De Anita à academia: para repensar a história da arte no Brasil
Em Mocidade morta, de Gonzaga-Duque, publicado originalmente em 1900 - e cuja
trama se passa no final do século XIX - o autor descreve Silviano, um
personagem misto de romancista, músico e pintor:
Era um nada rouco, precipitava as palavras, salivando, de instante a
instante, os lábios com a ponta da língua. Depois de negociar o seu
quadro histórico, dedicava-se à última demão dum romance, Nha Cotinha
[...]. Silviano tinha um grande orgulho de seus méritos literários,
ainda mais que do seu laureado diletantismo musical, e esse livro
prometido enchia-o de presunção, porque lhe parecia o início duma era
regeneradora da literatura pátria [...]. O seu apego ao nativismo era
ferrenho e feroz. Nos seus quadros históricos a preocupação
nacionalista esbarrava com exageros irrisórios. Em Poncho verde, que
a meia voz pública comparava a um cromo de barraca, ele colorira com
vermelhão e ocre uma cabocla nua, sobraçando imenso balaio de
ananases e cambucás, no intuito de abrasileirar a cena numa pretensa
alegoria à uberdade do solo, que voltava ao laborar das enxadas com a
paz entre Farrapos e Monarquistas![...]1.
Silviano, inexpressivo no enredo, serviu de instrumento para o autor
caracterizar sua visão negativa do ambiente artístico carioca de então.
Silviano evidencia a figura do artista nacionalista, crente na necessidade de
abrasileirara arte aqui produzida, não se negando a introduzir numa pintura
histórica, uma alegoria da terra brasileira, figurada como uma cabocla sensual
segurando uma cesta de frutas.
Ao que se sabe, durante o século XIX não foi realizada nenhuma pintura na qual
se percebam semelhanças com a "cabocla", de Silviano. Para conceber aquela
imagem, Gonzaga-Duque deve ter partido da existência, no ambiente carioca, de
um desejo de brasilidade por parte de artistas e intelectuais da época. Assim,
o leitor de Mocidade mortanão se lembraria de nenhuma pintura produzida no
século XIX passível de ser comparada à descrição de Gonzaga-Duque2. No entanto,
é surpreendente que na exposição protagonizada por Anita Malfatti, inaugurada
em dezembro de 1917, a artista tenha apresentado uma obra, hoje pertencente à
Pinacoteca do Estado de São Paulo, em que se observa uma mulher sobraçando um
balaio com frutas típicas, frente a um fundo de vegetação tropical. Apesar da
deformação da figura, que obedece aos limites concretos da tela, distinguem-se
pistas de sua origem étnica: uma mulata ou uma cabocla. É possível descrever,
da mesma maneira, as frutas que ela carrega no balaio.
Seu título foi divulgado na época como Negra baiana3. Quando, porém, ingressa
na Pinacoteca, em1929, a tela passou a ser chamada Tropical.
Em palestra sobre a obra, realizada naquela instituição em 2003, ao discutir a
mudança de seu nome, identifiquei tal fenômeno como um índice de
institucionalização do Modernismo: à entrada da primeira obra da "mártir" do
movimento num museu público, a pintura deixaria suas ligações com o naturalismo
- afinal, Negra baianasugere um compromisso com a descrição -, para assumir uma
dimensão alegórica. O título Tropicalretiraria da obra as conotações com o
típico para assumir um grau de exemplaridade que transcenderia qualquer
circunstância mais precisa, projetando-a para a alegoria do próprio conceito de
Trópico (o Trópico de Capricórnio).
Tal concepção alegórica, por sua vez, a associa diretamente à descrição da
pintura feita por Gonzaga-Duque em seu romance. A "cabocla" de Malfatti
sobraçando o balaio é uma alegoria do Brasil, paraíso tropical cujos frutos se
apresentam para serem colhidos em um ato prazeroso. Por consequência, a opção
pelo título Tropicalpode ser entendida como uma demonstração de como o
Modernismo, em seu processo de institucionalização, não se esquivava de um viés
conservador, ligado à tradição alegórica da pintura ocidental, escolhendo um
título mais de acordo com a tradição que ele supostamente negava.
Tempos depois, continuando as investigações sobre o Modernismo, deparei-me com
uma nota de jornal em que a obra, em 1917, também era intitulada Tropical4.
Esse achado reafirmou algo que busco comprovar: desde o início o Modernismo
respondia não apenas a demandas externas, no sentido de uma renovação formal da
arte local, mas, sobretudo, procurava dar conta das demandas do debate
artístico brasileiro que vinham desde o século XIX5. Entre elas estaria a
ênfase em produções de caráter alegórico, comprometidas com temáticas que
projetassem imagens ideais do Brasil ou de uma brasilidade "imanente".
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Com os títulos Negra baianae Tropical, os modernistas oscilavam entre enfatizar
o caráter regionalista da pintura - o que os associaria ao naturalismo
nacionalista que lhes antecedera (e do qual queriam distância) -, ou assumir o
caráter alegórico contido na obra - o que outorgaria a ela uma dimensão mais
transcendente de "grande arte", levando-a para uma tradição pictórica ainda
anterior ao naturalismo (a arte mais conservadora das academias)6. A partir
dessa indefinição inicial, nota-se que o Modernismo estava preso a questões
surgidas no debate sobre arte brasileira do século XIX: como constituir uma
arte brasileira com atributos próprios e definidores de sua origem? Por meio de
uma produção obediente aos "mestres do passado" (como queria a antiga Academia
Imperial), ou mantendo-se fiel à captação do entorno local (como desejavam os
partidários do naturalismo na arte)?7.
Analisados os aspectos estilísticos trabalhados por Malfatti em Tropical,
parece que na própria resolução formal da obra ela oscilou entre aqueles dois
polos, dando ensejo, portanto, à dificuldade em assumir um dos dois títulos
propostos: o cesto de frutas, no primeiro plano, está trabalhado dentro de uma
objetividade próxima do naturalismo. Já a figura da mulher, no plano
intermediário, obedece aos rigores de um realismo sintético, "clássico",
conectado à parcela da arte internacional da época8, embora mantivesse certas
características "típicas" (a cor da pele, os traços faciais etc.)
Responder positivamente à necessidade de criação de uma arte nacional, pautada
na caracterização de figuras alegóricas, não foi um compromisso apenas de
Malfatti. Ele será encontrado também em outras obras que, apesar de
incorporarem soluções formais ligadas às vanguardas europeias, ainda perseguiam
a necessidade de caracterizar imagens alegóricas do Brasil e do brasileiro.
Nesse sentido, elas estariam igualmente sujeitas a emparelhamentos com a
cabocla nua da obra imaginada por Gonzaga-Duque.
***
Vendedor de frutas, de Tarsila do Amaral9, de 1925, apresenta a figura de um
mulato sobraçando um balaio com frutos acompanhado de um pássaro tropical. Essa
figura, que no centro da composição emerge das águas como uma Vênus
masculinizada, traz consigo os elementos considerados os mais preciosos do
país: sua gente morena (o próprio mulato), a flora e a fauna.
Nota-se ali uma oscilação semelhante àquela percebida em Tropical: Tarsila
atenua o caráter planar da pintura, a partir de referências à volumetria, ao
ambiente praieiro do Brasil e à etnia do mulato. Este último, no entanto,
trabalhado de forma sintética, possui elementos indicativos precisos (e um
tanto caricaturais, diga-se de passagem) de ser fruto do "caldeirão de raças"
que é o Brasil. Afinal, é uma figura de lábios negroides e olhos azuis.
Vendedor de frutasé uma pintura moderna porque adota o primitivismo modernista
tão propalado na Europa. Mas é uma alegoria do Brasil e do brasileiro,
celebrando de forma ufanista a vida em um paraíso tropical, onde os frutos da
terra brotam em profusão, cabendo ao homem apenas colhê -los.
Preocupação semelhante de enaltecer a fecundidade da terra brasileira é
percebida em outras obras de Tarsila, como A feira, de 1925, e Manacá, de
192710. Nelas, a estrutura moderna - base planar, resolvida por meio de
horizontais e verticais que "seguram" as figuras - está subordinada à
necessidade de descrever o Brasil, suas peculiaridades "eternas" diante da
modernidade sempre em trânsito do século XX.
Na produção de Di Cavalcanti também é notável a quantidade de alegorias,
elaboradas a partir das mesmas mesclas que marcaram parte das produções de
Malfatti e Tarsila. Se forem tomadas obras de 1925, como Sambae Cinco moças de
Guaratinguetá11, a síntese formal e mesmo a ironia presente na segunda obra
(que relê Le demoiselles d'Avignon, de Picasso) não ocultam a necessidade de
glorificar a miscigenação racial brasileira por meio da descrição dos tons de
pele das figuras, por exemplo, e a ligação desses mestiços com a terra.
Essas questões se arrastarão por toda a sua trajetória, como em duas obras dos
anos de 1930, Três raçase Nu deitado12. Nessa última - concebida a partir do
posicionamento reclinado da figura, que remonta à grande tradição da arte
ocidental -, Di associa a mulher à terra que a acolhe e de onde parece emergir
tanto pelo uso de uma mesma cor, que encobre quase toda a pintura, como pelas
curvas da modelo que ressoam pela paisagem.
Mesmo numa obra que já anuncia o declínio irremediável do artista,
Pescadores13, de 1951, a alegoria do Brasil, do caráter pródigo da terra e da
água brasileiras consubstancia-se e estabelece o reencontro modernista com a
cabocla nua, carregando o balaio com frutas tropicais, evocada por Gonzaga-
Duque. Apesar de certas soluções formais superficialmente modernas, Di produz
um casal de mulatos atrás dos frutos do mar e da terra. Ao fundo, mas no centro
da pintura, uma baiana carrega um balaio (com abacaxis e cambucás?) tendo, mais
ao fundo, a calma paisagem local que remete o observador ao fundo de Vendedor
de frutas, de Tarsila.
***
Em Café14, obra produzida por Candido Portinari em 1935, a cabocla - agora uma
colona - aparece no canto inferior esquerdo da composição em meio perfil.
Identificada com a terra que a sustenta, contempla a natureza brasileira sendo
transformada pelo trabalho. O balaio tornou-se a própria terra cultivada e os
frutos, antes colhidos tenros diretamente da natureza, são o resultado do
consórcio entre a terra do Brasil e seus trabalhadores.
Portinari foi o pintor que melhor respondeu às demandas do Modernismo durante o
período em que atrela às questões míticas, típicas do século XIX, os problemas
sociais. Preocupado em identificar o brasileiro com o trabalhador, Portinari
confere a esse um caráter heroico. Para tanto, absorveu as maneiras pictóricas
do passado. Seu vocabulário unia sem constrangimentos (aliás, como vários de
seus colegas europeus) ensinamentos vindos da grande tradição da pintura
europeia a certos estilemas absorvidos das vanguardas históricas15.
Em Café,o artista enfatiza o caráter hierático das figuras - muito a gosto do
"retorno à ordem" - e, ao mesmo tempo, vale-se de soluções extraídas de um
entendimento talvez pouco efetivo do expressionismo histórico, perceptível nos
lábios das figuras masculinas, bastante pronunciados, quase caricaturais,
próximos da solução encontrada para o mesmo elemento facial do Vendedor de
frutas, de Tarsila. Em O lavrador de café16, de 1939, a terra cultivada e arada
segue de não muito longe a grande tradição da pintura italiana do início do
Renascimento. Já a figura do lavrador, ao mesmo tempo em que busca sua
referência no caráter monumental dos camponeses de Millet, apresenta um
tratamento sintético (o corpo) e descritivo, (sobretudo no detalhamento da
cabeça). Notável a oscilação não muito distante daquelas percebidas nas obras
de Malfatti e de Tarsila aqui comentadas.
Assim como Café , O lavrador brasileironão deixa de ser outra alegoria da
fertilidade da terra do país, agora não mais fazendo brotar flores e frutos,
mas configurando-se como natureza tornada cultura, após a derrubada a vegetação
virgem (convém reparar no tronco de árvore atrás da figura com a enxada) e
semeada a terra pelo trabalhador17.
***
Voltando ao texto de Gonzaga-Duque, outro problema se apresenta: mesmo que não
se conheça nenhuma pintura produzida no Brasil no século XIX que se aproxime
daquela criada por ele, é possível pensar em alegorias da terra brasileira, ou
do trabalhador brasileiro na produção artística do século XIX?
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O lavrador brasileiroremete a O derrubador brasileiro18, de Almeida Jr., de
1871. Nessa tela, o desmatamento da terra virgem para a implantação do
progresso assume, inclusive, tons de erotismo, já salientados por outro
autor19. Na parte superior esquerda da tela, como uma fêmea, a terra brasileira
surge abatida, "derrubada" pelo caboclo no primeiro plano que, cansado, fuma
encostado em uma rocha. Ao seu lado, à esquerda, jorra a fonte, símbolo
tradicional da origem da vida.
A carioca20, de Pedro Américo, de 1882, é outra alegoria do Brasil, em que a
fonte também aparece simbolizando a origem da nação. No entanto, se em O
derrubador brasileironota-se o casamento entre natureza (a fonte como símbolo
do feminino) e cultura (o caboclo e o machado inerte como símbolos do
masculino), na pintura de Pedro Américo o simbolismo da fonte é reiterado pela
figura da ninfa que, não se sabe ao certo se sentou à beira d' água para
banhar-se ou se dela saiu para desembaraçar os cabelos.
Outras pinturas do século XIX poderiam ser arroladas como exemplo de alegorias
do Brasil e do brasileiro. Mesmo excetuando todo o conjunto de retratos da
família imperial brasileira - símbolos por excelência do Brasil que, dispostos
em composições específicas, as transformam em eloquentes alegorias do país21 -,
poderiam ser lembradas pinturas de Victor Meirelles, Rodolfo Amoedo e outros.
No entanto, para a argumentação proposta aqui, creio que as obras já comentadas
são suficientes para demonstrar os pontos de conexão entre a arte do Modernismo
e parte daquela que a precedeu.
***
Quem revolver a produção pictórica brasileira, entre a primeira metade do
século XIX e o final dos anos de 1940, se defrontará com outras alegorias da
terra e da nação brasileiras. Se nesse período surgiram individualidades que se
manifestaram isoladamente e longe das demandas do nacionalismo (Castagneto,
Goeldi, Flávio de Carvalho e poucos outros), elas foram exceções. Uma das
regras que caracterizou parte da arte produzida no país durante o período foi a
manutenção dessas projeções de imagens alegóricas do Brasil.
Refletindo sobre essas evidências, chega-se à conclusão de que elas, se não
rompem de vez com o que foi ensinado sobre a oposição entre "Modernismo" e a
"arte acadêmica"22 que o antecedeu, pelo menos atenuam em muitos aspectos a
imagem de vertentes artísticas antípodas. Nesse sentido é imprescindível
empreender uma revisão dos estudos que cristalizaram essa visão dicotômica
entre as duas correntes, para reposicionar a produção artística do período,
salientando a necessidade de novas pesquisas que não mais apenas enfatizem as
diferenças tópicas entre ambas, mas, pelo contrário, sublinhem o que teriam em
comum.
Apesar das diferenças no uso de estilemas oriundos dos movimentos das
vanguardas do início do século XX, ainda que atenuados, o Modernismo manteve-se
cúmplice de um projeto de constituição de uma arte brasileira "típica" que se
desenvolveu no Brasil já a partir das primeiras manifestações pictóricas que
tinham como modelo Dom João VI23.
Amalgamada pelo desejo de constituição de uma arte brasileira que explicitasse
índices precisos de nacionalidade, grande parte da produção local, entre as
primeiras décadas do século XIX e o final da primeira metade do século passado,
sofreu modificações apenas tópicas, uma vez que manteve um compromisso
insuperável durante todo esse período: a partir do uso estratégico de
alegorias, criar uma arte com índices claros de sua origem nacional. Nesse
sentido, o caráter experimental que singularizou as vanguardas históricas
internacionais, quando absorvido pelos pintores brasileiros da primeira metade
do século XX, foi subjugado ao compromisso apontado acima.
As vertentes cubistas, futuristas, expressionistas etc., quando trazidas para o
Brasil, de forma geral foram transformadas em "estilos modernos" e
instrumentalizadas para que a produção de determinados artistas fossem
caracterizadas como "modernas" - embora mantivessem o compromisso anterior de
glorificar o Brasil ou o "povo" por meio de alegorias.
Esta situação, por sua vez, explicaria a não adesão, por parte dos artistas
brasileiros, às pesquisas ligadas à não-figuração e a consequente convicção de
que qualquer manifestação artística no país devia estar pautada na mimese.
A fidelidade à mimese, por sua vez, explicaria também o fato de não ter havido
uma pronta desvinculação de muitos críticos brasileiros do axioma
"arte=mimese", o que permitiu a manutenção do entendimento de que a arte local
só seria constituída se materializasse imagens precisas de "brasilidade".
***
Monteiro Lobato, após o texto sobre a exposição protagonizada por Malfatti, em
191724, diminui a verve naturalista/nacionalista de sua crítica de arte que até
então a caracterizara25. Em vez de continuar insistindo na divulgação do
naturalismo, ele se interessa por produções mais conservadoras. Essa nova
postura fica clara no texto que escreveu sobre o pintor Pedro Alexandrino
Borges - que, até então, indiretamente ridicularizava -, alçando-o ao posto de
exemplo para os novos artistas. Lobato induz os jovens pintores a tomar o
conservador Alexandrino como exemplo, ao aconselhar:
Frequentai P. Alexandrino, aprendei com ele a fazer da arte uma
religião, tomai como norma de via moral a sua simplicidade
encantadora; como norma de vida mental o seu ódio a tudo o que é
falso, charlatanesco, burlesco, vila-marianesco, Kyrialesco, idiota,
cúbico ou futurístico, e o seu amor à verdade e à sinceridade
[...]26.
O que significaria o "amorà verdade e àsinceridade", anão ser a fidelidade de
Alexandrino à mimese?27. Diante desta ameaça que pensava representar as
propostas de Anita Malfatti, de suas colegas e seu professor (também
representados na exposição de 1917), Lobato percebiaque os "inimigos" não eram
propriamente os "acadêmicos", como Alexandrino. Afinal, eles, apesar de
produzirem uma arte idealizada e distante da "verdade" local, assemelhavam-se
aos naturalistas por acreditarem que afunção do artista eramanter a
arteaderidadiretaou indiretamente ao real. "Inimigos" eram Malfatti e sua
ascendência porque produziam uma arte supostamente desvinculada de compromissos
com a mimese. Preso às suas convicções, Lobato não percebia que Malfatti já
naquele momento abandonava qualquer radicalismo "cúbico" ou "futurístico", para
encetar o seu próprio "retorno à ordem"28.
Citar Lobato para provar a manutenção dos postulados miméticos na arte
brasileira do início do século XX poderia não ser a melhor estratégia de
argumentação. Afinal, ele seria um "pré -modernista" e estaria, portanto,
ligado a pressupostos da estética do século XIX. Para dissipar o problema,
recorro a outro crítico, efetivamente identificado com o Modernismo: Mario de
Andrade.
Vários seriam os exemplos da aderência de Andrade aos postulados de uma arte
que, mesmo atenta à síntese da forma e à deformação expressiva, devia manter-se
fiel ao referente e à necessidade de constituição de uma "plásticanacional".
Porém, apenas dois de seus textos explicitarão tal compromisso. O primeiro é o
trecho de uma carta que escreveu para Tarsila do Amaral, quando ela estava em
Paris, em 1923: "Creio que não cairás no cubismo. Aproveite deste apenas os
ensinamentos. Equilíbrio, Construção, Sobriedade. Cuidado com o abstrato. A
pintura tem campo próprio [...] "29. O segundo é um texto do autor sobre
Candido Portinari, de 1940:
Portinari se fez realista [...]. Uma espécie de realismo moral,
franco, forte, sadio, de um otimismo dominador [...]. Portinari, sob
o signo dos Antigos em que se colocou, ao mesmo tempo que pode
conservar uma calma, um equilíbrio, uma temática que nada têm de
literários, e são exclusivamente plásticos, soube dar umaesperança
aomundo. [...]O seurealismo, siéotimista, não é sonharento. É um
realismo apenas muito sadio e dinâmico. Eu gosto dessas mulheres
suaves e fortes, brasileiras, brasileiríssimas de tipo, boas como
minha mãe. Não tenho o menor medo de gostar. Eu gosto desses machos
rudes de trabalho, olhe-se a mão em afresco. Isso é mão dura mas
nobre, mão beijável [...]30.
A advertência contida na carta era para que a pintora absorvesse o que de
"clássico" existia no cubismo, sem, no entanto, abandonar a fidelidade ao
referente31. Por outro lado, é nítido que a argumentação de Andrade em prol da
obra de Portinari está repleta de uma crença absoluta na importância da mimese
como estratégia para garantir o "brasileirismo" requerido para a arte local.
Garantida a permanência da mimese, a produção de alegorias do Brasil também
estaria assegurada.
***
A escolha de Lobato e Mario de Andrade para demonstrar que, quando se trata da
manutenção de valores nacionais na arte produzida no Brasil, "acadêmicos" e
"modernistas" tendiam a se unir não é gratuita. Dentro da tradição dos estudos
sobre o Modernismo é notável como Lobato é considerado o porta-voz das
correntes mais reacionárias no campo da arte e da cultura no Brasil, e Andrade,
um dos exemplos de uma atitude renovadora dentro daquele contexto32. Apontar o
quanto eles possuíam em comum, em se tratando de questões ligadas à arte, é
demonstrar que, apesar das diferenças, a crença na mimese e na necessidade de
projeção de imagens ideais do Brasil e do brasileiro eram fatores que os uniam,
atenuando muito as diferenças.
Além de Lobato e Andrade, existem outros exemplos dessa manutenção de valores
conservadores no âmbito da crítica de arte local. Poderiam ser elencados outros
críticos que, surgidos no mesmo período, ou na sequência, repisavam princípios
comprometidos com o "desejo de uma arte nacional", comprometimento que podia se
manifestar, se não pela opção por "alegorias do Brasil", pelo menos por uma
arte "espontânea", "típica" ou "sensível", em oposição à suposta rigidez de
certas formulações "estrangeiras" que "invadiam" o território da arte
brasileira33.
***
Não é sem dificuldade que se enfrenta as evidências a respeito dos pontos de
contato entre a arte "acadêmica" e "modernista". Um dos principais obstáculos é
, em grande parte, a maneira como é dividida a história da arte local. Se para
o início de uma análise sobre a historiografia geral da arte brasileira for
tomado como paradigma o livro de Gonzaga-Duque, A arte brasileira34, será visto
que o autor divide a produção do país em antes e depois da criação da Academia
Imperial de Belas Artes do Rio de Janeiro. Publicado em 1888, a obra toma como
ponto inicial da arte local a produção do período colonial e como ponto final o
próprio período em que foi publicada.
Se dermos um salto de praticamente um século, encontraremos em 1983 o que é até
hoje o principal manual de história da arte publicado no Brasil: História geral
da arte no Brasil, organizado por Walter Zanini35.
Nesta obra foram publicados ensaios específicos sobre determinadas questões que
até então haviam tido pouca ressonância fora dos círculos universitários.
Refiro-me aos ensaios: "A arte do período pré -colonial", de Ulpiano Bezerra de
Menezes; "Arte índia", de Darcy Ribeiro; "Art-Noveau, modernismo, ecletismo e
industrialismo", de Flávio L. Motta; "Arquitetura contemporânea", de Carlos
Lemos; "Fotografia", de Boris Kossoy; "Desenho industrial", de Julio Roberto
Katinsky; "Comunicação visual", de Alexandre Wollner; "Arte afro-brasileira",
de Mariano Carneiro da Cunha; "Artesanato", de Vicente Salles; "Arte educação",
de Ana Mae Barbosa; "O século XVII e o Brasil holandês", de José Luis Mota
Menezes; e "Os pintores de Nassau", de José Roberto Teixeira Leite. Como
mencionado, esses ensaios singularizam positivamente a publicação. Com eles
História geraltornou-se um marco editorial na área.
Apesar da importância inegável dessa publicação, no entanto, História
geralcaracterizava-se por manter grosso modoa mesma divisão cronológica
proposta antes por Gonzaga-Duque, repetindo o esquema da obra anterior: no
centro, a arte do século XIX; à "esquerda", a produção colonial; à "direita", a
arte contemporânea. Mesmo os preciosos ensaios específicos ali incluídos
submeteram-se a esse eixo ordenador.
Não caberia aqui realizar uma resenha tardia do livro publicado em 1983, mas
dada a sua extrema importância é fundamental estabelecer algumas considerações,
no intuito de alicerçar os argumentos que ainda virão.
Se Gonzaga-Duque dividia a arte brasileira em "Manifestação" (período colonial
até a chegada da Missão Artística Francesa, em 1816, e a partida de Debret em
1831), "Movimento" (da partida de Debret, em 1831, até 1870) e "Progresso"
(período contemporâneo ao autor), a proposta arquitetada para História
geralmanteve o mesmo caráter cronológico e, como a obra anterior, permaneceu
centrada na supremacia das manifestações de origem europeias no país. Como é
possível observar pela leitura da sequência adotada para os ensaios em História
geral, tanto a arte indígena como a afro-brasileira, assim como a arte de cunho
popular, estão circunscritas a ensaios específicos, demonstrando o suposto
isolamento dessas expressões em relação às manifestações da arte "europeia"36.
Por outro lado, seu viés cronológico não problematiza suficientemente as
passagens entre os diversos períodos da arte local. Esse fato torna-se mais
preocupante sobretudo quando não enfatiza os pontos de conciliação entre a arte
praticada no século XIX e aquela da primeira metade do século XX, assim como os
pontos de contraste entre parcela significativa da produção da primeira metade
do século XX e aquela do período posterior.
Se excetuarmos os ensaios já citados que distinguem História geral, veremos que
o que o difere do livro de 1888 é o seguinte: em A arte brasileira, o período
"Progresso", que abarcava a produção dos anos de 1870 aos anos de 1880, é
substituído em História geralpelo segmento "Arte contemporânea", e o período em
destaque passa a ser aquele compreendido entre 1922 e a década de 1980. Pela
falta de estudos mais aprofundados sobre a historiografia artística brasileira,
talvez seja impossível entender a submissão à cronologia instituída por
Gonzaga-Duque, persistente não apenas em História geral, mas também em outros
manuais de história geral da arte no Brasil37.
Refletindo sobre esse deslocamento tem-se a impressão de que a Semana de 1922 e
seus antecedentes imediatos tiveram tão grande impacto na cena artística
brasileira que durante as décadas seguintes não teria havido nenhum outro
momento capaz de quebrar os efeitos de seu choque inicial. Tanto isso parece
verdade que em História geralo Modernismo e a arte do pós-guerra são associados
dentro dessa única rubrica: arte contemporânea.
Esta configuração de História geraldemonstra que, como o livro de Gonzaga-
Duque, a obra pauta sua compreensão da história da arte no Brasil em fatos
extra-artísticos, pouco se valendo da análise das obras, o que permitiria
trazer outras possibilidades de interpretação da arte no país. História
geralsubmete-se, portanto, ao paradigma de A arte brasileira, ao aceitar
tacitamente a implantação da Academia Imperial de Belas Artes do Rio de Janeiro
como elemento deflagrador de uma nova situação. E inova em relação à obra de
1888 apenas quando desloca o início da "Arte contemporânea", de 1870 para 1922.
Porém, a partir desse ponto, nenhum grupo de obras e nenhum outro episódio
teriam sido capazes de romper o relato iniciado com o Modernismo de 1922, como
se tudo de contemporâneo na arte brasileira do século passado tivesse dependido
direta ou indiretamente daquele movimento.
É interessante que para a maioria dos leitores de História geralé natural que
assim se divida a arte brasileira. Afinal, fomos formados dentro dessa crença.
No entanto, se aqueles pontos de contato entre certas pinturas modernistas e
certas pinturas do século XIX, acima mencionados, forem levados em
consideração, percebe-se que essa cronologia expandida da arte local, que
apresenta a chegada da Missão e a Semana de Arte Moderna de 1922 como marcos
definitivos das transformações da arte nacional, é um constructo passível de
revisão.
***
Segundo se apreende da maioria dos estudos gerais sobre arte no Brasil, a
instauração da Academia Imperial de Belas Artes no Rio de Janeiro (sob a
responsabilidade dos artistas franceses da Missão) teria rompido com os
paradigmas artísticos sedimentados no Brasil durante o período colonial,
quebrando um processo que já adquirira foros de originalidade ao colocar sobre
a arte colonial, em movimento de consolidação, procedimentos exógenos que logo
se cristalizaram. Esta situação, por sua vez, teria sido rompida pelo
Modernismo que eclodira em São Paulo. Os episódios que simbolizariam esse corte
com a tradição imposta no século XIX seriam ora a exposição protagonizada por
Anita Malfatti, em dezembro de 1917, ora a Semana de Arte Moderna de 1922,
ocorrida no Teatro Municipal de São Paulo em fevereiro daquele ano.
Segundo tal periodização, o Modernismo teria reintroduzido certas
singularidades provenientes da arte aqui produzida durante a Colônia. Ao mesmo
tempo em que atualizava o pensamento artístico nacional, colocando-o a par do
que ocorria, sobretudo na Europa, ele teria "reabrasileirado" a arte levada a
cabo no Brasil. Essa periodização, que impõe três momentos para a arte
brasileira - arte colonial, arte acadêmica e arte do Modernismo de 1922 -,
surgiu embrionariamente no artigo "Convalescença", de Mario de Andrade:
Há de fato em nossofuturismo quebra de evolução brasileira. É que,
coisa mil vezes dita, durante quase século com vários lustros de
atraso, fomos uma sombra de França. Sombra doirada. Sempre sombra.
Nós, os modernistas, quebramos a natural evolução. Saltamos os
lustros de atraso. Apagamos a sombra. Mas somos hoje a voz brasileira
do coro "1923", em que entram todas as nações. Poderia documentá -lo.
E por isso a solução de continuidade na tradição artística
brasileira. Nem o grande Cruz e Souza e um ou outro decadentes
simbolista, bastam para justificar nosso presente. Há , confesso, uma
quebra pela qual, aos vesgos, somos chocantes e aparentemente
exagerados. Como do academismo e Impressionismo anafados evolucionar
para Anita Malfatti, num país onde não ecoaram as pesquisas de
Seurat, van Gogh, Cézanne? Como de Bernardelli evolver para
Brecheret, sem Metzner [sic], Milles, Mestrovic? Hiato. E a grita
aflita das araras. Será preciso noutros países buscar nossa evolução.
Mas em por isso deixamos de ser a voz brasileira no movimento que
hoje se desenha universal [...]38.
Como se percebe, o autor insinua que o Modernismo teria restaurado a
brasilidade do período colonial brasileiro, sufocado pelo "academismo e
impressionismo anafados" da arte aqui produzida durante o século XIX. Partindo
da convicção de que o Modernismo é um fator de "continuidade na tradição
artística brasileira", entende-se então que o crítico divide a produção
artística e intelectual local em três grandes períodos: arte colonial, arte
"acadêmica" do século XIX e o Modernismo (este último buscando a suposta
essência da brasilidade na arte colonial do país).
Tal periodização, que até o presente recebeu a aceitação tácita da maioria das
correntes de pensamento envolvidas no debate artístico brasileiro39, torna-se
frágil, no entanto, quando confrontada a fenômenos ocorridos no âmbito da arte
local, como aquele tratado na primeira parte deste texto. Impossível estudar,
por seu intermédio, a manutenção de certas práticas ou de certas atitudes
perante a arte que perduraram na cena brasileira por décadas, independentemente
de eventos de caráter mundano-cultural, como foi a Semana. Estruturalmente
frágil, esse esquema não aponta perspectivas, explicitando sua impotência
diante de questões mais complexas que deveria abarcar.
***
Por não existir material bibliográfico que contemple a necessidade de se pensar
a arte local como um fenômeno complexo em sua dimensão estético-ideológica fora
dos esquemas aqui explicitados, é lícito recorrer a outras áreas da produção
intelectual, para delas extrair balizas para pensar os problemas levantados.
Mesmo que haja cuidado para não se distanciar das especificidades do discurso
plástico, de sua potência para fazer emergir novas interpretações sobre a arte
e a trama social que a caracteriza e que, ao mesmo tempo, ela ajuda a formar,
esta estratégia pode trazer resultados no sentido da criação de outros
paradigmas para se pensar a arte brasileira durante período proposto.
Para a elaboração das questões que concluirão este texto tomo como base
Formação da literatura brasileira: momentos decisivos, de Antonio Candido40,
por entender que os pressupostos por ele levantados para refletir sobre a
formação do sistema literário brasileiro podem ajudar no que me proponho
apresentar.
Para o primeiro amadurecimento dessas ideias foram igualmente fundamentais
alguns autores que, embora distanciados de um compromisso direto com a história
da arte no Brasil, trazem subsídios importantes para uma história da arte que
se faz urgente no país. Refiro-me a autores ligados à história da arte
entendida como história da cultura, como Ernst H. Gombrich, e à sociologia da
arte, como Pierre Francastel, os quais, embora citados entre nós, vêm sendo
pouco utilizados pelos estudiosos como subsídios para uma reflexão renovada
sobre a história da arte praticada no Brasil41.
***
Antonio Candido faz uma distinção do que seriam "manifestações literárias" e
"literatura propriamente dita", entendendo essa última como um conjunto de
obras conectadas por denominadores comuns:
Estes denominadores são, além das características internas (língua,
temas, imagens), certos elementos de natureza social e psíquica,
embora literariamente organizados, que se manifestam historicamente e
fazem da literatura aspecto orgânico da civilização. Entre eles se
distinguem: a existência de um conjunto de produtores literários,
mais ou menos conscientes do seu papel; um conjunto de receptores,
formando os diferentes tipos de público, sem os quais a obra não
vive; um mecanismo transmissor, (de modo geral, uma linguagem,
traduzida em estilos), que liga uns a outros [...]42.
Na historiografia artística local, desde o século XIX são produzidos artigos,
ensaios e estudos sobre determinados artistas em que os autores insistem em
forjar suas considerações a partir de uma pretensa genialidade do artista
estudado, da qual estaria excluída qualquer relação mais clara de sua produção
com o sistema artístico local. Quando não se sentem satisfeitos apenas com uma
abordagem de cunho biográfico, tentam ressaltar justamente a originalidade do
artista em relação à tradição da qual ele supostamente se destacaria, sem
nenhum esforço para caracterizar essa última de forma efetiva. Assim, de
maneira geral, temos estudos que, seguindo as conceituações de Antonio Candido,
estariam preocupados em ressaltar mais as manifestações artísticaspautadas por
um voluntarismo genial do que a reconhecer qualquer possibilidade de se
refletir sobre uma provável "artepropriamente dita"43.
É possível afirmar que são raros ou inexistentes os estudos que sistematizam as
possíveis características internas e externas da arte produzida no Brasil, a
fim de entendê -la de maneira mais integrada à cultura do país. Os estudiosos
da área apostam na inexistência de qualquer possibilidade de sistematização e
não tentam, nem como mero desafio acadêmico, estabelecer balizas para uma
compreensão menos fragmentária do fenômeno da arte no Brasil.
Aqui não se trata de propor uma sociologia da arte (o que, ademais, bem ou mal
já existe entre nós). Trata-se de uma história da arte que, partindo de um
objeto artístico determinado, consiga estabelecer relações de cisão e
continuidade no tecido artístico e social do país.
Mas, por que essa aposta de nossos historiadores da arte na inexistência de
qualquer possibilidade de ordenação a partir do fato artístico propriamente
dito? Creio que esta situação se deve a um fenômeno típico da historiografia
artística brasileira.
Em um primeiro momento, confundiu-se a história da arte no Brasil do século XIX
com a crônica da arte do Rio de Janeiro. Penso, aqui, em uma tradição que vai
do estudo mais sistemático de Gonzaga-Duque, já citado, até o livro de
Laudelino Freyre sobre a arte brasileira entre 1816 e 191644. Junte-se a esses
dois livros toda a produção de artigos e ensaios publicados na Revista do
Instituto Histórico e Geográfico Brasileirodo Rio de Janeiro, entre outros
periódicos, em que a produção da Academia Imperial de Belas Artes e os
movimentos e artistas a ela ligados direta ou indiretamente foram aprofundados
dentro de uma concepção historiográfica no geral pouco crítica e despreocupada
em realizar um mergulho sistemático no campo artístico do período.
Em paralelo a essa historiografia artística específica, foi sendo constituído
outro corpusbibliográfico no campo da arte do período colonial brasileiro. Se
nessa área surgiram contribuições de fato significativas para a compreensão do
enraizamento das produções artísticas no âmbito das cidades e cidadezinhas
coloniais, não se encontram nesses estudos muitas pesquisas que tenham tentado
fazer a ponte entre a arte do período colonial e aquela dos momentos
subsequentes.
Em que medida o estatuto do artista de fato mudou quando aqui aportou a Missão
Francesa que criou a Academia? Em que medida pode ser percebida a paulatina
qualificação do artista independente no cotidiano das capitais brasileiras?
Estas e uma série de outras questões ainda estão à espera de estudos mais
sistemáticos.
Na historiografia modernista, ou seja, nos estudos que pensam a arte local a
partir da primeira metade do século XX, ainda são aguardados estudos que
busquem entender o fenômeno artístico fora do mito do grande artista, da grande
obra de arte, para que se constitua um panorama mais claro do que era e do que
passou a ser a arte no Brasil após a eclosão oficial do Modernismo.
Voltando ao texto de Antonio Candido, na sequência, o autor, preocupado em
caracterizar a literatura como fenômeno de um sistema cultural, afirma:
Quando a atividade dos escritores de um dado período se integra em
tal sistema, ocorre outro elemento decisivo: a formação da
continuidade literária [...]. É uma tradição, no sentido completo do
termo, isto é , transmissão de algo entre os homens, e o conjunto de
elementos transmitidos, formando padrões que se impõem ao pensamento
ou ao comportamento, e aos quais somos obrigados a nos referir, para
aceitar ou rejeitar. Sem esta tradição não há literatura, como
fenômeno de civilização [...]. Se desejarmos focalizar os momentos em
que se discerne a formação de um sistema, é preferível nos limitarmos
aos seus artífices imediatos, mais os que se vão enquadrando como
herdeiros nas suas diretrizes, ou simplesmente no seu exemplo. Trata-
se então, [...] de averiguar quando e como se definiu uma
continuidade ininterrupta de obras e autores, cientes quase sempre de
integrarem um processo de formação literária [...]45.
Se rapidamente transportássemos esses denominadores propostos pelo autor para o
terreno das artes visuais no Brasil, conseguiríamos estabelecer conexões
importantes. Desde o efetivo início de funcionamento da Academia Imperial de
Belas Artes do Rio de Janeiro, a partir de meados da década de 1820 e,
paulatinamente - primeiro na antiga capital do Império, e depois em outras
cidades -, nota-se uma prática determinada no campo da visualidade, alinhada
com a "norma culta" das grandes academias europeias de arte, levada a cabo por
produtores conscientes de suas obrigações profissionais como artistas eruditos,
distantes portanto do caráter espontâneo da produção popular e desvinculadas de
qualquer compromisso além da repetição de formas. A Academia Imperial de Belas
Artes introduz um novo paradigma para a arte aqui produzida, repleto de leis e
normas a serem seguidas, e que, com o passar dos anos, será reconhecido e
desenvolvido por vários outros artistas que, mesmo sem passarem pelos
ensinamentos diretos da instituição carioca, tampouco educados em institutos
congêneres na Europa ou mesmo no Brasil, trarão reforços aos seus postulados.
Os artistas enredados nesse sistema são proponentes de mudanças abruptas nessa
tradição? É claro que não. Eles se sentem engajados em uma corrente que é
preciso fortalecer, trazendo a ela novos reforços, algumas atualizações, mas
jamais uma quebra de parâmetros.
Por outro lado, se a Academia trouxe um novo statuspara o artista plástico
local, seria significativo atentar para como se fez a passagem do artista/
artesão, ligado à sua condição de escravo, ex-escravo ou filho de escravo, para
a condição de homem livre, atuante em um meio artístico precário e ainda em
formação.
Em paralelo a essa situação complexa do artista, vai se formando um público
receptor acanhado, mas crescente, atento ao desenvolvimento e à transformação
da linguagem plástica erudita no país.
Ainda a ser devidamente estudada em todos os seus aspectos, a prática da
crítica de arte no país - por meio de artigos de jornais, revistas e raros
livros, assim como em outros documentos importantes, como atas, relatórios etc.
-, além dos próprios artistas, é uma marca inconteste da existência de um
público para a arte erudita brasileira.
Nesse universo, ainda deve-se levar em conta a prática do colecionismo no
Brasil desde o século XIX (e não apenas no Rio de Janeiro e em São Paulo, mas
igualmente em outras capitais brasileiras), pois a partir do estudo dessas
coleções surgirão outros dados importantes para o entendimento mais amplo das
questões relativas à recepção da obra de arte no Brasil e dos liames entre essa
instância do sistema e a produção artística.
Também se percebe no âmbito desse mesmo sistema, ainda no século XIX, a questão
da sua continuidade. Por mais precária que tenha sido em seus primórdios, e
durante várias décadas, a prática pictórica (e também a escultura e a gravura)
de pretensões eruditas consolidou-se no Brasil, estabelecendo uma trajetória
repleta de carências, mas, ainda assim, passível de constituir-se como um
importante objeto de estudo.
Pensar em trajetória, ou em continuidade, é pensar em tradição, em manutenção
de questões que não necessariamente se esgotam quando a produção artística vai
sendo moldada pelas gerações que se sucedem. Se muitos aspectos mudam -
sobretudo aqueles de caráter estético - é possível pensar que várias questões
de fundo se mantêm dentro de uma duração que não se mede, nem por movimentos
que teoricamente se opõem, nem por fenômenos exteriores ao campo da arte.
Creio que as pinturas comentadas no início deste texto, que parecem responder a
uma descrição literária de um quadro imaginário, concebida no século XIX,
deixam clara a necessidade de centrar certos estudos na detecção e na análise
de problemas complexos dentro do campo da arte brasileira.
Antonio Candido faz referência, também, ao problema da periodização no campo da
literatura brasileira, tentando atenuar as diferenças mais visíveis entre o
neoclassicismo e o romantismo:
Embora reconheça a importância da noção de período, utilizei-a aqui
incidentemente e atendendo à evidência estética e histórica, sem
preocupar-me com distinções rigorosas. Isso, porque o intuito foi
sugerir, tanto quanto possível, a ideia de movimento, passagem,
comunicação - entre fases, grupos e obras; sugerir uma certa
labilidade que permitisse ao leitor sentir, por exemplo, que a
separação evidente, do ponto de vista estético, entre as fases
neoclássica e romântica, é contrabalançada, do ponto de vista
histórico, pela sua unidade profunda. À diferença entre estas fases,
procurosomar aideia da sua continuidade, no sentido da tomada de
consciência literária e tentativa de construir uma literatura [...].
Por isso, sobrepus ao conceito de geração o de tema, procurando
apontar não apenas a sua ocorrência, num dado momento, mas a sua
retomada pelas gerações sucessivas, através do tempo [...]46.
Impossível ler essas linhas e não conectá -las, apesar de todas as diferenças,
ao conceito de história como longa duração, ou com a história do tempo longo,
no âmbito da história das mentalidades. Como afirma Michel Vovelle:
Se passarmos da história, do pensamento claro ou das culturas para os
novos campos da história das mentalidades [...] é incontestável que o
tempo longo se impõe.
Nele não há tormentas, rupturas, nem mesmo, propriamente falando,
acontecimentos no sentido tradicional [...]. Philippe Áries, um dos
descobridores dessa história [...] afirma isso com vigor; ele (o
tempo longo) se prende a essas evoluções secretas na longuíssima
duração, também inconscientes porque não percebidas pelos homens que
as vivem. A imagem que ele nos proporciona [...] é a imagem não de
uma história "imóvel" [...] mas a de amplos pedaços de história,
sucessão de estruturas ou de modelos de comportamento, que, mais do
que se sucederem, se sobrepõem e se encaixam como as telhas de um
telhado. [...] Seria por grandes pedaços da história - em que as
mutações insensíveis prevalecem em muito sobre o que se vê [...] que
se faria a passagem de uma estrutura a outra [...]47.
Como o leitor deve ter percebido, as questões levantadas não serão
imediatamente respondidas. Elas apenas ganharão visibilidade e força para a
reconstituição dos parâmetros da história da arte no Brasil, quando um número
crescente de estudiosos perceberem sua pertinência e a necessidade de
abordagens que se distanciem dos paradigmas teóricos cristalizados que insistem
em permanecer mesmo depois de tanto tempo, o que não deixa de ser outro tema a
ser explorado no contexto de uma história da arte no Brasil que leve em
consideração a problemática da permanência de certos esquemas e estruturas que
se mantêm, apesar das tentativas de removê -los.
TADEU CHIARELLI, professor-titular responsável pelas disciplinas de História da
Arte no Brasil no Departamento de Artes Plásticas da ECA-USP e do Programa de
Pós-Graduação em Artes Visuais da ECA-USP, é diretor do Museu de Arte
Contemporânea da Universidade de São Paulo. Tem livros publicados sobre a
crítica de arte de Monteiro Lobato e Mario de Andrade.
[*] Este artigo é desenvolvimento de um texto que serviu como base para o
trabalho apresentado no Seminário "Formação e Desmanche de um Sistema Visual
Brasileiro Moderno", realizado na ECA-USP e na Estação Pinacoteca, em São Paulo
em 2007. Agradeço a Fernanda Pitta e Maria Hirszman pelas sugestões a esta
última versão.
[1] Gonzaga-Duque. Mocidade morta. 2 ed. Rio de Janeiro: Três, 1973, p. 181
(grifo nosso).
[2] No âmbito da gravura (Debret, entre outros) e mesmo no âmbito da fotografia
do século XIX (Ferrez, entre outros), é possível encontrar a figura de mulheres
negras ao lado de cestas de frutas, ou mesmo carregando balaios. No entanto,
são desconhecidas na pintura imagens semelhantes, e com o intuito alegórico
explícito, como o apontado por Gonzaga-Duque no "quadro" de Silviano.
[3] "Exposição Malfatti". Revista do Brasil, nº 25, jan. 1918, p. 83.
[4] Correio Paulistano, 14 dez. 1917.
[5] A esse respeito, ver Chiarelli, Tadeu. Pintura não é só beleza: a crítica
de arte de Mário de Andrade. Florianópolis: Letras Contemporâneas, 2007.
[6] Impossível não perceber em tal oscilação ecos do debate literário da época,
que também oscilava entre o regionalismo e o nacionalismo.
[7] A esse respeito, ver minha apresentação ao livro de Gonzaga-Duque:
"Gonzaga-Duque: a moldura e o quadro da arte brasileira". In: Gonzaga-Duque. A
arte brasileira. Campinas: Mercado de Letras, 1995, pp. 11ss.
[8] Tropical, de Anita Malfatti, apresenta-se como uma manifestação local do
"retorno à ordem internacional", tendência que buscou resgatar certos valores
considerados "eternos" da arte, a partir de um ponto de vista muitas vezes
bastante conservador e contrário às vanguardas históricas. Essa manifestação
muitas vezes assumiu uma posição hegemônica no âmbito da arte internacional no
entre-guerras com fortes ressonâncias na cena artística brasileira. Ver
Chiarelli. "Tropical, de Anita Malfatti: reorientando uma velha questão". Novos
Estudos Cebrap, n. 80, mar. 2008, pp. 163-72.
[9] Col. Gilberto Chateaubriand/MAM-RJ.
[10] Obras pertencentes a coleções particulares.
[11] Col. particular, RJ, e col. do Masp, respectivamente.
[12] Col. particular e Museus Castro Maya, RJ, respectivamente.
[13] Co. MAC-USP. Essa obra recebeu o I Prêmio de Pintura da
II Bienal Internacional de São Paulo, o que revela muito a respeito dos
interesses e dos arranjos levados a efeito emSão Paulo, no início dos anos de
1950, no âmbito dos museus de arte e da própria Bienal, no sentido de
entronizar certa visão de arte moderna no Brasil a fim de formar as balizas
para as interpretações da chegada e da propagação da arte moderna no país no
início do século XX. A esse respeito, ver Chiarelli. "Arte em São Paulo e o
núcleo modernista da Coleção". In: Milliet, Maria Alice (org.) . Coleção
Nemirowsky. São Paulo: MAM, 2003, pp. 79-119.
[14] Col. MNBA-RJ.
[15] Como outro importante membro do "retorno à ordem no Brasil", Portinari
absorve também os próprios ensinamentos das vanguardas vistas já como
"tradição" ou como "arte do passado". Sobre isso, ver Chiarelli, Pintura não é
só beleza, op. cit.
[16] Col. do Masp.
[17] Como apontou Annateresa Fabris, em seus estudos sobre Portinari (ver, por
exemplo, Portinari, pintor social. São Paulo: Perspectiva/Edusp/SECSP, 1990), o
artista sempre se caracterizou por enfatizar, em suas obras de maior pretensão,
o trabalhador brasileiro e o trabalho. A mudança que se percebe em Portinari,
que deixa de retratar a natureza brasileira apenas como fornecedora de frutos
para percebê-la como espaço de produção e transformação a partir do trabalho e
do trabalhador, é exclusivamente sua. Em nenhum outro artista - refiro-me aqui
aos outros modernistas - é perceptível essa mesma característica. Todos
projetam o Brasil e sua natureza como o paraíso pródigo em dádivas. Talvez essa
peculiaridade de Portinari ajude a entender a importância alcançada por sua
obra no contexto brasileiro dos anos de 1930 e 1940. Por outro lado, sua
posição solitária naquele cenário não retira a importância de sua contribuição,
sobretudo no que se refere à atualização que o pintor empreendeu do mito da
natureza brasileira. Enquanto seus pares insistiam emperpetuar o antigo mito,
ele, embora não o supere, conecta-o à nova situação sociopolítica brasileira da
primeira metade do século passado.
[18] Col. do MNBA-RJ.
[19] Cf. Pessanha, José Américo Motta. "Despir os nus". In: Leite, Cássio de
Arantes (ed.) . O desejo na Academia: 1847-1916. São Paulo: Pinacoteca do
Estado, 1991, pp. 43-51(catálogodaexposição homônima, com curadoria de Ivo
Mesquita).
[20] Col. do MNBA-RJ.
[21] Assunto que pretendo tratar em outros estudos.
[22] O termo "arte acadêmica", sobretudo quando usado para designar a produção
artística brasileira de 1826 em diante (entrando, inclusive, no século XX),
esconde uma complexidade de estilos que vai da produção atrelada aos ditames
mais conservadores das academias europeias, até aproximações mais ou menos
radicais com várias vertentes que se lhes opunham. O uso generalizado desse
termo, por outro lado, também esconde a ignorância de muitos sobre a riqueza da
arte desse período no Brasil, não apenas do ponto de vista estético, como
também histórico-cultural. O objetivo deste texto é justamente contribuir para
a mudança desse quadro. Sobre a oposição entre "arte acadêmica" e Modernismo
Pau-lista, Mario de Andrade possivelmente teria sido o primeiro autor a marcar
as supostas diferenças entre ambos.
[23] Chamo a atenção para o retrato de D. João VI, pintado por Debret em c.
1817 - Retrato de El-Rei Dom João VI -, hoje no Museu Nacional de Belas Artes
do Rio de Janeiro.
[24] Lobato, Monteiro. "Paranóia ou mistificação? A propósito da Exposição
Malfatti". In: Idéias de Jeca Tatu, São Paulo: Brasiliense, 1956, pp. 59ss.
[25] A esse respeito, ver Chiarelli. Um jeca nos vernissages: Monteiro Lobato e
o desejo de uma arte nacional no Brasil. São Paulo: Edusp, 1995.
[26] Lobato. "Pedro Alexandrino". Revista do Brasil, ano 3, vol. 7, nº 26, fev.
1918, pp. 118-130, apud Chiarelli. Um jeca nos vernissages, op. cit., pp. 210-
11.
[27] Impossível não levantar aqui a figura de Lobato como porta-voz da luta
pela manutenção das relações da arte com a mimese, que caracterizaria acrítica
que se opôs, de início, ao "relato modernista", sobre o qual escreveu Arthur
Danto. Como será visto, no caso brasileiro, Lobato não estaria só , pois contou
com importantes defensores da mimese no campo do Modernismo paulista. Sobre o
"relato modernista", ver Danto, Arthur. Despues del fin del arte: el arte
contemporáneo y el linde de la historia. Barcelona: Paidós, 2002, sobretudo os
capítulos 2 e 3.
[28] Como foi visto, Tropicalatesta bem essa mudança de direcionamento da
artista, ocorrida antes da exposição de 1917.
[29] Andrade, Mario de. "Carta para Tarsila do Amaral de 1923". In: Amaral, A.
A. Tarsila sua obra e seu tempo. São Paulo: Edusp/Perspectiva, 1975, p. 368.
[30] Idem. "Candido Portinari". Revista Acadêmica, nº 48, fev. 1940, apud
Chiarelli, Pintura não é só beleza, op. cit., p. 132.
[31] Por meio desta carta é possível aferir o quanto Mario de Andrade, já em
1923, encontrava-se ligado a certas determinações do "retorno à ordem
internacional" que valorizava na vertente cubista apenas aqueles aspectos
passíveis de serem ligados à "grande" tradição da pintura europeia do passado.
Como se percebe, o crítico propõe à pintora o uso instrumental do cubismo para
dele absorver o que poderia ser extraído para a produção de uma pintura
integrada à concepção de pureza formal sem, no entanto, abdicar da obediência
ao referente (ou seja, ao aspecto mimético da pintura) sob pena de "cair" na
abstração ou, em outras palavras, de deixar-se levar por um experimentalismo da
forma que retiraria a artista da senda nacionalista desejada por Mario de
Andrade para os artistas modernistas.
[32] Em outra situação tive a oportunidade de relatar, a partir da bibliografia
existente sobre o Modernismo paulista e brasileiro a constituição do mito de
Monteiro Lobato como o crítico conservador por excelência e, por extensão, a
constituição do mito de Mario de Andrade como o crítico renovador (a esse
respeito, ver Chiarelli, Um Jeca nos vernissages, op. cit., pp. 19ss. ) .
[33] Embora ainda esteja para ser produzida uma completa historiografia da arte
brasileira, é possível atentar para determinados autores que, durante o século
passado, mantiveram-se fiéis aos postulados de uma "arte nacional" de forma
mais ou menos evidente. Dentro desse universo que unia "acadêmicos" e
"modernistas", seria possível arrolar, ao lado dos nomes de Lobato e de Mario
de Andrade, autores como Luis Martins e Ruben Navarra, entre outros.
[34] Gonzaga-Duque, A arte brasileira, op. cit.
[35] Zanini, Walter (coord.) . História geral da arte no Brasil. São Paulo:
Instituto Moreira Salles, 1983, 2 vols.
[36] O termo "europeia" está entre aspas para frisar que não concordo com a
crença de total isolamento dessas manifestações "extra-europeias" (isto é , a
produção indígena, africana e popular) no âmbito da produção de arte erudita no
Brasil.
[37] Cito como exemplo recente: Battistoni Filho, Duílio. Pequena história das
artes no Brasil. 2 ed. Campinas/São Paulo: Átomo/PNA, 2008.
[38] Andrade. "Convalescença". Revista do Brasil, nº 92, ago. 1923, pp. 336 e
339.
[39] Rubem Navarra foi um dos poucos intelectuais que se pronunciou contrário
ao peso supostamente excessivo dado à Semana de Arte Moderna de 1922 no quadro
geral da arte local. No texto de Navarra, produzido para ser publicado no
catálogo de uma exposição de arte brasileira, realizada na Inglaterra, em 1943,
a Semana foi vista como uma "festa" que apenas simbolicamente poderia ser
entendida como o início da arte moderna no país. Publicado em português, pela
primeira vez, na Revista Acadêmica("Introdução à pintura contemporânea", nº 65,
ano X, abr. 1945, pp. 16-31 e 48) e republicado no catálogo da mostra
"Modernidade negociada: um recorte da arte brasileira nos anos 40", ocorrida no
Museu de Arte Moderna de São Paulo, em 2007, com curadoria de Taísa Palhares
(pp. 84-101).
[40] Candido, Antonio. Formação da literatura brasileira: momentos decisivos.
10 ed. revista. Rio de Janeiro: Ouro sobre Azul, 2006.
[41] Embora essencialmente diferentes entre si, esses dois autores tendem a
estabelecer suas análises a partir de obras de arte concretas para posteriores
interpretações de caráter histórico ou sociológico. Mesmo que para tais
interpretações eles se valham de instrumentais hauridos em outras áreas do
conhecimento, o foco de interesse permanece sendo as obras de arte.
[42] Candido, op. cit., p. 25.
[43] Cito dois livros que, escritos ao longo do século passado, exemplificariam
estudos em que a "genialidade" dos artistas tratados seria a tônica principal.
Tal característica, é claro, não retira a importância dos mesmos para a
compreensão da vida dos artistas por eles estudados. Porém, do meu ponto de
vista, apenas da vida dos artistas, não de suas respectivas obras: Silva,
Gastão Pereira da. Almeida Jr. sua vida, sua obra. São Paulo: Editora do
Brasil, 1946; Toledo, J. Flávio de Carvalho: o comedor de
emoções. São Paulo/Campinas: Brasiliense/Editora da Unicamp, 1994.
[44] Freire, Laudelino. Um século de pintura, 1816-1916. Rio de Janeiro:
Typographia Röhe, 1916 (edição fac-similar: Rio de Janeiro: Fontana, 1983).
[45] Candido, op. cit., pp. 25-6.
[46] Ibidem, p. 38.
[47] Vovelle, Michel. "A história e a longa duração". In: Le Goff, Jacques. A
história nova. São Paulo: Martins fontes, 1993. p. 74.