China-Paraguai-Brasil: uma rota para pensar a economia informal
Breve introdução ao debate: formal e informal
Da linha de produçãode uma mercadoria na China até o seu destino final em uma
banca de camelô de uma cidade brasileira qualquer - universo empírico sobre o
qual se debruça este artigo -, há um sistema econômico complexo e
multifacetado, alternando níveis de formalidade e informalidade ao longo de uma
extensa cadeia mercantil. Nesse circuito global de bugigangas made in China, a
noção de "ilícito" também se torna de difícil apreensão, ao se metamorfosear
durante um ciclo transnacional, cujas fronteiras com o mundo ideal da
regulamentação do Estado são extremamente tênues e confusas.
O objetivo deste artigo é discutir a fragilidade dessas categorias à luz da
observação de uma cadeia produtiva completa. Tratar dessa manifestação do mundo
do trabalho contemporâneo requer abordar algumas questões que vêm sendo
trabalhadas nas ciências sociais há bastante tempo: os limites entre
informalidade e formalidade, a crítica à noção de setor formal ou informal,
entre outras. Essa discussão tem despertado o interesse no Brasil desde, pelo
menos, os anos de 1970, época em que começava a surgir o debate intelectual que
colocava em xeque a marginalidade da economia informal, até então tratada como
um produto residual da evolução capitalista terceiro-mundista ou uma forma pré-
capitalista. As teorias que emergiram naquele período convergiam para um mesmo
ponto: a relação dinâmica entre formal e informal e a importância deste último
para o desenvolvimento do capitalismo.
Um livro clássico sobre o tema no Brasil foi Crítica à razão dualista, de
Francisco de Oliveira (2003, publicado originalmente em 1972). Nessa obra, o
autor mostrou que o subdesenvolvimento do país (a pobreza, a informalidade) não
era uma "coisa" à parte da modernização. A evolução capitalista necessitava do
subdesenvolvimento, numa relação em que a pobreza é um pólo indispensável para
a riqueza crescer. Se for verdade que nos dias atuais essa constatação pareça
evidente, vale ressaltar que o livro, na época, produziu efeitos que mudaram as
análises econômicas que, até então, encaravam o desenvolvimento e o
subdesenvolvimento como duplos opostos - um moderno e o outro um produto
histórico e arcaico, respectivamente (Schwartz, 2003). Autores como Lúcio
Kowarick (1975, 1994), Machado da Silva (1971), Oliven (1980), entre outros,
também tiveram grande importância no pensamento a respeito da "marginalidade",
mostrando que ela era conseqüência das próprias transformações do capitalismo
excludente e, além disso, que o trabalho informal promovia a circulação de
renda em setores populares da sociedade, retroalimentando a economia.
Uma vez que é consenso o fato de que a informalidade não poderia ser entendida
como marginal ao sistema econômico, outras questões emergiram no debate
acadêmico. Uma delas foi o questionamento da noção de "setor informal",1 visto
que a mesma versaria sobre duas realidades estáticas (o formal e o informal),
sendo uma regulamentada pelo Estado e a outra não, reforçando uma visão
estática e dualista da realidade econômica e social (Forbes, 1989). Os
"setores", na realidade, caracterizam-se por uma interpenetração constante,
existindo inúmeras práticas informais alojadas no mercado formal, e vice-versa
(Lautier, 1991).
Embora a noção de informalidade seja muito mais elástica do que a de "setor" e
abarque situações mais abrangentes, ela se torna igualmente problemática no
Brasil, na medida em que só é definida como um pólo oposto da formalidade e,
dessa maneira, fica muito reduzida ao que é previsto pela Consolidação das Leis
Trabalhistas (CLT) (Noronha, 2003). Machado da Silva (2002) vai além e
questiona a própria operacionalidade do conceito de informalidade, já que,
diante de processos recentes como a reestruturação produtiva, a globalização e
a terceirização, essa categoria acaba esvaziando-se de sentido pelo uso trivial
que a transforma em um léxico sociológico para indicar processos de
flexibilização e desregulamentação. O autor entende que há uma substituição do
conceito para "empregabilidade", que se refere à nova cultura do trabalho
relacionada ao desemprego, ao risco e à insegurança.
Na realidade, o campo conceitual que circunda a noção do "informal" parece
sempre inacabado, imperfeito e necessitando de reformulações constantes, visto
que a sua manifestação empírica surge por inúmeros e complexos caminhos,
reinventando a si próprio permanentemente e caracterizando-se, na
contemporaneidade, por sua imaterialidade (Malagutti, 2000). Longe de resolver
essa questão semântica, este artigo busca incitar ainda mais a sua
complexidade, a partir de um estudo empírico sobre a comercialização de bens
chineses no Brasil, no Paraguai e na China.
Partindo da realidade atual, em que o desemprego, a pobreza e o trabalho
precário mantêm-se como uma dura realidade em países em desenvolvimento,
reatualiza-se permanentemente a necessidade de pensar as relações de trabalho
informais ou flexíveis não como uma "bolha" que flutua à margem do mercado
capitalista, mas como parte intrínseca desse mercado e que está arraigada de
forma visceral ao Estado, ao sistema econômico e ao mercado de trabalho formal
no país e fora dele. O debate nas ciências humanas tem buscado o acréscimo de
novas variáveis sobre o tema, como os fluxos velozes da globalização, que fazem
dos ditos "mercados informais" circuitos cada vez mais modernizados e
conectados em escala planetária (ver, por exemplo, Ribeiro, 2003).
O artigo está divido em seis partes subseqüentes. As duas primeiras são breves
sistematizações da pesquisa de campo e de algumas categorias trabalhadas. Na
terceira, discorro sobre uma espécie de "ethos empreender" que motiva os
sujeitos e engrena o sistema mercantil de ponta a ponta. Posteriormente,
apresento três processos no intuito de elucidar meu argumento a respeito da
fluidez das categorias trabalhadas neste artigo: as "interpenetrações", em que
o formal está no informal e vice-versa; as "metamorfoses legais", que são as
variações de status de uma mercadoria conforme o espaço e os grupos que a
legitimam; e, finalmente, as "relações de mutualismo", quando o formal é
alimentado pelo informal e o informal pelo formal.
Biografia dos bens: da fábrica na China à banca do camelô
Seguindo a linha dessa discussão sobre o caráter da informalidade - aqui apenas
pontuada de forma sintética -, discutirei, neste artigo, os resultados de uma
pesquisa realizada ao longo de oito anos, entre 1999 e 2007, com base na
etnografia de uma rota transnacional de circuitos informais que seguia uma
cadeia produtiva do começo ao fim. Mais especificadamente, o mercado de
pequenas mercadorias made in China, tais como as famosas bugigangas e
falsificações. Noutras palavras, trata-se dos produtos sui generis da pequena e
média indústria da China contemporânea, cujo boom deu-se a partir dos anos de
1980, especialmente na província de Guangdong, localizada no sul do país.
A rota China-Paraguai-Brasil corresponde ao sistema de produção no sul da
China, à importação dos mesmos pelos imigrantes chineses e árabes que estão no
Paraguai e à revenda para os sacoleiros brasileiros que, por meio do trabalho
"formiga", são responsáveis pela presença de grande parte desses bens nos
mercados populares do Brasil. Acompanhar esse processo, bem como as redes
sociais imbricadas a ele, pode representar uma "biografia sociocultural da
mercadoria" (Kopytoff, 2006) que acompanha desde o seu "nascimento" até o
destino final, remontando aquilo que Ajrun Appadurai chamou de commodity
ecumene: "uma rede de relações transcultural unindo produtores, distribuidores
e consumidores de uma determinada mercadoria ou conjunto de mercadoria" (2006,
p. 27).
De 1999 a 2004, realizei trabalho de campo junto aos camelôs da cidade de Porto
Alegre, observando seu cotidiano de vendas. Nos últimos dois anos daquele
período, participei de algumas excursões organizadas para Ciudad del Este
(cidade paraguaia que faz fronteira com Foz do Iguaçu, Brasil), as quais
duravam 48 horas, cujo objetivo pontual dessas pessoas se caracteriza por
buscar mercadorias. Essas viagens, para mim, significavam conhecer de onde
vinham os produtos, bem como entender as raízes das novas roupagens dos
mercados de rua brasileiros que, desde os anos de 1970 e 1980, passaram a ser
predominantemente made in China.
Em outra etapa da pesquisa, entre novembro de 2005 e setembro de 2006, viajei
inúmeras vezes à fronteira Brasil/Paraguai com o intuito de estudar o comércio
da região (Ciudad del Este constitui-se um dos maiores centros comerciais do
mundo), especialmente os chineses que importavam os bens do país de origem.
Fechando um ciclo de pesquisas, entre o final de 2006 e início de 2007, passei
sete meses nas Zonas Econômicas Especiais (ZEE)2 da província de Guangdong
(China), visitando fábricas e centros de distribuição dos bens que encontramos
à venda nos mercados populares brasileiros.
Questões conceituais: informal, ilegal, ilícito, imoral...
Meu objetivo principal é mostrar o emaranhado em que os conceitos de
(in)formal, (i)legal e (i)lícito se encontram na referida realidade empírica.
Primeiramente, faz-se necessário esclarecer alguns pontos sobre os quais este
artigo se debruça. Nesse sentido, centrar-me-ei nas noções de informal e
ilícito. A primeira diz respeito às práticas de trabalho e mercado não-
reguladas pelo Estado. A segunda refere-se às ações de contrabando e à
pirataria, consideradas criminosas sob um ponto de vista legal.3 No escopo
jurídico, ambas podem ser consideradas ilegais, embora no aspecto moral haja
uma gradação relevante entre elas. No decorrer do artigo, será mostrado de que
maneira estas categorias de informal e ilícito podem se distanciar uma da
outra, estar muito próximas ou até mesmo se fundir. Além disso, em algumas
situações apresentadas, procuro mostrar que, diante dessas classificações
normativas, há de se pensar ainda sobre a sua dimensão moral: certas práticas
são mais ou menos lícitas, dependendo do que e de onde o comércio é realizado.
Da fábrica chinesa à banca de camelô, o sistema de comercialização de "muamba"
vai se alterando e adquirindo ora a face da legalidade, ora da irregularidade.
Da mesma forma, um mesmo processo de produção pode se caracterizar por uma
fachada formal, sendo grande parte de seus subsídios informais. Esse sistema
produtivo percorre o mundo em escala global e, portanto, "não adquire
necessariamente contornos espaciais ou comunitários nem constitui 'setores',
mas, antes, percorre complexamente todo o conjunto do tecido social, político e
econômico" (Misse, 2006, p. 181).
Discutir a informalidade no circuito China-Paraguai-Brasil é uma tarefa
desafiadora, uma vez que ela, conforme já mencionado, é definida a partir da
sua oposição aos parâmetros formais, os quais variam entre um país e outro, na
medida em que tais parâmetros são entendidos, em última instância, como o que é
regulamentado estatal e legalmente. Além das discrepâncias entre os Estados, em
cada micro contexto observado, há uma grande variação entre a tolerância das
autoridades locais em relação à determinada prática mercantil, o que, em certa
medida, influenciará nas nuanças de legalidade.
Trata-se de um mercado que se caracteriza por um alto grau de ilicitude, no
momento em que grande parte das mercadorias que ele movimenta é falsificação,
cópia, pirataria. Pode ser entendido como um mercado "não-hegemônico", pois
seus agentes "são retratados como uma ameaça para poder econômico e político
das elites estabelecidas, as quais desejam controlá-los" (Ribeiro, 2006, p.19).
No entanto, é possível encontrar uma fábrica na China totalmente dentro dos
critérios da legislação trabalhista chinesa, mas que produz produtos
falsificados. Nesse sentido, o marco legal não diz respeito apenas às condições
de trabalho regulamentadas, mas à própria natureza do que se comercializa,
envolvendo outros estatutos jurídicos relacionados, por exemplo, com a infração
de direitos autorais. A manutenção do ilícito acontece na medida em que esse
mercado envolve igualmente um alto grau de corrupção entrelaçando comerciantes
e empresários com agentes do(s) Estado(s). O informal e o ilícito, portanto,
definem-se somente como oposições a um modelo ideal jurídico estatal. Essas
noções só adquirem operacionalidade, neste artigo, se assim encaradas.
É preciso reiterar, por fim, que existem inúmeras formas de trabalho informal
que abarcam uma infinidade de trabalhadores autônomos, por exemplo. Quando
trato de informalidade na rota China-Paraguai-Brasil, estou fazendo referência
a uma cadeia comercial específica, conectada por redes sociais, que gira em
torno de mercadorias singulares e envolvendo níveis de contrabando. Nesse
circuito, no qual estão produtores de um lado e sacoleiros de outro, é
perpassado um sistema em que a informalidade é preponderante devido aos
próprios mecanismos ilegais que ele necessita envolver. Em outras palavras, a
informalidade e a transnacionalização são da natureza desse mercado, que prima
pela larga-escala de produção, exportação e distribuição graças à valorização
da quantidade e, sobretudo, do preço baixo. É justamente a fácil acessibilidade
produtiva e de consumo que promove uma vasta cadeia de empregos (informais) da
China ao Brasil.
Hierarquias e o sonho de ser patrão
Mesmo que o trabalho informal seja, indubitavelmente, fruto da maneira desigual
com que o capitalismo se expande, não podemos negar que ele também tem sua
origem na própria ética capitalista. O desemprego, nesse sentido, não constitui
o único fator explicativo para o fenômeno da informalidade. Em última
instância, é o ethos que faz com que os sujeitos legitimem-na socialmente, no
momento em que estão imbuídos do desejo de ser patrão, de estar no topo da
cadeia, de trabalhar por si próprio e, principalmente, de mandar. Podemos
dizer, lato sensu, que o trabalho informal é resultado tanto das condições
materiais produtoras de desigualdade, como da subjetividade dos indivíduos,
motivados por um espírito empreendedor.
Tal espírito empreendedor, entretanto, não parece estar relacionado com uma
ética religiosa - conforme sugeriria uma análise werberiana -, mas antes a um
fenômeno contemporâneo da cultura do trabalho, definido por Machado da Silva
como "empregabilidade/empreendedorismo". Na visão do autor, trata-se de
mecanismos de convencimento ideológico "cuja característica mais fundamental é
a individualização e subjetivação dos controles que organizam a vida social,
inclusive a produção material" (2002, p. 101).
Durante o processo de pesquisa, pude perceber que se destaca um pensamento que
pode ser sintetizado na seguinte frase: se é para trabalhar como 'escravo (a)',
prefiro ser escravo (a) de mim mesmo (a). Uma mistura de poder e sentimento de
libertação é o que move esse sistema de ponta a ponta. Na China pós-Mao, isso é
um fato notório. O processo de abertura constituiu uma mola propulsora para a
abertura de uma multiplicidade dos mais variados negócios (formais e informais,
lícitos e ilícitos), além do surgimento de novas elites empresariais no país.
A reforma econômica do país, encabeçada por Deng Xiaoping, trouxe uma nova era,
cujo valor primordial se caracteriza por prosperidade. A partir de 1979,
abriram-se quatro Zonas Econômicas Especiais. A cidade de Shenzhen (localizada
na Província de Guangdong, fronteira com Hong Kong) foi a que mais prosperou, e
hoje constitui a "janela chinesa para o mundo" em termos de riqueza,
crescimento e desenvolvimento. Guangdong é a província que detém o maior PIB da
China, concentrando mais de 1/3 de toda a indústria do país na região conhecida
como "O Grande Delta [do Rio da Pérola]".4
O boom de Guangdong foi um processo avassalador. A China, ou melhor, suas ZEE e
a região do Delta, devoram o capitalismo e sugam seus valores. Pessoas falam o
tempo inteiro em dinheiro - uma narrativa onipresente e um valor legítimo em
tempos atuais. Houve uma verdadeira corrida empresarial em que todos desejavam
ser patrões. "Entre um bilhão de pessoas, 900 milhões dizem-se empresários e
100 milhões esperam abrir um negócio", ironiza o ditado popular chinês. Ser
"empresário bem-sucedido" é um valor a ser alcançado, símbolo de status de uma
nova era de bem-estar social.
O caminho para essa prosperidade, contudo, não era a questão decisiva no
pensamento de Deng Xiaoping. Na realidade, a reforma econômica da China trouxe
consigo uma mensagem clara de que "ficar rico é glorioso" - segundo palavras de
Deng. Conforme me explicava Hu, um entrevistado de 32 anos, empresário de
Shenzhen na área de bebidas alcoólicas:
Não importa se o gato é preto ou branco, desde que morda os ratos. Na
China, o importante era começar e desenvolver. Tivemos muito
incentivo para isso do governo, a pobreza era imensa, não importava
se o negócio era de "coisa preta", ninguém gosta de gato preto, mas
os gatos pretos sabem morder os ratos e então fazem o que tem que
fazer, que nem os brancos. A pirataria dá emprego e é isso que
importa. Zuo ba! Faça!
A frase grifada - escutada inúmeras vezes ao longo do trabalho de campo - foi
ressignificada, incorporada e manipulada para os usos que fossem convenientes.
A idéia era crescer rapidamente, fazer com que as economias locais se
desenvolvessem e realocar capital. Para tanto, o mercado de cópias era o
caminho mais veloz, visto que dispensava a qualidade e a precisão em nome da
produção em massa e descuidada. Na realidade, o boom da economia da China está
imbricado à explosão do mercado de bugigangas e falsificações. A diretriz que
vinha do governo incitava um desenvolvimento rápido da indústria que abarcasse,
assim, um grande contingente de mão-de-obra, especialmente advinda da zona
rural, onde a pobreza era extremada. Segundo a unanimidade dos relatos dos
entrevistados, havia uma espécie de acordo tácito entre governo e população, no
qual qualquer um que quisesse abrir uma fábrica teria incentivo e facilitações,
na medida em que a meta mais urgente era justamente "fazer dinheiro" e gerar
empregos nas comunidades locais. Em seguida, o negócio deveria ser cada vez
mais regulamentado. Era necessário, então, dar um primeiro impulso na economia
e, nesse sentido, as falsificações constituíam um dos meios mais eficazes -
nada se cria, tudo se copia -, uma vez que não necessitam dos processos de
criação e de marketing, por exemplo.
Sob a leniência do Estado ou consentimento calado, houve uma disseminação da
informalidade das condições de trabalho atreladas a um sistema mercantil
ilícito, de produção de falsificações. Fábricas e mais fábricas surgiram ao
longo do Delta, uniformizando uma paisagem cinzenta. A explosão desse mercado,
em grande parte, não foi regulamentada, ao menos para investidores chineses (o
que não aconteceu da mesma forma para estrangeiros). Todos aqueles que
desejaram abrir uma empresa conseguiram fazer. A corrida empresarial não cessa
até os dias de hoje e, em detrimentos de outras áreas, a preferência sempre é
trabalhar para si próprio.
Um fabricante de bolsas de grifes italianas entrevistado, sócio de uma fábrica
em PingHu (entorno de Shenzhen), disse-me que estava consciente de que seus
empregados não permanecem muito tempo no emprego e, no momento em que têm uma
oportunidade, abrem uma fabriqueta, não longe da dele, para fazer cópias do que
lá se produz. Na mesma direção, depoimentos de diretores-executivos das maiores
companhias do mundo presentes na China concordam que uma das maiores
dificuldades de se instalar no país é o fato de que os empregados, tão logo
adquiram know-how, demitem-se e abrem um negócio, o que acontece de forma
incontrolável (Fernadez e Underwood, 2006).
O resultado dessa disseminação de empresas e empresários é um sistema cujos
direitos trabalhistas são frágeis. Quando existem as leis, elas raramente são
cumpridas. Em suma, abre-se um negócio sem grandes critérios e, para tanto, não
há um aparato fiscalizador estruturado, mas antes uma malha de autoridades
engajadas nesse modelo de crescimento. Salário mínimo, punição para excesso de
trabalho, seguridade e salubridade são conquistas recentes dos movimentos
sociais, porém ainda distante da realidade trabalhista em sua concretude.5 A
corrida empresarial inaugurada nos anos de 1980 também explica a disseminação
não apenas de fábricas, mas de shoppings, lojas e vendedores ambulantes ao
longo da região do Delta. Os níveis de informalidade nesse processo são
soberanos.6 Em suma, regulariza-se formalmente um estabelecimento, entretanto
atua-se, na maioria das vezes, sob caminhos informais na contratação de mão-de-
obra e no pagamento de impostos.
A abertura de negócios para comercializar esses produtos característicos da
pequena e média indústria da China (as bugigangas) aconteceu em níveis locais e
transacionais. Ao passo que muitos migrantes chineses foram para Guangdong,
somando um movimento de dezenas de milhões de pessoas (cf. Li, 2001; Pan, 2006;
Solinger, 1999), os próprios cantoneses dirigiram-se além-mar, o que explica a
sua chegada a Ciudad del Este nos anos de 1980, logo após a instalação dos
taiwaneses, que estavam lá desde a década anterior devido às relações
diplomáticas que Taiwan mantém com o Paraguai. Na fronteiriça Ciudad del Este,
há cerca de 10 mil chineses da ilha e do continente chinês e, nesse
contingente, praticamente inexistem empregados, já que a maioria deles trabalha
como proprietário de loja, importando as bugigangas de Guangdong e revendendo-
as para os sacoleiros brasileiros.
No Brasil, a partir dos anos de 1980, com mais força na década seguinte,
passamos a perceber a presença cada vez mais contundente de produtos made in
China nos mercados populares, porém não somente neles. O boom da economia
chinesa teve efeitos imediatos e vultosos sobre os antigos comércios de rua
brasileiros, os quais, antes da década de 1980, vendiam mercadorias
"inocentes", tais como artesanato e alimentos. A fabricação em massa do Delta e
a mediação dos chineses do Paraguai fizeram com que camelôs do Brasil inteiro
passassem a se caracterizar pela muamba paraguaia feita na China, especialmente
após a inauguração da Ponte Amizade, que une Foz do Iguaçu a Ciudad del Este. É
importante atentar para um fato: muito antes de se ouvir falar no senso comum a
respeito de enriquecimento da China, dragão chinês ou "novo império mundial", o
mercado popular brasileiro, sob redes informais de economia, já comercializava
produtos daquele país e já sentia os efeitos do desenvolvimento da indústria de
Guangdong. A "globalização popular e não-hegemônica" (Ribeiro, 2007), nesse
sentido, foi muito mais veloz em termos de comunicação e comercialização com a
China, até porque os fluxos informais tendem a ser menos burocráticos e,
portanto, mais rápidos.
Embora seja notório que o desemprego que aumentou no país a partir dos anos de
1990 - quando a economia se abriu para o neoliberalismo - seja a principal
causa do alastramento de trabalhadores ambulantes nos principais centros
urbanos brasileiros, ele certamente não é a única variável explicativa. A
etnografia que realizei em Porto Alegre mostrou isso claramente. De um lado,
pessoas iam trabalhar na rua como alternativa ao desemprego. O discurso padrão
era que lá encontravam o último recurso de trabalho antes de recorrer ao crime
e ao tráfico de drogas. De outro lado, o desemprego não explica por que uma
família de camelôs que ganhava relativamente bem em torno de uma mesma banca e
dividia os lucros (conforme hierarquia) não conseguia se manter unida e, tão
logo fosse possível, desintegrava-se em diversas outras bancas individuais
cujos ganhos eram inferiores. Há uma dimensão subjetiva nesses casos que deve
ser levada em consideração para que apreendamos os sentidos da ramificação
infindável dessa cadeia.
No âmbito das famílias e das redes de vizinhança de trabalho, existe uma
sustentação de reciprocidades bastante resistente. Isso permite que os
vendedores consigam enfrentar as dificuldades de trabalhar na rua, como as
condições climáticas e a fiscalização. Todavia, não diminui o alto nível de
competição interna. O objetivo é sempre vender e, para tanto, se for necessário
"passar por cima do outro, comer o outro" (segundo palavras de uma informante),
assim será. No camelódromo de Porto Alegre existe, inclusive, uma "lei": "Lei
Obririci: cada um por si".
Enquanto uma mesma família trabalha unida, há igualmente a hierarquia de
patrões e empregados, sendo os últimos tratados de forma impessoal e recebendo
ordens ríspidas. Em geral, as bancas funcionam como pequenas empresas
familiares patriarcais e patrilineares. Por exemplo, Rui (65 anos), um dos
vendedores mais antigos do Centro, não teve filhos homens, então quem gerencia
o negócio é o seu genro, marido de sua filha consangüínea. Ele tinha também
duas filhas adotivas, as quais ganhavam a menor parte dos lucros. O genro, por
seu turno, assim que pôde alugou para si uma das bancas do sogro, em virtude de
que, conforme suas palavras, não agüentava mais "engolir sapo".
Ser empregado de banca de CDs é o mais baixo posto da camelotagem na
configuração observada. Depois, é possível que passe a ser empregado de uma
outra banca qualquer e, finalmente, dono de banca. Quem consegue ter mais de
uma é o "grande patrão". Ao longo da pesquisa, observei vários casos de
empregados que tentaram abrir seu próprio negócio. Kelly (22 anos), a filha
adotiva de Rui, que trabalhava para o pai, decidiu abrir um negócio próprio de
venda de sanduíches no camelódromo. Porém, ela teve dificuldades para se manter
já que existe uma extensa rede de vendedores de alimentos naquele complexo. O
mesmo aconteceu com a nora de Dona Dalva (62 anos), uma antiga camelô: quando
brigou com o marido, abriu uma humilde banca na frente, afrontando o
companheiro e a sogra.
Nessas breves ilustrações, percebemos que o desejo de trabalhar para si próprio
não se configura como um ato isolado, mas relacional. O poder só ganha sentido
dentro de uma microconfiguração social. É uma questão de honra. Uma vez que o
posto de empregado não é legitimado por instâncias regulamentadoras de uma
empresa, nem previsto pela CLT, as relações de poder hierárquicas acabam sendo
sustentadas única e exclusivamente pela palavra e pela honra, códigos informais
que podem ser tão resistentes e eficazes quanto frágeis e quebradiços. A
garantia de que uma pessoa vai continuar trabalhando para outra está pautada
apenas em um acordo verbal, que pode ser facilmente questionado e rompido.
Fazendo os caminhos para Ciudad del Este junto com os camelôs/sacoleiros,
passei a observar que esse ofício era um dos mais altos dentro desse universo
do contrabando que vem do Paraguai. Há uma extensa cadeia abaixo dos
sacoleiros. Eles "contratam" o seu "laranja". Um laranja é alguém que
atravessará a Ponte da Amizade com parte das mercadorias do contratante. Nas
ocasiões observadas, no final do dia, depois de comprar em diversas lojas, o
sacoleiro procurava seu "laranja", dirigia-se com ele a um ponto de encontro,
onde as mercadorias eram arrumadas (espremidas) nas sacolas. O "laranja",
então, ia buscá-las de loja em loja por onde o patrão havia deixado as sacolas
e carregava-as nas costas pelas ruelas íngremes de Ciudad del Este. Quando não
agüentava mais o peso, ele mesmo contratava um "carrinheiro", que é um sujeito
que possui um carrinho de ferro para transportar as mercadorias. O "laranja",
que ganharia quinze reais para fazer todo o trabalho, pagava ao carrinheiro
(três reais) e seu ganho diminuía para doze reais.
Não eram raras as situações em que os sacoleiros tratavam os "laranjas" de
forma ríspida, sob ordens furiosas, alegando que o trabalho estava lento. Os
contratados aceitavam e, assim que podiam, faziam o mesmo com alguém
imediatamente inferior na cadeia de trabalho. Quando um sacoleiro tinha muitas
sacolas (a Polícia Federal aceitava naquele período mais ou menos três), um
"laranja" apenas não era suficiente para dividi-las. Então, o sacoleiro culpava
o seu subalterno por não ser capaz de acomodar tudo em poucas sacolas.
Incorporando a culpa para si - e dizendo "desculpa, patrão" -, o "laranja"
acabava contratando outro "laranja", que era o seu assistente e, sobre o qual,
reproduzia o discurso de seu superior. O ganho do primeiro, que já estava em
doze reais, passava a ser de sete. Não é impossível que o próprio assistente
chame alguém (criança ou adolescente) por um ou dois reais para lhe ajudar
igualmente.7 Nesse universo de "patrões", a cadeia de subcontratações só se
finda quando chega ao limite da precariedade. Trata-se de um processo de
terceirização de serviços informal por excelência, sem qualquer respaldo
formal.
Nessa perspectiva, mercados informais não constituem uma expressão caótica:
eles têm ordem, forma e lógica. De acordo com inúmeras pesquisas empíricas
recentes e/ou em andamento que abarcam desde os mercados populares
metropolitanos no Brasil, bem como a Ciudad del Este, percebemos que nessa
economia informal existe um sistema estruturado de trabalho, auto-regulável,
marcado por códigos, lógicas e hierarquias próprias (Mafra, 2005; Pinheiro-
Machado, 2005; Pires, 2005, 2006; Rabossi, 2001, 2004; Silva, 2007; Silveira,
2007). No entanto, essas práticas estão sustentadas, na maioria das vezes,
somente pelo contrato oral e, assim, podem constituir sistemas frágeis.
Da fabriqueta da China à banca de camelô, tão logo um trabalhador aprenda o
know-how, ele procura trabalhar para si próprio. A relação capitalista patrão-
empregado, assim, passa a ser imediatamente ritualizada, expressando as
relações de poder que ela evoca. Nesse circuito transnacional de mercado,
embora sob manifestações diferentes, sobressai um "ethos empreendedor", que não
deixa de ser a própria narrativa/ideologia capitalista internalizada e
reproduzida. No processo observado, os maiores "níveis de formalidade"
acontecem na fábrica de bugigangas na China; a partir daí até o fim da cadeia,
passa a existir uma ramificação que vai sendo cada vez mais precária até chegar
à condição de, por exemplo, "assistente de laranja" ou "empregado de camelô".
Ainda que haja casos de sucesso, quando um trabalhador se demite para trabalhar
por conta própria, tende a haver um decréscimo das condições de trabalho em
geral, já que se começa com menos capital, poucos clientes etc. O operário que
abre uma fabriqueta oferecerá condições mais precárias aos seus empregados, em
virtude de que os níveis de informalização tendem a crescer numa constante. O
mesmo ocorre com um empregado de banca que vai abrir seu próprio negócio.
Interpenetração, terceirização e o mercado de réplicas8
Chamo de interpenetração as práticas mercantis observadas em que o "informal"
e/ou o "ilícito" estavam alojadas no "setor formal" e vice-versa. É semelhante,
por exemplo, a casos de empresas multinacionais consideradas verdadeiros
"setores formais", cuja relação com os empregados acontece, sobremaneira, via
caminhos informais.
Nem tudo que é informal é ilícito. Todavia, a lógica levaria à conclusão
simples de que o que é ilícito é informal. Na China, isso não é verdade. Boa
parte das falsificações (ilícito) surge por caminhos legais. Muitas vezes,
podemos estar diante de um produto "pirata" em uma banca de camelô qualquer,
por exemplo, e se remontarmos a sua cadeia comercial, chegando até onde ela foi
produzida, não encontraremos nenhum (ou quase nenhum) comércio ilícito. Eis a
grande complexidade desse mercado e o que o torna tão abstrato.
A terceirização da produção é a chave explicativa e, ao mesmo tempo,
escorregadia, desse fenômeno. O imaginário a respeito de pirataria na China
está muito relacionado com uma idéia de fabriquetas clandestinas, sujas e
escuras, pautadas pelo trabalho escravo e pelo mercado negro. Na realidade,
isso é muito mais um imaginário a respeito da pirataria do que o real sistema
por intermédio do qual ela opera. No momento em que me dirigi à zona do Delta
para fazer trabalho de campo, estava imbuída dessas representações e, confesso,
foi um tanto frustrante descobrir que o mundo da produção de falsificações era
quase todo realizado por fábricas estabelecidas, modernas e regulamentadas.
Tudo aparentemente formal e legal. Na realidade, a maioria das fábricas produz
mercadorias lícitas e, apenas no decorrer de um infindável processo de
terceirização, encontrei uma brecha desse sistema, onde o logotipo da marca
falsificada seria impresso. Vejamos, abaixo, alguns exemplos.
Num atacado de Shenzhen, eram vendidas réplicas de relógios Rolex, Gucci,
D&G, Cartier etc. Aquele estabelecimento era o maior do mundo nesse ramo
comercial: um prédio de cinco andares com corredores imensos. Havia todas as
variedades de produtos, muitos deles nem tinham chegado ao Paraguai e ao
Brasil. Peguei o cartão de visita de uma das lojas que vendia tais cópias e ali
estava o endereço da fábrica, o que me chamou atenção, justamente por ser um
mercado ilegal. Como eu estava na companhia de um empresário chinês, consegui
negociar uma ida àquele estabelecimento. Para minha surpresa, eles só
fabricavam as fivelas dos relógios e as revendiam para outra empresa, também
regulamentada, que fabricava relógios de acordo com os pedidos dos clientes,
igualmente pessoas jurídicas cadastradas. Um cliente podia ser detentor de uma
marca qualquer registrada e encomendar um número "x" de relógios. Este coloca
sobre o produto a sua marca, que pode ser famosa, pode ser uma desconhecida ou
pode imprimir sobre o produto a imitação de um logotipo de uma marca.
Uma outra situação relacionada com o comércio de relógios, por exemplo, é
quando um determinado grupo de pessoas compra fivelas de uma fábrica, pulseiras
de outra, manda imprimir o logotipo da marca numa gráfica e, assim, monta
réplicas de relógios. Esse grupo pode ser o mesmo que detém a fábrica de
fivelas, pode ser formado por funcionários da mesma, ou não ter relação alguma.
No caso da loja do atacado, visivelmente os vendedores das falsificações tinham
relações diretas com a fábrica, porém a aparição pública da mesma era
impecável. Na realidade, trata-se da mesma situação de um sujeito que em vez de
sonegar todos os seus rendimentos, sonega 80% e declara os outros 20%; ou a
empresa que assina carteira de trabalho de apenas parte dos funcionários.
Mantém-se sempre uma relação parcial (e vital) com a legalidade.
Vejamos o exemplo das réplicas de bolsas. Na etnografia que realizei numa
fábrica original de grifes italianas, também em Shenzhen, pude constatar que
muito da matéria-prima fornecida a essa empresa era a mesma que o falsificador
usava. Nesses casos paralelos de produção, os limites entre o lícito e o
ilícito, sob o ponto de vista das propriedades intrínsecas da mercadoria, eram
definidos pelo critério de quem, afinal, imprimia a marca sobre o objeto (o
poder legitimador da grande empresa de detentora da marca registrada), já que
original e cópia, em algumas situações, podiam compartilhar de alguns
componentes comprados nos mesmos lugares.
Os brinquedos fabricados na China constituem um dos melhores exemplos do que
representa esse mercado de bugigangas que chega ao Brasil. Numa fábrica da
cidade de Longguan, encontrei exatamente aqueles produtos característicos de
camelôs e lojas do "1,99", em que a marca parece ser apenas o made in China. O
estabelecimento era todo legalizado, e o proprietário esforçava-se para afirmar
que todas as condições de trabalho dos operários estavam de acordo com as
legislações específicas locais (salário mínimo), bem como as nacionais (número
de horas de trabalho mensal permitido por lei). Ao ficar conhecendo esse tipo
de fábrica, da mesma forma como a fábrica de fivelas, aumentava minha
dificuldade de entender onde, enfim, era feito o produto falsificado, se tudo o
que eu encontrava eram fábricas com pouca "margem de contravenção". Em
entrevista, o proprietário da fábrica mostrou, então, que fornecia determinados
ursos de pelúcia para uma grande marca holandesa, porém se algum cliente (uma
exportadora) pedisse o mesmo brinquedo (uma cópia), assim o faria, em função de
que só estaria cumprindo uma ordem. A responsabilidade, portanto, não era dele.
O que pretendo pontuar com esses exemplos (que constituem apenas algumas poucas
situações, entre tantos outros modos de viabilizar as cópias) é que a produção
em si pode ocorrer totalmente dentro de critérios legais, inseridos num mercado
aparentemente formal. Na realidade, a longa cadeia de terceirização de
fornecedores faz com que se camufle a identificação clara de onde ocorre o
ilícito. Existem feixes de ilegalidade que atuam nas brechas desse sistema. É
possível que um bem falsificado que chega a uma loja do Paraguai, tendo
inclusive passado pela importação/exportação e feito na fábrica chinesa, tenha
o seu processo todo dentro de parâmetros regulamentados (formais e lícitos),
como já salientei anteriormente. O mercado de falsificação em níveis
transnacionais não se materializa em um grande setor informal e ilícito, mas
antes como práticas alojadas no seio do mundo da legalidade. São exatamente
esses fatores que confundem todo o processo.
Em relação a esse tipo de situação, alguns casos tornaram-se notáveis na mídia
nacional e internacional no ano de 2007. O primeiro tinha a ver com remédios
falsificados que apareceram no Panamá e tinham sido importados através de
importante laboratório multinacional. O segundo refere-se da mesma forma a uma
multinacional de brinquedos que foi obrigada a recolher os produtos do mercado
em virtude de que se encontraram peças "genéricas" dentro deles. Tratava-se de
companhias renomadas no mercado internacional, cujos controles de qualidade
eram anunciados como impecáveis. Essas empresas, ao perceberem a gravidade do
problema, culparam a fábrica ou o laboratório chinês terceirizado. Estes, por
sua vez, culpavam os fornecedores de matéria-prima, alegando que os
contratantes pressionavam por preços irrisórios. Identificar um culpado nesses
casos é uma tarefa desafiadora. Tais exemplos são interessantes para pensar de
que forma o ilícito aparece dentro do universo do mercado regulamentado. Nesse
sentido, é muito comum também que um camelô ou um comerciante chinês do
Paraguai esteja convicto de que seu produto seja original, estando alienado de
toda a complexa cadeia produtiva que o precede.
As fábricas supramencionadas que visitei estavam legalizadas, registradas,
cumprindo quesitos da legislação trabalhista e produzindo produtos e/ou
componentes lícitos. Na realidade, esses estabelecimentos da pequena e média
indústria da China, apesar de regulamentados, são atravessados por inúmeras
práticas informais e, por ventura, ilícitas. Conforme já mencionei, em geral,
essas firmas extrapolam o permitido legalmente, contratando a maioria dos
funcionários via caminhos informais (crianças e adolescentes, como eu mesma
pude observar em campo) e ultrapassando os limites de hora-extra.9
Se os "setores formais" de uma parte da produção da pequena e média indústria
da China são atravessados por práticas informais e ilícitas, também é verdade
que os grandes "setores informais" etnografados (como o camelódromo), que
constituem a outra ponta da cadeia comercial, são permeados por práticas
formais. Muitos vendedores de Porto Alegre estavam legalizados pela prefeitura
municipal, e essa própria condição os estimulava a comprar produtos em São
Paulo ou em atacados (evitando o contrabando). Além disso, não foram poucos os
camelôs que, mesmo se contrabandeassem mercadorias do Paraguai, procuravam
abrir uma pequena empresa e assinar carteira de trabalho dos assistentes.
Comparando os empresários chineses pesquisados com os camelôs, ou seja, os
atores sociais que ao longo da cadeia produtiva concebem e viabilizam o
comércio, é possível dizer que, no início e no meio de tal cadeia, nas fábricas
da China e nas lojas do Paraguai, o sistema começa mais formal, porém permeado
por práticas informais. Já o final da cadeia observada tende a se constituir
como um grande setor informal, que são os mercados de rua, entretanto seus
atores podem se utilizar de meios formais, inclusive como uma estratégia de
legitimação social e valorização moral, bem como uma espécie de fuga ao
estereótipo de "contrabandista" e "mafioso" tão banalizado nos meios de
comunicação.
Na China, mesmo diante do abuso das condições de trabalho e da própria natureza
do que se comercializa, a zona industrial do Delta é exemplar de um grande
setor formal, respaldado pelo Estado. No Paraguai, o mesmo acontece com o
comércio estabelecido de Ciudad del Este, uma vez que é vital para alicerçar a
economia do país que detém um dos menores PIB do mundo. Já no Brasil, tal
sistema não se configura da mesma forma, visto que a tolerância oficial em
relação a essas práticas é menor por parte do Estado e até mesmo por alguns
setores da sociedade. Isso não significa que o país tenha menores níveis de
informalidade, apenas que o papel social que se atribui a ela seja moralmente
inferior.
Metamorfoses
Na medida em que metamorfose significa mudanças sofridas em um mesmo ser, aqui
os seres são mercadorias que, dependendo por onde transitam e como transitam,
assumem ora a face da legalidade/formalidade, ora da ilicitude/informalidade.
Se fizermos o esforço de conceber diversas possibilidades de rotas das
mercadorias da fábrica até o destino final, perceberemos que o processo todo
vai oscilando entre jogos de luzes, alternando o claro e o escuro.
A primeira questão que devemos discutir em se tratando de uma rota
transnacional é que a própria noção de informalidade e ilícito tem a ver com o
que cada Estado-nação convenciona normativamente como legal. Boa parte do que é
considerado contrabando no Brasil (ilícito), no Paraguai não o é. Isso em
função de que as normas paraguaias de entrada de mercadoria do exterior são
muito mais flexíveis quando comparadas às brasileiras. Mesmo sendo menos
restritivas, no Paraguai há um comprometimento tácito das mais diversas
autoridades em "deixar passar" as mercadorias, sob o entendimento de que aquele
comércio da fronteira é vital para o país. O mesmo ocorre na China em relação à
noção de Propriedade Intelectual. "Copiar" como meio fácil de crescer e gerar
empregos não foi uma idéia surgida descolada ou paralela ao Estado. A obrigação
de respeitar o registro de patente é muito recente naquele país, especialmente
após a sua entrada na Organização Mundial do Comércio, pois isso o força a
cumprir os acordos internacionalmente convencionados. O que não significa,
entretanto, que entre os agentes do Estado não haja uma postura de laissez-
faire. No Brasil, a situação é diferente. Embora o contrabando e a pirataria
sejam realidades expressivas, bem como a corrupção de autoridades em relação a
essas práticas, sob o ponto de vista econômico, não se trata de algo crucial
para o desenvolvimento. Ao contrário, macroestruturalmente, é visto como
prejudicial. A construção social a respeito desse comércio o atrela àquilo que
é criminoso, sujo e ilegal.10
Remontando algumas rotas da China ao Brasil, poder-se-á notar claramente o
quanto o campo semântico sobre o qual se debruça este artigo é nebuloso e
confuso. Comecemos analisando o ponto de partida: o status da fábrica.11
1. Fábrica 1: Produz bolsas de grife, cumpre as normas trabalhistas e paga
todos os impostos. Trata-se de um mercado lícito e formal.
2. Fábrica 2: Produz bugigangas (brinquedos, eletrônicos, produtos de
plástico) de marca chinesa e passa a ser lícito. Embora seja considerado
um caso do mercado formal, as relações de trabalho são mistas (formais e
informais).
3. Fábrica 3: Produz relógios. Em vez de fazer cópias idênticas de um Rolex,
a empresa registra sua marca chinesa "Dolex". Na China, esse comércio vai
ser lícito, mas será proibido na Europa, por exemplo, em função de que
esse produto será considerado igualmente uma forma de imitação. As
relações de trabalho são mistas, sobressaindo-se as informais.
4. Fábrica 4: Produz um produto qualquer sem marca com o intuito de fornecer
a terceiros, exportação etc. As relações de trabalho são formais em sua
maioria, ainda que pratique excessos de carga horária. Esse tipo de
produção é a mais comum na China e chama-se B2B (Business to Business),
que significa que o fabricante não tem relação com a marca e o marketing,
ele apenas revende um produto. É um mercado lícito, porém pode passar a
ser imediatamente ilícito assim que alguém comprar o produto e imprimir
uma marca da qual não se tem Registro de Propriedade Intelectual.
5. Fábrica 5: Produz falsificações numa fabriqueta caseira e não registrada,
os funcionários estão em situação informal; portanto, trata-se de um caso
de mercado ilícito e informal.
Saindo da fábrica, todas as situações indicadas podem mudar seu status.
Adiante, seguem alguns dos movimentos possíveis de mercadorias chinesas que
chegam ao Brasil. Elas irão metamorfosear-se entre lícito/formal e ilícito/
informal. A variação desses casos não é subjetiva. Trata-se de oscilações
concretas baseadas no status da mercadoria segundo a maneira como é
comercializada. Todos os exemplos levantados são situações já observadas no
universo empírico.
Tabela_1
Entre um "Dolex" e um "Rolex", existe uma infinidade de possibilidades e
gradações entre o lícito e o ilícito. Isso porque a própria concepção do que
doque é uma imitação envolve níveis de subjetividade, à exceção daqueles
produtos que possuem verossimilhança, não alterando o nome da marca. Um "Dolex"
pode vir a ser acusado como imitação pela própria Rolex, a qual poderá entrar
com pedidos judiciais de recolhimento do produto em cada país onde é vendido,
solicitando a ajuda das autoridades policiais para a realização das apreensões.
Essa decisão política, no entanto, não é automática e varia de país para país,
especialmente de acordo com a tolerância e o nível de dependência que se tem em
relação ao mercado informal.
Esses exemplos mostram um dos fatos mais curiosos desse marcado popular
transnacional que une o Brasil à China: o limite confuso entre uma bugiganga
chinesa (sem marca, de marca desconhecida e uma falsificação), visto que, como
mostrado, muitas vezes, pode se tratar do mesmo produto, feito com os mesmos
materiais e no mesmo lugar. Produtos como o "Dolex", por exemplo, certamente
serão considerados mais ilícitos numa banca de camelô irregular do que numa
loja representativa do mercado formal. Falsificações diretas, por seu turno, já
não fornecem essa margem de interpretação e são consideradas internacionalmente
(sob o ponto de vista ideal estatal e dos princípios da regulamentação do
mercado) ilícitas.
Mutualismo
Mesmo sendo um comércio ilícito, as falsificações percorrem seu curso mercantil
com facilidade, uma vez que ele depende, em grande medida, da tolerância do
Estado e dos interesses de seus agentes em relação a tal prática. Um dos
exemplos mais bem acabados acerca dessa constatação é o shopping LouHu de
Shenzhen: seis andares de construção envidraçada, onde se vendem somente
imitações em lojas estabelecidas. Nada semelhante a qualquer idéia de mercado
negro. Um dos maiores templos do comércio de falsificações do mundo num prédio
que possui conexão direta com o prédio da Alfândega.
Conforme aponta Lautier (1991), o problema da noção de "setor informal" e
"formal" é que eles são vistos como blocos estanques. De um lado,
contrabandistas, vendedores de rua etc.; de outro, o Estado, as empresas
estabelecidas, as multinacionais. O conceito de setor não abarca, por exemplo,
situações múltiplas de interpenetrações como vistas neste artigo. O autor fala
das relações de clientelismo como um exemplo em que práticas informais estão
entrelaçadas ao Estado. Para ele, a corrupção é constitutiva do próprio
aparelho estatal e de suas formas de manutenção do controle.
Muitas vezes, o informal e o formal possuem uma relação de benefício-mútuo.
Tais práticas de "mutualismo" foram exaustivamente observadas durante meu
trabalho de campo e, sem dúvida, aquela que aparecia com mais freqüência era a
existente entre comerciantes e agentes do poder estatal. Na esfera do mercado
ilícito em geral, existem duas dimensões da atuação do Estado, uma de caráter
público e outra, privado. A primeira é efêmera e concerne aos processos
fiscalizadores: trata-se de esporádicas e performatizadas batidas policiais. O
poder estatal materializa-se nessas grandes operações midiatizadas, e os seus
agentes encarnam o papel público que representam. Uma análise de materiais dos
meios de comunicação coletados entre 1997 e 2007 sobre tais fiscalizações
aponta que a matriz de significado dessas operações é exatamente igual na
China, no Paraguai e no Brasil, constituindo-se uma forma de resposta do Estado
à sociedade a respeito do fenômeno da pirataria. Na década analisada, as
manchetes dos jornais mantêm a mesma estrutura (quando não são idênticas) e
anunciam o "fim" desse mercado (por exemplo, "Realizada maior apreensão de
contrabando dos últimos anos", "Crackdown on Piracy" etc.). Depois há um
período de silêncio, o comércio volta ao normal até que uma nova batida surja.
Trata-se de um fenômeno cíclico.
A outra dimensão é contínua e envolve as negociações da vida ordinária que
coloca frente a frente comerciante e autoridade. Conforme Misse (2006), trata-
se das "ligações perigosas" mantidas entre mercados informais e o Estado por
meio de trocas de "mercadorias políticas", como o clientelismo e a corrupção.
Nas viagens para o Paraguai, um dos sacoleiros que fazia as excursões tinha uma
banca de CDs na cidade, entretanto também revendia, no Paraguai, aparelhos
celulares roubados em Porto Alegre. Ele tinha uma sócia nesse negócio, sua
esposa, que ocupava alto cargo na polícia da fronteira. Ela atravessava a Ponte
da Amizade com a sacola cheia de telefones. Os sacoleiros costumavam realizar
uma "caixinha", que era um valor rateado entre todos para que fosse dado ao
policial que os barrassem na estrada. Beto, um camelô que buscava brinquedos,
dizia-me: "as minhas porcarias eles não gostam. Eles gostam de aparelhos de CD
para carro, informática... Então a gente junta esse valor que já sabe que dá
certinho para o que eles querem". Os policiais e/ou fiscais (estaduais ou
federais) eram chamados de "mosquitinhos" pelos sacoleiros, com referência ao
inseto sanguessuga, representativo do ato de propina.
No Paraguai, imigrantes proprietários de loja viviam em desacordo com os
agentes do Estado. Os comerciantes necessitavam de forma vital da tolerância
das autoridades para a obtenção de moradia, regulamentação da loja e da própria
legalização da permanência no país. As autoridades facilitavam todas essas
condições em troca de algum dinheiro, muitas vezes usado com a finalidade de
equipar a própria polícia local. Esse tipo de trocas também era comum no
contexto da zona fabril do Delta, onde realizei etnografia. Nas redondezas da
cidade industrial de Dongguan e de Shenzhen, vários informantes falaram-me sem
constrangimento acerca da prática da "gaveta". Se o comerciante queria negociar
as taxas de impostos que, em tese, seriam inegociáveis, ele deveria colaborar:
o policial abre a gaveta e o comerciante imediatamente entende que naquele
gesto está perguntando quanto esse comerciante está disposto a pagar, o quão
grande é a sua boa vontade. Na China, especialmente, a estreita relação dos
tecnocratas com empresários e com a sociedade de modo geral é fato notório (cf.
Redding, 1991). Ela é constitutiva do próprio crescimento econômico. Policias e
empresários estão atrelados uns aos outros, unindo o capital econômico ao poder
burocrático. Nesse contexto, tradicionais banquetes chineses e demais dádivas
são freqüentemente acionados pelos empresários, a fim de agraciar os policiais
que possam ser úteis em seu entourage (Pinheiro-Machado, 2007).
Essa íntima relação entre agentes do Estado e comerciantes é crucial para o
entendimento da permanência e do fortalecimento desse ramo de mercado que
possui um grande nível de práticas ilegais de ponta a ponta, como o
contrabando, a produção, a circulação e a venda de produtos falsificados e o
trabalho informal. Todo o processo que vai da China ao Brasil só pode ser
viabilizado se sustentado por redes informais de interesses mútuos. O Estado,
ou melhor, os seus atores (encarregados de cumprir a lei e punir) não apenas se
beneficiam da economia informal, como acabam sendo eles mesmos os executores de
práticas informais e ilícitas.
Os casos apresentados até então acerca do mutualismo discorrem sobre interesses
individuais. Analisemos, pois, algumas situações em que podemos conceber
entidades mais coletivas, representativas do mercado formal, que são
beneficiadas e até dependentes do informal. Assim, entendemos já que, longe de
ser marginal ao capitalismo e ao desenvolvimento, a economia informal é parte
estruturante dos mesmos. Os vendedores de rua são responsáveis por levar bens
de consumo às classes de baixa renda, bem como por movimentar a economia em
diversos setores da sociedade ao abrirem conta em banco e crediários e, assim,
tornarem-se igualmente consumidores.
No Centro de Porto Alegre, alguns lojistas dizem que são sustentados pelos
camelôs (especialmente no ramo de alimentação), os quais se tornam os melhores
consumidores, uma vez que pagam em dinheiro e à vista. Eles também abrem
crediário em grandes lojas de eletrodomésticos ou de departamento que existem
nas redondezas. Afinal, o que pude perceber ao longo da pesquisa é que, para a
maioria dos vendedores, comprar produtos em lojas famosas, com garantia de
originalidade, era algo que trazia distinção ante o grupo que já havia
banalizado os produtos vindos do Paraguai.
Embora a reclamação contra os vendedores ambulantes seja um som unívoco oriundo
dos lojistas, é consenso igualmente que eles trazem movimento ao Centro. Com
reestruturação do camelódromo prevista em projeto municipal, lojistas do
entorno temem perder movimento, afinal "eles bagunçam, fazem essa zoeira, mas o
povo passa por aqui por causa deles", como afirmou Sr. Luís, proprietário de
uma loja situada em frente ao principal camelódromo do Centro. Nesse sentido,
esse mercado informal passa a ter importância capital não apenas para as ditas
economias populares, mas para setores inteiros do mercado formal de lojas de
varejo e atacado do Centro da cidade.
A situação nos "caminhos do contrabando" e em Foz do Iguaçu e Ciudad del Este é
bastante semelhante, porém talvez a dependência em relação a esse ramo do
comércio informal seja ainda mais evidente. Ao longo das estradas, existe uma
série de restaurantes que funcionam exclusivamente para servir os sacoleiros.
Estes, quando estão em determinada localidade, telefonam para o estabelecimento
e informam onde estão e, assim, são recebidos com o jantar pronto no horário
determinado. No entorno da Ponte da Amizade, há também algumas churrascarias
que servem exclusivamente comerciantes. Esse tipo de estabelecimento gera cerca
de dez empregos formais cada um.
Todavia, os setores que mais se beneficiam em Foz do Iguaçu são, sem dúvida, o
hoteleiro e o transporte urbano. Empresas oficiais de ônibus argentinas,
brasileiras e paraguaias (as quais aceitam Dólar, Guarani, Real e Peso) são
dependentes das centenas de milhares de pessoas que por lá circulam diariamente
em virtude do comércio. Quando a fiscalização fica rígida, é possível ver o
quão esse setor é afetado diretamente, amargurando itinerários vazios. Empresas
de turismo (formais e informais) também sofrem com os processos de controle de
contrabando da Receita Federal, que tem apreendido milhares de ônibus por ano,
o que pode ser facilmente verificado nos depósitos superlotados que amontoam
veículos barrados. Ademais, o mercado de fronteira gera milhares de empregos
informais concernentes ao transporte de mercadoria pela Ponte, como as vans e
os mototáxis, que começam a se regulamentar e organizar sindicatos (cf.
Rabossi, 2001).
As operações de combate ao contrabando geralmente surgem em épocas festivas,
especialmente no Natal, e caracterizam-se por uma espetacularização desses
momentos, com o uso de satélites e helicópteros, além de atuar sob uma força-
tarefa integrada que reúne diversas polícias e órgãos do governo (Policias
municipais, estaduais, federal, Rodoviária, civil, Receita Federal, além da
Agência de Transporte Terrestre). No ano de 2003, estive em Foz do Iguaçu
durante uma operação que foi a mais estrita, segundo unanimidade dos sacoleiros
e moradores da região. A sensação geral naquele período era de que "a muambagem
acabou" conforme diziam os sacoleiros. Um fator realmente impressionante era
ver setor hoteleiro de Foz do Iguaçu, que é um dos maiores do Brasil,
totalmente vazio e, por conseqüência, a cidade fantasma, silenciada, parecendo
que tinha sido devastada por uma guerra. Já que a Receita Federal estava
apreendendo ônibus, empresas de turismo não estavam realizando as excursões.
Quando o nosso ônibus aproximou-se, um dono de hotel nos barrou no asfalto e
perguntava desolado: "Meu deus, onde estão os sacoleiros?". Os efeitos
desastrosos que o fim da economia informal poderia causar no imenso setor
hoteleiro, do qual Foz do Iguaçu é dependente, eram totalmente visíveis:
pareciam materializados de tão evidentes. Os empregos vindos dos hotéis não se
findam somente naqueles que trabalham nesse estabelecimento, mas, por exemplo,
em toda a estrutura de alimentação e serviços que eles contratam. Além do mais,
afeta a multiplicidade de escolas de inglês e espanhol especializadas em
treinar funcionários para atender nos hotéis. Mesmo que muito se diga no âmbito
da fronteira que os hotéis são sustentados pelo turismo da região (em virtude
das Cataratas e da Tríplice Fronteira), é lugar comum que sem os sacoleiros
somente uma pequena parte desse setor resistiria atuando.
Na China, essa divisão de empregos formais e informais nem pode ser concebida,
já que o comércio de falsificações é realizado, na maioria das vezes, em
grandes shoppings centers estabelecidos. É impossível pensar numa economia de
empregos na região do Delta descolada desse ramo.
Todavia, em se tratando do formal alimentado pelo informal num nível mais amplo
de análise, o caso mais curioso é o próprio reconhecimento de que a pirataria é
o marketing mais eficiente que existe. Afinal, só se copia aquilo que é muito
desejado. Um dos diretores da fábrica que produz bolsas da Dolce & Gabbana
(uma marca que simboliza o consumo de luxo e o mercado hegemônico europeu) foi
enfático, em entrevista concedida a mim, que a marca só era conhecida na China
por causa da pirataria. E brincou: "se não fosse falsificada aí sim nós
teríamos um problema...!". Exemplos de situações como essa, de que o mercado
dominante se beneficia da pirataria como forma de difundir a marca, são
infindáveis e perpassam os principais símbolos do capitalismo global, desde um
software norte-americano até uma bolsa de luxo francesa ou italiana. Podemos
pensar, então, a pirataria como forma de comensalismo e parasitismo: gruda-se a
determinando ser, beneficia-se dele sugando e compartilhando propriedades
materiais. Entretanto, nem parasita nem hospedeiro ficam fracos.
Esses casos que podem acontecer tanto numa microconfiguração (entre o lojista
do Centro com o camelô que fica à sua frente) como entre empresas
transnacionais representativas do capitalismo hegemônico com a pirataria de um
modo geral versam sobre a complicada negociação entre formal e informal. Dessa
forma, tentei esboçar aqui relações de benefício, embora também fosse possível
mostrar o prejuízo que o informal traz ao formal, porém esse ponto de vista já
é bastante difundido nos meios de comunicação e, na realidade, não nos ajuda a
pensar o fenômeno da economia informal de forma menos demonizada e livre de
pré-noções. Afinal, na contemporaneidade, o informal não apenas é uma realidade
de países em desenvolvimento, mas antes uma realidade que acontece
generalizadamente em níveis planetários, sendo parte constitutiva do Estado, do
capitalismo e dos ditos mercados formais.
Considerações finais
Em agosto de 2004, eu estava voltando de uma viagem à Foz do Iguaçu/Ciudad del
Este junto com os sacoleiros. No trajeto, os comerciantes tinham escapado dos
principais postos de fiscalização. O tempo total de viagem tinha sido de 36
horas apenas, entretanto eles faziam questão de parar no meio do caminho e
tomar banho num toalete de estrada. Quando chegou a hora do banho, uma
narrativa generalizada começou a ecoar: "quem vai matar o banho?", "não volto
com gente suja do meu lado" etc. Todos tinham a obrigação de se lavar. Chico, o
informante que eu sempre acompanhava nas viagens, dizia-me: "e o povo acha que
camelô é sujo... nós somos muito mais limpos do que muita gente...". Naquele
ambiente de contrabando e fuga da polícia, ficava evidente que o papel
simbólico da obrigatoriedade do banho era purificar não apenas o corpo, mas a
alma, a consciência de um universo taxado pela ilegalidade e, portanto, por
algum tipo de "sujeira". Por meio do ato de tomar banho, moralizava-se aquele
trajeto permeado pela incerteza e pelo medo.
Assim, mesmo que no âmbito das ciências humanas seja consenso a importância dos
ditos mercados informais para a economia, no senso comum e em alguns setores
dos meios de comunicação ainda impera uma imagem de que essa manifestação do
trabalho é algo residual e "injusto" (Noronha, 2003). Mercados populares de rua
são atrelados à imagem da sujeira, da desordem, da ilegalidade e da corrupção.
A pirataria, por seu turno, é vista como um problema intrínseco a essas esferas
marginais e, portanto, longe de sua manifestação mais global. Todavia, a busca
de raiz desse sistema aponta não para um mercado negro, mas para um modo de
produção regulamentado, embora essa regulamentação também seja relativa.
Certos mercados de rua e/ou populares são freqüentemente apontados como
responsáveis pela distribuição no Brasil de bens chineses de pouca qualidade e/
ou falsificados. Além disso, diariamente ouvimos dizer que esse sistema
mercantil sustenta máfias e lavagem de dinheiro. Uma análise mais próxima a
esse universo, observando sua manifestação global, sugere que a cadeia
produtiva é tão complexa e ramificada e os limites entre um bem falso e um
original são tão tênues, que quando ela chega ao seu fim, muitas vezes, seus
atores não têm clara consciência do que estão comercializando. Na venda de um
brinquedo qualquer, ter conhecimento de sua procedência é tarefa quase
impossível. À exceção dos vendedores de DVDs e CDs piratas, cujo mercado de
cópias é explícito e não vem da China, a grande maioria dos comerciantes
acredita que seus produtos possuem qualidade. Eles vão ao Paraguai e escolhem
cuidadosamente as mercadorias e, mesmo aqueles que estão cientes de que o que
compram é uma falsificação, procuram adquirir aquilo que chamam de "imitação de
primeira linha". A crença na qualidade do produto é um código de honra, e a
garantia que oferecem aos clientes, via um acordo verbal, é o que autentica
esse estatuto moral.
Este artigo tentou trabalhar o fenômeno da pirataria e das relações sociais que
ela envolve da China ao Brasil a partir de uma perspectiva que mostra o quanto
esse sistema transnacional está longe de situar-se à margem. Hoje, o nó górdio
da questão é justamente o quão articulado esse fenômeno econômico está ao
formal, legal, estatal e lícito, manifestando-se de múltiplas formas,
ramificando-se, alternando jogos de luzes e tornado-se cada dia mais complexo,
diluído e impalpável. Os dilemas sociais relacionados com a comercialização de
produtos chineses são inúmeros - como o fato de que da fábrica da China à banca
de camelô há uma subdivisão infindável de empregos que tende a ser cada vez
mais informal e precária, bem como o de que a terceirização incita
flexibilização. No intuito de compreender esse fenômeno, creio que temos de
recorrer a interpretações que versem sobre a sua manifestação global,
interconectada e constitutiva da economia e dos próprios Estados nos quais se
manifesta.
Notas
1 O conceito de setor informal surge em 1971, com o antropólogo inglês Keith
Hart.
2 ZEE: cidades que possuem sistemas mercantis e legais diferenciados do
restante do país, visando a atrair investimento externo e expandir a produção.
3 Tal discernimento trata-se apenas de uma convenção nominal para esta análise.
4 Fonte da maioria dos dados: Glossary of terms of PRC, compilado por Kwok-sing
Li (1995). Os mais recentes são dos sites oficiais das ZEE ou de Guangdong.
5 Isso não é assunto velado na China. A principal agência de notícias do país,
Xinhua, traz freqüentemente matérias a respeito desses problemas: excesso de
jornada de trabalho, exploração do trabalho feminino, doenças de trabalho etc.
6 A diretriz do PCC era crescer para depois distribuir o que se planeja fazer
a partir de agora (quando o governo anuncia frear o crescimento) e voltar-se
para as questões sociais até serem sanadas no ano de 2020.
7 Acredita-se que haja em torno de dez mil "laranjas" trabalhando na Ponte da
Amizade. Geralmente, eles são migrantes nordestinos. Com a intensificação do
controle fiscalizador da fronteira, esse ramo passou a ser cada vez mais
precário e escasso, aumentando as extensas zonas periféricas de Foz do Iguaçu.
8 Réplica é o termo nativo para falsificações de marcas de luxo. Uso-o quando
estou me referindo ao comércio desses bens especificamente. No geral, trabalho
com os termos de falsificações ou pirataria, visto que eles abarcam um mercado
muito maior, como a venda de alimentos falsos (chá, refrigerantes, e até a
produção de ovos falsos através do uso de produtos químicos, colorantes,
parafina etc.), remédios (Viagra é o mais popular), CDs/DVDs e demais produtos.
9 Na China, por lei é permitido trabalhar seis dias por semana, oito horas por
dia. Mas segundo a maior agência oficial de notícias, nas fábricas ainda é
normal trabalhar dez horas por dia, sete vezes por semana (Xinhua, 1/9/2006).
10 Durante o trabalho de campo na Ponte da Amizade em 2006, um policial da
fronteira falava-me que o seu maior propósito era acabar com os sacoleiros:
"odiamos essa gente criminosa. Aqui, se eu puder derrubar um sacoleiro, pisar
sobre ele bem no pescoço, eu piso e esmago!". Já os policiais de Shenzhen
falavam com quase orgulho a respeito da pirataria e da sua importância para um
primeiro impulso na economia, relacionando isso com a necessidade urgente de se
acabar com a fome e a miséria do interior do país.
11 São situações meramente ilustrativas, baseadas nos mais diversos modelos de
produção que pesquisei.