Por que carreiras políticas na esquerda e na direita não são iguais?
Recrutamento legislativo em Brasil, Chile e Uruguai
Na descrição convencional, deputados são motivados por ambição estática ou
progressiva, adotando estratégicas eficazes para a manutenção de sua cadeira ou
mobilidade na hierarquia de postos políticos. Isto poderia significar, então,
que padrões de carreiras políticas são homogêneos, com bases sociais, recursos
eleitorais e trajetórias semelhantes, mesmo quando se trata de partidos ou
famílias ideológicas diferentes? Os resultados desta pesquisa sugerem que não.
Analisamos as variações observadas nos padrões de recrutamento legislativo,
entre partidos de esquerda e de direita, em três países da América do Sul
(Brasil, Chile e Uruguai), identificando elementos explicativos para dar conta
das diferenças encontradas nas carreiras políticas de deputados eleitos.
Este artigo pretende oferecer uma explicação dos diferentes padrões de
recrutamento legislativo, elaborando modelos de bases sociais e carreira
política de elites, baseados na articulação entre 1) mobilização de recursos
políticos eleitorais individuais ou partidários derivados da posição social,
tendo em vista a ocupação profissional e a mobilização de recursos coletivos de
organizações e associações sociais, e 2) existência de diferentes estratégias
partidárias de seleção de candidatos, associadas aos recursos sociais dos
candidatos, à posição ideológica e ao tempo de existência de cada organização
partidária.
Nesse sentido, a hipótese central que orienta a investigação supõe que
diferenças observadas nos padrões de carreira política possam ser explicadas
pelas variações no perfil social e pelos recursos individuais dos candidatos
eleitos por cada legenda partidária: os partidos à esquerda, de origem
ideológica e mais longevos, recrutam suas bancadas predominantemente no setor
público, na classe média assalariada, entre sindicalistas, lideranças
associativas e lideranças de movimentos sociais, os quais, por depender da
estrutura organizacional partidária e associativa para compensar a carência de
recursos eleitorais próprios, terminam adotando estratégias baseadas em
carreiras partidárias endógenas. No extremo oposto, partidos conservadores
apresentam padrões de recrutamento social mais elitista e tradicional, compondo
suas bancadas entre proprietários urbanos e rurais e profissionais liberais
dotados de recursos materiais e de reputação personalizada, com menor
dependência da estrutura organizacional partidária, seguindo carreiras
políticas laterais, descontínuas e com menos lealdade à filiação partidária.
Este trabalho aproxima-se, portanto, dos importantes achados de Rodrigues
(2002), que identificou as diferentes bases sociais de recrutamento partidário
para o caso brasileiro, mas procura dar um passo adiante, utilizando os
recursos individuais provenientes da posição social como explicação para os
diferentes padrões de carreira política encontrados. Da mesma forma, há uma
convergência com o trabalho de Power e Mochel (2006), igualmente preocupados em
mostrar as diferenças sociais no recrutamento partidário brasileiro. Contudo,
enquanto Power e Mochel fixaram uma relação entre variáveis demográficas da
constituencyeleitoral (mensuradas pelo IDH) e indicadores da performance
legislativa dos parlamentares eleitos, este trabalho procurou isolar as
conexões entre biografias sociais individuais e padrões de carreira política e
partidária dos eleitos.
Para verificar esses fenômenos, analisou-se o perfil dos deputados nacionais
eleitos, utilizando métodos biográficos. A metodologia focaliza a medição de
variáveis vinculadas a: 1) origem social, ocupação profissional; 2) redes
sociais e capital associativo; e 3) experiência e carreira política (período de
ingresso na carreira política, filiação e fidelidade partidária, cargos
ocupados). O resultado oferece um quadro sobre as condições para o ingresso na
elite política e como esse acesso foi ampliado pela emergência de partidos de
esquerda aos governos nacionais.
Os três países apresentam estruturas políticas diferentes (federal no Brasil;
unitária no Chile e no Uruguai), sistemas partidários com configurações e tempo
de existência também distintos (concentrado/estável no Uruguai; fragmentado/
estável no Chile; fragmentado/recente no Brasil), regras eleitorais de
representação proporcional com variações de voto preferencial, sistemas
presidencialistas e estruturas sociais marcadas por graus discrepantes de
desigualdades sociais.
O ponto de partida foi delimitar um momento comum aos três casos nacionais
examinados, marcado pelo incremento da competição eleitoral e da conquista de
governos centrais por partidos ou coalizões de esquerda ' Ricardo Lagos no
Chile, em 2000, Lula no Brasil em 2002 e Vazquez no Uruguai em 2004. Destarte
os distintos níveis de institucionalização dos sistemas partidários e de
desenvolvimento econômico e social dos países, podem-se identificar alguns
traços comuns para a abordagem comparada aqui empreendida: a) trata-se de
sistemas multipartidários sob a perspectiva da competição eleitoral partidária
e da alternância de elencos políticos em cargos eletivos e de governo; b) há
continuidade na institucionalização das regras de participação cidadã e na
competição política pluralista em período pós-ditatorial; c) os partidos têm
sido agentes relevantes nos processos de mediação política de interesses e
clivagens sociais; e d) a dimensão ideológica de esquerda e direita é relevante
para a estruturação e o posicionamento dos partidos políticos.
O eixo ideológico esquerda/direita é uma dimensão relevante na organização do
sistema e dos partidos políticos dos três sistemas multipartidários focalizados
nesta pesquisa. As decisões que dizem respeito à delimitação da esquerda e da
direita não estão isentas de dificuldades. Desde sua definição originária na
Europa, passando por múltiplas transformações históricas posteriores '
principalmente depois de 1989 ', os termos "esquerda" e "direita" têm
significado polissêmico, apresentando pelo menos duas dimensões diferentes,
muitas vezes superpostas em seu sentido histórico. A primeira é espacial-
situacional, uma vez que a polarização esquerda-direita definiu em forma
dicotômica as posições relativas de cada ator dentro de um sistema político
historicamente determinado ' com clivagens sociais e políticas diversas. A
segunda é de ordem ideológica, que concerne aos valores e às crenças de
doutrinas políticas, podendo ser dividida entre correntes favoráveis ao
igualitarismo e à mudança social (por exemplo, socialistas, comunistas, social-
democratas etc.) e os partidários da liberdade individual e da ordem social
(como liberais, conservadores, entre outros).
Neste trabalho, consideraremos esquerdas e direitas realmente existentes e com
representação nos sistemas partidários escolhidos e democracias recentes à luz
do acervo da literatura acadêmica de cada país. Considerando a escala
ideológica esquerda/direita e a literatura especializada nos três países, os
principais partidos analisados1 podem ser apresentados na seguinte ordem:
Partidos mais conservadores e de direita:2 Partido da Frente Liberal - PFL
(atual Democratas - DEM) e Partido Progressista Brasileiro (PPB), no Brasil;
Renovação Nacional (RN) e União Democrática Independente (UDI), no Chile.
Partidos de centro: Partido da Social-Democracia Brasileira (PSDB) e Partido
do Movimento Democrático Brasileiro (PMDB), no Brasil; Partido Democrata
Cristão (PDC), no Chile; Partido Colorado (PC) e Partido Nacional (PN), no
Uruguai.3
Partidos de esquerda: Partido dos Trabalhadores (PT), no Brasil; Partido pela
Democracia (PPD) e Partido Socialista (PS), no Chile; e Frente Ampla (FA), no
Uruguai.
Reiterando, parte-se de uma comparação sincrônica(Bartolini, 1994), que isola
um momento comum aos três casos ' o incremento na competição eleitoral e o
acesso a governos centrais por partidos ou coalizões de esquerda ', buscando
considerar os impactos sobre os padrões de seleção dos postos legislativos. Os
problemas geralmente associados a esse tipo de estratégia comparativa (Sartori,
1994) puderam ser neutralizados, uma vez que nos concentramos em um conjunto
homogêneo de variáveis, derivadas da operacionalização do recrutamento social e
de trajetórias políticas, e da observação de um grupo específico de elites
políticas ' os parlamentares.
A técnica de coleta de dados foi baseada em métodos biográficos, com base em
biografias dos parlamentares nas páginas da Internet,4 publicações oficiais dos
congressos, enquetes por e-mail aos parlamentares e, em alguns casos,
entrevistas pessoais. A pesquisa empírica abrangeu as legislaturas eleitas em
2002 no Brasil, 2001 no Chile e 2004 no Uruguai. Desse modo, foram estudadas as
biografias de 513 deputados brasileiros, 118 parlamentares chilenos e 98
deputados uruguaios.
A seguir, analisamos as bases sociais de recrutamento legislativo dos
principais partidos no três países, procurando isolar diferenças quanto à
origem social e profissional dos representantes eleitos, à escolaridade e aos
vínculos associativos. Na outra seção, procura-se identificar as trajetórias
políticas, examinando as condições de ingresso na carreira política, a
durabilidade e a extensão temporal dos vínculos partidários. Por fim, busca-se
isolar as conexões entre bases sociais e carreiras políticas, relacionando
recursos sociais (ou sua escassez) e adoção de diferentes modelos de carreiras
(individuais ou partidárias). Nessa perspectiva, partidos de esquerda
apresentariam maior diversificação social na composição de seus eleitos, bem
como vínculos partidários mais duráveis e prévios ao início da carreira
política. Em contraste, estruturas partidárias tradicionais recrutam seus
candidatos com capital eleitoral pessoal e carreiras construídas prévia e
externamente a vínculos partidários estáveis.
Composição social e representação de interesses
Analisar as posições sociais originárias dos políticos contribui tanto para
esclarecer as bases sociais de recrutamento de dirigentes dos partidos e da
classe política, como para fazer uma aproximação das relações entre a
representação política e a representação de grupos e categorias sociais.
O status ocupacionalconstitui uma variável muito relevante para comparar a
origem e a classificação das posições sociais das elites políticas. A posição
social dos políticos no âmbito do trabalho e da produção é tanto uma fonte de
estratificação social no acesso à riqueza material e ao bem-estar social, como
uma fonte para a legitimação de classificações hierárquicas do capital social.
No percurso da coleta de dados empíricos foram identificadas 33 ocupações
diferentes, que foram agrupadas em cinco classes (Tabela_1).
A grande maioria das ocupações incide sobre as profissões universitárias,
diferenciadas em dois grupos. Um setor clássico, que inclui as denominadas
profissões liberais tradicionais, com destaque para a área jurídica e de
medicina. As profissões jurídicas (advogados, juizes, promotores etc.) são as
mais tradicionais no campo político (Weber, 1984), devido à sua afinidade com a
administração do aparelho estatal ' são as mais freqüentes nas três câmaras,
embora com uma proporção bem menor na Câmara dos deputados do Uruguai. Logo em
seguida, destacam-se os médicos, que têm uma participação relevante entre todos
os parlamentares. Em menor peso, aparecem engenharia, arquitetura, agronomia e
veterinária. Novamente, no caso do Uruguai, não se encontram nem engenheiros
nem arquitetos.
O segundo grupo compreende profissões ligadas ao ensino e às áreas humanas e
sociais, considerando um amplo leque de disciplinas. Incorpora os professores,
desde o ensino fundamental até a universidade, os jornalistas e os
comunicadores no âmbito da cultura de massas. Além disso, podem-se identificar
as profissões ligadas às ciências econômicas (economia, contabilidade) e
humanas (politólogos, psicologia, sociólogos).
Afora a classe de ocupações com ensino superior, aparecem as profissões
vinculadas à organização do capital e à produção. O grupo abrange os produtores
rurais, os empresários, os diretores de empresas e os comerciantes. Entre essas
categorias, há, na Câmara brasileira, o dobro de produtores rurais, se
compararmos com o Chile e o Uruguai.
Outra classe ocupacional é formada pelo funcionalismo público. As categorias
representadas nesta classe têm uma participação significativa entre os
deputados brasileiros e uruguaios, mas muito pequena entre os chilenos.
Finalmente, identificamos um grupo ocupacional integrado pelas classes
trabalhadoras (qualificadas e não-qualificadas). Porém, os trabalhadores que
foram eleitos deputados são um grupo minoritário nas três câmaras nacionais.
Em suma, nesta pesquisa foram identificados cinco tipos de profissão vinculados
a distintas posições sociais, o que pode ser analisado com base em outras
pesquisas comparadas sobre elites parlamentares. O campo das profissões
universitárias liberais (jurídicas, médicas, tecnológicas e agrárias) é a
maioria relativa (42%), confirmando a condição de profissões mais tradicionais
de recrutamento parlamentar.5
Um outro grupo é constituído por profissões relacionadas com o capital e a
produção, representando cerca de 18% dos parlamentares.6
A seguir, podem-se identificar dois grupos relacionados a setores de classe
média. De um lado, as profissões ligadas à educação e à comunicação e as
profissões universitárias da área de ciências humanas (17%). De outro, o
segmento de funcionários públicos (10% dos deputados).7
O último grupo de ocupações são as classes trabalhadoras. Apesar dos avanços
nos processos de democratização, esse tipo de categoria ocupacional tem uma
representação minoritária nas câmaras de representantes (7% dos deputados).8
Em uma abordagem comparativa da profissão de origem nas bancadas partidárias,
pode-se encontrar padrões de recrutamento em grupos e categorias sociais
diferenciados segundo a posição política nos blocos ideológicos. Para
simplificar a leitura das tabelas que se seguem, os partidos serão apresentados
e ordenados segundo as posições ideológicas.
Os partidos mais conservadores (PFL, PPB, PMDB) apresentam um padrão de
recrutamento social baseado fundamentalmente nas profissões universitárias
liberais, nas categorias de propriedade e controle de empresas e nas categorias
de produção agro-industrial e comércio.9
No outro extremo, encontram-se os partidos de esquerda (PT, PPD, PS, Frente
Ampla), com uma composição social de suas bancadas parlamentares formada por
profissionais das ciências econômicas e de formação humanista, oriundos na
grande maioria da classe média. Além disso, um outro campo de recrutamento
clássico desses partidos são as classes trabalhadoras (Serna, 2004, p. 227).
Em posições e recrutamentos mais pluriclassistas do ponto de vista da
composição social estão as bancadas dos partidos da Social Democracia
Brasileira (PSDB), da Renovação Nacional (RN), da União Democrática
Independente (UDI), o Partido Democrata Cristão (PDC), o Partido Colorado (PC)
e o Partido Nacional (PN).
Esta pesquisa explorou uma outra dimensão do recrutamento social e das
carreiras políticas dos parlamentares, qual seja, a participação voluntária na
sociedade civil organizada. A mobilização de recursos associativos representa
um tipo de capital social que pode ser encontrado nas trajetórias de acesso ao
poder político de dirigentes e representantes partidários. Isso pode ser
entendido como um mecanismo de estabelecimento de redes sociais e organizações
de representação coletiva ligada a interesses e questões sociais. A
distribuição e a presença desse tipo de capital mudam conforme os diferentes
padrões de carreiras parlamentares (Tabela_2). Nas câmaras brasileira e
chilena, 52% dos deputados, antes de terem acesso à cadeira legislativa,
registravam uma participação destacada em algum tipo de associação coletiva. No
Uruguai, 75% dos parlamentares mantinham uma participação em associações, além
da política institucional.
Os tipos de organização e de associação mais comuns são os movimentos e as
agremiações de estudantes (secundaristas e universitários), as associações de
profissões universitárias e do campo intelectual, os sindicatos dos
trabalhadores e as organizações do capital, dos produtores rurais e dos
comerciantes.
A participação em movimentos estudantis constitui um mecanismo de socialização
em experiências de organização coletiva e recrutamento político bastante
significativo: 15% dos deputados tiveram alguma participação destacada nesse
setor.
Outro mecanismo de socialização e recrutamento político são as associações
ligadas ao campo da cultura ' em colégios, universidades e academias; na área
do jornalismo e da imprensa; e em atividades artísticas de uma maneira geral.
Cerca de 12% dos deputados passaram por alguma dessas associações antes de seu
ingresso no Congresso.
A organização sindical das classes trabalhadoras, consideradas num sentido
amplo ' desde os trabalhadores urbanos e rurais, privados e públicos, até as
formas de organização do trabalho não-capitalista (como as cooperativas) ',
representa um tipo de participação coletiva para 12% dos parlamentares.
Outro campo relevante na representação de interesses coletivos são as
organizações vinculadas ao capital e à produção. Esse espaço abrange
associações não só de empresários, bancos, comerciantes e do setor de turismo,
mas também de produtores rurais: 8% dos deputados pertenciam a alguma
associação desse tipo antes do ingresso ao Congresso. No Chile,
especificamente, os deputados apresentaram uma participação muito baixa nesse
âmbito.
Além desses quatro tipos principais de associação, no decorrer da pesquisa
identificaram-se algumas de menor representação, mas relacionadas a outros
campos da sociedade civil organizada, envolvidos em temáticas mais
contemporâneas e novas questões sociais. Desde associações vinculadas a temas
diversos, como ecologia, direitos humanos, juventude, gênero, família e
bairros, até as mais tradicionais, como as esportivas, religiosas e culturais.
A análise comparativa, segundo os partidos, apresenta padrões diferenciados
quanto ao uso e ao tipo de capital associativo que aparecem nas carreiras
políticas das elites parlamentares. As bancadas de partidos mais conservadores,
ao contrário das de partidos de esquerda, registram uma proporção muito baixa
de participação em associações coletivas.
Os deputados de partidos mais conservadores (PFL, PMDB, RN) revelam um uso
muito reduzido desse tipo de capital, uma vez que 60% de seus parlamentares não
têm nenhuma participação nessas associações.
No outro extremo, nas bancadas dos partidos de esquerda (PT, PS, PPD, FA), mais
de 70% dos deputados participaram de algum tipo associação coletiva antes de
ingressar ao Congresso.
Tal resultado leva à hipótese de que os partidos ideológicos de esquerda
utilizam muitos mais recursos coletivos e de identidade para constituir bases
sociais, ao passo que os partidos conservadores baseiam-se sobretudo nos
capitais e nos recursos individuais de dirigentes políticos.
Os padrões de associação coletiva mais próximos dos partidos de esquerda
incidem sobre os movimentos estudantis, a organização das classes trabalhadoras
e as novas questões sociais (Serna, 2004). As bancadas do PT, do PS, do PPD e
da FA apresentam essa conformação de redes sociais na sociedade civil
organizada.
As associações e as organizações coletivas relacionadas com espaços de poder
social relevante, tanto aquelas vinculadas ao capital e à produção, como
aquelas formadas no campo das profissões universitárias, não têm padrões
diferenciados por partidos políticos.
Um olhar comparado da composição de profissões socioocupacionais entre os
parlamentares nas democracias do cone sul apresenta alguns traços comuns de
pluralização das origens sociais com outros processos históricos de
democratização (Best e Cotta, 2000). Nesse sentido, salientamos uma
participação mais limitada de empresários e produtores agropecuários, a
ampliação da participação de profissionais liberais, funcionários públicos e
camadas de setores médios da sociedade, assim como uma participação minoritária
do sindicalismo e de integrantes das classes populares.
Pode-se observar algumas mudanças em relação às profissões que vivem "para a
política" (no sentido de Max Weber). De um lado, a redução da participação de
advogados e o ascenso de médicos entre as profissões liberais; de outro, a
crescente relevância das profissões ligadas à educação e ao sindicalismo. Além
do mais, é interessante, numa época de crise do Estado de Bem-estar Social, a
emergência de redes associativas da sociedade civil dentro do sindicalismo, dos
movimentos estudantis, de áreas ligadas à cultura e a novas questões sociais.
A análise comparada entre os Legislativos mostra alguns traços específicos de
cada sistema político. Na câmara brasileira, a comparação entre blocos
ideológicos apresenta diferenças na composição social muito claras de padrões
partidários entre esquerda e direita. No caso chileno, existe uma ausência
notória do funcionalismo público e uma participação reduzida do setor
empresarial e produtor. Nesse sentido, e hipoteticamente, esse fenômeno pode
estar vinculado a processos endógenos de recrutamento da classe política
(Salcedo, 2005), tanto quanto à redução do papel de mediação de interesses no
âmbito parlamentar. Entre os deputados uruguaios, cabe assinalar a reprodução
um padrão histórico de profissionalização com ampla inclusão de categorias
originárias de setores médios e da sociedade civil organizada, ainda que a
participação mais efetiva do sindicalismo apareça como uma novidade.
Para avançar na interpretação dos traços mais típicos do recrutamento e da base
social das elites segundo o bloco ideológico e os partidos políticos, propomos
um modelo de análise com dois padrões extremos: de um lado, uma composição
social mais elitista e baseada nos recursos individuais dos dirigentes; de
outro, uma composição social mais pluralista e associativa na representação de
interesses sociais.
Para isso, construímos um índice somatório simples em torno de cinco dimensões
básicas (Tabela_3). As duas primeiras variáveis dizem respeito a profissões
mais elitistas e tradicionais (profissões liberais de nível universitário e
aquelas vinculadas ao poder econômico). As duas seguintes tentam identificar um
padrão mais pluralista, por meio da participação majoritária de profissões
representativas da classe média (professores, formações ligadas às ciências
humanas e sociais e funcionários públicos), de um lado, e, de outro, da
participação de trabalhadores. Além disso, a última variável concerne à
participação de representação de redes e associações da sociedade civil.
Em cada uma dessas variáveis foi atribuído valor 1, quando a porcentagem de
cada bancada partidária, comparada com a média do conjunto das três elites
parlamentares em pauta, confirma um padrão pluralista, e 0, quando corresponde
a um recrutamento tradicional e socialmente elitista. A seguir, estabeleceu-se
um índice somatório das cinco dimensões para cada um dos partidos. Pontuações
baixas no índice (0 ou 1) significam que se está mais próximo de um padrão de
recrutamento social elitista e pontuações altas (4 ou 5), mais próximo de um
padrão de recrutamento social pluralista.
No primeiro caso, encontram-se os deputados dos partidos da Frente Liberal,
Progressista Brasileiro e do Movimento Democrático Brasileiro. As origens
sociais desses políticos estão definidas por uma composição baseada na
incorporação de capital escolar superior, relacionado às profissões
universitárias liberais, e a maioria deles trabalhavam no interior do mundo
empresarial e da produção. Além disso, suas carreiras políticas estão apoiadas
em recursos individuais e no status social pessoal de seus candidatos.
No segundo, encontram-se as bancadas parlamentares do Partido dos
Trabalhadores, do Partido Pela Democracia, do Partido Socialista e da Frente
Ampla, que apresentam um padrão oposto ao primeiro caso. As bases sociais
desses deputados são mais inclusivas e pluralistas, menos masculinizadas, com
um recrutamento escolar mais aberto e uma formação superior relacionada a
profissões das ciências humanas, da educação e aquelas ligadas ao campo
cultural, além de ter uma participação maior de assalariados. Ademais, suas
carreiras políticas baseiam-se na acumulação de recursos coletivos, por meio de
uma constelação de redes sociais e enraizamento de suas bases sociais nas
associações da sociedade civil, principalmente as representativas dos
sindicatos de trabalhadores, dos grêmios estudantis e das novas questões
sociais.
Um tipo de recrutamento social mais híbrido, conformado por múltiplas posições
de classe (elitistas e pluralistas), aparece representado pelas bancadas
parlamentares da Social Democracia Brasileira, da Renovação Nacional, da União
Democrática Independente, do Partido Democrata Cristão, do Partido Colorado e
do Partido Nacional.
Padrões de carreiras políticas
Nesta seção, analisaremos as modalidades de ingresso e mobilidade na carreira
política, a partir da identificação das condições de início da atividade
política (idade e ano da primeira militância), do acesso a postos públicos
(primeiro cargo ocupado e ano) e da importância dos vínculos partidários
(número médio de partidos e intervalo temporal entre a filiação partidária e o
primeiro cargo ocupado).
Padrões de carreira tornam-se mais nítidos quando a reconstituição das
trajetórias políticas é promovida considerando os partidos separadamente, uma
vez que as seqüências de carreira estão associadas às oportunidades oferecidas
dentro de cada organização partidária, conforme sua estrutura hierárquica,
centralização e controle sobre a seleção de candidaturas. Passo inicial
consistiu em isolar o momento inicial da carreira política, verificando a idade
média da primeira militância partidária em cada uma das legendas examinadas. A
primeira militância partidária é preferível neste caso ao primeiro cargo
público ocupado por duas razões: em primeiro lugar, identifica um vínculo
partidário que muitas vezes pode ser tênue ou não existir quando o cargo
público corresponde a funções burocráticas ou administrativas; em segundo, e
principalmente, controla o efeito provocado por ciclos autoritários ocorridos
em períodos distintos nos três casos estudados, assim como as diferenças no
grau de eliminação da competição eleitoral. Enquanto no Brasil, os militares
mantiveram partidos e eleições regulares, embora limitadas à arena legislativa
ou em Executivos de pequenos e médios municípios, no Uruguai e no Chile, o
regime militar, mais restritivo, proibiu o funcionamento dos partidos e
eliminou o calendário eleitoral. Dessa forma, oportunidades para o acesso ao
primeiro cargo estiveram restritas por limites institucionais, diferentemente
do que ocorreu no Brasil, onde o ingresso na carreira política institucional
esteve aberto mesmo para políticos de oposição, ainda que restrito a níveis
inferiores da hierarquia de postos públicos (ver Figura_1).
Tomando por referência a idade de 30 anos como um divisor para delimitar o
ingresso precoce ou tardio na vida política, e considerando a primeira
militância partidária como critério para identificar tal momento, pode-se
distinguir dois padrões diferentes: de um lado, os partidos FA, PS, PN, PC, PT
e PDC são compostos por parlamentares que iniciaram mais cedo suas trajetórias
partidárias; de outro, sobretudo os partidos PPD, PSDB, RN, UDI e, em menor
medida, PFL, PPB e PMDB elegeram deputados cujo primeiro vínculo partidário
ocorreu em um período mais tardio de suas vidas. O corte não chega a obedecer a
uma linha demarcatória do tipo esquerda/direita, baseada em uma suposição que
partidos de massacorrespondam a um ativismo precoce e mais ativo, uma vez que
tanto o PPD (esquerda), como o PC e o PN (direita e centro, respectivamente) e
o PDC (centro) apresentam lugares trocados nesta distribuição.
Em contrapartida, a idade de ingresso partidário não oferece uma informação
conclusiva acerca da experiência política dos parlamentares. Mudanças no padrão
geracional de recrutamento partidário podem produzir bancadas com membros
caracterizados por ativismo político precoce, mas, combinado a idades mais
reduzidas, não correspondem a carreiras mais longas e estruturadas. Assim, além
da idade da primeira militância, é necessário identificar o ano em que ocorreu
tal iniciação partidária (Figura_2). Este procedimento pode revelar duas
informações úteis acerca de padrões de carreira política existentes no interior
de cada partido: a primeira diz respeito ao tempo decorrido da primeira
militância até o mandato legislativo atual, o que oferece uma medida da
experiência política e partidária de cada deputado nos três países analisados;
a segunda relaciona-se ao período (ano) em que a primeira militância ocorreu, o
que mostra as condições ou os constrangimentos impostos ao ativismo partidário.
Ou seja, faz diferença o fato de o parlamentar ter atuado em períodos
autoritários ou, inversamente, sob condições mais favoráveis oferecidas por
instituições democráticas, como liberdades civis e competição eleitoral.
Provavelmente, vincular-se ou manter-se vinculado a um partido sob contexto
autoritário e repressivo pode ser revelador de uma adesão mais sólida e
durável, em virtude dos riscos que esta militância representa, quando comparado
a uma filiação partidária exclusivamente em períodos democráticos.
A Figura_2 exibe a informação sobre o ano em que um deputado mediano dentro de
cada bancada registrou sua primeira militância partidária. Mais uma vez,
deputados eleitos pelos partidos FA, PS, PDC, PC e PT apresentam um padrão de
militância partidária mais prolongada, tendo sido submetidos ao teste de
ativismo partidário iniciado ou continuado mesmo dentro de um contexto
autoritário. Contudo, é necessário fazer uma ressalva: parece haver uma
diferença nos custos do ativismo partidário para as frentes amplas, os
socialistas e os democrata-cristãos, em relação aos riscos aos quais os
deputados colorados e petistas tenham sido submetidos. Um deputado mediano da
FA e do PS chileno registrou sua primeira militância partidária em contexto
pré-autoritário, tendo sido exposto ao colapso das antigas democracias, à
implantação e posterior prolongamento dos respectivos regimes autoritários.
Semelhante é o caso da Democracia-Cristã chilena, cujos parlamentares
atravessaram pelo menos oito anos de repressão militar. No caso de deputados
colorados do PC uruguaio e também de parlamentares do PT brasileiro, embora a
militância partidária tenha se iniciado ainda sob instituições autoritárias,
isto corresponde ao período final dos respectivos regimes, quando já tinha sido
inaugurado o processo de liberalização e de negociação com as elites civis, e
os custos para a exclusão e a repressão política haviam aumentado
significativamente.
Em um extremo oposto, estão as bancadas do PSDB, PPD e UDI, cuja composição
reflete uma menor experiência política e trajetórias desenroladas
exclusivamente sob condições democráticas mais favoráveis, onde o custo da
militância partidária, pelo menos em termos de possibilidade de sofrer algum
tipo de coerção física pelas instituições estatais, é muito baixo. Embora os
deputados tanto do PSDB, como do PMDB, no Brasil, tenham vindo do antigo MDB '
organização oposicionista durante o regime autoritário ', eles não apresentavam
em 2002 tal genealogia, revelando carreiras mais recentes, iniciadas após a
redemocratização.
O primeiro cargo público constitui um rito significativo que oferece informação
relevante não só sobre as condições e os recursos disponíveis no início da
carreira política, mas também sobre o grau de sua dependência em relação às
organizações partidárias (Figura_3). Nossa interpretação indica que o início da
carreira política mediante cargos no poder Executivo implica em uma autonomia
potencialmente maior em relação aos partidos. Isto pode ocorrer por duas
razões: 1) pela retórica de conhecimento técnico que ocupantes de postos
administrativos alimentam com freqüência, procurando insular-se em relação à
dinâmica eleitoral e aos militantes e dirigentes de carreira mais partidária;
2) quando se trata do início de carreira mediante cargos eletivos no Executivo,
como prefeitos, intendentes e governadores, isto sugere a posse de recursos
políticos pessoais (reputação personalizada construída fora da carreira
política, disponibilidade de recursos materiais e financeiros), o que mostra
que o indivíduo se impôs às organizações partidárias de fora para dentro,
subvertendo suas prováveis hierarquias internas.
O Partido dos Trabalhadores, o Partido Socialista e, em menor grau, a Frente
Ampla apresentam os padrões mais nítidos de ingresso na carreira política por
meio de cadeiras legislativas, nacionais ou subnacionais. Dois partidos
brasileiros de centro (PMDB e PSDB) apresentam bancadas compostas
majoritariamente por deputados com início de carreira por intermédio de cargos
legislativos. Um fator que pode explicar essa tendência está relacionado com o
efeito do federalismo e da extensão territorial existentes no Brasil: além de
esferas governamentais e legislativas no plano federal e local (à semelhança de
Uruguai e Chile), o Brasil possui estruturas governamentais e assembléias
legislativas estaduais (correspondendo a provínciasem outros países da América
Latina). Enquanto os partidos de oposição não tinham acesso a cargos executivos
nacionais e estaduais durante o período autoritário, as assembléias
legislativas estaduais e as câmaras municipais na maioria dos municípios foram
a escola de iniciação política e de carreira para políticos de centro-esquerda
até meados dos anos de 1980. Por fim, o partido direitista chileno (UDI)
igualmente apresenta uma proporção elevada de parlamentares que iniciaram sua
carreira política por meio de cadeiras legislativas, provavelmente associado ao
período de domínio de cargos executivos pela coalizão de centro-esquerda
Concertação.
A durabilidade dos vínculos de lealdade partidária pode ser estimada
considerando o tempo de filiação partidário médio (em anos) dentro de cada
partido. Intervalos temporais mais longos sugerem lealdades mais fortes, bem
como revelam a importância das organizações partidárias como estruturas de
treinamento político dos quadros que são recrutados para carreiras políticas e
as oportunidades para o incremento na coesão partidária (Bowler, Farrell e
Katz, 1999). Nesta perspectiva, a Frente Ampla (28 anos), o Partido Colorado
(22 anos), o Partido Socialista, a Democracia-Cristã (20) e o Partido Nacional
(20 anos) e Partido dos Trabalhadores (19 anos) possuem bancadas parlamentares
formadas por deputados com mais anos de filiação partidária. Em contraste, a
Renovação Nacional (12 anos), o Partido por la Democracia e o Partido
Progressista Brasileiro (11 anos), o Partido do Movimento Democrático
Brasileiro e o Partido da Frente Liberal (9 anos), a União Democrática
Independente (8 anos) e Partido da Social-Democracia Brasileira (7 anos)
apresentam os menores valores médios referentes ao tempo de filiação
partidária.
Evidências mais reveladoras acerca da importância de partidos como recursos
para o acesso e a continuidade de carreiras políticas podem ser alcançadas
isolando-se o tempo da última filiação partidária em relação ao primeiro cargo
público ocupado desde o início da trajetória política (Figura_4). Trata-se de
fixar o intervalo temporal que separa duas datas importantes em uma carreira
política: quando o deputado se filiou ao seu partido atual e quando conquistou
seu primeiro posto (legislativo ou executivo). Esta filiação partidária poderá
coincidir com a primeira militância, quando o deputado vinculou-se a um
partido, não mais se afastando dele, ou poderá corresponder ao partido pelo
qual conquistou a cadeira parlamentar, nas legislaturas em estudo. O tempo de
filiação partidária prévia permite aferir e comparar, assim, o espaço em que a
atividade dentro de um partido constitui um requisito para carreiras políticas
bem-sucedidas, quando a dedicação por vários anos às tarefas organizativas e a
deferência em relação às lideranças e às hierarquias partidárias representam um
investimento político resgatável a médio ou longo prazo sob a forma de
nominação de candidaturas e insumos eleitorais como suporte material e
financeiro, arregimentação de apoios organizativos e eleitorado fiel. Em
contraste, quando a última filiação partidária ocorre após o início da carreira
política, pode-se inferir que o custo para defecções partidárias é mais
reduzido, permitindo a transgressão de fidelidades organizacionais prévias, sem
que isto afete as chances para a manutenção ou mobilidade na carreira política.
Comparando a última filiação partidária com o início da carreira política de
deputados de partidos brasileiros, chilenos e uruguaios, podem-se separar dois
padrões nitidamente distintos. Parlamentares que integram as bancadas do PT, do
PS, do PDC, da FA, do PN e do PC apresentam um modelo de carreiras políticas
denominado endógeno. Há um intervalo temporal prévio separando a filiação
partidária do acesso ao primeiro cargo público, sugerindo que a seleção de
candidatos a postos políticos é dirigida para membros com lealdades partidárias
comprovadas por extensos intervalos temporais de militância partidária.
Diferente é o caso dos partidos brasileiros PSDB, PMDB, PFL e PPB e dos
chilenos PPD, RN e UDI, todos marcados por seqüências de carreira política
invertida, em que a filiação partidária é posterior ao início da trajetória
pública. Isso pode ser entendido como resultado de frágeis vínculos partidários
originais, ou, ainda, como baixo custo de defecção em relação às organizações
políticas de origem, uma vez que a importância de sua estrutura (eleitores,
suporte material e financeiro, canvassers) pode ser marginal ou substituível.
Finalmente, procurou-se fixar padrões de carreiras políticas agregando os
requisitos que correspondem a um modelo de trajetórias políticas duráveis e
profissionais, baseadas em recursos coletivos e estruturas partidárias: início
precoce da militância partidária, o ano e o contexto desta primeira militância,
a cadeira legislativa como primeiro cargo público, o tempo de filiação
partidária superior a quinze anos e a filiação partidária antes do primeiro
cargo público ocupado. Para efeito de justaposição das diferentes dimensões
examinadas e a configuração de padrões de carreiras políticas, elaborou-se um
escore, resultante da agregação das informações anteriores, atribuindo valor 1
quando o perfil partidário correspondia ao modelo acima, e 0, quando o tipo de
carreira distanciava-se do modelo. Dessa forma, o escore agregado de cada
partido corresponde a uma numeração de 0 a 5. Valores próximos a 0 equivalem a
padrões de recrutamento baseados em capital político personalizado e 5, a
carreiras políticas construídas em base a recursos partidários, experiência
política e longas e estáveis trajetórias políticas (Tabela_4).
Três partidos apresentam um padrão nítido de carreiras políticas estáveis e
baseadas em suporte organizacional e partidário: Partido Socialista, Frente
Ampla e Partido dos Trabalhadores. Seus parlamentares registram uma primeira
militância em idade jovem, inferior a 30 anos, e parte desse ativismo
partidário, ao menos, foi cumprida sob instituições autoritárias, confirmando
um perfil de adesão mesmo em circunstâncias adversas e risco de repressão. O
primeiro posto institucional ocupado corresponde a cadeiras legislativas,
sugerindo capital político de ingresso mais modesto, assim como treinamento na
arena eleitoral; seus deputados possuem filiações partidárias duráveis e,
principalmente, um intervalo temporal prévio entre a filiação nestes partidos e
o primeiro cargo público, o que revela um padrão endógeno de carreira política,
ou seja, eles são recrutados do interior das respectivas organizações
partidárias, ou, ainda, indica que o ativismo partidário constitui um capital
político relevante para impulsionar trajetórias políticas nessas organizações.
Com algumas variações, mas ainda próximos, podem ser localizados os deputados
dos partidos PDC, PN e PC. Para os democrata-cristãos chilenos e os colorados
uruguaios, a administração central representou a base para o recrutamento
partidário. Mais distantes do modelo de carreiras partidárias encontram-se os
partidos PFL, PPD e RN, com trajetórias políticas e militância partidária
tardias, predomínio de cargos administrativos ou postos executivos, reduzido
tempo de filiação partidária e último registro partidário posterior ao início
da carreira.
Após fixar a presença de dois padrões distintos de carreiras políticas,
procuramos uma interpretação capaz de explicar as diferenças encontradas. Um
conventional wisdom consistiria em relacionar as oportunidades estabelecidas
pelas regras eleitorais com a composição de perfis parlamentares produzidos a
partir da competição eleitoral. Nessa perspectiva, Carey e Shugart (1996)
sugerem que, quando os votos preferenciais influenciam o rankeamento de
candidatos ou em colégios eleitorais de magnitude elevada, será menor o
controle partidário sobre a seleção de carreiras e maior a importância de
reputações personalizadas como capital eleitoral. Contudo, essa interpretação
parece pouco satisfatória nos casos aqui estudados. O Uruguai apresenta um
padrão mais homogêneo de predomínio de carreiras partidárias em seus três
partidos relevantes. Por outro lado, a conexão deste fenômeno com o sistema
eleitoral não é evidente. Embora de classificação complexa, a fórmula uruguaia
de eleições legislativas, baseadas no doble voto simultâneo,tem sido
apresentada como uma variação limite de voto preferencial (Rose, 2000; Norris,
2004; Colomer, 2004), especialmente em eleições acompanhadas por aumento no
número de lemas partidários. O Chile possui um sistema de lista aberta, ainda
que a reduzida magnitude eleitoral chilena poderia corresponder à estrutura de
oportunidades apresentada por Carey e Shugart como mais propícia para o
controle partidário sobre nominações eleitorais. Nessa mesma direção, em outro
trabalho, Carey (2002) sugere que as circunscrições binominais (two-member
districts), ao induzir negociações intracoalizões sobre a distribuição das
candidaturas, terminariam por incrementar a coesão de partidos e coalizões.10 O
resultado, no entanto, apresenta discrepâncias que reforçam as dúvidas acerca
de efeitos (necessariamente) uniformes que deveriam ser produzidos por regras
eleitorais: enquanto PS e PDC possuem perfis partidários de carreiras
políticas, PPD, UDI, RN apresentam trajetórias que sugerem menor relevância de
partidos na manutenção de postos políticos. Deslocando o foco da legislação
eleitoral para as regras internas de seleção de candidaturas legislativas,
Navia (2004) apresenta uma possibilidade para a incorporação de diferenças
interpartidárias nos padrões chilenos de recrutamento parlamentar. Seus achados
identificam UDI e PPD como os partidos com processos mais centralizados de
seleção de candidaturas, ao passo que o PDC apresenta maior grau de democracia
interna e menor grau de controle exercido pelos dirigentes sobre a escolha de
candidatos. O paradoxo, neste caso, é que a centralização decisória dos
partidos PPD e UDI produz como resultado perfis menos partidários de carreira
política, enquanto a maior descentralização das escolhas entre democrata-
cristãos gera candidatos cujas trajetórias políticas foram projetadas
principalmente dentro das fronteiras partidárias. Isso mostra que o método da
escolha de candidatos pode não oferecer uma previsão adequada sobre os
resultados, em termos de padrões endógenos e perfis partidários de recrutamento
legislativo.
Por fim, se os efeitos atribuídos ao sistema de lista aberta sugeridos por
autores como Mainwaring (1999) e Ames (2003) podem explicar os padrões
encontrados nos partidos brasileiros PFL, PSDB e PMDB, eles não permitem
compreender por que sob a mesma regra de competição eleitoral o PT produziu
carreiras políticas fortemente endógenas e partidárias, ou mesmo variações
intrapartidárias nos padrões de carreiras políticas (Marenco, 2001).
A Frente Ampla, o Partido Socialista, o Partido Democrata-Cristão, o Partido
Nacional e o Partido Colorado, além de um padrão partidário de carreiras
políticas, possuem em comum sua longevidade temporal como organizações
eleitorais. Todos já existiam nos períodos democráticos anteriores ao regime
autoritário implantado no Uruguai e no Chile, sobreviveram aos ciclos
repressivos e reapresentaram-se como estruturas eleitorais, legislativas e
governamentais a partir das novas democracias. Em contrapartida, PPD, UDI, RN,
PSDB, PMDB e PFL são organizações formadas no final dos respectivos regimes
autoritários, ou mesmo já sob as novas instituições democráticas.
Há um efeito produzido pelo tempo sob a forma de maior institucionalização
partidária: conversão de reputações personalizadas em identidades partidárias,
constituição de organizações partidárias sólidas, acesso a recursos públicos e
sua conversão em insumos eleitorais. Exceção para esta explicação é caso do PT.
Com formação datada apenas no final do regime autoritário brasileiro (1980),
portanto comparativamente mais tardia em relação a organizações partidárias
institucionalizadas, esse partido compensou tal defasagem temporal com um
padrão organizacional rígido, combinando expansão territorial por penetração
(Panebianco, 1990) a partir de um núcleo original básico ' e com isso
neutralizando os efeitos centrífugos provocados pelo federalismo brasileiro '
com uma expansão eleitoral inicialmente lenta, o que restringiu oportunidades
de carreira pública e condicionou-as à formação de um capital partidário
baseado em intenso ativismo associativo e militância dentro do partido.
Conclusão
A finalidade desta pesquisa comparada foi analisar a composição e as
trajetórias das elites parlamentares para identificar padrões diferentes de
recrutamento partidário segundo blocos ideológicos nas câmaras de
representantes no Brasil, no Chile e no Uruguai. A estratégia metodológica
priorizou dois aspectos: a) o recrutamento social no campo das profissões
ocupacionais e da participação em associações coletivas; e b) as carreiras
políticas, definidas desde a idade e o período da primeira filiação partidária,
até o momento de aceso ao primeiro cargo público e o tempo de filiação
partidária (Figura_5).
Foram isolados dois tipos básicos de perfis sociais. Um mais tradicional,
encontrado nos partidos conservadores, que contempla formação educativa
vinculada a profissões universitárias liberais e presença maior de ocupações
ligadas ao mundo empresarial e da produção, apresentando, portanto, uma
composição social mais elitista do ponto de vista do status social e
profissional. Outro mais inclusivo e pluralista, que aparece entre
parlamentares de esquerda, com uma grande proporção de profissões vinculadas as
classes médias ' professores, profissões da área de ciências humanas,
funcionários públicos ' e uma participação maior de assalariados e integrantes
de camadas populares.
Paralelamente, foram isolados dois tipos básicos de carreiras políticas,
conforme a importância de recursos organizacionais (associativos e
partidários). Os deputados dos partidos conservadores (PFL, PPB, PMDB, RN e
UDI) têm carreiras mais laterais, apoiadas em estruturas organizativas mais
flexíveis, partidos do tipo catch-all (Kircheimer, 1980) e com trajetórias
partidárias iniciadas tardiamente e menos contínuas. As trajetórias dessas
elites mostram a preferência por recursos e capitais sociais individuais dos
candidatos para atingir o poder político em detrimento do capital associativo.
No outro extremo ideológico, as carreiras políticas apóiam-se tanto em recursos
coletivos para alcançar um maior capital social e político, como no
estabelecimento de uma constelação de redes sociais e no enraizamento de suas
bases sociais de apoio. Essas novas elites políticas constróem suas carreiras
com base em longas trajetórias, iniciadas antes mesmo do início da
redemocratização, e na fidelidade partidária, apoiada em estruturas organizadas
de tipo profissional-eleitoral (Panebianco, 1990). Os deputados dos partidos
PT, PS e FA normalmente têm vínculos com associações da sociedade civil, que
representam interesses coletivos, como o sindicalismo de trabalhadores e dos
grêmios estudantis e organizações que tratam de novas questões sociais.
Entre esses dois padrões extremos, há trajetórias híbridas. De um lado,
observam-se um padrão de profissionalização política e partidária e seqüências
políticas em partidos de origem social tradicional de seus quadros, como o
Partido Democrata Cristão, o Partido Nacional e o Partido Colorado. Isso parece
reforçar o efeito exercido pela institucionalização partidária, medida pela
longevidade temporal de cada organização (especialmente dos partidos criados
antes dos governos autoritários), o que produziu carreiras longas,
profissionais e endógenas. De outro lado, identificam-se trajetórias laterais
baseadas em carreiras personalizadas de candidatos de origem social mais
modesta e recrutamento pluralista, como, por exemplo, o Partido Pela
Democracia.
A partir da perspectiva da composição social das elites, o ascenso das
esquerdas expressa um novo papel de "tribunos da plebe" (Serna, 2004, p. 226),
com a ampliação da representação política de categorias e setores sociais
subalternos e a inclusão de redes associativas da sociedade civil sobre novas e
velhas questões sociais na arena política.
Analisando mudanças longitudinais nos perfis de ocupação de cadeiras
legislativas no Brasil, Fabiano Santos (2000) sugeriu que eles poderiam estar
associados à configuração institucional dos legislativos, na medida em que o
estoque de prerrogativas e recursos alocados por estas instituições poderiam
afetar a atração e a aderência de políticos movidos por ambições de carreira.
Embora um estudo cross-nationaldos legislativos em pauta fuja ao escopo deste
artigo, concordamos que a relevância institucional dos postos legislativos
constitui uma variável promissora para explicar as estratégias de carreira
pública empreendidas por membros da elite política.
Os achados relativos às diferenças partidárias na origem social dos deputados
eleitos são similares aos resultados encontrados por Rodrigues (2002) para o
caso brasileiro, identificando bases sociais de recrutamento distintas na
escala ideológicas da direita para a esquerda. Este trabalho procurou encontrar
os nexos entre as bases sociais de recrutamento partidário e os padrões de
carreira política identificados entre os deputados eleitos por cada legenda
para os respectivos legislativos nacionais. Foi possível detectar a presença de
mecanismos do tipo increasing-returns(North, 1990), presentes nos modelos de
seleção partidários, vinculando origens sociais e trajetórias institucionais
dos ocupantes de cadeiras legislativas, conforme cada bancada.
A formação de um sistema de lealdade institucional resulta, para Panebianco
(1990), do êxito do núcleo dirigenteem controlar zonas de incerteza e
mobilizar, quando necessário, mecanismos próprios de remuneração política,
sejam identidades coletivas, sejam recursos materiais ou status. Zonas de
incertezapodem ser compreendidas como pontos críticos que, ao serem
controlados, fornecem os meios para a construção de identidades institucionais
consistentes, como o acesso a recursos materiais, fontes de financiamento e
mecanismos de recrutamento e seleção de candidatos a carreiras e postos
políticos (Idem).
Carreiras são impulsionadas pela disponibilidade de recursos, como reputação
pessoal, fontes de financiamento, experiência política, redes organizativas,
que permitem a seu portador convertê-los em suporte material, apoios e votos.
Prestígio, posses e relações firmadas na vida privada são, neste caso, meios
mais eficazes para a arregimentação de recursos estratégicos. Detendo recursos
próprios ' como prestígio, renda e relações estabelecidas pela ocupação
profissional, os candidatos não dependem do aval partidário, podendo ignorá-lo
com menor risco para o ingresso ou a continuidade em sua carreira.
Inversamente, muitas vezes são os dirigentes partidários que necessitam da
notoriedade emprestada por seus nomes. Carreiras políticas são, com isso, mais
rápidas e descontínuas, oferecendo oportunidade para aspirantes com escassa ou
pequena experiência política.
Inversamente, candidatos desprovidos de recursos sociais e materiais próprios
dependem da organização partidária para fornecer os meios necessários de
ingresso e mobilidade nos postos institucionais, reforçando um padrão de
seleção endógena(Dogan, 1999; Mastropaolo, 1990). Carreiras adquirem a forma de
um cursus honorum(Gaxie, 1993), em que, ingressando nos níveis mais inferiores
da hierarquia institucional, o tempo necessário para o aspirante percorrer, dos
primeiros postos até posições nacionais, é, em regra, mais longo. Com uma
reduzida circulação entre ocupantes de cargos, a progressão na hierarquia da
carreira torna-se lenta. O postulante deve esperar, prudentemente, que se
ofereça uma vaga, com poucas perspectivas de desafiar, com êxito, aos
veteranos. Exatamente por dispor de menor volume de recursos eleitorais
individuais, os candidatos são impelidos a trajetórias institucionais
partidárias e à formação de lealdade organizacional com as legendas
responsáveis por seu ingresso e sua mobilidade na carreira pública.
Para tanto, destaca-se a afirmação dos mecanismos partidários e representativos
nas carreiras das elites políticas em regimes democráticos. As trajetórias das
novas elites políticas do campo das esquerdas mostram padrões de filiação
partidária definidas, carreiras políticas duradouras e acumulação de recursos
políticos associativos e representativos.
Notas
1 Devido a motivos metodológicos do universo de estudo e das amostras
partidárias, foram selecionados os partidos com maior representação
parlamentar, que tinham bancadas com mais de 5% de cadeiras na câmara de
deputados.
2 Usamos a expressão "partido conservador ou de direita" porque várias
pesquisas empíricas mostram a relutância dos políticos pertencentes a esses
partidos a se auto-identificarem na escala ideológica como sendo de direita, em
profunda discrepância com a visão que têm deles seus colegas não conservadores
pertencentes a partidos da esquerda (Mainwaring, Meneguello, Power, 2000, p.
53). Destarte, a análise de suas posições e atitudes políticas coincidem com um
discurso conservador.
3 Os partidos Colorado e Nacional são conhecidos também como partidos
tradicionais, com múltiplas tendências políticas no interior, desde o centro
até posições mais conservadoras.
4 Ver sites www2.camara.gov.br; www.congreso.cl e www.parlamento.gub.uy.
5 Segundo uma pesquisa comparada em doze democracias avançadas no ano de 1992,
as profissões jurídicas representavam 18% dos legisladores nas câmaras de
deputados, as médicas, 5%, e os engenheiros e arquitetos, 3% (Norris, 1996, p.
189).
6 Na pesquisa de Norris, empresários e comerciantes formavam 17% dos
legisladores, enquanto produtores agropecuários, 3% (1996, p. 189).
7 Comparando com a pesquisa empreendida por Norris, cientistas sociais e
econômicos, jornalistas e professores representavam 21% dos legisladores. Além
disso, 11% dos deputados eram funcionários públicos, antes de atingir a cadeira
legislativa (1996, p. 189).
8 Os dados comparados verificam as mesmas tendências. Na pesquisa de Norris
(1996), os operários compunham 4% dos deputados, enquanto os trabalhadores
white collars representavam 3%.
9 Numa pesquisa sobre a composição social dos deputados brasileiros (Rodrigues,
2002, pp. 64, 66), segundo classificações de ocupações na legislatura prévia do
ano de 1998, os resultados das diferenças nos padrões partidários são
semelhantes à nossa pesquisa para o PPB, PFL, PMDB, PSDB e PT. Destarte, no
caso do PMDB, classificado como partido de centro, cabe assinalar que as
diferenças com o estudo prévio não são nos resultados empíricos, mas na
interpretação e na classificação da composição do partido. Nas duas pesquisas,
o PMDB aparece com uma participação mais alta de empresários, profissionais
liberais e funcionários públicos. Em relação à composição social, o PMDB está
mais perto dos partidos de direita. Isto pode ser explicado pela participação
maior de políticos conservadores em relação ao outro partido de centro, o PSDB.
Essa é uma questão que deverá ser aprofundada em futuras pesquisas.
10 Vale ressalvar que a diferença com o caso uruguaio pode ser explicada pelo
método de coleta de dados, que, além das biografias, se baseou em enquetes
pessoais.