Desprovincializando a sociologia: a contribuição pós-colonial
Os estudos pós-coloniais não constituem propriamente uma matriz teórica única.
Trata-se de uma variedade de contribuições com orientações distintas, mas que
apresentam como característica comum o esforço de esboçar, pelo método da
desconstrução dos essencialismos, uma referência epistemológica crítica às
concepções dominantes de modernidade. Iniciada por aqueles autores qualificados
como intelectuais da diáspora negra ou migratória ' fundamentalmente imigrantes
oriundos de países pobres que vivem na Europa Ocidental e na América do Norte
', a perspectiva pós-colonial teve, primeiro na crítica literária, sobretudo na
Inglaterra e nos Estados Unidos, a partir dos anos de 1980, suas áreas
pioneiras de difusão. Depois disso, expande-se geograficamente e para outras
disciplinas, fazendo dos trabalhos de autores como Homi Bhabha, Edward Said,
Gayatri Chakravorty Spivak ou Stuart Hall e Paul Gilroy referências recorrentes
em outros países dentro e fora da Europa.
A abordagem pós-colonial constrói, sobre a evidência ' diga-se, trivializada
pelos debates entre estruturalistas e pós-estruturalistas ' de que toda
enunciação vem de algum lugar, sua crítica ao processo de produção do
conhecimento científico que, ao privilegiar modelos e conteúdos próprios ao que
se definiu como a cultura nacional nos países europeus, reproduziria, em outros
termos, a lógica da relação colonial. Tanto as experiências de minorias sociais
como os processos de transformação ocorridos nas sociedades "não ocidentais"
continuariam sendo tratados a partir de suas relações de funcionalidade,
semelhança ou divergência com o que se denominou centro. Assim, o prefixo "pós"
na expressão pós-colonial não indica simplesmente um "depois" no sentido
cronológico linear; trata-se de uma operação de reconfiguração do campo
discursivo, no qual as relações hierárquicas ganham significado (Hall, 1997a).
Colonial, por sua vez, vai além do colonialismo e alude a situações de opressão
diversas, definidas a partir de fronteiras de gênero, étnicas ou raciais.
Delimitar o campo teórico preciso no qual se inserem os estudos pós-coloniais
não é tarefa fácil. Talvez não seja nem mesmo uma tarefa concretizável, uma vez
que os estudos pós-coloniais buscam precisamente explorar as fronteiras,
produzir, conforme quer Bhabha (1994), uma reflexão para além da teoria. Não
obstante, não é difícil reconhecer a relação próxima entre os estudos pós-
coloniais e pelo menos três correntes ou escolas contemporâneas. A primeira é o
pós-estruturalismo e, sobretudo, os trabalhos de Derrida e Foucault, com quem
os estudos pós-coloniais aprenderam a reconhecer o caráter discursivo do
social. A recepção do pós-estruturalismo, contudo, não é a mesma que fazem
autores como Lyotard e outros expoentes da corrente pós-moderna, segunda
referência importante para os estudos pós-coloniais que se quer destacar aqui.
A rigor, a abertura para o pós-modernismo varia muito, conforme a abordagem que
se tome. De forma geral, aceita-se falar da pós-modernidade, como condição,
isto é, como categoria empírica que descreve o descentramento das narrativas e
dos sujeitos contemporâneos. Recusa-se, contudo, o pós-modernismo como programa
teórico e político, visto que, para o pós-colonialismo, a transformação social
e o combate à opressão devem ocupar lugar central na agenda de investigação
(Appiah, 1992; Gilroy, 1993, p. 107). Por último, cabe a alusão aos estudos
culturais, sobretudo em sua versão britânica desenvolvida principalmente no
Birmingham University's Centre for Contemporary Studies. Talvez seja razoável
dizer que a distinção entre estudos culturais, na versão britânica, e estudos
pós-coloniais seja apenas cronológica. Afinal, desde que Stuart Hall, figura
central dos estudos culturais britânicos, desloca sua atenção, a partir de
meados dos anos de 1980, de questões ligadas à classe e ao marxismo para temas
como racismo, etnicidades, gênero e identidades culturais, verifica-se uma
convergência plena entre estudos pós-coloniais e estudos culturais (Morley e
Chen, 1996).
O objetivo deste ensaio não é traçar uma genealogia dos estudos pós-coloniais,
mas discutir a importância de sua contribuição para as ciências sociais e para
a sociologia, em particular. Trata-se de discutir, em primeiro lugar, o caráter
da crítica que os estudos pós-coloniais endereçam às ciências sociais. Em
seguida, discute-se as alternativas epistemológicas que apresentam,
considerando-se três blocos interrelacionados de questões, a saber: a crítica
ao modernismo como teleologia da história, a busca de um lugar de enunciação
"híbrido" pós-colonial e a crítica à concepção de sujeito das ciências sociais.
A conclusão a que se chega é de que, a despeito de sua contundência e da
suspeita de autores como McLennan (2003) de que a teoria pós-colonial implode a
base epistemológica das ciências sociais, boa parte da crítica pós-colonial tem
como destinatário não o conjunto da teoria social, mas uma escola teórica
particular, qual seja, a teoria da modernização, e se assemelha a objeções
levantadas por cientistas sociais que nada têm a ver com o pós-colonialismo.
Outros problemas levantados pelos estudos pós-coloniais não desestabilizam,
necessariamente, as ciências sociais, podendo mesmo enriquecê-las.
As ciências sociais e seus binarismos
Não é sem razão que o livro clássico Orientalism do crítico literário palestino
Edward Said (1978) é considerado o "manifesto de fundação" do pós-colonialismo
(Conrad e Randeria, 2002, p. 22). No livro, Said dá contornos a uma perspectiva
que começara a ser delineada nos esforços pioneiros desenvolvidos pelo
psiquiatra de Martinica Frantz Fanon (1965 [1952]), quando buscou descrever o
mundo moderno visto pela perspectiva do negro e do colonizado.
O orientalismo de que fala Said caracteriza uma maneira particular de percepção
da história moderna e tem como ponto de partida o estabelecimento a priori de
uma distinção binária entre Ocidente e Oriente, segundo a qual cabe àquela
parte que se auto-representa como Ocidente a tarefa de definir o que se entende
por Oriente. O orientalismo constitui, assim, uma maneira de apreender o mundo,
ao mesmo tempo que se consolida, historicamente, a partir da produção de
conhecimentos pautados por aquela distinção binária original.
A inspiração que anima Said ' e, como se mostra mais adiante, boa parte dos
autores pós-coloniais ' é a crítica foucaultiana à "episteme" das ciências
humanas (Foucault, 1972, pp. 418ss.). Trata-se de mostrar que a produção de
conhecimento atende a um princípio circular e auto-referenciado, de sorte que
"novos" conhecimentos construídos sobre uma base de representação determinada
reafirmam, ad infinitum, as premissas inscritas nesse sistema de
representações. O orientalismo caracteriza, assim, um modo estabelecido e
institucionalizado de produção de representações sobre uma determinada região
do mundo, o qual se alimenta, se confirma e se atualiza por meio das próprias
imagens e dos conhecimentos que (re)cria.1 O Oriente de Orientalism, ainda que
remeta, vagamente, a um lugar geográfico, expressa mais propriamente uma
fronteira cultural e definidora de sentido entre um nós e um eles, no interior
de uma relação que produz e reproduz o outro como inferior, ao mesmo tempo em
que permite definir o nós, o si mesmo, em oposição a este outro, ora
representado como caricatura, ora como estereótipo e sempre como uma síntese
aglutinadora de tudo aquilo que o nós não é e nem quer ser.
Stuart Hall (1996a) busca generalizar o caso do orientalismo, mostrando que a
polaridade entre o Ocidente e o resto do mundo (West/Rest) encontra-se na base
de constituição das ciências sociais. O ponto de partida de Hall é igualmente a
noção de formação discursiva, derivada de Foucault. Tratado nesses termos,
discurso não se confunde com ideologia, entendida como representação falseada
ou falsificada do mundo. Não cabe, por isso, discutir o teor de verdade dos
discursos, mas o contexto no qual eles são produzidos, qual seja, o "regime de
verdade" dentro do qual o discurso adquire significação, se constitui como
plausível e assume eficácia prática. Esses regimes de verdade, ou na variação
preferida por Hall, "regimes de representação", não são fechados e mostram-se
aptos a incorporar novos elementos à rede de significados em questão, mantendo
um núcleo original de sentidos, contudo, inalterado (Idem, pp. 201ss.).2
Valendo-se da idéia de Said de que os discursos se servem de "arquivos" ou
fontes de conhecimento comum para se constituir, Hall enumera os principais
recursos que, ao longo do processo de expansão colonial, vão nutrindo e
constituindo o discurso West/Rest, a saber: os conhecimentos clássicos, as
fontes bíblicas e religiosas, as mitologias (Eldorado, lendas sexuais etc.),
além dos relatos de viajantes. A partir dessas fontes constituem-se as
polaridades entre o Ocidente ' civilizado, adiantado, desenvolvido, bom ' e o
resto ' selvagem, atrasado, subdesenvolvido, ruim. Uma vez constituídos, tais
binarismos tornam-se ferramentas para pensar e analisar a realidade. Hall
investiga obras de autores fundadores das ciências humanas em meados do século
XVIII (basicamente Adam Smith, Henry Kame, John Millar e Adam Ferguson),
mostrando como a polaridade West/Rest, contemporânea do Iluminismo, se instala
no interior destas.
O discurso West/Rest, conforme Hall, não é dominante apenas no âmbito desses
primeiros trabalhos das ciências humanas, ele se torna um dos fundamentos da
sociologia moderna que toma as normas sociais, as estruturas e os valores
encontrados nas sociedades denominadas ocidentais como o parâmetro universal
que define o que são sociedades modernas. Assim, sob a lente da sociologia, as
especificidades das sociedades "não ocidentais" passam a figurar como ausência
e incompletude, em face do padrão moderno, depreendido exclusivamente das
"sociedades ocidentais". Bons exemplos da incorporação pela sociologia moderna
do binarismo West/Rest seriam, para Hall, categorias como patrimonialismo, em
Weber, e modo de produção asiático, em Marx, que, de formas distintas, fraseam
o movimento interno de sociedades definidas como não ocidentais na gramática
implicitamente comparativa que toma as sociedades européias como padrão.
A polaridade West/Rest encontra-se também na base da narrativa histórica
adotada pelas ciências sociais modernas e pela sociologia, em particular.
Trata-se de uma grande narrativa centrada no Estado-nação "ocidental" e que
reduz a história moderna a uma ocidentalização paulatina e heróica do mundo,
sem levar em conta que, pelo menos desde a expansão colonial no século XVI,
diferentes "temporalidades e historicidades foram irreversível e violentamente
juntadas" (Hall, 1997a, p. 233).3 Tal não significa, obviamente, que o autor
acredite na simetria de poder e em iguais possibilidades de influência mútua
entre o "Ocidente" e o "resto do mundo", implica, contudo, que as partes
representadas como opostas e separadas, vale dizer, antinômicas, na verdade se
completam histórica e semanticamente.
A metodologia da comparação implícita e o tipo de narrativa histórica da
sociologia moderna fazem com que tudo o que é diverso no "resto do mundo" seja
decodificado como um ainda não existente, uma falta a ser compensada por meio
da intervenção social cabível em cada contexto e em cada época histórica:
dominação colonial, ajuda ao desenvolvimento, intervenção humanitária etc. Com
isso, Hall não pretende naturalmente atribuir a responsabilidade pelos
colonialismos e imperialismos às ciências sociais modernas. Mostra, contudo,
como as disciplinas desse campo reproduzem a perspectiva colonial, ao alimentar
e legitimar o modelo dominante de representação das relações entre a Europa e o
resto do mundo.4
As alternativas epistemológicas pós-coloniais
A "desconstrução" da polaridade West/Rest constitui o termo comum que une os
diferentes autores identificados com o marco pós-colonial. É precisamente essa
identificação do viés colonialista no processo de produção do conhecimento que,
como se afirmou mais acima, melhor define o prefixo "pós" do termo pós-
colonial. Afinal, do ponto de vista cronológico, esse prefixo refere-se a ex-
colônias com condições pós-coloniais radicalmente distintas.5 Interessa, por
isso, abordar aqui o pós-colonial, a forma de "descontrução" da polaridade
West/Rest que se constitui, historicamente, no âmbito da relação colonial, mas
que se perpetua mesmo depois de extinto o colonialismo, como modo de orientar a
produção do conhecimento e a intervenção política.
A tarefa que os autores pós-coloniais atribuem a si é imodesta. Cabe, primeiro,
mostrar que a polaridade Rest/West constrói, no plano discursivo, e legitima,
no âmbito político, uma relação assimétrica irreversível entre o Ocidente e seu
outro, conferindo ao primeiro um tipo de superioridade que não é
circunstancial, histórica e referida a um campo específico ' material,
tecnológico etc. Trata-se da atribuição de uma condição de superioridade que é
ontológica e total, imutável, essencializada, uma vez que ela faz parte da
própria constituição lógica e semântica dos termos da relação. O segundo passo
é mostrar que a polaridade West/Rest é inócua do ponto de vista cognitivo, uma
vez que ofusca aquilo que supostamente busca elucidar, a saber, as diferenças
internas dessa multiplicidade de fenômenos sociais subsumidos nesse outro
genérico, bem como as relações efetivas entre o Ocidente imaginado e o resto do
mundo.
Tal esforço de desconstrução dos binarismos (coloniais) vem seguindo percursos
diversos no âmbito dos estudos pós-coloniais e, pelo menos desde o importante
ensaio de Spivak (1988), desfez-se a expectativa de que uma perspectiva
epistemológica nova surgiria, dando-se voz ao (pós-)colonizado. A autora mostra
que é ilusória a referência a um sujeito subalterno que pudesse falar. O que
ela constata, valendo-se do exemplo da Índia, é uma heterogeneidade de
subalternos, os quais não são possuidores de uma consciência autêntica pré- ou
pós-colonial, trata-se de "subjetividades precárias" construídas no marco da
"violência epistêmica" colonial. Tal violência tem um sentido correlato àquele
cunhado por Foucault para referir-se à redefinição da idéia de sanidade na
Europa de finais do século XVIII, na medida em que desclassifica os
conhecimentos e as formas de apreensão do mundo do colonizado, roubando-lhe,
por assim dizer, a faculdade da enunciação. Assim, no lugar de reivindicar a
posição de representante dos subalternos que "ouve" a voz desses, ecoada nas
insurgências heróicas contra a opressão, o intelectual pós-colonial busca
entender a dominação colonial como cerceamento da resistência mediante a
imposição de uma episteme que torna a fala do subalterno, de antemão,
"silenciosa", vale dizer, desqualificada.
Cientes da impossibilidade constatada por Spivak, os estudos pós-coloniais
buscam alternativas para a desconstrução da antinomia West/Rest que sejam
distintas da simples inversão do lugar da enunciação colonial. Trata-se,
portanto, não de dar voz ao oprimido, mas como definem Pieterse e Parekh (1995,
p. 12), de uma descolonização da imaginação o que implica uma crítica que não
seja simplesmente anticolonialista,6 uma vez que, historicamente, o combate ao
colonialismo teria se dado ainda no marco epistemológico colonial, por meio da
reificação e do congelamento da suposta diferença do colonizado em construções
nativistas e nacionalistas. O pós-colonialismo deve promover precisamente a
desconstrução desses essencialismos, diluindo as fronteiras culturais legadas
tanto pelo colonialismo como pelas lutas anticoloniais.
Histórias entrelaçadas
A desconstrução da dicotomia Rest/West passa, primeiramente, pela
reinterpretação da história moderna. Com efeito, a releitura pós-colonial da
história moderna busca reinserir, reinscrever o colonizado na modernidade, não
como o outro do Ocidente, sinônimo do atraso, do tradicional, da falta, mas
como parte constitutiva essencial daquilo que foi construído, discursivamente,
como moderno. Isso implica descontruir a história hegemônica da modernidade,
evidenciando as relações materiais e simbólicas entre o "Ocidente" e o "resto"
do mundo, de sorte a mostrar que tais termos correspondem a construções mentais
sem correspondência empírica imediata. Esse é o projeto perseguido pelo
historiador indiano da Universidade de Chicago, Dipesh Chakrabarty (2000). Sob
a divisa "provincializar a Europa", o autor busca radicalizar e transcender o
universalismo liberal, mostrando que o racionalismo e a ciência, antes de serem
marcas culturais européias, são parte de uma história global, no interior da
qual o monopólio "ocidental" na definição do moderno foi construído tanto com o
auxílio do imperialismo europeu, como com a participação direta do mundo "não
ocidental". Isto é, as histórias nacionais de países não europeus se apresentam
como narrativas de construção de instituições ' cidadania, sociedade civil etc.
', que só encerram sentido se projetadas no espelho de uma "Europa hiperreal",
na medida em que ignoram as experiências efetivas das populações de tais
países. Nessas histórias nacionais, a Europa imaginada é a morada do verdadeiro
sujeito moderno, do qual mesmo os socialistas e os nacionalistas mais
combativos buscam construir, pela imitação, um similar nacional (para uma
crítica, ver Santos, 2004).
A tentativa de dar plausibilidade à idéia de histórias que, a despeito de serem
narradas como histórias nacionais, apresentam interpenetrações e se determinam
mutuamente, toma corpo nos conceitos de "histórias partilhadas" e "modernidade
entrelaçada", cunhados por Randeria (2000), socióloga indiana da Universidade
de Zurique. Com os conceitos, a autora busca, de um lado, expressar a
interdependência e a simultaneidade dos processos de constituição das
sociedades contemporâneas e, de outro, destacar a representação dicotômica,
cingida, das intersecções históricas nas representações modernas. O termo
"partilhado" carrega duplamente o sentido das expressões shared e divided, isto
é, trata-se de histórias compartilhadas em seu desenrolar, mas divididas em sua
apresentação e representação. É importante destacar que, ao enfatizar as
interpenetrações das histórias modernas, a autora não busca ofuscar as
assimetrias de poder que marcam tal relação, tampouco significa afirmar que
tudo está entrelaçado na mesma medida e na mesma proporção. Trata-se de
contextualizar as transformações observadas num feixe de relações
interdependentes entre as diferentes regiões do mundo, de forma a dar sentido
às assimetrias e às desigualdades construídas no interior da história moderna
comum.
A insistência na idéia de uma constituição entrelaçada da modernidade carrega
uma intenção dupla. Inicialmente, busca-se mostrar a cegueira epistemológica
que o binarismo West/Rest lega às diferentes disciplinas. Ou seja, ao tratar
esse "outro" do Ocidente, de forma evolucionista e hierárquica, como um vácuo
de sociabilidade, "pré-estágio do si mesmo europeu", disciplinas como a
sociologia acabam tomando por novos e decorrentes da globalização contemporânea
processos como "a debilitação da soberania nacional, informalização e
flexibilizaçao do trabalho, dependência de acontecimentos remotos,
hibridicidade cultural" (Idem, p. 45) ' todos eles, na verdade, velhos
conhecidos das sociedades (pós-)coloniais.
Ao mesmo tempo, a ênfase na constituição entrecruzada da modernidade busca
lançar luz sobre o papel das colônias como campo de experimentação da
modernidade. Se, pelo menos desde a publicação d'O capital de Karl Marx, a
importância da expansão colonial na formação do capitalismo é conhecida, a
ênfase pós-colonial na história partilhada busca chamar a atenção para outras
dimensões dessa interdependência. Conrad e Randeria (2002, p. 26) nomeiam
estudos diversos que, dentro desta perspectiva, mostram como a idéia (moderna)
de reformar a ordem social por meio da "intervenção orientada estrategicamente"
é gestada na segunda metade do século XIX, primeiro nas colônias e só depois é
importada, como possibilidade de "modernização", da Europa. Exemplos de tal
processo são os projetos de reestruturação urbana experimentados primeiro no
norte da África e depois aplicados na França, bem como a técnica de verificação
da identidade pela impressão digital, inicialmente posta em prática em Bengala.
O lugar de enunciação pós-colonial: elogio do híbrido
Em vez de buscar os fatos e as conexões que possam reposicionar o (pós-
) colonizado na história moderna, outros autores, mais convictos das
possibilidades do pós-estruturalismo, concentram seu esforço (pós-colonial) na
relação entre discurso e poder, buscando encontrar um lugar de enunciação que
possa escapar às adscrições essencialistas e transgredir as fronteiras
culturais traçadas pelo pensamento colonial. O crítico literário indiano Homi
Bhabha (1994) é quem persegue essa estratégia com mais pertinácia. Seu
interesse está voltado para os espaços de enunciação que não sejam definidos
pela polaridade dentro/fora, mas se situem entre as divisões, no entremeio das
fronteiras que definem qualquer identidade coletiva.
Em contraposição às construções identitárias homogeneizadoras que buscam
aprisionar e localizar a cultura, apresenta-se a idéia da diferença, articulada
contextualmente, nas lacunas de sentido entre as fronteiras culturais.
Diferença aqui não tem o sentido de herança biológica ou cultural, nem de
reprodução de uma pertença simbólica conferida pelo local de nascimento, de
moradia ou pela inserção social, cultural etc. A diferença é construída, no
processo mesmo de sua manifestação, ela não é uma entidade ou expressão de um
estoque cultural acumulado, é um fluxo de representações, articuladas ad hoc,
nas entrelinhas das identidades externas totalizantes e essencialistas ' a
nação, a classe operária, os negros, os migrantes etc. Nesses termos, mesmo a
remissão a uma suposta legitimidade legada por uma tradição "autêntica" e
"original" deve ser tratada como parte da performatização da diferença ' no
sentido lingüístico do ato enunciativo e no sentido dramatúrgico da encenação.
Assim, tal reivindicação de legitimidade precisa ser entendida a partir da
contextualidade discursiva em que se insere:
Termos do engajamento cultural, sejam eles antagonistas sejam de
filiação, são produzidos performativamente. A representação da
diferença não tem de ser interpretada apressadamente como um conjunto
pré-fornecido de caracteres étnicos ou culturais no âmbito de um
corpo fixo da tradição. Da perspectiva da minoria, a articulação
social da diferença representa uma complexa negociação em curso que
busca autorizar os hibridismos que aparecem nos momentos de
transformação histórica. O "direito" de significar a partir da
periferia do poder autorizado e privilegiado não depende da
persistência da tradição; tal direito está fundado no poder da
tradição de ser reinscrita por meio das condições de contingência e
contradição que respondem às vidas daqueles que "estão em minoria". O
reconhecimento que a tradição louva é uma forma parcial de
identificação. Retomando o passado, tal reconhecimento introduz
outras temporalidades culturais na invenção da tradição. Esse
processo torna estranho qualquer acesso imediato a uma identidade
original ou tradição "recebida" (Bhabha, 1994, p. 2)
A afirmação da diferença, conforme descrita por Bhabha, não pode ser entendida
como ação social, nos termos utilizados normalmente pelas teorias sociológicas
da ação, uma vez que a ação não pode ser inscrita numa narrativa teórica. Isto
é, não se verifica em Bhabha uma relação decifrável entre ação e estrutura, nem
um alinhamento entre self e sociedade que pudesse ser decodificado num modelo
sociológico generalizante: "não pode haver qualquer fechamento discursivo da
teoria" (Idem, p. 30; ver também McLennan, 2000, p. 77). Mesmo a idéia de
sujeito precisa ser compreendida fora dos cânones das ciências sociais. A
rigor, Bhabha evita a remissão à idéia de um sujeito que seja definido pelo
vínculo a um lugar na estrutura social ou que seja caracterizado pela defesa de
um conjunto determinado de idéias. O sujeito é sempre um sujeito provisório,
circunstancial e cingido entre um sujeito falante e um sujeito "falado",
reflexivo. O segundo nunca alcança o primeiro, só pode sucedê-lo. Isso,
contudo, não implica a impossibilidade da resistência à dominação.
A subversão possível está relacionada com o deslizamento do sentido dos signos.
A idéia, como se mostra adiante, tomada emprestada do pós-estruturalismo, é de
que os signos possuem possibilidades inesgotáveis de significação e só podem
ganhar um sentido particular, ainda assim provisório e incompleto, num contexto
significativo determinado. Nenhum contexto discursivo particular esgota
plenamente o repertório de significações atribuíveis a um signo; a ação
criativa é aquela que subverte, redefine o signo, a partir de um lugar
enunciatório deslocado dos sistemas de representação fechados. Não se trata,
portanto, conforme Bhabha, de uma intervenção informada por um sistema de
representação concorrente, mas de um lugar fronteiriço, de alguma maneira fora
dos sistemas de significações totalizantes e que é capaz, por isso, de
introduzir inquietação e revelar o caráter fragmentário e ambivalente de
qualquer sistema de representação. A eficácia da intervenção é também sempre
contingente, aberta, indefinida, trata-se de uma ação dentro da área de
influência do sujeito, mas fora de seu controle.
O lugar de enunciação entre os sistemas de representação é definido por Bhabha
como um "terceiro espaço" e corresponde ao contexto "no qual a contingência
espacial das fronteiras nacionais e raciais é combinada com o que ele descreve
como a contingência temporal do indecifrável" (Philips, 1999, p. 68). Isto é, o
terceiro espaço não se refere a um locus fixo na tessitura social, mas sim ao
instante no qual o caráter construído e arbitrário das fronteiras culturais
fica evidenciado. Tal acontece quando signos são deslocados de seu
referenciamento espacial e temporal e ainda se encontram, por assim dizer, em
movimento, ou seja, não foram inscritos num outro sistema de representação
totalizante. Esse deslocamento caracteriza o momento de "hibridação" do signo
e, embora operado com a participação do sujeito é, como mencionado, fortuito,
aleatório, é uma interação contingente (Bhabha, 1994, pp. 185ss.).
A idéia de hibridismo adotada por Bhabha tem sua origem na análise do lingüista
e teórico da cultura Mikhail Bakhtin, o qual distingue uma involuntária
"mistura de duas linguagens sociais dentro de uma mesma afirmação" e a
"confrontaçao dialógica" de duas linguagens na forma de um "hibridismo
intencional" (Grimm, 1997, p. 53). Bhabha nega o traço intencional, mostrando
que o fenômeno da hibridação independe da vontade do sujeito. Além disso, a
hibridação se presta, na relação colonial, não apenas à reação à dominação, mas
também à afirmação do próprio poder do colonizador. Conforme o autor,
diferentemente do que postularam os "pós-estruturalistas ocidentais", "puristas
da diferença", o poder não se produz unicamente por meio da transparência ' das
regras de classificação, de inclusão e exclusão, da identidade do colonial e do
colonizado etc. Na relação colonial, fundem-se cadeias de significações que
hibridizam a reivindicada identidade pura do colonizador, ao mesmo tempo em que
o colonizado se, de um lado, apenas imita o colonizador, também desloca,
hibridiza signos da dominação colonial, esvaziando-os da simbologia da
dominação (Bhabha, 1995 [1985], p. 34).
A partir do uso cunhado por Bhabha, os conceitos "hibridismo" (e "hibridação")
generalizam-se nos estudos pós-coloniais, ainda que ganhem em cada autor
matizes distintos (para uma comparação, ver Papastergiadis, 1997).7 A despeito
dos diferentes usos, o conceito permite operar dois movimentos fundamentais. O
primeiro é descontrutivista: ao revelar o traço híbrido de toda construção
cultural, busca-se desmontar a possibilidade de um lugar de enunciação
homogêneo. Qualquer lugar da enunciação é, de saída, um lugar heterogêneo, de
modo que a pretensão de homogeneidade é sempre arbitrariamente hierarquizadora.
O segundo movimento é, se assim se pode dizer, normativo: o hibridismo define
uma condição global cosmopolita. Trata-se da referência a uma cultura e a um
mundo híbrido como alusão a uma ecumene mundial acima das barreiras raciais,
nacionais, étnicas etc.: "uma cultura internacional, baseada não no exotismo do
multiculturalismo ou na diversidade de culturas, mas na inscrição e na
articulação de culturas da hibridez (Bhabha, 1994, p. 38). Esse ideal
cosmopolita confere uma conotação positiva à multiplicação das possibilidades
de percepção do mundo a partir de um lugar fora do contexto espacial e
simbólico das comunidades imaginadas que acompanha a globalização. Esse
"convite" à hibridação é inerente às biografias contemporâneas, de forma geral,
e encontra na figura do migrante "pós-colonial" sua representação emblemática.
O cosmopolitismo como hibridação inscreve-se assim no horizonte de
possibilidades, como alternativa ao universalismo modernista:
O modernismo combate a etnicidade em nome do universalismo, da
identidade de todas as pessoas com seus direitos individuais. O pós-
colonialismo faz o mesmo em nome da mistura e da hibridez,
reivindicando uma humanidade de tal maneira fundida em suas
características culturais que não há chances para qualquer
absolutismo étnico. A isso que eu me refiro como cosmopolitismo sem
modernismo (Fridman, 1995, p. 76).
Para além de seu papel como remissão a um lugar de enunciação que se impõe
entre as fronteiras culturais e como ideal cosmopolita, o termo hibridismo
ganhou, no campo da sociologia, com um ensaio de Nederveen Pieterse (1995,
2003), uso macroanalítico como categoria de estudo da globalização. O autor
considera que as análises correntes nesse campo buscam, em geral, associar
globalização e modernidade e acabam se tornando um anexo da teoria da
modernização, traduzindo a globalização como uma ocidentalização do mundo
(westernization). Os autores que pretendem fugir a essa visão da globalização,
como Therborn, Amin, Pred e Watts, indicam que cada sociedade "retrabalha" a
modernidade, definindo suas próprias trilhas modernizantes. Recaem, contudo,
invariavelmente, num policentrismo que continua oferecendo uma representação
estática e unidimensional da globalização: "a multiplicação dos centros que
continua, contudo, ainda amparada no centrismo" (Pieterse, 1995, p. 48). Todas
essas abordagens desconsideram, segundo Pieterse, algo fundamental no processo
de globalização, que é precisamente a gobalização da diversidade.
O autor postula que a globalização deve ser entendida como hibridação, o que
implica um processo de multiplicação e interpenetração dos modos disponíveis de
organização ' transnacional, internacional, macrorregional, nacional,
microrregional, municipal ', uma combinação, nas diferentes esferas sociais, de
lógicas de coordenação variadas, além do surgimento, no âmbito cultural, de uma
mélange global. Esta idéia corresponde a uma generalização dos processos de
interpenetração cultural, descritos, como casos particulares, em expressões
como creolização, mestizaje, orientalização, cross over culture e que destacam
a hibridação das partes envolvidas e o surgimento permanente de novas misturas.
Tal não implica assumir que as partes que se juntam na mélange sejam puras,
originárias. Nesse sentido, a hibridação que tem lugar na globalização
corresponde a uma mistura de misturas.
Para tornar seu argumento plausível, Pieterse contrapõe à idéia de cultura como
um conjunto de propriedades ortogenéticas e endôgenas de uma comunidade
orgânica e homogênea, em geral, associada a um local geográfico determinado, o
conceito de cultura translocal, heterogenética e heterogênea, desenvolvida em
redes difusas. Enquanto, no primeiro caso, os intercâmbios culturais são vistos
como um fenômeno estático e que sempre faz referência a um centro, no segundo,
os intercâmbios são fluidos, descentrados, transculturais. A globalização
representaria o processo, obviamente não linear, que conduz à generalização
desse segundo tipo de relação cultural, levando, assim, não à homogeneização,
mas à diversificação, não à hegemonia cultural, mas à interpenetração cultural,
não à ocidentalização, mas à mélange global, ou seja, à hibridação (Idem, pp.
61ss.).
Mesmo que inovador, o uso feito por Pieterse da idéia de hibridação como
categoria de análise da globalização apresenta problemas graves, parte dos
quais ele próprio reconhece: "o que falta é o reconhecimento do atual desnível,
assimetria e desigualdade nas relações globais" (Idem, p. 54). A inexatidão do
conceito não me parece, contudo, um problema de refinamento teórico, como se
fosse possível, como parece acreditar Pieterse, precisá-lo, por meio de novas
pesquisas. O problema é metodológico. Na operação desenvolvida por Pieterse, o
conceito hibridação vai acumulando tantas funções e definições que acaba se
tornando o sinônimo do que deveria explicar, como mostra o próprio título do
ensaio do autor: "Globalization as hybridation". Ao final, o autor descentra
tanto o conceito de modernidade como o de cultura, mas não descentra, ao
contrário unifica, a lógica de produção e reprodução da modernidade e da
cultura: trata-se de um lógica híbrida. Ainda que entenda o sentido crítico que
o apelo à idéia de hibridação possa ter para autores como Bhabha ou Pieterse,
seu uso como categoria analítica é, a meu juízo, um equívoco. O conceito multi-
uso funciona como um moinho que primeiro quebra para depois fundir as nuanças e
as diferenciações que devem precisamente despontar na análise. Quando parte da
idéia de hibridação, o analista é levado ao raciocínio circular: parte da
premissa de que a(s) modernidade(s), as culturas, as pessoas, a globalização,
ele próprio são híbridos, para concluir, triunfalmente, depois de um enorme
esforço de desconstrução e metonimização, que a(s) modernidade(s), as culturas,
as pessoas, a globalização, ele próprio são, Eureka! híbridos.
Da diferença ao sujeito
A concepção de diferença formulada, tanto por Bhabha como por Stuart Hall e
Paul Gilroy, decorre do pós-estruturalismo e, mais particularmente, da noção de
différance, conforme a acepção de Derrida. Sem poder me estender aqui num
debate ainda muito vivo e com desdobramentos para campos tão diversos quanto a
teoria feminista, o direito internacional e a teoria cultural, registra-se que,
ao cunhar o neologismo différance, como corruptela do vocábulo francês
différence, Derrida indica a existência de uma diferença que não é traduzível
no processo de significação dos signos, nem organizável nas polaridades
identitárias ' eu/outro, nós/eles, sujeito/objeto, mulher/homem, preto/branco,
significante/significado. Tais distinções e classificações binárias constituem
o modo ocidental, logocêntrico de apreender o mundo e constituem a base das
estruturas de dominação modernas. Criam, ainda, a ilusão de representações
completas, totalizantes, que não deixam resíduos. A incompletude das
representações encontra-se, contudo, assente na própria linguagem, visto que
significantes e significados nunca se correspondem inteiramente. A différance
remete ao excedente de sentido que não foi, nem pode ser significado e
representado nas diferenciações binárias.
Tal não deve sugerir um novo binarismo entre, de um lado, uma realidade
completa anterior, como o ser anterior pré-lingüístico e, de outro, sua
representação lingüística, parcial, reduzida. Não há uma realidade anterior ao
discurso; a realidade social é construída pela linguagem e, nesse sentido, a
différance só pode se constituir na órbita do discurso. A noção de différance
rompe, precisamente, com a idéia da diferença pré-existente, ontológica,
essencial, que pode ser apresentada e representada discursivamente. A
différance constitui-se no ato de sua manifestação, no âmbito da trama mesma de
representações, diferenças e diferenciações. Também o sujeito se descentra. Ele
se forma nas cadeias móveis de significação, a rigor é parte delas: não é
anterior à linguagem, nem constitui uma entidade e uma identidade independente,
tampouco é aquele que, como se poderia pensar, age sobre a différance, buscando
preencher as "sobras" de sentido que ela expressa, (re)constituindo as
totalidades. Não se trata de sujeitos inseridos numa estrutura, mas de cadeias
de significações nas quais sujeitos e estruturas tem o status similar de sinais
flutuantes que ganham e perdem sua significação ' sempre incompleta ' no jogo
semântico da diferenciação (ver Dietrich, 2000).
Em seu debate com Lévi-Strauss, Derrida (1972) mostra que o fato de atribuir um
caráter aberto, arbitrário, indefinido, aos jogos lingüísticos caracteriza sua
ruptura com o estruturalismo. Para o autor, a idéia de jogo em Lévi-Strauss é
perpassada por certa "ética da presença", como se houvesse uma origem última,
uma essência por trás do signo que, em algum momento, pudesse ser atualizada,
feita presente na linguagem. Aqui definem-se, para Derrida, duas formas de
conceber as ciências humanas: a primeira busca a origem última, a verdade por
trás das ilusões da representação, a segunda aceita a participação no jogo
incerto, a partir de uma posição flutuante. Esta segunda, a qual ele se filia,
é desconstrutivista, busca sempre o resíduo metafísico presente nos discursos
generalizantes, sejam eles diferencialistas ou universalistas.
A radicalidade contida na idéia de différance e na diluição da oposição entre
sujeito e estrutura operada por Derrida é, conforme entendo, interpretada, ou
melhor talvez, operada, de maneira distinta por Bhabha, de um lado, e por Hall
e Gilroy, de outro. Ambos os usos se apóiam no pós-estruturalismo para escapar
à idéia da diferença fixa, essencial, seja ela impingida, seja auto-atribuída.
A diferença é aqui uma "categoria enunciatória". Com efeito, o pós-
estruturalismo tem, nos dois casos, uma importância central na desconstrução de
discursos polares que opõem um "eu" a um "outro", um "nós" a um "eles". Isto
vale tanto para o discurso colonial-imperialista, como para o nacionalista, ou
ainda para o discurso multiculturalista, malgrado suas boas intenções. Em todos
os casos, a diferença é celebrada como identidade homogênea, semelhança
(sameness) irredutível, posto que se estabelece aqui uma correspondência entre
inserção sociocultural numa estrutura pré-discursiva e um lugar enunciatório
determinado no jogo lingüístico ou político. Com isso, a diferença é
domesticada, homogeneizada, aprisionada em uma nova fronteira, perdendo
precisamente seu caráter imprevisível, incerto, contingente, do qual decorre,
para Bhabha, Hall e Gilroy, suas possibilidades subversivas. No lugar de
identidade, os autores preferem falar de identificação, como posição
circunstancial nas redes de significação (Hall, 1996b, pp. 2ss.).
Bhabha, contudo, parece levar até as últimas conseqüências a contingência dos
jogos lingüísticos nos quais as diferenças são constituídas e negociadas. Não
me parece autorizada a recepção que dele fazem intelectuais ligados aos
movimentos sociais (imigrantes, feministas), procurando depreender do autor uma
teoria da transformação social, na qual se destaca um sujeito "negociador" de
diferenças com o fim da resistência política e da subversão das relações de
dominação. O congelamento de um lugar enunciatório como subversivo ignora o
caráter contingente da agência, peça fundamental da argumentação de Bhabha.
Como já destaquei, a ressignificação das relações de dominação, a possibilidade
de resistência política, para Bhabha, está subordinada, irremediavelmente, ao
princípio da casualidade: a resistência não pode ser um ato volitivo do
sujeito; tal se dá nas interações. Na passagem a seguir, essa posição é, uma
vez mais, enfatizada:
O processo de reinscrição e negociação ' a inserção ou intervenção de
algo que assume novo sentido ' acontece no intervalo de tempo entre o
signo, privado de subjetividade e no escopo da intersubjetividade.
Neste intervalo ' a quebra temporal na representação ' emerge o
processo da agência (Bhabha, 1994, p. 191).
Papastergiadis (1997, p. 279) tem razão ao afirmar que a preocupação de Bhabha
não é a salvação, a remissão, trata-se mais propriamente de uma crônica dos
processos, "por meio da qual as táticas de sobrevivência e continuidade são
articuladas". Bhabha aposta, sim, na multiplicação das diferenças, entendidas
como processos de hibridação que se articulam entre as fronteiras culturais, e
vê nelas a possibilidade de subverter os discursos totalizantes, sejam eles
hegemônicos ou não. Isto é, a disseminação das situações híbridas ' que
acompanham as migrações de pessoas e signos ' tem um sentido positivo na medida
em que cria condições de possibilidade para a articulação de novas diferenças.
Isso explica a atenção conferida pelo autor aos imigrantes, às minorias
nacionais etc. A importância desses não é, contudo, a do ator reflexivo que
confronta os discursos dominantes. Seu efeito transformador está relacionado
com a abertura de possibilidades de construção de novos sentidos,
proporcionadas pela presença do imigrante. Ou seja, o deslocamento espacial e
temporal dos signos hibridiza, potencialmente, os contextos de significação,
introduzindo a incerteza, a ambivalência, o ruído e a dúvida naquilo que
parecia coerente, "puro", preciso, ordenado. Tal aposta não implica, contudo,
"re-centralizar" o sujeito, dando-lhe um papel de protagonista social, como
fomentador da hibridação. Esse processo, reiterando, escapa ao controle do
ator. Não há uma teleologia do hibridismo, nem a reificação da consciência de
um ator que pudesse concretizá-la. O que o autor afirma é que as migrações de
signos aumentam os contextos de produção de cadeias de significação híbridas '
apenas como possibilidade! A presença de "signos estrangeiros" também pode
levar ' e efetivamente leva ' à petrificação das fronteiras culturais, mediante
a construção da figura do "forasteiro" como o "outro" da própria identidade
dominante ' os chamados processos de othering. Em que medida a migração de
signos produzirá mais hibridação ou mais adscrições é algo que o sujeito
migrante, como mencionado, pode influenciar, mas não pode controlar. O sujeito
é um signo na cadeia de significações.
Em contrapartida, Hall quer ir além dos jogos textuais da inscrição e da
reinscrição, buscando construir, com base na idéia de sujeitos descentrados,
uma sociologia política das negociações culturais.
Hall busca distinguir três concepções de sujeito: o cartesiano ou do iluminismo
' auto-referido com uma identidade autocentrada e constituída pela razão ', o
da sociologia e o sujeito descentrado, denominado pós-moderno. O sujeito da
sociologia constitui-se em suas relações com
[...] "outros com significação", os quais transmitem ao sujeito
valores, significados e símbolos ' a cultura ' dos mundos que ela/ele
habita. [...] O sujeito continua tendo uma essência interna nuclear,
qual seja, um "eu verdadeiro", mas formado e modificado em contínuo
diálogo com mundos culturais "externos" e com as identidades que tais
mundos oferecem (Hall, 1992, p. 275).
G. H. Mead, C. H. Cooley e os interacionistas simbólicos seriam as figuras
centrais no desenvolvimento dessa concepção de sujeito e identidade, que se
tornaram clássicas na sociologia. A concepção de sujeito descentrado decorre de
desenvolvimentos teóricos diversos que produzem, em seu conjunto, a imagem de
um indivíduo que não possui uma identidade permanente ou essencial. A idéia de
uma identidade completa e única revela-se uma fantasia ante a multiplicação dos
sistemas de representação a nos confrontar com "uma fervilhante variedade de
identidades possíveis" (Idem, p. 277). Nesse contexto, a sensação de que
possuímos uma identidade unificada que nos acompanha por toda a vida nos é
provida por uma "narrativa do self", por meio da qual se ressignifica o
conjunto de nossas experiências a partir de um fio de coerência e continuidade.
A concepção de sujeito descentrado desenvolvida por Hall pode ser entendida
como um desdobramento, na verdade um abrandamento, do projeto teórico de
Foucault a respeito da subordinação dos sujeitos aos discursos. Para chegar à
sua própria formulação, Hall (1997b, pp. 41ss.) reconstrói a reflexão de
Foucault com o intuito de mostrar que os trabalhos mais tardios do autor
indicam dois sentidos diversos dessa subordinação. O primeiro está associado ao
momento de construção e institucionalização, nas diferentes épocas, do discurso
disciplinador que, ao enquadrar, constitui os diferentes sujeitos. Ao mesmo
tempo, contudo, os discursos produzem um "lugar para o sujeito", na medida em
que abrem espaço para um posicionamento individual. Ou seja, o discurso ganha
sentido, uma vez que nós nos posicionamos e, dessa forma, nos tornamos
sujeitos, em face do regime de verdade que uma determinada formação discursiva
estabelece. Tal posicionamento não se confunde com autonomia e intenção do
sujeito; porém, ainda assim, permite, conforme Hall, identificar um momento, no
processo de produção do self, marcado pela autoconstituição, pela
subjectification.
Esse momento, no âmbito da produção discursiva do self, representa o fundamento
da noção de sujeito descentrado postulada por Hall. Trata-se de analisar a
relação entre sujeito e formação discursiva, de sorte a indicar os mecanismos
que levam os indivíduos a se identificar ou não com determinadas posições,
[...] bem como as maneiras como esses indivíduos marcam, estilizam,
produzem e desempenham tais posições [...] encontrando-se em
constante e agonístico processo de lutar contra, resistir, negociar e
acomodar-se às ordens regulativas ou normativas com as quais eles
estão confrontados e que os regula (Hall, 1996e, p. 13).
O conceito-chave utilizado por Hall para descrever o processo de posicionamento
do sujeito no interior de uma formação discursiva determinada é a idéia de
articulação, analisada nos dois sentidos que a palavra possui em inglês, qual
seja, o de falar, se articular, ser articulado e o de conexão de dois elementos
que podem constituir uma unidade em determinadas circunstâncias, como o
"caminhão articulado", no qual cabine e carreta podem constituir uma unidade
circunstancial.
O princípio da articulação possível, mas não necessária, pode ser observado
tanto no processo de constituição dos sujeitos individuais que se reposicionam,
permanentemente, em face da formação discursiva, como na produção dos sujeitos
coletivos. A tarefa teórica, que ainda não foi realizada, é precisamente
mostrar sob quais circunstâncias discursos e sujeitos se formam, isto é, se
articulam. Nesse escopo, uma teoria da articulação representa
[...] tanto uma maneira de entender como os elementos ideológicos
chegam, sob certas condições, a se condensar num discurso, quanto uma
maneira de questionar como estes se articulam ou não, em certas
conjunturas, como determinados sujeitos políticos. Em outras
palavras: a teoria da articulação questiona como uma ideologia
descobre seu sujeito e não como o sujeito encontra os pensamentos que
lhe pertencem necessária e inevitavelmente. Tal teoria permite pensar
como uma ideologia confere poder às pessoas, possibilitando-lhes dar
sentido ou inteligibilidade à sua situação histórica sem reduzir as
formas de inteligibilidade à situação social ou à posição de classes
das pessoas (Hall, 1996b, p. 141).
A referência a sujeitos coletivos não deve sugerir a idéia de grupos
constituídos pré-discursivamente, a partir de condições objetivas, materiais e
que, por assim dizer, estejam à espera de um discurso que decifre sua condição
comum e os constitua como sujeitos. Sujeitos e discursos formam-se de modo
simultâneo, ou, em outras palavras, sujeitos só podem se articular a partir de
discursos. Articulação permanece, contudo, para Hall, um conceito estritamente
analítico-descritivo e que se aplica a qualquer forma de relação entre sujeito
e formação discursiva, isto é, não qualifica a priori se determinada posição
assumida pelo sujeito reproduz as relações de dominação ou se tem o sentido de
resignificar as relações sociais.
Não há, no trabalho de Stuart Hall, um lugar normativo fora do discurso ou
anterior ao jogo político, a partir do qual se possa valorar as posições
assumidas pelo sujeito. Tampouco há constantes normativas que funcionem como
medidas de aferição daquilo que passa a ser "desejável". Ainda assim, ou talvez
precisamente por isso, os instrumentos analíticos desenvolvidos pelo autor,
quando aplicados ao estudo de contextos concretos, permitem não apenas
descrever fenômenos, mas também contextualizá-los política e normativamente.
Por isso, para avaliar se a identificação buscada reproduz as categorizações
hegemônicas ou se articula novas diferenças, Hall recorre a categorias
auxiliares que permitem, em alguma medida, valorações no sentido político e
normativo. Destaca-se aqui conceitos como política de representação,
transcodificação (trans-coding) e novas etnicidades (new ethnicities),
construídos, sobretudo, à luz da experiência das lutas anti-racistas na
Inglaterra nas últimas quatro décadas.
A rigor, Hall distingue dois momentos na resistência cultural contra o racismo.
O primeiro coincide com a fase em que o termo black foi cunhado como referência
comum à experiência de marginalização e das práticas racistas dominantes na
Grã-Bretanha. A estratégia da resistência combina, nesse período, a luta pelo
acesso ao direito de construção das próprias representações e a contestação "da
marginalidade, a qualidade estereotipificada e a natureza fetichizada das
imagens dos negros, mediante a contraposição de um conjunto 'positivo' de
imagens do negro" (Hall, 1996c, p. 442; ver também 1996d). O foco da
resistência ao racismo, nessa primeira fase, é definido por Hall como o campo
das relações de representação em oposição ao que predomina na segunda fase e
que ele chama de políticas de representação. Essa idéia remete à constituição
discursiva do social e implica entender representação não como uma expressão e
apresentação pública de realidades e relações pré-constituídas, mas como
momento constitutivo das relações sociais. A política de representações remete,
por isso, a uma intervenção voltada para influenciar os termos mesmos em que o
social se constitui (Hall, 1997b, 1997c).
Essa segunda fase caracteriza o momento em que a resistência anti-racista
interage com os discursos do pós-estruturalismo, do pós-modernismo, da
psicanálise e do feminismo, observando-se o que Hall define como "o fim da
inocência", ou seja, o reconhecimento de que a categoria black é uma construção
política e cultural, "a qual não pode ser fundada num conjunto de categorias
raciais fixadas transcultural ou transcendentalmente e que, por isso, não
encontra qualquer amparo na natureza" (Hall, 1996c, p. 443). O fim do sujeito
centrado ' black people ' como uma totalidade positiva força o movimento anti-
racista a deparar-se com a questão da diferença e da différance, nos termos
tratados acima. Isto é, se as formas de representação racistas organizam o
mundo em diferenças binárias, fixas e ontológicas ' preto ou branco, black or
british ', o anti-racismo não pode se resumir na busca pela representação
positiva daquele que é considerado, nessas polaridades, inferior; é preciso
desmontar o próprio sistema de representações. Daí advém a aposta na política
de representações, o que implica reconhecer e assumir plenamente a
heterogeneidade e o descentramento do sujeito, buscar a différance múltipla no
interior da diferença binária (branco/preto) e recuperar as interseções entre
raça, classe, gênero e etnia. É precisamente na articulação dessas diferenças '
todas elas móveis, cambiantes, construídas no momento de sua manifestação
discursiva ' que o sujeito da resistência anti-racista se constitui como "nova
etnicidade".8
(Im-)possibilidades de uma sociologia pós-colonial
Ao buscar traduzir em termos sociológicos a reflexão pós-colonial '
fundamentalmente a partir dos trabalhos de Homi Bhabha ' e avaliar seu impacto
sobre a produção teórica no campo das ciências sociais, McLennan (2003) chega a
um resultado ambivalente. De um lado, mostra que os estudos pós-coloniais
alvejam o calcanhar de Aquiles da sociologia de três formas diferentes. Em
primeiro lugar, deslegitimam uma certa sociologia do subdesenvolvimento,
mostrando que ela insiste, ainda, na representação de um "outro" inferior e
carente de civilização. Em segundo, atingem a sociologia multiculturalista ou
pluralista, quando mostram que a idéia de um espaço imparcial de representação
de diferenças culturais pré-existentes é implausível. Em terceiro, recaem sobre
o conjunto de disciplinas das ciências sociais vinculadas ao estilo de
teorização generalizante, inadequado para captar a dinâmica social: "[...] os
estudos culturais pós-coloniais, ao sublinhar a 'performatividade' e a
'liminalidade' mais do que o posicionamento estrutural e as avaliações
racionais, oferecem uma discussão mais ampla e um sentido mais inclusivo da
riqueza da experiência social do que a sociologia" (Idem, p. 82). Ao mesmo
tempo, contudo, McLennan mostra que a teoria pós-colonial, caso tenha alguma
pretensão analítica, será prisioneira do mesmo dilema imposto à sociologia.
Afinal, teorizar implica, em algum momento, reduzir a experiência às
prioridades e às categorias conceituais do marco analítico escolhido.
Gostaria de propor uma aproximação entre os estudos pós-coloniais e as ciências
sociais um pouco distinta daquela que faz McLennan. Restringirei minhas
observações ao campo da sociologia, deixando ao leitor que tenha maior domínio
das respectivas áreas de estudo a tarefa de refletir sobre as relações entre a
teoria pós-colonial e os demais campos das ciências sociais, sobretudo a
antropologia e a ciência política.
Antes de tudo há que se abandonar a postura reativa e defensiva freqüentemente
assumida pela sociologia e tomar a radicalidade do discurso pós-colonial,
antigeneralizante, anti-establishment e "ameaçador" do modernismo sociológico
não em seus termos, mas como estratégia performática de construção de novos
espaços institucionais. Interessa atravessar a bruma retórica, de sorte a
identificar quais são, efetivamente, os impulsos novos que os estudos pós-
coloniais podem trazer para a sociologia. Não é o caso, aqui, portanto, de
confrontar "estilos teóricos" ou epistemologias, mas de destacar alguns pontos
de tangenciamento e possibilidades de tradução. Para tanto, retomo o roteiro de
apresentação das alternativas epistemológicas pós-coloniais, a partir dos três
momentos destacados anteriormente, quais sejam, a crítica à leitura teleológica
da história moderna, a busca de um lugar híbrido de enunciação e, por fim, a
"articulação" do sujeito descentrado.
A sociologia é, sem dúvida, vulnerável à crítica pós-colonial da visão
teleológica da modernização. Não obstante, parece-me que o alvo particular
dessa crítica não é a sociologia, como tal, mas um ramo particular dessa
disciplina ' a macrossociologia da modernização. Ora, a crítica à teoria da
modernização, escola de pensamento que vive sua fase áurea nos Estados Unidos,
nos anos de 1950 e 1960, remonta pelo menos ao final da década de 1960, quando
atacava-se, precisamente, o caráter etnocêntrico, endogenista de tal corrente e
a suposição de que da "modernização" da economia decorreria, automaticamente,
transformações em outras esferas, como a democratização da política e a
secularização cultural (Knöbl, 2001).
Projetada sobre a discussão em torno da teoria da modernização, a crítica pós-
colonial genérica à teleologia modernizante das ciências humanas e da
sociologia, em particular, pode ser mais bem focalizada e perde parte de sua
contundência. Percebe-se que ela, ainda que permaneça justificada e importante,
trata de problemas que dizem respeito mais diretamente a uma corrente teórica
particular e refere-se a insuficiências que, dentro da própria sociologia, já
foram há muito identificadas e contornadas de alguma maneira. Nesse sentido,
concepções como entangled modernity não iluminam uma zona de sombra da
sociologia, nem são, por assim dizer, formuladas a partir de uma posição
externa e imune ao "regime de verdade" da sociologia. A despeito da
radicalidade retórica, concorrem, dentro da própria sociologia, com categorias
macrossociológicas voltadas para uma descrição não evolucionista da
modernização e estão submetidas aos critérios de validação próprios à
disciplina. Ou seja, na medida em que pleiteiam alguma forma de ressonância
acadêmica, os estudos pós-coloniais não têm como se furtar ao aprofundamento da
interlocução com marcos que disputam o mesmo terreno teórico, abandonando,
assim, a postura anti-establishment.
Essa tarefa permanece ainda irrealizada. Com efeito, até o momento, o interesse
pós-colonial pelas contribuições que, no campo da própria sociologia, buscam
superar o marco macrossociológico da teoria da modernização, como é o caso de
autores como S. Amin (1989), I. Wallerstein (1997) ou G. Therborn (1995, 2000),
não passou de descarte sumário, numa ou noutra referência marginal (Pieterse,
1995; Conrad e Randeria, 2002; para uma crítica um pouco mais circunstanciada,
ver McLennan, 2000).
O segundo momento da crítica pós-colonial descrito acima trata da busca de um
lugar de enunciação híbrido, vale dizer, no entremeio das fronteiras culturais.
A idéia de um terceiro espaço, acima e além das fronteiras culturais, ainda que
possa ser construída como um instante no texto literário (Bhabha oferece
exemplos diversos nessa direção), parece-me desprovida de qualquer relevância
sociológica. Ou seja, não há, na topografia social, terceiros lugares; todos os
lugares enunciatórios definem imediatamente fronteiras. Nesse sentido, o elogio
do híbrido é, como o nacionalismo, o vanguardismo ou o nativismo, um discurso
que, ao ser enunciado, funda novas fronteiras identitárias. Esse discurso pode
ter, em determinadas circunstâncias políticas e históricas, um efeito de
mostrar o caráter contingente das unidades culturais construídas ' a nação, a
etnia, o movimento social. Isso, contudo, não é inerente à natureza mesma do
discurso sobre o hibridismo, mas às articulações que tal discurso permite ou
fomenta sob condições específicas: o mesmo elogio do híbrido, que permite a uma
elite de imigrantes cultivados na Inglaterra construir sua tribuna para
criticar a arrogância da Englishness ou para desconstruir a pretensão de
unidade e pureza do "povo alemão" (Ha, 1999), pode servir, como foi o caso no
Brasil dos anos de 1940, de cimento da ideologia da mestiçagem, nacionalista,
homogeneizadora e heterofóbica.
Como categoria analítica e, mais especificamente, como categoria
macrossociológica de estudo da globalização, o conceito de hibridismo é
igualmente inadequado, uma vez que sempre é reposto, num movimento circular,
como sinônimo dos processos que pretendia explicar.
Pode-se concluir que o termo hibridismo não apresenta qualquer interesse para a
sociologia. Esta pode investigar o hibridismo como discurso dos atores, na
medida em que tal discurso, sob determinadas circunstâncias, introduz a dúvida
onde pairam certezas essencialistas e empowers minorias culturais. Como
categoria normativa ou analítica, contudo, a inépcia do conceito salta aos
olhos.
Cabe, por fim, retomar a importância da contribuição pós-colonial para a
discussão entre sujeito e diferença ou, mais precisamente, para fundamentar uma
microssociologia das articulações culturais. Como procurei mostrar, os estudos
pós-coloniais têm aqui uma importância teórica que vai além de áreas de
pesquisa particulares, como os estudos de minorias nacionais, as relações
étnicas ou o racismo. Com efeito, naquele fraseamento, despido do "excesso
retórico do pós-estruturalismo literário" (Gilroy, 1993, p. 110) e impulsionado
pelo imperativo do posicionamento político,9 como buscam autores como Hall e
Gilroy, a discussão sobre o sujeito descentrado leva a uma teorização inovadora
da relação entre diferença, sujeito e política. Os autores traçam um caminho
que evita tanto os equívocos das correntes pós-modernas que decretam a completa
fragmentação do sujeito, como o elogio reificador do "Sujeito ocidental",
desenvolvido, por exemplo, por Alain Touraine (1992) ou Habermas (2001).
Constróem, assim, um marco analítico que permite ao mesmo estudar a relação
entre sujeito e discurso e identificar o espaço de criatividade do sujeito.
Essa contribuição dos estudos pós-coloniais permanece ímpar e, seguramente,
ajuda as ciências sociais a, finalmente, reencontrar seu vigor criativo.