do sargento
Crowley e de um colega presente ao incidente, comunicados oficiais e análises
de especialistas. A maior parte do texto focaliza práticas e orientações
policiais, incluindo a relação entre justiça processual e considerações táticas
e de segurança, o treinamento dos policiais, o exercício do discernimento do
policial, zonas de conflito entre policiais e residentes. Elaborado para ter
impacto e possível influência em outras cidades do país, o relatório é
especialmente didático em relação às práticas policiais em geral, e específico
em relação à maneira como a polícia pode atenuar conflitos com a população.
A ênfase do relatório na conduta policial é reveladora, por tirar de pauta
alguns temas difíceis, sendo o mais contundente a própria questão racial. Esta
é apenas insinuada na composição (multiétnica) do comitê, mas em nenhum momento
explicitada.32 Oficialmente, o conflito fica basicamente circunscrito às
dimensões legal e policial, o que revela com nitidez o quão sensível é o tema,
tornando-o mesmo tabu em determinados contextos. Mas se o relatório apenas
sugere, a imprensa não: a reação de Crowley, de que "ninguém que me conheça
pensa que a prisão foi de alguma maneira baseada em raça; prisões são baseadas
estritamente no comportamento", ecoou em outras do mesmo teor.33
Uma segunda questão tem caráter sociológico: a prisão aconteceu diante de um
grupo de policiais, da corporação e da universidade, que o próprio Crowley
chamou após Gates ter apresentado sua identidade de Harvard. Aqui podemos
aventar a hipótese de que este contingente de oficiais, do qual Crowley era
hierarquicamente superior no posto de sargento, possa ter influenciado na sua
decisão resoluta de imediatamente prender Gates pelo desrespeito ostensivo e
público a que foi submetido.
Por fim, um terceiro ponto diz respeito à produção de documentos de identidade,
uma matéria simplesmente secundária no relatório. Embora o texto inclua uma
seção do tipo "se... então poderia..." (CC, 2010, p. 3), em nenhum momento
aludiu-se ao fato de o professor seguramente ter consigo seu passaporte, já que
chegava de viagem ao exterior, o que poderia ter evitado que o conflito
escalasse. A ausência de menção aos vários meios de identificação e, inclusive,
a discussão sobre a validade (ou não) da identidade da universidade
transformaram-se em "oportunidades perdidas" do próprio relatório. No verso do
cartão de identidade de Harvard está assim definido: "This card is the property
of Harvard University and is intended for University purposes only" (grifo no
original).34
Em relação à divulgação do texto, a reação dos dois envolvidos foi, como
sempre, divergente, mas em um sentido simétrico invertido: representando Gates,
Charles Ogletree, da Law School, aplaudiu o comitê pelas recomendações, mas
sentiu que inúmeros fatos foram excluídos, inclusive o depoimento da vizinha, o
que tornou o relatório "lamentavelmente decepcionante"35. Já o sargento Crowley
- que poderia ser visto como o mais atingindo pelo relatório -, disse em
comunicado que havia "aprendido muito durante o processo", que continuava
"comprometido com a cidade de Cambridge", e que estava contente pelo fato de o
comitê haver incluído sua versão dos fatos.
Arrematando com Peirce
Depois de considerar a distinção entre "reconhecimento" e "identificação",
proposta por Groebner (2007), chamo Peirce à cena para fechar o argumento e,
eventualmente, aprofundar a análise.
Para Peirce, existem três modos de ser (modes of being), observáveis em
quaisquer elementos ou momentos: o da possibilidade qualitativa -First; o do
fato concreto - Second; e o da lei que governará fatos no futuro - Third. Três
é o número que define o significado, que nunca deriva de meras condições
diádicas: apenas como exemplo, leste, oeste e acima são requisitos para se
definir a diferença entre direta e esquerda (Peirce, 1955, p. 92).36 Como
Peirce parte da experiência para abarcar o sentimento e o pensamento, é comum
ele iniciar suas propostas pelo Secondness - exemplo que sigo aqui. Sugiro que
o reconhecimento seja Second e a identificação, Third. A estes dois mecanismos,
acrescento o profiling como First que completa a tricotomia.
Secondness é um evento, algo que acontece aqui e agora (then and there), quando
"a atualidade é algo bruto". Eventos etnográficos são, portanto, Seconds. Na
ideia de realidade, o Secondness predomina, porque o real é aquilo que "insiste
em forçar seu reconhecimento como algo diferente de uma [simples] criação da
mente" (1955, p. 79). O real é ativo; nós o distinguimos ao chamá-lo atual.
Então, a prisão de Gates, assim como o "reconhecimento" que ele esperava
naquela circunstância (e não conseguiu obter) são também Seconds. As algemas no
pulso de Gates são contundentes e indicam ação, causação e coerção.
Não tendo "re-conhecido" Gates, a reação de Crowley segue a modalidade que
Peirce denomina Thirdness, a qual, baseada na convenção, rege os fatos do
futuro. Assim, se para Peirce a ação é Second, a conduta é Third; a lei como
força ativa é Second, mas, como ordem e legislação é Third. No evento em
questão, embora o ato da detenção tenha sido Second, as regras e as orientações
que Crowley segue são Third. É na base do Thirdness, isto é, da convenção, que
a corporação policial apoia Crowley; ele seguiu os procedimentos para a
ocasião. Sua exigência de que Gates apresentasse um documento, isto é, um
objeto que provasse ser aquela a sua residência, assim como o grau de
civilidade exigido em relação à autoridade policial, estão codificados
legalmente. Crowley age dentro da lei, no âmbito do Thirdness.
Entre os documentos norte-americanos, a carteira de motorista é o padrão - um
cartão que identifica o indivíduo por meio de várias informações, em princípio
complementares e até mesmo redundantes: nome, foto, assinatura, endereço,
número, validação oficial do Estado. A redundância sempre presente nos
documentos de identidade não é uma imperfeição do sistema classificatório; ao
contrário do senso comum, é uma forma de assegurar, de vários modos e
perspectivas, de que se trata de determinada pessoa, aquele indivíduo que
sustenta ser quem diz que é.37
Documentos legais são, portanto, objetos mistos: na carteira de motorista
norte-americana (assim como na identidade brasileira), a assinatura é
predominantemente indéxica; a foto, icônica; o nome, um símbolo. Todos os
elementos partilham da tríade peirceana do signo, mas as ênfases são diferentes
em cada caso.38 Assim, Crowley requereu um documento oficial com endereço;
Gates ofereceu a identidade de Harvard. Esta, contendo alguns elementos de
identificação, como nome, número de matrícula, ocupação, código de barras e
validade, não nega quem ele é; antes, sugere ser ele uma pessoa singular,
professor de uma grande universidade. No entanto, não prova que ele é o morador
da casa cuja porta forçou. Além disso, se a carteira de motorista tem o
reconhecimento da autoridade do estado na qual é emitida, a identidade da
universidade é fornecida por uma instituição reconhecida, mas privada.
Resta-nos focalizar a vizinha que denuncia o suposto arrombamento. Aqui temos
uma novidade: ela parece agir sob o domínio predominante do Firstness,
modalidade que, para Peirce, se define como uma possibilidade cujas qualidades
não têm identidades perfeitas, mas apenas semelhanças ou identidades parciais
(1955, p. 77). Firstness é algo peculiar e idiossincrático, e é dominante no
sentimento (feeling), isto é, distinto da percepção objetiva, da vontade e do
pensamento. Por sentimento, Peirce indica uma consciência que não envolve
análise ou comparação. Um sentimento não é, portanto, um evento; um sentimento
é um estado. A mulher "estereotipa" os dois homens que vê na porta da casa e
chama a polícia; coloca-os em uma classe ou categoria a partir de um perfil que
tem em mente.
Sem análise, sem comprovação, o profiling pode ser apenas imaginário (como um
verdadeiro First), mas afeta a sensação e faz com que os sentidos respondam a
ela. Embora o primeiro sentido de profile seja "o contorno de um rosto,
especialmente visto de lado", a palavra inclui também "um conjunto de
características ou qualidades que identificam um tipo ou uma categoria de
pessoa ou coisa".39 Assim, embora Gates diga que não estereotipa, ele parece
agir desta forma ao caracterizar o policial como racista no momento em que este
surge à sua frente pedindo um documento. O mesmo ocorre com o sargento, em um
sentido inverso, quando sugere que o professor não parecia alguém suspeito de
arrombar uma casa alheia, mas, apesar disso, seu comportamento era perturbador.
A evidência de que o profiling é antagônico à convenção e à lei é, hoje, lugar
comum, embora alguns estados norte-americanos sejam tentados a adotá-lo.40 O
evento que examinamos indica como as tentativas de transitar deste sentimento
(First) para a compreensão e a análise (isto é, Third) são realizadas até mesmo
em cursos regulares, como o que o próprio sargento Crowley oferece na Lowell
Academy of Police, de "Racial profiling". Em suma, sobrepor a tricotomia de
Peirce aos dois tipos de Groebner torna o instrumental analítico mais apurado:
o diálogo entre esses dois autores nos faz associar profiling a Firstness,
reconhecimento a Secondness e identificação a Thirdness.41
Peirce não foi modesto em suas pretensões intelectuais, aspirando, inclusive, a
"delinear uma teoria tão abrangente que o trabalho inteiro do pensamento humano
apareceria como um preenchimento dos seus detalhes" (Brent, 2003, p. 25). A
"descoberta" da tricotomia profiling-reconhecimento-identificação pode ser
atribuída ao seu talento, indicando como o ideal dos documentos de identidade é
uma aspiração, mas não um fato incontestável das sociedades modernas. Na
verdade, é no contexto negativo, mas predominante, do profiling (e também do
reconhecimento) que se insere a assertividade dos documentos, que, em
princípio, assegurariam que uma pessoa é quem diz ser, pela força da convenção
e da lei. Nem sempre com sucesso as sociedades modernas procuram eliminá-lo,
condenando-o legal e moralmente. A exigência, a que estamos constantemente
sujeitos, para que nos identifiquemos não desaparecerá, tampouco irão diminuir
as ambiguidades intrínsecas aos papéis legais. Os usos variados a que os
submetemos continuará a ser parte inerente do script da vida dos documentos. Se
a questão racial tornou o evento Gates-Crowley fértil para o exame das
sutilezas nas diversas formas pelas quais provamos ser quem dizemos ser, é
porque os documentos legais de identidade se tornaram objetos legitimamente
reconhecidos nos Estados modernos -, mas comprovadamente não os únicos a
operar.
Concluindo
Há décadas antropólogos vivem em um universo orientado por dicotomias e
binarismos. Herança do estruturalismo em suas versões vulgarizadas e, por essa
via, das propostas da linguística de Saussure, imagens acústicas vinculadas a
conceitos tornaram-se a chave que, nas últimas décadas, abriu as portas
interpretativas de fenômenos como parentesco, mitos, tabus e várias outras
manifestações humanas. Nesse processo, ficou para trás a afirmação de
Malinowski, de que
[...] não há nada mais perigoso do que imaginar que a linguagem é um
processo correndo paralelo e correspondendo exatamente ao processo
mental, e que a função da linguagem é refletir ou duplicar a
realidade mental do homem em uma corrente secundária de equivalentes
verbais (1935, p. 7, tradução minha).
A retomada da etnografia como ponto nodal da própria teoria antropológica,
contudo, fez com que pesquisadores se ressentissem da camisa de força dos
binarismos, já que, desde Durkheim, ação e pensamento sempre foram apreendidos
como indelevelmente ligados. É hora, portanto, de reabilitar Malinowski, tanto
no sentido de uma "teoria etnográfica" por ele proposta, como pela inclusão da
ação social como produtora de significados, sem deixar de lado a percepção
contemporânea do "ponto de vista nativo". É nesse contexto que Peirce pode
representar uma lufada de ar fresco, inspirando-nos a abrir espaço para o real
vivido, para o objeto da ação, para o Secondness, para o imprevisível e para os
"imponderáveis".
Neste contexto, os eventos etnográficos tornam-se, assim como os rituais em
tempos passados, a trilha de uma antropologia que se quer compreensiva e,
portanto, consequente em termos teóricos e políticos. Não se trata de inaugurar
uma nova antropologia, mas de ser "pouco original de uma nova maneira", ou,
como reforça Alfred Gell ao propor uma antropologia da arte, de "desenvolver
uma nova variante da teoria antropológica existente" (1998, p. 4, grifo no
original). Dessa perspectiva, a ação é tão privilegiada quanto a palavra, e o
dito e o feito são concebidos como par inseparável, uma ideia proposta por
Edmund Leach há quase cinquenta anos.42 Mais recentemente, E. Valentine Daniel
reforçou este ponto de vista ao examinar episódios de violência no Sri Lanka:
"A divisão mais significativa não está entre os teóricos do consenso e os
contestatórios, mas entre aqueles que privilegiam a palavra - grupo do qual a
maioria dos acadêmicos faz parte - e os que privilegiam o feito" (1996, p.
199). Eu compartilho essa ideia, assim como sigo o exemplo de Stanley Tambiah,
quando, ao analisar a decisão da Suprema Corte dos Estados Unidos sobre a
queima da bandeira norte-americana com a finalidade de "corrigir a assimetria
[no discurso intelectual ocidental]", aceita que há contextos "nos quais
relações icônicas e indéxicas são convertidas em 'relações de participação'"
(1996, p. 38). Peirce continua sendo uma sólida inspiração. Admitindo que a
abordagem antropológica pode ser útil e relevante onde e quando encontramos
eventos etnográficos significativos, neste ensaio aproveitei a atenção que o
episódio entre Gates e Crowley recebeu da mídia e do público nos Estados Unidos
- gerada por mal-entendidos e confrontações entre os dois protagonistas, assim
como pela disputa racial em que estiveram envolvidos - para examinar as
diversas maneiras pelas quais, a despeito do lugar central que a documentação
tem na vida dos Estados modernos, passamos a maior parte da vida profiling,
reconhecendo e/ou identificando uns aos outros sem cessar.
Notas
1 Meu interesse pelos documentos de identidade teve início no contexto de uma
pesquisa sobre o impacto do então Programa de Desburocratização em regiões não
metropolitanas no início dos anos de 1980 (Peirano, 1986). Uma segunda etapa
ampliou a investigação para incluir o universo de papéis oficiais no Brasil,
quando procurei desvendar a lógica semântica dos signos utilizados nos
documentos e a ação da redundância nesses objetos de identificação (Peirano,
2006). Foi quando me deparei com alguns aspectos singulares, em termos
comparativos, do caso norte-americano, especialmente a ausência de uma
identidade nacional, e o fenômeno do identity theft (Peirano, 2009). Este
ensaio é uma continuação dessa série, procurando agora ampliar o leque dos
mecanismos lógicos das identificações contemporâneas.
2 O livro O pensamento selvagem, de Lévi-Strauss, é a referência maior da
antropologia sobre classificação e individualização, depois dos trabalhos
clássicos de Mauss sobre a noção de pessoa e classificação primitiva. Ver Fry
(2005, 2009), sobre a genealogia das taxonomias "raciais" no Brasil, e Nogueira
(1985, 2008), sobre o preconceito racial no Brasil e nos Estados Unidos.
3 Ver, especialmente, Cunha (2002) para as práticas de identificação no início
do século XX, no antigo Distrito Federal, e seu poder disciplinar na reforma
penal implementada pelo Estado autoritário na década de 1930.
4 Embora posteriormente duas fontes recontem o caso em detalhe - (i) o dossiê
"Missed opportunities, shared responsibilities" (Cambridge Review Committee,
2010), que oferece uma descrição e as versões dos envolvidos, e (ii) Ogletree
(2010), que narra o caso como advogado de Gates -, seguirei a ordem pela qual
os eventos se tornaram públicos. The Harvard Crimson publicou, em 20 de julho
de 2009, a primeira matéria sobre o assunto (disponível em <http://
www.thecrimson.com/article/2009/7/20/renowned-af-am-professor-gates_-arrested-
for/>).
5 O jornal, fundado em 1873, considera-se o único diá-rio de Cambridge e serve
como um laboratório para estudantes, muitos dos quais se tornam jornalistas
renomados (disponível em <www.thecrimson.com>). O jornal é gratuito dentro do
campus da universidade.
6 No original: "[Y]ou don't know who your [sic] messing with".
7 O sargento atendeu o chamado por estar perto da ocorrência. Na hierarquia
policial, o sargento (sergeant) é superior ao policial (officer) e reporta ao
chefe de polícia. Entre sargento e chefe de polícia, está o tenente
(lieutenant), que supervisiona os sargentos e os policiais (disponível em
<http://www.ehow.com/facts_5763736_different-ranks-police-officer_.html>,
acessado em 15 jul. 2010).
8 Gates não poderia ser preso dentro de casa, a não ser com um mandado.
9 Aos 14 anos de idade, Gates fraturou a junção do quadril, resultando em uma
condição chamada de "escorregamento epifisário", em decorrência da qual tem uma
diferença entre a perna direita e a esquerda. Ver O'Hagan (2003).
10 "Massachusetts: union backs sergeant who arrested Harvard professor", The
New York Times (doravante NYT), 23 jul. 2009.
11 Faço referência às "cores"/"raças" a partir das definições encontradas na
mídia ou pelos próprios envolvidos nos artigos mencionados. Por exemplo, sobre
a prefeita, ver "Officer defends arrest of Harvard professor", NYT, 24 jul.
2009.
12 Ver <http://gawker.com/5325278/colin-powell-on-henry-louis-gates-he-
shouldve-chilled-out>, acessado 16 fev. 2010.
13 Ver "Harvard scholar won't be charged", NYT, 22 jul. 2009.
14 Cf. "Obama criticizes arrest of Harvard professor", NYT, 23 jul. 2009.
15 "Obama wades into a volatile racial issue", NYT, 23 jul. 2009.
Posteriormente, sua intervenção foi considerada "um erro desastroso".
Disponível em <http://www.nytimes.com/2009/07/23/us/23race.html>.
16 "Sergeant who arrested professor defends actions", NYT, 24 jul. 2009.
17 No original: "That would have been helpful". A identidade de Harvard tem o
formato e informações de um cartão de crédito. A carteira de motorista possui
também endereço e é expedida pelo Department of Motor Vehicles do estado da
federação do residente.
18 Ver "Officer defends arrest of Harvard professor", NYT, 24 jul. 2009.
19 Ver reportagens do The New York Times entre 25 e 27 jul. 2009.
20 Ver "Over beers, no apologies, but plans to have lunch", NYT, 30 jul. 2009.
21 Diz Groebner (2006) em uma entrevista online: "Confesso que, apesar de ser
um historiador interessado nos séculos XV e XVI, a forma como vejo o meu
material é sempre informado pelo mundo no qual vivo".
22 Uma parte fascinante do livro Who are you? registra a utilização das
categorias de cor dos indivíduos na Idade Média e indica como o esquema a que
estamos familiarizados hoje só foi estabelecido no século XIX. Por exemplo, as
cores medievais principais - branco, vermelho, preto - não eram cores da pele
no sentido moderno, mas cores do corpo que se referiam a outros traços pessoais
e à compleição da pessoa.
23 Groebner (2007, p. 36). Ver, também, Crapanzano (1992), para desdobramentos
desta perspectiva.
24 Em pesquisa nos anos de 1980, no município de Rio Paranaíba, ouvi o
comentário de que lá o programa de desburocratização então em curso era
desnecessário, já que todos se conheciam (Peirano, 1986). Nos termos de
Groebner, em Rio Paranaíba dominava o "reconhecimento" e não a "identificação".
25 Na última década documentos legais de identidade passaram a ser objeto de
exame de vários historiadores e cientistas sociais. Hoje existe uma literatura
consistente, se não exaustiva, sobre esses documentos. Entre eles podemos citar
Caplan (2001), Scott et al. (2002), Torpey (1998), DaMatta (2002), Oliven
(2001), Peirano (1986, 2006, 2009); Riles (2006) sobre documentos como
artefatos; Goody (1977, 1986) sobre a escrita e a organização da sociedade;
Fraenkel (1992, 2002) sobre a história da assinatura e os grafites pós-setembro
de 2001 em Nova York; Ferrari (2007) sobre o caso da rebelião do cocheiros em
Buenos Aires; Gell (1998) sobre a relação entre pessoas via objetos, além,
naturalmente, das exemplares histórias de fraudadores (Davis, 1983; Chatterjee,
2002).
26 Disponível em <http://www.cabinetmagazine.org/issues/22/index.php>.
27 Cf. Elizabeth Gates, "My daddy, the jailbird", The Daily Beast. Disponível
em <www.thedailybeast.com-/blogs-and-stories/2009-07-22/my-daddy-the-jailbird>,
acessado em 21 mar, 2011.
28 Seis meses depois do episódio, Gates pretende doar as algemas com que foi
preso - que conseguiu com o sargento Crowley posteriormente - para o
Smithsonian's National Museum of African American History and Culture (Gates,
2010).
29 Este é um bom exemplo do que DaMatta (1979) chamaria de a lógica relacional,
expresso no dito usado no Brasil "Você sabe com quem está falando?".
30 Ver Tambiah (1996) para a convivência da lógica da participação (que
enfatiza a comunicação sensorial e afetiva) e a lógica da causalidade (que
ressalta a racionalidade da ação instrumental e a linguagem da cognição).
31 Ver Cambridge Review Committee, 2010 (doravante CC).
32 Foi necessário um trabalho minucioso para reconhecer o caráter "multiétnico"
do comitê, que incluiu a leitura cuidadosa das biografias dos seus membros,
assim como sucessivas visitas ao Google.
33 Reportagem disponível em <http://www.usatoday.com/news/nation/2010-06-30-
harvard-professor-arrest_N.htm>.
34 Tenho ciência, no entanto, de que as identidades fornecidas pelas
universidades com frequência são aceitas como documentos oficiais, mas para
isso dependem da boa vontade de quem as recebe.
35 Disponível em <http://www.usatoday.com/news/nation/2010-06-30-harvard-
professor-arrest_N.htm>.
36 Antropólogos estão acostumados ao pensamento triádico: para Hertz, a mão
direita só era oposta à esquerda em relação ao terceiro elemento, que é o corpo
humano; para Dumont, em aparentes oposições binárias existe um componente
hierárquico pelo qual o todo abrange os elementos.
37 Para exemplos de outras situações etnográficas em que a redundância é
fundamental na identificação, ver Peirano (2006, 2009). Fraenkel (1992) -
também citado em Caplan (2001, p. 52) - propõe que, embora os elementos da
identidade sejam heterogêneos e desordenados, os signos elementares da
identidade moderna se convencionam como o nome, a fotografia e a impressão
digital. Caplan comenta que esses elementos correspondem, "por meio de uma
lógica que certamente não é acidental", à tricotomia de Peirce, composta por
símbolo, ícone e índice.
38 Tratando-se de uma teoria semiótica de grande precisão lógica, a síntese
aqui apresentada é breve e refere-se apenas a uma das tricotomias tipológicas
de Peirce. Para uma introdução básica à semiótica do autor, ver Peirce (1955).
Cito uma das várias passagens-síntese: "A progressão regular de um, dois, três
pode ser reconhecida nas três ordens de signos, Ícone, Índice e Símbolo. O
Ícone não tem qualquer conexão dinâmica com o objeto que representa; suas
qualidades simplesmente se assemelham às daquele objeto e estimulam sensações
análogas na mente do intérprete. [...] O Índice está fisicamente conectado ao
seu objeto; eles formam um par orgânico, mas a mente que interpreta nada tem a
ver com essa conexão, exceto reconhecê-la depois que ela é estabelecida. O
Símbolo está conectado com seu objeto pela eficiência da ideia na mente que o
utiliza, sem a qual essa conexão não existiria" (1955, p. 114, tradução minha).
39 Disponível em <www.dictionary.-reference.com>.
40 Ver o caso do estado do Arizona, que permite que os policiais confiram o
status de imigração de qualquer pessoa suspeita de estar ilegalmente no país.
Este procedimento, teme-se, pode vir a ser "um convite ao racial profiling e
uma intrusão à autoridade federal" (ver "D. I. Y. immigration reform", NYT, 19
mar. 2011).
41 Makihara (2010) relata como o profiling é aceito legalmente pela polícia no
Japão. Por ser mais alta que a maioria da população, costuma ser detida para
exame policial. Embora não exista a palavra profiling em japonês (aliás, nem em
português), a Lei Executiva dos Deveres da Polícia estabelece que "um policial
pode parar e interrogar qualquer pessoa que possa ser suspeita de haver
cometido ou esteja para cometer um crime".
42 Ver Leach (1966), Tambiah (1985) e Peirano (2002).