A sociologia dos mercados de trabalho, ontem e hoje
DE VOLTA AO MERCADO
Tem sido crescente o interesse da sociologia brasileira pelos estudos do
mercado de trabalho e das formas e experiências associadas ao desemprego,
depois de um longo período de jejum intelectual durante o qual haviam dominado
as análises sobre as condições de organização e uso do trabalho no cotidiano
das empresas e sobre as formas da ação coletiva sustentada pelos sindicatos.
Não sem razão, se pensarmos que estamos tratando de um ramo da sociologia
fortemente pautado pelos desafios da agenda social. Nesta, os recentes
processos de reestruturação macroeconômica e microorganizacional tiveram
efeitos importantes, não apenas no que tange às relações sociais nos locais de
trabalho, como também no mercado de trabalho. Ali, eles ampliaram o volume e a
duração do desemprego, diferenciando as suas formas e diversificando as
modalidades de ocupação e de relações contratuais de trabalho. Nesse contexto,
não apenas o desemprego reencarnava o seu papel de importante mecanismo de
redistribuição das oportunidades ocupacionais entre os trabalhadores ativos,
como as próprias alternativas de trabalho revelavam-se agora mais nítidas em
sua diversidade.
O movimento que leva do trabalho ao desemprego passou a ser, então, mais e mais
esquadrinhado pela sociologia brasileira. Destacavam-se os estudos sobre o
risco desigual com que a perda do trabalho atingia certos grupos de indivíduos,
distintos por características tais como idade, sexo, cor, posição na família,
momento no ciclo de vida, escolaridade, ocupação e setor de atividade. Ao lado
desses estudos, fizeram-se mais freqüentes as análises longitudinais de tipo
quantitativo sobre trajetórias de desempregados, não raro aliadas a (e/ou
alimentando) pesquisas qualitativas sobre representações subjetivas acerca da
experiência da perda da ocupação regular.
O mercado de trabalho voltava, assim, a estar no centro do interesse
sociológico em geral e da ciência social brasileira, em especial. Mais ainda: o
trabalho, aquele que fora denominado "um valor em vias de desaparição",
parafraseando Méda1, cujas idéias ecoaram com enorme sucesso o argumento de
Offe, surpreendia-nos pelo vigor da sua presença no imaginário social. Ter
trabalho, manter o trabalho, viver do trabalho estavam no centro das
percepções, das motivações e dos sentimentos flagrados em diversas pesquisas de
opinião que investigaram atitudes dos brasileiros na década de 1990.
Entretanto, não se pode perder de vista que as idas e vindas do interesse da
sociologia pelo tema do mercado de trabalho desvelam modos de apreensão
distintos, que desnudam aspectos diversos do campo, atiçados por desafios
sociais datados, porque peculiares às suas épocas respectivas, e por
interlocutores intelectuais igualmente enraizados em conjunturas e debates
específicos.
Tento isso em mente, iniciarei este texto tratando da incerta trajetória de
vigência intelectual da categoria "mercado de trabalho", destacando as suas
idas e vindas no cenário do debate acadêmico da sociologia nas últimas décadas.
Em seguida, procurarei me deter sobre o revigoramento atual dos estudos
sociológicos no tema.
Ordenando a narrativa, lançarei mão de dois recursos. De um lado, a releitura
aqui proposta se organizará de maneira a apresentar e bem usufruir as
discussões teóricas travadas pela sociologia econômica contemporânea, de todo
oportunas para fertilizar a agenda empírica da sociologia do trabalho. De outro
lado, e sempre que cabível, tratarei de inocular nos meus argumentos um sopro
de vida pelo uso seletivo de achados recentes de pesquisa.
A SOCIOLOGIA DOS MERCADOS DE TRABALHO
Não seria descabido dizer, secundando Kalleberg e Sorensen2, que o campo de
estudos dos mercados do trabalho se estruturou inicialmente como uma área de
confluência entre diferentes linhagens e tradições acadêmicas, provenientes da
estratificação social, da sociologia das ocupações, da sociologia industrial,
da sociologia das organizações e, como não poderia deixar de ser, da economia
do trabalho.
Retomando argumentos, como os de Caplow (expresso em manual de estudos sobre
sociologia do trabalho que circulou nos Estados Unidos nos anos de 1950), vemos
que a legitimidade deste campo era então argüida com base numa característica
típica das sociedades capitalistas do pós-guerra: era do mercado de trabalho
que a ampla maioria das pessoas retirava a sua sobrevivência, nele obtendo não
apenas os seus salários, mas toda uma gama de outras vantagens indiretas3 O
mercado constituía-se, assim, no mecanismo central de distribuição social,
sendo, por isso mesmo, uma arena incontornável para os que se propusessem a
explicar a produção de desigualdades nas sociedades industriais.
No mundo francês, as formulações pioneiras deixavam entrever o lugar
relativamente secundário que tinham os estudos sobre mercado de trabalho, ao
menos quando comparados às análises da organização do trabalho ou das formas de
ação coletiva. Assim, Erbes-Séguin4, refletindo sobre a trajetória da
constituição da sociologia do trabalho na França, não encontra lugar para os
estudos do mercado de trabalho entre os grandes temas que identifica como
"tradicionais" à disciplina.
Essas primeiras abordagens punham ênfase em aspectos relativos à circunscrição
geográfica, setorial, ocupacional do mercado, ou mesmo referindo-o a segmentos
sociais particularizados por sua idade, etnia ou escolaridade. Dessa forma, uma
passada d'olhos no mais importante manual de sociologia do trabalho no mundo
francês de então, o Traité de sociologie du travail, organizado por Georges
Freidmann e Pierre Naville5, revela que toda a segunda das cinco partes em que
se organiza o manual está dedicada aos elos entre "Industria, População e
Emprego".
Nela, uma teoria sociológica do emprego, e porque não dizer do emprego
industrial, reina com toda a precedência analítica. O mercado de trabalho vem à
luz por meio de temas como o desemprego ou como a orientação e a formação
profissionais que dariam aos indivíduos as condições de empregabilidade (para
usar o conceito cunhado pouco depois por Ledrut6). Mas é a abordagem da
"distribuição da população", tal como ali denominada, aquela a que se dedica
maior extensão nesta segunda parte. Ou seja, é a compreensão, certamente ainda
pouco refinada, do mercado de trabalho pela lente da sua composição
sociodemográfica (por sexo, idade, grupos étnicos e nacionais) que dá a tônica
à análise.
Essas primeiras maneiras de abordar cederam progressivamente lugar a
conceituações mais abstratas e relacionais, como aquela posteriormente sugerida
por Kalleberg e Sorensen, nos anos de 1970, para quem o mercado de trabalho
seria mais propriamente "uma arena na qual os trabalhadores trocam a sua
capacidade de trabalho por salários, statuse outras recompensas [...],
compreendendo as instituições e as práticas que governam a compra, a venda e a
fixação de preço do trabalho"7.
No mundo anglo-saxão, quatro grandes temas constituíram, neste momento, o veio
principal da produção acadêmica dedicada ao mercado de trabalho: (i) estudos
sobre desigualdades na retribuição auferida pelo trabalho; (ii) estudos sobre
carreiras e mobilidade; (iii) análises sobre a segmentação existente entre
subpopulações; e (iv) análises sobre mudança social e estrutura dos mercados de
trabalho8. Tal agenda deixava entrever o diálogo que já se estabelecia com a
economia mais ortodoxa, ou, quando menos, o olhar desconfiado que os sociólogos
lançavam em direção a supostos caros aos economistas de então, como os da
permeabilidade, homogeneidade e transparência, que acreditávamos ser de
duvidosa aplicabilidade àquele mercado por onde circulava a força de trabalho.
Mas, e como sublinhariam posteriormente Fligstein e Dauter9, esta agenda teve
como grande ponta-de-lança, até os anos de 1970, os estudos sobre aquisição de
status. De fato, uma das indagações fundadoras do interesse sociológico de
então remetia à descrição e à análise das diferenças sociais entre os
indivíduos, manifestas na desigual distribuição de prestígio e poder. Como
expressar tais diferenças, e, naturalmente, como explicá-las, era algo que
desafiava os intérpretes.
Para eles, o statussocial (isto é, as diferenças de posição social relativa que
distinguiriam entre si indivíduos ou grupos sociais) poderia se fundar em uma
multiplicidade de determinantes. Entre eles, a ocupação constituía-se num
indicador de valor estratégico. A situação no mercado de trabalho,
operacionalizada via situação ocupacional - com o prestígio social a ela
associado - , mostrava-se, então, uma das mais poderosas medidas de posição nas
hierarquias de statussocial. Por isso mesmo, a mobilidade ocupacional
interessava sobremaneira a esses teóricos, na medida em que se configurava em
um dos caminhos mais eficazes para a aquisição de status. Dito de outro modo, a
mobilidade ocupacional importava por ser tida como a avenida, por excelência,
da mobilidade social10.
Desafiava-os, assim, entender como os indivíduos se distribuíram em um conjunto
finito de posições, de acordo com características pessoais como origem
familiar, educação, sexo ou raça. Nesse sentido, o mercado de trabalho e sua
dinâmica eram observados antes pelo lado da oferta, e pouca atenção era dada à
dinâmica da firma, cabendo mais propriamente aos economistas os avanços mais
importantes na teorização acerca dos mercados internos e externos de trabalho,
ou mesmo a mensuração das formas de segmentação ocupacional.
Se a agenda de estudos pouco a pouco se adensava e diversificava, no entrecruze
de influências das diversas linhagens com as quais se dialogava, é também
verdade que ela estava aderida aos desafios sociais do capitalismo em expansão
nos seus "anos dourados" após a Segunda Guerra Mundial. Ela carregava consigo o
olhar sobre o mercado de trabalho e as suas desigualdades, refletindo a
experiência da constituição de sociedades industriais em países de capitalismo
originário.
Mas, uma sociologia do mercado de trabalho latino-americano carecia forjar uma
agenda que lhe fosse própria, que se revelasse capaz de dar conta das
especificidades dos chamados "mercados heterogêneos de trabalho". Tal foi o
desafio de uma geração de teóricos que, nos anos de 1960 e 1970, não somente
renovou o debate sobre a noção de mercado de trabalho, como articulou-o de
maneira indissociável à questão do desenvolvimento.
MERCADO DE TRABALHO E DESENVOLVIMENTO LATINO-AMERICANO: AS NOVIDADES DOS ANOS
DE 1960 E 1970
Quando perseguimos, no pensamento sobre a América Latina, as pistas da
constituição de uma sociologia do mercado de trabalho logo vemos que, também
aqui, as análises sobre a mobilidade ocupacional se constituíram no território
pioneiro. E não por acaso esse tema repercutia tanto entre nós, latino-
americanos em geral e brasileiros em especial11.
As hipóteses sobre a mobilidade social estiveram na raiz de algumas das mais
importantes explicações para os processos de "modernização", para retomarmos
conceito caro ao jargão acadêmico de corte funcionalista, então hegemônico.
Tais estudos mostravam especial interesse por entender as transformações das
hierarquias sociais, expressas justamente em mudanças na estrutura ocupacional
e na conseqüente emergência de novos grupos sociais; ou, dito de modo mais
afeito ao estilo da época, havia que explicar as chances de aparecimento,
nesses países, então denominados "tradicionais", dos grupos sociais que haviam
forjado os arranjos societários típicos dos países ditos "modernos", ou de
desenvolvimento capitalista originário12.
As análises da mobilidade social, sustentadas nos estudos da mobilidade
ocupacional, foram também precursoras, na sociologia brasileira, das indagações
de tipo longitudinal. Assim, os estudos dos anos de 1950 e 1960 foram
insistentes em suas preocupações acerca dos caminhos da mobilidade
intergeracional, tratados via de regra à luz dos percursos ocupacionais e
escolares de pais e filhos. Por meio deles, buscava-se antever, nos trajetos
ascendentes, a permeabilidade da estrutura social à mudança pela via da fluidez
do seu sistema de estratificação13.
O trabalho - e, nele, o mercado de trabalho, arriscaria dizer - estava longe de
ser um território de interesse analítico que lhes importasse em si mesmo. Ele
provia, antes, os indicadores empíricos para um fenômeno de outra natureza-o da
constituição das hierarquias de estratificação social (aí contidas as
indagações sobre mobilidade social) - , este, sim, central às teorias
sociológicas do desenvolvimento.
Não sem razão, aqueles que hoje consideramos os fundadores da moderna
sociologia do trabalho no Brasil circunscreviam os seus próprios escritos e
avanços analíticos ao campo de estudos do desenvolvimento e da modernização,
antes que ao campo de uma sociologia do trabalho, e menos ainda ao de uma
sociologia dos mercados de trabalho14. Mas uma e outra-sociologia do trabalho e
sociologia dos mercados de trabalho-já estavam ali esboçadas, e de modo
bastante rico.
Curiosamente, os estudos sociológicos que se reivindicavam como interessados no
mercado de trabalho, ao se consolidarem, relegaram o foco longitudinal que
tanto atraíra as teorias da estratificação (e da mobilidade) e que tão
importante se tornaria nas análises contemporâneas sobre a dinâmica do mercado
de trabalho. Centraram-se, antes, no entendimento da estrutura do emprego e nas
comparações entre diferentes descrições de tipo cross-section, como forma de
bem refletir sobre as mudanças no mercado de trabalho correlatas à urbanização
e à industrialização crescentes15.
Mas, foram as análises de inspiração marxista16, sobre a assim chamada
"marginalidade social", o grande divisor de águas nos estudos do mercado de
trabalho. A elas devemos o esforço sociológico no sentido de teorizar de
maneira sistemática acerca da particular heterogeneidade que caracterizaria o
trabalho na América Latina.17
O debate em torno da categoria "marginalidade" agitava os meios intelectuais
latino-americanos desde o final dos anos de 1960, com destaque para os
primeiros textos do peruano Anibal Quijano18. Logo se consolidaria como o tema
da vez. Quase que simultaneamente aos escritos de Quijano, em 1969, surge outro
artigo, também seminal e também veiculado no meio intelectual chileno; de
autoria do argentino Jose Luis Nun, prossegue com a reflexão acerca da
pertinência da categoria "massa marginal"19. Nun argüia a especificidade dos
processos de produção da superpopulação relativa em países periféricos, sob o
capitalismo monopolista, mostrando que parte dela deixara de cumprir a função
de um exército de reserva para a produção capitalista, tal como preconizara
Marx ao analisar a dinâmica do mercado de trabalho sob o capitalismo
concorrencial.
É curioso observar que o enfoque das teorias da marginalidade trouxe consigo,
de precursor, a idéia da "redundância", que reapareceria posteriormente, com
vigor, em certas tendências de interpretação do emprego em contextos de intensa
reestruturação nos países capitalistas centrais20.
Francisco de Oliveira, em seu clássico ensaio "A economia brasileira: crítica à
razão dualista", divulgado em 1972, entraria na discussão, refinando - a
teórica e historicamente e situando o debate sobre as formas de incorporação
econômica e política dos trabalhadores no terreno dos elos entre modalidades de
crescimento capitalista e de alianças de classe, e trazendo a política para o
centro da análise21. Esse ensaio já deixava entrever que a discussão também
pautava o debate no Brasil, e com muita força. E que não se tratava de um tema
restrito apenas aos estudiosos do urbano e do trabalho, onde por certo ele
tinha centralidade e já vinha se desenvolvendo desde alguns anos22.
Com efeito, entre os estudiosos da urbanização brasileira, tema desafiador dos
intérpretes das mudanças em curso no Brasil dos anos de 1960 e 1970, a
problemática da assim chamada "marginalidade urbana" estava solidamente
estabelecida como central à agenda de pesquisa. Havíamos abandonado as idéias
sobre o caráter "sociopático" do nosso processo de crescimento urbano23, pondo
ênfase na funcionalidade das formas de inserção não tipicamente capitalistas
para o entendimento da dinâmica do emprego nas nossas grandes cidades e para o
processo de acumulação capitalista no Brasil. Os escritos de Luis Antonio
Machado da Silva, Manuel Berlinck, Lucio Kowarick, Vilmar Faria eram exemplos
de como se debruçava sobre o tema nossa inteligenzia24.
A crítica à razão dualista nutriu-se do esforço por evidenciar como a
reprodução das formas não - capitalistas de trabalho era parte constitutiva das
necessidades do desenvolvimento do capital, para usarmos o linguajar daquele
momento; ou, como as formas não - capitalistas de produção e de trabalho eram
funcionais (para usarmos outra categoria que melhor evidencia a lógica de
argumentação) à reprodução do capital25.
Estes estudos documentaram de maneira primorosa a heterogeneidade e a
instabilidade da inserção ocupacional dos indivíduos, deixando assente, e de
modo cabal, que o processo de transformação que nossos países experimentavam
estava longe de se ajustar a hipóteses providas pelas teorias (lineares) da
modernização26.
No bojo do mesmo movimento intelectual, as análises sobre condições de
reprodução da classe trabalhadora27 desafiavam os resultados encontrados nos
países capitalistas de desenvolvimento originário, pondo em xeque a crença de
que o mercado devesse ser o único mecanismo de alocação de recursos e de
distribuição social. Ao contrário, elas destacavam como outras instituições - a
família, os grupos de vizinhança e as redes de sociabilidade - cumpriam papel
primordial no entendimento das condições de vida e das formas de inserção no
trabalho. Estas, via de regra, se equacionavam tendo muito especialmente o
grupo familiar como arena de construção de estratégias em face da pobreza,
sobretudo pela via da alocação de seus membros ao mercado de trabalho. Nos
cotidianos da família, conforme tão bem demonstraram Lobo, Abreu e Hirata28, e
pelas teias da socialização de meninos e meninas, as relações sociais de gênero
fincavam as estacas da divisão social do trabalho, que repercutiriam no mercado
e nos locais de emprego.
Finalmente, as análises conduzidas entre fins dos anos de 1950 e início da
década de 1970 por autores como Lopes e Rodrigues29, entre outros, davam conta
da importante segmentação regional do mercado de trabalho brasileiro, ainda
carente de uma efetiva nacionalização. As estratégias individuais, mormente
expressas na migração para os grandes centros industriais, não somente deixavam
entrever a importância dos elos com os locais de origem, como também a efetiva
pendularidade do movimento de ir e vir, compensando refluxos da atividade no
local de acolhida. Se o processo de nacionalização do mercado de trabalho
tivera início com Vargas, com seu ícone na chamada "Lei dos Dois Terços",
somente nos anos de 1980 ele viria a se completar com o efetivo enraizamento de
uma força de trabalho "livre e despossuída", para tomar de empréstimo as
palavras de Marx, que se defrontaria, então, com a primeira grande crise de
desemprego em massa, agora, sim, retida nas grandes metrópoles.
Eram, assim, outras - e novas - as trilhas do processo de constituição de uma
força de trabalho e de um mercado de trabalho nacionais. Desafiava-nos teorizar
o processo de construção social deste mercado. Entretanto, e justamente quando
a reflexão teórica nos deixava de braços com evidências cabais e estudos
seminais que nos permitiriam fazê-lo, voltamo-nos, sociólogos do trabalho, para
o interior das fábricas, para o estudo dos processos de trabalho, especialmente
interessados nos ambientes fabris e na dinâmica das relações sociais no
interior das firmas.
O mercado de trabalho, mais uma vez, passava ao fundo da cena. Quando muito,
era o fundamento para descrições sobre o regime de subordinação do trabalho,
como mostraram Ferrante, em seu estudo de caso, e Marini nas suas formulações
mais gerais30. Ele reaparecia pontualmente como mecanismo de sustentação para o
despotismo fabril que andava junto com o despotismo político do período
ditatorial. Ele se pautava por novas normas que incrementavam a fragilidade dos
vínculos, regulando a rotação dos trabalhadores que se tornaria intensa no
período ditatorial (pelas vias da extinção do instituto da estabilidade e da
criação do Fundo de Garantia por Tempo de Serviço, por exemplo). Ao passo que
se retraía a sociologia dos mercados de trabalho, consolidava-se uma ciência
política do trabalho, que tinha no estudo das regulações deste mercado um dos
seus alvos31.
POR UMA SOCIOLOGIA (ECONÔMICA) DOS MERCADOS DE TRABALHO
Mas, por que nos faria falta uma sociologia (econômica) dos mercados de
trabalho? Ou, dito de outra forma, como a análise destes se beneficiaria das
reflexões da sociologia econômica contemporânea acerca dos mercados em geral e
da circulação do trabalho em especial?
Para a sociologia econômica, teorizar sobre o funcionamento dos mercados, assim
como das firmas, destacando os mecanismos sociais (extra-econômicos) que pautam
a sua construção foi um domínio privilegiado desde a primeira hora; e não sem
razão, posto serem mercados e firmas dois dos focos centrais às teorias
(formuladas por sociólogos e por economistas) relativas à dinâmica da vida
econômica32. Já para a sociologia do trabalho, e como vimos antes, o mercado de
trabalho seguiu por muito tempo sendo um âmbito estudado mais pelos seus
resultados (ou, para usar o termo caro aos economistas, sua "estrutura"), do
que pelos processos que nele tinham lugar.
A insuficiência desse último olhar não deixaria de se fazer sentir mais cedo ou
mais tarde. Era preciso esclarecer pelo menos dois aspectos cruciais a um olhar
sociológico e de há muito sugeridos por Max Weber. Eles poderiam ser mais bem
expressos em duas indagações. Por que, em face de uma pluralidade de
possibilidades de troca entre agentes, uma-e apenas uma-se torna efetiva33?
Quais seriam os mecanismos mobilizados pelos agentes no seu esforço por
transformar o pressuposto da infinidade de trocas potenciais no resultado final
em que apenas uma dessas trocas se consumaria? Ora, o mercado por onde
circulava a assim chamada "mercadoria força de trabalho" certamente não estaria
livre do desafio analítico aberto por esse tipo de abordagem.
Os economistas habitualmente responderam a esse desafio recorrendo às suas
funções de preço e produtividade e ao cruzamento entre ambas, cuja condição de
possibilidade estava ancorada no suposto da racionalidade da conduta dos
agentes econômicos. Assim, o "x" do problema estaria na convergência de
interesses em torno do preço pelo qual um trabalhador qualquer aceitaria vender
o trabalho (ou comprá-lo, se tomarmos o ponto de vista do empresário), dada a
produtividade suposta (encarnada num certo quantumde capital humano) que possui
(ou que se necessita adquirir, incorporando ao negócio, novamente se o prisma
for aquele do empresário que recruta).
Foi dessa maneira, ao mesmo tempo simples e elegante, que os economistas
resolveram o problema analítico do encontro entre demandantes de emprego e
ofertantes de oportunidades de trabalho. Entretanto, nesse tipo de
interpretação, os agentes ficavam destituídos daquilo que atrai os cientistas
sociais, vale dizer, da sua capacidade de interpretar, de conferir significado
a partir de distintas esferas da sua experiência. Estavam reduzidos à forma
simples, elegante, mas abstrata que os aprisionava, primeiro, na dinâmica da
vida econômica e, segundo, no suposto da racionalidade como fundamento
exclusivo para a sua conduta.
Ora, se as características das condições da concorrência perfeita, como
transparência, permeabilidade, homogeneidade, mobilidade, entre outras, têm
sido postas em questão pela moderna sociologia dos mercados, por certo elas são
de duvidosa prevalência e aplicação imediata sobretudo nos mercados por onde
circula o trabalho34, uma "mercadoria fictícia", se quisermos lembrar dos
ensinamentos instigantes de Polanyi.
Essa agenda teórica de pesquisas mostra-se particularmente elucidativa quando a
tomamos em conta para entender realidades como a de mercados de trabalho
estruturalmente flexíveis, pouco regulados, com forte peso de relações
informais, e marcadamente desiguais em termos dos seus sistemas de
estratificação, como é o caso das grandes metrópoles latino-americanas.
Como opera um mercado de trabalho assim constituído? Como, nele, os mecanismos
mercantis e não-mercantis se combinam, conferindo-lhe especificidade? Para bem
entendê-lo, nada como ilustrar, o que farei doravante, lançando mão de
resultados do mais recente estudo empírico que desenvolvi e no qual busquei
entender como se tem acesso à porta principal do mercado de trabalho.
Procurarei mostrar como são socialmente construídas as chances de obter as
oportunidades ocupacionais e como, neste caso, mecanismos não mercantis são
fundamentais e estão enraizados na dinâmica de relação entre indivíduo e
mercado, mesmo quando observamos indivíduos que acorrem regularmente a
instituições mercantis em sua busca de trabalho.
A CONSTRUÇÃO SOCIAL DO ACESSO AO MERCADO DE TRABALHO
Estimulada pelos insightsda sociologia econômica e acreditando no valor
heurístico dessa nova forma de olhar para o mercado de trabalho, desenvolvi,
recentemente, um estudo voltado para entender como as oportunidades
ocupacionais são postas ao alcance dos indivíduos, focalizando a dinâmica do
mercado de trabalho sob o ponto de vista dos mecanismos acionados na saída do
desemprego35.
Interessava-me conhecer uma dimensão particular e que especifica os grandes
mercados de trabalho, ainda que muito pouco estudada entre os cientistas
sociais, o mercado de intermediação de oportunidades ocupacionais. Assumia o
desafio de refletir sobre as diferentes formas de enraizamento (embeddedness)
extra-econômico na construção das relações entre os três agentes nesses grandes
mercados de força de trabalho: os demandantes de emprego, as empresas que
recrutam trabalhadores e os intermediadores entre oferta e demanda de trabalho
(agências de emprego e empresas de trabalho temporário)36.
Acreditava que em grandes mercados metropolitanos nos quais confluem, de um
lado, intensa reestruturação das atividades produtivas e flexibilização
crescente das relações e das condições de uso do trabalho e, de outro, elevado
desemprego recorrentemente manifesto nas trajetórias ocupacionais dos
indivíduos, ganhariam importância as instituições especializadas na
intermediação de oportunidades ocupacionais.
Entretanto, sabemos que o acesso a oportunidades de trabalho muitas e muitas
vezes se resolve por meio de mecanismos que escapam à racionalidade e às
instituições especializadas do mercado, e passa pelas redes tecidas pelos
indivíduos em suas distintas esferas de sociabilidade no curso da vida
cotidiana. A esse respeito, o debate sobre o acesso às oportunidades de
trabalho, e em particular sobre a circulação de informações no mercado de
trabalho, é devedor das formulações de dois autores, Mark Granovetter e Nan
Lin37.
Granovetter, seguindo pistas tão diversas quanto as de Polanyi e White38,
sugeriu - e documentou empiricamente - que a criação e a evolução de um mercado
(aí compreendido o mercado de trabalho) dependeriam de certo número de
condições sociais e políticas que contribuiriam igualmente ao seu
funcionamento, o que Swedberg39 posteriormente denominaria "estrutura social do
mercado".
No caso das oportunidades ocupacionais, ou da procura de trabalho, por exemplo,
haveria que ter em conta os "contatos" a partir dos quais as pessoas se
tornavam sabedoras da informação pertinente, mesmo quando elas não estivessem
disponíveis no mercado, em busca de uma ocupação. Assim, ao entrevistar chefias
e quadros mais altamente qualificados em seu famoso estudo, Granovetter40 deu-
se conta de que o encontro entre demandantes e ofertantes de trabalho não era
nada trivial e poderia se realizar por diferentes tipos de mecanismos, dentre
os quais destacou três: os procedimentos impessoais (como anúncios e agências
de emprego), as candidaturas espontâneas (via prospecção direta junto aos
empregadores) e os contatos pessoais. Pouco mais que cinco em cada dez
indivíduos por ele investigados reconheciam nos contatos pessoais, e não nos
mecanismos mercantis, a grande via para localizar oportunidades de trabalho.
Em estudo que realizei em 2001 na região metropolitana de São Paulo, indagados
em survey domiciliar por amostra representativa da PIA41, nada menos que sete
em cada dez indivíduos consideravam as informações obtidas junto a familiares,
amigos e conhecidos como sendo a forma mais corrente de buscar trabalho; além
disso, esta era a forma que (em mais da metade dos casos) se mostrara efetiva
para a obtenção do último emprego. E embora o peso dos mecanismos
institucionais e dos circuitos impessoais se mostrasse bem maior ali do que em
Paris e Tóquio, duas outras metrópoles também investigadas, não era descartável
a importância dos contatos pessoais também nessas duas outras metrópoles;
entretanto, era em São Paulo onde esses contatos adquiriam notável
relevância42. E estes não provinham apenas dos chamados "elos fracos", como
fora documentado por Granovetter ou por Degenne e Forsé43.
Posteriormente, em novo surveyconduzido em 200444, pesquisei mais detidamente
uma amostra representativa daquele grupo de indivíduos que dizia procurar
regularmente trabalho em agências de emprego, ou seja, via as instituições do
mercado de trabalho. Eles eram minoria, representando apenas três em cada dez
pessoas no levantamento que conduzi em 2001, mas, apesar disso, me debrucei
sobre eles, em nova pesquisa. E, de fato, quando indaguei a esses indivíduos
amostrados no novo estudo sobre como costumavam procurar trabalho, respondiam
de modo avassalador que o faziam através das instituições de intermediação do
mercado.
Entretanto, e para minha surpresa, quando analisados os últimos empregos por
eles obtidos, um número igualmente avassalador respondia tê-los localizado não
através das agências onde procuravam, mas das suas próprias redes. No mais das
vezes, eram redes formadas pelo circuito familiar (não necessariamente
domiciliar) e de vizinhança; os mais velhos, e com maior experiência no
trabalho, tinham nos contatos profissionais, nos antigos colegas, fontes
eficazes para lhes levar a obter novos empregos45. Mas observei também que era
precária a qualidade dos empregos obtidos através dos circuitos de maior
proximidade; eles duravam pouco e produziam inserção de baixo prestígio se
comparados aos empregos obtidos através dos circuitos profissionais de
circulação da informação.
Qual a importância desses achados e reflexões para um estudo sobre a operação
do mercado de trabalho e, mais exatamente, sobre as oportunidades de saída do
desemprego? Eles sugerem que nem todos os indivíduos têm igual acesso às
informações ocupacionais pertinentes e, nesse sentido, nem todos se beneficiam
de modo igual de suas redes de relações. Por vezes, porque a rede à qual têm
acesso é menos eficaz em termos da informação que nela circula; outras vezes
porque sua própria posição na rede lhes é menos favorável que a outras pessoas.
Mas, observando de maneira mais acurada estes resultados eles indicam que a
articulação entre ofertantes e demandantes de trabalho está longe de ser
automática, e nem mesmo se realiza por mecanismos unicamente mercantis de
difusão da informação; ela é, e em grande medida, um subproduto de
outrasrelações sociais que nãotêm uma dimensão mercantil. O funcionamento do
mercado de trabalho, como de resto de outros mercados, demanda, assim, que
estruturas sociais subjacentes sejam examinadas de maneira a se compreender as
formas de transmissão de oportunidades. Nesse sentido, fica evidente que se
trata de um processo que não se resume a mecanismos usuais de coordenação
mercantil via sistema de preços (no caso o preço pelo qual se admite trabalhar
ou, visto por outro ângulo, o preço pelo qual se aceita recrutar um
trabalhador).
A análise das redes pessoais, ao modo do que sugerem os estudos de Mark
Granovetter e Nan Lin, é certamente uma via para flagrar o processo pelo qual
se estrutura o acesso a ocupações. Uma via instigante, como vimos, e que nos
permite ir além do que até aqui tradicionalmente fazia a sociologia do trabalho
quando retratava os resultados da operação do mercado de trabalho, expressos na
dinâmica da estrutura do emprego.
Mas, os insigntsdesta nova sociologia econômica permitem levar um pouco mais
longe a agenda de estudos do mercado de trabalho, no que concerne aos
mecanismos mobilizados para seter acesso aum emprego.
Isto porque, a procura de trabalho não é um empreendimento simples, como
poderia parecer a primeira vista, pautado por certo voluntarismo do demandante
de emprego. Conquanto tal voluntarismo pudesse parecer evidente, a um olhar
apressado, nas próprias respostas daqueles que encontramos, buscando ativamente
oportunidades de trabalho em agências de emprego, a análise qualitativa das
interações que transcorriam na situação de procura de trabalho deixou entrever
o longo caminho que por vezes tinha que ser percorrido para bem qualificar-se
como um "demandante de emprego". Assim, não basta estar desempregado para
habilitar-se e ser reconhecido como um "bom demandante de emprego".
Isto porque não é nada trivial estar no mercado à procura de trabalho. Quando
escasseiam as vagas, flexibilizam-se os momentos e as condições em que estas
são oferecidas, bem como se elevam os requerimentos para ocupá-las e abundam os
indivíduos que as almejam. Nessas condições, as empresas, em sua busca
incessante da focalização racionalizadora, externalizam seus antigos encargos
de localizar e triar candidatos. Intermediários passam a atuar nesses grandes e
opacos mercados fazendo a primeira seleção de pretendentes, de sorte que o
coredo setor de RH das empresas usuárias apenas define os perfis almejados e
bate o martelo sacramentando a decisão, após apreciar unicamente os candidatos
mais competitivos e perfeitamente aderidos a tal perfil.
A empresa não quer despender custos nesse processo; e, ao contratar um
intermediador da sua relação (de triagem e/ou contratual e/ou de supervisão)
com aqueles a quem emprega, tampouco aceita que tal agenciador se equivoque,
enviando-lhe um pretenso trabalhador que não cabe no figurino ou que, uma vez
em atividade, não manifeste as características que levaram ao seu recrutamento.
Assim, nesse novo contexto, espera-se a "melhor performance" tanto do
trabalhador a ser contratado, como da agência de empregos ou da empresa de
trabalho temporário que o triou. Para estas últimas, o melhor desempenho do
candidato indicado é condição para a boa apreciação da sua própria
performancecomo fornecedora de trabalho e, logo, de continuidade da relação de
serviço que as une à empresa usuária. Fidelização buscada, paradoxalmente, em
meio ao torvelinho da flexibilidade crescente, tal como Koene e Purcell46 já
haviam sugerido.
Ora, assim sendo, não basta estar desempregado, ou à procura de trabalho, para
"naturalmente" ser considerado habilitado a ocupar uma vaga. Para melhor
compreender esse processo de legitimação do indivíduo como demandante de
trabalho, como um possível empregado, todo um percurso no mercado de
intermediação tem lugar.
Arriscaria dizer que nosso conhecimento acadêmico sobre a existência e a
natureza de tal percurso, ao menos como documentado na literatura sociológica
brasileira, era, até aqui, virtualmente nulo. Por conta disso, dirigi um
trabalho de equipe, voltado à observação sistemática, próxima ao estilo das
etnografias que tanto gosto fazem aos antropólogos do trabalho. Neste estudo,
procuramos esquadrinhar a operação do mercado de trabalho tomando um ponto de
partida-o da situação de procura de trabalho. Esta foi reconstruída a partir da
observação sistemática e voltada a flagrar diversos pontos de vista: o do
desempregado em procura, o do preparador de currículos, o da recepcionista da
agência de empregos, o da selecionadora de candidatos, o dos "homens-placa" que
veiculam no próprio corpo oportunidades de trabalho.
Ao fazê-lo, foi possível identificar a diversidade de procedimentos e de regras
de conduta que permitem ao indivíduo em situação de desemprego construir-se,
representar-se e ser percebido como um demandante digno de habilitar-se a uma
vaga no mercado de trabalho.
Tomamos como espaço de observação o clusterdos intermediadores situado no
chamado "centro novo" da cidade de São Paulo, também conhecido como "o
quadrilátero da Barão" (por referência à rua Barão de Itapetininga e a
djacências). Essa escolha se fez depois deprocedimentos prévios de análise
quantitativa que georeferenciaram as agências (privadas e mantidas pelo recurso
público) no espaço do município.
Tal processo de "construção social do demandante de trabalho", como referirei
doravante, é perceptível com maior nitidez justamente quando analisamos os
agentes privados do mercado de intermediação. Tal como desenvolvi mais
detalhadamente em outra ocasião47, uma sorte de rationaleoperacional
diferenciaria (e paradoxalmente aproximaria) os intermediadores privados, de um
lado, e os mantidos pelo recurso publico (agências do governo e do sindicato),
de outro. Enquanto os primeiros são bons captadores de vagas, os últimos
parecem especializados em atrair demandantes de emprego. Por isso mesmo, as
situações de procura de trabalho variam se observadas do ponto de vista das
agências privadas ou das agências mantidas pelo recurso público. Para o
entendimento do processo de "construção social do bom demandante de emprego", o
contexto da procura em agências privadas é particularmente elucidador. Por que?
Retomo esse ponto, como um parênteses esclarecedor, antes de seguir adiante.
Faço-o na esteira da abordagem proposta por Callon48, que ressalta o valor
heurístico de entendermos as ações econômicas sem desprezarmos as tecnologias e
os artefatos específicos que formam parte da situação em que elas transcorrem.
Vejamos como umas e outras se apresentam nas situações de procura de trabalho.
Os sistemas governamental e sindical de intermediação de empregos,
particularmente o primeiro, são muito bem - sucedidos em capturar e identificar
aquele que necessita de trabalho. Por isso mesmo, entre os que são financiados
pelo recurso público (FAT), há um notável ganho de qualidade com relação ao
acesso e ao mapeamento dos demandantes. O mesmo pode ser dito com respeito aos
modos de acolhida e ao tratamento conferido ao individuo em busca de trabalho.
Um elevado investimento em infra-estrutura tem lugar, sustentado por um sistema
de informação de excelente qualidade, que requer para sua operação um corpo de
funcionários capacitados (no manejo do sistema e na condução da entrevista para
coleta de dados do demandante), além de espaço físico amplo e de investimentos
diversos no layoutdas agências. Tudo isso (propiciado pelo recurso público)
assegura a recepção e o processamento das demandas dos desempregados em bases
altamente profissionais e tecnicamente refinadas, como no caso de algumas
agências do circuito sindical, que chegaram mesmo a especializar espaços para
acolher demandantes de qualificação de nível superior, de modo a lhes ajudar a
ultrapassar a vergonha associada não apenas à procura de emprego, mas às
condições socialmente humilhantes em que tal procura costuma fazer-se (grandes
filas, formadas à madrugada, em busca de senhas)49.
Já as agências de emprego privadas e as empresas de trabalho temporário têm a
sua rationaleoperacional, como vimos, movida não tanto pelo intuito de
fidelizar o demandante, mas pelo intuito de fidelizar a empresa usuária, a que
contrata os seus serviços para preencher vagas. Sua performanceserá tanto mais
bem sucedida quanto maior for o número de empresas clientes e quanto mais
rápida e eficiente for sua capacidade de encaminhar candidatos potencialmente
recrutáveis ou de prover de trabalhadores subcontratados a empresa "tomadora
dos seus serviços". Mas, em sua grande maioria, e notadamente entre as de
pequeno e médio porte, essas empresas fazem baixíssimos investimentos no que
concerne à captura de demandantes, os quais lhes chegam por gravidade, dado o
efeito inercial do grande e recorrente desemprego.
Chegando por gravidade - e em grandes números - tais demandantes devem saber
apresentar-se aos intermediários privados da maneira mais apropriada possível,
conformes com as regras de reconhecimento de um potencial candidato, pret - à -
porterdo ponto de vista da triagem e do encaminhamento. Para tal, requer-se um
modo adequado de agir e de apresentar suas qualificações, habilidades e
pretensões. Apresentar-se conforme essa regra é obrigação do desempregado de
sorte a maximizar as chances de ser reconhecido. Os custos, pessoais.
Essa regra começa com a apresentação de si: limpo, "condignamente" trajado e
sobretudo portando um curriculum vitaeimpresso e construído de molde a ser
facilmente esquadrinhado pela funcionária encarregada da recepção, sempre
desafiada a realizar muito rapidamente a primeira triagem. Do êxito nesse
primeiro momento depende a sobrevivência do candidato no segundo passo, qual
seja, ser considerado digno de passar à retaguarda da agência, depois de
apresentar pretensões de trabalho e de salário cabíveis com alguma das
oportunidades ofertadas50. Somente vencida essa primeira barreira é que o
processo de seleção se inicia, ao menos no que concerne àquela sua parcela
visível ao senso comum. Entretanto, tal processo começou muito antes, por duas
razões principais.
Primeira, porque estamos num mercado fortemente heterogêneo, onde são
recorrentes as trajetórias despadronizadas, fragmentárias e, no caso dos jovens
(significativos neste tipo de procura via instituições do mercado), os
percursos marcados pela escassa experiência de trabalho, notadamente aquela que
mais conta, a registrada em carteira.
Segunda, porque tal mercado se enraíza num contexto de enorme desigualdade
social e elevada pobreza. Com isso, falta aos indivíduos as precondições para
se apresentarem na situação de procura como "bons demandantes de trabalho".
Assim, do ponto de vista do seu elo com a estruturação do mercado de trabalho,
falta à maior parte desses demandantes a biografia ocupacional almejada pelos
ofertantes de vagas. Ademais, grande parte deles sequer tem o capital cultural
para suprir os requisitos de apresentação de si: não têm currículo, alguns
sequer sabem do que se trata; outros, se o sabem, não operam computadores e não
teriam condições prepará-los, já que lhes faltam os meios materiais para dispor
de um computador e de uma impressora, de modo a dar ao currículo a forma
impessoal e profissional que é condição sine qua nonpara apresentar-se diante
da recepcionista numa agência privada.
Assim sendo, e avanço uma hipótese a partir dessa pista, num mercado tão
heterogêneo e fortemente instabilizado pelo desemprego recorrente, onde se
contraíam, no momento da minha pesquisa, os postos preenchidos conforme a velha
norma (e o sempre atual desejo) - a do trabalho formal, "registrado em
carteira", "fichado" - , e, a par disso, tão profundamente marcado pela
desigualdade e pobreza, o processo de construção social do demandante de
emprego, momento primeiro da caracterização da procura de trabalho, passa a ser
um nicho onde se estabelecem outrosagentes intermediadores, outras firmas, ou
"quase - firmas".
Agentes precários (muitas vezes) e que intermedeiam não propriamente
informações sobre oportunidades de trabalho, mas conhecimentos e procedimentos
para que o atual desempregado (e potencial demandante) possa bem apresentar-se
e ser reconhecido como um demandantelegítimo, habilitando-se a ter acesso
àinformação sobre vagas e apleite á-las. Pequenos empreendimentos que concebem
e" produzem" currículos e/ou que os reproduzem são o ponto de passagem inicial,
que criam a necessidade de si, mercantilizando a realização de uma tarefa que
em outros contextos sociais (nacionais ou de classe) seria parte da iniciativa
individual do próprio trabalhador. Inexistindo tal possibilidade para muitos,
há que entrar no mercado da intermediação pagando o preço de compra dessa
mercadoria especial, passaporte quase mágico, o currículo digno e impresso em
tantas vias quantas se alcance comprar e distribuir. É ele que estabelece o
mínimo denominador comum formal aos desempregados (pobres, a maioria) que
querem adentrar à procura de trabalho nas agências privadas de emprego.
No caso dos desempregados de classe média, cuja procura já se faz pelos meios
eletrônicos, muitas agências virtuais põem à disposição da pessoa que as acessa
um serviço (com freqüência pago, como parte de um pacote) de preparação e/ou
revisão do currículo, que toma como ponto de partida o formulário preenchido
com perfil e pretensões no momento da inscrição no sítio internet da agência
virtual de empregos.
O processo de construção do currículo é ele próprio um veio rico para se intuir
sobre o imaginário social acerca do que deve ser um "bom demandante" de
emprego, representações postas em ação pelo trabalho profissional dos
intermediadores, que procuram "bem ves - tir" o demandante com as
características que o mercado pretende neles encontrar. Compromisso,
proatividade, envolvimento, interesse em aperfeiçoar-se, toda a cesta de
atitudes que a literatura gerencial sobre os novos ambientes reestruturados
imputa aos trabalhadores que neles podem sobreviver reaparece agora, por assim
dizer de fora para dentro, de modo a elevar as chances de admissão de um
cliente cujo currículo se prepara e/ou cujo perfil se quer valorizar51.
Mas a construção social do "bom demandante" não para aí. Há que saber bem
desempenhar na situação de entrevista, inicialmente na própria agência, de
sorte a poder ser posteriormente enviado como um candidato viável à entrevista
final na empresa usuária. Para tanto, todo um outro conjunto de mecanismos -
que também progressivamente se mercantilizam - interpõe-se entre o trabalhador
e as vagas pretendidas. Para os mais bem providos financeiramente é possível
pagar por consultorias que os preparem para as entrevistas ou para as
"dinâmicas" (como são corriqueiramente chamadas as sessões de dinâmicas de
grupo). A mercantilização opera, assim, como um divisor de águas que é a um só
tempo social e de classe.
As mais modernas empresas de intermediação, que já distam muito de serem apenas
agências de emprego (as quais fazem apenas a circulação da informação e a
triagem preliminar), atuam com uma variedade bem mais ampla de produtos; assim,
por exemplo, elas desenvolvem serviços de "dicas", muitas vezes gratuitas, que
operam como uma sorte de socialização antecipada do desempregado, que a elas já
acorre, pela via da interação virtual, minimamente capacitado. Novamente,
diante da abundância de oferta, a racionalização do seu trabalho pode se fazer
transferindo algumas iniciativas para o trabalho autônomo de construção de si
pelo desempregado. É certo que isso supõe uma certa posição social e um certo
capital cultural, sem os quais a autonomização carecerá de bases materiais e
simbólicas.
Aqueles que não apresentam tais características podem ficar restritos às
agências menos onerosas, provedoras de serviços menos complexos,
intermediadoras de vagas de pior qualidade e muitas vezes localizadas em
espaços tão recônditos (pelo alto custo de locação nas posições mais visíveis
dentro dos clustersmais importantes) que o primeiro elo da cadeia de
intermediação entre agência e demandante é ele próprio uma figura bizarra,
novamente só cabível nos mercados (ou entre os indivíduos) sujeitos a intensa
pobreza e desqualificação, os "homens-placa" ou "plaqueiros"52. Trabalhadores
da intermediação, eles são a ponta mais avançada das pequenas agências, usando
seu próprio corpo como standde exposição das oportunidades cujo preenchimento a
"sua" firma precisa intermediar. Misto de stands, pessoas desprovidas de
humanidade, são também agenciadores eficazes, circulando com as vagas em
exposição justamente onde se acumulam os desempregados, numa surpreendente
relação de trabalho que pode ter a durabilidade que o mercado nega à grande
maioria dos seus trabalhadores. Senhores, no mais das vezes homens, com
freqüência aposentados, eles expõem vagas em seus corpos por 5, 10, 12 anos,
num laço ininterrupto com um tipo de ocupação, até aqui tão invisível aos
estudos da sociologia do trabalho, quanto eles o são aos olhos dos
desempregados que "os consultam".
Acredito que essa complexidade dos agentes e das condutas na situação de
procura, particularmente visível quando a buscamos vislumbrar pelas lentes
institucionalizadas das agências de emprego, serve para documentar o argumento-
chave que me anima: o de que o entrecruze entre oferta e demanda de trabalho
não é trivial, mas-para fazer jus à riqueza da abordagem sociológica-ele
precisa ser tratado como um processo, e não apenas pelo seu resultado (um
quantumfinal de empregados ou de desempregados), como corriqueiramente tem sido
feito nas análises (mesmo aquelas de natureza sociológica) acerca dos mercados
de trabalho.
Nesse sentido, acredito ter ilustrado que, ao tomar a situação de procura como
um objeto de investigação sociologicamente relevante para desvendar a dinâmica
dos mercados de trabalho, é possível entrever como a obtenção de trabalho é um
processo multifacetado em sua rica construção social. Mais ainda, este tipo de
abordagem revelou o seu notável valor heurístico para desvendar novas
configurações do trabalho e da sua circulação mercantil.
Analisá-las requer não apenas entender, como fazem mais das vezes os
economistas ou uma certa microsociologia do trabalho, a dinâmica das firmas em
seus movimentos de reestruturação e de absorção do trabalho. Nem mesmo como
tradicionalmente tem feito a sociologia do desemprego-ao pesquisar o
trabalhador individual em busca de ocupação - , indagando por seu tempo de
procura de trabalho, seu perfil e pretensa empregabilidade, de modo a desvendar
a seletividade do processo ou o sofrimento subjetivo que a ele se associam. Se
estes são certamente aspectos importantes, eles não são suficientes para bem
compor uma agenda para a sociologia dos mercados contemporâneos de trabalho.
Abrir a caixa preta do encontro entre ofertantes e demandantes de trabalho,
penetrar no coração daquilo que se define como o mercado de força de trabalho
torna-se, então, uma dimensão analítica crucial. E, ao mesmo tempo, um exemplo
de como uma análise sociológica dos mercados de trabalho pode se erigir com
base numa agenda autônoma que não a reduza (ou subsuma), como antes, seja à
sociologia das desigualdades e da estratificação social, seja à sociologia das
ocupações, seja à sociologia industrial e das organizações, ou mesmo à
sociologia do desenvolvimento, para não falarmos da economia do trabalho.
A observação da situação de procura, das instituições que ali se apresentam,
das performances que nela têm lugar e das redes que sustentam a efetiva
obtenção da ocupação é, assim, um exemplo de como se pode restabelecer o
sentido forte da análise sociológicado mercado de trabalho. Uma reflexão
compreensiva sobre relações sociais situadas, isto é, socialmente construídas,
capaz de revelar como operam os mercados contemporâneos de trabalho em sua
diversidade estrutural e institucional, material e simbólica.
NADYA ARAUJO GUIMARÃES é professora titular do Departamento de Sociologia da
Universidade de São Paulo e pesquisadora do CNPq associada ao Centro de Estudos
da Metrópole.
[*] Exposição proferida por ocasião do concurso para professora titular do
Departamento de Sociologia da Universidade de São Paulo, área de Sociologia do
Trabalho. São Paulo, 8 dez. 2008.
[1] Méda, D. Le travail: une valeur en voie de disparition. Paris: Aubier,
1995.
[2] Kalleberg, A. e Sorensen, A. "The sociology of labor markets". Annual
Review of Sociology, vol. 5, 1979, pp. 351 - 79.
[3] Caplow, T. The sociology of work.Nova York: McGraw-Hill, 1954.
[4] Erbes - Séguin, S. La sociologie du travail. Paris: La Découverte, 1999.
[5] Freidmann, G. e Naville, P. (orgs. ). Traité de sociologie du travail.
Paris: A. Colin, 1962.
[6] Ledrut, R. La sociologie du chômage. Paris: Presses Universitaires de
France, 1966.
[7] Kalleberg e Sorensen, op. cit. , p. 351.
[8] Ibidem.
[9] Fligstein, N. e Dauter, L. "The sociology of markets". Annual Review of
Sociology, vol. 33, 2007, pp. 105 - 138.
[10] Bendix, R. e Lipset, S. M. (eds. ). Class, status, and power: social
stratification in comparative perspective. 2 ed. Nova York: The Free Press,
1966; Lip-set, S. M. e Bendix, R. Social mobility in
industrial society. Berkeley: University of Califórnia Press, 1959; Blau, P. e Duncan, O. D. The american occupational structure.Nova
York: Wiley, 1967.
[11] Destacam-se, entre os clássicos dos anos de 1960, os estudos de
Hutchinson, B. e outros. Mobilidade e trabalho. Rio de Janeiro: Centro
Brasileiro de Pesquisas Educacionais, 1960; Hutchinson, B.
"Urban mobility rates in Brazil related to migration and changing occupational
structure". América Latina, nº 5, 1962, pp. 3 - 20; Moreira
Jr. , R. "Educação, estratificação e mobilidades sociais no Brasil". In:
Moreira Jr. . Educação e desenvolvimento no Brasil. Rio de Janeiro: Centro
latino-americano de Pesquisas em Ciências Sociais, 1960;
Kahl, J. "Urbanização e mudanças ocupacionais no Brasil". América Latina, nº 5,
1962, pp. 196 - 223; Gouveia, A. J. "Desenvolvimento
econômico e prestígio de certas ocupações". América Latina, nº 9, 1965, pp. 66-
78.
[12] Hagen, E. On the theory of social change: how economic growth begins.
Homewood: Dorsey Press, 1962; Eisenstadt, S. Modernization,
protest and change. Englewood Cliffs, NJ: Prentice - Hall, 1966; McClelland, D. The achieving society. Princeton, NJ: Van Nostrand,
1971; Parsons, T. The social system.Londres: Routledge &
Kegan Paul, 1952; Germani, G. Sociologia da modernização.São
Paulo: Mestre Jou, 1974.
[13] Hutchinson e outros, op. cit. ; Hutchinson, op. cit. ; Gouveia, op. cit.
[14] Lopes, J. Sociedade industrial no Brasil. São Paulo: Difusão Européia do
Livro, 1965; Idem. A crise do Brasil arcaico. São Paulo:
Difusão Européia do Livro, 1967.
[15] Bazzanella, W. "Estratificação e mobilidade social no Brasil: fontes
bibliográficas". Rio de Janeiro: Centro Brasileiro de Pesquisas Educacionais,
1956; Idem, "Problemas de urbanização na América Latina:
fontes bibliográficas". Rio de Janeiro: Centro Brasileiro de Pesquisas
Educacionais, 1960; Costa Pinto, L. A. e Bazzanella, W.
Processos e implicações do desenvolvimento. Rio de Janeiro: Zahar, 1969; Lopes. Desenvolvimento e mudança social.São Paulo: Editora
Nacional/Editora da Universidade, 1968; Madeira, F. eSinger,
P. I. "Estrutura doemprego e trabalho feminino no Brasil". Caderno Cebrap, nº
13, 1975; Faria, V. E. Occupational marginality, employment
and poverty in urban Brazil. Cambridge, Mass, PhD dissertation, Harvard
University, 1976.
[16] Ou "histórico-estruturais", como por vezes elas mesmo se denominavam.
[17] Uma história mais rigorosa do debate latino-americano certamente terá que
dar créditos à formulação inicial do Desal, instituição religiosa atuante no
Chile, e aos escritos do seu ideólogo principal, Roger Vekemans (ver Vekemans,
R. e Venezas, R. "Marginalidad, incorporación e integración". Santiago: Desal,
1966, mimeo. ), notadamente ao livro Marginalidad en América
Latina : un ensayo de diagnostico(Barcelona: Herder, 1969). A esse respeito,
ver Castro, N. A. Ejército de reserva: su especificidad y comportamiento
político en el desarrollo del capitalismo en Brasil. México, tese de doutorado,
Universidad Nacional Autónoma de México, 1983.
[18] Quijano veiculara um primeiro texto, que logo se tornou referência no
trato do tema: "Notas sobre el concepto de 'marginalidad social'". Santiago:
División de Asuntos Sociales/Cepal, 1966, mimeo. A
repercussão alcançada levou Quijano a participar de uma coletânea que marcou
época nos estudos latino-americanos: Quijano, A. "Urbanización, cambio social y
dependencia". In: Cardoso, F. H e Weffort, F. (eds. ). America Latina: ensayos
de interpretación sociológicaSantiago: Editorial Universitaria, 1967. Ver também do autor: "La formación de un universo marginal en las
ciudades de América Latina". In: Castells, M. (org. ). Imperialismo y
urbanización en América Latina. Barcelona: Gustavo Gili, 1973.
[19] Nun, J. L. "Sobrepoblación relativa, ejército industrial de reserva y masa
marginal". Revista Latinoamericana de Sociología, vol. 5, n. 2, 1969. Neste artigo o autor dá andamento ao argumento que começara a
delinear com Marin e Murmis em um manuscrito de 1967 (Nun, J. L. , Marin, J. C.
e Murmis, M. "Planteo general de la marginalidad en América Latina", Santiago,
1967, mimeo. ).
[20] Di Prete, T. e Nonnemaker, K. "Structural change, labor market turbulence
and labor market outcomes". Durham: Duke University, 1996, mimeo. ; Elias, P. "Occupational change in a working-life perspective:
internal and external views". In: Penn, R. , Rose, M. e Ruberry, J. (eds. ).
Skill and occupational change. Oxford: Oxford University Press, 1994, pp. 75-
105; Idem, "Reestruturação, requalificação e dispensas: um
estudo da dinâmica do mercado de trabalho do Reino Unido, 1991-95". Dados,
2004, vol. 47, nº 3, pp. 419-71.
[21] O ensaio de Francisco de Oliveira ("A economia brasileira: crítica à razão
dualista". Estudos Cebrap, nº 2, out. , 1972) tornou-se referê ncia obrigatória no debate. Oliveira voltaria ao tema outras vezes,
especialmente num outro texto que também marcou época: "A produção dos homens
sob o capital". Estudos Cebrap, nº 16, 1976.
[22] Coube a Oliveira trazer tal discussão para o centro da explicação sobre o
caráter do desenvolvimento capitalista no Brasil e sobre a natureza da aliança
política de classes e da forma de gestão do Estado em que tal desenvolvimento
se sustentava.
[23] Ao modo de Luiz Pereira. Trabalho e desenvolvimento no Brasil. São Paulo:
Difusão Européia do Livro, 1965.
[24] Machado da Silva, L. A. Mercados metropolitanos de trabalho manual e
marginalidade. Rio de Janeiro: dissertação de mestrado, Universidade Federal do
Rio de Janeiro, Programa de Pós - Graduação em Antropologia do Museu Nacional,
1971; Berlinck, M. Marginalidade social e relações de classe
em São Paulo. Petrópolis: Vozes, 1975; Kowarick, L.
Capitalismo e marginalidade na América Latina. Rio de Janeiro: Paz e Terra,
1975; Faria, op. cit.
[25] Kowarick, op. cit. ; Berlinck, op. cit. ; Fausto Neto, A. M. Q. Família
operária e reprodução da força de trabalho. Rio de Janeiro: Vozes, 1982; Bilac, E. D. Famílias de trabalhadores-estratégias de
sobrevivência: a organização da vida familiar em uma cidade paulista. São
Paulo: Edições Símbolo, São Paulo, 1978; Prandi, J. R. O
trabalhador por conta própria sob o capital.São Paulo: Edições Símbolo, 1978.
[26] Ao modo de Hagen. op. cit. ; Eisenstadt, op. cit. ; McClelland, op. cit.
[27] Ver Bilac, op. cit. , e Fausto Neto, op. cit. , entre outros.
[28] Lobo, E. S. "Expériences de femmes, destin de genre". Actes. Atelier/
production/reproduction. Paris, vol. 2, nº 7, pp. 205 - 16, 1988; Abreu. A. Trabalho industrial a domicilio na indústria de confecção.
São Paulo: tese de doutorado, Universidade de São Paulo, 1980; Hirata, Helena. Nova divisão sexual do trabalho? Um olhar voltado
para a empresa e a sociedade. São Paulo: Boitempo, 2002.
[29] Lopes, Sociedade industrial no Brasil, op. cit. ; Rodrigues, L. M.
Industrialização e atitudes operárias. São Paulo: Brasiliense, 1970.
[30] Ferrante, V. B. FGTS: Ideologia e repressão.São Paulo: Ática, 1978; Marini, R. M. Subdesarrollo y revolución. México: Siglo XXI,
1970; Idem. Dialéctica de la dependência. México: Era, 1977.
[31] Noronha, E. G. Entrea leie a arbitrariedade: mercados e relações de
trabalho no Brasil. São Paulo: LTr, 1999; Idem. "O modelo
legislado de relações de trabalho no Brasil". Dados, vol. 43, nº 2, 2000; Arbix, G. Uma aposta no futuro: os primeiros anos da câmara
setorial da indústria automobilística. São Paulo: Scritta, 1995; Cardoso, A. M. Nas teias da modernidade: pragmatismo sindical e
democratização do Brasil. São Paulo: tese de doutorado, FFLCH/USP, 1995.
[32] Swedberg, R. "Markets as social structures". In: Smelser e Swedberg, R.
(eds). The handbook of economic sociology.Princeton: Princeton University
Press, 1994, cap. 11, pp. 255-82; Fligstein, N. "Markets as
politics: a political cultural approach to market institutions". American
Sociological Review, vol. 61, pp. 656-73, 1996; Fligstein. N.
e Dauter. L. op. cit. ; Steiner, P. La sociologie économique. Paris: La
Découverte, 1999; Idem, "Le marché vu par la sociologie
économique". Lille, 2004, mimeo.
[33] Claro que aqui retomo, como inspiração, o argumento de Max Weber para
figurar o encanto da dinâmica dos mercados para a imaginação do sociólogo
(Economía y sociedad: esbozo de sociología compreensiva. México: Fondo de
Cultura Económica, 1961).
[34] White, H. C. "Where do markets come from?". American Journal of Sociology,
vol. 87, nº 3, pp. 517-87, 1981; Granovetter, M. "Economic
action and social structure: the problem of embeddedness". American Journal of
Sociology, vol. 91, nº 3, pp. 481-510, 1985; Idem, "The
sociological and economic approaches to labor market analysis: a social
structural view". In: Granovetter, M. e Swedberg, R. (eds. ) The sociology of
economic life. Boulder: Westview Press, pp. 233-63, 1991;
Garcia - Parpet, M. F. "La construction sociale d'un marché parfait: le marché
au cadran de Fontaines-en-Sologne". In: Actes de la Recherche en Sciences
Sociales, Paris, 1986, pp. 5 - 10; Swedberg, op. cit. ;
Fligstein, op. cit. ; Steiner, La sociologie économique, op. cit; Idem, "Le
marché vu par la sociologie économique", op. cit.
[35] Trata-se do projeto "À procura de trabalho: instituições do mercado e
redes", desenvolvido no Centro de Estudos da Metrópole (programa que reúne
Cebrap, USP e Fundação Seade), e que contou com apoio do CNPq e da Fapesp/
Programa Cepid.
[36] Embora pouco estudado entre nós, o tema tem sido tratado em outros
contextos. No que concerne aos Estados Unidos, ver Peck, J. e Theodore, M. "O
trabalho eventual: crescimento e reestruturação da indústria de empregos
temporários em Chicago". Revista Latinoamericana de Estudios del Trabajo, ano
5, nº 10, 1999. pp. 135-60. Benner, C. , Leete, L. e Pastor,
M. Staircases or treadmills? Labor market intermediaries and economic
opportunity in a changing economy. Nova York: Russell Sage Foundation, 2007. No que diz respeito à Europa, ver Benarrosh, Y. "Tri des
chômeurs et consensus des acteurs de l'emploi: vers une approche des 'trappes
d'inemployabilité'". Travail et Emploi, nº 81, jan. , 2000, pp. 9-26; Kartchevsky, A. e Caire, G. Les agences privées de placement et le
marché de travail. Paris: L'Harmattan, 2000; Forde, C.
"Temporary arrangements: the activities of employment agencies in the UK",
Work, Employment and Society, vol. 15, nº 3, 2001, pp. 631-44; Beynon, H. e outros. Managing employment change: the new realities of
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"Jobseekers and gatekeepers: the role of the private employment agency in the
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Latina, ver Echeverría, M. "Las empresas intermediarias en el mercado laboral".
In: Díaz, X. e Hola, E. (orgs. ). Trabajo, flexibilidad y género: tensiones de
un proceso.Santiago: Centro de Estudios de la Mujer, 2001, pp. 69-98.
[37] Granovetter. "The strength of weak ties". American Journal of Sociology,
vol. 78, nº 6, 1973, pp. 1361-80; Idem, "Introduction". In:
Getting a job: a study on contacts and careers. Cambridge: Harvard University
Press, 1974, pp. 3 - 22; Idem, "Economic action and social
structure...", op. cit. ; Idem, "The sociological and economic approaches...",
op. cit. ; Lin, N. Social capital: a theory of social structure and action.
Cambridge: Cambridge University Press, 2001.
[38] Polanyi, K. A Grande Transformação. As origens da nossa época. Rio de
Janeiro: Campus, [1944] 2000; White, H. "Matching vacancies
and mobility". Journal of Political Economy, vol. 78, nº 1, 1970, pp. 97-105; Idem, "Where do markets come from?", op. cit.
[39] Swedberg, op. cit. .
[40] "Introduction", op. cit.
[41] Trata-se da pesquisa "Desemprego: abordagens institucional e biográfica.
Uma comparação São Paulo, Paris, Tóquio", conduzida no Centro de Estudos da
Metrópole em parceria com a Fundação Seade. Foi levado a campo um questionário
suplementar à Pesquisa de Emprego e Desemprego - PED, entre abril e dezembro de
2001, recobrindo uma amostra de cerca de 50 mil pessoas, formada por
aproximadamente 7 mil desempregados, 16 mil inativos e 36 mil ocupados. Para
mais detalhes, ver Guimarães, N. A. Desemprego, uma construção social: São
Paulo, Paris, Tóquio.Belo Horizonte: Argvmentvm, 2009.
[42] Guimarães e outros. "Desemprego-mercados, instituições e percepções:
Brasil e Japão numa perspectiva comparada". Tempo Social, vol. 16, nº 2, 2004,
pp. 257-87; Guimarães. "Unemployment and occupational
transitions: trajectories and perceptions". In: Kase, K. e Sugita, K. (orgs. ).
The unemployed and unemployment in an international perspective: comparative
studies of Japan, France and Brazil. Tokyo: The University of Tokyo/Institute
of Social Sciences, 2006, pp. 42-67; Guimarães, Desemprego,
uma construção social..., op. cit.
[43] Granovetter. "The strength of weak ties", op. cit. ; Idem, "Introduction",
op. cit. ; Degenne, A. e Forsé, M. Les réseaux sociaux. Paris: Armand Colin,
1999, caps. 1-2, pp. 5-76.
[44] Trata-se do survey"À procura de trabalho", já referido anteriormente.
[45] Guimarães. "Como sair do desemprego? Laços fortes e laços fracos na
procura de trabalho em São Paulo". Comunicação ao IX Congresso da Brasa -
Brazilian Studies Association, Tulane University, New Orleans, USA, em 27 - 29
mar. 2008.
[46] Koene e Purcell, op. cit.
[47] Guimarães. "Empresariando o trabalho: os agentes econômicos da
intermediação de empregos, esses ilustres desconhecidos". Dados, vol. 51, nº 2,
2008, pp. 275-311.
[48] Callon, M. "Introduction: the embeddedness of economic markets in
economies". In: The Laws of the Markets. Oxford: Balckwell, 1998, pp. 1-57.
[49] Entretanto, de muito pouco adiantam os avanços nessa direção se eles não
se complementam com uma mobilização integrada das outras funções: a
(re)qualificação e sobretudo a captura das vagas que podem permitir a
recolocação. Efetivamente, o sistema mantido com recurso público é tão bem
organizado para mapear o demandante quanto mal aparelhado para localizar a vaga
que poderá acolhê-lo. Justamente essa característica cria a condição de
possibilidade para a paradoxal aproximação e eventual complementariedade de
interesses e esforços entre ambos.
[50] Cabe à recepcionista o primeiro interrogatório, caso haja compatibilidade
entre ocupação ofertada e pretensão de trabalho. Algumas perguntas - chave,
entre as quais se sobressai a pretensão salarial, e uma rápida e certeira
olhada no currículo podem decidir se o candidato segue adiante imediatamente
(para entrevista e/ou as correntes dinâmicas de grupo), se seu currículo é
lançado no grupo daqueles que podem ser tomados em conta (sendo ele chamado em
seguida) ou se é lançado a um lote de outros tantos que, embora aparentemente
armazenados, aos olhos do candidato que se retira contente, tem como destino a
cesta do lixo ou um estoque ao qual por muito tempo ninguém recorrerá.
[51] Para uma análise rica em detalhes, ver Hirano, L. F. K. "Currículo: a
embalagem do produto". In: Guimarães, N. A. (org. ). À procura de trabalho-
instituições de intermediação e redessociais na saída do desemprego: São Paulo
numa perspectiva comparada.Relatório Final do Projeto CNPq, São Paulo, CEM/DS,
2007, cap. 7, pp. 189 - 229.
[52] Vieira, P. "O homem e a placa ou a placa e o homem? Os "homens-placa" e a
procura de trabalho no Centro de São Paulo". In: Guimarães, À procura de
trabalho..., op. cit. , cap. 8, pp. 229 - 50.