Fotografia e interdito
Este ensaio trabalha com a problemática do interdito e sua relação com o objeto
fotográfico. Discute, ainda, as imagens traumáticas como representações
culturais do sofrimento social, as diversas formas de apropriação para
propósitos políticos ou morais, o uso social do sofrimento e a criação de um
mercado pulsante para imagens e discursos sobre o tema na contemporaneidade.
A primeira hipótese de trabalho busca compreender como as diversas formas de
apropriação da imagem fotográfica, com temáticas de interditos sociais ou que
representam cenários liminares, parecem se fazer a partir da intencionalidade
do ato em função da pessoa e, desse modo, aparecem para o observador comum como
uma forma de apropriação não social do produto da ação. As imagens de interdito
funcionam como um plano moral singular que tende a retirar do social qualquer
vínculo que possa ter com a ação ou com o fato de ser uma "coisa proibida",
passando-o para o interior do indivíduo como uma subjetividade.
A segunda hipótese, conseqüência da primeira, analisa o objeto fotográfico a
partir da idéia de experiência abstrata. Ao trabalhar em cenários de fronteira,
no alcance dos códigos morais e na especificidade dos códigos de interdito e de
poluição, esse objeto parece retratar situações de sofrimento na ambivalência
entre abrangência e especificidade e na ambigüidade das regras morais e das
expressões poluidoras e interditas. Isso o torna um subproduto de uma ação
legal ou legítima exercida institucionalmente ou, ainda, na esfera privada, uma
ameaça concreta ou potencial dos medos gerais que conformam os indivíduos
sociais.
Fotografia e interdito
As fotografias analisadas aqui revelam duas temáticas que interagem uma com a
outra. Embora possam ser entendidas em separado, tornam-se mais expressivas e
ganham sentido nos intercruzamentos que conduzem à leitura do plano social,
para quem elas buscam revelar e de onde são produtos e objetos de discurso e
também promotoras de falas competentes ou de projetos discursivos. Essas duas
temáticas tratam da morte e dos interditos: ambas produtoras de discursos
morais que servem de guia para um específico societário situar-se e situar seus
membros em formas de conduta no tempo e no espaço, consolidando noções de
passado e futuro por meio da presentificação da regra.
Interdito indica uma ação intentada com o fim de proteção e caracterizada por
um preceito proibitório, como o impedimento do uso, a fruição de bens ou o
obstáculo ao acesso a lugares ou a coisas considerados sagrados ou puros.1
Relaciona-se com noções de proibição e impedimento, e com a noção de poluição e
contaminação. O uso de recursos interditos socialmente, assim, poderá acarretar
prejuízos individuais e sociais para quem dele participa, ativa ou
passivamente. Prejuízos que podem ir desde a perturbação mental ou social, até
a constrangimentos pessoais ou coletivos entre partes em interação expostas ao
recurso interdito.
Os prejuízos decorrentes da exposição possibilitam uma contaminação do sujeito
exposto pelos elementos poluidores constantes da ação ou da coisa proibida. Uma
coisa interdita, assim, quando tocada por mãos ou olhares pode provocar um ato
poluente e criar uma área de contaminação que ocasiona perigos vários aos
envolvidos diretos ou indiretos do ato de exposição.
As ações e as coisas interditas estão, portanto, sujeitas a todo um regramento
pela disfuncionalidade que podem causar aos indivíduos ou a grupos societais,
interagindo em tempo e espaço específicos. Os interditos podem ser considerados
em suas formas de apropriação no plano social, por uma pessoa ou grupo de
referência, e em suas formas simbólicas expressas no conteúdo imaginário, não
necessariamente consciente daqueles que a manipulam, se expõem ou são expostos
(Eliade, 1992).
A eficácia de um interdito é a sua aceitação social, por toda a coletividade ou
por parte dela. Quanto mais simples o meio social, mais a noção do interdito
perpassa todas as camadas e funciona na sociedade em geral. A pluralidade
apresentada por um meio social mais complexo, diferentemente, permite a
existência de fragmentações de vários níveis e graus no plano social,
dissolvendo os interditos em um conjunto de regras passíveis de serem ou não
absorvidas ou aceitas pelo todo.
Os interditos como padrões morais, em todo caso, são ressignificados
cotidianamente pelos indivíduos, grupos e pela sociedade como um todo. Trata-se
de uma espécie de imposição imaginária que toca em padrões arquetípicos de
comportamento e de interação entre indivíduos ou grupos de um determinado meio
social, ou, ainda, nas formas diversas de apropriação das ações de interditos
entre os diversos grupos ou personagens envolvidos, passivos ou ativos, com o
resultado da ação ou da situação.
No caso das noções de morte e violência, os interditos perpassam redes
abrangentes, sociais ou mentais, em que as temáticas no cotidiano tendem a ser
negadas ou vinculadas a um tipo de apreensão passível de visualização. As
diversas formas de apropriação parecem se fazer a partir da intencionalidade do
ato em função da pessoa e, desse modo, aparecem como uma forma de apropriação
não social do produto da ação.
A morte, como conceito e expressão, encontra-se interdita na sociedade
ocidental contemporânea. O modo de vida atual impede a vivência da morte sob um
discurso de juventude eterna e dominação da natureza; a morte acontece e é
entendida como uma forma de fracasso tecnológico. Como não pode ainda ser
evitada, é aventada como a morte do outro e, como tal, as formas rituais e as
expressões de dor são minimizadas e tratadas de modo higiênico.
Estudos sobre o Brasil urbano do final do século passado constatou as formas
interditas no trato da morte e do luto, o desconforto advindo, a diminuição e o
esfacelamento das relações sociais, ampliando a esfera da solidão do homem
comum (Koury, 2001, 2003).
A objetividade do social funciona como uma espécie de regramento das
subjetividades, enquadrando-as dentro de significados psicológicos que podem
interferir no comportamento social em geral, se não forem embargadas ou, pelo
menos, acionados controles morais para sua contenção. Além disso, a manipulação
pode ser feita por meio de subjetividades intencionais, dentro de um rígido
controle disciplinar imposto socialmente pelo outro da relação. Controle
disciplinar ativado pelas noções de vergonha ou culpa, sempre pessoais, mas
também referentes às inter-relações possíveis, vinculadas direta ou
indiretamente com o meio social mais geral (Elias, 1990, 1993).
Pensar o objeto fotográfico, em sentido amplo, refere-se à apropriação. A
apropriação do real e sua transformação em realidade captada e revelada, capaz
de reproduzir um espaço que foi visto e capturado por uma lente e transferido
na sua imortalidade de objeto revelado para todo e qualquer olhar que a ele se
atenha.
Artefato de objetificação do real, a fotografia submete a realidade ao olhar
mecânico da máquina e, através dele, parece disciplinar o conjunto de fatos
capaz de organizar um discurso sobre o mundo e os homens, ou dos homens e seus
mundos e suas relações com a natureza e o sobrenatural. A fotografia aparece,
assim, como uma forma singular de apreensão do real, e seu uso tem um
significado variado segundo as formas de assimilação ou os discursos produzidos
a partir dos elementos conotados que a constituem.
Uma mesma fotografia representa uma infinidade de formas de apreensão e
apropriação segundo os usos a que se encontra submetida. Os interditos, quando
agem, funcionam sempre em relação aos outros, espaço onde se objetifica o
social, embora internamente, na subjetividade da pessoa, possam ser apropriados
de forma diferente. O sentimento de culpa pela posse ou guarda de uma
fotografia, por exemplo, permite ressignificá-lo em uma simbologia que acomoda
essa culpa da posse, transformando-a em uma emoção qualquer, sentimental, em
relação ao objeto de que se fez guardiã ou proprietária.
Os dramas internos acomodados e o objeto, sendo de significação apenas pessoal,
sem o controle e o aparecimento público, é possível administrá-lo e conviver
com ele na sociedade. Descoberto, porém, ou entreaberta a possibilidade de
posse sobre objetos interditos ou de suspeição social, a pessoa se sentirá
constrangida, terá receio de passar vergonha em público e, em último caso, ser
levada a um tratamento especializado por conta de sua fixação em objetos não
aprovados socialmente.
Este parece ser o caso da Foto_1. Esta foto é um dos resultados da
democratização da fotografia, que popularizou o ato de retratar e inseriu, de
modo mais arraigado, o fotografar no âmbito do privado. Ela foi colhida por mim
durante um trabalho de campo sobre luto e sociedade2 em uma cidade do interior
de Minas Gerais. Retrata um homem pendurado pelo pescoço em um dos caibros da
residência. Foi tirada por um familiar, a pedido da esposa da vítima, após ter
sido encontrado e antes de a polícia chegar e se apropriar do corpo para
perícia técnica. O retrato é guardado com carinho como a única lembrança deste
ente pela esposa. Faz parte do que se convencionou chamar álbum de família:
instrumento privado em que se depositam as lembranças iconográficas familiares,
de amigos próximos e pessoas importantes que, de forma direta ou indireta,
estiveram presentes na vida e na organização familiar.
Essa fotografia não possui qualquer expressão pública. Trata-se de uma
apropriação privada em um instante familiar. Um instantâneo que retrata o
último momento de um ente querido. Os elementos de interditos aparecem quando,
a pedido da proprietária, a situação pôde ser revelada, mas não puderam ser
discriminados o nome do retratado, da proprietária e da família, nem o local
exato onde aconteceu o ato, suicida e fotográfico.
Tratar-se de uma foto de um homem enforcado ainda preso à corda que o matou
parece ser um detalhe na administração sentimental dos familiares que a possuem
e a utilizam como objeto de memória sentimental do morto.3 A foto, contudo, é
mantida sob um misto de segredo e receio.
É considerada na comunidade, entre vizinhos e inclusive familiares, uma espécie
de doença mórbida ' "esta mulher é maluca" ', ou por meio de expressões de nojo
e distanciamento, como se a foto, e através dela, a família que a possui,
pudesse contaminar os demais pela afronta que representa: a idéia de um
suicídio acontecido de fato, naquela residência.
A idéia de morte adjetivada pelo suicídio traduz um receio sobre as
conseqüências que poderá trazer à comunidade. Evitar a fotografia e, por conta
disso, evitar relações mais estreitas com a família que a guarda de maneira
sentimental, parece ser o mais prudente a fazer.
A fotografia mortuária no século XIX e nas primeiras décadas do XX foi um
instrumento de lembrança de importância especial para os álbuns de família. Por
intermédio das fotos repassava-se para as gerações seguintes os que um dia
fizeram parte da família, assim como se administrava o estatuto social da
família em fotos de velórios, onde o corpo morto era rodeado por familiares e
autoridades, amigos, pessoas comuns, agregados entre tantos outros. Estudiosos
como Bourdieu (1967), Jay Ruby (1995, 2001), Koury (2001a), entre outros,
estudaram o fenômeno na Europa, nos Estados Unidos e no Brasil,
respectivamente.
No Brasil, a fotografia mortuária foi largamente utilizada nas classes alta e
média até o final de 1950, quando fotógrafos retratavam mortos para álbuns
privados. O desuso desse tipo trabalho deu-se no final dos anos de 1950, embora
ainda seja freqüente o envio dessas fotos com dedicatórias, são elas guardadas
com carinho e utilizadas como recordação por grande parte da população urbana
de classe média, como mostra a Foto_2, de uma família paraibana, tirada em
1961. Esta fotografia foi-me cedida durante trabalho de campo sobre luto e
sociedade no Brasil por uma das irmãs da mulher retratada, na cidade de João
Pessoa, Paraíba. Faz parte do álbum de família desta informante.
A contradição entre a diminuição significativa desse costume e o freqüente uso
ou guarda de fotografias mortuárias entre os brasileiros contemporâneos é
apenas aparente. De um lado, essas fotos, nos últimos quarenta anos tem sido
cada vez mais tiradas por fotógrafos amadores, quase sempre membros da família
do morto, o que retira para a instância do privado um ato até então público. De
outro lado, porém, a saída para o âmbito privado ampliou, nas relações
públicas, uma espécie de interdito sobre esse tipo de retrato.
A modernidade brasileira veio acompanhada de um discurso de higienização das
relações sociais e do trato da morte. Levou a um estranhamento das formas de
expressão de sentimentos vigentes e a um arrefecimento dos rituais. As relações
e os discursos proferidos a propósito do processo da morte e das formas de agir
quando as pessoas são atingidas direta ou indiretamente tornaram-se ambíguos e
ambivalentes.
A fotografia mortuária tornou-se, assim, interdita. Uma espécie de "proibição
branca" faz com que seu uso hoje seja dissimulado pelos que o praticam e
criticado de uma maneira geral. Quando essas pessoas são questionadas se
fotografam seus mortos, a primeira expressão é de receio ou indignação, para
depois, ao ganhar confiança, confessam que possuem ou tiram fotos mortuárias de
entes queridos.
A vergonha da posse é uma expressão moderna do interdito sobre a propriedade de
fotografias mortuárias, o que faz a apropriação ser constrangida e a relação
pública de expressão social ambígua e ambivalente. O medo de ser tratado de
louco, de estranho e motivo de gracejos ou preconceito, circunscreve o retrato
dos mortos ou sua guarda e reverência em uma espécie de sombra, com pouca ou
nenhuma visibilidade social. O mesmo acontece com as expressões de sentimento e
rigor ritual no trato com a morte e com os mortos.
A comparação entre o estado mórbido da Foto_1, que retrata um suicida, e o da
Foto_2, que retrata uma jovem morta em seu caixão, dedicada para a irmã como
lembrança dos últimos momentos, é bastante fecunda e se faz necessária. A
primeira não expressa apenas o sentido de recordação, mas relata a forma com
que o retratado foi morto e o tipo de morte, o que torna essa foto e quem a
possui como lembrança íntima algo no mínimo bizarro, aos olhos dos outros.
A segunda também incomoda, mas é possível de ser administrada socialmente como
um costume antigo, já que muitos possuem retratos desse tipo ou conhecem quem
os conserva. Já a Foto_1 apregoa repugnância, não só pelo interdito da morte,
mas pela morte adjetivada no ato suicida.
Ambas possuem para o olhar exterior uma conotação não moderna de reviver a
morte e os mortos. A primeira, porém, intimida os demais pela "presentificação"
de um ato voluntário contra a vida. Na cultura cristã, o suicídio é encarado
como um desafio a Deus e está sujeito, portanto, a uma denegação simbólica que
prende o suicida senão no inferno, a vagar por entre mundos, sem nunca obter a
salvação e a misericórdia. Ação essa que compromete não apenas quem o praticou,
mas toda família.
Até que ponto uma etiqueta social tem necessidade de elementos considerados
sujos e poluidores para a formulação de uma padronização do comportamento
individual e coletivo? A insistência da família em guardar a fotografia que
eterniza o ente querido preso a uma corda como lembrança íntima reforça a
estranheza sobre ela, concretizando o perigo da sujeira, atualizada e fixada na
fotografia, em contaminar a quem dela se aproxime ou toque (Douglas, 1976). O
perigo é sentido e deve ser evitado a qualquer custo, o que leva as pessoas a
se esquivarem das relações com a proprietária e sua família. As fotos servem de
enredo a conversas sobre a etiqueta da morte e do morrer, como um elemento
positivo de evitação das regras que erigem o comportamento do enlutado em
relação aos mortos e aos membros da família e da comunidade e vice-versa.
A terceira fotografia utilizada neste ensaio retrata um homem jovem agonizante,
vítima da Aids, cercado pelo carinho e sofrimento dos familiares. Esta
fotografia de Therese Frare, de 1992, teve como destino-alvo uma campanha
publicitária da Benetton. Ao lado esquerdo, embaixo, observa-se uma tarjeta
verde que identifica a marca da campanha (Foto_3).
Como as outras fotos, esta retrata um drama familiar de cunho privado, no caso,
o acompanhamento da agonia de um ser humano por sua família. Fotografia que
poderia ser destinada ao álbum de família, como recordação.
Ela reedita, assim, a simbologia da fotografia mortuária.4 Junto à agonia da
morte retratada no rosto do doente, pode-se enxergar também um sentimento de
satisfação, por estar, talvez, acompanhado pela solidariedade dos que o amam e
a que ama. A emoção dos familiares revela a solidariedade e o conforto que
querem transmitir, ao mesmo tempo que se expressa, claramente, a inconseqüência
da morte.
A foto parece retratar um momento privado que se quer reter na memória familiar
e que pretende conservar, para as novas gerações, a singeleza e a importância
da família como estrutura social. Das três fotos, esta talvez seja a mais
crédula e a que melhor expresse a fotografia mortuária de cunho privado e que
destaca o significado da família como um bem universal a ser conservado. Uma
fotografia que, embora olhada com certo viés de passado, de tradição, poderia
ser suportada pelos olhos da cultura ocidental individualista mais chegada a
memoriais.
Contudo, trata-se de uma cena real feita para ilustrar a publicidade de uma
grife internacional de roupas. Sua veiculação foi proibida em vários países
pelo discurso moral provocado, sendo bastante comentada na mídia internacional
da época. Uma semana após seu lançamento foi interditada nas cidades italianas
e a seguir, país a país, proibiu-se sua exibição. Três ordens de consideração
podem explicar a proibição. A primeira remete ao moribundo: por se tratar de um
doente terminal de Aids, criou-se uma espécie de estigma, já que a própria
enfermidade é vista com preconceito, chamada de "praga mundial" e, sobretudo,
urbana, identificada no final de 1970, e que atingiu o auge nos primeiros cinco
anos da década de 1990 ' a fotografia data de 1992. A segunda indica a
indignação internacional orientada pelas igrejas e por instâncias jurídico-
políticas por ela ter sido produzida para uma campanha publicitária e, como
tal, paga aos familiares e ao doente. O elo sacrossanto que poderia haver na
fotografia para uso privado foi quebrado e o debate sobre a frágil estruturação
da família moderna, ampliado. A terceira sintetiza as anteriores, indicando a
origem e o papel que a fotografia deveria desempenhar e, em contrapartida, o
papel que de fato desempenhou: vender um produto específico, no caso, roupas da
grife Benetton.
A discussão moral resultou numa bandeira ética contra o uso de determinadas
temáticas para propaganda. Alastrou-se pela sociedade civil em manifestos
contra a forma e o uso de temas prejudiciais a segmentos determinados da
população, ou que ajudariam a ampliar os preconceitos. Assim, grupos
organizados pronunciaram-se contra a Benetton e sua linha de propaganda.
Vale lembrar que a Benetton envolveu-se em diversas disputas jurídico-políticas
e acarretou vários protestos com outras fotografias temáticas. Em 1991, por
exemplo, a fotografia "o anjo e o demônio", de Oliviero Toscani, retrata duas
crianças se abraçando, uma branca e uma negra. Ambas olham direto para a
câmera. O "bem e o mal" abraçados parodiam as representações cristãs sobre a
imagem do anjo e do demônio. Uma brincadeira contra o preconceito, talvez!
Entretanto, não foi absolutamente entendido dessa forma. No Brasil, diversas
organizações protestaram contra o preconceito advindo da imagem e conseguiram
diminuir o tempo de sua divulgação.
Em 1995, duas fotografias conjuntas, também de Oliviero Toscani, criavam a
idéia temática da propaganda. Um casal de homossexuais masculino e um feminino,
este último com uma criança, simbolizavam o tema liberation. O cartaz também
causou polêmica e protesto em vários países.
No ano anterior, uma fotografia intitulada "Soldado Bósnio" retratava uma calça
militar e uma camisa de algodão encharcadas de sangue e com perfuração de
balas. Em 1998, a série "Inimigos" unia judeus e árabes, servos e bósnios, e
outros inimigos étnicos abraçados. A mais comentada, com protesto de várias
organizações judias, foi a fotografia de Oliviero Toscani, de uma moça judia
beijando um rapaz palestino, no front.
A Benetton, polêmica armada, ganhava os jornais e se fazia conhecida e
discutida mundialmente. A apropriação de imagens traumáticas de conteúdo moral
ou de linguagem ambígua pela propaganda parece atingir o público pela
utilização da ambivalência inerente aos estatutos do individualismo e da
individualização ocidental contemporânea. De um lado, tudo é possível, do
outro, nem tudo, antes pelo contrário.
Ao jogar a ambigüidade como temática, esse tipo de campanha publicitária
apontou a aleivosia do cosmopolitismo ocidental e realçou o preconceito, a
solidão e o não saber agir dos sujeitos na cena social. O debate sobre até que
ponto a liberdade de ações individuais são ativas e quais os limiares de
admoestação do novo na sociedade contemporânea expandiu-se. O que é ético, o
que é preconceito e o que é razão moral, enfim?
Essas questões foram também suscitadas quando da discussão em torno de uma
fotografia que retratava um abutre pousando, pacientemente, próximo a uma
menina subnutrida. Sem condições de seguir, a criança pára, as pernas ficam o
chão sem forças, ela cambaleia e senta sobre os joelhos; pela tontura do sol,
da fome e da sede, sua a cabeça queda e se entrega ao abatimento. O abutre, ave
de rapina acostumada a essas cenas, espera pacientemente o desfalecimento da
vítima para, talvez, dar o golpe mortal e alimentar-se dos restos (Foto_4).
Esta é uma descrição linear de uma fotografia tirada em 1993 por um fotógrafo
sul-africano. A cena passa-se na África, perto de um campo de refugiados no
Sudão. O fotógrafo estava no local para cobrir o impacto causado por mais um
conflito entre etnias em disputa pelo controle estatal, na modernidade
africana. Como o abutre, pacientemente, ele se posicionou e esperou,
acompanhando a trajetória de dor desta pequena tragédia humana, os rodopios e o
ganhar segurança da ave diante do alvo.
Com esta foto, Kevin Carter ganhou o prêmio Pulitzer de fotojornalismo em 1994
e, algum tempo depois, suicidou-se aos 33 anos de idade.
Ele até então era pouco conhecido no mundo do fotojornalismo. O obituário de
autoria de Scott Macleod, publicado na revista Time, de 12 de setembro de 1994,
informa que Carter ganhou notoriedade internacional por meio desta fotografia,
e que sua repercussão se deu em um dos acasos da vida cotidiana. Fotógrafo
free-lance conhecido apenas na África do Sul, segundo artigo de Judith Matloff
no Columbia Journalism Review, de novembro/dezembro de 1994, após fotografar as
vítimas do Sudão, retornou a Johannesburg. Por coincidência, o New York Times
procurava fotografias sobre o país e comprou algumas de Carter. A fotografia da
menina sudanesa foi publicada na edição de 26 de março de 1993, causando grande
impacto na opinião pública norte-americana e mundial.
A notabilidade da fotografia se deveu por tocar sentimental e politicamente os
olhares observadores mais diversos ' do homem comum, até agências de Estado e
organismos internacionais governamentais e não governamentais. Primeiro, pela
violência emanada, que serviu de suporte para discursos e campanhas de controle
e ajuda aos povos que vivem na extrema miséria. Segundo, pelo suicídio do
autor, atribuído em bilhete a não mais ter condições de viver depois de
presenciado tal ato e participado dele apenas como observador.5
Essas questões geraram um intenso debate entre fotojornalistas sobre a ética
por trás da captação de imagens. Em outras palavras, a discussão em torno da
busca de notoriedade ou da melhor fotografia, sem se importar com quem está
sendo retratado. Desde o lado aventureiro do fotojornalismo até as alusões de
que os fotógrafos eram caçadores de imagens e a discussão sobre a necessidade
de pensar visualmente em campo no processo de obtenção de imagens com melhores
ângulos ou qualidade técnica sobre o produto retratado, tudo foi tema de
discussão. Em depoimento, o fotógrafo James Nachtwey afirma ter ouvido de
Carter: "[...] você está fazendo um visual aqui, mas dentro algo está gritando!
[...] Mas é tempo de trabalhar. Se lida com o resto depois. Se não puder fazer
isso, então saia do jogo".
Passou-se a refletir sobre o processo ético no ato fotográfico em si. O
suicídio de Carter, nesse contexto, constituiu-se, usando suas próprias
palavras, uma forma de sair do jogo e do não poder maisfazeresse tipo de
trabalho. Alguns depoimentos, com o intuito de entender a fatalidade acometida,
comentaram a instabilidade emocional do fotógrafo, o consumo de drogas e álcool
e o fato de ele buscar notoriedade a qualquer preço. Nessa sentido, esses
depoimentos queriam, na verdade, se livrar de um sentimento de culpa mais
geral. Culpa presente no ato fotográfico implícito ao trabalho de
fotojornalismo; culpa relativa ao consumo de imagens no mundo ocidental
contemporâneo e à busca da mídia sem limites de exploração de sentimentos e de
ampliação de vendagem das edições, não importando as fronteiras da moral e da
ética. A relação entre venda, novidade diária e qualidade da imagem nas
agências e nas mídias internacionais, em nome da informação imediata e dos
furosde reportagem, impõem aos fotógrafos um modo de agir, no momento mesmo da
captura da imagem ' um pensar visual ', que separa o trabalho de suas vidas
cotidianas.
No meio acadêmico, a análise deteve-se sobre as formas de discurso geradas pela
apropriação de imagens traumáticas ' dominação e exploração ou/e sensibilização
das pessoas. Kleinman e Kleinman (1997, pp. 1-24), a partir da fotografia e do
suicídio de Carter, discutem as bases de apropriação do sofrimento social pela
política e pela mídia contemporânea na sociedade ocidental. Falam das imagens
traumáticas como representações culturais do sofrimento social e suas
apropriações para propósitos políticos ou morais; discutem o uso social do
sofrimento como um componente da política econômica globalizada contemporânea e
da criação de um mercado pulsante para imagens e discursos sobre o tema. O
sofrimento social tornou-se uma mercadoria de grande procura no mercado
midiático e de políticas públicas internacionais.
Luc Boltanski (1993) discorre sobre o sofrimento à distância para expressar as
formas pelas quais a cultura popular se apropria e é estimulada a se apossar de
imagens que traduzem o sofrimento social no mundo e que, nesse contexto, se
tornam mercadorias. Alvos de retóricas e de representações discursivas e
culturais, essas imagens são como restos pouco densos e distorcidos de uma
experiência social que se passou distante dos sujeitos que a vêem.
Representações culturais veiculadas por meio de imagens traumáticas, tornadas
objetos temáticos, hierarquizados e estigmatizados, geralmente sob a égide
protetora e intervencionista de uma moral social dominante e suas instituições.
A mesma discussão ética fomentada pelo impacto causado pela Foto_4 pode também
servir de base para as fotos_5 e 6 com uma diferença, contudo. A diferença diz
respeito às formas de edição de imagens fotográficas: censura moral, cortes,
formas de manipulação e sobre o que deve ser ou não mostrado nas imagens
publicadas.
A Foto_5 ilustrou um jornal popular, Folha de Pernambuco, no seu primeiro ano
de existência. A fotografia de 1999, do fotógrafo Clemilson Campos, retrata um
travesti morto.
A fotografia é banal e retrata uma cena comum: um travesti morto nas ruas, num
dos becos da periferia de Recife. A sua composição seria comum à fotografia
jornalística de jornais populares ' tipo de enquadramento, angulação, sangue
derramado pela vítima etc. ' se não fosse um pequeno detalhe. O travesti morto
estava com o pênis ereto.
A editoria resolveu retirar o inconveniente da foto, borrando-o digitalmente,
de forma grosseira, conforme depoimento do editor de fotografias do jornal
cedido a mim, embora a matéria escrita falasse claramente da ereção da vítima.
No mesmo ano, o jornal publicou outra foto, de Hélia Scheppa, com as mesmas
características: a manchete chama a atenção ' "Idoso achado morto, nu e com
pênis levantado". Igualmente, a região peniana se encontra borrada, escondendo
e, ao mesmo tempo, mostrando o elemento interdito.
Nessas duas fotografias, está-se falando de imagens traumáticas e de sua
expressão na imprensa chamada popular. O sofrimento social tem aí uma
intencionalidade direta, como uma espécie de editorial, sobre o significado
construído para a violência urbana e seus protagonistas, geralmente populações
pobres ou grupos considerados marginais à moral comunitária em vigor.
O papel da imprensa popular na construção das imagens de sofrimento como
mercadoria e na sua disseminação como discursos intervencionistas de ação
direta ou, ainda, como banalização e estigmatização do sofrimento social é por
demais debatido, seja como espetáculo da experiência específica de um segmento
da população ' pessoas comuns, moradores das periferias das cidades,
trabalhadores ou desempregados; pequenos bandidos, estupradores e suas vítimas,
homossexuais e travestis; grupos de extermínio organizados, pagos pelo comércio
local; grupos de linchamento, que buscam a justiça pelas próprias mãos; a
própria polícia, tanto no seu lado corrupto como no de ação e proteção do
cidadão ', seja como consumo mórbido. Em um outro trabalho (Koury, 1998, pp.
67-86), ao analisar a questão da indiferença no processo de consumo de imagens
traumáticas na imprensa, tendo por base de pesquisa os depoimentos de
informantes que foram expostos a um conjunto de fotografias, cujo tema
principal era a morte, pude identificar o motivo da banalização e da
rotinização desse tipo de imagem.
Embora a morte incomodasse por sua morbidez, não dizia respeito de imediato aos
medos, aos receios e às perdas pessoais dos informantes. Sua impessoalidade
abria espaço para uma interpretação sobre os horrores e a violência do mundo,
sem que afetasse diretamente o mundo pessoal do observador.
A perturbação era mais social, não atingindo diretamente o lado subjetivo da
pessoa. Os retratados eram os outros, os homens em abstrato, indivíduos
quaisquer, distantes, virtuais, o que tornava possível cada um abstrair,
fazendo com que os depoimentos transcorressem em um nível de distanciamento em
que as emoções vinham à tona por meio de categorias muito amplas e
aparentemente desligadas do cotidiano.
Os elementos indicados servem de pano de fundo para se discutir o significado
do corpo na construção imagética de fotografias traumáticas na imprensa
popular. O corpo e, especificamente, o corpo morto fotografado fazem parte de
um conjunto de símbolos de conotação social. A fotografia na imprensa popular
alude o que deve e como deve ser mostrado, e o que deve ser interdito ou
censurado. Ela trabalha com os símbolos presentes no imaginário social para
expressar uma espécie de ardil visual direcionado à apreensão pelo leitor
(Barthes, 1984a, pp. 13-25).
Para Douglas (1976, pp. 141-158), no corpo está expresso todo o poder e o
perigo creditado a uma estrutura social. Por meio dessa ligação é que se pode
perceber no meio social o limite de exposição, positividade ou negação do
corpo, na sua totalidade, em partes ou, ainda, nos excrementos ' sangue, suor,
saliva ', já que nele estão gravadas as imagens da sociabilidade. A fotografia,
por intermédio do corpo objetivado, restaura, ao mesmo tempo em que instaura,
uma nova leitura ressignificada, o que Turner (1990, p. 87) chama de drama
social.
Trata-se de um conjunto de comportamentos ou representações que compõem
unidades sociotemporais quase fechadas, sinalizam mecanismos de projeção
inconscientes e elaboram um quadro de referência sobre o que é adotado ou o que
se deve adotar como critérios para sua apreensão. O simbolismo do corpo, assim,
é investido de poder e perigo e age dentro de um plano emotivo, em virtude da
experiência imaginária vivida por uma coletividade e introjetada pelos
indivíduos que dela fazem parte.
A linguagem do sofrimento nas fotografias de homicídios publicadas nos jornais
populares, por exemplo, ao trabalhar com o poder e os perigos do corpo,
arremessam um drama social não apenas para as vítimas expostas, mas também para
cada indivíduo e toda a coletividade. Drama social que assegura o estatuto
social de pertença do retratado e lida com os limiares imaginários da
vulnerabilidade e dos perigos a que estão expostos os que com ele se
identifiquem ou se horrorizem, no processo de apropriação da imagem retratada.
O corpo morto fotografado, em particular, reveste-se de significados precisos
de transgressão em uma ótica de mercado e referencia subliminarmente a condição
social do retratado e suas formas de apreensão: perigosa, desviante, violenta.
Ademais, esse tipo de fotografia torna o sofrimento social uma sensação e um
objeto de consumo. A fotografia expropria o corpo pela exposição dos elementos
que singularizam a morte e a condição social do fotografado, além de mostrar
excrementos, líquidos, furos ou pedaços arrancados que projetam o que não deve
ser visto, como vísceras, sangue, ossos etc. Ao mesmo tempo, a imagem busca
retratar a poluição dos elementos expostos, na sua mistura com a terra e a
lama, nos locais ou depósitos de desova, ou na exposição do corpo em degradação
a quaisquer passantes.
Duas fotografias publicadas na Folha de Pernambuco de 30 de junho de 1999 (Foto
7) e 12 de maio de 2000 (Foto_8), de Hélia Scheppa e Expedito Lima,
respectivamente, são, nesse sentido, reveladoras.. Ambas retratam corpos mortos
chacinados, o sangue misturado às impurezas do lugar e, em particular na
primeira foto, sujando uma edição do Evangelho.
Essas fotos vulgarizam o sofrimento, tornando-o uma experiência social banal e
distanciada porque enquadrada em uma dramaturgia específica, mas que,
concomitantemente, tira todo e qualquer cidadão de seu invólucro protetor, pela
poluição representada e os discursos expressos quando impressas.
Como um contraponto, as fotos_5 e 6 trabalham com essas mesmas questões, mas,
acima de tudo, singularizam um interdito: o plano que expõe o sexo e sua
anomalia na morte fotografada. O sexo masculino ereto, que na sociedade
ocidental simboliza potência e virilidade, parece não se enquadrar em um corpo
decomposto, vitimado e poluído. Daí a negação e a proibição no plano
fotográfico. Proibição visível quando na edição é borrado aquilo que não deve
ser mostrado, mas que é destacado pelo rabiscar grosseiro e intencional, pelas
manchetes e no decorrer do texto da reportagem.
Contradição aparente entre escrita e fotografia. Aparente porque se, de um
lado, o interdito ' virilidade do membro ereto ' se revela ao simples olhar, de
outro, ele é introduzido como um sinal de desvio, passível de interpretação
risível, como anedota. A relação entre o texto e a foto vulgariza o corpo morto
retratado e o reinsere em seu lugar social de exclusão, criando uma imagem
parcial e sensacionalista da criminalidade e da pobreza.
Conclusão
As formas interditas ou os intercâmbios poluidores presentes no registro
fotográfico e a reação sobre eles tem muito a ver com a moral. O sofrimento
social publicado é repassado como um elemento particular de um fenômeno geral '
idéia de ordem e segurança ', o qual deve ser enfrentado como ameaça pessoal ou
por instâncias competentes. Para Douglas (1976, p. 160), é muito difícil
definir as situações morais, pois elas são normalmente obscuras e
contraditórias. Servem a diferentes discursos, apropriações e formas
subliminares de manipulação e sedução, assim como para uma apreensão abstrata
de fenômenos presentes no imaginário social e experienciado por um indivíduo ou
grupo social.
É da natureza da regra moral "ser geral e a sua aplicação a um contexto
particular deve ser incerta" (Idem, ibidem). As regras de poluição, ao
contrário das regras morais, são inequívocas. O objeto fotográfico, trabalhando
na fronteira, na abrangência dos códigos morais e na especificidade dos códigos
de interditos e de poluição, dentro de uma idéia de experiência abstrata,
retrata situações de sofrimento na ambivalência entre abrangência e
especificidade e na ambigüidade das regras morais e nas expressões poluidoras e
interditas. Torna-se um subproduto da ação legal ou legítima exercida
institucionalmente ou, no âmbito privado, uma ameaça concreta ou potencial dos
medos que perpassam a sociedade e que modelam seus membros. Pode tornar-se,
além disso, uma instância de conformação e conforto sentimental e de memória na
esfera da vida privada, ou de ordem e segurança no coletivo que o expressa e de
onde se configuram as apropriações discursivas sobre o fato fotográfico em si
como objetificação do real.
Para Barrington Moore (1987, p. 622), a legitimidade tende a ser aferida a
qualquer princípio de inevitabilidade, seja qual for o sofrimento. Esse
princípio nas fotografias traumáticas aparece representado pelas concepções de
ordem e segurança que, de forma subliminar, o legitimam. Faz-se presente também
na banalização e no sensacionalismo dos meios de comunicação nas sociedades
ocidentais desde a Segunda Guerra Mundial. A exposição dos corpos na sua
banalidade remete o olhar à naturalidade da cena, como se ela fosse algo comum
e cotidiano. Reforça a indiferença e, no limite, exalta a morbidez e a
inevitabilidade da violência nela contida, ou, ainda, revela o interesse de
chocar.
O sofrimento é estigmatizado e negado. É retirado de cena pela amplitude das
generalizações que legitimam a morte pública e sua inevitabilidade,
transformando-se em experiência abstrata e mercadoria de largo consumo.
A fotografia traumática, ao fornecer uma coleção de objetos parciais, favorece
o fetichismo e uma espécie de perversão (Barthes, 1984, p. 51). Em nome de
negar a violência incorporada ao sofrimento social, ela legitima a violência em
si mesma, pela descaracterização da imagem nas convenções que reforçam a
inevitabilidade do ato registrado nas fotografias.
É possível reconhecer o sofrimento social no enquadramento fotográfico, mas o
que se experimenta tem a ver com uma espécie de adestramento; com o meio
cultural que formou e do qual necessariamente participa o observador, dando
significado às ações, às figuras e às cenas que as fotos revelam. Uma espécie
de recalcamento é sombreada: restos perdidos, parcelas inacessíveis ao olhar,
que assombram a imagem justamente pelo invisível nela contido, catalogado como
morbidez, como inevitável, ou tratado com indiferença.
Como se o sofrimento prenunciado das fotos perdesse seu significado, dando
lugar a uma indiferenciação em que tudo se equivale. Espécie de rito de
passagem traumática que interroga a linguagem, bloqueia a significação e
reforça a noção de inevitabilidade.
Noção que conota um universo regido, em parte ao menos, por forças não
suscetíveis à vontade e à ação dos indivíduos, impedindo ou sufocando a
indignação moral. Movimentos de auto-ilusão erigidos reforçando a perigosa
capacidade humana de acostumar-se às coisas, ou de sufocar os impulsos à
violência que das fotos emanam, endurecendo o olhar para enfrentar a tragédia
da existência.
Notas
1 Para uma discussão sobre fotografia e a noção do sagrado, ver, entre outros,
Tacca (2002).
2 Sobre os resultados desta pesquisa, ver Koury (2001, 2001a e 2003).
3 Ver, como comparação, o trabalho de Disderi, fotografando corpos mortos e
arrumando-os como se ainda estivessem vivos, conforme Dubois (1994). Ver,
também, a incorporação sentimental de fotografias de corpos mortos pelos
familiares e sua utilização para uma posse simbólica do ente querido que se
foi, em Ruby (1995) e Koury (2002).
4 Algumas vezes, observadores enxergaram na encenação proposta nesta foto da
Benneton uma simbologia que procurava retratar o Cristo morto na figura do
moribundo ou, ainda, a figura de 'Che' Guevara exposta pela mídia, morto pelo
exército boliviano. Ver, também, sobre o discurso publicitário e o uso de
fotografias traumáticas pela Benneton, o número especial da revista Colors,
publicação do grupo Benneton, tendo como editor Oliviero Toscani (1998), e o
trabalho de Finco, 1996.
5 Para uma comparação com a forma trágica da fotografia e do suicídio de
Carter, ver Sontag (1986, pp. 33-52), que retrata a melancolia do projeto
fotográfico norte-americano por meio da trajetória também trágica da fotógrafa
Diane Arbus.