Poder simbólico e fabricação de grupos: como Bourdieu reformula a questão das
classes
A reformulação da questão de classe empreendida por Pierre Bourdieu exemplifica
os principais aspectos da sua sociologia in globo , de tal modo que uma leitura
mais de perto de seus escritos-chave sobre o assunto oferece ao leitor uma
passagem direta para o âmago de seu projeto científico1. Essa reformulação
destaca as mudanças conceituais fundamentais efetuadas pelo sociólogo francês
num esforço para recolocar e resolver uma das questões mais problemáticas da
história e da teoria social, e, ao fazer isso, forjar ferramentas para elucidar
a política mais ampla da formação de grupos: a alquimia sociossimbólica
mediante a qual um construto mental, que existe abstratamente nas mentes de
pessoas individuais, torna-se uma realidade social concreta, que adquire
veracidade existencial, bem como potência histórica fora e acima delas.
Destaco, aqui, seis aspectos inter-relacionados da reavaliação que Bourdieu faz
de classe, que ampliam, mesclam e corrigem abordagens clássicas num quadro
próprio.
1. A abordagem que Bourdieu faz de classe incorpora sua concepção marcadamente
relacionalda vida social. Para o autor de A distinção, da mesma forma que para
Marx e Durkheim, o estofo da realidade social e, portanto, a base para a
heterogeneidade e a desigualdade consiste de relações. Não de indivíduos ou
grupos, que povoam nosso horizonte mundano, mas sim de redes de laços materiais
e simbólicos, que constituem o objeto adequado da análise social. Essas
relações existem sob duas formas principais: primeiramente, reificadas como
conjuntos de posições objetivas que as pessoas ocupam (instituições ou
"campos") e que, externamente, determinam a percepção e a ação; e, em segundo
lugar, depositadas dentro de corpos individuais, na forma de esquemas mentais
de percepção e apreciação (cuja articulação, em camadas, compõe o "habitus"),
através dos quais nós experimentamos internamente e construímos ativamente o
mundo vivido2. Para capturá-los, pode-se e deve-se superar a oposição mortal
entre duas posturas antitéticas e igualmente truncadas, o objetivismo e o
subjetivismo, mediante a adoção de um relacionalismo metodológico sistemático,
capaz de apreender a complicada dialética das estruturas sociais e cognitivas
na história, a intrincada dança de disposições e posições da qual a prática
deriva.
Esse relacionalismo distancia Bourdieu das concepções gradacionaisque
dominaram as pesquisas de estratificação durante os anos 1960 e 1970, quer na
linha subjetivista representada pela abordagem continuísta, baseada no status
e exemplificada por W. Lloyd Warner e pela tradição de "estudos de comunidade"
à la Yankee City3 , quer no modelo objetivistada escola de pesquisa de
"obtenção de status", que vai de Blau e Duncan4 a Featherman e Hauser5 . Porém,
ao abraçar ab inceptiotanto a estrutura quanto o agente, o quadro relacional de
Bourdieu também diverge claramente tanto da abordagem marxista quanto da
weberiana de classe, ressurgentes durante os anos 1970, na medida em que a
primeira interpreta o agente como um mero "ocupante" de uma posição estrutural,
enquanto a segunda trata a estrutura como o produto emergente da agregação
dinâmica de linhas individuais de ação destinadas a efetuar "fechamento e
usurpação"6. Nas duas últimas décadas, a pesquisa de estratificação passou a
incorporar organizações e redes como unidades de análise, mas essas correntes
tenderam a tratar as primeiras como máquinas autônomas de catalogação e
classificação e as segundas como geradores autopropulsores de desigualdade ou
de coesão social, na ausência de um mapa mais amplo da estrutura de classe no
interior do qual situá-las, como prevê a teoria das diferentes formas de
capital de Bourdieu7.
2. Em seguida, a concepção de Bourdieu de classe é intensamente agonística e
aqui ele se move para mais perto de Max Weber. Pois é a luta, e não a
reprodução, que se situa no epicentro do seu pensamento e se revela o motor
ubíquo tanto da ruptura quanto da continuidade social. A classe, enquanto
modalidade de agrupamento social e fonte de consciência e conduta, emerge e se
consolida pela competição sem fim, na qual os agentes se engajam através dos
diversos domínios da vida, visando a aquisição, o controle e a disputa por
diversas espécies de poder ou de "capital". Essas disputas, ancoradas pela
localização de alguém no espaço social, definidas pelas três coordenadas
dimensionais de volume de capital, composição de capital e trajetória, se
desenrolam em três arenas principais, classificadas em ordem ascendente de
especificidade e consequencialidade: os julgamentos convencionais e as
atividades mundanas da vida cotidiana, incluindo os gastos rotineiros, mapeados
em A distinção8 ; os campos especializados de produção cultural, como arte,
ciência, religião e a mídia (dissecados em As regras da arte, Para uma
sociologia da ciência e Sobre a televisão9), nos quais são produzidas e
disseminadas representações autoritárias do mundo social; e a esfera pública,
situada na interseção do campo político com o Estado burocrático, reorganizada
como o "banco central do poder simbólico", envolvida no arbitramento de
disputas sobre categorias e na certificação de identidades10. Essas lutas em
diferentes níveis aninhadas, por assim dizer, à maneira de círculos
concêntricos determinam, imediatamente, quais propriedades sociais consituem
capital e o valor relativo das diferentes espécies em circulação nos diversos
jogos sociais que conformam uma dada formação social, e mais significativamente
a "taxa de conversão" corrente, num dado momento, entre capital econômico e
capital cultural.
3. Em terceiro lugar, a abordagem que Bourdieu faz de classe não tem paralelo
no que diz respeito à ênfase colocada na dimensão e nos mecanismos simbólicosda
formação e da dominação de grupo. Como qualquer coletivo, as classes despontam
e vivem através do reconhecimento/falso reconhecimento, isto é, um trabalho
constante e diversificado de inculcação e imposição de categorias de percepção
que contribuem para formar a realidade social, moldando sua representação no
tríplice sentido da psicologia social, da dramaturgia e da iconologia11. Para
Bourdieu, baseando-se na antropologia filosófica de Ernst Cassirer, o agente
social é um animal symbolicum, que habita um mundo vivido e construído através
do prisma de construtos da linguagem, do mito, da religião, da ciência e de
conhecimentos variados12. Assim, a própria existência das classes como
recipientes e determinantes da vida social não é um dado bruto, inscrito nas
distribuições diferenciadas das oportunidades de vida. Na verdade, ela é o
resultado de um trabalho de formação de grupos,que envolve as lutas para impor
a classe como o "princípio dominante da visão e da divisão social", acima, e
contra, das alternativas competidoras (tais como localidade, etnicidade,
nacionalidade, gênero, idade, religião etc.). Isso ocorre porque
[o]s grupos sociais, e sobretudo as classes sociais, existem, por
assim dizer duas vezes, e isso acontece antes da intervenção do
próprio olhar científico: existem na objetividade da primeira ordem,
aquela que é registrada por distribuições de propriedades materiais;
e existem na objetividade da segunda ordem, a das classificações
contrastadas e das representações produzidas por agentes com base em
um conhecimento prático dessas distribuições, tais como são
expressadas nos estilos de vida13.
O trabalho propriamente político da formação de grupos chama nossa atenção para
a grande variedade de técnicas de agregação simbólica e de instrumentos de
reivindicações, por intermédio das quais as fronteiras são desenhadas e
obedecidas, da mesma maneira que uma população é forjada num coletivo, que uma
"classe no papel" transforma-se (ou não) em uma classe real, dotada da
capacidade de movimentar seus (supostos) membros, expressar demandas e agir
enquanto tal no cenário histórico. Numa sociedade avançada, esse trabalho de
manipulação simbólica tende a ser monopolizado por especialistas em
representação sindicalistas, políticos, administradores públicos,
especialistas em pesquisas de opinião, jornalistas e intelectuais , que
competem pela direção das "operações sociais de nomeaçãoe os ritos das
instituições"14, através dos quais a descontinuidade social é produzida a
partir da continuidade e categorias enraizadas nas divisões objetivas do espaço
social emergem como entidades ativas. As próprias ciências sociais (e
especialmente o tipo de "politologia" praticada em órgãos governamentais e em
escolas de políticas públicas) envolvem-se profundamente no trabalho de
formação de grupos, na medida em que suas técnicas de investigação e seus
idiomas analíticos são apropriados por operadores políticos para projetar uma
visão falsamente racionalizada de seu domínio15.
4. Deriva daí, em quarto lugar, que a abordagem de classe feita por Bourdieu é
genuinamente sintéticaem dois sentidos. Inicialmente, ela entretece tradições
teóricas que, geralmente, são percebidas como antagônicas, se não
incompatíveis, uma vez que retém a insistência de Marx em assentar a classe em
relações materiais de poder, mas a remete aos ensinamentos de Durkheim sobre as
representações coletivas e à preocupação de Weber com a autonomia das formas
culturais e a potência do status como distintições sociais percebidas16. Em
seguida, e de forma relacionada, ela revoga a oposição perene entre concepções
objetivistas e subjetivistas de classe, visões realistas para as quais a classe
é uma entidade-coisa "lá fora", e abordagens nominalistas, que a constroem como
um conceito nativo ou uma ferramenta heurística do sociólogo. Junto com as
várias escolas construtivistas (particularmente a fenomenologia e sua extensão
neo-schutziana, a etnometodologia), Bourdieu reconhece que os agentes produzem
ativamente a realidade social através de suas atividades mundanas de atribuição
de sentido, mas destaca que eles assim atuam baseados nas posições que ocupam
em um espaço objetivo de constrangimentos e facilitações, e com ferramentas
cognitivas surgidas desse mesmo espaço:
Essas construções não são efetuadas em um vácuo social, como alguns
etnometodologistas parecem acreditar: a posição ocupada no espaço
social isto é, na estrutura da distribuição das diferentes espécies
de capital, que são também armas governa as representações desse
espaço e as atitudes adotadas nas lutas para conservá-lo ou
transformá-lo17.
Por conseguinte, o "estruturalismo genético" de Bourdieu propõe que as classes
existem na medida em queas pessoas empregamesquemas de percepção, apreciação e
ação baseados em classe e originários das divisões objetivas do espaço social,
que ativam e inscrevem essas divisões nas relações sociais e nas lutas
políticas. Todavia, o alinhamento da posição, da disposição e da prática de
classe nos diferentes microcosmos que compõem uma sociedade diferenciada é uma
realização prática, que depende do trabalho de empreendedores simbólicos em
competição, contanto que "o mundo social possa ser expresso e construído de
diferentes maneiras"18, de acordo com princípios de categorização diferentes19.
A luta para elevar ou erodir a classe como a base suprema da percepção e da
ação social é travada mais intensamente nas camadas superiores do espaço
social, nas quais os detentores das diversas modalidades de capital (econômico,
jurídico, burocrático-estatal, religioso, científico, artístico etc.) competem
para determinar seu peso relativo e suas prerrogativas. Rompendo tanto com as
teorias liberais das elites quanto com a visão marxista da hegemonia
capitalista, que foca exclusivamente na divisão vertical entre governantes e
governados, Bourdieu descarta a noção substancialista de "classe dirigente" em
favor do conceito relacional de campo de poder20. Essa noção topológica
permite-nos anatomizar os conflitos horizontais que opõem os agentes e as
instituições que concentram os poderes díspares em jogo na sociedade avançada.
Bourdieu sugere que muitos conflitos que aparentemente opõem as categorias
dominante e dominado são, na realidade, batalhas de extermínio mútuo que
contrapõem os diferentes setores do campo de poder, isto é, diferentes frações
de uma suposta classe dirigente, cujo império torna-se mais opaco e mais
impregnável pelo intrincamento crescente e pelas contradições cada vez maiores
das engrenagens da dominação21. Em síntese, em vez de tomá-las como dadas ou
estipulá-las através de um ato de autoridade científica, Bourdieu problematiza
a existência, as fronteiras e o grau de coesão tanto das classes superiores
quanto das subordinadas, e abre espaço para a pesquisa empírica das modalidades
sociais de sua possível unificação e eventual capacidade para ação conjunta.
5. A reformulação de Bourdieu da questão colocada por Marx na introdução de Das
Kapital, "O que faz uma classe social?", é única por fundir, de forma
consistente, teoria e pesquisa. A motivação por detrás dos vários deslocamentos
conceituais que Bourdieu efetua de estrutura de classe a espaço social, de
consciência de classe a habitus, de ideologia a violência simbólica, de classe
dominante a campo de poder está enraizada na, e voltada para a, resolução de
quebra-cabeças de pesquisa concretos: que confluência de fatores produz a
disjunção política entre o subproletariado urbano e a classe trabalhadora
estabelecida na guerra de independência da Argélia? Como os filhos das
diferentes classes restringem ou ampliam suas expectativas acadêmicas de modo
que essas tendam a responder a suas oportunidades reais na escola? Por que os
camponeses não gostam da fotografia quando ela não é "realista"? Como
categorizar os diferentes componentes da pequena burguesia de modo a capturar
as raízes distintas de sua inclinação compartilhada por "boa vontade cultural"?
Como explicar a conversão ideológica de funcionários públicos graduados à visão
neoliberal de um Estado minimalista e impotente na década de 1990? Como a
internacionalização da economia e a constituição de uma rede mundial de escolas
de elite impactam a capacidade de vários segmentos da burguesia para assegurar
a reprodução e a conversão de suas modalidades específicas de capital?
Em Bourdieu, as ferramentas de análise e as ferramentas empíricas de classe
estão intimamente entrelaçadas e avançam em uníssono. Isso se dá porque ele não
chegou a escrever o tratado sobre classe anunciado em um pé de página de A
distinção, pois separar os princípios teóricos de sua implementação na pesquisa
sempre implica o risco de reificação escolástica. Em "A Japanese reading of
Distinction" ["Uma leitura japonesa de Distinção"], uma conferência pública
proferida em Tóquio, Bourdieu elabora:
O modelo teórico não é exibido adornado com todos os sinais que
alguém, normalmente, reconhece como da "grande teoria", começando com
a ausência de qualquer referência a uma dada realidade empírica. As
noções de espaço social, de espaço simbólico ou de classe social
nunca são examinadas em si mesmas e por si mesmas. Ao contrário, são
colocadas para funcionar e para serem testadas numa investigação que
é, inseparavelmente, empírica e teórica22.
6. Contudo, a remodelação da noção de classe feita por Bourdieu não é apenas
teórica e empírica. Ela também abrange uma importante inovação metodológica,
nomeadamente, a introdução e o refinamento para a pesquisa social da técnica
estatística da análise da correspondência múltipla que evoluiu, mais tarde,
para uma análise geométrica de dados23 . Esse método não paramétrico de análise
categorial de dados, derivado do trabalho matemático de Jean-Paul Benzécri, é
destinado a revelar e mapear os espaços interconectados de indivíduos e
propriedades. Em contraste e oposição propositais à estatística "orientada pela
variável" de Lazarsfeld, ele obedece ao modo topológico de raciocínio, que
retém o indivíduo situado como unidade de análise para garantir um forte elo
entre ontologia, metodologia e teoria social, e nos convida a especificar as
condições sob as quais vários agentes irão (ou não) aderir a uma prática
coletiva, e em que domínios da vida social. Como explica Bourdieu: "As diversas
técnicas estatísticas contêm filosofias sociais implícitas que devem ser
tornadas explícitas"; cada uma delas comporta suas próprias noções de
"causalidade, ação e o modo de existência das coisas sociais". Assim, ele usa a
análise de correspondência múltipla porque "é um procedimento essencialmente
relacional, cuja filosofia expressa totalmente aquilo que, na minha visão,
constitui a realidade social. É um procedimento que 'pensa' em relações"24, o
que perfaz o círculo e nos leva de volta à primeira proposição fundadora de
Bourdieu sobre a estrutura de classe.
A reavaliação de Bourdieu de classe como uma modalidade de formação de grupos
tem se mostrado especialmente fértil não somente devido à sua proeza teórica de
integrar abordagens de Marx, Weber, Durkheim e Cassirer (bem como de Merleau-
Ponty, Goffman, Austin e outros), mas também porque ele gerou um amplo corpo de
pesquisa empírica no qual seus princípios centrais foram testados, refinados e
revisados para cobrir as principais classes da sociedade contemporânea,
capturadas em fases de consolidação, assim como em ciclos de decomposição, na
França e também em outros países. Em Le bal des célibataires[O baile dos
celibatários], o próprio Bourdieu diagnostica a crise do campesinato do seu
Béarn nativo como fruto da penetração da sociedade de aldeia pela escola e pela
mídia urbana, que rompe a correspondência circular entre as estruturas sociais
baseadas no parentesco e as estruturas mentais divididas por gênero,
características da ordem agrária tradicional25. Essa linha de investigação é
ampliada por Patrick Champagne, que mostra, em L'héritage refusé[A herança
recusada], como a dominação simbólica do campesinato opera para acelerar seu
encolhimento material mediante a intensificação do gapcultural através de
gerações, promovendo, assim, estratégias de transmissão familiar e reconversão
profissional que facilitam a substituição do camponês de aldeia do passado pelo
empresário rural tecnicista, orientado para os mercados nacional e global26. O
essencial do trabalho performativo da "formação de grupos" de cima, efetuado
por líderes sindicais em relação às suas bases, bem como ao Estado, é examinado
por Maresca em Les dirigeants paysans[Os dirigentes camponeses], que documenta
como os agricultores menos representativos vêm tomar o leme do grupo para
moldá-lo à sua própria imagem27.
A demolição da classe trabalhadora industrial na era pós-fordista é analisada
por Stéphane Beaud e Michel Pialoux em Retour sur la condition ouvrière[Sobre a
condição operária], uma espécie de estudo de "E.P. Thompson às avessas", que
revela como as mudanças no processo de trabalho, na organização da fábrica e no
sistema escolar nas últimas décadas do século XX conspiraram para fragmentar e
desmoralizar os trabalhadores, desfazendo, na realidade, sua coesão de
classe28. Olivier Schwartz descreve como a vida familiar, a segmentação por
gênero e a crescente privatização da esfera doméstica como amortecedor
defensivo e reino do consumo contribuem para consagrar, de dentro, a divisão
interna de trabalhadores manuais entre estratos "proletarizados",
"desproletarizados" e "precarizados", enfraquecendo, assim, o coletivo que eles
formam ou costumavam formar29. Abdelmalek Sayad examina a posição particular e
as experiências de imigrantes argelinos dentro da classe trabalhadora francesa
em La double absence[A dupla ausência], enquanto Beaud retorna à interseção
deles em seu diálogo socioanalítico com jovens desempregados de origem franco-
argelina, intitulado, sintomaticamente, Pays de malheur[País da desgraça!]30.
Acrescentando uma camada espacial à (de)formação de classe, Wacquant revela
como o desterro em bairros estigmatizados da periferia urbana fragmenta ainda
mais as frações precárias da classe trabalhadora pós-industrial por toda a
Europa Ocidental, assegurando que o precariatopermaneça como um grupo
natimorto, cujas origens dispersas e divisões embutidas obstruem continuamente
seu acesso a uma forma organizada de existência e ação coletivas31. Por sua
vez, Marie Cartier e seus colegas investigam as posições ambíguas e as atitudes
ambivalentes da baixa classe média dessa mesma periferia urbana em La France
des 'petits moyens'[A França da baixa classe média]32, para verificar que sua
heterogeneidade ocupacional é parcialmente compensada por sua apreensão
compartilhada quanto à moradia e pelo temor da mobilidade para baixo que os
absorveria entre os desterrados da cidade.
Avançando na estrutura de classe, Baudelot recoloca o crescimento do "pobre
trabalhador" em uma hierarquia social profundamente reconfigurada pelas rápidas
transformações do mundo do trabalho e pela complexidade cada vez maior dos
status dos assalariados, levando em conta que o aumento da classe média foi
acompanhado pela crescente opacidade e pelo aprofundamento das divisões
culturais, ao passo que Bihr e Pfefferkorn ampliam o limite analítico para
retratar a acúmulo dinâmico das disparidades em cascata nas duas extremidades
da pirâmide de classe33. Luc Boltanski disseca o papel catalizador dos cadresao
agregar um conjunto disperso de categorias intermediárias e ao modelar a
morfologia, a mobilização e as inclinações políticas das classes gerenciais
média e superior na França do pós-guerra34 . Monique de Saint Martin e Béatrix
Le Wita enriquecem o quadro pintado por Bourdieu da classe superior,
investigando a frutificação e a santificação do capital social entre as
dinastias da nobreza e a burguesia parisiense, enquanto Monique e Michel Pinçon
anatomizam as instituições exclusivas que eles construíram para si mesmos nos
bairros ricos da porção oeste da capital, bem como suas extensões suburbanas e
para as províncias: o isolamento espacial passa a ser uma modalidade crucial da
unificação cultural e da coesão de classe no topo35. Movendo-se para além do
nível nacional, Wagner demonstra como a globalização dos fluxos econômicos e
culturais reforçaram o peso do capital cultural na administração de classe, com
efeitos opostos nas duas extremidades do espectro social, tendo a ascensão do
"capital internacional" reforçado, mais do que substituído, as frações
dominantes das burguesias nacionais nos diferentes países36.
Fora da França, as investigações sociológicas, históricas e antropológicas têm
adotado e adaptado o modelo de Bourdieu para elucidar as relações do espaço
social, de constituição de classe e de poder cultural em uma dezena de países,
em períodos que atravessam vários séculos. Essa literatura é hoje tão volumosa
que se pode escrever um artigo em separado sobre ela. Por isso, assinalarei
aqui somente cinco estudos, concernentes a Portugal, Grã-Bretanha, Estados
Unidos, sociedades pós-soviéticas e Noruega no momento presente, como
indicativo da dinâmica diversidade do legado bourdieusiano. Virgílio Pereira
replicou e especificou as contribuições de A distinção, a estreita relação
entre posição social, consumo cultural e sociabilidade nos bairros
estratificados que compõem a cidade do Porto, adicionando uma dimensão espacial
múltipla ao modelo de Bourdieu da correspondência entre espaço social e espaço
simbólico37. A equipe de Manchester, liderada por Mike Savage e Alan Warde,
adotou esse modelo do outro lado do canal da Mancha para mapear o consumo e a
participação cultural britânicos, abordando de frente o papel complicador do
gênero e da etnicidade como bases da formação de grupo38. Annette Lareau
documentou como a aguda bifurcação de classe e étnica nas práticas de educação
infantil na Costa Leste dos Estados Unidos perpetua as estruturas de
desigualdade existentes, revelando como a classe efetivamente funciona nos
"circuitos familiares" através da organização da vida cotidiana, do uso da
linguagem e das relações diferenciadas com a escola39. Eyal, Szelényi e
Townsley estenderam e testaram o modelo de Bourdieu de conversão de capital no
campo do poder para delinear a emergência de uma nova classe dirigente nos
países do extinto bloco soviético após o colapso do comunismo40. Finalmente,
trazendo Bourdieu para a Noruega, Lennart Rosenlund revelou o peso crescente da
composição (enquanto algo distinto do volume) do capital como determinante
primordial para as oportunidades de vida e os estilos de vida na cidade de
Stavanger, em decorrência doboom petrolífero, e mostrou como a profunda
diferenciação entre os setores público e privado marca o sentimento das pessoas
comuns, bem como a estrutura de classe do país (e, presumivelmente, de outras
nações escandinavas, moldadas de modo similar pelo Estado social-democrata)41.
Uma leitura cerrada de suas investigações sobre classe, poder e cultura sugere
que Pierre Bourdieu reformulou o clássico problema da dominação e da
desigualdade ao questionar o status ontológico de grupose ao forjar ferramentas
para revelar como essas são feitas e desfeitas praticamente na vida social pela
inculcação de esquemas compartilhados de percepção e apreciação e de seus usos
contestados para esboçar, vigiar ou desafiar fronteiras sociais. Jaz, pois, no
epicentro de sua sociologia, o dilema da realização de categorias, isto é, as
atividades concretas e os mecanismos operantes mediante os quais construtos
mentais evanescentes tornam-se realidades históricas consistentes e duradouras,
na dupla aparência de instituições (sistemas de posições), e encarnam
subjetividades (conjuntos de disposições) que trabalham concomitantemente para
atualizar divisões simbólicas, inscrevendo-as na materialidade. Cabe a outros
autores estender essa reavaliação praxiológica de classe para outros coletivos
sociais, baseados em idade, gênero, etnicidade (incluindo esse subtipo de
etnicidade negada chamado raça) e nação42. O trabalho de desconstrução
sociológica do esforço da formação de grupos apenas começou.
APÊNDICE: ESCRITOS-CHAVE DE BOURDIEU SOBRE CLASSE
Bourdieu atribui um lugar central à classe em todo o seu trabalho, vendo-a como
uma modalidade de desigualdade, identidade e ação, mas com duas direções ao
longo do tempo, uma empírica e outra analítica. Colocado de forma esquemática,
o foco empírico primordial de Bourdieu migra ascendentemente na ordem de classe
no decorrer das décadas, indo da dissolução do campesinato e da composição
interna do proletariado urbano (tanto na Argélia quanto na França, no início
dos anos 1960, exemplificado em Le bal des célibataires e Algérie 1960 ) para
as inclinações e os destinos contrastantes das classes médias (em meados dos
anos 1960, começando com Un art moyen e atingindo o clímax com La distinction
), até a classe superior e seus conflitos intestinos, que despontam da "divisão
do trabalho de dominação" (anos 1980, de La distinction a La noblesse d'État ),
até o papel do Estado, do direito e das forças internacionais na modelagem de
classe, atuando de fora e de cima (anos 1990, ver sobretudo Les structures
sociales de l'économie e a série de ensaios sobre o neoliberalismo)43.
Similarmente, em termos analíticos Bourdieu passa da mera documentação da
relevância persistente da classe (numa época dominada pelos temas gêmeos do
alegado embourgeoisementda classe trabalhadora, do surgimento de múltiplas
"novas classes" e da celebração do "fim das classes") para o mapeamento da
estrutura invisível do espaço social no interior da qual as classes emergem (ou
não) como resultado de batalhas simbólicas multilocais que almejam impô-las
como "o princípio dominante da visão e da divisão social" sobre, e em oposição
a, outras bases possíveis de determinação social e formação de coletividade.
Portanto, em seus muitos trabalhos que conduzem a La distinction, de 1979,
Bourdieu considera a classe um dado estrutural e concentra-se no delineamento
de seus múltiplos impactos e manifestações em diferentes domínios (por exemplo,
consumo ordinário, estética e política). Em sua conferência de 1984, em
Frankfurt, sobre "Classes sociais e a gênese das 'classes'" (observem as aspas
no original), Bourdieu descreveu as profundas implicações de sua análise
Langage et pouvoir symbolic, e assim supera aquela suposição para enfatizar a
multidimensionalidade inerente à distribuição de recursos eficientes em uma
dada formação social e a correspondente "elasticidade semântica do mundo
social". Bourdieu chama atenção para a relativa autonomia dos sistemas
simbólicos das estruturas sociais e de seu poder constitutivo, ou seja, para
sua capacidade de moldar a realidade, moldando representações compartilhadas do
mundo44. Ele se centra na problemática passagem das "classes" no papel para as
classes na realidade, da classe possível para a classe real, como indicado pelo
título de seu discurso de 1987, proferido no Simpósio sobre Classificações
Sociais, na Universidade de Chicago (para o qual fora convidado para falar
sobre classe na conferência de encerramento, depois que Samuel Preston falou
sobre idade, Eleanor Maccoby sobre gênero e Orlando Patterson sobre raça, de
acordo com um roteiro que manteve essas bases de categorização cuidadosamente
em separado): "O que constitui uma classe social? Sobre a existência teórica e
prática de grupos". O espaço social e as lutas simbólicas tornam-se, então, a
díade conceitual operantede um modelo que pode ser aplicado a qualquer coletivo
social, resultante "das lutas de classificação que constituem uma dimensão de
quaisquer lutas de classe, sejam elas classes de idade, classes sexuais ou
classes sociais"45.
A ascensão empírica na escada da classe é acompanhada por uma importante
ruptura conceitual, com a elaboração da noção de "campo de poder" (esboçado
inicialmente em 1971 e desenvolvido mais vigorosamente entre 1988 e 1995,
quando Bourdieu decide lidar de frente com a questão do Estado, em torno da
qual circulou cautelosamente por décadas), bem como da noção de corpus(corpos
coletivos, tais como as ocupações ou a família, que garantem "a afinidade de
disposições e a orquestração de habitus"), distintos tanto de classe quanto de
campo, com os quais Bourdieu procura explicar a consolidação inicial do Estado
e a continuada "solidariedade orgânica" do dominante, a despeito de suas
divisões objetivas46. Ele também é acompanhado pela promoção de princípios
ortogonais de classificação, tais como gênero (com os ensaios preparatórios, o
livro e os debates que se seguiram sobre a dominação masculina) e etnicidade
(sob a aparência de região, imigração e o tratamento de estrangeiros).
A guinada empírica é mais clara do que a analítica, que podia ser interpretada
como resultado quer de uma mudança de posição, quer de amadurecimento e
clarificação teóricos. Como o próprio Bourdieu advertiu,
quando você sabe como olhar, as continuidades são mais visíveis do
que as descontinuidades. Um pensador ou um pesquisador são como um
navio de cruzeiro, que leva um tempo inacreditavelmente longo [un
temps fou] para mudar de direção. Mesmo no caso de Foucault, em cujo
trabalho vocês encontrarão mais mudanças claras do que no meu, eu
acho que as continuidades são impressionantes47.
Esse apêndice fornece um guia para avaliar essas e outras possíveis mudanças no
pensamento de Bourdieu sobre classe. Ele lista os trabalhos em ordem
cronológica, conforme o ano de sua primeira publicação48 , apresentando as
traduções em português quando disponíveis. Inclui apenas aqueles trabalhos que
lidam diretamente com classe, em um esforço para atingir um equilíbrio entre
parcimônia e abrangência.
1962
"Célibat et condition paysanne". Études Rurales , 5-6 (abr.), pp. 32-136.
"La hantise du chômage chez l'ouvrier algérien. Prolétariat et système
colonial". Sociologie du Travail , 4, pp. 313-331.
"Les sous-prolétaires algériens". Les Temps Modernes , 199 (dez.), pp. 1031-
1051.
1963
Travail et travailleurs en Algérie. (Com Darbel, Alain; Rivet, Jean-Paul e
Seibel, Claude.) Paris/Haia: Mouton.
1964
Le déracinement. La crise de l'agriculture traditionnelle en Algérie. (Com
Sayad, Abdelmalek.) Paris: Minuit.
"Paysans déracinés: bouleversements morphologiques et changements culturels en
Algérie". (Com Sayad, Abdelmalek.) Études Rurales , 12 (jan.), pp. 56-94.
Les héritiers. Les étudiants et la culture. (Com Passeron, Jean-Claude.) Paris:
Minuit.
1965
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2012
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(dez.), pp. 126-139.
LOÏC WACQUANT é professor de sociologia na Universidade da Califórnia em
Berkeley e pesquisador do Centre de sociologie européene (Paris). Autor de
diversos estudos sobre marginalidade urbana comparada, incorporação, o estado
penal, dominação etnorracial e teoria social traduzidos para mais de vinte
línguas, recebeu bolsa de excelência da Fundação MacArthur e o prêmio Lewis
Coser da Associação Americana de Sociologia. Publicou no Brasil Corpo e alma:
notas etnográficas de um aprendiz de boxe (2002), O mistério do ministério.
Pierre Bourdieu e a política democrática (2005), Onda punitiva. O novo governo
da insegurança social (2007) e As prisões da miséria (2011), entre outros
trabalhos. Para mais informações, ver loicwacquant.net.
[*] Publicado originalmente em Journal of Classical Sociology, vol. 13, nº 2,
maio de 2013. Este ensaio é uma versão revista e ampliada de um texto
inicialmente preparado como prefácio a uma coleção dos textos-chave de Pierre
Bourdieu sobre classe e política, a ser lançada em norueguês como Et
klassespørsmål (Oslo, Forlaget Manifest). O autor agradece aos editores do
Journal of Classical Sociology por seu estímulo para retrabalhá-lo e pela
paciência em esperar os resultados, e aos oportunos comentários de Sébastien
Chauvin, Megan Comfort, Johs Hjellbrekke, Daniel Laurison e Tom Medvetz.
[1] Muitos dos 37 livros e 400 artigos de Bourdieu lidam com um ou outro
aspecto de classe, cobrindo o campesinato, o (sub)proletariado, as classes
médias e a burguesia (incluindo a rivalidade entre suas frações econômicas e
culturais), bem como as constelações hierárquicas que elas formam, de modo que
não é possível fornecer aqui uma listagem detalhada. Como alternativa,
selecionei, no apêndice, os escritos fundamentais que oferecem um panorama de
suas primeiras contribuições (anos 1960), de suas contribuições intermediárias
(anos 1970 até Distinção) e de suas últimas contribuições (pós-1982). Eles
revelam uma passagem analítica do par condição-posição de classe para a
formação de classe como uma possível consequência de lutas simbólicas.
[2] "A evidência da individuação biológica impede-nos de ver que a sociedade
existe sob duas formas inseparáveis: por um lado, instituições, que podem
assumir a forma de coisas físicas ' monumentos, livros, instrumentos etc.; e,
por outro, disposições adquiridas, maneiras duradouras de ser ou de estar,
encarnadas em corpos. [...] O corpo socializado (o que nós chamamos de o
indivíduo ou a pessoa) não é oposto à sociedade: é uma de suas formas de
existência" (Bourdieu, P. Questions de sociologie. Paris: Minuit, 1980, p. 29, grifo no original. [Ed. bras.: Questões de sociologia.
Trad. Jeni Vaitsman. Rio de Janeiro: Marco Zero, 1983.]).
[3] Warner, William Lloyd; Low, J. O.; Lunt, Paul Sanborn e Srole, Leo. Yankee
City. New Haven: Yale University Press, 1963.
[4] Blau, Peter M. e Duncan, Otis Dudley. The American occupational structure.
Nova York: Free Press, 1967.
[5] Featherman, David L. e Hauser, Robert Mason. Opportunity and change. Nova
York: Academic Press, 1978.
[6] Para duas posições representativas, ver Wright, Erick Olin. Classes,
crisis, and the State. Londres: Verso, 1979, e Parkin, Frank.
The social analysys of class structure. Londres: Tavistock,
1972.
[7] À guisa de exemplo, consultar Baron, James N. "Organizational perspectives
on stratification". Annual Review of Sociology,10, 1984, pp. 37- 69, e DiMaggio, Paul e Garip, Filiz. "Network effects and social
inequality". Annual Review of Sociology,38, 2012, pp. 93- 118,
nenhum dos quais se conecta com Bourdieu. Essa conexão é feita por Emirbayer,
Mustafa e Johnson, Victoria. "Bourdieu and organizational analysis". Theory
& Society,37(1), 2008, pp. 1- 44, e pelos variados artigos
reunidos nesse número especial de Theory & Society, bem como os argumentos
estendidos nos dois livros de John Levi Martin, Social structures. Princeton:
Princeton University Press, 2009, e The explanation of social
action. Oxford: Oxford University Press, 2011.
[8] Bourdieu, Pierre. La Distinction. Critique sociale du jugement. Paris:
Minuit, 1979. [Ed. bras.: A distinção: crítica social do
julgamento. Trad. Daniela Kern e Guilherme J. F. Teixeira. São Paulo/Porto
Alegre: Edusp/Zouk, 2007.]
[9] Bourdieu, Pierre. Les règles de l'art. Genèse et structure du champ
artistique. Paris: Seuil, 1992. [Ed. bras.: As regras da
arte. Gênese e estrutura do campo artístico. Trad. Maria Lúcia Machado. São
Paulo: Companhia das Letras, 2002]; Science de la science et réflexivité.
Paris: Raison d'Agir Éditions, 2001. [Ed. port.: Para uma sociologia da
ciência. Trad. Pedro Elói Duarte. Lisboa: Edições 70, 2004]; Sur la télévision.
Paris: Raison d'Agir Éditions, 1996 [Ed. bras.: Sobre a televisão: seguido de A
influência do jornalismo e Os jogos olímpicos. Trad. Maria Lúcia Machado. Rio
de Janeiro: Zahar, 1997].
[10] A operação do poder simbólico nos campos politico e burocrático é
examinada nos trabalhos de Bourdieu Langage et pouvoir symbolique(Paris:
Fayard, 1982), La noblesse d'État(Paris: Minuit, 1989), Raisons pratiques
(Paris: Seuil, 1994, sobretudo capítulo 4) [Ed. bras.: Razões práticas: sobre a
teoria da ação. Campinas, Papirus, 1996], bem como no curso oferecido no
Collège de France de 1989 a 1992, Sur l'État(Paris: Seuil/Raisons d'Agir
Éditions, 2012). Uma elaboração posterior encontra-se em Wacquant, Loïc (org.).
Pierre Bourdieu and democratic politics: the mystery of ministry.Cambridge:
Polity Press, 2005 [Ed. bras.: O mistério do ministério.
Pierre Bourdieu e a políticademocrática. Rio de Janeiro, Revan, 2005],
sobretudo capítulo 1.
[11] Bourdieu chama atenção, repetidamente, para os "inumeráveis atos de
construção antagonística que os agentes operam, a todo momento, em suas lutas
individuais e coletivas, espontâneas ou organizadas, para impor a visão social
do mundo mais de acordo com seus interesses" e para as quais estão
desigualmente armados (Bourdieu, Pierre. "Une classe objet". Actes de la
Recherche en Sciences Sociales,vol. 17/18, 1977, p. 2).
[12] Ver, em particular, o livro de Cassirer The philosophy of symbolic forms
(New Haven: Yale University Press, 1955-1957 [1923-1929]), uma obra-prima em
três volumes que Bourdieu absorveu no início da sua trajetória intelectual e
que traduziu para o francês na coleção que lançou pela Éditions de Minuit,
junto com outros quatro livros do filósofo de Marburg.
[13] Bourdieu, Pierre. "Capital symbolique et classes socials". L'Arc,72, 1978,
pp. 13- 19, publicado nesta edição de Novos Estudos Cebrap.
[14] Bourdieu, Pierre. Langage et pouvoir symbolique. Paris: Seuil, 2001, grifo no original. [Ed. bras.: O poder simbólico. Rio de
Janeiro. Bertrand Brasil, 1992].
[15] Bourdieu, Pierre. La noblesse d'État. Grandes écoles et esprit de corps:
Parte III; Bourdieu, Pierre e Boltanski, Luc. La production
de l'idéologie dominante. Paris: Demopolis/Raisons d'Agir Éditions, 2007 [1976] .
[16] A revisão que Bourdieu faz de classe tanto perpassa quanto ultrapassa as
divisões teóricas convencionais ' entre marxistas, weberianos, durkheimianos e
os partidários da análise pós-classista ', as quais Eric Olin Wright
( Approaches to classe analysis . Cambridge: Cambridge University Press, 2005)
tenta em vão superar.
[17] Bourdieu, Raisons pratiques, op. cit., p. 28.
[18] Bourdieu, Langage et pouvoir symbolique, op. cit., p. 298.
[19] Ver também Bourdieu, Pierre. Choses dites. Paris: Minuit,1987, pp. 158-162
[ed. bras.: Coisas ditas. Trad. Cássia R. da Silveira e Denise Moreno Pegorim.
São Paulo: Brasiliense, 1990]. Isso é particularmente relevante e evidente no
caso da classe média, devido à sua localização "intermediária", propensa a ser
vista, ou a orientar-se, de cima ou de baixo (Wacquant, Loïc. "Making class:
the middle class(es) in social theory and social structure". In: McNall, Scott
G.; Levine, Rhonda e Fantasia, Rick (orgs.). Bringing class back in. Boulder:
Westview, 1991, pp. 39- 64).
[20] Ver, em particular, Bourdieu. La noblesse d'État. Grandes écoles et esprit
de corps: Parte IV; Bourdieu, Pierre. "Champ du pouvoir et
division du travail de domination". Actes de la Recherche en Sciences
Sociales,190, 2011, pp. 126- 39; Bourdieu, Pierre e Wacquant,
Loïc. "From ruling classe to field of power". Theory, Culture & Society,10
(1), 1993, pp. 19- 44.
[21] "A dominação não é o efeito direto e simples da ação exercida por um
conjunto de agentes (a 'classe dominante'), investido de poderes de coerção,
mas sim o efeito indireto de um conjunto complexo de ações, que se engendram na
e pela rede cruzada de limitações que cada um dos dominantes, assim dominado
pela estrutura de dominação através da qual exerce sua dominação, sofre de
parte de todos os demais" (Bourdieu, Raisons pratiques , op. cit., p. 57).
[22] Bourdieu, Raisons pratiques, op. cit., p. 16.
[23] Isso é enfatizado por Frédéric Lebaron em "How Bourdieu 'quantified'
Bourdieu: the geometric modelling of data". In: Robson, Karen e Sanders, Chris
(orgs.). Quantifying Bourdieu. Berlim: Springer, 2009, pp. 11- 29. Uma excelente introdução ao método da maneira como era organizado
por Bourdieu é encontrada em Le Roux, Brigitte e Rouanet, Henry. Multiple
correspondence analysys. Londres: Sage, 2009. Os autores
treinaram legiões de pesquisadores a proceder à análise de correspondência
múltipla em workshops especiais, realizados pela Europa Ocidental (e mais
recentemente nos Estados Unidos, em Berkeley). Uma comparação instrutiva do
tipo de análise de correspondência feito por Bourdieu com a matemática da
escolha racional desenvolvida por James Coleman é realizada por Breiger
(Breiger, Ronald L. "A tool kit for practice teory". Poetics,27(2-3), pp. 91-
115, 2000); uma associação com a técnica de análise de redes
é proposta por De Nooy (De Nooy, Wouter. "Fields and networks: correspondence
analysis and social network analysis in the framework of field theory".
Poetics,31(5-6), pp. 305-327, 2003).
[24] Bourdieu, Pierre. "Meanwhile I have come to know all the diseases of
sociological understanding". Posfácio a The craft of sociology: epistemological
preliminaries. Nova York: De Gruyter, 1991 [1968], p. 255.
[Ed. bras.: Ofício de sociólogo. Metodologia da pesquisa na sociologia.
Petrópolis: Vozes, 2004].
[25] Bourdieu, Pierre. Le bal des célibataires. La crise de la société paysanne
en Béarn. Paris: Points/Seuil, 2002.
[26] Champagne, Patrick. L'héritage refusé. La Crise de la reproduction sociale
de la paysannerie française, 1950-2000. Paris: Points/Seuil,
2002.
[27] Maresca, Sylvain. Les dirigeants paysans. Paris: Éditions de Minuit, 1983. Para uma extensão dessa problemática ao campesinato da
Espanha e do Brasil, ver Combessie, Jean-Claude. Au Sud de Despeñaperros. Pour
une économie politique du travail. Paris: Éditions de l'ehess, 1995,e Garcia, Afrânio. Libres et assujetis. Marché du travail et
domination au Nordeste. Paris: Éditions de la msh, 1995.
[28] Beaud, Stéphane e Pialoux, Michel. Retour sur la condition ouvrière.
Enquête aux usines Peugeot de Sochaux-Montbéliard. Paris: Fayard, 1990. Sobre as origens e a experiência da extrema precarização do
trabalho nas áreas centrais das cidades americanas, ver Chauvin, Sébastien. Les
agences de la précarité. Journalier à Chicago. Paris: Éditions du Seuil, 2010.
[29] Schwartz, Olivier.Le monde privé des ouvriers. Hommes et femmes du Nord.
Paris: puf , 1990. Um esforço relevante para mapear as fontes
da subjetividade da classe trabalhadora na Inglaterra, fundindo Bourdieu e
Schutz, é encontrado em Charlesworth, Simon J. A phenomenology of working-class
experience. Cambridge: Cambridge University Press, 2000.
[30] Sayad, Abdelmalek. La double absence. Des illusions de l'émigré aux
souffrances de l'immigré. Paris: Seuil, 1998; Amrani, Younes
e Beaud, Stéphane. 'Pays de malheur'. Un jeune de cité écrit à un sociologue.
Paris: La Découverte, 2007.
[31] Wacquant, Loïc. Urban outcasts: a comparative sociology of advanced
marginality. Cambridge: Polity, 2008. [Ed. bras.: Os
condenados da cidade. Estudos sobre marginalidade avançada. Rio de Janeiro,
2010.]
[32] Cartier, Marie; Coutant, Isabelle; Masclet, Olivier e Siblot, Yasmine. La
France des 'petits moyens'. Enquêtes sur la banlieue pavillonnaire. Paris: La
Découverte, 2008.
[33] Baudelot, Christian. Travail et classes sociales. La nouvelle donne.
Paris: Éditions Rue d'Ulm, 2010; Bihr, Alain e Pfefferkorn,
Roland. Le système des inégalités. Paris: La Découverte,
2008.
[34] Boltanski, Luc. Les cadres. La formation d'un groupe social. Paris:
Éditions de Minuit, 1983. O papel da moralidade na
constituição diferenciada da classe média (ou será a classe alta?) na França e
nos Estados Unidos é explorado por Lamont, Michèle. Money, morals, and manners:
the culture of the French and the American upper-middle class. Chicago:
University of Chicago Press, 1994. A questão da moralidade
prática na formação de classe na sequência da obra de Bourdieu é abordada
posteriormente por Sayer, Andrew. The moral significance of class. Cambridge:
Cambridge University Press, 2005.
[35] Saint Martin, Monique de. L'espace de la noblesse . Paris: Anne-Marie
Métailié , 1993; Le Wita, Béatrix. Ni vue ni connue. Approche
ethnographique de la culture bourgeoise . Paris: Éditions de la msh, 1995; Pinçon-Charlot, Monique e Pinçon, Michel. Dans les beaux
quartiers . Paris: Seuil, 1989; Pinçon-Charlot, Monique e
Pinçon, Michel. Les ghettos du gotha. Au coeur de la grande bourgeoisie .
Paris: Le Seuil, 2007. Entre muitas aplicações em outros
países, merece menção especial o trabalho de Sergio Miceli sobre o Brasil,
Imagens negociadas. Retratos da elite brasileira, 1920'40. São Paulo: Companhia
das Letras, 1996.
[36] Wagner, Anne-Catherine. Les classes sociales dans la mondialisation .
Paris: La Découverte, 2007. Essa análise é atualizada no
número temático "Le pouvoir économique", organizado por Wagner, de Actes de la
Recherche en Sciences Sociales , 190, dez. 2011.
[37] Pereira, Virgílio Borges. Classes e culturas de classe das famílias
portuenses: classses sociais e modalidades de estilização da vida na cidade do
Porto. Porto: Afrontamento, 2005.
[38] Bennett, Tony e outros. Culture, class, distinction. Londres: Routledge, 2009. Para uma discussão ampliada desse livro e das
repercussões, dos desdobramentos e das tentativas de refutação de A
distinçãofora da França, ver Duval, Julien. "Distinction studies". Actes de la
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[39] Lareau, Annette. Unequal childhoods: class, race, and family life.
Berkeley: University of California Press, 2003.
[40] Eyal, Gil; Szelényi, Ivan e Townsley, Eleanor. Making capitalism without
capitalists: the new ruling elites in Eastern Europe.Londres: Verso, 1998. O impacto de Bourdieu na pesquisa americana é, simultaneamente,
registrado e neutralizado em Lareau, Annette e Conley, Dalton (orgs.). Social
class: how does it work?Nova York: Russell Sage Foundation,
2010.
[41] Rosenlund, Lennart. Exploring the city with Bourdieu: applying Bourdieu's
approach and analytic framework. Berlim: vdm, 2009. Discuto a
contribuição de Rosenlund à extensão empírica e internacional do modelo de
classe de Bourdieu em Wacquant, Loïc. "Norwegian distinctions". Sosiologisk
årbok/Yearbook of Sociology,6(2), 2001, pp. 27- 32
(reimpresso como prefácio ao seu livro). Isso é complementado por um rico
conjunto de pesquisas sobre as classes altas escandinavas, conduzido por
equipes lideradas por Johs Hjellbrekke, na Noruega, e Annick Prieur, na
Dinamarca. Ver, à guisa de ilustração, Hjellbrekke, Johs e outros. "The
Norwegian field of power anno 2000". European Societies9(7), 2007, pp. 245- 273, e Prieur, Annick; Skjøtt-Larsen, Jakob e Rosenlund,
Lennart. "Cultural capital today: a case study from Denmark". Poetics,36(1),
2008, pp. 45- 70.
[42] Para incursões e manobras provocativas nessa direção, esboçando os amplos
contornos de um paradigma que emerge da "formação de grupos", ver Noiriel,
Gérard. La tyrannie du national. Paris: Calmann-Lévy, 1991;
Brubaker, Rogers. Ethnicity without groups. Cambridge: Harvard University
Press, 2005; Calhoun, Craig J. Nations matter: culture,
history and the cosmopolitan dream. Nova York: Routledge,
2007; DaCosta, Kimberly McClan. Making multiracials: state, family, and market
in the redrawing of the color line. Stanford: Stanford University Press, 2007; Weiß, Anja. Rassismus wider Willen. Ein anderer Blick
auf eine Struktur sozialer Ungleichheit. Opladen: vsa, 2012,
e Wimmer, Andreas. Ethnic boundary-making: institutions, power, networks. Nova
York: Oxford University Press, 2012.
[43] Bourdieu, P. Algérie 1960: structures économiques et structures
temporelles. Paris: Éditions de Minuit, 1977. Bourdieu, P. Un
art moyen: essai sur les usages sociaux de la photographie. Paris: Éditions de
Minuit, 1965; Bourdieu, P. Les structures sociales de
l'économie. Paris: Seuil, 2000. [Ed. port.: As estruturas
sociais da economia. Lisboa: Instituto Piaget, 2001.]
[44] "Essas lutas simbólicas ' tanto as lutas individuais da vida cotidiana
quanto as lutas coletivas e organizadas da vida política ' encerram lógicas
específicas, que lhes conferem uma real autonomia em relação às estruturas nas
quais estão enraizadas. [...] Assim, podemos agora examinar sob que condições
um poder simbólico pode se tornar um poder constitutivo, tomando o termo
constituição, com Dewey, quer em seu sentido filosófico, quer em seu sentido
político, isto é, um poder para conservar ou transformar os princípios
objetivos de união e separação, casamento e divórcio, associação e dissociação,
em ação no mundo social, o poder para conservar ou transformar as
classificações existentes em matéria de sexo, nação, região, idade e status
social, e para fazer isso através das palavras usadas para designar ou
descrever indivíduos, grupos ou instituições". In: Bourdieu, Pierre. Choses
dites. Paris: Minuit, 1987, pp. 160, 163.
[45] Bourdieu, Pierre. Leçon sur la leçon. Paris: Minuit, 1982, p. 14. Brubaker foi o primeiro a detectar essa tensão (ou
deslizamento) no uso que Bourdieu confere à classe como um conceito específico
ou uma categoria genérica (Brubaker, R. "Rethinking classical teory: the
sociological vision of Pierre Bourdieu". Theory & Society,14, 1985, pp.
745- 775).
[46] Ver o artigo "Effet de champ et effet de corps". Actes de la Recherche en
Sciences Sociales,59, 1985, p. 73.
[47] Bourdieu, Pierre. "A contre-pente: entretien avec Philippe Mangeot".
Vacarme,19, jan. 2001, pp. 4- 14.
[48] Com base em Delsaut, Yvette e Rivière, Marie-Christine. Bibliographie des
travaux de Pierre Bourdieu. Pantin: Le Temps des Cerises,
2011.