Sírios e libaneses: redes sociais, coesão e posição de status
Introdução
Neste trabalho, tenho como preocupação central entender o processo de inserção
dos imigrantes sírios e libaneses1 antigos2 no mercado de trabalho em um "novo
mundo". As perguntas a serem respondidas são: como se dá a inserção
socioeconômica e ocupacional desses imigrantes no Brasil, em geral, e em Minas
Gerais, em específico? Em que posição na hierarquia socioeconômica se
concentram esses imigrantes? Qual o principal elemento facilitador dessa
inserção? Para responder essas questões, uso como referência a teoria do
capital social, principalmente com base na abordagem das redes sociais.
Os estudos que utilizam as análises de redes sociais verificam que as conexões
com os primeiros imigrantes3 proporcionam recursos que reduzem os riscos e os
custos da migração para os que os sucedem (Meyer, 2001; Hammar, 1997; Portes e
Bach, 1985b; Truzzi, 2008). Esses recursos são de tipos diferentes, tais como:
suporte financeiro, propostas de trabalho, assistência administrativa nos
negócios, solidariedade emocional. Os imigrantes pioneiros servem como o elo de
ligação para os que migram depois deles - tanto nos países de origem como nos
de destino - e são elementos fundamentais na determinação das profissões que os
sucessores irão ocupar (Truzzi, 2008;Vilela, 2002). Isto sugere que os
movimentos desses indivíduos são influenciados pelas ações de suas respectivas
redes sociais.
Vale ressaltar que as redes de ajuda e de solidariedade criadas pelos
imigrantes não são utilizadas apenas nas decisões de migrar e para onde migrar.
Elas se mantêm em todo o processo de imigração, incluindo a inserção no mercado
de trabalho, a empregabilidade e a posição ocupacional dos membros do grupo.
Dessa forma, as redes sociais são instrumentos utilizados pelos imigrantes para
evitar a competição do mercado aberto (mercado segmentado) e alcançar melhores
ocupações, status econômico e social na sociedade hospedeira (Portes, 1995;
Portes e Bach, 1985a; Bonacich, 1973).
Outro ponto a destacar é que, quanto maior a densidade e a multiplicidade das
redes sociais, maior será a homogeneidade de escolha profissional dos seus
membros. Por isso, comunidades empresariais étnicas tendem a se especializar em
poucos nichos de atividade econômica e neles permanecerem por várias gerações
(Portes, 1995).
Para a execução da pesquisa, uso duas fontes de dados diferentes. Uma primária
e qualitativa, baseada em informações obtidas por entrevistas e histórias de
vida4 de residentes em Minas Gerais. Outra secundária e quantitativa, referente
aos dados do censo demográfico brasileiro de 1960, com uma amostra de todos os
imigrantes internacionais e de seus descendentes no país. Chamo atenção para o
fato de que os dados qualitativos são os mais ricos de informação, mas não me
permitem fazer generalizações. Ao contrário, os dados quantitativos
provenientes do censo, embora menos detalhados, possibilitam fazer determinadas
generalizações, uma vez que o número de informantes é representativo do
universo pesquisado.
Utilizo o censo de 1960 porque ele contém um estoque de imigrantes que fixa
residência no país de 1920 a 1960, em maioria. Os sírios e os libaneses
analisados nessa pesquisa são majoritariamente cristãos.5 Quando chegaram ao
Brasil, encontraram uma rede social já estabelecida pelas colônias e os locais
de destinos razoavelmente bem definidos.6 Esses imigrantes são diferentes dos
"pioneiros" que entraram no país entre 1870 e 1920, quando não havia ainda
redes de solidariedade já consolidadas, nem lugares especificamente definidos
como destino. Eles são também distintos dos imigrantes "recentes", os quais
chegaram ao país depois de 1960 com um percentual alto de muçulmanos.
Distinguem-se, ainda, pelo fato de esses últimos terem escolhido como destino
principal também os estados do sul do país, na fronteira com a Argentina e o
Paraguai. Cabe destacar que, para cada um desses períodos, são diferentes os
motivos de migrar, os fatores de atração para o Brasil e as características dos
imigrantes, como demonstrado por outros trabalhos (Silva, 2008; Pitts Jr.,
2006; Truzzi, 1997).
Este artigo divide-se em cinco partes, além dessa introdução e das reflexões
finais. A primeira refere-se a um breve debate sobre a teoria do capital
social, focado nas redes sociais estabelecidas pelos indivíduos. A segunda
contém uma análise da inserção dos sírios e dos libaneses nos mercados de
trabalho mineiro e brasileiro, buscando identificar os ramos de atividades e as
posições ocupacionais desses imigrantes. A terceira parte apresenta uma
discussão sobre a busca de ascensão social desses imigrantes, via educação dos
filhos e a inserção deles na esfera política do local de destino. A quarta e a
quinta partes referem-se à linguagem e ao casamento endogâmico, mecanismos
importantes para a manutenção da coesão e das redes sociais.
As redes sociais: breve reflexão
Muitos estudiosos utilizam a teoria de capital social no intuito de compreender
as motivações, a persistência no tempo e as consequências do fenômeno
migratório (Portes, 1995; Mullan, 1989; Majka e Mullan, 2002; Meyer, 2001).
Essa teoria liga-se à abordagem de redes sociais naquilo que diz respeito à
capacidade dos indivíduos em controlar recursos escassos por virtude de
relações pessoais em redes sociais ou estruturas sociais exteriores (Portes,
1995).
Além de Bourdieu (1998), de Coleman (1988 e 1990) e de Putnam (1996 e 1993),
outros estudiosos, como, por exemplo, Lin (2006) contribuíram para o debate
sobre capital social, os quais afirmam que esse tipo de capital pressupõe que
redes de relacionamentos (networks) são elementos importantes na definição da
mobilidade social. Isto porque as pessoas "de posse de uma rede durável de
relações mais ou menos institucionalizadas de interconhecimento e de
reconhecimento mútuo a utilizam, de modo a produzir benefícios, tanto de ordem
econômica quanto de ordem emocional" (Helal, 2005, p. 17).
Para Lin (2006), capital social consiste de recursos embutidos nas redes ou nas
associações a que os indivíduos pertencem. Esses recursos são emprestados e,
por isso, temporários, no sentido de que o indivíduo não o possui (diferente do
capital humano que possui). Uma implicação do uso do capital social é assumir a
obrigação da reciprocidade ou da compensação.
Outro autor que contribui para o debate é Granovetter (1973, 1985). Segundo
ele, as relações pessoais estabelecem as redes (embeddedness), geram confiança,
constituem esperanças, criam e reforçam normas. Dessa forma, os imigrantes
pioneiros acabam servindo de "cabeças" para os imigrantes seguintes, tanto no
que diz respeito à geografia (países de destino) como também à profissão nas
quais são inseridos (Meyer, 2001, p. 93).
Granovetter (1973) ressalta a importância das densidades das redes e enfatiza
os laços fracos,7 os quais se referem ao poder de influência indireta dos
relacionamentos fora do círculo imediato, isto é, os círculos da família e dos
amigos mais próximos. A ideia parte do princípio de que indivíduos
participantes de clubes, de grupos ou associações (espaços fornecedores de
laços fracos) podem estar conectados com uma maior gama de informação e de
conhecimento relativo à educação e ao emprego do que aqueles que não participam
de tais espaços.
Apesar de familiares e amigos estarem mais propensos a ajudar, os laços fracos
estão estruturalmente localizados de tal modo que são mais úteis no processo de
busca por emprego (Granovetter, 1973). Essa ideia ressalta o papel da igreja e
dos clubes no processo de inserção dos imigrantes na sociedade hospedeira, como
fonte (ou instrumento) de capital social para obtenção de resultados econômicos
melhores e de elevação do status dos membros das redes sociais.8
Segundo Lin (2006), essa forma de capital é eficiente, permitindo que
indivíduos engajados em interações e em redes sejam beneficiados. Isso ocorre
porque o fluxo de informação é facilitado; as teias sociais exercem influência
sobre os responsáveis pelas decisões envolvendo o ator; as redes podem ser
concebidas pela organização como as credenciais sociais do indivíduo, uma vez
que elas refletem a acessibilidade do indivíduo a recursos; e a interação
reforça a identidade e o reconhecimento.
Em acordo com essa ideia, muitos estudiosos afirmam que os imigrantes
integrados às redes sociais mantidas pelos grupos étnicos/nacionais têm mais
vantagens para se adaptarem à nova sociedade e para se inserirem no mercado de
trabalho, em comparação com imigrantes que não se encontram bem integrados
(Vilela, 2002, 2008; Portes e Bach, 1985b e c; Zhou, 1998).
Portes ressalta que, quanto maior a densidade e a multiplicidade das redes
sociais, maior é a conformidade da conduta dos indivíduos com os padrões de
conduta econômica estabelecidos pelo grupo. Por isso, comunidades empresariais
étnicas tendem a se especializar em poucos nichos de atividade econômica e
permanecer neles por várias gerações (Portes, 1995). Essas ideias e o argumento
de Bonacich (1973) da função do middleman em empregar grupos de conterrâneos
nas grandes firmas, em uma economia étnica, descartam a noção da teoria do
mercado dual de que os imigrantes estão restritos à inserção em ocupações
precárias no mercado de trabalho (Wilson e Portes, 1980).
As redes formadas pelos imigrantes são frutos de um compartilhamento de certas
características e ideologias, tais como: laços de sangue, origem, crença
étnica, membros de uma organização comum e, até mesmo, o nível de capital
humano. Dessa forma, podemos inferir que as redes sociais estão entre os mais
importantes tipos de estruturas nas quais transações econômicas e sociais estão
inseridas. Portanto, é um instrumento essencial para a ascensão socioeconômica
dos imigrantes na sociedade hospedeira.
Baseando-me nessas considerações, formulo as seguintes hipóteses: a) sírios e
libaneses estabelecem um processo padrão de inserção ocupacional na sociedade
mineira produzido pelas redes sociais, mecanismo de ajuda mútua entre
imigrantes; b) esses imigrantes alcançam prestígio econômico e social no
destino, a partir dos recursos despendidos pelas redes sociais, isto é, via
capital social.
Sírios e libaneses no mercado de trabalho
Logo que chegaram ao Brasil, sírios e libaneses pioneiros, vindos a partir de
1870, tinham poucas opções de trabalho. Em primeiro lugar, depararam-se com um
sistema produtivo baseado em grandes lavouras, que lhes vedava o acesso à
terra. Esse é um sistema totalmente diferente daquele ao qual estavam
habituados, em que predominavam pequenos terrenos, trabalhados e cultivados por
toda a família. Em segundo, como a maioria imigrou sem recursos financeiros e
sem subsídios do governo, era muito difícil, num curto espaço de tempo,
tornarem-se proprietários rurais. E, por último, dificilmente eles se
converteram em colonos nas grandes fazendas, pois os imigrantes europeus eram
os "preferidos",9 tendo inclusive emprego garantido como camponeses. Já com os
sírios e os libaneses aconteceu de forma diferente: quando aventuravam-se como
colonos, pouco tempo depois, fugiam para as cidades mais próximas, uma vez que
não havia perspectivas de melhoria de vida na lavoura a curto prazo. Os relatos
daqueles que experimentaram a vida de colonos contribuíram para dissuadir
outros a trabalharem na agricultura (Knowlton, 1960). Não tendo muitas opções e
desejando voltar para a terra natal o mais breve possível, os primeiros sírios
e libaneses tornaram-se mercadores ambulantes (mascates), ocupando o papel de
um dos agentes do processo produtivo: o de distribuidor de mercadorias (El
Kadi, 1997).
Eles argumentam que o comércio "está em suas veias, em seus sangues". O fato de
se inserirem no ramo do comércio tem o efeito do contexto do destino, mas
também o da origem, já que a história do Oriente Médio é marcada por comércio
intenso e muita negociação.
Uma vez que os imigrantes sírios e libaneses eram, em sua maioria, homens,
solteiros, com a determinação de alcançarem riqueza e retornarem à terra natal,
não hesitavam em optar por mascatear, isto é, uma função de grande desgaste
físico e que mantinha o indivíduo distante por longo tempo da família. Tratava-
se de uma atividade que podia mantê-los na condição de autônomos, poupando-os
de se tornarem empregados contratados, como colonos ou operários. Isto
facilitaria o posterior retorno ao país de origem, pois, sem contratos, não
tinham acordos a cumprir (Truzzi, 1997; Bonacich, 1973).
O ofício de mascate implica riscos, mas apresenta vantagens também. Trata-se de
um tipo de trabalho que dispensa qualquer habilidade técnica10 ou grande
quantidade de recursos financeiros. Não exige mais que o conhecimento
rudimentar da língua portuguesa, o que vai sendo facilmente aperfeiçoado com
este tipo de trabalho. Dessa forma, o desemprego não significava para eles uma
ameaça como ocorria entre colonos e operários (Truzzi, 1997). Além disso, na
visão deles, mascatear permitia que o trabalhador, ainda que com muito
sacrifício, atingisse mais rapidamente a prosperidade.
Logo que obtinham recursos suficientes, deixavam de viajar à pé e compravam uma
"tropa de burros". Segundo os entrevistados, com mais dinheiro no "caixa", eles
acabavam fixando-se em vilarejos, onde havia uma maior freguesia, e montavam
uma pequena loja. A obtenção e o estabelecimento de lojas próprias era a meta
dos mascates. Essas lojas vendiam produtos de bazar, secos e molhados; elas
tinham "de tudo: tecidos, ferragens, miscelâneas; matava porco e vendia o
toucinho fresco no balcão" (Carvalho e Pequeno, 2000, p. 34). Segundo Pitts Jr.
(2006), esse processo inicia-se em 1890, quando os pioneiros já estão no
mercado há cerca de vinte anos.
As lojas tornaram-se verdadeiros centros comerciais, e, como tais, estímulos
para a renovação do fluxo migratório. Assim, o proprietário, consciente de seu
crescimento, mandava dinheiro para que seus parentes e amigos viessem trabalhar
com ele. Ao chegar, começavam a vender nos arredores as mercadorias do
patrício, do parente, do amigo, ou do conterrâneo já estabelecido (Pitts Jr.,
2006, Vilela, 2002).
Uma terceira fase percorrida pelos imigrantes é a transferência das lojas nas
cidades pequenas para os centros urbanos mais desenvolvidos (Deffontaines,
1952), como bem ilustra o caso seguinte:
Rachid Salomão Handere nasceu em Kalluet, Felugah (Líbano), em 15/04/
1901. Chegou ao Brasil em 1929, fixando residência em Aimorés,
município de Nanuque. Não fugindo ao estilo árabe, estabeleceu-se
como comerciante [...].
Em busca de um espaço maior, com o crescimento de sua atividade
empresarial, transferiu-se para Caravelas, próspera cidade do litoral
baiano. Ali, desenvolveu um trabalho mais intenso, se servindo do
porto daquela cidade, como meio de transporte, para a compra e venda
de mercadorias.
O seu Empório Comercial cresceu em pouco espaço de tempo, tornando-se
o mais próspero comerciante daquela região.
Sempre à procura de centros mais desenvolvidos, Rachid Handere deixou
a velha Caravelas, trazendo consigo a sua família, que tanto amava,
vindo residir em Teófilo Otoni, em 1945, crescendo como atacadista,
fundando também a Fábrica de Bebidas Damasco (Costa, 2000, p. 30).
Não demora muito e esses mascates passam a ser lojistas estabelecidos em
cidades maiores, especializando-se, sobretudo, na venda de tecidos e
armarinhos. Eles começam com sociedades entre parentes ou amigos e separam-se
logo que prosperam. Vale destacar que a separação é apenas comercial, mantendo-
se todas as outras relações entre eles.
Sírios e libaneses concentraram-se, principalmente, nas capitais dos estados da
região sudeste do país. Além disso, estabeleciam seus negócios em locais
específicos das cidades. Em São Paulo, na rua 25 de Março; no Rio de Janeiro,
próximo à Praça Tiradentes; e, em Belo Horizonte, na rua dos Caetés. Esses são
locais estratégicos, como notado por Knowlton (1960), porque ligam o centro da
cidade diretamente às estações de trem e/ou rodoviárias, "assegurando constante
passagem de potenciais consumidores" (Pitts Jr., 2006, p. 13).
Segundo os entrevistados, os imigrantes instalavam suas lojas nos grandes
centros urbanos e muitos, logo depois, tornaram-se empresários, com várias
lojas de atacado e de varejo, e alguns poucos, industriais, o que é confirmado
nas entrevistas realizadas. Entre os imigrantes do sexo masculino, há as
seguintes frequências: proprietários de rede de lojas (74%), industriais (14%),
padres (3%), médicos (3%) e aposentados assalariados (6%). Os dados do censo de
1960, como podem ser visto na Tabela_1, corroboram essa visão.

A maior parte dos sírios e dos libaneses encontra-se inserida em ocupações
ligadas à área de comércio, tais como empresários comerciais (39,2%) e
vendedores ambulantes (5,8%). Um número significativo (4,6%) é de empresários
industriais. Entretanto, como bem exposto por Pitts Jr. (2006), outros tipos de
negócios não eram incomuns entre esses imigrantes. Para o autor, "Um informante
relatou que seu avô residente em Oliveira, Minas Gerais, nos anos 1930,
trabalhou com diversos empreendimentos no ramo da indústria de transporte, tais
como, linhas de ônibus, postos de gasolinas e lojas de autopeças" (Pitts Jr.,
2006, p. 14). Outro entrevistado afirma que seu pai e seu tio trabalharam em um
jornal em São Paulo, que funcionou até os anos de 1930, quando o governo
Getúlio Vargas proibiu as publicações em línguas estrangeiras.
Considerando a classificação internacional de status em emprego (ICSE -
International Classification of Status in Employment - 1993), os dados do censo
de 1960 indicam que os sírios e os libaneses alcançam uma posição de alto
prestígio econômico na sociedade brasileira, pois tornaram-se empregadores em
números significativos. Em comparação com os grupos que iniciaram a imigração
na mesma época, eles são os que têm um maior percentual de empregadores entre
os imigrantes, como podemos verificar no Gráfico_1.
Comparados aos outros imigrantes, essa predominância de sírios e libaneses
mantém-se.12 Tal fato pode ser constatado na Figura_1, onde relaciono as
seguintes informações: médias de empreendedores e de idade dos indivíduos para
cada país, agregado por continente.
Entretanto, essas análises ainda não permitem identificar, com segurança, até
que ponto a origem do imigrante é importante para determinar seu status
ocupacional. Especificamente, não possibilitam verificar o quanto os sírios e
os libaneses têm maior propensão para se tornarem empregadores. O Gráfico_1 e a
Figura_1 não respondem se é a origem do imigrante ou se são outras variáveis
que afetam a posição do indivíduo na hierarquia ocupacional, tais como idade,
escolaridade, tempo de residência no destino ou posição no domicílio. Para uma
análise mais precisa, lanço mão de um modelo de regressão logística binária,
comparando esses imigrantes com todos os outros, para verificar se origem tem
efeito sobre a inserção na posição de empregador. Esse modelo é formado pela
variável dependente dicotômica "posição de empregador", onde estar como
empregador é igual a "1" e estar em outra posição é igual a "0". As variáveis
independentes de controle são: idade e escolaridade medidas em anos; tempo de
residência no estado13 (de 0 a 11 ou mais anos); cor (branca ou não branca);
religião (cristã ou não cristã); estado civil (casado ou não casado);
responsabilidade pelo domicílio (sim ou não). As variáveis independentes que
foco minha análise são as binárias: "sírio" e "libanês", comparados com todos
os outros imigrantes.
Os resultados podem ser observados na Tabela_2. Como esperado, as razões de
chances de sírios e libaneses se inserirem na posição de empregador, comparados
aos outros imigrantes internacionais, são positivas e significativas. Vale
destacar que as chances são maiores para os libaneses do que para os sírios. Os
primeiros têm uma chance de 206% maior de se inserirem na posição de empregador
do que os outros imigrantes. Já os sírios têm 136% mais chances de se
concentrarem nessa posição hierárquica do mercado de trabalho. Outro ponto a
ressaltar é que os estimadores das variáveis "sírio" e "libanês" são
significativos ao nível de 1%, demonstrando assim a importância dessas
variáveis no modelo para explicar a posição de empregador.
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As outras variáveis que apresentam um efeito positivo sobre as chances de um
indivíduo se tornar empregador são: ser responsável pelo domicílio (168%), anos
de escolaridade (para cada um ano a mais eleva em 8% as chances), ser casado
(42%), idade (um ano a mais de idade aumenta em 1% as chances) e tempo de
residência no estado (para cada um ano a mais eleva em 5% as chances).
Entretanto, as variáveis "cristão" e "cor branca" apresentam um efeito
negativo. Isso é, ser cristão ou da cor branca reduz em 48% e 25%,
respectivamente, as chances de o indivíduo estar na posição de empregador,
comparado a estar em outras localizações no mercado de trabalho. Embora não
surpreendam, esses resultados levantam questões, apresentando-se, pois, como
uma oportunidade interessante para estudos futuros.
Outra forma de medir o sucesso socioeconômico dos imigrantes é por meio da
análise de seus rendimentos mensais. Usando essa medida, verifico que, mais uma
vez, sírios e libaneses encontram-se em vantagem, quando comparados com os
outros grupos de imigrantes. O Gráfico_2 mostra que os dois grupos possuem os
maiores percentuais de pessoas com os melhores rendimentos.
Ao observar a inserção ocupacional de sírios e libaneses no comércio e um
número significativo em cargos de empregador, perguntei aos entrevistados -
imigrantes e filhos de imigrantes - qual seria o motivo desses imigrantes em
seguir o caminho da atividade comercial. Responderam que, como principal razão,
tal atividade "está no sangue". O depoimento a seguir é ilustrativo da
percepção deles de que a habilidade para o comércio é fruto de uma herança
genética:
Eu acho que ser comerciante, para o libanês, é nato. Dizem que os
maiores mercantilistas do mundo foram os fenícios. Eu não sei, talvez
seja até um pouco de folclore, mas eu acredito que possa ser uma
descendência, porque nós somos descendentes dos fenícios
(Entrevistado, filho de libanês).
No entanto, ao questioná-los sobre a ocupação em seus países de origem antes de
migrarem, não obtive como maioria das respostas o comércio; pelo contrário, foi
rara tal citação. O estudo e a lavoura foram as atividades mais mencionadas
como ocupação antes da migração. Quando questionei a respeito da ocupação do
pai, a lavoura e a criação do bicho-da-seda foram as mais frisadas. A
justificativa de muitos de que a dedicação ao ramo do comércio deve-se a uma
"inclinação natural" é, no mínimo, questionável. Por isso, pressuponho que a
ideia de uma característica natural, hereditária, "sanguínea" faz parte da
visão "etnizada" (do grupo étnico/nacional) da inserção dos membros no Brasil.
Nesse sentido, atribui-se a uma propriedade étnica a escolha de uma atividade
econômica comum (o comércio), quando, na verdade, ela é, em grande parte, fruto
da falta de opções de trabalho para os pioneiros que abriram as portas para os
imigrantes seguintes (Vilela, 2002).
Na verdade, a escolha da atividade comercial pode ser explicada, em parte, pelo
contexto socioeconômico do Brasil na época da chegada dos pioneiros. Segundo as
teorias estruturalistas, o homem é o resultado do meio cultural em que foi ou
está sendo socializado. "Ele é um herdeiro de um longo processo acumulativo,
que reflete o conhecimento e a experiência adquiridos pelas numerosas gerações
que o antecederam" (Laraia, 1989, p. 46). Portanto, os sírios e os libaneses
não são comerciantes por "questões genéticas", mas sociais, pois as atividades
de mascate e de comércio foram socializadas entre os imigrantes das coortes
seguintes, transformando-se em uma estratégia grupal.
Nessa pesquisa, identifico que os primeiros sírios e libaneses que se fixaram
no Brasil contribuíram para a criação de espaços (igrejas, clubes, comércios e
residências), onde parentes, conterrâneos e amigos, provenientes da mesma
aldeia ou da mesma região, buscavam solidariedade e cooperação. Os imigrantes
pioneiros formaram redes sociais, organismos de ajuda aos recém-chegados
(Vilela, 2002).
Meus irmãos já tinham uma condição boa aqui em Minas. Então, eu vim e
eles encaixaram-me na colônia. Eu segui o exemplo das outras
famílias. [...] Quando meu filho formou-se, eu disse a ele: você não
deve só a mim; deve também ao berço onde nasci que me ensinou para
que eu o pudesse educar; deve à colônia que nos recebeu de braços
abertos e nos encaminhou; deve a seus tios e primos (Entrevistado,
libanês, comerciante).
Como vimos, as redes sociais são mecanismos facilitadores do processo
migratório. Elas geram confiança, estabelecem esperanças, criam e reforçam
normas. Os pioneiros, naturalmente, serviram como "cabeças" para os imigrantes
ulteriores, influenciando a sua adaptação e a sua integração no novo contexto.
Sobre se eles, os entrevistados, receberam ajuda, ao instalarem-se no "novo
mundo", todos os sírios responderam afirmativamente. Entre os tipos de ajuda as
mais importantes são: trabalho, moradia e ajuda financeira. Entre os libaneses,
todos os homens afirmaram auferir auxílio das redes sociais. Nelas, há pessoas
influentes, indivíduos que indicam trabalho e oferecem moradia. Já as mulheres
disseram não receber qualquer tipo de ajuda. No entanto, em sua maioria, elas
são cônjuges de "patrícios" ou de seus descendentes que já se encontravam bem
instalados em Minas Gerais. Sendo assim, talvez elas não tenham recebido ajuda
de forma direta, mas por meio de seus respectivos maridos.
Pode-se afirmar, assim, que as redes sociais influenciam no "ajustamento" dos
imigrantes no mercado de trabalho. O pioneiro é o "ego da colônia", isto é, o
centro de um conjunto de pessoas que, por sua vez, mantêm várias outras
relações, produzindo uma rede social ampliada. Os imigrantes envolvem-se em
relações interconectadas umas às outras, formando uma rede social que os levam
a criar teias familiares, econômicas e políticas. As redes sociais transformam-
se em fatores que asseguram uma inserção econômica comum na sociedade
hospedeira, devido à conformidade dos indivíduos com os padrões de conduta
econômica estabelecidos pelos membros do grupo. Dessa forma, as comunidades
empresariais sírias e libanesas especializaram-se em poucos nichos de atividade
econômica, principalmente o comércio, e permaneceram neles por várias gerações.
Reconhecimento social: doutores e políticos
Os sírios e os libaneses estão em número reduzidos quando comparado com outros
contingentes imigratórios, a exemplo de italianos, portugueses e espanhóis,
como pode ser observado na Tabela_3. Apesar disso, são dois grupos que alcançam
importância econômica nos quadros da sociedade brasileira, em todos os tipos de
cidade e em todo o país.
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Além de conquistar o sucesso econômico, sírios e libaneses almejavam status
social, fazer parte do conjunto dos nomes das grandes famílias brasileiras.
Todavia, para isso, em suas visões, precisavam ter filhos "doutores". Tratava-
se do instrumento-chave para a ascensão social da família. Eles desejavam que
seus filhos estudassem e se tornassem "autoridades", como observado na fala de
muitos entrevistados. Essa valorização da educação para os filhos também é
percebida por Pitts Jr (2006). Segundo o autor, a mudança de suas lojas para os
grandes centros urbanos está diretamente relacionada com esta ideia.
Oswaldo Truzzi (1992), em seu estudo De mascates a doutores: sírios e libaneses
em São Paulo, apresenta a ambição desses dois grupos de transformarem seus
filhos em "doutores" e/ou em "autoridades". O autor afirma que, não raro, os
filhos de imigrantes deveriam ingressar preferencialmente em cursos que
proporcionassem o trabalho autônomo - profissionais liberais -, para que não
precisassem ser empregados após formados.15 Confirmando essa afirmativa, os
filhos dos entrevistados concentram-se, em maior número, nas profissões
liberais e de status como medicina (21%), engenharia (18%) e direito (13%) -
ver Tabela_4.
As famílias libanesas e sírias preocupavam-se bastante com a formação
universitária dos filhos, pois almejavam mobilidade social, prestígio e
privilégio sociais que um título de "doutor" proporcionaria. Portanto, a
preocupação com os estudos deu-se principalmente pelo desejo da consagração
total do sucesso das famílias e sua inclusão na elite brasileira.
Dessa forma, a inserção desses imigrantes no contexto brasileiro,
especificamente em Minas Gerais, não se deu apenas no comércio e na indústria,
mas também na política, especialmente por intermédio de seus descendentes
"doutores".16 Sua dispersão por todo o território explica, em parte, o grande
número de representantes dessas comunidades no universo político nas diversas
regiões do país. Por estarem no comércio e estabelecerem muitos contatos,
sírios e libaneses incentivavam seus descendentes a se candidatarem a cargos
eletivos (Pitts Jr., 2006).
Além dos votos obtidos em seus próprios grupos étnicos, a atividade comercial
proporcionava uma interação com grupos diversificados, o que ajudava a
viabilizar a trajetória política. Assim, membros da colônia começaram a
conquistar cargos estaduais e federais tanto no poder Legislativo como no
Executivo. Entre 1946 e 1950, cinco deputados federais são eleitos; em 1954,
quatorze; em 1958, vinte; em 1962, o número cresce para trinta e três. Esse
número cai durante o governo militar e volta a crescer nos anos de 1970 e com o
restabelecimento da democracia em fins da década de 1980 (Pitts Jr., 2006).
Segundo o autor, 10% das cadeiras do congresso federal pertenciam a
descendentes de sírios e libaneses em 1954.
Minas Gerais não foge à regra. O Quadro_3 mostra que sírios e libaneses ocupam
os mais diversos cargos políticos espalhados pelo estado.
[/img/revistas/rbcsoc/v26n76/09q03.jpg]
Em suma, o processo de inserção ocupacional de sírios e libaneses no Brasil
manteve uma trajetória semelhante entre os imigrantes. Ela inicia-se com a
atividade de mascate, passando para o pequeno comércio e depois estabelecendo
grandes redes comerciais e, em alguns casos, as indústrias. Esses são os
principais ramos de atividades a que tais imigrantes se dedicam, que lhes
possibilitam sucesso econômico. Entretanto, isso não é suficiente para obterem
posições de honrarias e privilégios sociais na sociedade. Para tanto, eles
encontram outro caminho: a formação profissional dos filhos e sua inserção na
arena política. Essa trajetória torna-se "possível" também em função da forte
coesão dos grupos, das colônias, ou do que chamo de "redes sociais densas",
formadas pelos pioneiros e expandidas para os outros imigrantes. No entanto,
surgem duas questões: como eles sustentam essa coesão? Quais seriam os
elementos mantenedores das redes sociais?
A língua de origem
Em geral, os sírios e os libaneses que aportaram no Brasil não dominavam a
língua portuguesa. Não se trata evidentemente de uma característica exclusiva
desses grupos, pois a língua era também uma dificuldade para alemães,
japoneses, chineses e italianos.
Segundo os entrevistados, após o domínio político e econômico francês na Síria
e no Líbano, em 1920, alguns imigrantes, depois dessa época, chegaram com um
pequeno conhecimento do francês, o que os ajudou, ainda que pouco, no
aprendizado do novo idioma, o português. Contudo, a grande maioria aprendeu a
língua no cotidiano do mundo do trabalho e do comércio:
Quando chegamos, abrimos uma loja. Eu até hoje lembro: compramos nem
sei quantas dúzias de vassouras. Chegou uma freguesa e falou com o
meu marido: tem vassoura?
- Não tem não.
Ela foi lá na frente e comprou, voltou e falou:
- Oi! Oi! Isso é o que chamamos de vassoura.
Meu marido disse:
- Ah! Eu tenho um tanto.
Aí, tinha um Senhor, escurinho, que estava construindo uma casa no
nosso lado; ele entra e fala:
- José tem vassoura. José tem massa de tomate...
É assim que a gente foi aprendendo... Eu aprendi a falar no balcão
(Entrevistada, síria, aposentada).
As dificuldades na assimilação do idioma local revelam identidades
contrastantes e alimentam uma visão estereotipada e estigmatizante dos
brasileiros em relação a eles, denominando-os "turcos", "sovinas",
"mercenários". Porém, atualmente, a dificuldade toma forma de anedota. Por
exemplo: muitos caem no riso ao ouvir as frases: "breço bom a toda brova".
Segundo Wadih Safady,
[...] a dificuldade em distinguir masculino e feminino e em
pronunciar os nomes (os fonemas p e v não existem no alfabeto árabe e
o g é pronunciado com c: borta por porta, balavra por palavra,
fitória por vitória etc.) produziu complexo de inferioridade, fazendo
com que muitos até mesmo decidissem traduzir seus nomes... O próprio
Safady admitiu que as várias letras do alfabeto árabe, inexistentes
na língua portuguesa, ao serem pronunciadas emitem uma fonética
esquisita e grotesca para os que a ouvem, causa de riso e deboche.
Arbatache (catorze, em árabe) veio a ser há uns trinta anos atrás o
motivo duma peça teatral em São Paulo, debochando de nossa pronúncia
(Truzzi, 1997, p. 75).
Tal dificuldade pode ser atribuída à grande diferença entre os idiomas árabe e
português e, também, ao pequeno grau de instrução dos imigrantes que fixaram
residências no país no final do século XIX e nas primeiras décadas do século
XX. Grande parte desses imigrantes, especialmente os pioneiros, era analfabeta
ou semianalfabeta.
Porém, se o não aprendizado da língua portuguesa se torna um obstáculo para a
assimilação, ele não representa impedimento para a adaptação necessária ao
avanço dos negócios e à integração cultural. Além disso, tal dificuldade acabou
por estimular a coesão social desses grupos, na medida em que passavam a viver
em âmbitos etnicamente cerrados - assegurados pelos espaços privados como
igrejas, clubes, residências, lojas - apegados cada vez mais às culturas de
origem. A existência de um espaço público, onde se fala português, e de um
espaço privado, onde o árabe predomina, revela as alteridades e as fronteiras
estabelecidas pelos grupos étnicos na sociedade hospedeira. A constatação das
diferenças determina o significado organizacional das identidades elaboradas
por libaneses e sírios, delimita as fronteiras, estabelece os estereótipos e
assegura a ordem social (Figoli e Vilela, 2004). Nesse contexto, constituem-se
as redes sociais e os enclaves econômicos que proporcionam vantagens para seus
membros.
Vale destacar que a manutenção da língua árabe foi bem mais forte nas grandes
cidades, onde os imigrantes construíram igrejas e mesquitas em passo acelerado,
clubes e organizações beneficentes que asseguravam o espaço "privado" de
sustentação da língua e dos costumes de origem (Pitts Jr., 2006). Embora os
imigrantes não enfatizassem o ensino do idioma aos filhos, nas conversas com os
amigos, nos clubes e nos rituais da igreja, o árabe era o meio essencial para a
interação entre eles. A força disso pode ser notada até hoje; já que as igrejas
- melquitas, maronitas, ortodoxas - e as mesquitas, sunitas e xiitas,17 por
exemplo, ainda celebram suas orações em árabe (Idem).
Outro fator que ajudou a manutenção da língua natal foi a constituição da
imprensa árabe, com jornais e revistas que circularam até os anos de 1930 na
língua materna. De acordo com Pitts Jr. (2006), entre 1890 e 1940, as colônias
mantinham aproximadamente 394 revistas e jornais,18 muitos dos quais
permaneceram pouco tempo em funcionamento.
Dessa forma, o uso da língua original falada (em clubes, igrejas e mesquitas,
principalmente) e escrita (em jornais e revistas) passou a ser um mecanismo de
manutenção e perpetuação das identidades contrastantes de sírios e libaneses
perante os brasileiros. Esse é um instrumento de sustentação dessas identidades
e, por conseguinte, da coesão do grupo e das redes sociais. Mas não foi o único
meio usado por esses imigrantes para manter suas culturas e sustentar suas
identidades, como veremos a seguir.
O casamento endogâmico
Na tradicional cultura dos imigrantes sírios e libaneses daquela época, o
casamento visava aumentar a coesão familiar e, em um sentido mais amplo, a
coesão do grupo. O poder e a influência da unidade familiar são sustentados por
uma prática institucional: "o casamento arranjado" 19 (Nunes, 2000), em que a
escolha dos cônjuges não resulta de escolhas individuais, mas, sim, de
interesses familiares.
Na visão tradicional de sírios e libaneses, e mais fortemente na ótica
islâmica, o amor é o fundamento do casamento, mas ele pode, diferentemente dos
costumes ocidentais, aparecer após o matrimônio. De acordo com um entrevistado
"vocês amam para casar, nós casamos para amar" (Entrevistado, libanês,
comerciante).
Assim, para eles, o amor existe e deve existir entre o homem e a mulher, mas
não pode ser incontrolável, imprevisível, arbitrário, desmoralizante, mais
importante do que os deveres filiais e a lealdade.20 Autosacrifício e abnegação
submetem o amor aos interesses dos grupos representados - família ou entidades
mais amplas (Truzzi, 2008; Lobato, 1994).
Essa visão baseia-se no contraponto entre a ideia do amor intrinsecamente
relacionado com valores individualistas exaltados pelas sociedades ocidentais e
de amor ligado às sociedades holistas, em que o social está sempre acima dos
desejos individuais (Lobato, 1994). No âmbito das sociedades individualistas,
em que os indivíduos constituem a realidade primeira e a coletividade apenas um
meio de satisfazer suas necessidades e demandas, o amor deve ser domesticado,
ou seja, pensado como proveniente do íntimo do indivíduo, de forma espontânea,
incontrolável e selvagem. Portanto, deve ser transformado em amor dócil e tido
como uma experiência emocional desejável como fonte de autorrealização e
engrandecimento pessoal, "não levando em conta as lealdades político-
familiares" (Idem, p. 4). Para as sociedades holistas, como é o caso das
sociedades árabes, o amor deve ser disciplinado, ou seja, é necessário ser
contido para que a vida social seja possível e as responsabilidades a elas
concernentes sejam cumpridas.
Tendo consciência dessa diferença na motivação cultural para se casar, é
possível compreender por que muitos sírios e libaneses (60% dos homens
entrevistados) retornaram à terra natal para se casarem. Muitos, obedecendo a
um pedido dos pais; alguns, cedendo aos conselhos de amigos, conterrâneos e
parentes, ou ainda voltavam por vontade própria. Segundo Pitts Jr. (2006),
vários enviaram cartas a familiares, pedindo uma esposa para eles.
As famílias desses grupos de imigrantes (sejam cristãs, sejam muçulmanas)
exerciam um importante papel de aprovação-reprovação na escolha dos cônjuges.
Se o rapaz ou a moça insistisse em querer alguém "de fora", os pais, em geral,
consentiam relutantemente, pois desejavam que o casamento fosse realizado
dentro da colônia e com certeza exerciam pressão nesse sentido. Entre os
muçulmanos, a pressão familiar era ainda maior. Ainda hoje, alguns pais mandam
seus filhos de volta aos locais de origem, no intuito de buscarem jovens da
mesma religião, costumes e tradições. Isso é especialmente frequente no caso
das filhas.
Como observa Truzzi (1997), apesar da desproporção entre os sexos dos
imigrantes ser muito expressiva, em comparação a outras etnias, cerca da metade
dos sírios e dos libaneses casaram-se dentro do próprio grupo. Em 1927, um
relatório sobre esses grupos corrobora tal argumento, ao mostrar que eles
realizaram casamento dentro de suas colônias em 50,5% das vezes, indicando um
"índice de fusibilidade" mais baixo do que o de italianos, espanhóis e
portugueses (Pitts Jr., 2006). Em um estudo sobre dados de batismo da igreja
ortodoxa em São Paulo, Pitts Jr. identifica que, em 1959, 75,9% das crianças
tinham ambos os pais com sobrenomes árabes. Esses dados reforçam o argumento de
que "por muitos anos, membros da colônia árabe exibem uma forte preferência
pela endogamia" (Idem, p. 47).
Os dados do censo demográfico de 1960 confirmam esses achados. É grande o
número de casamentos endogâmicos entre os sírios e os libaneses, conforme se
observa no Gráfico_3. Embora com menos intensidade que os japoneses, muito
endogâmicos, os sírios e os libaneses misturam-se bem menos do que outros
grupos de imigrantes, tais como portugueses, espanhóis, italianos e alemães.
Enquanto mais da metade dos sírios e dos libaneses casam-se no interior do
mesmo grupo, o índice entre alemães e italianos atinge pouco mais de 30%.
Chamo atenção para o fato de que as mulheres dessas origens tinham uma
propensão maior do que os homens de se casarem dentro dos próprios grupos de
origem21(Truzzi, 1992). A partir dos dados do censo, 82% de sírias e libaneses
casaram-se dentro dos seus próprios grupos étnicos/nacionais, contra 39% de
seus conterrâneos homens. Além disso, as divergências na propensão ao casamento
endogâmico não se refere apenas ao fator gênero, mas também ao religioso. Em
outras palavras, membros de determinadas religiões, tais como os muçulmanos e
os cristãos ortodoxos, têm maiores chances de se casarem dentro dos próprios
grupos do que membros de religiões como maronitas e melquitas.22
O casamento endogâmico e "arranjado", no caso de sírios e libaneses, contribuiu
fortemente para a coesão e a reprodução grupal. A família, como orientadora, é
a principal articuladora dessa reprodução, por meio de processos de
socialização dos jovens e do estímulo, algumas vezes até obrigação, ao
casamento dentro do próprio grupo.
A endogamia étnica é vista, pelos agentes, como valor fundamental de
preservação dos valores étnicos da comunidade. A justificativa para a prática
da endogamia aparece em um conjunto de estereótipos e preconceitos que, com
maior ou menor intensidade, desqualifica aqueles que não pertencem à colônia.
De fato, para sírios e libaneses, homens e mulheres brasileiros não eram
considerados "bons partidos". De acordo com Knowlton (1960), os libaneses e os
sírios não desejavam o casamento com brasileiros, italianos ou outras
nacionalidades, pois os consideravam imorais, com costumes diferentes, maus
cônjuges, "farristas e mulherengos". Além disso, a endogamia era reforçada pela
atitude dos nativos, pois muitas famílias brasileiras também não aceitavam o
casamento com "turcos".
O meu tio avô não queria que meu pai se casasse com minha mãe. Ele
dizia: - Você não vai casar com este turco,23 não. Você não o
conhece. Naquela época, estrangeiros não eram bem vindos
(Entrevistada, filha de sírio).
Esse fenômeno supõe que, quando sírios e libaneses ingressaram na sociedade
brasileira, um sistema de relações assimétricas foi constituído. Esse sistema
resultou do contato intenso entre os grupos que se enxergavam como
essencialmente diferentes e, em virtude de uma ótica étnica, criavam espaços de
inclusão e de exclusão. No momento em que sírios e libaneses passaram da
expectativa de uma imigração de curto prazo, para a de uma fixação no Brasil
por um período mais longo, eles começaram a produzir mecanismos de elaboração e
de alimentação das identidades e, consequentemente, instrumentos mantenedores
da coesão social. Esta, por sua vez, foi sustentada principalmente pelo
casamento endogâmico, mantendo as redes sociais que definiram a inserção e a
ascensão social desses imigrantes.
Considerações finais
A inserção ocupacional de sírios e libaneses ocorreu em massa no ramo do
comércio. Isso pode ser explicado com base nas redes sociais estabelecidas
pelos pioneiros, criando espaços onde o migrante pôde se beneficiar da presença
de iguais que já tinham se incorporado, de alguma forma, à sociedade anfitriã,
e propiciando um menor impacto durante seu período de inserção, além de
informações indispensáveis para a entrada no mercado de trabalho.
Cabe lembrar que, em grande parte, a inserção inicial no comércio foi motivada
pela falta de opção de trabalho. Não sendo os imigrantes "preferidos" para o
trabalho na lavoura e não tendo recursos para serem proprietários, sírios e
libaneses voltaram-se para a área comercial. Primeiro como vendedores
ambulantes; aos poucos, ascenderam da ocupação de mascates para pequenos
comerciantes, até se tornarem grandes proprietários de redes de lojas. Esse
fator, juntamente com as redes sociais, pode explicar por que as comunidades
dos sírios e dos libaneses se especializaram em poucos nichos de atividade
econômica, permanecendo ali por várias gerações.
A despeito do número de imigrantes desses grupos não ser elevado, vis-à-vis
outros grupos de imigrantes, é evidente seu destaque nas atividades comerciais
e industriais. Os imigrantes alcançaram um status econômico elevado, mas
investiram também na educação de seus filhos, de forma que pudessem se tornar
"doutores", autoridades e, em muitos casos, políticos. Dessa forma, a ascensão
tornou-se completa.
As redes sociais foram imprescindíveis nesse sentido. Para mantê-las, sírios e
libaneses utilizaram-se do casamento endogâmico e da manutenção do uso da
língua materna nos espaços privados, como instrumentos privilegiados para
assegurar e intensificar a coesão do grupo étnico.
Notas
1 Embora ciente das grandes diferenças étnicas e religiosas entre esses dois
povos (ver Figoli e Vilela, 2004; Vilela, 2002), trato-os aqui como fazendo
parte de um mesmo grupo, haja vista a semelhança no seu processo de inserção na
sociedade brasileira (cf. Pitts Jr., 2006; Vilela, 2002; Truzzi, 1997, 1992).
2 Aqueles que fixaram residência no Brasil entre 1920 e 1960. Compreende a
maioria dos entrevistados dessa pesquisa e dos informantes do censo de 1960.
3 Um exemplo típico é aquele da migração "em cadeia", que se refere ao
deslocamento de indivíduos motivado por uma série de informações e arranjos
fornecidos por parentes, amigos ou conterrâneos já instalados no local de
destino (Truzzi, 2008, p. 200)
4 As entrevistas foram feitas com pessoas residentes nas cidades de Belo
Horizonte, Uberlândia, Juiz de Fora e Teófilo Otoni, representando as
principais regiões mineiras, quais sejam: Região Metropolitana, Triângulo
Mineiro, Zona da Mata e Vale do Mucuri, respectivamente. A pesquisa não partiu
de uma amostra estatisticamente calculada, mas da seleção de sujeitos
expressivos para os meus propósitos dentro de uma determinada população. Essa
amostra intencional constitui-se de 26 libaneses: vinte homens e seis mulheres;
dezessete sírios: oito homens, nove mulheres; onze descendentes desses
imigrantes e quatro brasileiros. Foram feitas também oito histórias de vida,
sendo quatro libanesas e quatro sírias.
5 Essa e outras características dos imigrantes podem ser vistas no Apêndice_1.
6 Há outras formas de divisões das correntes migratórias de sírios e libaneses.
As diferenças encontram-se no número de recortes, se 3 ou 4 correntes, não
acarretando grandes problemas para as análises. Para um exemplo, ver Gattaz
(2001).
7 Para Lin (2006, p. 60), ao contrário de Granovetter (1985), é a força dos
laços fortes que é importante em um mercado de trabalho (ver Portes, 2000, p.
144).
8 Guimarães (2008) verificou que, ao procurarem trabalho, as pessoas buscam
mais frequentemente os mecanismos institucionais do mercado (como, por exemplo,
agência de emprego, jornal, Internet). No entanto, são as redes pessoais e,
principalmente, os laços fortes os mecanismos mais efetivos para a obtenção de
um emprego, embora a qualidade do mesmo não seja o desejável. Esse fato é
altamente significante para os mais jovens, uma vez que a família e os amigos
próximos são os principais meios de obterem trabalho. Já para os adultos, que
têm experiência no mercado de trabalho, são os grupos de antigos colegas de
trabalho (os laços fracos) que os ajudam a sair do desemprego. Contudo, esses
resultados referem-se a um mercado diferente do encontrado pelos sírios e
libaneses "antigos", os quais, aliás, não encontram as agências de empregos
institucionais, públicas ou privadas, para orientá-los.
9 Preferidos porque a elite brasileira os considerava elementos de melhoria na
composição genética do povo brasileiro que era composta, na maioria, de negros
e mulatos. Seria uma forma de promover o "branqueamento" da população mestiça.
Além disso, os europeus estavam dispostos a trabalhar na lavoura,
diferentemente dos sírios e libaneses.
10 Como, por exemplo, o agricultor, com a técnica de plantio e de colheita.
11 Compreende apenas indivíduos do sexo masculino, com mais de cinco anos de
residência no país. A seleção dessa subamostra deve-se à um percentual alto
(95%) de dados de ocupação do tipo "inválido" para as mulheres e pela
literatura sobre mercado de trabalho argumentar sobre um tempo limite para
adaptação e inserção dos imigrantes no mercado de trabalho. A amostra inicial é
de 41.700 indivíduos (com peso) e a subamostra é de 15.760 (com peso).
12 Utilizo uma amostra de no mínimo cem pessoas por origem.
13 Essa variável foi usada pelo fato de a informação sobre o ano que fixou
residência no país estar inválida, não me permitindo, assim, calcular o tempo
de residência no país.
14 Considero apenas os homens, entre 18 e 55 anos de idade. Isso porque o
percentual de mulheres fora do mercado de trabalho é altíssimo (mais de 90%) e
porque essas idades são das pessoas que potencialmente fazem parte da população
economicamente ativa (PEA), uma vez que, até os 18 anos, os jovens devem estar
nas escolas e, acima de 55, os adultos já podem estar aposentados, como era
previsto em lei em 1960. Para maior informação sobre a questão da
aposentadoria, ver Matias (2004). Vale dizer que há variáveis importantes que
não se encontram no modelo apresentado, tais como educação e ocupação dos pais.
Isso ocorre devido à inexistência de tais dados no banco. Contudo esse fato não
invalida as análises apresentadas, como exposto por Vilela (2008) e Valle Silva
(1980).
15 Pitts Jr. (2006) chama a atenção para o fato de que, até os anos de 1930, os
estudantes da colônia que têm cursos superiores são das áreas de comércio,
administração e contábeis, as quais podem ajudar no progresso dos negócios da
família. Após essa data, no entanto, os estudantes direcionam-se para os campos
da medicina, da advocacia e da engenharia. Outro ponto interessante é que,
diferentemente de outros imigrantes, sírios e libaneses enviavam, naquela
época, suas filhas para a universidade, como uma maneira de bem educá-las para
se tornarem boas esposas e mães.
16 Segundo Pitts Jr. (2006), esse fato inicia-se em fins da década de 1940.
17 Para uma melhor compreensão sobre essas instituições religiosas, verificar
Pitts Jr. (2006).
18 Esses jornais e revistas, em um primeiro momento, focam em questões
políticas, sociais e econômicas do Oriente Médio, mas depois passam a dar
atenção aos problemas dentro das colônias no Brasil e, principalmente, para as
questões sociais e de classe (Vilela, 2002; Pitts Jr. 2006).
19 Chamo atenção para o fato de que, naquela época, sendo o Brasil uma
sociedade ainda majoritariamente rural e tradicional, esse tipo de casamento
era comum. Até as primeiras décadas do século XX, a escolha do cônjuge era
negociada pelos pais. Como exposto por Antonio Candido: "Um barão do Império,
fazendeiro de Minas Gerais, disse que bons cães de caça vivem do acasalamento
bem selecionado por parte do dono, porque só ele sabia quais eram os bons
Pedigrees; deixados a si mesmos, logo se deterioram e perdem qualidades
especiais. O mesmo se dá para os seres humanos, que devem ser acasalados pelos
velhos e mais experientes, porque somente uma boa raça cruzada com uma boa raça
produz uma boa raça" (Candido, 1982, apud Nunes, 2000, p. 132). Essa é uma
característica forte nas sociedades tradicionais e raras nas sociedades
modernas. Entretanto, parece-me que esse sentimento é ainda mais forte entre os
sírios e libaneses residentes no Brasil antes de 1960.
20 Ver a história de Layla e Majnun (Lobato, 1994).
21 Segundo Truzzi (1992), de 1940 a 1946, 27% dos homens sírios e libaneses são
casados dentro de suas colônias, contra um percentual de 65% para as mulheres,
o que indica maior pressão para a endogamia entre o grupo das mulheres.
22 Infelizmente, os dados do censo de 1960, desagregados por religião, não
permitem fazer distinções entre cristãos, maronitas, melquitas e ortodoxos.
23 Hoje esse não é o termo dominante entre os brasileiros para designar sírios
e libaneses. Além desse, há outras expressões dominantes nesse sentido: árabes,
sírio-libaneses (o mais comum hoje), judeus (no Pará), galegos (no Ceará),
carcamanos (no Ceará, Maranhão e Pará). Ver Pitts Jr. (2006).