Empresariado, regime político e democracia: Brasil, anos de 1990
Introdução
Embora o estudo da relação entre empresariado e democracia no Brasil não seja
propriamente novidade entre os pesquisadores, muito ainda há que ser analisado.
Nos trabalhos clássicos sobre o empresariado (Cardoso, 1964; Martins, 1968;
Schmitter, 1971; Diniz, 1978; Boschi, 1979), esse tema é tratado no âmbito do
debate sobre o papel e a posição política deste grupo no processo de
desenvolvimento econômico. Outros estudos dedicam-se ao comportamento dos
empresários na transição do regime autoritário de 1964 para a democracia (Cruz,
1992, 1995; Cardoso, 1993; Codato, 1997). As análises voltadas para as
instituições representativas do empresariado nem sempre tomam a relação com as
experiências democráticas no Brasil como centro da reflexão, privilegiando o
processo de definição da política econômica (Minella, 1988; Diniz e Boschi,
1993; Leopoldi, 2000). Estudos mais recentes começam a considerar as
implicações desta relação sobre o desenvolvimento e o futuro da democracia no
Brasil dos dias de hoje (Diniz, 1997; Diniz e Boschi, 2000). Assim, a partir
dessa rápida análise da literatura sobre o tema, pode-se observar que o
problema do papel do empresariado no funcionamento da democracia tendeu a ficar
em segundo plano e que, em geral, os trabalhos privilegiam o setor industrial.1
A questão que pretendemos tratar é a articulação entre os padrões de ação
política do empresariado e o arranjo político-institucional, ou seja, o regime
político, no contexto da democracia, tomando por referência o Brasil no período
entre 1984 e 1994. Essa perspectiva permite analisar não apenas os momentos de
ação concreta, bem-sucedidos ou não, como também os momentos de inação do
empresariado em relação ao funcionamento da democracia. Dessa forma, o eixo da
análise da ação política do empresariado detém-se sobre seu processo de
organização e representação política e sua relação com o arranjo político-
institucional vigente. Trata-se também de uma estratégia analítica, uma vez que
estudamos o comportamento político do empresariado ante as instituições
políticas como algo fundamental para a compreensão das particularidades de sua
ação coletiva e de sua constituição como agente político. Privilegiamos, pois,
mais as formas de articulação entre o empresariado e a democracia do que o seu
comportamento no que diz respeito à política econômica, como é mais usual na
literatura.
Esta pesquisa contempla duas entidades representativas do empresariado
paulista, a Associação Comercial de São Paulo (ACSP) e a Federação do Comércio
do Estado de São Paulo (FCESP).2 Trata-se de entidades de naturezas distintas '
uma civil e outra sindical ' que articulam segmentos de vários setores das
atividades empresariais, sobretudo os de pequeno e médio porte e, em especial,
os do comércio.3
Essas entidades são originárias de outros momentos históricos, de outras
conjunturas econômicas e foram estabelecidas no contexto de diferentes regimes
políticos. A ACSP, fundada em 1884, é uma associação civil de direito privado,
portanto, não-sindical. Sua receita não contempla nenhum tipo de contribuição
compulsória, sendo a filiação voluntária e aberta a empresas de todos os
setores da economia. Na década de 1990, entre os associados predominavam as
pequenas e médias empresas do comércio e dos serviços. No final dessa década, o
quadro de associados não mudou: 60% do setor de comércio, 20% de indústria e
20% de serviços e profissionais liberais. Quanto aos interesses articulados
pela ACSP, desde os anos de 1980 a defesa da pequena e média empresa era a sua
principal bandeira de luta. No entanto, pelo fato de agregar, seja no seu
quadro social, seja na sua diretoria, empresários e representantes de entidades
ligadas a diversos setores e segmentos da economia nacional, os interesses por
ela defendidos e sua ação política refletiam tal diversidade. Nos anos de 1990,
a Associação se definia, de um lado, como uma empresa prestadora de serviços e,
de outro, como uma "escola de civismo" e um espaço de formação de lideranças
empresariais.4 Além disso, é também uma empresa prestadora de serviços
relacionados a informações sobre crédito ao consumidor.5
A FCESP, por sua vez, é uma entidade que congrega os sindicatos do comércio e
do setor de serviços do estado de São Paulo, criada em 1943 e regulada pelos
moldes oficiais do sindicalismo brasileiro. Em relação à sua composição, no
final dos anos de 1990, o número de sindicatos filiados girava em torno de 130,
cuja maioria consistia de pequenos varejistas, em especial de cidades do
interior.6 Quanto aos interesses presentes e atuantes na FCESP nesse período,
houve uma intensificação da defesa das micro, pequenas e médias empresas. Os
atacadistas vinham perdendo importância política e administrativa desde o final
dos anos de 1960 (Costa, 1998), mas, apesar de bastante enfraquecidos em função
do avanço dos supermercados na economia nacional e do varejo no interior da
entidade, não deixaram de ocupar espaço na FCESP. Os exportadores e
importadores também tinham seus interesses contemplados. Se nos anos de 1970 a
elite dos grandes empresários controlava a entidade, passada uma década, os
diretores eram empresários bem-sucedidos em setores de menor porte. Esse
processo foi considerado pela Federação uma "democratização" do seu processo
decisório interno.7
O comportamento político das organizações empresariais aqui analisadas não está
sendo tomado como o elemento determinante das formas institucionais do Estado
e, portanto, um fator decisivo para a compreensão das características do regime
político. Vários outros agentes ' forças sociais, instituições e fatores
históricos nacionais e internacionais ' são relevantes no complexo processo de
constituição do arranjo político-institucional. Não estamos discutindo se o
empresariado é ou não o condutor da construção das instituições políticas ou do
processo decisório. O impacto do comportamento do empresariado sobre o regime
político democrático não é aqui considerado meramente no sentido de comprovar
ou contestar se determinado grupo estabeleceu, dirigiu ou controlou o processo
de retomada e de funcionamento das instituições democráticas na história
recente do Brasil. Quando destacamos a importância do empresariado no processo
de retomada das instituições democráticas, reportamo-nos à necessidade de se
analisar objetivamente qual foi o comportamento deste grupo social em face do
arranjo político-institucional democrático. Ainda que existam outros grupos e
forças sociais igualmente importantes, a análise proposta é fundamental devido
à relevância que, em princípio, o empresariado teria sobre as formas do
funcionamento concreto da política e do Estado no capitalismo. O que está em
questão não é simplesmente o poder, ou a falta dele, por parte do empresariado
na sociedade brasileira, mas a importância de seu comportamento na dinâmica
política e institucional dessa sociedade, e vice-versa. Daí, nossa preocupação
com o comportamento dos empresários ante as instituições e os processos
característicos da ordem democrática, mais especificamente, a relação entre os
poderes Executivo e Legislativo, entre os poderes federal, estadual e municipal
e o papel dos partidos e das formas de representação política das forças
sociais sobre o Estado.
Enfim, pretendemos avaliar se esse grupo contribuiu de forma positiva ou
negativa para a alteração ou a preservação de certos aspectos institucionais da
democracia no Brasil no período em questão. Daí o interesse em estudarmos os
padrões de ação política do empresariado e a sua relação com a
institucionalização da política em um contexto democrático. A problematização
do comportamento das entidades aqui consideradas permite-nos analisar alguns
aspectos da forma pela qual se estabeleceu a relação entre o empresariado
organizado e o regime democrático pós-1988. Este é o nosso objetivo
fundamental.
Observar como a ACSP e a FCESP atuavam em face das instituições do regime
democrático permite, dentro de certos limites, fazer uma comparação entre esta
postura e algumas características da ordem institucional. O comportamento das
entidades pode ser favorável, desfavorável ou indiferente a certas
particularidades do regime político, interferindo pela presençae pela ausência,
ou seja, pela ação ou inação no processo de institucionalização da política,
entendida como o processo de constituição e de funcionamento, as
particularidades e as prerrogativas das instituições que caracterizam o regime
político. Além disso, mesmo sem constituir o foco central desta análise, tal
estudo permite também apreender certos padrões de ação política por parte das
forças políticas que ocupavam o Estado, ou seja, o Governo, em relação aos
empresários e ao próprio arranjo político-institucional.
A escolha dessas duas entidades regionais deve-se, em primeiro lugar, ao seu
papel relevante entre as entidades do mesmo setor e de outras regiões.
Diferentemente da indústria, até os anos de 1990 o comércio paulista, tanto por
intermédio da ACSP como da FCESP, ocupava a direção das confederações desse
setor. Em segundo lugar, além da importância econômica do estado de São Paulo,
há o fato de que a dimensão regional é uma característica do próprio regime
político e do corporativismo no Brasil. Portanto, tal dimensão continua sendo,
até os dias de hoje, essencial no processo político brasileiro, o que se
reflete também na organização política do empresariado e nos seus padrões de
ação política.
A seguir, procuramos fundamentar a constatação de que, apesar de algumas
tentativas, as entidades analisadas não conseguiram superar os obstáculos
inerentes à situação econômica, social e política dos grupos sociais que
atuavam por meio delas, de forma que lhes permitissem enfrentar com mais
intensidade e eficácia o problema da institucionalização da democracia e
interferir decisivamente na constituição e nas formas de funcionamento das
instituições políticas no processo de retomada dos procedimentos democráticos a
partir do final dos anos de 1970. É justamente este aspecto que caracteriza a
relação entre empresariado e regime político, ou seja, um certo tipo de
presença e, principalmente, de ausência.
Estratégias e táticas do empresariado
O estudo da ação coletiva do empresariado a partir do seu comportamento em
relação às instituições do regime político democrático pode ser muito
interessante, já que a defesa dos interesses e a intervenção no dia-a-dia e nas
linhas gerais da política econômica passam decisivamente pelas instâncias
políticas, sejam elas mais burocratizadas e insuladas, sejam abertas e
pluralistas.8 Ademais, a análise da concepção de política, de democracia e de
regime democrático permite verificar o âmbito no qual os próprios empresários
enquadravam sua ação política. Isto é fundamental quando a referência é o
regime político, pois revela o momento em que o agente econômico avalia as
instituições políticas democráticas e, diante delas, define os parâmetros de
seu comportamento.
Observamos que os interesses articulados pelas entidades analisadas são
prioritariamente os das pequenas e médias empresas ligadas ao mercado interno,
sobretudo do comércio, apesar da presença de outros setores e segmentos.9 Isto
mostra que os padrões de ação política se referem, ainda que não
exclusivamente, às particularidades e às dificuldades do processo de
representação política desse tipo de empresário.10
A análise dos padrões de ação política do empresariado pode ser feita a partir
de dois níveis, totalmente inter-relacionados. De um lado, os padrões
específicos da ação concreta, ou seja, os procedimentos e mecanismos
utilizados, as estratégias. Estas podem ser percebidas mais claramente nos
aspectos organizacionais relativos à ação política das entidades e se referem
ao modo cotidiano como cada entidade utiliza as instituições do regime político
na defesa de seus interesses. De outro lado, existem os padrões gerais, que
podem ser apreendidos a partir das concepções de política e de democracia. Os
valores, as avaliações e os objetivos mais fundamentais da ação política
contribuem, portanto, para a compreensão das diretrizes desta ação; enfim,
trata-se das
táticas
.11
Em relação às estratégias, a análise dos documentos das entidades mostram que
estavam mais atentas para a modernização, a eficácia e a profissionalização de
aspectos relativos ao gerenciamento, à administração e ao processo decisório
interno do que para aquilo que dizia respeito aos mecanismos de sua ação
política. O cotidiano era marcado pela articulação entre formas impessoais '
correspondências e ofícios, por exemplo ' e contatos pessoais ' audiências e
convites, entre outros. A imprensa era utilizada como meio de ação, mas se
privilegiava os próprios órgãos de comunicação e divulgação. Além disso, mesmo
quando havia um descontentamento muito grande, pode-se observar certa
reverência e cuidado com o tratamento dirigido às autoridades.12
Enfim, percebe-se claramente uma continuidade nessas formas de ação concreta e
cotidiana antes e depois de 1988. O fato de o regime autoritário de 1964 ter
preservado o funcionamento do Legislativo, nos três níveis, e até mesmo a
existência de partidos e eleições fez com que o contato com parlamentares e a
pressão sobre o Legislativo não fosse propriamente novidade para as entidades,
em especial para a FCESP, após a retomada das instituições democráticas. Isso
enfatiza a importância da outra dimensão da ação política: as táticas.
Mesmo considerando que os documentos das entidades13 não registravam todos os
aspectos do funcionamento da entidade e do comportamento dos seus membros, o
que se observa é que, em primeiro lugar, no período autoritário ou durante a
transição política, a ACSP e a FCESP tinham seus meios e canais para atuar em
defesa do empresariado, mas não mostraram interesse ou capacidade de atuar em
relação à alteração do arranjo político institucional, ou seja, o funcionamento
do regime político. Suas ações se concentravam nas questões da política
econômica e não no processo decisório. Em segundo, no período democrático, as
entidades não pareciam ver no arranjo institucional um aspecto decisivo para
construir um ordenamento do processo decisório em que seus interesses pudessem
ser considerados de outra forma.
Os aspectos organizacionais das entidades revelam algumas características
interessantes do seu comportamento político cotidiano, embora não permitam
explicar os padrões de ação política dos empresários nelas organizados (Costa,
2003b). Se ACSP e FCESP são entidades de natureza, história e funcionamento
distintos, o que explicaria a semelhança de seus padrões de ação política?
Em suma, as formas da ação política da ACSP e da FCESP não sofreram alterações
significativas no período entre a fase final do regime autoritário e
funcionamento regular das instituições democráticas, o que reforça a
necessidade de analisar o conteúdo destes procedimentos. Daí a importância da
questão dos padrões gerais de ação política, ou seja, das táticas.
Em primeiro lugar, essas entidades tenderam a apoiar as autoridades que a cada
momento ocuparam o governo, uma vez que tal comportamento era considerado
"civismo". Isso revela a dificuldade que tinham de se opor abertamente ao poder
nos níveis federal, estadual e municipal, mesmo quando o descontentamento,
ainda que não manifesto, era grande. Além disso, procuravam evitar mobilizações
que envolvessem a população ou até mesmo o próprio empresariado, como mostram
as raras participações dessas organizações empresariais em ações coletivas que
implicassem a manifestação de um grande número de pessoas como forma de
pressão, o que é mais comum entre os trabalhadores e os movimentos populares.
Em segundo lugar, ao analisarmos as táticas da ACSP e da FCESP, mesmo
considerando as diferenças entre essas organizações, observa-se que agiam como
se os problemas fossem quase que exclusivamente econômicos e as dificuldades
pudessem ser resolvidas simplesmente por uma gestão competente e eficaz. Isso
se manifestava na primazia e na necessidade das entidades em recorrer a uma
"ideologia"' a da "livre-iniciativa" ' como grande bandeira política e
justificativa para suas ações políticas.14 Enfim, procurava-se transformar as
questões relativas ao processo decisório em questões estritamente econômicas e
de estilo de gerenciamento da coisa pública.
Ao analisarmos os documentos das entidades, constatamos um número bastante
reduzido de discussões a respeito do arranjo institucional do regime
democrático brasileiro, se comparado ao debate relativo ao cotidiano da
política econômica e da vida empresarial. Além disso, essas discussões
raramente resultavam em ações que pressionassem o governo a alterar o
funcionamento, a natureza das instituições democráticas e o processo decisório,
inclusive aquele referente à política econômica.
Em momentos decisivos para a redefinição das bases legais do funcionamento do
Estado, como a Revisão Constitucional, de 1993, e a Reforma Constitucional, de
1995, havia um reconhecimento difuso da importância de certas questões
político-institucionais, mas as ações adotadas pelas entidades tenderam a se
restringir a aspectos relativos à ordem econômica. Foi em torno desta dimensão
que se tratou da questão da governabilidade. A sociedade era pensada quase que
exclusivamente do ponto de vista de sua estrutura econômica, e portanto a
discussão em torno da reforma do Estado restringia-se ao problema do "peso" de
sua estrutura burocrática e à necessidade de mudanças nas áreas tributária,
previdenciária e administrativa, como forma de reduzir o tamanho do Estado e
conduzir sua ação para investimentos na área social.15
O caráter predominantemente econômico presente no debate e nas posições
assumidas pode ser explicado pela própria natureza dos representados, cuja
dimensão econômica é fundamental, e pelo fato de essas entidades serem, em
maior ou menor intensidade, empresas, no sentido de que ambas, ainda que em
grau diferente, deviam oferecer serviços, gerenciar receitas e despesas,
contratar e administrar funcionários etc. Mas esta predominância das questões
econômicas deve-se também ao fato de que há uma determinada visão acerca da
política e, principalmente, acerca do próprio papel político do empresariado.
Ressalve-se que não se pretende aqui apontar para uma incoerência imanente às
entidades representativas do empresariado. Ou seja, não se pode esperar que, em
uma democracia, instituições que se caracterizam exatamente pela ação
corporativa ' aqui entendida como aquela que se dá fundamentalmente a partir de
interesses econômicos ' sejam o instrumento mais adequado para a definição e a
implementação de um projeto político que envolva desde o formato do arranjo
institucional do processo decisório até a formulação de uma política de
desenvolvimento econômico. E não podemos tomar a ação política de uma
determinada instituição como a posição de todo o empresariado, qualquer que
seja o momento histórico. Pode-se até compreender a insistência e a relevância
que as organizações aqui estudadas davam à idéia da "livre-iniciativa", mais
aglutinadora e abstrata do que um projeto nacional de longo prazo. Contudo,
isso remete à questão da capacidade e da vontade do empresariado de organizar
uma ação efetiva a partir de um elemento mais propriamente político, no sentido
de ter como objetivo interferir no funcionamento das instituições políticas,
democráticas, no caso. O comportamento da ACSP e da FCESP revela uma
dificuldade muito grande de, em um momento de retomada das instituições
democráticas, realizar tal empreendimento.
Nesse sentido, a análise da concepção de política e de democracia dessas
entidades contribui para compreender os limites em que se dava sua ação. De um
lado, apresentavam uma visão negativa em relação à política e aos agentes
políticos, em especial aos partidos.16 De outro, ainda que o conteúdo das
declarações e das avaliações presentes nos debates internos a respeito do
funcionamento da democracia fosse muitas vezes bastante crítico, isso não
resultava em uma ação efetiva voltada para o aprimoramento das instituições
democráticas, por intermédio dos meios institucionais já disponíveis.
Isso revela a forma pela qual os empresários se viam como agentes políticos. Ou
seja, defendia-se um Legislativo mais forte, um Executivo menos fechado,
partidos políticos autênticos, a conscientização do eleitor etc., mas as ações
relativas à configuração do arranjo político institucional eram bastante
acanhadas e sem continuidade.17 As questões político-institucionais não
deixaram de ser pensadas, mas se tratava de uma discussão latente, considerada
uma extrapolação do "campo empresarial" de ação.18
A ACSP falava da implicação mútua entre "livre-iniciativa" e democracia,19 e a
FCESP considerava o sindicalismo por ela praticado uma das bases da
democracia.20 Contudo, a preocupação com as formas institucionais do processo
decisório no regime democrático era entendida, muitas vezes, como algo que
"transcendia o campo empresarial" ou que poderia implicar em "engajamento"
político da população ou do próprio empresariado. Reiterando, essas idéias não
resultavam, pois, em ações efetivas, como ocorria quando se tratava de assuntos
relativos a impostos, taxas etc. Não se trata de desconsiderar as diversas
formas, explícitas ou implícitas, da relação entre partidos, políticos e
entidades empresariais. Apenas constatamos uma tentativa de obscurecer tais
relações, que são normais em qualquer ordem democrática.
A comparação entre a política fiscal e a política institucional é bastante
ilustrativa, pois se refere à concepção de política do empresariado presente
nessas entidades. Segundo um assessor da FCESP, enquanto não der muito
trabalho, a política não receberá tanta atenção quanto a questão fiscal,
considerada algo alheio à institucionalização do processo decisório.21 É nesse
sentido que se pode compreender a idéia maniqueísta de que seria bom ter um
empresário no cargo público ou um parlamentar "amigo", apesar de todas as
decepções.22
Não estamos afirmando que os empresários presentes na ACSP e na FCESP teriam
que, necessariamente, empunhar propostas relativas ao aprimoramento e à
consolidação das instituições políticas ' nem que, se o fizessem, seriam bem-
sucedidos ', ou ainda que seriam os únicos responsáveis pelo funcionamento do
regime democrático no Brasil. Mas a forma como a política era pensada e
praticada por esses setores do empresariado brasileiro não tinha como
conseqüência ações efetivas sobre o arcabouço institucional da democracia.
As inovações ocorridas nas duas entidades se deram de maneira mais intensa no
campo organizacional, nas fontes de receita e na prestação de serviços aos
associados e filiados do que no âmbito do pensamento político e da prática
relativa à institucionalização política. Daí a defasagem entre, de um lado, a
preocupação em aprimorar e transformar o funcionamento institucional interno
das entidades, inclusive com a adoção de princípios e procedimentos
democráticos, e, de outro, o empenho em aperfeiçoar as instituições políticas
nacionais.23
Notam-se também certas semelhanças entre os aspectos gerais do processo
decisório e do formato institucional adotados pelas entidades e as
características, muitas vezes por elas próprias criticadas, do regime político.
Por exemplo, a importância da figura do presidente da entidade, a tendência a
encarar o processo decisório de forma gerencial e administrativa e o
insulamento burocrático das principais decisões em face do conjunto dos
empresários representados. O fato de a racionalização do funcionamento interno
das entidades ter começado antes mesmo da retomada das instituições
democráticas mostra que isso não foi o elemento decisivo, ainda que relevante,
na definição do padrão de ação política.
Ao compararmos as concepções de política e democracia das duas entidades
percebemos que há semelhanças ' como, por exemplo, a justificação econômica
para a democracia e o regime democrático, o receio em fazer críticas,
principalmente públicas, às autoridades e a crítica ao que era chamado de
"política partidária" ', mas também algumas diferenças significativas. Embora
fosse uma entidade que tivesse impedimentos legais para se posicionar de forma
mais agressiva no campo político, a FCESP, mais do que a ACSP, tendeu a
enfrentar e a discutir as questões relativas ao funcionamento dos partidos
políticos, ao vínculo entre os poderes Executivo e Legislativo e ao insulamento
burocrático.24
Ademais, os empresários presentes na ACSP e na FCESP não deixaram de tratar das
questões relativas ao regime político, apenas não o faziam com intensidade.
Esse comportamento diz respeito, entre outros fatores, à forma como eles
entendiam a política e o seu próprio papel no processo político. Predominava
nesse setor do empresariado brasileiro a idéia de que as ações efetivas
deveriam se restringir a questões mais ligadas à atividade empresarial.
Podemos destacar ainda a tendência de ambas as entidades em privilegiar os
contatos e as audiências com os ocupantes dos cargos do poder Executivo, ou
seja, o prefeito de São Paulo, o governador do Estado, os ministros e o
presidente da República.25
Constatamos que havia por parte dessas organizações empresariais poucas chances
de se ultrapassar as ações fragmentadas e restritas ao curto prazo do processo
de definição da política econômica, assim como atuar de forma mais incisiva em
relação às instituições políticas e ao seu arranjo, ou seja, o regime político.
Apesar das diferenças, trata-se de matizes de um mesmo padrão de ação política
e de uma mesma concepção de política e de democracia.
A natureza e as particularidades institucionais de cada uma dessas entidades
não têm, na realidade, a relevância que seus próprios membros lhes atribuíam.
Poderia haver dificuldades para assumir uma posição política mais agressiva em
relação ao arranjo institucional, ou até mesmo à política econômica, em função
da possibilidade de cisões e divergências internas que ameaçassem a
sobrevivência da entidade. Ao analisarmos as características gerais de suas
estratégias, fica evidente que a tendência dessas entidades em restringir sua
ação política ao cotidiano da política econômica não pode, contudo, ser
explicada somente por sua natureza institucional e pelo fato de agregarem
exclusivamente empresários.
O fundamental parece ser a maneira de conceber a política e a própria ação do
empresariado na política, o que o levou ou a uma postura de neutralidade, ou à
formulação da idéia de "boa e má política", ou ainda à concepção da chamada
"política com 'P' maiúsculo", sustentada por algo que era assumidamente uma
"ideologia", a saber, a da "livre-iniciativa". Trata-se de uma visão gerencial
de política e de representação, a qual pode até ser adequada quando se
considera a entidade uma empresa, contudo em sua dimensão política é
excessivamente restrita aos aspectos econômicos e calcada numa "ideologia" que
constata, mas tem dificuldade em enfrentar em termos de uma ação política mais
intensa e agressiva, o fato de que a estrutura das relações políticas e
institucionais, inclusive o seu grau de formalização e transparência, é um dos
elementos fundamentais das decisões econômicas. Além disso, o modo gerencial ou
administrativo de pensar e atuar na política pode ser percebido também pela
justificação e pela forma como surgiram as propostas, raramente efetivadas, de
profissionalização da ação política da ACSP e da FCESP.26 Ou seja, a idéia era
de que não se poderia ter efetividade política porque não havia
profissionalismo. Isso significava deixar de lado aquilo que os próprios
empresários constatavam, a saber, sua incapacidade de se organizar em torno de
objetivos políticos, e não a falta de condições técnicas das entidades para uma
ação política eficaz.
Apesar de serem duas entidades de natureza distinta, possuíam diversos aspectos
semelhantes na forma de pensar e agir politicamente. Isso sugere que não foram
os condicionantes institucionais o elemento decisivo na determinação dos
padrões de ação política, mas as características econômicas e políticas do
grupo social representado por elas.
O caso da ACSP é bastante revelador. O fato de ser também uma empresa pode
estar relacionado a alguns aspectos da ação política dos empresários nela
atuantes, mas não os explica, pois, de um lado, não havia obstáculos
intransponíveis para a realização de uma ação política que os próprios
empresários desejavam e reconheciam como necessária; de outro, eles não
atribuíam suas deficiências políticas às instituições representativas, mas a si
mesmos, que se autodenominavam uma "classe".27 As particularidades
institucionais são importantes menos por aquilo que imprimem sobre a ação
política do coletivo do que pelo que revelam a respeito do grupo, cuja ação se
dá via as organizações.
Na FCESP houve uma maior preocupação em se preparar para as mudanças em curso
no processo político. Entretanto, as reformulações internas, iniciadas mesmo
antes da consolidação das instituições democráticas, ou seja, no início dos
anos de 1980, não tiveram uma contrapartida no sentido de atuar de modo efetivo
no processo de institucionalização da democracia, ou seja, sobre as formas do
regime político. A preocupação dessas organizações em promover discussões sobre
as instituições políticas brasileiras não implicou uma ação política, como se
coubesse aos empresários apenas o debate, não uma atuação ao menos mais próxima
daquela que existia em relação à política econômica e ao cotidiano das
atividades empresariais.
Considerações finais
Devemos buscar, então, uma explicação, ainda que provisória, para os padrões de
ação política e para a concepção de política subjacente que caracterizaram os
empresários atuantes na ACSP e na FCESP na década de 1990. Tal explicação
poderia ser construída a partir de um argumento de caráter histórico, relativo
ao processo de constituição do capitalismo no Brasil. Trata-se da constatação
de que a formação da sociedade capitalista brasileira não contou com a direção
de uma burguesia nacional articulada e forte o suficiente para conduzir ou
interferir decisivamente nas linhas gerais da "revolução burguesa" ' entendida
como a constituição das bases gerais da sociedade a partir dos interesses desta
classe (Fernandes, 1975). Esse fato teria condicionado o desenvolvimento
político posterior desse grupo e, conseqüentemente, todas as formas de sua
intervenção na política, inclusive na institucionalização da democracia, ou
seja, no regime político democrático desde o início dos anos de 1980.
Esse argumento é por demais amplo e genérico, sobretudo quando tratamos de
casos e momentos específicos, além de estar calcado na idéia de que a
compreensão das condições de origem seriam suficientes para se entender a
evolução de um determinado fenômeno. Ele não explica por que a burguesia
brasileira não conseguiu ou não teve interesse em alterar sua situação no
processo de construção das bases materiais e institucionais da ordem social
capitalista no Brasil, mesmo não tendo sido condutora da revolução burguesa,
papel fundamental assumido pelo Estado.
Contudo, a despeito de suas limitações, essa idéia sugere algo sobre o papel
que o Estado e o empresariado ocuparam na história política nacional. Vimos que
o empresariado presente nas entidades analisadas não se considerava um agente
fundamental do processo político ' mesmo quando se tratava de questões
econômicas relativas aos seus interesses ' e tinha dificuldade em definir seu
papel político.
Além de terem apoiado o golpe militar de 1964, os empresários não dirigiram o
processo de retomada das instituições democráticas quando da desarticulação do
regime autoritário. Enfim, este não foi um projeto do empresariado, como
mostram as análises de Boschi (1979), Cruz (1988), Cardoso (1993) e Codato
(1997). Quando promovia um movimento político mais amplo, o empresariado
restringia suas proposições à crítica da política econômica ou à defesa da
pequena e média empresa e da "livre-iniciativa". Trata-se de bases precárias
para um projeto mais perene e de âmbito nacional, considerando as
características do capitalismo brasileiro.
Mesmo a FCESP, que se preocupava mais com as questões político-institucionais,
as tratava como um problema de gerenciamento e administração. Não teve a
preocupação em preparar o empresário a ela vinculado para uma ação efetiva em
face dos novos desafios empresariais e no sentido de enfrentar os desafios
políticos advindos da democratização. Segundo essa concepção, portanto, o bom
empresário seria aquele que obtivesse sucesso econômico, e a boa entidade,
aquela que atuasse no cotidiano da política econômica, cabendo a seus
institutos e conselhos internos debater sobre as questões relativas ao arranjo
político institucional. Mas tanto a FCESP como a ACSP mostraram que estavam
mais preparadas para se adaptar à dinâmica dos segmentos econômicos internos do
que aos processos político-institucionais externos. E isso se dava num momento
em que a experiência democrática pós-1988 ainda estava se consolidando.
Quanto à relação entre empresariado e regime político, apesar de algumas
alterações relevantes no funcionamento interno das duas entidades, elas não
conseguiram mudar efetivamente o seu próprio papel em relação ao processo de
institucionalização da democracia, conservando-se relativamente na mesma
posição de expectativa ou de mera reação que ocupavam nos regimes políticos
anteriores, autoritários ou democráticos. Portanto, as iniciativas e as ações
dessas organizações em relação às alterações políticas e institucionais que
marcaram a história política brasileira desde o início dos anos de 1980 foram
limitadas.
Não se trata de simplesmente constatar as limitações políticas dos empresários,
mas de destacar os padrões e os limites da ação política que a análise da ACSP
' que, como vimos, é tanto uma associação como uma empresa ' e da FCESP ' uma
federação de sindicatos ' torna bastante evidentes. Nosso objetivo não foi
apenas comprovar, e muito menos julgar ou lamentar, o fato de que essas
entidades não possuíam um padrão de ação política efetivo que envolvesse tanto
questões econômicas como político-institucionais. A questão que se apresenta
também para outros momentos históricos é a necessidade de atentar para a
relação entre o comportamento dessas entidades e o processo de constituição do
regime democrático no Brasil. Como foi mencionado, de um lado, elas tiveram uma
atuação política bastante tímida no que concernia às formas do regime político,
o que não significa dizer que não possuíam importância ou peso político; de
outro, suas ações concretas se voltaram quase que exclusivamente para as
questões econômicas.
Esta análise indica que as características do comportamento dos empresários que
atuavam via ACSP e FCESP entre o início dos anos de 1980 e a segunda metade dos
anos de 1990 podem ser explicadas, em primeiro lugar, pela extração econômica
dos setores e segmentos empresariais representados por essas entidades. Não se
trata de setores fundamentais da economia, nem de agentes decisivos do processo
de definição da política econômica. Isso limita e condiciona a sua capacidade
de interferir no processo de construção do quadro político-institucional em
geral, bem como da própria política econômica.
Em segundo lugar, a concepção de política, de democracia e de regime
democrático presente nessas entidades não permitiu que elas tomassem a questão
do regime político como algo central, até mesmo para tentar reverter
desvantagens em relação a outros setores econômicos e, por que não dizer, ante
os trabalhadores. Segundo os próprios empresários atuantes nessas entidades, os
trabalhadores estavam mais preparados para vivenciar o processo político que
caracteriza a democracia. Isso pode ser constatado também pelo fato de que a
emergência de organizações políticas e partidárias ligadas aos trabalhadores,
em vez de promover a busca de uma ação política mais perene e
institucionalizada, ou até mesmo vinculada a partidos políticos, tendeu a
reforçar entre os empresários o receio em relação à ação política organizada. E
isso também nos leva à conclusão, já mencionada, de que, de uma forma ou de
outra, as entidades avaliavam que os seus interesses estavam sendo minimamente
contemplados, dado que, apesar das críticas e dos descontentamentos, não
implicavam em um grande esforço para introduzir alterações na ordem política
institucional, ou seja, no funcionamento e na estrutura do regime democrático.
Ainda que se tratasse de setores que não ocupavam posição central na definição
da política econômica, somente uma ameaça muito intensa aos seus interesses
poderia levá-los a uma ação mais agressiva em relação ao arranjo institucional,
a qual, por sua vez, não seria necessariamente em defesa do aprimoramento das
instituições e do regime político democráticos, como aconteceu em 1964 quando
as duas entidades aqui analisadas apoiaram o golpe militar e se consideravam
parceiras dos militares na construção da nova ordem política e econômica.28
Por fim, o estudo da ação política da ACSP e da FCESP nos permitiu também
observar que o comportamento dessas entidades em relação ao arranjo político-
institucional dependeu sobremaneira da forma como o governo e os poderes
constituídos foram conduzidos. Os empresários brasileiros não têm tradição de
enfrentar esta questão por iniciativa própria. Se o governo ou o Estado como um
todo não fomenta ou não permite o debate acerca de suas formas institucionais,
menor é o espaço para o empresariado, ou qualquer outro setor da sociedade,
exercer alguma interferência. Observamos que as entidades em pauta tendiam
simplesmente a reagir à agenda estabelecida pelo governo, ou seja, exerciam
quase que exclusivamente o poder de veto. Por sua vez, no período aqui
considerado, os governos raras vezes abriram o debate sobre questões relativas
ao arranjo institucional. Assim, esta agenda não era normalmente discutida no
interior dessas organizações. Mesmo quando se tratava de uma discussão premente
nesse sentido, como no processo da constituinte de 1986-1988, no Plebiscito de
1993,29 na Revisão Constitucional de 1993 e na Reforma Constitucional de 1995,
a ação se concentrava em questões tributárias; quando se esboçava alguma ação
relativa às formas políticas, não suscitava maiores efeitos se comparada à
discussão de questões propriamente econômicas.
O trabalho de Renato Boschi (1979), embora se refira à década de 1970, constata
que o comportamento das "elites empresariais nacionais" manteve "alguns
fundamentos do pensamento político autoritário": pouca ou nenhuma importância
foi dada aos mecanismos de competição política, em especial os partidos e o
Legislativo; preferência pelos contatos diretos com as autoridades; visão
elitista e restrita do processo decisório e de sua participação neste; ênfase
nos aspectos técnicos em detrimento aos mais propriamente políticos e
resistência à institucionalização das formas de conflito, em especial com os
trabalhadores. Constatamos que essas características se mantiveram, ainda que
atenuadas, no comportamento das entidades aqui analisadas, o que é bastante
relevante, uma vez que estamos considerando o processo de retomada e
consolidação da democracia. Episódios como as candidaturas de Paulo Maluf e
Guilherme Afif Domingos aos cargos de governador e presidente da República são
exceções isoladas que confirmam a regra da dificuldade de essas entidades
assumirem abertamente uma posição político-partidária.30 Em resumo, a análise
do pensamento e da atuação da ACSP e da FCESP revelou que se trata do
comportamento de uma determinada fração de classe social, a dos pequenos e
médios empresários, cuja unidade, ainda que contemple algumas variações, se dá
a partir dos seguintes aspectos comuns: 1) tipo de atividade econômica e volume
de renda dos negócios, principalmente no que diz respeito à posição no processo
de definição do modelo de desenvolvimento econômico; 2) posição em relação ao
conjunto do empresariado, ou seja, não se tratava de uma fração hegemônica, e,
portanto, ocupava posição subordinada em relação à definição das políticas de
Estado e ao processo de constituição do regime político; e 3) forma de pensar a
política e os padrões de ação política, o que remete à questão sobre as
semelhanças nos padrões de ação política, a despeito da diversidade em relação
à natureza, à história e ao funcionamento dessas duas entidades.
A comparação entre a postura política dos empresários atuantes na ACSP e FCESP
e algumas características gerais do regime político brasileiro entre o final
dos anos de 1970 e meados da década de 1990 nos permitiu constatar que esse
comportamento: 1) era convergente com o caráter fragmentado e pouco
institucionalizado da relação entre Estado e sociedade no processo de
elaboração e implementação das políticas estatais, ou seja, apesar das críticas
difusas, tais entidades não se opuseram aberta e intensamente aos padrões
burocratizados e insulados do processo decisório de ação política do governo;
2) corroborou a relação desigual, no processo decisório, entre os poderes
Executivo e Legislativo nos âmbitos federal, estadual e municipal, o que não
significou abandonar, muito pelo contrário, o espaço do Legislativo como
cenário de ação política ou deixar de defender o incremento de suas
prerrogativas e responsabilidades; 3) reforçou a importância da dimensão
estadual no funcionamento do regime político e o peso político do governador na
política nacional e estadual; 4) contribuiu pouco para o avanço das reformas
das instituições políticas e, portanto, do processo de aperfeiçoamento das
formas de resolução de conflitos e de definição das políticas de Estado; 5)
corroborou a visão negativa em relação à prática política, em especial aos
partidos políticos;31 6) mostrou que as entidades tenderam a assumir uma
posição subalterna no processo político não só na definição e na implementação
da política econômica, mas também na construção das instituições e dos
procedimentos da democracia; 7) corroborou a idéia de que ao governo, e mais
especificamente ao chefe do Executivo Federal, caberia estabelecer a agenda
política nacional e a presença ou não dos temas referentes ao arranjo
institucional; 8) tendeu a reforçar a forma corporativa, seja sindical, seja
associativa, de representação política do empresariado no Brasil;32 9) em
relação às características desta representação corporativa, apesar de avanços
organizacionais, as entidades não conseguiram ultrapassar a tendência a buscar
uma posição "a-política" ou "a-partidária", característica dos princípios que
guiaram a construção dessa forma de representação.
A análise dos documentos possibilitou inferir que a transformação e a
"democratização" dessas duas entidades ' em especial o avanço das pequenas e
médias empresas ' não tinham, até aquele momento, sido percebidas pelos
partidos políticos, sobretudo os de oposição. Ao que parece, quando não se tem
em mente os setores, os segmentos e os interesses que compõem tais
instituições,33 tende-se a tratá-las genericamente como organizações de
"empresários" e a desconsiderar que muitas vezes elas se sentem, e efetivamente
estão, alijadas do processo decisório e que, portanto, poderiam ser uma das
bases para um outro projeto político para a sociedade brasileira.
Convém destacar também um outro ponto significativo do comportamento dos
empresários aqui analisados, dado o seu papel no movimento que culminou com o
golpe de 1964. Se a ação das entidades em relação às formas do regime
democrático que se consolidava foi marcada mais pela ausência do que pela
presença, constatamos que, desde o final dos anos de 1970, ou mesmo antes
disso, em nenhum momento houve alguma manifestação explícita por parte dos
diretores de abandono do projeto democrático, ou muito menos de uma solução
autoritária e de ruptura em relação a esse projeto. Assim, podemos afirmar que
os empresários fizeram parte do processo de democratização. Cada uma a seu
modo, tanto a entidade sindical de segundo grau, como a associação civil
diversificada se constituíram como bases sociais e políticas da transição
democrática, uma vez que atuaram dentro e de acordo com as regras do jogo que
efetivamente caracterizam as democracias nas modernas sociedades capitalistas.
Cabe enfatizar, entretanto, que não obstante ter sido uma determinada parcela
do empresariado, ou das "classes dominantes", que participou ativamente dos
episódios que culminaram no golpe de 1964, e levando em consideração a
avaliação de René Dreifuss (1981) sobre a participação dos empresários em geral
no processo golpista e no governo após o golpe, a participação do empresariado
no regime autoritário foi então mais intensa do que a ocorrida no processo de
abertura política e retomada das instituições democráticas após o fim do regime
militar.34
Os limites desta pesquisa não nos permitem entrar no extenso debate sobre a
relação entre Estado e sociedade no Brasil, muito menos estabelecer qual desses
dois pólos teria o papel proeminente na constituição das formas políticas de
nossa sociedade, em particular da experiência democrática. O fato de as
entidades empresariais, como instituições políticas, não terem sido aqui
pensadas como determinantes da ação política dos agentes sociais, do poder ou
da identidade do coletivo social que representam, no caso, o empresariado, mas
do ponto de vista de sua contribuição para compreender a maneira pela qual se
deu a ação política de parte do empresariado brasileiro, entendemos que só
poderiam ocorrer mudanças significativas no comportamento dessas entidades na
sua relação com o regime político se tivesse sido alterado, tanto no âmbito
econômico como no político, o papel do empresariado filiado a elas. Essa
alteração poderia ter partido tanto dos próprios empresários, como do jogo
político e das forças que ocuparam o governo. Ao que tudo indica, este não foi
o caso das entidades aqui analisadas.
Quando consideramos que as características da democracia brasileira do pós-1988
não podem ser meramente avaliadas a partir de um juízo de valor em relação ao
que deveria ser a verdadeirademocracia, e mais, que os elementos considerados
acerca do regime político no Brasil deste período ' de um lado, a
preponderância do Executivo em face do Legislativo, a hipertrofia dos poderes
presidenciais, o insulamento burocrático e os limites no nível de
institucionalização das formas de articulação de interesses, de representação
das forças sociais e de resolução de conflitos; de outro, a postura política do
empresariado ' não são estranhos ou necessariamente nocivos ao funcionamento da
democracia, é no mínimo temerário tentar qualificar o comportamento do
empresariado aqui estudado meramente como conservador ou transformador, até
mesmo pelo fato de que inquestionavelmente se tratava de um regime democrático,
e não havia mais a opção naquele momento de uma retomada do autoritarismo.
Contudo, poderíamos cogitar a possibilidade de pensar um "novo empresário",
como o fez Sebastião Cruz (1997), mas não apenas em função de sua adesão a um
"novo regime de acumulação", no que tange à superação da crise do modelo de
desenvolvimento econômico em vigência, como faz o autor (Idem, pp. 150 ss.),
mas também, e sobretudo, a partir de seu comportamento em face das instituições
políticas da democracia, ou seja, a sua contribuição para o aperfeiçoamento das
instituições do regime político democrático no Brasil. É bom lembrar que as
transformações políticas no país não foram menos relevantes que as econômicas
quando se considera as décadas de 1980 e 1990 e que a questão da reforma
política está inserida no debate nacional.
Em suma, não pretendemos reforçar a interpretação de que o empresariado não
interfere na política. Menos ainda atribuir ao empresariado aqui estudado as
mazelas e os problemas da democracia no país, tampouco inocentá-lo. Apenas
constatamos quea atitude política do empresariado corroborou as características
gerais do arranjo político-institucional da democracia brasileira pós-1988.
Daí, o interesse na análise da relação entre empresariado e regime político,
mais do que tão-somente a sua relação com a política econômica, para o estudo
da ação coletiva do empresariado e da experiência democrática no Brasil.
Notas
1 Daí a importância de trabalhos como os de Ary Minella (1988) sobre o setor
financeiro. Muito pouco foi produzido acerca do empresariado do comércio. Em
outros trabalhos, analisamos a relação entre esses empresários, representados
pela FCESP, e o funcionamento do regime democrático no Brasil dos anos de 1950
(Costa, 1998), e a tensão entre entidade de classe e empresa prestadora de
serviços que caracterizou a ACSP nos anos de 1990 (Costa, 2002b).
2 Essas entidades serão consideradas a partir de sua composição, entendida
menos em função do quadro de associados do que pela articulação efetiva de
interesses, no sentido de saber quais setores e segmentos atuavam por meio da
entidade, evitando generalizações, em geral imprecisas, como "comerciantes",
"empresários industriais", "empresariado" etc.; e do seu comportamento em face
das instituições políticas. Esta análise contempla tanto as estratégias ' ou
seja, os procedimentos e mecanismos efetivamente utilizados ', como as táticas
' entendidas como o conjunto dos valores e das idéias correlatos à ação
política concreta. Daí, a importância da análise da concepção de política, de
representação, de democracia e de regime político presentes nas entidades
analisadas. Deve-se ressaltar que, por um lado, tal concepção não está sendo
considerada o elemento que determina a ação política e suas particularidades,
e, por outro, que não está sendo tomada como o conjunto de idéias e valores que
estruturam a ideologiapresente nessas entidades, mas naquilo que permite
compreender melhor os padrões, ou seja, a forma concreta de sua ação política.
3 A pesquisa baseou-se principalmente na análise de documentos das próprias
entidades, como atas de reunião de diretoria e órgãos de divulgação (revista,
impressos, jornais etc.), assim como em entrevistas com funcionários da ACSP e
da FCESP (cf. lista de documentos utilizados na bibliografia). Sobre estes
dados, ver Costa (2003b).
4 Cf. Relatórios Anuais de Atividades da ACSP (RACSP), 1970 e 1980 a 1997. Para
mais informações sobre a ACSP, ver Costa (1998, 2002a, 2002b, 2003a e 2003b).
5 A ACSP tem como sua principal fonte de receita na oferta de serviços, em
geral relacionados a informações sobre crédito, por exemplo, o SPC (Serviço de
Proteção ao Crédito). Portanto, sua subsistência depende mais do seu desempenho
na venda destes serviços do que da contribuição dos seus associados. Sobre
isso, ver Costa (2002b).
6 Em 1993, como comprovação da representatividade da Federação, o presidente da
entidade fez menção a "[...] 132 sindicatos patronais e centenas de milhares de
micro, pequenas e médias empresas comerciais" do estado de São Paulo que
estariam vinculados à entidade (Reunião de Diretoria da FCESP, 5/10/1993).
7 Relatórios Anuais da FCESP, 1970-1996. Outras informações sobre a FCESP, ver
Costa (1998, 2003a e 2003b).
8 Deve-se enfatizar que, em nossa pesquisa (Costa 2003b), procuramos analisar a
ação política das entidades também antes da retomada da democracia, o que
permitiu a comparação entre os padrões de ação política (comportamento e
concepção de política) nos dois momentos, e a percepção do que mudou e do que
não mudou. Ver os resultados desta análise em Costa (2002a e 2002b).
9 É interessante ressaltar que no final dos anos de 1970, Renato Boschi (1979)
chamava a atenção para o fato de que a divisão mais importante entre as "forças
sociais" não era entre capital estrangeiro e capital nacional, mas entre
segmentos oligopolistas e pequenas e médias empresas.
10 A ACSP contemplava, tanto entre seus associados, como principalmente entre
os interesses defendidos pela entidade, diversos setores e segmentos do
empresariado, cujos padrões de ação política também estavam, ainda que
parcialmente, refletidos nos padrões de ação da ACSP. Por sua vez, a FCESP,
ainda que estatutariamente restrita ao comércio, contemplava a participação de
setores ligados aos serviços (Costa, 2003b).
11 A importância de se analisar as concepções, ou as táticas, como forma de
compreender os padrões de ação política ' ou seja, a ação efetiva ' cresce
quando verificamos que, no que tange ao regime político, predominavam nas
entidades os debates e as discussões; as ações concretas estavam quase que
restritas ao cotidiano da política econômica. Cf. Atas de Reunião de Diretoria
e Relatórios Anuais da ACSP e FCESP, 1970-1996.
12 Cf. Atas de Reunião de Diretoria e Relatórios Anuais da ACSP e FCESP, 1970-
1996.
13 Atas de reunião de diretoria e relatórios anuais de atividades da ACSP e da
FCESP.
14 Voltaremos a esta questão mais adiante.
15 Essa posição foi expressa pela FCESP em 1994 (DFC, 9/8/1994) (cf. Costa
2002a). Quanto à ACSP, já em 1991 seus diretores constatavam a necessidade de
uma revisão constitucional, no sentido de não apenas discutir as formas das
leis, mas sobretudo o seu conteúdo, a sua "doutrina" (PACSP 4/6/1991). Em 1993,
o presidente da ACSP esteve com o presidente da República Itamar Franco e com o
presidente da Câmara dos Deputados Inocêncio de Oliveira, e apontou para a
urgência com que deveria ser encarada a revisão constitucional. O presidente da
Câmara dos Deputados comprometeu-se a mobilizar as comissões permanentes para
que a revisão fosse feita o mais breve possível, antes do prazo constitucional
(EACSP 27/4/1993). Na avaliação do presidente da ACSP, as principais questões
para a entidade eram: recessão, taxa de juros, ajuste fiscal, reforma
tributária, privatização, abertura e desregulamentação da economia e ética na
política. E as questões que se apresentavam para o futuro seriam: tamanho do
Estado, redução dos gastos públicos, privatização, modernização da economia,
continuidade da abertura econômica, reforma tributária, lei de patentes e lei
de concessão de serviços públicos, reformas políticas voltadas para a
governabilidade do país e revisão constitucional. Esta não poderia ser adiada
para 1995 a pretexto de que os parlamentares estariam, em 1994, dedicados à sua
reeleição, e a ACSP deveria denunciar os parlamentares que posicionassem seus
interesses acima da nação. Isso tudo permitiria que se retirasse da
Constituição os obstáculos ao controle dos gastos públicos, ao ingresso do
capital estrangeiro e à iniciativa privada (PACSP 16/3/1993) (cf. Costa 2003b).
16 Apenas como exemplos da forma tensa como essas entidade pensavam a questão
dos partidos políticos e do que seria uma posição "partidária", em 1985 a FCESP
buscava uma forma de compor uma constituinte com deputados e senadores, que
seriam eleitos em novembro de 1986, e representantes dos diversos setores da
sociedade, ligados ou não a partidos políticos. Portanto, "[...] a melhor forma
de os empresários se fazerem representar, através de constituintes não jungidos
a ideologias ou bandeiras partidárias, com total independência para levar
àquela Assembléia o seu pensamento, e as suas colocações em relação à vida
social do país e, principalmente, praticar a livre-iniciativa" (DFC, 3/9/1985).
Em 1989 o presidente da FCESP ressaltou a importância qualitativa do voto e
afirmou que "somos entidades apartidárias, o que não significa que sejamos
entidades apolíticas" [...] porque a política engloba tudo", e que "[...]o
problema central do Brasil, sejam quais forem as propostas técnicas [...] [era]
um problema político, de cujo equacionamento [iriam] depender as soluções
procuradas", daí a preocupação FCESP em conhecer a postura de cada candidato
(DFC, 25/4/1989). No processo que desembocou no impeachment de Collor, havia na
FCESP um receio muito grande em relação ao fato de os movimentos de rua não
serem um "engajamento espontâneo", mas um "arregimentado", daí a necessidade de
evitar qualquer "engajamento", pois as "entidades sindicais têm como
prerrogativa não se envolverem em política-partitária" (DFC, 8/9/1992). Na
ACSP, na esteira do processo eleitoral para governador em 1982, um diretor
elogiou a posição e a ação de Afif na defesa da entidade e da livre-iniciativa,
que agradeceu dizendo que o importante era que a ACSP "[...] cada vez mais se
compromet[esse] com a verdade de uma política ideológica. [...] a nossa posição
política partidária é uma, a de política ideológica é outra, nós servimos como
política ideológica de base, para uma política partidária, na busca de melhores
soluções para o país" (PACSP, 28/9/1982). Essa visão se manteve até o início
dos anos de 1990. Entre os resultados de um trabalho de reestruturação da ACSP
ocorrido no final da década de 1980, enfatizou-se que a entidade era também uma
empresa, em função da série de serviços prestados. Assim, a ACSP teria que ser
uma grande e eficiente empresa e também fazer com que esta empresa pudesse ser
a "mantenedora da entidade política (política com 'P' maiúsculo e não política
partidária)" (PACSP, 13/11/1990, grifos meus).
17 Isso pode ser observado nos relatórios anuais, nas atas das reuniões de
diretoria, nos eventos promovidos com a participação de juristas e cientistas
políticos, e também nos instrumentos de divulgação, como revistas, jornais e
boletins das duas entidades (cf. lista de documentos na bibliografia).
18 O receio de não extrapolar o que seria o espaço de ação política dos
empresários se manifesta claramente na forma como a ACSP e FCESP acompanharam
os acontecimentos que desembocaram no impeachment de Fernando Collor. Em 1992,
o presidente da ACSP, Lincoln Pereira, sugeriu que a associação fizesse o mesmo
que a ACRJ, a qual enviou um documento de apoio ao presidente Collor. Sobre
isso, um diretor lamentou que a ACRJ não tivesse imposto limites ao seu apoio,
e que o mesmo não poderia acontecer com a ACSP. Alguns diretores entendia que
não deveria ser feito nenhum pronunciamento, outros achavam melhor fazê-lo, mas
com moderação, e uma terceira alternativa propunha que a ACSP se posicionasse
de qualquer forma. Entretanto, não houve decisão (EACSP, 26/5/1992). Sobre a
posição da FCESP, ver nota 17.
19 No início de 1986, Guilherme Afif Domingos, então presidente da ACSP,
avaliava que os fatos políticos decorrentes das eleições municipais de 1985
demonstraram cabalmente que o Executivo e o Legislativo não estavam preparados
para o exercício de suas funções, acentuando o problema do empreguismo, como
mostrava a imprensa, e que a ACSP "[...] continuaria na sua posição
vanguardeira, na estacada do direito e da legalidade, continuando desfraldadas
suas principais bandeiras, tais como a Livre-Iniciativa e a Defesa dos Direitos
do Empresariado" (EACSP, 21/1/1986). Afif insistia no aspecto doutrinário, na
necessidade de que os projetos políticos se fundassem na idéia de "livre-
iniciativa", base da "[...] verdadeira democracia econômica, sem a qual a
democracia política não subsiste", e lamentava a dificuldade de fazer com que
essa idéia fosse abraçada pelo empresariado e apresentada à sociedade (PACSP,
25/6/1985). Em 1984, no medalhão comemorativo dos 90 anos da ACSP, havia a
seguinte inscrição: "Livre iniciativa e democracia, uma não sobrevive sem a
outra".
20 Diante dos resultados das eleições presidenciais de 1989, o presidente da
FCESP Abram Szajman, afirmou que teria sido demonstrado "[...] que a maioria do
povo brasileiro acredita[va] mais na criatividade do indivíduo do que na
presença maciça e sufocante do Estado na vida do país", e que isso se referia
não somente à economia, mas também à cultura e à política. Ainda segundo
Szajman, o "sindicalismo adulto" praticado pela FCESP seria um dos "pilares" da
democracia brasileira (DFC, 30/1/1990).
21 Declaração feita em entrevista ao autor por um alto funcionário da FCESP
(cf. Costa, 2003b, capítulo VI).
22 Esta avaliação foi expressa em diversas reuniões de diretoria e relatórios
anuais de atividades de ambas entidades. A FCESP tendia a se sentir melhor
representada e mais segura em relação à administração quando o cargo público
era ocupado por alguém que se julgava ser um bom administrador privado ou um
homem de negócios. Isso aconteceu tanto nos anos de 1970 e 1980, como, por
exemplo, com as figuras de Laudo Natel, Paulo Maluf e Dílson Funaro, como na
década de 1990, como, por exemplo, com o Ministro da Infraestrutura do governo
Collor, Ozires Silva, que era saudado pelo presidente da FCESP como "um dos
nossos" (DFC, 25/5/1990). Na ACSP, em 1985, a diretoria executiva decidiu
apoiar a pretensão manifesta pelo gerente da Cacex em São Paulo, José Carlos de
Brito, em ser nomeado para diretor do referido órgão. O então presidente
Guilherme Afif Domingos e os demais diretores foram unânimes em apoiar a
indicação "[...] deste estimado e competente amigo, que sempre manteve
excelentes relações com a Associação" e sugeriu a todos que tentassem
individualmente "[...] agir politicamente no sentido de solidarizar-se com as
indicações políticas já feitas junto ao Governo da Nova República" (EACSP, 3/9/
1985). Em 1988, quando a diretoria da ACSP soube que o ex-gerente de Câmbio do
Banco do Brasil em São Paulo, José Alves Brito, deveria ser nomeado para uma
das diretorias do banco, decidiu prestigiar tal nomeação "[...] por se tratar
de grande amigo da casa" (EASP, 1/3/1988). Em relação a esta questão, Fred
Block chama a atenção para o fato de que quando se dá esse tipo de
representação, o membro representante torna-se "atípico" em relação à sua
classe, uma vez que é forçado a assumir a perspectiva dos state managers
(Block, 1987, p. 57).
23 Ver Costa (2002b, 2003b).
24 Na mesma reunião em que se discutiu a posição da FCESP em relação ao
processo de impeachment de Fernando Collor, houve outra interessante discussão
sobre a questão da representação do estado de São Paulo na Câmara dos
Deputados. Argumentou-se que "[...] num sistema democrático em que o governo
deve ser da maioria, o Estado de São Paulo não tem a adequada
representatividade, em termos de Deputados, correspondente à sua população".
Essa discussão vinha sendo conduzido juntamente com o Instituto Cajamar, com o
qual se estava programando a realização de um ciclo de debates sobre o poder
legislativo e o fortalecimento da democracia (DFC, 8/9/1992). Esse encontro,
intitulado "O Congresso e a Sociedade", ocorreu na sede da FCESP, em 26/10/
1992, e contou com uma série de debates e a participação de membros do
Congresso Nacional ' Aloísio Mercadante, José Dirceu, Espiridião Amin, Roberto
Magalhães, Roberto Freire, José Dirceu, Marcelo Barbieri, José Maria Eymael,
Vivaldo Barbosa, Ricardo Izar, Delfim Netto, Luiz Roberto Ponte, Flávio Rocha,
José Serra, Luis Carlos Hauly, Benito Gama, Luiz Alfredo Salomão e Germano
Rigotto, entre outros ' e de representantes de outros setores da sociedade. Em
questão estavam as reformas estruturais, econômicas, políticas e
constitucionais do país (DFC, 6/10/1992, 3/11/1992; PB nº 294, 1992). O
presidente da FCESP destacou que resultou desse evento a necessidade '
constatada por todos aqueles que buscavam "aperfeiçoar as instituições
democráticas", independentemente de "posições políticas ou regionalistas" ' de
garantir uma "efetiva representação popular" na Câmara Federal (RSFC, 16/2/
1993).
25 A primazia do Executivo na agenda e nas ações políticas da ACSP e da FCESP
pode ser constatada no cotidiano de sua prática política, expressa nas atas de
reunião de diretoria, assim como nos relatórios anuais de atividade. No
contextos eleitorais, os diretores dessas entidades voltavam-se mais para os
debates em torno dos cargos do poder Executivo, em especial os de governador e
presidente da República. As ações em geral voltavam-se para os ocupantes de
secretarias, ministérios e para a obtenção de audiências com o governador e o
presidente. Isso não impediu as entidades de tentarem intensificar suas
relações com o Legislativo, sobretudo no âmbito federal (ver Costa, 2003b).
26 As atas das reuniões de diretoria e os relatórios anuais de atividades das
duas entidades mencionam tentativas de adotar procedimentos mais
profissionalizados de ação política, com a contratação de empresas e a montagem
de escritórios em Brasília (Costa, 2003b, cap. III, IV, V e VI).
27 A idéia de que os empresários constituem uma "classe" vem desde as décadas
de 1940 e 1950, quando se denominavam como "classes produtoras", passando pela
idéia de que entidades como a ACSP e a FCESP são "associações de classe"; daí
expressões como "classe empresarial", presentes em diversos documentos e
manifestações.
28 Sobre esta questão, ver Costa (2002a e 2003b).
29 No contexto do plebiscito de 1993, as entidades limitaram-se a promover
debates com defensores de diferentes posições em relação à forma e ao sistema
de governo (cf. Costa 2002a e 2003b).
30 Sobre esta questão, ver Costa (2002a, 2002b e 2003b).
31 Como vimos anteriormente, apesar de manterem relações com partidos políticos
e de alguns de seus membros desempenharem um papel importante em partidos
políticos, havia por parte da ACSP e da FCESP uma forte preocupação em afastar
quaisquer vínculos formais com os partidos, com a alegação de que a política
feita por essas entidades seria "a-partidária".
32 Embora não seja possível no espaço restrito deste artigo desenvolver este
argumento, entendemos que a expressão "corporativo" não pode se restringir à
dimensão sindical da representação dos empresários, uma vez que tanto as formas
sindicais (sindicatos, federações e confederações regidas pela CLT), como as
associativas (associações livres e suas correlatas entidades maiores) fazem
parte de um mesmo e único sistema de representação baseado em funções e
condições econômicas que, no Brasil, vem se constituindo desde o final do
século XIX e se consolidou com a promulgação da CLT e a manutenção das
entidades associativas, a exemplo da ACSP. A redução do adjetivo "corporativo"
apenas às entidades sindicais implicaria em atribuir a este canal, por vezes
chamado de "oficial", uma posição privilegiada na relação com o Estado ' o que
teria que ser comprovado ' e a reduzir a questão do corporativismo à existência
de formas estatais legais de regulação da representação.
33 Era freqüente o desconforto entre os diretores da ACSP quando se tratava a
entidade como exclusivamente do comércio. A FCESP, por sua vez, sempre
enfatizava que representava sindicatos de empresas de médio e pequeno portes
(cf. relatórios anuais de atividades das duas entidades).
34 Ver Costa (2002a, 2003b).