Sobre a qualidade do crescimento: atores, instituições e desenvolvimento local
INTRODUÇÃO
Desde que as teorias de corte estruturalista perderam espaço para as
formulações de tipo neoclássico, a partir dos anos de 1970, o debate sobre
desenvolvimento perdeu muito de sua substância histórica e sociológica
(relacionada com as mudanças na estrutura social), reduzindo-se praticamente ao
debate sobre crescimento econômico. A chamada escola cepalina, por exemplo,
procurou temperar os esquemas neoclássicos de equilíbrio com análises
históricas sobre a formação das nações capitalistas periféricas (no jargão de
época), como os efeitos da herança colonial e da escravidão, das desigualdades
na distribuição da renda e da propriedade, da insuficiência e do atraso
institucional e dos regimes políticos autoritários1.
Em direção contrária, o pensamento neoclássico em ascensão tendeu a se fechar
nos dogmas liberais, com forte viés antiinstitucionalista, propagando programas
de desregulamentação e de limitação do papel das agências públicas na gestão
econômica e a crença ilimitada nos mecanismos de "livre-mercado". A hegemonia
neoclássica no plano concreto das ações de política econômica - cuja ênfase
monetarista e fiscalista pode ser aquilatada pelo hoje sepultado Consenso de
Washington - reduziu o debate sobre desenvolvimento a taxas de crescimento
econômico e a indicadores de "saúde" das finanças públicas.
Neste artigo, argumentamos que processos de crescimento econômico não podem ser
entendidos apenas em termos quantitativos, por meio das taxas de crescimento.
Sustentamos que é indispensável compreender também como os mecanismos de
enraizamento social imprimem características qualitativamente distintas ao
crescimento, mensuráveis tanto por seus impactos presentes (distribuição e
aproveitamento dos ganhos), como pela sua capacidade de sustentação no longo
prazo.
Seguindo as pistas abertas pela chamada Nova Sociologia Econômica2, este estudo
enfatiza o papel das instituições e das redes sociais como elemento central
para a compreensão dos processos concretos que dão sustentação ao crescimento
econômico e que lhe conferem características diversas conforme o contexto
histórico e social em que ocorrem. Em outras palavras, procuramos demonstrar
que sob a aparência das taxas similares de crescimento econômico podem se
ocultar dinâmicas sociais e institucionais muito distintas que, por sua vez,
definem os regimes de repartição da renda acrescida e estabelecem os parâmetros
para o crescimento futuro.
Introduzimos, portanto, a idéia de que o crescimento deve ser observado a
partir do par qualidade/sustentabilidade. Primeiramente, considerando que
qualidade pode ter muitas dimensões, esta pesquisa focaliza uma idéia de
crescimento sustentável que de alguma forma combine educação e qualificação de
mão-de-obra, base de conhecimento e possibilidades de inovação, diversidade
produtiva e encadeamentos, agregação de valor e formação de capital (novas
empresas). Tais fatores são apontados por autores de diversos matizes como
essenciais para o desenvolvimento, e são tratados aqui a partir de uma
abordagem relacional, ou seja, observando em que medida as relações sociais
entre os agentes críticos podem influenciá-los. E, em segundo lugar, entendemos
que processos de crescimento baseados na combinação de fatores como esses são
aqueles com maiores chances de se tornarem sustentáveis no tempo.
Sustentabilidade aqui significa um processo de crescimento econômico de longo
prazo fundado em fatores qualitativos.
Trabalhamos, então, com a idéia de que instituições são construções sociais que
tanto fecundam como são fecundadas pelas constelações de redes sociais em que
se encontram imersas; elas não só dependem das dinâmicas sociais preexistentes,
mas também induzem a formação de novas redes de relações sociais. Nas palavras
de Granovetter e Swedberg:
Uma ação econômica é socialmente localizada e não pode ser explicada
simplesmente pelas motivações individuais. Ela está enraizada em
redes de relações pessoais e não é conduzida por atores atomizados.
Entendemos as redes como um conjunto regular de contratos ou conexões
sociais entre indivíduos ou grupos. Uma ação por um membro de uma
rede é enraizada porque se expressa em interação com outras pessoas3.
No mundo "real", distante dos modelos abstratos de mercado, os indivíduos podem
até agir racionalmente na perseguição de seus interesses individuais, mas o
fazem sempre constrangidos por normas, instituições e costumes, e movidos por
valores, crenças e sentimentos. As trocas mercantis entre indivíduos e
empresas, a busca e a conquista de um emprego e a decisão de investir capital
em alguma atividade produtiva são explicadas pela racionalidade instrumental
tanto quanto por relações de confiança e solidariedade (que redundam em ações
de cooperação), de dominação e consentimento (que envolvem relações de poder).
E as próprias instituições econômicas estão enraizadas em sistemas de relações
sociais concretos4. Nesse sentido, as instituições devem ser entendidas como
entidades vivas e cujo significado social se transforma ao longo do tempo.
As pistas (re)abertas pela Nova Sociologia Econômica - muitas delas já
presentes nos clássicos da sociologia, como Weber, Simmel e Marx - vêm se
desdobrando em problemas, programas de pesquisa e arcabouços metodológicos
variados e ricamente complementares. Os vínculos sociais de todas as espécies
(familiares, afetivos, religiosos, étnicos, políticos, locais etc.); as redes
sociais e suas distintas morfologias; o espaço urbano como forma singular de
sociabilidade, aprendizagem e difusão de conhecimento; as identidades grupais
forjadas a partir de ambientes institucionais particulares (como escolas e
universidades); as organizações (sindicatos, associações profissionais,
organizações não-governamentais) como formas de capital social5. Enfim,
relações e interações sociais não necessariamente econômicas ganham enorme peso
na explicação da dinâmica dos fenômenos econômicos. E as abordagens deste tipo
têm sido especialmente frutíferas na análise de contextos produtivos
circunscritos regionalmente (como é o caso desta pesquisa), cujas denominações
se multiplicam: arranjos produtivos locais, aglomerações produtivas, clusters,
pólos industriais, sistemas industriais, cidades-regiões e economias
metropolitanas.
Um bom exemplo é o estudo de Saxenian6 sobre o desenvolvimento da indústria de
eletrônica/informática em duas regiões dos Estados Unidos: o Vale do Silício,
na Califórnia, e a Rota 128, em Massachusetts. Dois contextos de
desenvolvimento regional contemporâneos e baseados em indústrias de alta
tecnologia são confrontados a partir das características das relações entre
firmas e profissionais e destes com governos locais, instituições
universitárias locais, agências governamentais, demais atividades econômicas e
com o ambiente sociocultural em sentido mais geral, para explicar como
"estruturas econômicas" similares podem engendrar dinâmicas produtivas e
resultados econômicos radicalmente distintos por força dos diferentes padrões
de relações sociais que dominam cada região. Saxenian define três dimensões
para o estudo dos sistemas industriais: instituições locais e cultura
(organizações públicas e privadas, como universidades, associações empresariais
e profissionais, governos locais, clubes e agremiações de lazer, as quais são
moldadas pela cultura e história locais); estrutura industrial (divisão social
do trabalho e natureza dos vínculos entre consumidores, fornecedores e
competidores dentro de um setor ou complexo de setores relacionados); e
organização corporativa (grau de hierarquia ou coordenação horizontal,
centralização ou descentralização, alocação de responsabilidades e
especialização dentro das firmas). Nenhuma dessas dimensões isoladamente é uma
novidade nos estudos de economia regional, mas Saxenian dá um tratamento
integrado das três dimensões.
Os elementos qualitativos que buscamos identificar não são, portanto,
propriedades do crescimento econômico em si, mas sim desta dinâmica de
alimentação recíproca entre arranjos institucionais e contextos sociais, de um
lado, e o próprio processo de desenvolvimento econômico, de outro. Identificar
os padrões de interação entre os atores relevantes (firmas, agências
governamentais, agentes financeiros, instituições de ensino e pesquisa) e o
caráter específico que eles imprimem na dinâmica de crescimento econômico
constitui, assim, o eixo deste trabalho.
A pesquisa que nos serve de base é um estudo comparativo a partir de dois
municípios do Brasil: Santa Rita do Sapucaí, no estado de Minas Gerais, e
Ilhéus, na Bahia. Trata-se de dois espaços regionais localizados no interior de
seus estados e de tamanho pequeno a médio. Voltados anteriormente para a
agricultura, ambas as cidades concentram atualmente importantes sistemas
produtivos nos setores de eletroeletrônica e informática, os quais se
desenvolveram no primeiro caso, a partir dos anos de 1970, e no segundo, nos
anos de 1990. Sujeitos à mesma estrutura macroregulatória nacional, o
substantivo crescimento desses dois pólos foi motivado, contudo, por
combinações particulares de políticas de incentivo de poderes públicos
municipais e estaduais e por ambientes socioinstitucionais locais
significativamente diferentes. Nos dois casos, o crescimento verificado nos
últimos trinta anos foi expressivo (bem superior à média nacional) e por isso
mesmo eles oferecem uma oportunidade interessante para analisar os efeitos de
configurações sociais distintas sobre o crescimento econômico - não só sobre a
quantidade, mas também sobre a qualidade e a sustentabilidade deste
crescimento7.
Além de utilizar dados econômicos convencionais (evolução do produto, do número
de empresas e da força de trabalho), realizamos entrevistas com agentes
públicos (esferas federal, estadual e municipal), empresários e membros de
universidades, escolas, incubadoras e associações de classe8. Nossa hipótese
central é a de que diferentes tipos de interação entre atores públicos e
privados não só influenciam diretamente a quantidade do crescimento como também
fatores qualitativos desse processo, levando a resultados variados em termos da
transformação socioeconômica de um dado espaço (qualidade) e de sua duração no
tempo (sustentabilidade).
Este texto está estruturado da seguinte forma. Na parte 2, depois da
Introdução, apresentamos as evidências de crescimento econômico de Santa Rita e
Ilhéus. A seção seguinte está dividida em três itens e analisa o material
coletado no trabalho de campo, discutindo as interações entre agentes e a
qualidade do crescimento em cada um dos casos estudados. No primeiro,
explicamos a ignição dos processos de crescimento; no segundo, focalizamos a
apresentação das interações entre os agentes públicos e privados; e no
terceiro, as interações entre os atores privados. Na última parte, as
considerações finais.
OS MUNICÍPIOS E AS EVIDÊNCIAS DE CRESCIMENTO: O QUE HÁ DE SEMELHANTE ENTRE
SANTA RITA E ILHÉUS?
Como se pode observar nas Tabelas_1 e 2, as duas cidades em estudo
experimentaram significativo crescimento no final do século XX, graças, em boa
medida, aos esforços empregados na constituição de parques industriais. No
período de entre 1970 e 1980, os dois municípios, seus respectivos estados e o
Brasil crescem de forma robusta. O município de Santa Rita tem crescimento
acima da média entre 1980 e 1996 (Tabela_1). Neste período, sua indústria
cresce significativamente, a taxa média anual de 8%, alavancada pelo setor de
eletroeletrônica e telecomunicações, que começa a ganhar corpo (Tabela_2). No
mesmo período, Ilhéus sofre com a crise na produção de cacau e passa por
recessão, com quedas bruscas em todos os setores. Não é à toa que a cidade
baiana se levanta justamente entre 1996 e 1999, puxada pela criação do pólo de
informática em 1995: seu PIB cresce a uma média anual de 20% enquanto o estado
da Bahia a apenas 2% (Tabela_1).
Entre 1999 e 2004, Ilhéus cresce a uma taxa próxima de 4% ao ano, e Santa Rita
de 7%, período em que a economia brasileira ficou entre 2% e 3% (Tabela_1)9.
Nos dois casos, também foi a indústria a principal atividade a puxar a taxa de
crescimento local, com média anual setorial de 7% em Ilhéus e de 14% em Santa
Rita (Tabela_2). Entre os setores industriais, os que mais se destacaram foram
aqueles associados aos respectivos pólos de eletrônica e informática (Tabela
3).
Em que pesem as diferenças de porte entre os dois municípios - Santa Rita
possuía, em 2006, perto de 35 mil habitantes e Ilhéus pouco mais de 220 mil -,
as dimensões dos respectivos pólos são similares. Em 2005, o número de empresas
nos setores de eletroeletrônica e informática em Santa Rita beirava a noventa e
em Ilhéus a sessenta10. Além disso, em ambas as cidades, as empresas são na
esmagadora maioria micro ou pequenas, ou seja, cerca de 90% delas têm menos de
cinqüenta pessoas ocupadas.
O interessante é notar que, nos dois casos, o crescimento do número de empresas
de eletroeletrônica e informática entre 1996 e 2005 foi acelerado e bem acima
da variação em seus respectivos estados e do Brasil (Tabela_3). Em Santa Rita,
o aumento do número de empresas é de quase 200%, ao passo que os mesmos setores
em Minas Gerais crescem em 50% e no Brasil a quase 20%. Já em Ilhéus, a
variação é extraordinária em virtude da criação do Pólo de Informática em 1995.
Ou seja, a ação inaugurou o setor na cidade.
A Tabela_3 mostra também que, em Santa Rita, o número de empregados nos setores
selecionados experimentou um aumento de 720 para 3.304 entre 1996 e 2005
(359%), bastante acima da variação de pessoal ocupado nestes setores no estado
mineiro e no Brasil (além de estar acima do total da economia municipal no
período, 54,6%). O mesmo ocorre em Ilhéus, onde a variação de pessoal ocupado
foi de 335%, ou seja, um salto de 325 para 1.413 empregados após a criação do
pólo de informática - também acima do crescimento total do pessoal ocupado em
Ilhéus, 96%. No que concerne à massa salarial, ocorreu trajetória similar, com
exceção da variação para o setor em todo o Brasil, que foi negativa. Isto
reforça o peso do crescimento dos dois casos estudados.
O crescimento dos setores ligados à eletroeletrônica em Santa Rita e em Ilhéus
é evidente. O peso relativo desses segmentos em cada município, porém, é bem
diferente, sendo muito mais importante em Santa Rita do que em Ilhéus. Na
cidade mineira, as empresas desses setores representavam 10,5% do total de
firmas em todos os setores, respondendo por 35,6% do total de empregos formais
na cidade e 36,8% da renda salarial proveniente destes mesmos empregos formais.
O peso dos setores selecionados em Ilhéus é bem menor: são 2,5% do total das
empresas no município, 5,4% dos empregos formais e 4,9% da renda salarial
relativa ao conjunto dos empregos formais.
Os dados são claros a respeito do crescimento substancial dos dois municípios,
especialmente em relação aos setores ligados à eletroeletrônica. Entretanto,
tais informações sobre o quanto cresceram escondem muitas diferenças entre
esses dois casos. Dizer apenas que Santa Rita e Ilhéus cresceram não é
suficiente. Cabe observar: 1) como isso aconteceu; 2) quem são os atores
envolvidos; 3) como ocorreram as interações entre eles e a formação das redes
sociais; e 4) quão sustentáveis podem ser esses processos de crescimento.
Enfim, quais as diferenças entre os processos de crescimento em termos
qualitativos? A seção a seguir tratará dessas questões.
INTERAÇÕES E QUALIDADE DO CRESCIMENTO: O QUE HÁ DE DIFERENTE ENTRE SANTA RITA E
ILHÉUS?
ENTENDENDO A IGNIÇÃO DOS PROCESSOS DE INDUSTRIALIZAÇÃO LOCAIS
Instituições de ensino e redes sociais: o caso de Santa Rita do Sapucaí
O pólo industrial de Santa Rita é um bom exemplo da transformação da economia
brasileira ocorrida no século XX. Nos anos de 1970, o município mineiro passa
de uma economia fortemente rural (baseada no café) para uma economia urbana, em
que o setor industrial (especialmente eletroeletrônica e telecomunicações)
passa a ser preponderante. Podem ser considerados elementos-chave neste
processo a criação das instituições de ensino em articulação com atores
públicos e privados locais, bem como a proximidade com as áreas metropolitanas
de Belo Horizonte e São Paulo, com as quais o pólo mantém intensos fluxos de
bens, serviços, força de trabalho e conhecimento. Além disso, parte do sul de
Minas, região na qual Santa Rita está incluída, experimentou, entre os anos de
1960 e 1980, um significativo desenvolvimento tecnológico baseado em áreas como
engenharia mineral (em Poços de Caldas), engenharias mecânica e elétrica (em
Itajubá) e engenharia de materiais (em Lorena - já no estado de São Paulo,
próximo a Minas Gerais).
As primeiras empresas de equipamentos eletrônicos surgem em Santa Rita em
meados dos anos de 1970, mas a raiz para entender o sucesso do pólo remonta a
1959, quando é fundada a Escola Técnica de Eletrônica (ETE), seguida pela
fundação do Instituto Nacional de Telecomunicações (Inatel), em 1965, e pela
Faculdade de Administração e Informática (FAI), em 1971.
A fundação da ETE deve-se à iniciativa de uma personalidade da elite local com
vínculos sociais e políticos com lideranças do estado de Minas Gerais, alguns
destes com projeção sobre a política nacional. A fundação do Inatel foi menos
dependente da benfeitoria de um único ator do que da capacidade de articulação
da elite local. As duas instituições (ambas privadas) surgem num momento em que
declina a importância da atividade cafeeira e em que o Estado brasileiro
estimula o processo de industrialização. O fato de as possibilidades de
trajetória futura do município terem sido abertas pela criação de uma escola
técnica de segundo grau e de um instituto de ensino superior voltado para
engenharia - ambos com foco na formação de força de trabalho para as novas
atividades industriais numa região que ainda não dispunha de uma base produtiva
deste tipo - explicita como processos de desenvolvimento podem ter seu fator de
ignição primordial em elementos ditos "marginais" - do ponto de vista da
ciência econômica convencional.
Quando de seu surgimento, o Inatel era a primeira (e por muito tempo permaneceu
sendo a única) instituição nesta área no país. Segundo depoimentos, a idéia de
fundar um instituto de telecomunicações surgiu porque o setor se expandia no
Brasil, sob a liderança de empresas estatais (tanto do governo federal como dos
estaduais), e não havia ainda nenhuma base de formação acadêmica e pesquisa na
área. Os vínculos de membros da elite local com políticos de peso na esfera
estadual e a associação do Inatel com a companhia pública de telecomunicações
do estado de Minas Gerais foram determinantes para o sucesso do instituto, que
passou a responder pela formação de muitos de seus quadros (e posteriores
dirigentes), atraindo também investimentos e parcerias para as áreas de
pesquisa e desenvolvimento de tecnologias.
A importância das instituições de ensino para o desenvolvimento de Santa Rita é
de várias ordens e identificá-las significa iluminar alguns dos elementos que
ainda hoje explicam seu dinamismo particular. Desde logo, a formação local de
um tipo de força de trabalho especializada e ainda escassa no país dotou o
município de condições excepcionalmente favoráveis para o tipo de
desenvolvimento que se verificou posteriormente, mas a disponibilidade de
capital humano por si só não seria suficiente para explicá-lo.
A expansão do ensino de segundo e terceiro graus é recente no Brasil,
especialmente nas cidades de menor porte. O surgimento precoce de instituições
locais de ensino de boa qualidade ofereceu alternativas de formação para os
filhos das elites locais. Além disso, a atração de estudantes de outros
municípios e estados brasileiros é bastante forte. Até hoje, muitos desses
estudantes se formam na ETE e no Inatel e permanecem na cidade; alguns acabam
por trabalhar nas firmas locais ou se tornam empreendedores.
Além de prover uma considerável força de trabalho especializada, a ETE e
principalmente o Inatel funcionam como importantes aglutinadores sociais: a)
para onde confluem redes sociais densas, com origem nas famílias e nas relações
comunitárias, com significativo transbordamento para esferas política e
cultural locais; e b) de onde partem novas redes de tipo sociotécnicas, por
força dos laços criados entre estudantes (e também professores); tais laços se
projetam posteriormente em suas carreiras, seja como funcionários de empresas
locais, seja como empresários, o que ajuda a explicar o ambiente de intensa
colaboração entre as firmas (como veremos adiante).
As relações entre o Inatel e o desenvolvimento do pólo são bastante estreitas.
O instituto fomenta parcerias com empresas para o uso de laboratórios e
instalações para desenvolvimento e testes de novos produtos, cursos de extensão
universitária adaptados às demandas das empresas, convênios com instituições de
ensino e pesquisa em outros estados e no exterior e a organização de feiras de
exposições de produtos11.
Este seu papel de nó nas redes é reforçado ainda pelo fato de o Inatel abrigar
a primeira e a mais bem-sucedida das incubadoras de empresas existentes na
cidade, de onde surgiram e continuam a surgir novos empreendimentos ligados ao
pólo de eletrônica. Criada em 1985, quando a prefeitura lançou seu programa de
incentivo para a indústria eletroeletrônica, a instituição tem forte interação
com a ETE, sobretudo por meio de estágios oferecidos pelas empresas incubadas
aos alunos da escola técnica, e com a FAI, por meio da prestação de serviços de
consultoria da faculdade às empresas da incubadora12. Além de possibilitar a
criação de empresas sem a necessidade de altos investimentos, a incubadora
mantém boas relações com as instituições de ensino e com as empresas,
reforçando assim a rede de relações na cidade.
Apesar de os primeiros empreendimentos do pólo terem surgido nos anos de 1970,
só em meados da década seguinte, e a partir de uma série de iniciativas do
poder público municipal (a maioria bastante singela), a criação de empresas
acelera-se e o município ganha o nome de "Vale da Eletrônica". Os governos
municipais no Brasil possuem instrumentos fiscais muito limitados (e no período
anterior a 1988 possuíam ainda menos) para estimular novos investimentos
industriais. A oferta de terrenos (alugados ou diretamente cedidos pela
prefeitura) e da infra-estrutura básica (eletricidade, telecomunicações,
calçamento viário, fornecimento de água e coleta de esgotos) para a instalação
de novas firmas foi um dos expedientes pioneiros adotados pelo governo de Santa
Rita. Três das empresas cujos donos foram entrevistados para esta pesquisa
foram beneficiadas naquela época (por volta de 1985) e seus depoimentos
coincidem ao afirmar a importância deste instrumento para a criação de novos
negócios.
Nos últimos anos da década de 1980, as iniciativas de incentivo à abertura de
empresas do setor de eletrônica deixam de ser casuais e adquirem um estatuto
mais formal e perene com a aprovação de leis no âmbito do Legislativo local,
facultando a doação de terrenos, a oferta de imóveis com aluguel pago pela
prefeitura e a concessão de incentivos fiscais via convênios com o governo
estadual. É também neste período que o nome fantasia "Vale da Eletrônica" passa
a ser usado institucionalmente pela prefeitura como peça de publicidade dentro
e fora do Brasil, seja como instrumento para alavancar os negócios das empresas
já em operação, seja para atrair novos investimentos.
Entretanto, é na segunda metade dos anos de 1990, com o crescimento acelerado
do número de empresas e a adoção de políticas mais agressivas também no campo
fiscal, com o apoio do governo do estado de Minas Gerais, que o pólo industrial
se consolida. Foi importante neste momento o crescimento da demanda por
equipamentos eletroeletrônicos e de telecomunicações em virtude das
privatizações do setor elétrico e de telecomunicações realizadas pelo governo
federal brasileiro. A regulamentação do setor de telefonia celular, por
exemplo, permitiu o crescimento deste mercado e criou a demanda por componentes
para a produção de aparelhos celulares, antenas e redes de transmissão.
O desenvolvimento do pólo de Santa Rita combina, assim, diversos fatores que,
de maneira isolada, dificilmente seriam capazes de gerar o dinamismo atingido
nos anos recentes. Merecem destaque: os diversos atores em redes sociais
densas, capazes de mobilizar recursos materiais e simbólicos de esferas
comunitárias locais e construir "coalizões difusas de interesses"13; a infra-
estrutura educacional, responsável por gerar força de trabalho qualificada,
fomentar empreendedorismo e criar um ambiente favorável à pesquisa e ao
desenvolvimento de inovações; a proximidade física de centros de produção e
consumo e de instituições de ensino e pesquisa.
É, portanto, a confluência desses vários fatores que explica como, no caso de
Santa Rita, se formou o que Hirschman apelidou de "conspiração
multidimensional" pelo desenvolvimento, ou, nos termos de Evans, como se
produziu o enraizamento social (social embeddedness)14 que dá legitimidade e
eficácia a ações coordenadas de longo prazo. As condições de florescimento do
pólo foram se construindo paulatinamente ao longo do tempo, resultando de
condições e eventos não necessariamente estruturados para este fim e por meio
de ações incrementais e cumulativas. É de se notar que no caso de Santa Rita as
forças mobilizadas em torno da ação estratégica de criação do pólo industrial
eram fundamentalmente locais e suas motivações extrapolavam as de ordem
estritamente econômica. O enraizamento social dessas forças aparentemente se
transfere com êxito para o arranjo produtivo, fazendo com que hoje a cidade
identifique suas perspectivas de futuro com as do pólo de eletrônica. Os bons
resultados econômicos das empresas, expressos na geração de empregos e renda e
na projeção que a cidade atingiu como "Vale da Eletrônica", realimentam o
envolvimento dessas forças sociais e políticas com o futuro do pólo numa
espécie de círculo virtuoso de crescimento.
Incentivos fiscais e coalizões pontuais de interesses: o caso de Ilhéus
Os eventos que marcam o surgimento do pólo de informática de Ilhéus são bem
mais circunscritos no tempo e também em relação aos agentes envolvidos. Na
década de 1990, eclode no Brasil, com razoável intensidade, um ciclo de
disputas entre unidades federativas e entre municípios pela atração de
investimentos com base em incentivos e benefícios fiscais. A ênfase quase
absoluta dos sucessivos governos federais, entre 1990 e 2002, na agenda de
liberalização econômica (abertura comercial e privatizações) e da estabilidade
monetária (controle sobre a inflação e redução do déficit público) e a quase
desativação das políticas industriais setoriais e de desenvolvimento regional
estimularam governos estaduais e municipais a perseguirem, com recursos
próprios (protelação ou renúncia pura e simples de tributos), a atração dos
novos investimentos e o deslocamento de plantas já instaladas em outras regiões
para suas unidades territoriais. Os episódios mais conhecidos da chamada guerra
fiscal envolveram quase sempre negociações diretas entre mandatários dos
governos estaduais e municipais e grandes empresas multinacionais, não raro
assumindo feições de leilões em que diferentes governos disputaram com ofertas
crescentes a possibilidade de hospedar novas plantas industriais.
Não é nossa intenção aqui entrar na polêmica sobre a eficácia das políticas de
isenção fiscal, mas apenas chamar a atenção para o fato de que, no caso de
Ilhéus, as condições que permitiram o surgimento do pólo industrial têm menos a
ver com fatores endógenos à história do município e mais com oportunidades
geradas pelo quadro macroregulatório do país - a decisão de criar um pólo de
informática em Ilhéus partiu do governo do estado da Bahia em um contexto de
guerra fiscal entre estados da federação. Até a criação oficial do pólo de
informática, Ilhéus não possuía empresas neste setor. Sendo assim, o elemento
propriamente empresarial não tem raízes locais; ao contrário, as empresas
vieram praticamente todas de fora. Tampouco existiam em Ilhéus instituições de
ensino claramente vocacionadas para a formação de força de trabalho e
conhecimento nos setores industriais recém-constituídos.
A decisão de se criar um pólo de informática em Ilhéus resultou de iniciativa
do governador do estado da Bahia que, em 1995, edita decreto estabelecendo
vantagens fiscais para empresas do setor de informática que venham a se
estabelecer no estado, com benefícios específicos para a cidade de Ilhéus
(região de origem do governador)15. O município contava com uma área destinada
a abrigar um pólo de indústrias que nunca vingara e passava por uma grave crise
em virtude da derrocada da produção de cacau. A decisão surge de uma negociação
direta entre o governador e um empresário do setor com planta industrial até
então instalada em outra unidade federativa (o estado do Espírito Santo).
Neste caso, o Estado assume o protagonismo sobre as ações de desenvolvimento,
define os setores e os grupos econômicos a serem estimulados e constrói, de
maneira ad hoc, acordos e parcerias com investidores. Se, no caso de Santa
Rita, as ações do governo municipal propenderam mais para a coordenação de
interesses já estabelecidos - refletindo fluxos de influência de "baixo para
cima" -, resultando em um tipo de ação empresarial mais pulverizada em pequenos
empreendimentos de origem local, em Ilhéus, as ações do governo estadual
assumem mais a índole dos estados planejadores, que definem objetivos e meios
para atingi-los (de "cima para baixo") e buscam mobilizar forças empresariais
forâneas e de maior porte, capazes de produzir impactos mais rápidos e de maior
visibilidade.
No caso de Ilhéus, a isenção de impostos foi e continua sendo o grande atrativo
do pólo16. Os empresários entrevistados afirmam claramente que sem os
incentivos fiscais não teriam assumido os riscos de se estabelecer em uma
região com claras deficiências em termos de localização, infra-estrutura,
logística e disponibilidade de mão-de-obra especializada. Muitos não escondem a
intenção de abandonar a região caso os incentivos fiscais, cuja vigência, em
princípio, dura até 2014, não venham a ser renovados. Os próprios agentes
públicos ouvidos lamentam a necessidade da guerra fiscal, admitem que ela
impede um melhor planejamento de políticas de longo prazo para os estados e não
raro constitua mecanismos predatórios de competição. A justificativa, em última
instância, é de ordem pragmática: uma vez instaurada a lógica da guerra fiscal,
aqueles que não a praticarem se verão inevitavelmente passados para trás pelos
demais competidores e fatalmente perderão terreno na disputa por novos
investimentos, além de correrem o risco de perder o que já possuem de base
industrial instalada.
CARACTERIZANDO AS RELAÇÕES ENTRE AGENTES PÚBLICOS E PRIVADOS
Com o intuito de traduzir os elementos empíricos dos casos em uma linguagem
mais abstrata e, com isso, conferir algum grau de universalidade aos achados
desta pesquisa, recorremos a um exercício de estilização apresentado por meio
de dois quadros de tipos de interação social. Os padrões de interação entre os
atores foram organizados com base no recorte entre atores públicos e privados,
o que originou dois grupos de interação: a) interações público-privado; e b)
interações privado-privado. Dentro de cada grupo, foram identificadas dimensões
específicas dessas interações capazes de iluminar a dinâmica econômica dos
pólos industriais a partir de variáveis não estritamente econômicas, ou seja,
que permitem relacionar os tipos de interação dos agentes com fatores
qualitativos que compõem o crescimento.
O primeiro grupo, o das interações público-privado, contém quatro dimensões,
como mostra o Quadro_1.
Protagonismo difuso, estado coordenador e ênfase no empreendedorismo local em
Santa Rita
Um traço marcante na trajetória do pólo de Santa Rita é o movimento contínuo de
criação de firmas, quase todas de pequeno porte, não obstante várias delas
ocuparem atualmente posições de liderança no mercado nacional em seus
respectivos nichos. Várias são as razões para isto.
As primeiras empresas de produtos eletroeletrônicos a se formarem em Santa
Rita, ainda nos anos de 1970, resultaram de iniciativas de indivíduos com
passagem por alguma das escolas mencionadas anteriormente. Naquele momento, a
indústria de equipamentos eletrônicos crescia no país, mas o foco das grandes
empresas do setor, tanto nacionais como multinacionais, ainda privilegiava os
centros urbanos já industrialmente densos ou eram atraídas pela nova fronteira
de industrialização localizada na Zona Franca de Manaus.
O sucesso destas empresas pioneiras parece ter sido decisivo para ajudar a
moldar o consenso futuro no município não apenas sobre a importância de
desenvolver um setor industrial, como também para as virtudes das pequenas
empresas e do empreendedorismo local.
Santa Rita abrigou uma grande empresa do setor (que chegou a empregar mais de 4
mil pessoas), mas as disputas entre os acionistas, a posterior venda de parte
do controle para uma empresa multinacional e a subseqüente reestruturação
realizada pelos novos proprietários, que reduziu a menos da metade o número de
empregados, com forte impacto social sobre a cidade, reforçaram a preferência
dos vários atores relevantes pelos empreendimentos de menor porte e origem
local, menos volúveis e mais comprometidos com a vida do município.
A "opção" pelo microempreendedorismo já se encontra firmemente plantada na
índole das instituições de ensino técnico e superior de Santa Rita.
Responsáveis pela formação de várias gerações de profissionais especializados
em setores de atividade que não ofereciam um mercado de trabalho na região, a
ETE e o Inatel (e posteriormente a FAI) estabeleceram para si mesmos o objetivo
de estimular seus estudantes a empregar seus conhecimentos na criação de novas
empresas.
Entre os anos de 1995 e 2003, o Inatel manteve um acordo de cooperação
internacional com a GTZ (Agência Alemã para Cooperação Técnica), cujo objetivo
principal foi o de incrementar a capacidade de gestão e produção do pólo
tecnológico. O programa, coordenado por uma consultoria alemã, além do Inatel,
instituição executora do projeto e principal beneficiária, contou com a
participação da ETE, da FAI, da prefeitura e do Sindvel.
A costura de interesses e recursos desses vários atores se reflete na
diversidade de ações resultantes desta parceria: suporte a programas de
incubação de empresas; constituição de um fundo de investimentos para a área de
tecnologia da informação (para o qual foram mobilizados recursos financeiros de
várias instituições do governo de Minas Gerais e do Governo Federal);
implantação de um banco de dados comum para a região, visando à promoção do
pólo para possíveis novos investidores e divulgando as empresas existentes para
outros mercados consumidores; modernização de laboratórios e bibliotecas do
Inatel, que atendem não apenas a comunidade acadêmica, mas também as empresas
que ali realizam testes e desenvolvimento de novos produtos; assessoria para
projetos de cooperação entre empresas, universidades e prefeitura na área de
P&D ; articulação de parcerias nacionais e internacionais com centros de
pesquisa e universidades; e qualificação da mão-de-obra mediante intercâmbios
Brasil-Alemanha.
A prática da doação de terrenos pela prefeitura para novas empresas progrediu
nos anos recentes para um tipo de ação mais estruturada: a construção de
condomínios empresariais onde estão reunidas todas as facilidades urbanas
básicas - loteamento, pavimentação e iluminação de vias, coleta e tratamento de
esgotos, fornecimento de água, energia elétrica e rede de telecomunicação. Além
da concessão dos terrenos e da infra-estrutura, a prefeitura faz a
intermediação com uma instituição bancária federal para o provimento do crédito
para a construção das instalações industriais. O primeiro condomínio, criado em
2003, num terreno até então sem aproveitamento, abrigava, em 2007, cerca de
trinta empresas, além da sede do sindicato das empresas do pólo (Sindvel). O
segundo encontra-se em fase final de instalação e, neste caso, resultou do
aproveitamento de um conjunto de antigos galpões de fábricas e armazéns. A
oferta de infra-estrutura nos moldes dos condomínios de empresas, combinada com
isenções fiscais, tem se mostrado promissora nos últimos anos também no que diz
respeito a atrair para Santa Rita firmas de outras regiões. E o apoio
prioritário da prefeitura é ao pequeno negócio de base tecnológica.
O Sindvel também cumpre importantes funções de promoção e articulação das
empresas. Merecem destaque: a realização anualmente de uma feira na cidade para
que as empresas do setor exponham seus novos produtos; a participação das
empresas locais em feiras internacionais, o que envolve negociações com os
organismos diplomáticos e comerciais federais, bem como a alavancagem de
recursos financeiros para viagens de empresários e expositores; e a organização
de pools de empresas para o acesso a linhas especiais de financiamentos
estaduais e federais à exportação e à inovação tecnológica, geralmente
inacessíveis a pequenas empresas isoladamente.
Alguns anos após a criação do pólo de Ilhéus, empresas de Santa Rita decidiram
se mudar para o município baiano, atraídas pelos benefícios fiscais. O Sindvel,
na época, recolheu informações sobre os incentivos fiscais oferecidos pelo
governo da Bahia e procurou os responsáveis no governo de Minas Gerais, pedindo
providências para que o estado não fosse prejudicado pelas facilidades
oferecidas pelo estado vizinho. Por meio de decreto em 200317 com dispositivos
legais similares àqueles da Bahia para Ilhéus, o governo de Minas Gerais
concedeu as isenções reivindicadas e garantiu as empresas no mercado mineiro.
Este exemplo atesta, de um lado, a boa capacidade de articulação política do
sindicato das empresas com as várias instâncias governativas e, de outro, como
os incentivos fiscais passaram a ser significativos para a competitividade de
Santa Rita18.
A sintonia entre os vários agentes (poder público, firmas, associações de
firmas e instituições de ensino e pesquisa) parece ser bastante grande em Santa
Rita e raras são as iniciativas que não envolvem diversos deles em ações
colaborativas. A circulação de indivíduos por vários desses papéis ao longo de
suas trajetórias pessoais (como estudantes, professores, empresários ou no
poder público) constitui uma boa pista para entender os mecanismos informais e
muitas vezes invisíveis que dão estrutura e continuidade no tempo a este
arranjo produtivo e contribuem de forma difusa para o seu enraizamento social.
A característica mais marcante do poder público, neste caso, é a sua atuação
como base de coordenação de interesses e mobilização de recursos.
Protagonismo estatal, renúncia fiscal e ênfase na atração de empresas forâneas
em Ilhéus
No caso de Ilhéus, estavam ausentes praticamente todos os elementos que
colaboraram para o desenvolvimento gradual e relativamente endógeno observado
em Santa Rita. A rigor, os agentes que desempenharam papel relevante na
constituição do pólo de informática de Ilhéus não têm os fortes vínculos com o
município observados na cidade mineira. A forma de viabilizar tal arranjo de
interesses foi a edição de um decreto estabelecendo condições especiais de
tratamento tributário para empresas que viessem a se instalar no município.
Além das isenções fiscais, vários outros benefícios deveriam complementar o
pacote de atrativos, como terreno e infra-estrutura logística, por exemplo.
Entretanto, a descontinuidade de diretrizes no plano estadual e a falta de
envolvimento do governo municipal terminaram por comprometer a sua realização
de forma adequada. Importa sublinhar que, na deflagração da experiência de
Ilhéus, o governo estadual da Bahia exerce um forte e quase solitário
protagonismo, e o quadro de condições e agentes preexistentes praticamente não
influencia o desenho da estratégia de desenvolvimento adotada - empresários
locais entrevistados se queixaram de que ficaram sabendo da iniciativa do pólo
após o governo ter concebido o projeto que lhe deu origem. Isto mostra que tal
ação do governo estadual estava longe de uma parceria com investidores locais;
focaliza sim a atração de empresas já estabelecidas em outras localidades.
Em oposição ao tom bastante positivo com que os empresários de Santa Rita se
referem ao governo local, em Ilhéus, os empresários são muito críticos em
relação à atuação do governo do estado da Bahia, que teria criado o pólo e logo
depois deixado de tratá-lo como prioridade. Uma vez implantado, em 1995, pouco
teria sido feito nos seus primeiros quatro anos para torná-lo de fato atraente.
Um primeiro elemento é a escassez de mão-de-obra especializada. Ainda hoje,
esse é um fator limitante para o desempenho das empresas, segundo os
depoimentos de seus dirigentes, e um bom exemplo da desarticulação entre
agentes públicos e privados locais. Uma solução reivindicada pelos empresários
- e que fazia parte dos planos iniciais do pólo - era a criação de cursos
técnicos capazes de colocar mais rapidamente no mercado trabalhadores para a
fabricação de computadores. Não foi essa a solução adotada pelo governo, que
optou por apoiar a criação de um curso superior de engenharia na instituição já
existente na região, a UESC (Universidade Estadual Santa Cruz). Com o intuito
de montar cursos de qualificação de profissionais, as empresas ainda realizaram
parcerias com o Senai, mas isso também não foi suficiente. O fato é que a
ausência de trabalhadores qualificados ainda leva as empresas a trazê-los de
outros lugares, como Minas Gerais, Paraíba e outras cidades da Bahia, o que,
por sua vez, reduz o impacto local da geração de novos postos de trabalho19.
Além da deficiência de mão-de-obra, há outros problemas relacionados com a
infra-estrutura e a logística que dificultam o desenvolvimento do pólo e a
atração de novas empresas. Tais deficiências explicitam o baixo nível de
interação entre os atores públicos e privados. Ruas esburacadas, pouca
iluminação, insegurança, ausência de transporte público adequado e terrenos em
total abandono (que poderiam ser utilizados como instalações para novas
empresas) são alguns deles.
As deficiências logísticas não se resumem a ruas e estradas ruins, mas também à
falta de um aeroporto alfandegado, demanda comum de todas as empresas
entrevistadas. Além de facilitar a logística das empresas e diminuir custos,
seria uma fonte de receita para Ilhéus, já que os impostos coletados na
importação de componentes iriam para o município, e não para Salvador, como
acontece atualmente. Embora a questão aeroportuária seja de alçada do governo
federal, os atores privados reclamam apoio dos governos municipal e estadual em
suas reivindicações, aparentemente sem sucesso. A forma como as decisões
estratégicas relacionadas com a criação do pólo foi conduzida unilateralmente
pelo governo estadual terminou por não comprometer o governo local com o
projeto.
No que diz respeito às relações do sindicato das empresas com os poderes
públicos, diferentemente do que se observa em Santa Rita, em Ilhéus prevalecem
relações de competição mais direta entre as firmas e as ações do Sinec, fundado
em 1998, as quais têm feições mais pontuais e imediatas. Tais relações se dão
exclusivamente por meio da atuação do sindicato (como explicitaremos adiante),
que funciona como porta-voz de demandas aos governos local e estadual,
sobretudo de investimentos em infra-estrutura e de alterações no decreto que
regula o pólo.
A despeito do pouco apoio público para trazer novas empresas, dos problemas de
infra-estrutura e da baixa qualidade da mão-de-obra, o setor tem crescido muito
nos últimos anos em Ilhéus. Uma das principais razões para a boa performance
das empresas instaladas no município, além da competitividade baseada em
vantagens fiscais estaduais, é o aumento da demanda por computadores no Brasil.
Três ações recentes do governo federal contribuíram para essa procura: 1)
isenção de impostos sobre computadores para torná-los mais baratos e aumentar
as vendas para camadas de mais baixa renda; 2) compras de grande porte para as
diversas instâncias da burocracia estatal e para equipar escolas públicas (há
empresas em Ilhéus voltadas especialmente para vendas para o setor público, via
licitações, e não para o mercado de varejo); e 3) o aumento da oferta de
crédito ao consumidor final.
Esse cenário positivo para o setor, contudo, tem levado a que outras regiões do
país se mobilizem no sentido de anular as vantagens fiscais existentes no pólo
de Ilhéus, não no sentido de extingui-las, mas de torná-las não-exclusivas. As
empresas de montagem de computadores vêem com bons olhos essa possibilidade,
que lhes daria maior liberdade de localização, porém, isto obviamente não
interessa ao município de Ilhéus nem ao governo da Bahia.
Em resumo, na experiência de Ilhéus o governo do estado é o propulsor das
iniciativas, e a concepção do pólo não envolveu participação significativa nem
do governo local nem de interesses econômicos já estabelecidos na região.
Capitais e capitalistas foram quase totalmente importados, e a sintonia entre
os empresários do pólo e as elites políticas locais parece ser tênue, o que se
traduz em baixo grau de enraizamento social desta nova elite econômica. No
contraste com a experiência de Santa Rita, este nos parece ser um elemento
crucial que joga a favor da maior sustentabilidade do caso mineiro.
CARACTERIZANDO AS RELAÇÕES ENTRE AS FIRMAS
O segundo recorte de interações, aquelas de cunho privado-privado, busca
estilizar os vínculos entre os agentes privados a partir dos tipos de interação
entre as firmas. Este grupo de interações se desdobra em três dimensões
específicas, como mostra o Quadro_2 e a discussão a seguir referente aos casos
de Santa Rita e Ilhéus.
Redes complementares de conhecimento e relações cooperativas em Santa Rita
As características das empresas e o tipo de relação que se estabelece entre
elas se revelaram fundamentais tanto para entender os padrões de interação
entre agentes privados e públicos como para avaliar a qualidade dos efeitos de
transbordamento dos resultados do setor de eletrônica sobre a sociedade local.
As empresas que compõem o pólo de Santa Rita são em maioria de pequeno e médio
portes, dedicam-se a nichos de mercado específicos e têm como características a
base tecnológica e a customização de produtos. A variedade de produtos e o
baixo grau de superposição entre as empresas são resultados da diversidade nos
segmentos de atividade. O pólo abriga empresas produtoras de componentes e
equipamentos para as áreas de comunicação e telefonia, elétrica, eletrônica,
informática, automação comercial e industrial e segurança. São equipamentos tão
diversos como displays, placas e circuitos, aparelhos eletrônicos, baterias de
celular, geradores e transformadores de energia, impressoras, câmeras, alarmes,
cercas elétricas, sensores, antenas, conversores, transmissores e moduladores.
Ao contrário de competirem entre si, muitas empresas mantêm relações de
complementaridade via fornecimento de componentes e insumos umas para as
outras. Esse tipo de relação favorece a intensificação dos fluxos de
conhecimento entre as empresas, e é muito comum que elas se consorciem no
desenvolvimento de produtos, na busca por novos mercados consumidores e no
provimento de assistência técnica pós-vendas, fator fundamental para vários
tipos de produtos fabricados na região.
Novamente, o sistema educacional de Santa Rita parece jogar papel fundamental
para a dinâmica das firmas. Primeiramente, porque parte importante dos
empresários do pólo se formou nas instituições de ensino locais e mantém
relações de amizade e convivência ou, em outras palavras, formam redes sociais
cuja origem e sustentação são anteriores à sua condição de empreendedores, o
que imprime maior confiança às relações econômicas. Em segundo lugar, a
formação em ambientes acadêmicos comuns faz com que as especializações técnicas
obtidas pelos indivíduos nas escolas e nas universidades locais sejam
complementares e se manifestem posteriormente em complementaridade também entre
suas firmas. Por fim, a experiência do aprendizado compartilhado desde os
laboratórios da escola "treina" esses indivíduos para o trabalho cooperativo e
estabelece confiança nas capacidades técnicas uns dos outros.
A articulação entre empresas é bastante comum e vai desde o compartilhamento
informal de máquinas e equipamentos (mais comum entre as microempresas) até os
contratos formais de fornecimento de componentes ou de desenvolvimento conjunto
de produtos. É bastante comum, por exemplo, que empresas com encomendas que
superam sua capacidade de produção "terceirizem" parte da demanda para outros
produtores. Igualmente comuns são os casos em que o empregado de uma firma,
estimulado por seu empregador, abre sua própria empresa e se torna fornecedor
dele.
Essas características de complementaridade são reforçadas pela atuação das
incubadoras de empresas. A mais antiga das duas existentes em Santa Rita, a
incubadora do Inatel, deu origem a trinta empresas em vinte anos de
funcionamento (até 2006). O processo de incubação leva em média dois anos,
durante os quais as empresas em formação desfrutam de instalações e infra-
estrutura (espaço, equipamento eletrônico básico para testes, móveis, linha
telefônica, Internet e secretária) a custo muito baixo (de R$ 100 a R$ 400 por
mês, em 2006). Recebem assessoria jurídica, de marketing e de gestão de
negócios. Cada nova empresa quase sempre é fruto também de um "novo" produto
(no mais das vezes modificações ou aperfeiçoamentos de tecnologias ou produtos
já existentes), e depois de emancipadas desfrutam de acompanhamento e
assessoria, quando necessário, por mais três anos. A incubadora do Inatel chega
a hospedar vinte empresas simultaneamente, que funcionam em salas contíguas,
favorecendo a comunicação cotidiana entre seus proprietários e empregados. Há
troca de experiências e informações, como, por exemplo, contatos de
fornecedores e prestadores de serviços ou incentivos a importação de
componentes e exportação de produtos.
Convênios com a ETE garantem o fornecimento de mão-de-obra qualificada e de
baixo custo por meio de estágios, o que, por sua vez, transmite aos estudantes
secundários conhecimentos e atitudes próprias do ambiente de criação de
empresas. Ressalte-se que tanto o Inatel como a ETE incluem em seus currículos
o ensino de disciplinas ligadas ao empreendedorismo.
Já a incubadora criada em 2006 pela prefeitura tem capacidade para abrigar até
treze empresas e segue princípios bastante semelhantes de funcionamento. As
diferenças dizem respeito ao fato de as empresas incubadas não necessariamente
terem relação pregressa com as instituições de ensino (a incubadora do Inatel
dá preferência a seus próprios alunos) e nem mesmo com a cidade. Além disso, a
incubadora da prefeitura não possui a infra-estrutura de laboratórios e
equipamentos que o Inatel dispõe.
A ação das incubadoras parece ser decisiva para reduzir a taxa de mortalidade
das novas firmas em seus primeiros anos de vida - problema bastante comum em se
tratando de microempresas. E mesmo aqueles que não conseguem levar adiante suas
empresas, adquirem experiência que aumenta suas chances de inserção no mercado
de trabalho como empregados de outras firmas. Por fim, as incubadoras são
ambientes propícios para a disseminação de idéias. Elas não só encorajam a
criação de novas empresas como também o desenvolvimento de novos produtos e
processos. Esta prática é central para a agregação de valor e a diversificação
da produção20.
Aglomeração de empresas auto-suficientes e relações de competição em Ilhéus
A formatação do pólo de Ilhéus mediante uma lei de incentivos fiscais originou
uma configuração completamente diferente daquela de Santa Rita. Leis de
incentivo fiscal delimitam com clareza os setores a serem beneficiados e, por
vezes, favorecem naturalmente a aglomeração de empresas similares quanto aos
produtos finais. É este o caso de Ilhéus, onde a maioria das firmas é a rigor
montadora de computadores e periféricos. Trata-se, em muitos casos, de empresas
já existentes antes da criação do pólo, fabricantes de produtos padronizados e
cuja tecnologia (no caso de montagem de computadores, os componentes) é
importada de fora de Ilhéus e quase sempre de fora do país. Não chegam, assim,
a constituir uma cadeia de produtores, já que é muito baixo o nível de
complementaridade produtiva entre elas. Antes, pelo contrário, as relações
entre elas são freqüentemente de competição direta.
O fato de o pólo estar baseado em empresas de montagem de computadores tem pelo
menos duas conseqüências negativas: o baixo nível de agregação local de valor
aos produtos (o que se traduz também em menor potencial de geração de empregos
e renda) e a ausência de estímulos à difusão de conhecimento e à inovação
tecnológica.
O computador produzido em Ilhéus tem de fato baixo valor agregado localmente,
segundo os próprios fabricantes. Os componentes utilizados são trazidos de
outros países e, em alguns casos, de outros estados brasileiros (as "memórias",
por exemplo, são produzidas em Manaus). A idéia de adensar a cadeia de valor
local é sempre apontada como uma possibilidade para incrementar o sistema
produtivo em Ilhéus, mas os entraves locais para que isso ocorra não são
desprezíveis. A atração de empresas produtoras de componentes para computadores
(chips, hard disk, mother-board etc.) dependeria de enormes investimentos e
provavelmente de uma decisão estratégica do governo federal, uma vez que os
principais produtores destes itens são de países como Estados Unidos, Japão,
Coréia do Sul e China, trabalhando com escalas de produção gigantescas e
estratégias globais de operação e de mercado.
Mesmo as firmas já consolidadas em Ilhéus, que geram empregos que demandam
maiores qualificações, não realizam atividades de alto valor agregado nem se
mostram interessadas em trabalhar com algum tipo de desenvolvimento para
melhorar a capacidade de inovação tecnológica do pólo. Em primeiro lugar,
porque uma grande parte dos componentes para produção é importada e não há
tecnologia no Brasil para seu desenvolvimento. Em segundo, porque a maioria das
empresas precisa lidar com problemas anteriores a estes, tais como infra-
estrutura e logística, como já apontado anteriormente21.
Um indicador importante das diferenças entre os dois pólos é exatamente o grau
de utilização das leis de incentivo à inovação tecnológica criadas pelo governo
federal recentemente (como a Lei de Inovação e reformulações na Lei de
Informática). Em Santa Rita, a cooperação entre poder público e instituições de
ensino tem resultado em projetos coletivos de pequenas empresas para
financiamento em condições especiais junto aos órgãos de fomento federais e
estaduais. Já em Ilhéus, como a maior parte das empresas não investe em
atividades de P&D, o recurso às leis de fomento à inovação não é tão bem
utilizado como poderia, pois, quando ocorre, acaba sendo usado em atividades
marginais, como desenvolvimento de softwares para áreas administrativas da
empresa, e não para o desenvolvimento ou o aperfeiçoamento de produtos ou
processos da atividade "core" da empresa.
CONSIDERAÇÕES FINAIS
A abordagem relacional permitiu observar a participação dos atores na
construção de fatores qualitativos que compõem a sustentabilidade do
crescimento econômico. Nos termos definidos no início deste artigo, é possível
afirmar que os alicerces sociais e institucionais da experiência de Santa Rita
são qualitativamente mais robustos e projetam melhores possibilidades de
sustentação no tempo, se comparados aos de Ilhéus.
A análise dos dois casos mostra que Santa Rita é um caso de desenvolvimento
apoiado em múltiplos fatores: sistema de ensino e pesquisa; redes sociais
densas e de variada natureza; elites locais com capacidade de influência nos
âmbitos estadual e nacional; investidores locais e forâneos; e instituições
públicas permeáveis a interesses diversos. Enquanto isso, Ilhéus é um bom
exemplo de uma experiência desencadeada por um fator quase unilateral: a
intervenção do governo por meio de políticas de incentivos fiscais, com foco na
atração de empresas de fora da região.
Redes sociais densas - envolvendo governos municipal e estadual, empresas e
escolas de nível médio e superior - e a capacidade das instituições públicas de
atuar como coordenadoras dos ativos locais preexistentes influenciaram
positivamente o desenvolvimento de Santa Rita. Isto ocorreu porque tanto as
redes sociais como a atuação coordenadora das instituições públicas foram
decisivas na construção de condições qualitativamente melhores que sua
contraparte baiana, como contínua capacitação da mão-de-obra, base de
conhecimento nas instituições de ensino integradas às empresas, diversificação
da cadeia produtiva, criação constante de empresas e menor dependência de
incentivos fiscais.
Apesar das altas taxas de crescimento econômico alcançadas por Ilhéus por conta
da criação do pólo, a cidade baiana é um bom exemplo de como constrangimentos
em termos das interações entre atores públicos e privados podem limitar as
condições para a sustentabilidade de seu crescimento, na medida em que não têm
influência positiva na configuração qualitativa desse processo. A própria
criação do pólo de informática mediante um decreto do governo estadual - uma
decisão centralizada - limitou desde o início o fortalecimento de uma rede
social local e incentivou a atração de empresas de outras partes do país. Isto
se torna ainda mais problemático quando consideramos a excessiva dependência
das empresas em relação aos incentivos fiscais fornecidos pelo governo
estadual. A "via rápida" de atração de investimentos mediante isenções fiscais,
em muitos casos, gera efetivamente novas aglomerações produtivas, com efeitos
certamente positivos, como altas taxas de crescimento do PIB, criação de novos
empregos e aumento da massa salarial que irriga a economia local. No caso de
Ilhéus, a comunidade e seus governos não conseguiram responder às demandas que
acompanharam o crescimento do PIB. Uma política pública de desenvolvimento
baseada em incentivos fiscais como modo de ignição não é ruim em si mesma, mas,
para ser sustentável no tempo, acreditamos que outros atributos qualitativos
devem ser criados ao longo do processo. A falta de mão-de-obra qualificada, a
ausência de uma base de conhecimento conectada à produção local e a própria
produção voltada praticamente para a montagem de computadores (com componentes
importados) são fatores que compõem uma frágil estrutura de desenvolvimento de
longo prazo.
Não se trata aqui de concluir que Santa Rita é um caso de sucesso e Ilhéus não,
ou de sugerir uma replicação do caso mineiro. Assim como as receitas genéricas
de "boas instituições" para o crescimento, a simples cópia de casos de sucesso
raramente funciona. Não se trata, tampouco, de assumir a posição de que cada
caso é um caso e que devemos observá-los apenas em suas especificidades. A
estilização dos casos a partir da contraposição certamente nos faz minimizar as
complexidades de cada um deles. O curso do processo de desenvolvimento alterase
no tempo, por isso mesmo não é possível se basear em "modelos". Por mais que
tenha surgido de bases relativamente frágeis no que tange à sua
sustentabilidade, o processo de desenvolvimento do pólo de Ilhéus sofreu
mudanças para melhor ao longo do tempo: hoje há maior participação do
empresariado local no incremento do pólo, agindo de forma coletiva, demandando
mudanças no decreto, buscando maior resposta dos entes públicos para demandas
de infra-estrutura e logística; e a criação de um centro de pesquisa voltado
para a área de informática, com o objetivo claro de estimular um ambiente mais
voltado para o conhecimento e a inovação. Por outro lado, lembremos que, para
se manter competitivo, o pólo do município de Santa Rita teve de buscar no
governo de Minas Gerais isenções fiscais similares àquelas oferecidas a Ilhéus
pelo governo da Bahia (a grande diferença é que ele não foi fundado na
dependência desta isenção).
Isto significa que tanto quanto a escolha de estratégias adequadas para o
desenvolvimento de novas atividades, a capacidade de readaptá-las em face das
mudanças de cenário e de aprender com as experiências alheias são
determinantes, no longo prazo, para o "sucesso" desse tipo de iniciativa.
Entendendo o desenvolvimento como permanentemente sujeito a reorientações,
pretendemos ter demonstrado que instituições e redes sociais influenciam o
crescimento econômico; que é possível identificar fatores que qualitativamente
produzem diferenças entre casos concretos; e que tais fatores podem levar a
processos de crescimento mais ou menos sustentáveis no tempo.
[1] Para uma resenha abrangente de escolas de pensamento sobre desenvolvimento,
ver Martinussen, John. Society, state & market: a guide to competing
theories of development. Londres/Nova York: Zed Books, 1997.
[2] Granovetter, Mark. "Economic action and social structure: the problem of
embeddedness". American Journal of Sociology, vol. 91, nº 3, 1985, pp. 481-510. Idem. "A theoretical agenda for economic sociology". Paper
wps-2001-2003. Berkeley: Center for Culture, Organizations and Politics, 2000. Granovetter, Mark e Swedberg, Richard (eds.). The sociology
of economic life. Boulder: Westview Press, 1992. Granovetter,
Mark e outros. "Social networks in Silicon Valley". In: Lee, C.-M., Miller, W.
F., Hancock, M. G. e Rowen, H. S. (eds.). The Silicon Valley edge. Stanford:
Stanford University Press, 2000.
[3] Granovetter e Swedberg, op. cit., p. 9.
[4] Ibidem, "Introduction"; Granovetter, "A theoretical agenda for economic
sociology", op. cit.
[5] Granovetter. "The strength of weak ties". American Journal of Sociology,
vol. 78, nº 6, 1973; Storper, Micheal. The regional world:
territorial development in a global economy. Nova York: Guilford Press; Portes, Alejandro (org.). "Introduction". In: The economic
sociology of immigration. Nova York, Russel Sage, 1995.
[6] Para uma referência a este trabalho, ver Saxenian, AnnaLee. Regional
advantage: culture and competition in Silicon Valley and Route 128. Cambridge,
MA: Harvard University Press, 1994. Ver também Idem. The New
Argonauts: regional advantage in a global economy. Cambridge, Mass.: Harvard
University Press, 2006.
[7] Os critérios de seleção das cidades estudadas foram estipulados com base,
primeiramente, nas características dos setores econômicos: atividades mais
modernas e que envolvem base tecnológica e de conhecimento. Em segundo lugar,
privilegiamos espaços regionais de dimensões limitadas, com o propósito de
melhor controlar as variáveis qualitativas envolvidas.
[8] Ao todo foram realizadas 42 entrevistas (22 em Santa Rita do Sapucaí e 20
em Ilhéus) no segundo semestre de 2006 e primeiro de 2007.
[9] Em 2004, o PIB de Santa Rita era de R$ 447 milhões e o de Ilhéus, R$ 1,85
bilhões. Já o PIB municipal per capita era de R$ 13.211 na cidade mineira e R$
8.373 na baiana.
[10] Os setores selecionados para a análise são precisamente as divisões 30, 31
e 32 da Classificação Nacional de Atividade Econômica: Fabricação de máquinas
para escritório e equipamentos de informática, Fabricação de material
eletrônico e de aparelhos e equipamentos de comunicação e Fabricação de
máquinas, aparelhos e materiais elétricos. Os dados sobre número de firmas,
emprego e salários são da Relação Anual de Informações Sociais (RAIS) entre
1996 e 2005. Vale ressaltar que há uma diferença no número total de empresas em
Santa Rita quando contabilizados a partir da RAIS (88 firmas) e aquele
fornecido pelo Sindvel (Sindicato das Indústrias de Aparelhos Elétricos,
Eletrônicos e Similares do Vale da Eletrônica - a associação de empresas da
região (120 firmas). Há alguns motivos: a informação do Sindvel é referente ao
ano de 2006 enquanto a da RAIS é de 2005; apesar de ser uma base censitária, há
uma imprecisão aceitável da RAIS quando se trata de informações de empresas com
menos de trinta pessoas ocupadas; e, por fim, o Sindvel inclui empresas
classificadas no setor de serviços enquanto nós consideramos apenas as divisões
industriais 30, 31 e 32 da CNAE.
[11] O empreendedorismo é bastante estimulado na cidade, e alguns dos alunos da
ETE e do Inatel realmente se tornam empresários. As feiras realizadas por estas
instituições, por exemplo, são oportunidades para que seus alunos exponham
novas idéias (algumas já em forma de produto), recebam incentivos para abrir
sua própria empresa ou negociem seus projetos para que sejam comercializados.
[12] Voltaremos a tratar das incubadoras mais adiante.
[13] Evans, Peter. Embedded autonomy: states and industrial transformation.
Princeton: Princeton University Press, 1995; Hirschman,
Albert. "A generalized linkage approach to development, with special reference
to staples". Economic Development and Cultural Change, nº 25 (supplement),
1977, pp. 67-97.
[14] Evans, op. cit.
[15] Em Ilhéus, onde as empresas são importadoras de componentes para a
montagem de computadores, a isenção do Imposto sobre Circulação de Mercadorias
e Prestação de Serviços (ICMS) concedida pelo governo estadual é o principal
incentivo. As empresas industriais dos setores elétrico, eletrônica,
eletroeletrônica e de telecomunicações usufruem do diferimento (adiamento) e do
crédito presumido do ICMS até 2014. O adiamento do ICMS ocorre no momento em
que a empresa importa peças ou componentes. Na venda da mercadoria produzida, a
empresa lança o valor de imposto devido (pela saída da mercadoria) como crédito
para abater o que foi diferido nas importações (o montante adiado na entrada).
O benefício é estadual, mas há diferenças nas condições de isenção para
empresas de fora da região metropolitana de Salvador, favorecendo, assim,
Ilhéus e outros municípios do interior. A prefeitura do município concede
isenção de Imposto sobre a Propriedade Predial e Territorial Urbana (IPTU) e
Imposto Sobre Serviços (ISS) pelo prazo de até dez anos para as empresas que se
instalam na região.
[16] Além das isenções de ICMS, IPTU e ISS citadas anteriormente, Ilhéus
desfruta da redução do Imposto sobre Produtos Industrializados (IPI), um
imposto federal. De acordo com a Lei de Informática, as empresas que cumprem os
requisitos do Processo Produtivo Básico (PPB) se beneficiam da redução do IPI,
que varia de 70% a 95%, até 2019. Empresas cumpridoras do PPB são aquelas que
realizam etapas da produção no país, ou seja, as quais desenvolvem partes do
processo produtivo utilizando componentes e matérias-primas nacionais. No caso
de computadores, por exemplo, são considerados requisitos mínimos para ser
classificada como cumpridora do PPB desde a montagem de placas (atividade
simples) até a produção de componentes, como semicondutores (atividade mais
complexa). O registro é concedido segundo normas do Ministério de Ciência e
Tecnologia (MCT). O objetivo da lei é nacionalizar processos produtivos e
incentivar a produção de maior valor agregado no país. Em contrapartida à
redução de IPI, a empresa (de produção de bens e serviços de informática e
automação) deve investir anualmente, no mínimo, 5% do seu faturamento bruto no
mercado interno (decorrente da comercialização de bens e serviços de
informática) em atividades de P&D (Pesquisa e Desenvolvimento) em
tecnologia da informação a serem realizadas no país. Em Ilhéus, tal redução de
IPI é determinante para a competitividade das empresas não só no que concerne
ao produto final, mas porque, como fabricantes de computadores, elas são
grandes importadoras de componentes do exterior. Em 2007, de acordo com o MCT,
quarenta empresas estavam habilitadas à fruição deste benefício em Ilhéus.
[17] A redução ou isenção de ICMS é permitida por meio de um protocolo de
intenções entre a empresa e o estado segundo o decreto nº 43.617, de 29 de
setembro de 2003, disponível pela Secretaria de Estado de Fazenda em
<www.fazenda.mg.gov.br>. O governo estadual concede o crédito presumido de ICMS
na venda de produtos acabados, ou seja, há o diferimento de ICMS na importação
de máquinas e equipamentos (ativo fixo) e de componentes utilizados na produção
da mercadoria.
[18] Além do ICMS, estadual, as empresas de Santa Rita usufruem de outros
benefícios fiscais. Ainda que menos utilizado do que em Ilhéus, em 2007, treze
empresas estavam habilitadas à fruição do benefício federal de redução do IPI
mediante PPB, segundo o MCT. Em relação a tributos municipais, há casos de
isenção do IPTU por um determinado período de tempo. Por fim, há isenções de
ISS que variam de acordo com o setor.
[19] Em 2001, foi criado o Centro de Pesquisa de Desenvolvimento Tecnológico em
Informática e Eletroeletrônica de Ilhéus (Cepedi) com os objetivos principais
de formar força de trabalho qualificada e de estimular projetos de P&D na
região. Com o desenvolvimento de pesquisas, consultorias e treinamentos, o
Cepedi tornou-se uma ilha de excelência que abriga quadros de nível superior,
mas ainda pouco integrada ao meio produtivo local. Desenvolve processos de
controle de qualidade e softwares, atividades de certa forma marginais à
produção local, voltada para montagem de computadores.
[20] Um exemplo da força da produção de Santa Rita combinada com a geração de
conhecimento é o fato de que o pólo assumiu condição pioneira no Brasil no
desenvolvimento da tecnologia para a nova geração de televisores para
transmissão digital de imagens, competindo com grandes empresas da Zona Franca
de Manaus, que desfrutam de um pacote de incentivos fiscais mais abrangente.
[21] Há exceções, como é o caso da Waytec, que mantém parcerias com
universidades e centros de pesquisa da Bahia e também de fora do estado.
Sintomaticamente, ela não é uma montadora de computadores, mas sim de
monitores, especialmente as telas para monitores chamadas touch screen. Trata-
se de processo de produção bem mais complexo do que a montagem de máquinas e
cuja tecnologia é desenvolvida majoritariamente no Brasil. A empresa possui
ainda a expertise no desenvolvimento de softwares a partir de uma subsidiária,
a Waylog. Com isso, é capaz de associar a tecnologia touch screen com o
desenvolvimento de softwares próprios.