Disciplina e coalizões partidárias na Assembléia Legislativa de Santa Catarina
(1999-2006)
Introdução
A literatura brasileira já conta com uma produção significativa sobre temas da
disciplina partidária e das coalizões no Legislativo, no âmbito da Câmara
Federal. No que concerne aos estados, no entanto, a produção é bem mais
modesta. Este trabalho visa contribuir para o debate em torno desses temas no
âmbito subnacional, analisando o grau de disciplina partidária e os padrões
ideológicos das coalizões realizadas em plenário, nas votações nominais
ocorridas na Assembléia Legislativa de Santa Catarina entre 1999 e 2006. Quanto
à disciplina, as questões centrais respondidas pela análise são: a) As taxas de
disciplina (ou coesão) e de previsibilidade das votações são de magnitudes
semelhantes às encontradas nos estudos sobre a Câmara dos Deputados?; b) Há
variações significativas entre os diferentes partidos (do governo e da
oposição; da esquerda, do centro e da direita)?; c) Qual o peso das abstenções
e ausências dos deputados sobre a previsibilidade dos resultados das votações?
No que se refere às coalizões, o estudo verifica se elas seguem os mesmos
padrões ideológicos nas duas legislaturas analisadas, ou se o grau de
consistência ideológica das coalizões depende do posicionamento dos partidos em
face da polaridade governo-oposição, já que os alinhamentos entre a dimensão
ideológica e a dimensão que divide governo e oposição são diferentes nas duas
legislaturas analisadas.
O trabalho inicia resenhando o debate sobre o processo legislativo em âmbito
nacional e em Santa Catarina, passando a apresentar os dados relativos à
disciplina (ou coesão) partidária na Assembléia Legislativa do Estado de Santa
Catarina - Alesc. Nas seções seguintes são apresentados um breve estudo sobre a
previsibilidade das votações no plenário e uma análise dos padrões de coalizões
realizadas em plenário nas duas legislaturas. Ao final são apresentadas as
principais conclusões.
Revisão da literatura
Até meados da década de 1990 o diagnóstico predominante na literatura
brasileira afirmava que devido a conformações institucionais - especialmente a
forma de governo presidencialista, a legislação partidária e o sistema
eleitoral proporcional com lista aberta, nas eleições legislativas - a atuação
do parlamentar nos legislativos seria essencialmente individual, não
disciplinada partidariamente, trazendo problemas de governabilidade (no sentido
estrito do Executivo conseguir apoio parlamentar para implementar seu programa
de governo). A partir de então, estudos como de Figueiredo e Limongi (1995,
1999), em especial, passam a se contrapor às conclusões deste diagnóstico.
Segundo os autores, embora haja realmente incentivos para uma ação individual,
advindos da legislação eleitoral e partidária, há, por outro lado, mecanismos
institucionais, tanto na Constituição como nos Regimentos Internos das casas
legislativas, que atuam no sentido de dar ao Executivo ampla capacidade de
implementar sua agenda.1 Em razão desses poderes, dos recursos de patronagem à
disposição do Executivo e das regras que favorecem as lideranças partidárias
(em especial seu poder de agenda), o Executivo, com o auxílio dos líderes dos
partidos que formam sua bancada, comanda o processo Legislativo: a agenda do
Executivo tramita mais rápido e tem índices mais elevados de aprovação do que a
agenda proposta pelos parlamentares. O Legislativo, portanto, não tem se
constituído em obstáculo à ação do Executivo.
Quanto à disciplina partidária e às coalizões em plenário, Figueiredo e
Limongi, analisando o período de 1989 a 1994, concluíram que
[...] os partidos apresentaram considerável coesão média no período
como um todo, muito acima do aceitável, visto que os encaminhamentos
dos líderes permitem antever o resultado da votação.2 Além disso, o
quadro partidário que emerge da análise revela um padrão de coalizões
partidárias que é coerente com a disposição dos partidos num
continuum ideológico. Podemos falar tranqüilamente em partidos de
direita, centro e de esquerda (1999, p. 75).
Este diagnóstico, que subverte a percepção dominante anteriormente, é por sua
vez questionado ou matizado por outros autores. Defendendo a percepção
anterior, Mainwaring, com base em dados relativos às votações da Constituinte
brasileira de 1987-1988, conclui que "o PT e os pequenos partidos de esquerda
demonstram uma disciplina quase perfeita, mas as organizações catch-all são
menos disciplinadas no Brasil do que na maioria das democracias ocidentais"
(2001, p. 182).3
Ames (2003) também questiona metodologicamente os achados de Figueiredo e
Limongi, afirmando que esses autores, quando consideram apenas as propostas que
vão à votação, acabam por superdimensionar a influência do Executivo no
processo decisório. Ao lançar propostas como balões de ensaio, percebendo a
possibilidade de resistência à sua aprovação, o Executivo nem chegaria a
encaminhá-las ao Congresso. Além disso, o Executivo teria que negociar
demasiado, de forma que muitas de suas propostas só seriam aprovadas após uma
série de modificações, muitas vezes desfigurando-as fortemente. Segundo Ames,
os parlamentares no Brasil em geral têm se comportado de forma a dificultar a
governabilidade. Em texto mais recente, Limongi (2006) discute as críticas de
Ames e outros autores.
Por sua vez, Santos, comparando o período entre 1986 e 2004 com o período de
1946 a 1964, afirma:
[...] por um lado, os índices de disciplina calculados em relação às
votações nominais podem representar a última fase de um processo
intenso de barganha, como aponta Ames (2001), e este fato não é
irrelevante, pois os índices podem não revelar os custos de transação
envolvidos. No entanto, de outro lado, é fundamental considerar que
os índices do período pós-Constituição de 1988 são consistentemente
mais elevados do que no período democrático anterior (que também era
um regime presidencialista, federal e com representação proporcional
de lista aberta). Ou seja, o argumento de Ames não ajuda a explicitar
a variação entre os períodos. A levar em conta, principalmente, os
trabalhos de Figueiredo e Limongi (1999) e Santos (2003) a explicação
residiria na centralização do processo decisório na presidência e nas
lideranças partidárias (Santos, 2006a, p. 235).
Jairo Nicolau, por seu turno, analisando o período do primeiro mandato do
presidente Fernando Henrique Cardoso, verifica variações significativas entre
as taxas de disciplina dos diferentes partidos, concluindo que
[...] mais do que um atributo sistêmico (alta ou baixa disciplina de
todos os partidos), o que chama a atenção no caso brasileiro é a
variação [...] o PCdoB e o PT têm taxas de disciplina semelhantes aos
mais disciplinados partidos europeus; o PFL, o PSDB, o PDT, o PSB e o
PTB apresentam índices próximos aos dos partidos americanos e aos dos
partidos europeus menos disciplinados; o PMDB, o PPB e o PL têm taxas
de disciplina abaixo das conhecidas na Europa e nos EUA (Nicolau,
2000, p. 717).
Já Amorim Neto (2000 e 2006) indica que, dependendo das estratégias dos
presidentes na formação de governos, o comportamento das bancadas varia, o que
pode afetar a disciplina partidária de um governo a outro. Análises recentes
(Santos e Vilarouca, 2004; Santos, 2006a; Figueiredo e Limongi, 2007), que
incluem dados relativos ao primeiro mandato do governo Lula (em todo ou em
parte), mostram que a disciplina de alguns partidos sofreu redução
significativa em relação ao segundo mandato de FHC. Figueiredo e Limongi (2007)
mostram que houve uma queda das taxas de disciplina tanto nos partidos de
oposição (PSDB, de 95% para 73%, e PFL, de 93% para 71%), como no PT (de 99%
para 92%). Analisando estes dados, Melo afirma que
No caso do PT é possível dizer que a chegada ao governo e a
conseqüente adoção de uma agenda política moderada gerou tensões
entre a bancada e nas relações desta com o governo, a militância e o
eleitorado mais próximo. Como resultado, o partido viu sua coesão
diminuída e seus líderes tiveram que em algumas ocasiões lançar mão
dos instrumentos disciplinares disponíveis para manter a bancada
alinhada no apoio ao governo. Já os casos do PFL e PSDB revelam a
dificuldade dos líderes em manter o nível de disciplina dos deputados
uma vez destituídos dos importantes recursos disponíveis aos partidos
governistas (Melo, 2007, p. 287).
De acordo com Santos e Vilarouca (2004), a indisciplina vem à tona
principalmente com a ausência nas votações no plenário e não por causa da
declaração de voto contrário dos membros da bancada.4 Os autores utilizam dois
indicadores de disciplina: primeiramente só com os parlamentares presentes no
momento da votação e, depois, computando a ausência. Esta seria a principal
forma de alguns deputados não seguirem a indicação do seu partido. Mostram,
portanto, que a indisciplina é bem maior quando se computa as ausências. Tipo
semelhante de análise será realizado aqui, para verificar o efeito das
ausências e das abstenções sobre a coesão partidária.
Quanto às coalizões partidárias no plenário (nas votações nominais), os estudos
mais recentes indicados acima mostram que ao longo do primeiro mandato do
governo Lula houve uma mudança em relação aos padrões encontrados no período de
1988 a 2002. Segundo Santos e Vilarouca (2004), o governo Lula trouxe impactos
significativos sobre o desempenho dos partidos e no próprio modo de operação do
presidencialismo de coalizão. A hipótese de coerência ideológica das coalizões
não se manteve nesse governo por conta de suas alianças com partidos de
direita. O tom do posicionamento dos partidos deixa de ter um sentido
ideológico para assumir um aspecto de simples disputa centrada na dicotomia
governo/oposição. É evidente, em suma, o aumento significativo da
inconsistência ideológica quando se compara os dois primeiros anos do governo
Lula com os cerca de quinze anos anteriores. O que parece ter mantido a
coerência ideológica das coalizões em plenário até o segundo mandato do
presidente Fernando Henrique Cardoso é a coincidência entre a dimensão
ideológica e a dimensão que divide governo e oposição: desde o governo Sarney
até FHC, havia governos de centro-direita, com a esquerda, nucleada pelo PT, na
oposição. Quando o PT chega ao governo, fazendo composições ideologicamente
inconsistentes (e tendo, na oposição, uma base também inconsistente
ideologicamente), mantém-se em grande parte a divisão, nas votações em
plenário, entre partidos governistas, de um lado, e partidos de oposição, de
outro. Esta é a dimensão que parece ser dominante na formação das coalizões no
momento das votações nominais no plenário da Câmara Federal. As coalizões só
tendem a ser ideologicamente consistentes se a composição dos governos
(formação de ministérios) for também ideologicamente consistente.
Concluindo: a partir dos estudos iniciais de Figueiredo e Limongi sobre a
Câmara Federal, o diagnóstico inicialmente predominante na literatura
brasileira - de um sistema político ingovernável, devido à fragmentação e à
indisciplina partidária - é invertido. Como vimos, as primeiras análises nesse
sentido apontavam para taxas elevadas de disciplina partidária e um grau
significativo de consistência ideológica das coalizões em plenário. Estudos
posteriores, porém, têm contribuído para relativizar tais conclusões, seja
questionando aspectos metodológicos, seja mostrando variações nas taxas de
disciplina entre diferentes partidos e governos - variações não explicáveis
pelas variáveis institucionais enfatizadas por Figueiredo e Limongi para
explicar as altas taxas de disciplina. O debate em torno dessas questões tem
desenvolvido uma agenda de pesquisa das mais profícuas,5 ampliando muito a
reflexão teórica e o conhecimento empírico a respeito do sistema político
brasileiro. É a partir dessas reflexões que o presente trabalho pretende
analisar dados sobre disciplina e coalizões partidárias em Santa Catarina.
No que diz respeito aos estados brasileiros, a bibliografia sobre o processo
legislativo é mais escassa. Dessa forma, os estudos coordenados por Abrucio
(1998), Andrade (1998) e Santos (2001), entre outros, constituem-se em
importante contribuição para uma reflexão sobre os sistemas políticos
estaduais, particularmente no que se refere às relações entre Executivo e
Legislativo. No que tange especificamente à disciplina partidária e às
coalizões em plenário, porém, a análise em âmbito estadual é inexistente.
Quanto ao estado de Santa Catarina, embora não se detenham diretamente nos
temas aqui analisados, os trabalhos de Montenegro (2006) e Tomio (2006) merecem
menção, pois apontam importantes tendências no processo de produção legislativa
na Alesc e nas relações entre Executivo e Legislativo. Montenegro, analisando a
produção de leis na Assembléia Legislativa catarinense, entre 1990 e 2000,
conclui que neste processo predominam as "leis do subtipo Declaração de
Utilidade Pública. Esta constatação revela a prori um vínculo entre deputados e
diferentes organizações da sociedade civil". Além disso, constata uma mudança
no comportamento dos deputados, à medida que conseguem renovar seus mandatos:
[...] até o segundo mandato os deputados procuram produzir leis
clientelistas que lhes proporcionem uma estabilidade eleitoral. A
partir do segundo mandato o deputado reconhece uma base eleitoral
estável que lhe proporciona um novo patamar na carreira. Entre as
opções neste novo patamar o deputado escolhe entre continuar na
carreira estadual, procurando ocupar cargos na estrutura da Alesc,
principalmente o de presidente da casa, ou garantir uma indicação
como juiz do Tribunal de Contas do Estado; neste caso, sua propensão
ao clientelismo é maior; ou optar por uma ascensão na carreira, na
busca de um cargo federal, que para tanto necessitará de uma
ampliação de sua base eleitoral, possível através de uma produção de
leis menos clientelistas (Montenegro, 2006, p. 168).
Tomio, analisando o processo legislativo na Assembléia Legislativa catarinense
entre 1995 e 2005 mostra a grande dependência de proposições legislativas
originadas do Executivo, mesmo em governos fracos, devido às prerrogativas
legislativas exclusivas deste ator; a numerosa produção legislativa originada
entre os parlamentares estaduais, o que indica a existência de uma agenda
decisória autônoma no Legislativo; a capacidade efetiva do Legislativo em
derrubar os vetos do Executivo, mesmo diante de coalizões majoritárias,
restringindo a eficácia das hipóteses de subordinação do Legislativo estadual;
o declínio, no decorrer da legislatura, da aprovação de proposições originadas
no Executivo; a determinação que os mecanismos de democracia participativa
(plebiscitos) e a iniciativa popular têm na autonomia do Legislativo ante o
Executivo; a pouca relevância do poder de decreto (Medidas Provisórias) na
determinação do processo decisório catarinense. O autor conclui que há, no
âmbito da produção legislativa,
[...] pelo menos quatro processos distintos: 1) um processo
legislativo que regulamenta [...] o funcionamento da máquina
administrativa do governo [...], em que o governo é proativo e possui
poderosas prerrogativas legislativas [...]; 2) um processo
legislativo compartilhado pelos dois poderes, principalmente
direcionado a definir as normas e diretrizes das políticas públicas
estaduais [...]; 3) um processo extenso de produção de leis de baixo
efeito distributivo e leis honoríficas, onde os legisladores jogam
autonomamente [...]; 4) um processo decisório que incorpora
mecanismos de democracia direta (plebiscito...), temporariamente
suspenso, dado que restringiu-se à criação de municípios [...]
(Tomio, 2006, p. 130).
Análise dos dados: contexto histórico e aspectos metodológicos
Antes de passarmos a analisar os dados relativos à disciplina (ou coesão)
partidária e aos padrões de coalizão em plenário na Alesc, no período entre
1999 e 2006, é importante mencionar alguns dos principais aspectos
metodológicos envolvidos na coleta e na análise dos dados e situar alguns
elementos do contexto político relativo às eleições e às legislaturas em
estudo.
A pesquisa cobriu apenas as votações nominais consideradas não-consensuais.
Adotamos o critério sugerido por Figueiredo e Limongi (1999) e seguido também
por Santos (2006), de definir como nãoconsensual a votação em que a proposta
mais votada obteve menos de 90% do apoio dos presentes.6 Resulta daí um
conjunto de 276 votações nominais, que incluem todas as realizadas na Alesc no
período em estudo consideradas não-consensuais (125 na 14ª Legislatura e 151 na
15ª). Outras 362 votações realizadas durante o período foram deixadas de fora
da análise por serem consideradas consensuais com base no critério adotado.
Quanto ao contexto político, vale a pena indicar que Santa Catarina apresentou
até recentemente um predomínio conservador no âmbito políticopartidário,
comparativamente à correlação de forças vigente em plano nacional. Desde o
final da República Velha até o golpe de 1964, o estado foi dominado
politicamente por dois grupos políticos centrados em duas famílias: os Ramos e
os Konder Bornhausen, que dominaram, respectivamente, o PSD e a UDN entre 1946
e 1964. Após o golpe de 1964, as "oligarquias" rivais rapidamente se acertaram
dentro da Arena (Aliança Renovadora Nacional), partido de apoio ao regime
autoritário. Ao longo do período em que vigorou o sistema bipartidário (1965/
1979), os Ramos declinaram sua força política, enquanto os Konder Bornhausen
conseguiram articular as principais forças políticas do estado, tendo dois de
seus membros (Antônio Carlos Konder Reis e Jorge Konder Bornhausen) exercido o
cargo de governador. Ao final daquele período, a Arena ainda tinha o predomínio
eleitoral, embora o MDB tivesse crescido e já representasse uma ameaça.
Sob o atual sistema partidário, o PP (PPB/PDS) - capitaneado pelo casal
Esperidião e Ângela Amin - e o PMDB têm sido os dois maiores partidos ao longo
de todo o período. O PFL vinha sendo, até as eleições de 2002, o terceiro maior
partido do estado. Mas, a partir daí, o PT passou a ter um desempenho próximo
ao PFL. O PSDB estadual é, comparativamente ao plano nacional, um partido ainda
pequeno, mas obteve resultados muito positivos nas eleições municipais de 2004
e 2008. Especialmente a partir das eleições de 2002 houve uma ampliação do
pluralismo partidário e ideológico efetivo no âmbito do processo político
catarinense. Se até 1982 podemos falar num sistema político oligárquico, de lá
para cá pode-se dizer que ocorreu uma transição para um sistema efetivamente
poliárquico (Dahl, 1999).
Feito este retrospecto, é necessário indicar quais partidos formavam o bloco de
apoio ao governo e quais estavam na oposição, além de situar o número de
deputados de cada partido nas duas legislaturas. O Quadro 1 aponta o
posicionamento dos partidos em relação ao Executivo (na maioria do tempo
relativo a cada legislatura), porém devem ser consideradas as observações
formuladas a seguir, de forma a matizar tais posicionamentos.7
Em relação ao tamanho de cada bancada partidária, houve algumas variações ao
longo de cada legislatura devido às migrações de deputados de um partido a
outro e também ao fato de que, quando um deputado se afasta do cargo, às vezes
o suplente é de outro partido, coligado (no momento da eleição) ao do deputado
titular que está se afastando.8
A formação da coalizão de governo da 14ª Legislatura (1999-2003) obedeceu à
composição da coligação que venceu as eleições de 1998, apoiando Esperidião
Amin. Os partidos que compunham a coligação Mais Santa Catarina (PPB, PFL, PTB,
PL e PSDB) e que conseguiram inicialmente 23 cadeiras na Assembléia Legislativa
continuaram juntos durante o decorrer de toda a legislatura. O governo possuía
nesse período a maioria das cadeiras, ainda que por uma pequena margem de
diferença. A formação da coalizão de governo parece ter obedecido também a (ou
coincidido com) um padrão ideológico, haja vista que entre os partidos que a
compunham todos eram de direita, segundo a classificação que adotamos, salvo o
PSDB, classificado como um partido de centro. Na oposição ficaram todos os
partidos de esquerda com representação na Casa (PT, PDT e PPS) e o PMDB (de
centro). A variação do número de deputados da base do governo foi pequena.
Nenhum outro partido migrou para a bancada governista no decorrer da
legislatura. Tampouco os partidos situacionistas se deslocaram para a
oposição.9 Quanto às migrações de deputados de um partido para outro, a
variação foi pequena, especialmente se considerado o saldo das migrações (de
saída e entrada no bloco governista).10
Na coalizão do governo Luiz Henrique da Silveira (LHS), do PMDB, na 15ª
Legislatura (2003-2006), participaram partidos de diferentes matizes
ideológicos (esquerda, centro e direita). A oposição formou-se por partidos à
direita e à esquerda, num padrão bastante diferente da 14ª Legislatura. Luiz
Henrique, embora tenha sido apoiado no 1º turno da eleição de 2002 por uma
coligação de apenas dois partidos (PMDB e PSDB), consegue o apoio já no 2º
turno de muitos outros partidos. Cabe destacar as modificações de
posicionamento de PT e PFL ao longo da legislatura. O PT, que havia apoiado LHS
no 2º turno, inicia a legislatura com um posicionamento de independência
formal, mas, na prática, apoiando boa parte das iniciativas do governo na
Alesc, mesmo não participando do secretariado do governador. Ao longo do
primeiro ano, porém, o partido passou a mostrar resistência às propostas
governistas, e já no segundo ano da legislatura o PT posicionou-se claramente
como partido de oposição. Com o PFL ocorreu o inverso: o partido havia apoiado
Amin contra Luiz Henrique na eleição de 2002 e começou a legislatura na
oposição. No entanto, a partir de uma estratégia bem-sucedida de aproximação
entre o governador e alguns parlamentares, os deputados pefelistas passaram
gradativamente a apoiar as decisões do Executivo, e o partido terminou o
mandato não apenas como integrante da base de Luiz Henrique, mas também como
componente da coligação que viria a reelegê-lo em 2006.11
Disciplina (ou coesão) partidária
Na análise da disciplina partidária na Câmara Federal, um dos indicadores
relevantes é a porcentagem de deputados que votam na forma indicada pelo líder
de seu partido. Como se pode observar na Tabela_1, o número de vezes em que os
líderes declaram publicamente seu voto, indicando a seus liderados como votar,
é muito pequeno no caso das votações nominais na Alesc.
O líder do PT usou este direito em 82 vezes, cerca de 30% do total das 276
votações nominais aqui analisadas. A seguir, aparece o PP (PPB), em 62 votações
(cerca de 22% do total); quanto aos demais partidos, o uso desta estratégia foi
muito secundário.
De toda forma, a disciplina medida desta maneira é bastante alta. A média
ponderada dos cinco maiores partidos, no conjunto dos 231 casos em que houve
indicação de voto do líder de pelo menos um partido ao longo das duas
legislaturas, é de 92% de disciplina. Especialmente na 14ª Legislatura, foi
bastante alta em todos os partidos (variando de 92% no PSDB a 98% no PT). Na
15ª Legislatura, há um declínio sensível no PP (PPB) (de cerca de 93% para 81%)
e, em menor escala, no PFL (de 93% para 87%) e no PT (de 98% para 94%); por
outro lado, cresce significativamente a disciplina no PMDB (que alcança quase
99%) e no PSDB (quase 98%).13
Os partidos de esquerda (PT) e centro (PMDB e PSDB) têm, no conjunto do
período, disciplina muito elevada (entre 95% e 96%), enquanto os de direita
(PPB/PP e PFL) têm disciplina menor (87% e 88%, respectivamente). Seguindo o
que indicam Figueiredo e Limongi, quando estão numa mesma coalizão (como na 14ª
Legislatura) os partidos de direita têm maior disciplina do que quando se
encontram divididos (como na 15ª). Embora com algumas ressalvas, a hipótese de
que partidos da base de apoio ao governo tenham maior disciplina sai reforçada
da análise destes dados: o PP (PPB) diminuiu sua disciplina quando passou à
oposição; o PMDB, por sua vez, quando passou a ser governo aumentou sua
disciplina. Quanto ao PFL, seu posicionamento como "base do governo" era mais
claro durante o governo Amin (período em que a disciplina foi maior), já que no
início do governo Luiz Henrique estava formalmente na oposição. Da mesma forma,
o PSDB, embora apoiasse Amin, era aquinhoado naquele governo com parcelas bem
menores de poder, sendo considerado um "sócio" menor dentro da coalizão de
governo. Isso se altera durante o governo Luiz Henrique, quando o peso do PSDB
na coalizão é bem mais significativo, o que parece ter tido impacto no aumento
do grau de disciplina dos deputados ao líder partidário na Alesc. Assim, os
parlamentares dos partidos que tiveram maior peso na coalizão de governo
parecem ter maior incentivo para seguirem as indicações de seus líderes, se
comparados aos que foram parte da coalizão, mas tiveram ali um peso menor.
Quanto ao PT, nas duas legislaturas o partido permaneceu na oposição. Mas, no
início do governo Luiz Henrique havia a expectativa de uma colaboração maior do
partido ao governo na Assembléia,14 já que o PT havia apoiado Luiz Henrique no
2º turno, em 2002. Isso acabou não acontecendo, mas o PT, embora tenha mantido
sua postura disciplinada e oposicionista, dividiu-se um pouco mais do que
durante o governo Amin.
Como no âmbito da Alesc a indicação de voto por parte do líder não ocorre na
grande maioria das votações, a análise a seguir utilizará como principal
indicador o percentual de coesão partidária, definido como sendo igual à maior
porcentagem de deputados do partido que votaram de forma semelhante.
Denominaremos indicador da coesão interna da bancada do partido em plenário,
uma vez que ele pode não refletir necessariamente disciplina à liderança do
partido.15 O indicador de coesão aqui utilizado é inspirado naquele já proposto
por Figueiredo e Limongi (1999, p. 82). Não utilizaremos, porém, o índice de
Rice por julgá-lo menos intuitivo do que o indicador aqui proposto.16
Tomando como universo de análise apenas os deputados presentes no momento de
cada votação e que não se abstiveram de votar, os dados da Tabela_2 indicam
percentuais relativamente elevados de coesão partidária na Assembléia para
todos os partidos relevantes. Mas há variações significativas:, o menor
percentual registrado no período de 1999 a 2006 foi obtido pelo PP, com cerca
de 87%; o maior percentual médio nesses oito anos foi registrado pelo PT, que
votou de maneira coesa em 96% das 265 votações em que pelo menos dois de seus
deputados compareceram e votaram.17
Não há variações significativas no comportamento de cada partido entre as duas
legislaturas, com exceção do PP (PPB), cujo percentual de coesão recua de 92%
na 14ª Legislatura para 83% na 15ª. Uma explicação que parece ser plausível
para explicar essa mudança reside no fato de que esse partido detinha o
controle do Executivo estadual na 14ª Legislatura e na 15ª ele se deslocou para
a oposição. O PP foi o único partido entre aqueles alinhados à direita do
espectro ideológico que se colocou claramente no bloco de oposição nesta última
legislatura. Em seu estudo sobre a Câmara Federal, Figueiredo e Limongi (1999)
constataram que os partidos de direita eram mais coesos caso votassem juntos.
Aqui ocorre o mesmo, mas o fato de ter havido uma redução bem maior no
percentual de coesão do PP (PPB) do que nos percentuais de coesão de PFL e PTB,
entre uma legislatura e a seguinte, sugere que passar da situação para a
oposição tem um peso maior (na redução da coesão), do que passar de uma
situação em que os partidos da direita votam juntos para uma em que isso não
acontece. Os autores também afirmaram que os partidos de esquerda não passavam
pelo mesmo problema, visto que eles seriam de fato mais coesos,
independentemente do tipo de aliança e do tipo de conteúdo em pauta. Apesar de
o PT ser o único partido de esquerda com número de parlamentares suficiente
para ser incluído na nossa análise da coesão interna, e isso limitar o alcance
de uma comparação com a Câmara Federal, o que se constata é que também na Alesc
o principal partido de esquerda foi o mais coeso no plenário no conjunto das
duas legislaturas. Porém, não muito mais do que o PSDB e o PMDB, tendo este
último ultrapassado o PT na última legislatura.
À luz deste indicador de coesão, comparativamente ao usado na Tabela_1
(percentual de deputados presentes no plenário que seguiram o voto do líder),
são menos intensos os possíveis impactos, devido ao posicionamento das bancadas
em relação ao governo. Fazer parte da oposição ou da base do governo (com maior
ou menor participação no governo) parece afetar as taxas de coesão, mas de
forma menos intensa (com exceção do PP/PPB). Assim, há um pequeno aumento da
coesão partidária no PMDB, entre a 14ª e a 15ª legislaturas quando o partido
deixa de ser oposição para se tornar a principal força da coalizão governista
no primeiro mandato de Luiz Henrique. Da mesma forma, há um pequeno crescimento
da disciplina também no PSDB que, mesmo fazendo parte da coalizão governista
nas duas legislaturas, só na última passou a ter peso relevante. Quanto ao PFL
e ao PT, sua ambigüidade inicial diante do governo Luiz Henrique parece ter
contribuído para uma pequena redução da coesão nesses partidos na 15ª
Legislatura. No que se refere ao PTB, houve pequeno declínio da coesão entre a
14ª e a 15ª legislaturas, embora o partido tenha participado formalmente, mas
sem muito peso, da base do governo nas duas.
É importante lembrar que as conclusões alcançadas até aqui consideraram apenas
os deputados presentes às votações e que não se abstiveram de votar (ou seja,
votaram "sim" ou "não"),18 o que torna possível uma comparação com os dados de
Figueiredo e Limongi (1999, 2007) que seguiram este procedimento. Autores como,
por exemplo, Nicolau (2000), Santos e Vilarouca (2004) e Santos (2006)
consideram, porém, que a deserção do deputado no momento da votação em muitos
casos pode representar um ato de indisciplina, já que alguns parlamentares,
para não se colocarem diretamente contra a determinação da sua liderança,
simplesmente se ausentam das votações sem dar uma justificativa. Seguindo essa
sugestão, a Tabela_3 apresenta os dados referentes a um novo indicador de
coesão, levando em conta, agora, as abstenções e as ausências dos deputados às
votações em plenário.19
Se compararmos estas taxas com as apresentadas na Tabela_2, vemos que os
percentuais de coesão aqui são muito menores. Quando se considerava apenas os
parlamentares que estavam presentes às votações e não se abstiveram, os
percentuais de coesão dos diferentes partidos, para o conjunto do período,
variavam entre 87% e 96% (sendo a média ponderada, para o conjunto dos seis
maiores partidos, de 92 %). Quando se levou em conta abstenções e ausências, os
percentuais de coesão variaram entre 62% e 78% (média ponderada de 70%). Houve
portanto, no conjunto dos partidos, uma redução de 92% para 70%, em média, do
percentual de coesão, dependendo do indicador utilizado. Comparando, para cada
partido, os percentuais de coesão medidos a partir dos dois indicadores
(Tabelas_2 e 3), percebe-se que as ausências e as abstenções afetam
(negativamente) menos as taxas de coesão de PMDB (que diminui de 93,5% para
78,1%, uma diferença de cerca de 15%) e PSDB (diferença de 18%). Nos demais
partidos, incluir ausências e abstenções no cálculo das taxas de coesão leva a
uma queda em torno de 25% (em relação às taxas calculadas apenas sobre os
deputados presentes e que não se abstiveram de votar).
Os partidos com menor percentual de coesão (Tabela_3) são o PP (PPB) e o PFL, o
que já acontecia utilizando o indicador anterior; depois aparecem o PTB e o PT
e, por fim, o PSDB e o PMDB, com percentuais mais altos de coesão do que os
demais, considerando ausências e abstenções.
Quanto à evolução dos percentuais de coesão (levando em conta os dados da
Tabela_3), observa-se que o PP (PPB) teve uma queda acentuada (16%: de 71% para
55%) ao passar de principal partido da coalizão de apoio ao governo Amin para o
maior partido de oposição (durante o primeiro mandato de Luiz Henrique); o PFL
apresentou também um declínio significativo (quase 10%) nesse sentido; e o PT,
por sua vez, mostrou uma pequena queda da coesão (3,5%); os demais partidos, ao
contrário, tiveram crescimento da coesão (PTB: aumento de 5%; PSDB: 9,5%; PMDB:
17%). Considerando, portanto, ausências e abstenções, o fato de o PP e o PMDB
estarem na oposição levou a menores percentuais de coesão (em relação aos
períodos em que governaram); quanto aos partidos PSDB e PFL, embora estivessem
na base dos dois governos, apresentaram mais coesão durante o governo em que
tiveram maior peso na coalizão (PFL, no governo Amin, e PSDB, no governo Luiz
Henrique). O PT, ficou um pouco mais dividido durante o governo do
peemedebista, do que durante o governo Amin. No único ano (2003) em que se
aproximou do governo, teve percentual de coesão mais alto, mas nunca maior do
que nos anos em que esteve firmemente na oposição.
Em suma, quando utilizamos como indicador de disciplina a porcentagem de
deputados que seguem a indicação de voto do líder, observamos um aumento
razoavelmente alto de disciplina. Tomando como universo de análise apenas os
deputados presentes no momento de cada votação e que não se abstiveram de
votar, os percentuais de coesão partidária são também relativamente altos para
todos os partidos. Quando consideramos, porém, os deputados que se abstiveram
de votar ou se ausentaram, as taxas de coesão decrescem significativamente, uma
vez que o número de ausências é considerável. Não é possível, contudo, com base
nos dados de que dispomos, saber em que medida as ausências expressam uma
estratégia de indisciplina velada por parte de deputados.
Embora haja exceções, os partidos de centro e de direita tendem a maiores taxas
de disciplina (oucoesão) quando estão na base de apoio ao governo (ou têm maior
peso no interior desta base), do que quando estão na oposição (ou têm menor
importância na composição do governo). O PT (único partido de esquerda
analisado por ser o único com representação significativa na Alesc, no período)
manteve-se praticamente todo o tempo como partido de oposição. Mesmo quando se
aproximou do governo, suas taxas de coesão não permitem fazer inferências sobre
o possível impacto que isso causou em sua disciplina partidária em plenário.
Previsibilidade do Plenário
Na esteira da pesquisa de Figueiredo e Limongi (1999, pp. 88ss), verificaremos
agora o grau de previsibilidade das votações em plenário. Este estudo
basicamente compara os resultados efetivos com os "teoricamente esperados" para
cada votação. Pressupomos que todos os deputados de cada partido estivessem
presentes no plenário e votassem de forma disciplinada (conforme a indicação de
voto do líder), ou de forma coesa (de acordo com a maioria do partido).20 Nos
casos em que houve empate, no interior de um partido, entre as propostas ("sim"
e "não") ou que nenhum deputado compareceu - mas que não houve indicação de
obstrução -, consideramos como "posição" desse partido aquela apoiada por
outras siglas que compunham a mesma coalizão (de governo ou de oposição).
Chegamos, pois, a um "resultado virtual" da votação, que, contrastado com o
resultado efetivo, foi bastante previsível. Procedendo dessa maneira em todas
as votações, pudemos reconhecer qual a porcentagem das 276 votações nominais
era previsível.
De modo análogo à conclusão a que chegaram Figueiredo e Limongi na Câmara
Federal, a análise das votações não-consensuais na Assembléia de Santa Catarina
mostrou que os resultados das votações podem ser previstos na grande maioria
dos casos. Conforme pode ser observado na Tabela_4, as duas legislaturas
analisadas apresentaram taxas de previsibilidade muito parecidas entre si (87%
na 14ª e 86% na 15ª) e próximas daquelas encontradas no estudo de Figueiredo e
Limongi (89%).
No que diz respeito à coesão interna dos partidos, ausências e abstenções
parecem ter contribuído mais do que dissensões internas explícitas (votos
contrários à indicação dos líderes ou ao voto da maioria do partido) para a
existência daquele percentual de 13% de votações não previsíveis, já que quando
consideramos apenas os deputados que compareceram às votações temos uma coesão
bastante elevada (média, para o período, de 92%). Com efeito, seria necessário
uma análise mais detalhada para observar o impacto sobre a previsibilidade do
plenário e de alterações nas coalizões. Um partido pode ter votado de forma
coesa numa votação, mas contrário à bancada (do governo ou da oposição) da qual
fazia parte. A imprevisibilidade devese não à falta de disciplina, mas de uma
decisão partidária em votar no sentido oposto ao do conjunto da bancada.
Infelizmente, esta análise não pôde ser feita no âmbito deste trabalho.
Coalizões partidárias
A análise do padrão das coalizões partidárias objetiva testar o grau de
semelhança existente no posicionamento dos parlamentares de partidos que fazem
parte do mesmo bloco ideológico (esquerda-direita) ou parlamentar (situação ou
oposição), em cada votação em plenário. No âmbito da Assembléia de Santa
Catarina, testaremos a tese formulada por Figueiredo e Limongi (1999) de que o
comportamento dos partidos políticos no plenário obedece uma escala ideológica
que vai da direita para a esquerda, sendo que os partidos adjacentes teriam
grande probabilidade de adotarem a mesma posição no momento da votação, e essa
probabilidade diminuiria significativamente de acordo com a distância dos
partidos nesse continuum ideológico. Mas, outra hipótese que norteia a presente
análise é a de que o posicionamento dos partidos em face da polaridade governo-
oposição (que nem sempre segue o posicionamento ideológico) é de grande
relevância no Legislativo. Dependendo dos posicionamentos ideológicos que
compõem as bancadas governista e oposicionista (em cada legislatura), pode
haver maior ou menor grau de superposição dessas duas dimensões (governo/
oposição versus direita/esquerda). A análise dos dados permitirá verificar o
peso de cada uma delas no comportamento das bancadas.21
Nesta análise serão também considerados os partidos em que pelo menos um
deputado participou da votação, de forma a incluir as pequenas siglas. É certo
que isso implica em inferência mais frágil (comparativamente a um partido com
maior número de parlamentares), já que um posicionamento idiossincrático do
deputado que é o único representante do partido será tomado como indicativo do
comportamento da legenda. Assim, talvez devamos ser mais cautelosos em relação
às conclusões referentes aos pequenos partidos. De qualquer forma, essa é uma
maneira de se obter alguma informação a respeito do comportamento de seus
representantes no plenário.
Apesar de não ser muito utilizada no âmbito da Assembléia Legislativa, a
indicação da posição partidária por parte do líder reforça a hipótese do padrão
ideológico das coalizões entre os partidos. Valem aqui as mesmas ressalvas
feitas em relação à análise da disciplina partidária com base nas indicações
dos líderes. Os partidos pequenos não foram incluídos na Tabela_5 simplesmente
porque, em geral, são formados por apenas um parlamentar. E mesmo os que
possuem dois parlamentares ou um pouco mais também não foram incluídos, uma vez
que os líderes de pequenas bancadas habitualmente não fazem indicação da
posição do partido. Sendo assim, o número limitado de indicações desses
partidos poderia generalizar a posição do partido tendo por base apenas algumas
poucas votações. Optamos, nesta análise, por considerar apenas os dados de
partidos com maior número de indicações. O PSDB não foi incluído porque houve
muito poucos casos em que ocorreu indicação de voto do líder do partido
concomitantemente à indicação de líderes de outros partidos.
É possível perceber semelhança entre as indicações na grande maioria dos casos
em votações em que há simultaneamente indicação de voto pelos líderes dos dois
principais partidos de direita (PP/PPB e PFL). Em menor grau, comportamento
parecido ocorre no que se refere às "coalizões" entre os dois principais
partidos de esquerda (PT e PDT). Das 17 votações em que tanto o líder do PP
(PPB) como o líder do PFL indicaram voto às suas bancadas, a taxa de semelhança
foi de 88%. No mesmo período, os líderes do PT e PDT indicaram a mesma posição
à sua bancada em 67% dos 18 casos em que ambos se manifestaram. Inversamente,
diante das indicações de voto do líder do PT, os menores percentuais de
semelhança têm relação com as indicações de voto dos líderes do PFL (apenas
41,1% dos casos em que os dois se manifestaram) e do PP/PPB (46%). No entanto,
nem todos os dados revelam que as coalizões seguiram padrões de coerência
ideológica estrita, pois há casos em que a semelhança da indicação entre
partidos que estão nos extremos do espectro é maior do que quando comparados
aos partidos de centro. Para ilustrar essa situação basta observar que a
semelhança de voto do PP (PPB) com o PT (partidos de direita e de esquerda,
respectivamente) é maior (46%) do que o percentual (26%) de semelhança entre PP
(PPB) e PMDB, um partido de centro. Isso parece indicar que o padrão das
coalizões é influenciado também (ou até mais) pela polaridade governo/oposição.
Como na Alesc, diferentemente do que ocorre na Câmara dos Deputados, o
posicionamento oficial do partido mediante indicação do líder raramente ocorre,
para analisar comparativamente o posicionamento dos partidos sem perder a
maioria das votações em plenário, foi necessário então basear-se também no
"índice de semelhança", indicador proposto por Figueiredo e Limongi (2006, pp.
270-271) que mede a proporção de votos semelhantes entre dois partidos numa
mesma votação.22
No que se refere ao PP (PPB), no conjunto das duas legislaturas os maiores
índices de semelhança foram estabelecidos com o PFL (76%) e PTB (62%), dois
partidos à direita do espectro ideológico. Mas, em segundo lugar apareceu o PSB
(54%), o PSDB (50%) e o PSOL (50%), dois deles partidos situados à esquerda.23
Ocorreram ainda muitas diferenças de padrão entre a 14ª e a 15ª legislaturas em
relação às afinidades do PP (PPB).
Na 14ª, houve forte semelhança entre o PP (PPB) e as posições do PFL, do PSDB,
do PTB (e, em menor grau, PL), partidos que então compunham a base do governo
Amin. Já na legislatura seguinte, com exceção do PFL, as semelhanças mais
significativas se deram com partidos de esquerda (PSB, PT e PSOL). O PSB estava
formalmente na base de apoio ao governo Luiz Henrique (PMDB), mas os outros
dois encontravam-se na oposição, tal qual o PP.
O comportamento do PFL, no que diz respeito às coalizões - com exceção do PSB
(em relação ao qual já foi feita uma ressalva) -, seguiu um padrão basicamente
ideológico: os maiores índices de semelhança ocorreram com PP (PPB) (76%) e PTB
(68%), partidos de direita; houve depois uma pequena inversão ao que seria
esperado se o comportamento seguisse rigorosamente a classificação ideológica
dos partidos: o índice de semelhança com o PSDB (de centro) foi um pouco maior
do que com o do PL (de direita). Em seguida, o PMDB (de centro), os partidos de
centro-esquerda (PDT e PPS) e os partidos de esquerda (PT e PSOL) mantiveram-se
distantes do comportamento pefelista em plenário. Mas há uma variação
significativa do comportamento do PFL entre as duas legislaturas: os índices de
semelhança com partidos de direita declinaram muito, enquanto aumentaram tais
índices com partidos de centro e centro-esquerda que faziam (como o PFL) parte
da base do governo Luiz Henrique. De qualquer forma, mesmo com o PP na
oposição, o PFL manteve com ele seu segundo maior índice de semelhança (o
primeiro se deu com o PPS, de centro-esquerda) durante 15ª Legislatura. Mas os
índices de semelhança entre o PFL e os demais partidos, nos dois primeiros anos
da 15ª Legislatura variaram muito em relação aos índices encontrados nos dois
últimos anos desta Legislatura.
O comportamento do PTB foi um pouco menos consistente no plano ideológico do
que o do PFL, mas seguiu basicamente a tendência de maiores índices de
semelhança com partidos de direita e centro (se compararmos aos de esquerda).
As variações entre as duas legislaturas foram semelhantes às do PFL. O PL
apresentou mais semelhanças com partidos de centro (PSDB e PMDB) e um de
direita (PTB). Mas especialmente na 15ª Legislatura, teve maior semelhança com
partidos de centro-esquerda (PDT e PSB) do que com os partidos de direita (PP e
PFL).
Tabela_6
Quanto ao PMDB, seus maiores índices de semelhança se deram com partidos de
centro-esquerda (PPS e PDT), de centro (PSDB) e com pequenos partidos de
direita (PL e PTB). Os menores ocorreram com o PSOL, o PP (PPB) e o PFL. Mas
houve variações significativas entre a 14ª e a 15ª legislaturas: aumento
marcante dos índices de semelhança de vários partidos (especialmente o PSDB e
os pequenos partidos de direita) com o PMDB, quando este deixou de ser oposição
para se tornaro principal partido da base do governo. Os índices declinaram
principalmente com PP e PT, principais partidos de oposição ao governo Luiz
Henrique. O PSDB, de acordo com seu posicionamento em face dos dois governos,
diminuiu drasticamente seu índice de semelhança com o PPB (PP) e aumentou com o
PMDB (e os partidos que passaram a fazer parte da base do governo Luiz
Henrique).
O PPS teve maior semelhança com os partidos PMDB, PDT, PSDB e PT. Manteve-se
mais distante dos partidos de direita (PP, PTB e PFL), embora seu menor índice
de semelhança tenha sido com o PSOL. Mas mudou muito seu comportamento de uma
legislatura a outra, aproximando-se dos partidos de direita (especialmente o
PFL) e centro e afastando-se do PDT e do PT. Quanto ao PDT, apresentou maior
semelhança com os partidos de centroesquerda (PPS, PSB) e centro (PMDB e PSDB),
seguindo-se os mais à esquerda (PSOL e PT) e, por último, os de direita (PP,
PFL e PTB). O PT teve mais proximidade com os partidos de esquerda (PSOL, PDT e
PPS e, em menor grau, PSB), vindo a seguir o PMDB, distanciando-se dos partidos
mais à direita e do PSDB. Porém, houve também uma mudança importante entre as
duas legislaturas: na 15ª o PT esteve mais próximo do PP (embora com um índice
não muito elevado, de 50%) do que dos partidos de centro (PMDB e PSDB) e mesmo
alguns de centro-esquerda (PPS e PDT) que faziam parte da base do governo Luiz
Henrique. Embora com algumas diferenças, comportamento semelhante apresentou o
PSOL na 15ª Legislatura.
Numa visão mais panorâmica, percebe-se que durante a 14ª Legislatura (1999-
2002), quando um partido de direita comandou o Executivo (PP), o padrão das
coalizões parece ter seguido mais de perto a disposição ideológica dos partidos
ao longo de um continuum direita-esquerda, sendo que os partidos que apoiavam o
governo eram de direita (PFL, PTB, PL) além de um partido de centro (PSDB), e
na oposição se encontravam os partidos de esquerda (PT, PDT, PPS) e também o
PMDB, de centro. Porém, no início da 15ª Legislatura, algumas mudanças
começaram a se forjar. Em primeiro lugar, um partido de centro conquistou o
Executivo; depois observa-se ao longo da legislatura um padrão em que a base
governista recebia apoio - senão formal pelo menos na prática - de partidos
tanto do bloco ideológico da direita (PTB, PL e aos poucos também do PFL) como
do bloco de esquerda (PPS, PSB e PDT). Ao mesmo tempo, no bloco oposicionista,
partidos de diferentes concepções ideológicas, como PP e PT, passaram a votar
de maneira bastante semelhante. O posicionamento da maioria dos partidos ante a
coalizão governista foi relativamente constante, mas sobretudo o PFL e o PT
mudaram seu comportamento com o tempo, como se pode ver na Tabela_7.
O PFL, que havia apoiado Amin na disputa de 2002, inicia a legislatura com um
comportamento em plenário muito mais próximo ao do PP (índice de semelhança de
83,2%), distanciando-se dos dois principais partidos da base governista (PMDB e
PSDB, índices de semelhança de 30,9% e 34,8%, respectivamente). Em 2004,
iniciou uma trajetória de aproximação com os partidos governistas, mas ainda se
manteve mais aliado com o PP. Somente a partir de 2005 é que o PFL assumiu
claramente sua posição na base parlamentar de apoio a Luiz Henrique. Nos dois
últimos anos da legislatura apresentou índices de semelhança em torno de 90%
com PMDB e PSDB, afastando-se bastante do PP (média de 45% de semelhança).
O PT fez trajetória oposta. Tendo apoiado Luiz Henrique no 2º turno da eleição
de 2002, havia a expectativa de que o partido apoiaria o governo, reforçando
uma estratégia de aproximação entre PT e PMDB, já que em âmbito nacional
esperava-se que o PMDB apoiasse Lula. Em 2003, realmente, o PT não fez uma
oposição ferrenha ao governo e, na grande maioria dos casos, votou junto com a
base do governo (índices de semelhança de 72% com PMDB e PSDB). A partir de
2004, porém, o partido passou a fazer em oposição clara a Luiz Henrique, o que
se refletiu, em termos de comportamento em plenário, na queda dos índices de
semelhança com PMDB (para 30%) e PSDB (para 35%) e na aproximação com o PP
(índice de 62,2%, quando em 2003 havia sido de apenas 34,5%). Nos anos
seguintes (especialmente em 2005) afastou ainda mais da base governista,
mantendo comportamento mais próximo ao do PP.
Assim, especialmente após a primeira sessão legislativa (2003) da 15ª
Legislatura, o comportamento dos partidos em plenário, em termos de coalizões,
nas votações nominais se afastou do padrão de proximidade ideológica.
Conclusões
As taxas de disciplina (ou coesão) partidária foram relativamente elevadas para
todos os partidos no período entre 1999 e 2006 (média de 92%), quando se leva
em conta apenas os parlamentares presentes em plenário e que não se abstiveram
de votar nas votações nominais da Alesc. Quando consideramos, porém, ausências
e abstenções, cai bastante a coesão partidária (na média geral, de 92% para
70%). Os dados de que dispomos não permitem afirmar categoricamente que a
ausência no plenário seria uma estratégia usada por parlamentares para não
terem que votar com o partido (já que pode haver outros motivos que justifiquem
as ausências, como viagens, problemas de saúde etc.). Mas, dada a magnitude
desse fato, é bem possível que exista uma estratégia dessa natureza.
O percentual de votações previsíveis (quando o resultado "teoricamente
esperado" coincide com o resultado efetivo) foi de 87% na média do período.
Esse percentual é suficiente para questionar a tese de uma alta
imprevisibilidade das votações. Indica também que ausências e abstenções acabam
por não ter um impacto tão grande nos resultados quanto a queda de coesão média
dos partidos poderia sugerir. Resta saber se esta é uma taxa alta ou baixa em
face dos padrões internacionais. Além disso, os resultados baseiam-se
unicamente na análise quantitativa do total de votações nominais do período em
questão, sem distinguir as matérias por sua importância ou grau de conflito. Se
as votações mais relevantes realizadas no período estivessem justamente entre
os 13% cujos resultados são "teoricamente" imprevistos, isso significaria que
as ausências, as abstenções e a "indisciplina aberta" (voto contra a indicação
do líder ou contra a maioria do partido) teriam impacto relevante no processo
decisório da Alesc. Não foi possível fazer, porém, no âmbito deste estudo, uma
análise separada das propostas que geraram debate mais amplo no âmbito da
Assembléia e também da sociedade. Só uma análise desta natureza poderá lançar
luz sobre os temas aqui tratados.
Há variações significativas nas taxas de coesão entre os partidos: os partidos
mais à direita (PP/PPB e PFL) tiveram as menores taxas de uma maneira geral;
desconsiderando ausências e abstenções, o PT foi o partido mais coeso, mas
quando entram em jogo tais variáveis, o PMDB e o PSDB passam à sua frente. Em
relação aos partidos de centro e de direita, levando em conta essas variáveis,
há uma tendência de percentuais de disciplina (ou coesão) mais elevados quando
os partidos estão na base de apoio ao governo (ou quando têm maior peso no
interior desta base), comparativamente a quando estão na oposição (ou quando
têm menor importância na composição do governo). Ou seja, participar do governo
(e, preferencialmente, com peso na sua formação) parece estimular a coesão
partidária em plenário para os partidos situados à direita ou ao centro do
espectro ideológico. Quanto aos partidos de esquerda, não foi possível fazer
infeinferências sobre o eventual impacto da sua participação no governo sobre
sua coesão em plenário.
No que se refere às coalizões em plenário, registramos que na primeira das duas
legislaturas estudadas a dimensão governo/oposição tinha forte alinhamento com
o posicionamento ideológico dos partidos (governo de direita com apoio de um
partido de centro e oposição dos partidos de esquerda e um partido de centro).
Já na segunda legislatura, houve um afastamento desse padrão (governo
envolvendo partidos que vão da direita à centro-esquerda; oposição feita por
partidos de direita e de esquerda). As tendências encontradas em nossa análise
estão em acordo com os dados apresentados por Santos (2006a), Figueiredo e
Limongi (2007) no âmbito da Câmara dos Deputados. Apesar de as duas dimensões
terem algum peso no comportamento parlamentar, no conjunto dos dados analisados
a dimensão governo/oposição revelou ser mais significativa na formação de
coalizões em plenário do que o posicionamento dos partidos na escala
ideológica. Ou seja, a semelhança de voto em plenário entre deputados de dois
partidos diferentes depende mais de eles pertencerem à mesma bancada (do
governo ou da oposição) do que de pertencerem a partidos do mesmo campo
ideológico.
Notas
1 Entre as prerrogativas do Executivo federal no processo legislativo estão: a
capacidade de editar Medidas Provisórias, o pedido de urgência para suas
matérias e as vantagens estratégicas na elaboração e execução do Orçamento.
2 O estudo mostra que 89 % dos resultados das votações nominais podem ser
previstos corretamente quando se sabe como votam os líderes e qual o tamanho da
bancada de cada partido (Figueiredo e Limongi, 1999, p. 12).
3 Uma das razões para esta conclusão, tão diferente dos achados de Figueiredo e
Limongi, é de ordem metodológica, principalmente quanto aos critérios para
definir uma votação como consensual (o que será retomado adiante) (Mainwaring,
2001, p. 182).
4 Nicolau (2000) já havia chamado a atenção deste problema das ausências em
plenário sobre o grau de disciplina partidária.
5 Figueiredo e Limongi (1999, 2006, 2007); Novaes (1994); Meneguello (1998);
Nicolau (2000); Pereira e Mueller (2003); Santos (2001; 2006a e b); Amorim Neto
(2000 e 2006); Amorim Neto e Santos (2001), Pereira e Mueller (2003); Leoni
(2002); Rennó (2006), Melo (2007), entre outros.
6 Em outras palavras, é consensual a votação em que não haja pelo menos 10% dos
deputados presentes votando contra a maioria do plenário. Mainwaring utiliza
como "ponte de corte" o percentual de 25% de oposição à maioria. Para uma
defesa do critério aqui adotado, ver Figueiredo e Limongi (1999, p. 109, n.
76). Tanto Figueiredo e Limongi (1999, p. 95), como Santos (2006, p. 233), além
dos 90% como ponto de corte, incluem outro critério adicional para definir uma
votação como consensual: o encaminhamento de voto de forma semelhante por parte
das lideranças dos grandes partidos. Em nosso estudo, como a proporção de casos
em que os líderes dão indicação de voto às suas bancadas é muito pequena,
utilizar este critério implicaria em deixar de fora a grande maioria das
votações nominais. Por isso, utilizamos apenas o percentual de pelo menos 10%
de oposição à maioria em plenário.
7 A literatura (Amorim Neto, 2000, 2006; Santos, 2006a; Figueiredo e Limongi,
2007) tem tomado como indicador de participação na formação de governo, em
âmbito nacional, o fato de um partido ter ou não cadeira(s) no Ministério. É
partir daí que se analisa o comportamento de um partido na Câmara Federal. Em
âmbito estadual, o indicador similar deveria ser o fato de um partido ocupar
uma Secretaria de Estado. Em nosso estudo, porém, verificamos que ocorreram
mudanças no posicionamento de partidos no âmbito da Asssembléia Legislativa (da
oposição para a base do governo ou vice-versa) sem que houvesse mudanças na
participação (ou não) no secretariado estadual. Outras formas de
"participação", como será visto, podem atrair um partido para a base de
governo.
8 A Tabela_Anexa_1 apresenta o número de deputados eleitos e o número mínimo e
máximo que cada partido teve ao longo de cada legislatura nas votações
nominais, de forma a dar uma idéia da variação de sua bancada. Na análise da
disciplina e das coalizões, no entanto, os parlamentares foram considerados
como "pertencentes" ao partido a que estavam filiados no momento da votação.
9 Ao final da 14ª Legislatura alguns partidos da base (PSDB e PL) aproximaram-
se de outros da oposição, tendo em vista formarem coligação para o pleito de
2002, mas isso não implicou num posicionamento de oposição nas votações na
Alesc.
10 Segundo declaração do então líder do PPB, os dois únicos casos em que houve
migração de deputados da base do governo para a oposição decorreram de eles
terem seus interesses pessoais contrariados pelo governo.
11 Segundo o deputado Joares Ponticelli, que ocupou a vice-liderança do governo
Amin entre 1999 e 2000 e depois a liderança (2001/2002), "houve uma habilidade
muito grande por parte do governador Luiz Henrique logo no início da 15ª
Legislatura, de aproximar o governo de alguns deputados do PFL e esses
começaram a envolver os demais, a ponto de que a resistência, ao final do
primeiro ano, estava restrita aos deputados Antonio Ceron e João Paulo
Kleinubing. Depois, com a saída do deputado João Paulo em 2004 para disputar a
eleição, essa resistência foi desaparecendo e ao final de 2004 e início de 2005
já havia uma integração total do PFL ao governo. Não fizeram uma opção pelo
espaço formal, mas o governo passou a dispensar uma atenção muito grande ao
PFL. E acabou levando o PFL a apoiar a candidatura da reeleição em 2006"
(Entrevista concedida a Eduardo Perondi, em novembro de 2007). Conversas
informais com um assessor parlamentar indicam que o acerto para eleger o
deputado pefelista Júlio Garcia à presidência da Alesc (2005/2006), bem como os
arranjos nas Secretarias Regionais e o atendimento, por parte destas, a pleitos
de prefeitos do PFL, teriam sido importantes para atrair o apoio do partido ao
governo.
12 Seguindo boa parte da literatura, no presente estudo os partidos que tiveram
representação na Alesc no período analisado foram classificados num bloco de
direita (PP/PPB, PFL, PTB e PL), um ao centro do espectro (PMDB e PSDB) e outro
à esquerda (PPS, PDT, PSB, PT e PSOL).
13 Os percentuais foram calculados sobre o número de deputados de cada partido
presentes no momento da votação (incluindo aí os que se abstiveram de votar).
Como será visto mais adiante, se calcularmos os percentuais de disciplina sobre
o total de deputados de cada partido (incluindo os que se ausentaram), há um
aumento significativo da indisciplina.
14 Isso nos foi informado pelo então assessor da bancada e Secretário do
Diretório Estadual do PMDB, Adélcio Machado, que tinha muito conhecimento do
relacionamento entre as bancadas dos diferentes partidos e o líder do governo
na Alesc.
15 Assim, se 20% votaram "sim" e 80% votaram "não", será considerado um
percentual de coesão partidária de 80% nesta votação. Teoricamente pode ocorrer
de a maioria votar contra a indicação do líder: assim, teríamos uma alta
coesão, mas isso representaria uma indisciplina contra o líder. Os dados da
Tabela_1, porém, indicam que este tipo de conflito (entre líder e bancada) é
pouco freqüente: dentro do conjunto de votações em que há indicação de voto por
parte do líder, a disciplina média dos cinco maiores partidos, nas duas
legislaturas, é de 92%. Assim, o número de casos em que há uma alta coesão, mas
indisciplina (voto da maioria em oposição à indicação do líder) deve ser muito
pequeno (talvez nulo), em nosso universo de pesquisa. Por outro lado, na
ausência de indicação de voto pelo líder, formalmente o voto da maioria não
representa indisciplina; é possível, porém, casos em que o líder, sabendo que o
voto da maioria será contra sua indicação, prefere não se desgastar, não
indicando a direção de voto. Não é possível saber os casos em que isso ocorre,
mas não temos por que pressupor que haja muitos casos. As entrevistas com líder
do governo Amin e com importante assessor do PMDB durante todo o governo Luiz
Henrique apontam que não houve conflitos relevantes com a base partidária nas
duas legislaturas. Dessa forma, será considerado que, embora o percentual de
coesão não seja um indicador preciso, pode ser um indicador aproximado da
disciplina partidária.
16 Conforme Figueiredo e Limongi (1999, p. 82), "o índice de Rice varia entre
zero e 100 e é computado subtraindo-se a proporção de votos minoritários dos
majoritários. Quando 50% do partido votam 'sim' e 50% votam 'não', esse índice
é igual a zero. Quando há total unidade, o índice é igual a 100. Será igual a
70 se 85% dos membros estiverem de um lado e 15% do outro". Em nosso caso,
neste último exemplo, houve uma taxa de coesão de 85%, expressão cuja
compreensão nos parece mais intuitiva do que um índice de Rice de 70.
17 Nos casos em que havia - no Diário da Alesc, em que são transcritos os
debates que precedem às votações- indicação do líder para que o partido
obstruísse, se retirando do plenário, a taxa de coesão foi calculada com base
no percentual dos deputados que seguiram esta indicação. Há alguns outros casos
em que parece ter havido uma estratégia de obstrução, já que todos os deputados
do partido estavam ausentes. Como, porém, não havia uma indicação pública desta
estratégia por parte do líder, eles não foram considerados no cálculo do
indicador de coesão.
18 Foram consideradas, para cada partido, apenas as votações em que pelo menos
dois deputados do partido estavam presentes no plenário e não se abstiveram de
votar. Isso exclui da análise todos os partidos cuja bancada era formada por
apenas um parlamentar (caso de PL, PPS, PSB e PSOL). Quanto ao PDT, como em
todo período teve apenas duas votações que atendessem estes critérios, foi
retirado também da análise.
19 A título de exemplo, no caso de um partido com dez deputados, dos quais três
se ausentaram numa votação, cinco votaram "sim", um votou "não" e um se
absteve, o grau de coesão nesta votação, se desconsiderarmos as ausências e as
abstenções, será de 83,3% (já que dos seis que estavam presentes e não se
abstiveram, cinco votaram da mesma forma). Considerando as ausências e as
abstenções, o grau de coesão será calculado sobre o total de deputados do
partido na Alesc e não sobre o total de presentes na votação. Neste caso, o
grau de disciplina seria de 50%, já que cinco dos dez deputados (em exercício)
do partido votaram da mesma forma. Foram consideradas, para cada partido,
apenas as votações em que havia pelo menos dois deputados filiados ao partido
no momento da votação.
20 Certamente utilizar como "posição do partido" o voto que efetivamente foi
dado pela maioria dos deputados do partido, numa determinada votação, não é tão
adequado quanto utilizar a indicação de voto do líder para depois calcular
quantos votos deveria ter cada posição -"sim" ou "não" -, supondo a presença e
a disciplina total dos deputados Mas como o percentual de casos em que os
líderes indicavam voto era pequeno, julgamos que o uso desse outro indicador
permitiria ao menos um teste do grau de previsibilidade do plenário de forma a
verificar se o impacto das ausências e das abstenções - que, no que concerne às
taxas de coesão, parece elevado quando comparados os dados das Tabelas_2 e 3 -
resultaria numa baixa previsibilidade das votações.
21 Quanto à classificação dos partidos segundo seu posicionamento ideológico,
ver nota 10; quanto à polaridade governo-oposição, ver Quadro 1.
22 Agradecemos a Fernando Limongi pelas informações a respeito da fórmula de
cálculo (adaptada para porcentagem) utilizada por ele: Índice de Semelhança =
100 -¦%Si - %Sj¦, onde %Si é o percentual de votos "sim" do Partido i
(calculado assim: %Si = 100 * [Si/(Si+Ni)], sendo Si e Ni os números de votos
"sim" e "não" do partido i numa determinada votação) e Sj é o percentual de
votos "sim" do Partido j (calculado de forma semelhante). A subtração das duas
percentagens é feita em módulo. Por exemplo: PMDB tem 100 deputados, dos quais
80 votaram "sim" e 20 votaram "não"; PFL tem 50 deputados, dos quais 35 votaram
"sim" (70%, portanto) e 15 votaram "não"(30%). Índice de semelhança (PMDB/PFL)
= 100 - {|100*[80/(80+20)] - 100*[35/(35+15)] |} = 100 - |80 - 70|= 90, isto é,
90%. Se fosse calculado com base nos percentuais de "Não" (sobre total de "sim"
+ "não"), o resultado seria o mesmo. Vale notar que o cálculo toma como
denominadores as somas apenas dos votos "sim" e "não"; abstenções e ausências
não são consideradas. Vamos utilizar aqui esta mesma fórmula..
23 Deve-se fazer a ressalva de que o único parlamentar que o PSB teve (na 15ª
Legislatura) foi fruto da migração de um deputado de perfil conservador que
havia sido eleito pelo PTB.