O catolicismo como ideal: produção literária antijudaica no mundo português da
Idade Moderna
Em outubro de 1497 os judeus de Portugal foram convertidos ao cristianismo à
força. Esse ato de violência foi ditado por necessidades políticas e
econômicas. As ambições dinásticas do rei D. Manuel, que se casara com três
princesas espanholas no intento de unificar os reinos ibéricos sob a égide de
Portugal (sabemos que o feitiço se virou contra o feiticeiro...), fizeram-no
expulsar os judeus, pois essa fora uma das condições impostas pela primeira das
princesas para casar-se. O édito de expulsão, datado de dezembro de 1496, dava
dez meses aos mouros e aos judeus para deixar o Reino, e na data fatídica os
judeus que não haviam conseguido deixá-lo (a grande maioria) foram forçosamente
convertidos ao catolicismo. Assim é que o ano de 1497 marcou o fim da
existência legal do judaísmo em Portugal e o começo da conturbada história dos
descendentes dos judeus lusitanos: os cristãos-novos. Esse trágico evento
deixou marcas indeléveis em toda a sociedade portuguesa, e suas ondas de choque
se fazem sentir até hoje em dia.
A perpetuação do preconceito racial em relação aos judeus na sociedade
portuguesa mesmo quando do ponto de vista religioso oficial nada mais os
distinguia do resto da população deu-se pela conjunção de vários fatores.
Além da própria conversão forçada, foram de primeira importância o malogrado
processo de integração que se diz ter ocorrido entre 1497 e 1536 (ano da
instauração da Inquisição em Portugal, que marca o início das perseguições aos
judaizantes) e a existência de um meio criptojudaico, resultante da política
coercitiva mas também do apego de parte da população recém-convertida pelos
costumes e pela religião de origem. Entretanto, o estabelecimento generalizado
e a persistência da distinção entre cristãos-novos e cristãos-velhos tiveram
como base a adoção dos estatutos de pureza de sangue (moldados no exemplo
espanhol)2, que pouco a pouco transformaram o tradicional discurso religioso
antijudaico em discurso racial anticristão-novo, cuja perpetuação nos interessa
aqui diretamente.
Essa perpetuação pode ser estudada sob diversas óticas, como a da ação e da
ideologia da Inquisição a famosa "fábrica de judeus" mencionada por Antônio
Vieira , que em grande parte se basearam na noção de pureza de sangue tanto
para arregimentar seus membros quanto para identificar e perseguir suas
principais vítimas (os cristãos-novos), ou ainda a da difusão daqueles
estatutos nas diferentes ordens religiosas e militares e nos corpos de ofício e
cargos da governança. Este texto pretende aproximar-se do tema por meio de um
objeto de estudo que tem sido em grande parte ignorado, apesar do interesse
pontual de alguns historiadores: as obras sobre o judaísmo, os judeus e seus
descendentes escritas ou impressas por portugueses entre os séculos XVI e
XVIII, ou seja, entre a conversão forçada e o fim da distinção entre cristãos-
novos e cristãos-velhos, decretado pelo marquês de Pombal em 1773.
Buscaremos entender o que motivou a criação dessa vasta produção literária,
assim como as razões da sua perenidade no mundo português da Idade Moderna.
Essa produção foi herdeira direta e confessa das obras contra o judaísmo
redigidas na Idade Média e na Antiguidade tardia3, mas assumiu características
próprias ao assimilar argumentos políticos estranhos à polêmica religiosa da
qual se originou. Dessa forma, o lado "pró-cristãos-novos" dessa polêmica não
será aqui estudado. Esse outro lado, longe de ser inexistente, teve vários
defensores em Portugal e na Espanha4, mas foi na diáspora dos judeus
portugueses que os textos aqui analisados tiveram alguma resposta em forma
impressa5.
II
Apesar de alguns incidentes, a condição dos judeus portugueses durante o século
XIV e a primeira metade do século XV chega a ser invejável se comparada com a
situação de extrema insegurança em vigor desde os anos 1390 nos reinos
vizinhos, onde conversões forçadas e massacres se repetiram até a expulsão
final de 1492. A conjuntura cada vez mais crítica dos reinos hispânicos acabou
por desfazer o equilíbrio existente em Portugal. A instauração da Inquisição
castelhana em 1478 provocou a fuga para Portugal de conversos que secretamente
respeitavam o judaísmo, e a expulsão quatorze anos mais tarde causou um
verdadeiro êxodo de um total estimado em mais de 83 mil pessoas, sendo que só
uma parte delas recebeu autorização para permanecer no Reino, contra o
pagamento de uma grande soma de dinheiro. Mal recebidos pela população
portuguesa, mantidos em escravidão, maltratados por aqueles que deviam conduzi-
los ao exílio final, tendo seus filhos deportados para a ilha de São Tomé, os
judeus espanhóis acabaram por se adicionar à comunidade judia de Portugal,
fazendo que esta contasse cerca de um décimo do total da população do país,
fato único na história dos Estados cristãos ocidentais.
No fim da Idade Média, o quadro das controvérsias religiosas e da literatura
apologética antijudaica em Portugal era de excepcional calma em relação ao
resto da Europa. Enquanto em Paris (1240), Barcelona (1263), Tortosa e São
Mateus (1413-14) as controvérsias recrudesciam a exaltação antijudaica, em
Portugal o poder real parece ter proibido essas disputas, de modo que nesse
período foram raros os escritos portugueses sobre o tema. Ao passo que judeus
espanhóis convertidos ao catolicismo (como Pablo de Santa Maria e Jerônimo de
Santa Fé) ou espanhóis sem origens judaicas (como Nicolau de Lira e Alonso de
Spina) escreveram virulentos tratados contra os judeus, provavelmente lidos em
Portugal, nesse país só se produziram à época quatro tratados, de resto
imbuídos de um espírito de tolerância e de uma moderação particularmente
notáveis, segundo I.-S. Révah 6 reflexo da boa situação que os judeus gozavam
em Portugal, mas também da estabilidade que então predominava no Estado
português.
A situação muda radicalmente com a conversão forçada de 1497, e é de estranhar
que o problema sociopolítico que representava a assimilação da população
judaica em Portugal não tenha repercutido na literatura dos primeiros anos do
século XVI. Ainda segundo Révah, a reação dos letrados portugueses só começou a
evoluir com o início da disputa diplomática sobre a questão da instauração da
Inquisição e em seguida com a atuação desta. Esses acontecimentos despertaram o
zelo religioso e uma "crise de consciência em certos cristãos portugueses", que
começaram então a produzir obras de apologética antijudaica em português.
Contudo, precedendo de pouco a iniciativa de D. João III de criar um tribunal
inquisitorial, o colóquio Ropicapnefma (1531) do cronista João de Barros pode
ser considerado a primeira obra a se ocupar da questão do judaísmo, muito
embora o seu propósito principal não fosse esse, mas o de apresentar "uma
apologética e uma sátira erasmiana dos diversos estados sociais, uma refutação
das principais heresias religiosas e uma crítica dos vícios morais". Não
obstante, João de Barros fazia uma referência direta ao judaísmo ao especificar
as heresias que esperava combater: "Hua t? duvida na immortalidade dalma, outra
na sua pena e gloria, outra na ley de Christo"7.
Os dois primeiros escritos a trazer como tema principal a questão dos judeus
são o Espelho de cristãos-novos e convertidos (1541), do cisterciense Francisco
Machado, e o Diálogo evangélico sobre os artigos da fé contra o Talmude dos
judeus (1542-45), de João de Barros. No entanto esses dois tratados não
receberam autorização para ser impressos, visto que a concepção de um
cristianismo evangelizador e não-persecutório neles formulada não era do agrado
do poder real, encarnado na época por D. João III, hostil aos cristãos-novos8.
Nessa mesma época é publicado em espanhol um livro que não chamou a atenção dos
historiadores clássicos do assunto, mas que pode ser incluído entre as obras de
cunho antijudaico do período. Trata-se do Libro dela verdad d la fe, do
agostiniano João Soares, confessor e pregador régio, editado em Lisboa em 1543
e em Alcalá de Henares em 1545 "por especial mãdado dl dicho señor [D. João
III]" 9. As duas edições parecem ser idênticas, a não ser pelo prólogo, escrito
em português na edição lisboeta e em castelhano na edição espanhola. Ali o
autor explica ter escrito a obra "pera a defenssão dos catholicos contra as
heresias que por nossos peccados tanto molestam a ygreja de deos neste tempo",
mas o conteúdo mesmo do tratado revela maior disposição para combater o
judaísmo do que o protestantismo e o islamismo, com vários capítulos
especificamente redigidos contra ele.
Vinte anos mais tarde, em 1565, vem à luz em Goa a tradução portuguesa de duas
obras latinas de Jerônimo de Santa Fé, Ad convincendum perfidiam judæorum e De
judaicis erroribus ex Talmud ("Prova da perfídia dos judeus" e "Erros dos
judeus tirados do Talmude"), feita por Dom Gaspar de Leão, arcebispo de Goa, e
acompanhada de uma carta apostólica escrita pelo próprio. Dois anos mais tarde
o livro de Francisco Machado é publicado em Coimbra, só que em latim e
expurgado de qualquer crítica em relação à política real10.
Segundo Frank Talmage, toda essa primeira produção antijudaica portuguesa não
visava especificamente os judaizantes de Portugal, voltando-se sobretudo aos
povos de outras línguas e culturas no contexto da expansão portuguesa: a
tradução de Gaspar de Leão, por exemplo, dirigir-se-ia aos judeus da Índia
(tendo igualmente como fim a utilização do idioma português como instrumento de
imposição de soberania), e a obra de João de Barros também estaria ligada ao
contexto asiático11. Se a redação em castelhano do livro de João Soares de
certo modo contradiz a afirmação de Talmage, as necessidades alegadas para a
sua elaboração e as referências ali feitas à luta contra os muçulmanos na
África e na Ásia vão no sentido das explicações desse autor:
Como pollo feruente zelo com q V.A. prossegue todas as cousas da
nossa sancta fe catholica: & ho bem da christandade & da
republica. (Como se mostra polla sãcta inquisiçam do sancto Padre
pera todos seus reynos & senhorios. Da paz perpetua que em seu
tempo guardou com os Reys christãos. Ha guerra continua que tem
contra mouros & Turcos vencidos/ vindo por capitam delles o
çulimam Bara a que tomou Rodes: & pouco antes foy morto el rey de
Cambay grande ajudador do Turco). A conquista que sempre tem em
Africa com os mouros 12.
Em todo caso, esses tratados inauguram a rica produção gráfica portuguesa de
textos antijudaicos, que no entanto só assumirá um ritmo mais constante a
partir dos anos 1610, quando começam a ser publicados os sermões de autos-de-
fé. Esse ritmo se mantém quase ininterrupto até o fim do século XVII (a exceção
é o período das guerras de independência), quando passa a perder fôlego até
cessar quase que completamente no princípio dos anos 1750. Pode-se estimar essa
produção gráfica em mais de uma quinzena de livros e panfletos e em mais de
setenta sermões de autos-de-fé (alguns com reedições), para não falar da
produção manuscrita.
As obras dessa "corrente literária" podem ser divididas em quatro tipos. Em
primeiro lugar os sermões de autos-de-fé, que representam sua vertente mais
prolífica e cuja grande maioria se dirige contra o judaísmo e a heresia dos
judaizantes. Em seguida os tratados de polêmica antijudaica, obras mais
elaboradas e volumosas (entre cem e trezentas páginas) que abordam questões
teológicas ou teológico-políticas de modo exaustivo. Um outro tipo de texto
bastante específico ao século XVII consiste nos "pareceres" sobre os cristãos-
novos redigidos por "arbitristas" espontaneamente ou a pedido do rei, que
apesar de impressos tinham uma circulação bastante restrita. Finalmente, pode-
se agrupar alguns opúsculos que tratam do tema de modo conciso e freqüentemente
original, a exemplo do relato da conversão de um rabino italiano do século XVII
e de um "romance em versos" (na verdade a última criação do gênero) publicado
em 1748. Como veremos mais adiante, esse tipo de publicação pode indicar uma
evolução da imagem que os letrados portugueses tinham dos judeus.
III
As motivações dos autores de sermões de autos-de-fé13 e de tratados de polêmica
eram múltiplas. A conversão dos judeus era o objetivo mais reivindicado, o que
pode parecer anacrônico, visto que legalmente não mais havia judeus em
Portugal, mas para os contemporâneos era tema de atualidade, não se fazendo
muita distinção entre os termos "judeu", "cristão-novo" e "judaizante". Em
segundo lugar vinha a consolidação da fé dos católicos em geral e dos conversos
em particular. Em terceiro lugar, tratava-se de precaver a população e os
dirigentes do Reino contra a perfídia dos judeus. Por fim, preconizava-se a
expulsão dos cristãos-novos do país tendo em vista a sua obstinação e o perigo
que corria Portugal caso não fossem rechaçados. Esses quatro objetivos podiam
aparecer isolada ou conjuntamente nas obras em questão. Vamos agora passar em
revista alguns dos autores e seus tratados, aqui reagrupados de acordo com o
grau de virulência em relação aos cristãos-novos, desde os mais temperados,
todos de origem italiana, até os mais odientos.
João Batista d'Este, judeu italiano de origem ibérica convertido em Portugal,
pseudo-autor de duas obras antijudaicas impressas (pelo menos uma delas é um
plágio), inscreve-se nos dois primeiros casos, como faz notar o título da sua
Consolaçam christaã e luz para o povo hebreo, de 1616. Cinco anos mais tarde
ele traz à luz o Diálogo entre discipulo e mestre catechizante, obra de teor
mais prático e combativo que missionário, em que descreve e resolve, de modo
bastante desordenado, "todas as duuidas que os Iudeos obstinados costumaõ fazer
contra a verdade da Fé Catholica" 14. Trata-se na verdade da apropriação de uma
obra de Fabiano Fioghi 15, professor de hebraico da Casa dos Catecúmenos de
Roma e como d'Este um judeu italiano convertido, o que exemplifica o começo da
influência italiana sobre esse tipo de produção cuja forma preferida é o
diálogo, que caracteriza as obras mais evangélicas e até certo ponto isentas de
preconceitos raciais.
Entre os tratados de polêmica editados em Portugal, cabe citar três traduções
de obras italianas: Synagoga dezenganada, do jesuíta Giovanni Pietro Pinamonti,
publicado originalmente na Itália em 1694, traduzido no Brasil e impresso em
Lisboa em 1720 às custas do arcebispo da Bahia16 (seria traduzido para o
espanhol somente em 1733, a partir do original e da versão portuguesa); Dialogo
sagrado sobre o Genesis, do judeu convertido Paolo Sebastiano Medici, publicado
em Lisboa em 173917; e A verdadeira fé triumphante: explicação do mysterio da
Sanctissima Trindade, obra de Giacomo Cavalli, outro judeu convertido,
publicada em Lisboa no ano de 1751 em tradução feita pelo lisboeta Henrique de
Andrea, doutor em leis e cânones pela Universidade Sapiencia de Roma18.
O discurso muda em certas obras cujos autores, em vez de tentar convencer os
judaizantes de seus erros, demonstram seu zelo apostólico e dirigem-se aos
"bons cristãos" para tratar da verdade da fé católica e da caducidade do
judaísmo. Nessa vertente podemos incluir o tratado do carmelita Luís da
Apresentação, ou Luís de Mértola, publicado em Lisboa mas em espanhol, sob o
título Demonstracion evangelica y destierro de ignorancias judaicas (1631)19.
Podemos ainda citar uma obra publicada fora de Portugal, e nesse caso em latim:
o Opvscvlvm de hebræo convicto, de autoria de Francisco Leitão, editado em Roma
em 1693, que também se dirige ao christiane lector20. Contudo, esses tratados
por vezes assumem um violento tom anti-semita pouco apropriado a obras de
edificação ou evangelização, diríamos hoje, mas que para esses autores parecia
ser o único tom possível de utilizar. É o caso do tratado do arcediago Fernão
Ximenes de Aragão, intitulado Doutrina catholica para instrucçaõ e cõfirmaçaõ
dos fieis e extincçaõ das seitas supersticiosas e em particular do iudaismo e
publicado em 1625, no qual o autor diz querer
diuulgar doutrina que seja como arte em que se possa ver &
aprender claramente as verdades Catholicas [...] & se desfação as
cegueiras dos erros contrarios: pera que com esta lição os fieis se
confirmem mais na fé, os fracos se esforcem, & os cegos se
desenganem, & se reduzão a ella 21.
Na revisão que fez do seu livro três anos mais tarde, Aragão deixa cair a
máscara evangélica ao publicá-lo sob o título Extinçam do iudaismo e mais
seitas supersticiosas e exaltaçam da só verdadeira religiaõ christaã. Na
dedicatória ao papa Urbano VII ele escreve, como alguns dos pregadores de
sermões de autos-de-fé, que a solução para "o mal deste Reyno [o judaísmo em
Portugal], não depende, ha muitos annos, e muito menos hoje de remedios de
doutrinas", preconizando então a expulsão dos convictos no crime de judaísmo
pela Inquisição. Essa segunda versão foi reeditada, sob um terceiro título, em
175222.
Vemos então em algumas dessas obras dois objetivos: fortificar nos católicos a
doutrina cristã utilizando como contraponto o judaísmo, mas de alertá-los
contra a perfídia judaica. Esse último desígnio atinge seu paroxismo na
Centinella contra judeos, do espanhol Francisco de Torrejoncillo, uma das obras
mais infamantes escritas contra os judeus até o século XX. Com três edições em
Portugal e sete na Espanha, a obra foi um verdadeiro best-seller, como já
observou Anita Novinsky 23. No prólogo, o tradutor dá conta dos relentos de
loucura anti-semita que pairavam sobre Portugal no começo do século XVII:
Hoje sahe a estamparse mais que em o delicado de hum papel, em os
coraçoens dos Catholicos estaCentinella contra Judeos; sendo sua
utilidade de tal consideraçaõ, que mostra ser a segurança, e vida de
muitos della dependentes, cujos descuidos, naõ sufficientemente
chorados, com larga pena, e naõ pouca ancia referem antigas
historias. Escreva-se pois em a taboa do coraçaõ com o duro ferro, o
de que ella nos avisa, para que rasgado saya do intimo delle o
sangue, a pedir vingança contra aquelles que o tiráraõ ao
innocentissimo Salvador nosso.
De fato, os ares portugueses estavam então muito carregados em razão dos
numerosos autos-de-fé e da grande controvérsia sobre a promulgação de mais um
perdão geral em favor dos cristãos-novos. Essa controvérsia gerou uma grande
massa de manuscritos tratando da inconveniência do perdão, mas a temática foi
ultrapassada com a introdução da idéia de que Portugal devia expurgar sua
população de origem judaica. Um autor se dedicou particularmente a essa
propósito:
Vicente da Costa Mattos, aparentemente um laico, que em 1622 publicou um Breve
discurso contra a heretica perfidia do iudaismo continuada nos presentes
apostatas de nossa santa fé com o que conuem a expulsaõ dos delinquentes nella
dos reynos de Sua Magestade, cõ suas molheres & filhos. Costa Mattos
agregou novas fontes ao tratado e reeditou-o no ano seguinte em versão
revisada. Pouco tempo depois, em 1625, publicou suas Honras christãs nas
afrontas de Iesu Christo e segunda parte do primeiro discurso contra a heretica
perfidia do judaismo [...] com a conveniencia da expulsaõ dos sobreditos
hereges, em ordem ao serviço de Deos Noßo Senhor & ao proveito deste reyno,
completando assim o maior volume de horrores publicado contra os cristãos-novos
em Portugal, numa conjunção desordenada de fatos reais e de afirmações de
princípio com uma pretensa base histórica 24. O Breve discurso foi objeto de
grande polêmica e alcançou considerável sucesso, sendo reeditado em Lisboa em
1663 e publicado duas vezes em espanhol: em 1631 em Salamanca e em 1680 em
Madri.
Em 1631 foi publicada uma coletânea de sermões do carmelita Timóteo de Ciabra
Pimentel, atiçado pelo sacrilégio contra o Santo Sacramento cometido na igreja
de Santa Engrácia, em Lisboa, em 15 de janeiro do ano anterior, pelo qual foi
culpado, apenas por "violentas presunções", o cristão-novo Simão Dias Solis.
Suspenso de sua ordem por ter acusado os cristãos-novos antes do julgamento do
caso, Ciabra se refugiou em Barcelona, onde publicou em espanhol uma série de
sermões inflamados que havia pregado em Lisboa25. Com seu estilo "asperissimo",
a obra buscava demonstrar como os cristãos-novos, por serem judaizantes "casi
todos", faziam de tudo para arruinar o reino de Portugal, sendo portanto
necessária a sua expulsão. O desacato em Santa Engrácia incitou uma profusão de
sermões de desagravo, mas nenhum tendo como alvo direto os cristãos-novos, como
no caso de Ciabra.
Quarenta anos mais tarde, um outro desacato, dessa vez ocorrido na igreja de
Odivelas, subúrbio de Lisboa, provocou uma outra onda de indignação, desagravos
e sermões. Esse caso eclodiu num momento de intensa discussão sobre a
legislação antijudaica e um possível perdão geral que estava sendo negociado em
Roma por Antônio Vieira26. Entre as publicações que surgiram à época destaca-se
por sua virulência e seu discurso puramente político a obra Perfidia
judaica..., de Roque Monteiro Paym. Não é por menos que foi publicado em Madri
(pelo capelão do embaixador português na corte espanhola), à revelia de seu
autor e sem identificação de editor nem as censuras de costume. O tratado (cuja
estrutura na verdade mais o assemelha aos memoriais, que abordaremos adiante)
traz como subtítulo Discurso iuridico è politico, que lhe convém à perfeição
27.
Esse escrito serviu de base a um decreto do regente D. Pedro promulgado em 22
de junho de 1671, que ordenava a expulsão de todas as pessoas convictas por
judaísmo pela Inquisição, mesmo após a abjuração, e também aquelas que tivessem
abjurado somente de vehementi suspeita na fé, junto com suas famílias. O
decreto ainda proibia os cristãos-novos como um todo de integrar a
universidade, de casar-se com cristãos-velhos etc. Contudo, os protestos dos
cristãos-novos, apoiados por Antônio Vieira, a oposição dos inquisidores e o
fato de o culpado pelo desacato em Odivelas ter sido finalmente encontrado e
ter-se revelado apenas um "rústico" ladrão cristão-velho de 19 anos acabaram
por impedir a execução do decreto 28. Apesar de tudo, Perfidia judaica é um dos
mais metódicos e mais virulentos escritos já produzidos por um português. Paym
não recorre ali a nenhuma argumentação teológica, centrando sua exposição
unicamente em noções jurídicas, políticas e lógicas, com o que o anti-semitismo
português foi levado ao seu paroxismo.
Vê-se então que o tema central dessas obras, apesar do esforço de generalização
dos autores, consiste direta ou indiretamente na questão dos "judeus
interiores", isto é, os cristãos-novos, por eles tomados como os descendentes,
pelo sangue e por sua obstinação, dos assassinos do Messias vindo para redimir
o mundo, e assim bodes expiatórios perfeitos de uma sociedade em declínio desde
meados do século XVI, dada a fragilidade do império português. A disseminação
dessa produção eminentemente racista não implica que esse movimento tenha sido
inexorável, pois a partir de fins do século XVII certas obras mostram
preocupações religiosas e sentimentos evangélicos, apesar das características
racistas que não deixavam de apresentar. Seria essa produção o sinal de uma
mudança no modo de conceber a política a ser adotada em relação aos cristãos-
novos? Ao escrever e divulgar seus tratados e sermões, esses autores tinham a
impressão de estar fazendo um ato pio, justo e útil para a religião e para o
país: fazia-se necessário converter os "judeus", fortificar a fé dos bons
católicos e prevenir estes últimos contra o perigo que os judeus infiltrados na
sociedade portuguesa, segundo eles, representavam.
IV
Esses textos dos anos 1620 e 30, não sendo sempre obras de circunstância,
permanecem conexos ao contexto em que foram redigidos, o qual é muito
importante para a compreensão desse fenômeno. Durante os últimos anos de seu
reino, Felipe III de Espanha recusa-se a dar ouvidos às contínuas súplicas dos
cristãos-novos, mas com a coroação de Felipe IV em 1621 estes encontram um rei
mais afável e também com maiores necessidades financeiras, que chega a proibir
os autos-de-fé em Portugal. Embora o soberano tenha se retratado pouco tempo
depois sob a influência dos inquisidores, o caminho estava definitivamente
aberto às pressões dos conversos, que 1627 conseguiram obter concessões como
liberdade de movimento e redução das penas.
Durante o reinado de Felipe IV o problema dos judaizantes foi matéria de
freqüentes discussões nas altas hierarquias civis e religiosas, o que se
refletiu em um grande número de publicações acerca da questão judaica nos anos
1620 e 30. Segundo Pulido Serrano, várias das grandes disputas políticas então
em curso na corte espanhola estavam diretamente ligadas à questão dos
"conversos": o problema da sangria populacional que decorreria da saída dos
descendentes dos judeus tanto do reino de Portugal como de certas regiões de
Castela; o problema da falta de estímulo da população em geral para o comércio,
dado o papel que exerciam os cristãos-novos nessa atividade; o problema da
dependência da Coroa em relação aos financistas genoveses29.
Diferentes visões sobre como resolver esses problemas se confrontavam na Corte.
De um lado, o clã do conde-duque Olivares que incluía o confessor de Felipe
IV, influenciado pelas correntes tacitistas de inspiração maquiavélica
incentivava uma política de integração dos cristãos-novos portugueses, que se
daria sobretudo com um relaxamento dos estatutos de pureza de sangue. Aliás,
Serrano demonstra que Olivares nunca pensou em convidar os judeus a voltar para
a Espanha ou em autorizar a prática do judaísmo nas terras de Sua Majestade
Católica, contrariamente aos boatos que seus detratores fizeram correr nos
momentos de disputa e que acabaram por passar para a historiografia. Do outro
lado estavam justamente aqueles que duvidavam da capacidade de integração dos
cristãos-novos, por acreditarem que eram judaizantes e traidores, e que
divulgavam uma mensagem anti-semita e ao mesmo tempo a imagem de um exacerbado
filojudaísmo de Olivares, de modo a desacreditar sua política.
Nesse contexto de polêmica, como sugere Nachman Falbel, os textos anti-semitas
produzidos em Portugal poderiam expressar uma contestação velada da política
"judaica" de Felipe IV, refletindo assim a exacerbação de um sentimento
nacional português contra a dominação espanhola em que os cristãos-novos teriam
o papel de bodes expiatórios 30. O topos da invenção de um herege para mover a
opinião régia e pública contra uma política de integração, como no caso
ocorrido em Madri na época estudada por Pulido Serrano 31, se verificou em
Portugal na mesma época, como vimos, no obscuro caso de sacrilégio na igreja de
Santa Engrácia e pelo menos mais uma vez, quarenta anos depois, no desacato de
Odivelas. Assim, a intensa produção literária antijudaica dos anos 1620-30, bem
como a dos anos 1670-80, está intimamente ligada ao seu contexto político, o
qual fomentou o papel central atribuído aos cristãos-novos nesses eventos.
Além de algumas obras que almejavam maior circulação, esse contexto político
suscitou um certo número de "pareceres" e "memoriais" redigidos
espontaneamente, a pedido do rei ou em nome de grupos constituídos. O fato de
haver alguns exemplares impressos desses documentos não implica que tenham tido
grande circulação, mas sua descrição permite que se tenha uma idéia das
opiniões de pessoas muito próximas do poder.
Um desses textos, curto (seis fólios) e anônimo, começa por explicar os
inconvenientes criados pela presença da "nação hebraica" em Portugal,
acentuando os perigos de sedição e de aliança com um inimigo. Em seguida
apresenta três soluções para o problema: permitir a saída dos cristãos-novos do
país, expulsar as pessoas convictas de judaísmo pela Inquisição e enrijecer a
legislação sobre os apóstatas, fazendo de todos aqueles que tivessem ensinado o
judaísmo a outrem "dogmatistas", o que aumentaria em muito o número de
"relaxados ao braço secular", ou seja, de execuções na fogueira32. Um outro
memorial, ainda mais curto (dois fólios) que o anterior mas como ele escrito a
pedido régio, começa por afirmar, citando Inocêncio III, a evidência dos
"damnos que os homês da nação Hebrea causaõ nas Respublicas Christãas", sem
dúvida descontextualizando o discurso papal. Dentre os vários "remedios para
atalhar o iudeismo de Portugal", como anuncia o título do documento, o autor
destaca os dois "que parecem de mayor força": a expulsão dos convictos de
judaísmo pela Inquisição e a designação dos "dogmatistas" 33.
Um terceiro parecer, também anônimo, organiza seu discurso de um modo
diferente. Os 24 fólios do texto se dividem em três partes: a primeira trata
dos meios suaves e fáceis, mas que já "não podem ter lugar"; a segunda, dos
meios "totalmete seueros & rigurosos, que ja não podem ter execução"; e a
terceira, dos meios "varios & temperados, que prouauelmente podem ter mui
grande effeito". O autor então adiciona aos três meios propostos no primeiro
memorial descrito outros três: que fossem expulsos os que abjurassem de
vehementi; que a Inquisição reconciliasse de modo discreto aqueles que se
apresentassem a ela sem terem sido previamente denunciados; e que o rei
observasse as condições estabelecidas pelos papas para a concessão de
benefícios e dignidades eclesiásticas aos cristãos-novos (respectivamente cinco
e sete gerações comprovadamente isentas de passagem pelos cárceres
inquisitoriais), "porque estes convem ficarem sempre purificados sem exceiçaõ"
da pecha de judeus34. Esse memorial se particulariza dentre os demais pelos
dois tópicos mais clementes que o autor, o jesuíta Diogo de Areda nomeado em
dois exemplares manuscritos do texto 35 , inseriu no parecer, o qual na
verdade consiste no relatório final das discussões da Junta de Tomar, reunida
para propor soluções ao problema do cristão-novo36. A confiança por ele
demonstrada num longo processo de purificação geracional dos cristãos-novos não
rendeu frutos, mas esse tampouco foi o caso das soluções puramente expeditivas
de seus colegas.
O caso de Antônio Homem, preso em 1619 sob a acusação de liderar uma confraria
de judaizantes no próprio corpo docente da Universidade de Coimbra e queimado
em seguimento ao auto-de-fé de 1624, e o da inculpação de um cristão-novo pelo
sacrilégio de Santa Engrácia (1630) foram muito comentados em todas as camadas
da população, chamando a atenção sobre os cristãos-novos e atiçando
preconceitos e ódios. Foi durante esse período de extrema efervescência que se
publicou a maioria dos tratados contra os descendentes dos judeus, de resto os
mais virulentos já redigidos em Portugal. Entre 1621 e 1628 estamparam-se o
Diálogo de João Batista d'Este, as duas obras de Vicente da Costa Mattos, duas
das edições do tratado de Ximenes de Aragão, a coletânea de sermões de Ciabra
Pimentel e também a Demonstración evangélica de Luís da Apresentação.
Os anos 1670 também foram pródigos em acontecimentos relacionados aos cristãos-
novos, que motivaram a publicação de outros títulos. As manobras dos cristãos-
novos e do padre Antônio Vieira em Roma (mais do que uma política régia em
favor dos cristãos-novos, como foi o caso no período anterior) e o sacrilégio
de Odivelas incitaram o capelão do embaixador português em Madri a editar o
metódico Discurso jurídico e político (1671) de Roque Monteiro Paym. A tradução
da terrível obra de Torrejoncillo, iniciada sem dúvida antes de 1681 (a
Sentinela contra os judeus foi publicada em Portugal em 1684, mas as licenças
datam de 1682 e 1683), pode ser relacionada ao período de paralisia da
Inquisição (1674-81), embora nem o prólogo do tradutor nem as licenças o digam
claramente.
V
O período que se inicia por volta de 1650 não produz mais do que dois tratados
escritos por portugueses, mas publicados fora de Portugal: Paym é editado em
Madri e Francisco Leitão em Roma. As obras publicadas nessa época são herdeiras
daquelas dos séculos anteriores, para não dizer seu reflexo, visto que se trata
quase que exclusivamente de reedições ou traduções. No século XVIII já não há
nenhum tratado português inédito. É certo que deve ser citado o Discurso
católico de Antônio Isidoro da Nóbrega, mas o texto, apesar de sua longa
extensão, só faz retomar o estilo e a forma dos sermões de autos-de-fé37.
Também no que toca aos sermões podemos constatar um esgotamento. Entre 1612
(data do primeiro sermão publicado) e 1620 foram publicados nove sermões. O
número sobe para 22 no período 1621-40 e desce para sete em 1641-60, mantendo-
se em nove entre 1661 e 1680 e em seis entre 1681 e 1700. No período 1701-20 há
um último salto, para doze sermões, e em seguida dá-se o derradeiro declínio,
com dois sermões entre 1721 e 1740 e três entre 1741 e 1753 (ano do último
sermão publicado) 38. Vemos assim que o período filipino viu o começo desse
tipo de publicação e que o período crítico da política olivarista (1620-30) foi
o de maior número de publicações. Se é verdade que as questões políticas dos
anos 1680 não parecem ter influenciado o número de edições de sermões de autos-
de-fé, o significativo e alarmante aumento do número de judaizantes julgados
pela Inquisição nas primeiras décadas do século XVIII pode explicar o
recrudescimento desse tipo de publicação nessa época.
A reedição de obras de grande virulência ainda na segunda metade do século
XVIII caso das obras de Torrejoncillo ou de Ximenes de Aragão indica a
vitalidade dos preconceitos raciais contra os cristãos-novos em Portugal,
sugerindo que a imagem negativa do judeu ainda fosse a mesma do início do
século XVII e que muitos ainda pensavam ser necessário precaver a população
portuguesa contra os perigos que representavam os judeus para a sociedade. Esse
fenômeno também mostra que uma parte da população letrada do país não
acreditava numa solução branda para o problema. Entretanto, ao examinarmos a
cronologia das publicações relacionadas ao tema podemos observar uma evolução
no modo como os letrados portugueses viam a questão dos cristãos-novos.
Desde o período filipino até os anos que se seguiram à Restauração os
polemistas portugueses centraram o debate na questão da expulsão dos cristãos-
novos, ou mais especificamente dos judaizantes e dos suspeitos de o serem, o
que também teria sido, como vimos, uma manifestação velada de resistência à
Espanha e à política de Olivares. Esse foi o período de elaboração dos textos
mais virulentos impressos ou manuscritos, tratados ou sermões , não havendo
vestígios de nenhuma obra com sentimentos apostólicos em relação aos cristãos-
novos (sempre suspeitos de judaizar): os pregadores não crêem ser útil tentar
catequizá-los. Assim, esse período só produz textos de execração do judaísmo e
de advertência à população para os perigos da "presença judaica" em Portugal. A
partir de 1651, porém, revela-se a existência de uma corrente mais ou menos
paralela à dos sermões de autos-de-fé e das reedições dos tratados mais
virulentos.
Essa nova vertente se inaugura com a tradução de uma correspondência fictícia
de autoria de um dominicano espanhol desconhecido. Trata-se da Carta que hum
rabbino chamado Samuel escreueo a outro rabbino chamado Isaac, publicada em
1651, que não tende a atacar ou difamar os judeus, visando antes a sua
conversão. A demonstração da Carta centra-se nas tribulações do povo judeu após
a chegada de Cristo. Embora o texto por vezes se utilize de um vocabulário
humilhante em relação aos judeus, não apela para a evocação da "perfídia
judaica" contra os cristãos. Contudo, devemos levar em conta que esse texto
assim como os tratados traduzidos do italiano mencionados anteriormente se
origina de um contexto completamente diferente daquele de sua tradução para o
português: a obra data do século XIV, época em que o afrontamento já havia
começado mas o judeu ainda era um tema real e verdadeiramente presente. Assim,
por que traduzir e divulgar esse texto em português passado mais de meio
século? Francisco Fernandes Prata, o tradutor, dá as razões da sua empresa:
Dizendome hua pessoa de muita authoridade, docta, & zeloza que
fora importante ao seruiço de Deos traduzirse esta Carta em
lingoagem, me encomendou que o fizesse; E a mim (reparando nella) me
parece que conuinha, que andara traduzida em todas as lingoas, desde
ha quazi seiscentos annos, que foi feita. Esta foi a cauza de
traduzir essa carta da lingoa Latina em a nossa Portugueza: pera que
os que seguem o Iudaismo se possaõ desenganar, & sair de seu
erro, [mas também para que] os Catholicos os possaõ com facilidade
couencer delle 39.
Esse eruditíssimo teólogo português, autor de dois tratados sobre os mistérios
da fé e os sacramentos, quis levar ao conhecimento do publico laico um texto
útil à edificação dos bons católicos e a uma conversão sincera dos "judeus" de
Portugal que estivessem inclinados a lê-lo. Essa motivação parece próxima da
realidade, pois a Carta era bem conhecida dos eruditos e acessível aos leitores
da língua latina por meio das coletâneas de textos patrísticos e também do
Scrutinium scripturarum de Pablo de Santa Maria, judeu converso e bispo de
Burgos, uma fonte básica dos autores de obras de polêmica. Parece-me que os
sentimentos evangélicos que moveram Fernandes Prata a traduzir a Carta em 1651
diferiam do rancor dos autores dos tratados das décadas que lhe precederam.
Martim Vaz Tagarro, provavelmente um livreiro, financiou uma segunda edição da
obra em 167340 e no ano seguinte foi responsável pela reedição do Diálogo entre
discípulo e mestre catequizante de João Batista d'Este, o que sugere que tinha
os mesmos sentimentos evangélicos dos seus tradutores ou que esperava um
retorno certo do seu investimento, dado o sucesso das primeiras edições dessas
obras. As datas dessas duas reedições também podem indicar uma repercussão
"otimista" das tensões políticas envolvendo o desacato de Odivelas (1671) e as
discussões em Roma sobre os procedimentos inquisitoriais.
Cerca de quinze anos após a primeira edição da Carta foi publicada uma outra,
sobre o rumoroso episódio de Sabbatai Zevi, que em 1665 se proclamou messias e
teve muitos seguidores entre os judeus da diáspora, sobretudo os de origem
ibérica. Trata-se da Copia de huma carta, que de Constantinopla se escreueo a
Roma, sobre o fingido messias dos judeus, ou seja, a tradução do italiano de
uma carta atribuída ao jesuíta francês Jacob Becherand e distribuída com
celeridade em vários cantos da Europa, com edições em italiano, francês,
holandês e português, todas datadas de 1667, um ano após a conversão do
pseudomessias ao Islã 41. Embora Gershom Sholem considere o texto muito
virulento e o vocabulário utilizado pelo jesuíta ridicularize o episódio,
podemos afirmar que ele não apresenta nenhum dos preconceitos ibéricos contra
os judeus nem os elementos baseados em citações fantasiosas que deparamos nos
textos portugueses da mesma época. Tampouco se trata de um simples relato de um
evento curioso, suscetível de interessar o público, como tantos que saíam das
imprensas da época. Ao fim da carta o autor passa a seguinte mensagem:
Seja como for, eis aqui o fim do nouo Messias dos Hebreus, que tanto
rumor, & estrondo causou per espaço quasi de dous annos, &
deu tanta materia de fallar, principalmente nestas partes do Leuante.
Nam duuido, se a obstinaçam dos Hebreus nam he em parte dos effeitos
da maldiçam que Deos tem lançado a esta naçam, que achem aqui hum
motiuo muito racionauel pera seguir o partido de Christo: por
ventura, que os que viuem entre vossa merce em Roma (como tem mais
commodidade pera ser instruidos, que os destas partes) da confusam
que recebéram com este successo, tiraràm hum argumento poderosissimo,
pera abrir os olhos à luz da verdade, desenganandose por huma vez
(depois de ser enganados tantas com a vãa esperança em que persistem)
de que nam veram nacer outro Messias mais que o que nôs reconhecemos,
& adoramos na venerauel Pessoa de Iesu Christo, o qual guarde a
vossa merce, &c. Constantinopla em 21. de Outubro de 166642.
Pura retórica? É possível. Em todo caso, o tradutor da carta de Constantinopla
assim como o da Carta que um rabino... ou o autor de um opúsculo sobre a
conversão de um rabino que analisaremos adiante pode ter achado que uma
literatura de exempla renderia mais frutos que o ataque metódico feito aos
cristãos-novos do Portugal da época.
A já citada Sinagoga desenganada, escrita pelo jesuíta italiano Giovanni Pietro
Pinamonti com objetivos manifestamente missionários, foi traduzida pelo também
jesuíta Andreoni e publicada em 1720 em Lisboa. A obra, originalmente publicada
em 1694, não faz a habitual indiscriminação entre todos os judeus, tanto do
passado como do tempo do autor. Referindo-se às expulsões dos judeus da França
e da Inglaterra, por exemplo, Pinamonti afirma:
Nem quero com isto dizer que se haja de crer que em todos estes cazos
[os sacrilégios utilizados como desculpa de algumas expulsões] todos
os Hebreos fossem igualmente culpados naquellas maldades pelas quaes
eram castigados, devendose, como agora, assim então, achar entre
elles alguns ornados de varias virtudes moraes, amantes do justo e
afastados de semelhantes delictos. Com tudo, prudentemente julgavão
os Principes que a nação Judaica devia tirarse do meio dos Reynos,
porque de tempo em tempo com taes excessos perturbava o bem publico
43.
Esse e outros trechos mostram ainda que a obra não se adaptava à realidade
ibérica. Na realidade, havia sido escrita para a catequização dos judeus da
Itália, e sua divulgação no mundo português parece indicar que os responsáveis
por sua publicação em alguma medida não compactuavam com a ideologia racista
dominante. Contudo, na sua dedicatória aos inquisidores o autor lembrava que os
cristãos-novos tinham "nas veas algum sangue da nação Hebrea", o que pode ser
uma leve concessão, ou quem sabe um automatismo, de um italiano que assumiu a
fraseologia dos portugueses.
A licença do Paço para a impressão da obra reflete a diversidade de opiniões
que os letrados portugueses podiam ter da questão dos cristãos-novos. O
oratoriano Pedro Álvares começa por denunciar "o quase paradoxo" prometido pelo
título da obra, dada
a larga experiencia da inflexivel obstinação e affetada cegueyra com
que os Hebreos não sómente forcejão por segurar nos olhos o veo com
que resistem á luz da verdade, mas àlem disso buscão, seguem, abração
e adorão as mal formadas quimeras de seus aereos e futeys enganos.
No entanto, acaba por elogiar os trabalhos tanto do autor como do tradutor da
obra:
Estes nossos Apostolos (como os primeyros a quem imitão) não são
todos das Gentes, como Paulo, más tambem alguns são Apostolos dos
Circuncidados, como Pedro. Pois ao mesmo tempo que voluntariamente se
desterrão muytos por buscar e reduzir aos Gentios, se ocuppão outros
em convencer e dezenganar aos Judeos. Se ainda entre nós vivem alguns
inclinados de coração aos seus erros, ou duvidozos da nossa
verdadeyra Fé, neste livro (se os não desviar da sua lição o seu
mesmo titulo) acharão doutrina que facilmente instrúa e verdade que
poderozamente os desengane; e por este meyo não terá V. Majestade
Vassalos que não sejão fieis44.
Podemos desvendar aqui duas correntes quase antinômicas que se encontram: não
se pode confiar nos judeus (aqui, os cristãos-novos), mas a sua conversão
sincera ao catolicismo parece possível. Eis a novidade.
Uma outra obra traduzida do italiano testemunha essa evolução em Portugal:
Triunfo da religiam christan, alcançado contra a perfidia judaica na igreja
cathedral de S. Cyrillo em Ancona em 26 do mez de março de 1735, do judeu
convertido Paolo Medici. Trata-se do relato da conversão de Sabbato Nachamu,
ex-rabino de Corfu, após ouvir a pregação de Medici (provavelmente forçada,
como era comum em certos lugares da Itália na época), apesar de suas últimas
dúvidas, das quais a mais séria era quanto à não-observância dos ritos da
Antiga Lei. Confortado por Medici ao fim da prédica seguinte, Nachamu "tirou o
chapeo da cabeça, e publicamente fez o sinal da Santa Cruz, e correu depressa a
lançar-se aos pés do Eminentissimo Bispo", o cardeal Maffei, que se encontrava
presente45. Convém notar que a situação dos judeus na Itália da época não era
de todo invejável. Acossados nos guetos, eram obrigados a ouvir sermões e a
suportar algumas conversões forçadas (sobretudo de crianças) e humilhações, mas
o judaísmo lhes era permitido; e se os textos produzidos para a sua conversão
nem sempre traziam um vocabulário brando, sua virulência não é comparável
àquela que se constata nos textos ibéricos46.
O responsável pela publicação desse opúsculo de onze páginas preferiu ficar
anônimo, mas ao vangloriar as obras de Medici, entre as quais o Diálogo sagrado
sobre o Genesis, ele acaba por escrever "que o Escritor desta relaçam vay
traduzindo para os dar ao prélo" 47. É certo então que se trata de Brás José
Rebello Leite, tradutor daquela obra, publicada em Lisboa em 1739 48. Para esse
padre secular bacharel em direito pontifical pela Universidade de Coimbra,
muito ativo nas academias literárias lusitanas (Latina, Portuguesa e dos
Aplicados) e que possivelmente veio a conhecer a obra de Medici por meio dos
contatos com academias italianas , "a fluencia dos beneficios de Deos
endureceu o coraçam para os sentimentos dos infalliveis dogmas da verdadeira
Fé". Ele deve então ter ficado bastante surpreso ao saber dos sucessos do
proselitismo cristão no caso do ex-rabino de Corfu e descobrir que na Itália os
judeus ainda "experimenta[m] da Divina Misericordia estimulos para abraçar as
inspirações, que lhes offerece no vigoroso poder da sua doutrina" 49. Foi quem
sabe essa perplexidade que o levou a descrever a "Divina Misericórdia" como
prova para si mesmo e para seus compatriotas judaizantes ou não de que a
conversão dos judeus ainda era possível.
Foi somente após ter feito essa demonstração que Rebello Leite viu utilidade na
publicação do Diálogo de Medici, mediante um trabalho de fôlego (mais de
setecentas páginas em dois volumes) de tradução da primeira parte de uma obra
imensa, cujos trinta volumes pensava traduzir por inteiro. Ele preferiu
traduzir essa obra do italiano, preterindo a Sinagoga desenganada, por exemplo,
certamente por causa da autoridade que tinha a seus olhos a figura de Medici,
"um Douto entre elles"50, judeu convertido e seu contemporâneo. Essa autoridade
era sem dúvida real, pois Nachamu não parece ter sido o único judeu a
converter-se pela verve de Medici 51. De todo modo, a preferência por textos de
judeus conversos insere-se na lógica da literatura de polêmica, pois a
utilização desses escritos como demonstração irrefutável fazia parte dos
argumentos dos tratadistas e pregadores52. A existência de uma outra obra de
Medici, Riti e costumi degli ebrei, confutati, especificamente escrita para
combater o judaísmo e publicada pela primeira vez em Florença em 1736, pode
demonstrar que o principal interesse de Rebelo Leite não era a conversão
sincera dos judaizantes, mas a edificação em geral dos fiéis. Contudo, a
existência de uma cópia manuscrita de uma edição tardia da obra (Veneza, 1757)
na Biblioteca Nacional de Lisboa53, sem o nome do responsável, pode ser um
sinal de que a obra talvez estivesse para ser traduzida por Rebello Leite, cuja
data de morte me é porém desconhecida.
VI
Vimos como a edição de obras de cunho antijudaico em Portugal começa com um
sentimento apostólico em relação aos cristãos-novos, o qual se mantém até o
início do século XVII. Inicia-se então um outro período, em que o sentimento
anti-semita dos portugueses transparece claramente nos textos. A invectiva
literária contra os cristãos-novos continuará até a segunda metade do século
XVIII, quando o decreto de Pombal abolindo a diferença entre cristãos-novos e
cristãos-velhos tornará ilegais as obras de cunho político e tirará a
atualidade das discussões teológicas sobre o judaísmo.
Os poucos historiadores que se interessaram por essa literatura se concentraram
no estudo da mentalidade dos autores de obras eminentemente racistas, como
Vicente da Costa Mattos. O horror causado por esse tipo de obra provavelmente
impediu que fosse dada a devida atenção ao conjunto da produção antijudaica.
Apesar disso, vimos que essa produção está longe da uniformidade: obras como os
sermões de autos-de-fé em geral, o Breve discurso de Costa Mattos ou ainda a
Sentinela de Torrejoncillo são completamente hostis não somente ao judaísmo e
aos judeus, o que poderia ser considerado a regra à época, mas também aos
cristãos-novos, simplesmente por serem seus descendentes. Essas obras
cristalizaram as representações do racismo ibérico da Idade Moderna.
I.-S. Révah apontou as preocupações evangelizadoras dos primeiros polemistas
portugueses, que levaram em consideração os acontecimentos trágicos pelos quais
haviam passado os judeus de Portugal 54. Contudo, em face do grande número de
judaizantes julgados pela Inquisição e também da já proverbial "cegueira
judaica", logo se decidiu que de nada servia fazer campanhas de catequese: "o
mal deste Reyno, não depende, ha muitos annos, e muito menos hoje de remedios
de doutrinas", escrevia Ximenes de Aragão em 162855. Mas nem todos foram dessa
opinião.
No começo do século XVI, Gil Vicente, João de Barros, Nicolau Clenardo e
Francisco Machado haviam mostrado simpatia para com os cristãos-novos. É certo
que não aceitavam o judaísmo, mas tampouco reconheciam a validade da conversão
forçada 56. Já em 1592, nas altas esferas inquisitoriais, o cardeal-arquiduque
Alberto propôs a elaboração de um catecismo destinado aos judaizantes
reconciliados pela Inquisição, mas os pareceres que recebeu foram todos
negativos: o bispo-conde de Coimbra fez a contra-proposta de que se retirassem
os filhos aos reconciliados; o bispo do Algarve sugeriu que em vez de um
catecismo se fizessem pregações, dadas as poucas letras da população; e o bispo
de Portalegre, entre outros empecilhos, mencionou a falta de diretivas papais
ou conciliares sobre o assunto57. E em 1589 o frei Amador Arrais dedicara todo
um capítulo dos seus Diálogos ao fato de que "humanamente não parece ter
remédio a obstinação dos judeus por via de disputas e argumentos", descartando
sobretudo a utilidade de um "sumário em forma de catecismo" específico para os
judeus. Deixava assim pouca esperança, como muitos autores de sermões de autos-
de-fé do século seguinte, à "palavra de Deus, pregada por homens doutos,
prudentes e exemplares", lembrando porém que Deus havia dito a Isaías "clama ne
cesses [I 58:1]" e que são Paulo dissera a Timóteo: "Prædica verbum, insta
opportune et inopportune [2 T 4:2]. E não bastava isso, resta que do Céu lhe
venha o remédio e que Deus por sua infinita bondade milagrosamente os alumie"
58.
Por outro lado, vimos que desde meados do século XVII (ou mesmo antes, se
levamos em conta as obras impressas de João Batista d'Este) havia publicações
das quais transpirava a idéia de que ainda seria possível converter com
persuasão aqueles que o haviam sido à força em 1497. No entanto, os
responsáveis por essas publicações não se deram ao trabalho de escrever obras
originais, limitando-se a traduzir produções italianas. A razão dessa falta de
empreendimento pode estar na já mencionada autoridade dos textos de origem
judaica (para as obras de Fioghi, Medici e Cavalli) e do texto jesuíta
(Pinamonti) para o tradutor da mesma ordem. Também podemos levar em conta, com
Sérgio Buarque de Holanda, a influência italiana na literatura luso-brasileira
do século XVIII, até mesmo pelo fato de os autores italianos "terem fornecido
uma alternativa válida e também uma espécie de antídoto ao espanholismo" 59.
Embora essa produção tardia não se adaptasse à realidade portuguesa, pois
originalmente fora dirigida a judeus italianos que praticavam abertamente sua
religião, em verdadeiras sinagogas, isso não chegou a incomodar os letrados
portugueses: vimos que estes em geral não viam diferença entre os judeus e os
"seus judeus", isto é, os cristãos-novos, vendo-os todos como passíveis de
judaizar.
Não se pode dizer com toda a certeza que essas obras seriam herdeiras daquelas
da época de João de Barros, Francisco Machado e João Soares, embora seja grande
a tentação de ver uma continuidade entre essa literatura apologética e de
polêmica, filha do humanismo, e a produção tardia do século XVIII. Mas me
parece mais provável tratar-se de uma evolução: tendo começado com a boa
intenção de assimilar os cristãos-novos à população em geral, essa literatura
acabou por azedar-se com a produção racista de um Costa Mattos ou de um
Monteiro Paym, vertente essa que perdurou até os anos 1750, a despeito do
contexto bastante específico de suas primeiras edições. Paralelamente a ela, a
partir de meados do século XVII e sobretudo do começo do século seguinte,
talvez sob a influência de Antônio Vieira e sua luta em favor dos cristãos-
novos e dos contatos com a literatura italiana, alguns letrados começam a
pensar nas "coisas da gente da Nação" de um outro modo.
Essas obras evangélicas também podem ser vistas como uma repercussão daquela
produção política e anti-semita, que ao amplificar o perigo da influência
judaica, de cunho providencialista ou não, sobre a sociedade portuguesa teria
motivado em alguns a vontade de solucionar o problema pacífica e discretamente,
mediante a conversão sincera dos judaizantes, como se pode perceber na produção
dos anos 1550-60, seguindo-se nesse caso a interpretação mais literal de Révah
em contraponto à de Talmage60. Esse seria o nexo entre as duas correntes da
produção antijudaica, mesmo que uma não tenha influenciado a outra diretamente.
De todo modo, como vimos na análise de obras como Sinagoga desenganada ou o
relato da conversão de Sabbato Nachamu, ressurge a idéia de que era possível
obter a conversão sincera dos judaizantes de Portugal, a bem da homogeneidade
religiosa e política do país. Tal era finalmente o objetivo de toda essa
corrente literária, o que nos permite estudá-la como um conjunto: das obras de
João de Barros ao último sermão de auto-de-fé impresso, do relato da conversão
do rabino de Corfu às obras de Costa Mattos permeia a noção de que a
heterogeneidade é perigosa sobretudo no que diz respeito ao judaísmo, por ser
ao mesmo tempo tão próximo e tão distante do catolicismo. Dessa forma,
poderíamos identificar nessa corrente literária um sintoma da incapacidade de
assimilação da sociedade lusitana moderna, ou melhor, da sua declarada vontade
de rigidez, de imutabilidade, muito embora essa não seja, evidentemente, uma
característica específica dos portugueses, mas da cultura ocidental da época.
Numa chave mais ampla, vemos que essa produção literária não encontra
equivalentes no próprio mundo português: nenhum grupo socialmente marginalizado
mereceu tanto a atenção dos autores coevos quanto o "judeu". Mas podemos
encontrar um paralelo válido, sobretudo no que toca aos fundamentos políticos
dessa produção, em certos tratados de demonologia produzidos no Norte da Europa
nos séculos XV e XVI. José Pedro Paiva já demonstrou a razão de não ter havido
uma "caça às bruxas" em Portugal: justamente a existência dos cristãos-novos
61. Não se trata de associar os tratados de demonologia da França ou da
Inglaterra aos textos que aqui estudamos, mas sim de chamar a atenção para a
relação natural, orgânica, que se estabelecia na cultura política de então
entre diferença e perigo, ou mais exatamente entre heresia e rebelião. Entre
muitos exemplos há o do rei Jaime VI da Escócia, que redigiu seu Dæmonologie ao
convencer-se de que um conventículo de feiticeiras liderado pelo conde de
Bothwell conspirava contra ele62. O caso de Jean Bodin também é significativo,
pois além do seu Démonomanie des sorciers (1580) escreveu uma vasta e
importante obra eminentemente política isto é, seus escritos como um todo
visavam o equilíbrio do Estado com base na idéia de soberania absoluta63.
Nos pareceres e memoriais aqui estudados, mas também nos tratados, sermões e
panfletos, essa conjugação está sempre presente, e talvez de um modo ainda mais
flagrante. Roque Monteiro Paym, personagem de importância política de primeira
grandeza, sendo secretário de Estado de D. Pedro e desembargador da Casa de
Suplicação, redigiu aquilo que deveria ter sido apenas um projeto de lei, mas
que acabou se transformando num libelo anti-semita. Ele também era juiz da
Inconfidência, o que talvez explique sua preocupação específica com os
cristãos-novos. Ao advogarem a expulsão dos convictos de judaísmo pela
Inquisição e suas famílias, Vicente da Costa Mattos, Ximenes de Aragão e Ciabra
Pimentel também associavam diretamente infidelidade religiosa e política. Mas
isso não foi privilégio das obras mais virulentas: ao fazer um jogo de palavras
com o duplo sentido de "ser fiel", um dos censores da obra de Pinamonti leva às
mesmas conclusões.
Ao analisar as relações entre contexto histórico-político e produção literária,
chegamos à questão das razões, digamos, sociológicas da necessidade dos
portugueses de reafirmar seus preconceitos contra os judeus e seus descendentes
por meio de uma produção literária específica, pois boa parte dessas obras
(assim como daquelas produzidas nos séculos anteriores) não se destinava
realmente a converter os judeus/judaizantes, mas a afirmar uma superioridade
tendo os judeus como contraponto e a conter a ameaça de uma "infecção" por
parte destes. Deve-se então reafirmar que a produção dessas obras foi incitada
por seus contextos históricos, pois é evidente que uma produção literária desse
porte não pode ter sido o resultado das neuroses ou do extremismo de uns poucos
que os teriam transmitido, mediante um sucesso editorial inesperado e
inexplicável, para o resto da população letrada do mundo português.
Infelizmente não temos espaço aqui para tratar da importante questão dos
responsáveis pela publicação e circulação dessas obras, mas devemos ao menos
notar que essa máquina de propaganda foi promovida somente em parte pela
Inquisição. É certo que algumas obras foram dedicadas a inquisidores gerais e
muitos dos sermões de autos-de-fé foram publicados sob encomenda do Santo
Ofício, mas a publicação das obras mais virulentas, aquelas que pregavam
abertamente a expulsão dos judaizantes confessos e suas famílias, não pode ser
ligada à vontade dos juízes inquisitoriais pela simples razão de que eles não
apoiavam a saída dos cristãos-novos do Reino.
Por outro lado, a importância dos contextos específicos para se entender cada
obra não significa que esse tipo de literatura não passaria de um termômetro
para medir a maior ou menor intensidade do problema judaico na sociedade
portuguesa, pois esses contextos não forneceram por si só toda a matéria dos
textos que provocaram. Muito pelo contrário, freqüentemente acabaram por se
perder no meio da argumentação de cunho sobretudo religioso empregado na
redação dessas obras. Assim, as razões políticas por trás dos textos não bastam
para esgotar a questão da necessidade da reafirmação dos preconceitos por meio
dessas obras.
No fim das contas, não importa tanto saber quais teriam sido as razões
imediatas da publicação de uma ou outra obra ou os responsáveis por esta ou
aquela produção, mas entender o lugar que nelas ocuparam o cristão-novo e
sobretudo o cristão-velho, os descendentes dos judeus sendo vistos como o
oposto do fiel, do bom, do católico, ou seja, do Português. Retomando a
interpretação de Talmage acerca da produção antijudaica portuguesa do século
XVI, pode-se identificar em obras como o Libro dela verdad de la fe certa
função de propaganda da ortodoxia católica do país. São sinais disso a redação
dessa obra em castelhano (e também de outras, o que permitia que se irradiassem
por boa parte da Europa, pelo menos até bem entrado o século XVII) e o fato de
seu autor destacar o papel de D. João III, além de outros reis cristãos, como
guerreiro da fé e reformador do catolicismo. Com a decadência do poderio
comercial e militar do império português, essa propaganda se interiorizou. Era
necessário mostrar aos portugueses de velha cepa que eles eram os campeões do
catolicismo e os sustentáculos providencialistas de uma sociedade em perigo, ou
seja, abonar essa imagem em face de si mesmos, e quem sabe também tentar
desfazer a noção generalizada no resto da Europa de que todos os portugueses
eram judeus. Essa propaganda mostrou-se por um lado inútil não foi ela que
fez diminuir o número de judaizantes julgados pela Inquisição e eles nunca
foram expulsos de Portugal mas por outro eficaz, pois quanto mais se escrevia
sobre a traição, a ganância e a apostasia dos cristãos-novos, mais esses
objetos fantasmagóricos tomavam forma na mente daqueles que liam esses textos.
Se essa produção literária não explica por si só os preconceitos ibéricos
contra os descendentes dos judeus, serviu para difundi-los e mantê-los por
muito tempo, até o momento em que influências iluministas relegassem esses
ódios e esses medos ou ao menos suas expressões a uma posição secundária e
subterrânea. Por outro lado, serviu como um espelho dessa mesma sociedade. A
reiterada auto-afirmação de uma vontade de catolicismo puríssimo mostra não só
o ideal que almejavam seus autores, mas também o quão distante dele se
encontravam.
[1] Este trabalho faz parte de um estudo mais geral sobre a literatura de
polêmica portuguesa antijudaica realizado no âmbito no Programa de Formação de
Quadros do Cebrap. Agradeço a meus colegas do programa, a José A. Giannotti e
aos membros do grupo temático de Antropologia das Missões, dirigido por Paula
Montero, pelas valiosas discussões, que me ajudaram a pensar e repensar meus
temas de pesquisa. A Laura de Mello e Souza e Nachman Falbel agradeço as
estimulantes críticas e observações à versão longa deste texto. A Roberto
Bachmann devo a amizade e o acesso irrestrito aos tesouros de sua biblioteca.
[2] Sobre a aplicação dos estatutos de pureza de sangue no mundo português, ver
Carneiro, Maria Luiza T. Preconceito racial em Portugal e no Brasil colônia: os
cristãos-novis e o mito da pureza de sangue. São Paulo: Perspectiva, 2005. Sobre a Inquisição: Dedieu, Jean-Pierre. L'administration de
la foi: l'Inquisition de Tolède XVIe-XVIIIe siècle. Madri: Casa de Velásquez,
1989.
[3] O texto fundador da polêmica cristã antijudaica encontra-se nos evangelhos.
Cf. esp. João 8: 44.
[4] Cf. Azevedo, João Lúcio de. História dos cristãos-novos portugueses.
Lisboa: Liv. Clássica Ed., 1989, pp. 247-49; Guiraud, Michèle.
"Dans le sillage du père Antônio Vieira: le père Manuel Fernandes et les
nouveaux-chrétiens". Quadrant, nº 15, 1998, pp. 23-39; Medina,
Francisco de B. "Precursores de Vieira: jesuitas andaluces y castellanos en
favor de los cristianos nuevos". In: Atas... Congresso internacional "Terceiro
centenário da morte do padre António Vieira", Braga, Univ. Católica
[5] Yerushalmi, Yosef H. De la cour d'Espagne au ghetto italien. Paris: Fayard,
1987; Kaplan, Yosef. From Christianity to Judaism: the story
of Isaac Orobio de Castro. Oxford: Oxford University Press, 1989.
[6] Révah, Israël-Salvator. "O diálogo evangélico sobre os artigos da Fé contra
o Talmud dos judeus de João de Barros". In: Amiel, Charles (org.). Études
portugaises. Paris: Centre Calouste Gulbenkian, 1975, p. 54.
[7] Ibidem, pp. 62 ss.
[8] Cf. ibidem, pp. 64, 79 ss; Machado, Francisco. The mirror of the new
Christians. Toronto: Pontifical Institute of Mediaeval Studies, 1977.
[9 Soares, João. Libro dela verdad d la fe, Lisboa: Luis Rodriguez, 1543;
Alcalá de Henares: Juã Brocar, 1545. O autor explica assim sua
escolha do espanhol: "Ho qual escreui em romãce Castelhano porque possa correr
mais terras: & serem muitos aproueitados & fortalescidos na sancta fe
verdadeira". Devo o conhecimento dessa importante obra a Ângela Barreto Xavier,
a quem agradeço.
[10] Machado, Francisco. Veritatis repertorium, per fratem Frãciscu Securim
Doctor? parisiensem omnium minimum editu in hebræos, quos vulgus nouos vocitat
christianos... Coimbra: João Barreto, 1567.
[11] Talmage, Frank. "To sabbatize in peace: Jews and New Christians in
sixteenth-century Portuguese polemics". Harvard Theological Review, vol. 74, nº
3, 1981, pp. 265-85.
[12] Soares, op. cit.
[13] Não temos aqui espaço para tratar especificamente dos sermões de autos-de-
fé, já amplamente estudados. Ver Glaser, Edward. "Portuguese sermons at autos-
da-fé: introduction and bibliography". Studies in Bibliography and Booklore,
vol. II, 1955, pp. 53-78, 96; "Invitation to intolerance: a
study of the Portuguese sermons preached at auto-da-fé". Hebrew Union College
Annual, vol. XXVII, 1956, pp. 327-85; Pires, Maria Lucília G.
Xadrez de palavras: estudos de literatura barroca. Lisboa: Cosmos, 1996, pp.
119-41.
[14] D'Este, João Batista. Consolaçam christaã, e luz para o povo hebreo. Sobre
os psalmos do real propheta Dauid... Lisboa: Pedro Crasbeeck, 1616; Diálogo entre discipulo e mestre catechizante onde se resoluem todas
as duuidas... Lisboa: Geraldo da Vinha, 1621 (2ª ed.: Lisboa: Ioam da Costa,
1624).
[15] Fioghi, Fabiano. Dialogo fra il cathecvmino et il padre cathechizante
[...]. Nelqual si risoluono molti dubij, liquali fogliono far li Hebrei, contro
la uerità della santa fede Christiana... Roma: herdeiros de Antonio Blado,
1582.
[16] Pinamonti, Giovanni Pietro.Synagoga dezenganada [...]. Traduzida da Lingua
Italiana em a Portugueza, por hum Religiozo da mesma Companhia... Lisboa:
Officina da Musica, 1720.
[17] Medici, Paolo. Dialogo sagrado sobre o Genesis. Lisboa: Domingos
Gonçalves, 1739.
[18] Cavalli, Giacomo. A verdadeira fé triumphante. Explicação do mysterio da
Sanctissima Trindade. Disputa entre um hebreu e um cristão. Lisboa: Francisco
Luis Ameno, 1751.
[19] Apresentação, Luis da. Demonstracion evangelica, y destierro de
ignorancias judaicas. Lisboa: Mattheus Pinheiro, 1631.
[20] Leitão, Francisco. Opvscvlvm de hebræo convicto. In quatuor Libros
diuisum... Roma: Ioannis Iacobi Komarek Bohemi, 1693.
[21] Aragão, Fernão X. de. Doutrina Catholica para instrucçaõ e cõfirmaçaõ dos
fieis e extincçaõ das seitas supersticiosas e em particular do Iudaismo.
Lisboa: Pedro Craesbeeck, 1625.
[22] Idem.Extinçam do Iudaismo, e mais seitas supersticiosas: e exaltaçam da só
verdadeira Religiaõ Christaã, dada por Deos aos homês para por ella serem
saluos. Lisboa: Pedro Craesbeeck, 1628; Triunfo da Religiaõ
Catholica contra a pertinacia do judaismo, ou compendio da verdadeira fé...
Lisboa: herdeiros de Antonio Pedrozo Galram, 1752.
[23] Torrejoncillo, Francisco de. Centinella contra judeos, posta em a Torre da
Igreja de Deos... Lisboa: João Galrão, 1684; Coimbra: Joseph Antunes da Sylva,
1710; Porto: Manoel Pedroso Coimbra, 1745. Edições espanholas: Madri, 1676 e
1679; Pamplona, 1691 e 1720; Madri, 1728; Barcelona, 1731; Madri, 1736.
Novinsky, Anita. "Reflexões sobre o anti-semitismo (Portugal séculos XVI-XX)".
In: Congresso Internacional Portugal no século XVIII de D. João V à Revolução
Francesa (Sociedade Portuguesa de Estudos do Século XVIII). Lisboa:
Universitária Editora, 1991, p. 455.
[24] Mattos, Vicente da C. Breve discurso contra a heretica perfidia do
Iudaismo... Lisboa: Pedro Craesbeeck, 1622 (edição revista em 1623); Honras Christãs nas afrontas de Iesu Christo... Lisboa: Pedro
Craesbeeck, 1625. Ver Rodrigues, Maria Idalina R. "Literatura
e anti-semitismo, séculos XVI e XVII". Brotéria, vol. 109, 1979, p. 49.
[25] Pimentel, Timóteo de C. Honda de David, con cinco sermones, o piedras,
tiradas en defension, y alabança del Santissimo Sacramento del Altar, contra
Hereges Sacramentarios, y Iudios baptizados en el Reyno de Portugal...
Barcelona: Geronymo Margarit, 1631.
[26] Cf. Azevedo, op. cit., pp. 290-93.
[27] Paym, Roque M. Perfidia Iudaica, Christus Vindex Munus Principis; Ecclesia
Lusitania ab apostatis liberata. Discurso Iuridico è Politico... Madri: s/e,
1671.
[28] Cf. Azevedo, op. cit.; Martins, Jorge. O Senhor roubado: a Inquisição e a
questão judaica. Póvoa de Santo Antão: Europress, 2002.
[29] Serrano, Juan Ignacio P. Injurias a Cristo: religión, política y
antijudaísmo en el siglo XVII. Madri: Universidade de Alcalá, 2002.
[30] Falbel, Nachman. "Um argumento polêmico em Vicente da Costa Matos". In:
Falbel, Nachman, Dines, Alberto e Milgram, Avraham (orgs.).Em nome da Fé:
estudosin memoriamde Elias Lipiner. São Paulo: Perspectiva, 1999, pp. 112-13.
[31] Serrano, op. cit. Trata-se do caso da Calle de las Infantas, onde um grupo
de judaizantes teria açoitado e queimado um crucifixo, que além de sangrar
também teria se manifestado oralmente. As respectivas confissões, é claro,
foram obtidas mediante tortura, e os milagres provocados pelas afrontas,
divulgados e amplificados, resultaram em um auto-de-fé excepcional (1632),
inúmeras festas de desagravo, fundação de confrarias, concursos literários e
construção de um templo, justamente na época de maior debate sobre os
procedimentos da Inquisição e o relaxamento dos estatutos de pureza de sangue.
[32] Que meyo se podera tomar pera extinguir o iudaismo de Portugal. Composto
por mandado de S. Magestade por hum Ministro seu (s/l, s/d). Agradeço a Richard
Ramer por ter-me fornecido uma cópia desse panfleto. Um outro exemplar se
encontra na biblioteca do Jewish Theological Seminar of America (Nova York).
[33] Dos remedios para atalhar o iudeismo de Portugal(s/l, s/d). Esse memorial
se encontra apenso ao livro 159 do Conselho Geral do Santo Ofício, Instituto
dos Arquivos Nacionais da Torre do Tombo (ANTT), fls. 356-57.
[34] Tratado sobre os varios meyos, que se offerecerão a sua Magestade
Catholica para remedio do judaismo neste Reyno de Portugal... (s/l, s/d). A meu
conhecimento, o único exemplar desse panfleto integra a coleção de Roberto
Bachmann.
[35] Biblioteca Nacional de Lisboa, cód. 867, fls. 70-93v; Biblioteca Nacional
do Rio de Janeiro, ns. 9, 1, 19, fls. 280-302. Não confundir Diogo de Areda
(1568-1641) com seu sobrinho homônimo, também jesuíta e autor de sermões de
autos-de-fé. Diogo Barbosa Machado (Bibliotheca lusitana historica critica e
chronologica[CD-Rom]. Lisboa: CNCDP, s/d [1741-59], vol. 2, p. 36) também
menciona como possível autor desse panfleto o inquisidor geral Fernão Martins
de Mascarenhas, quem sabe pela menção feita por Ximenes de Aragão na terceira
edição deExtinçam do Iudaismo(op. cit., dedicatória a Urbano VIII) de que "o
que aqui falta ha muito tempo, he a execuçaõ dos remedios que [...] Dom Fernaõ
Martins Mascarenhas apontou os annos passados a Magestade Catholica, os quais
sendo seis, e todos conuenientes". Mas essa posição não condiz com a opinião
dos inquisidores, geralmente avessos à expulsão dos cristãos-novos.
[36] Cf. Guiraud, op. cit., p. 30.
[37] Nóbrega, Antonio Isidoro da. Discurso catholico, no qual hum christaõ
velho[...]. Considerando o lastimoso espetaculo de hum Auto da Fé... Lisboa:
Officina Sylviana, 1738.
[38] Conforme dados de Glaser, op. cit., pp. 60-74.
[39] Carta, que hum rabbino chamado Samuel escreueo a outro Rabbino chamado
Isaac, consultandoo sobre o ter alcançado pelas prophecias do testamento velho,
que o Mexias tinha vindo... Lisboa: Manoel da Sylua, 1651.
[40] Idem. Lisboa: officina de Ioaõ da Costa, 1673.
[41] Copia de huma carta, que de Constantinopla se escreueo a Roma, sobre o
fingido Messias dos Iudeus. Traduzida fielmente da lingoa Italiana em Portuguez
(s/l, s/d). Sobre a atribuição da carta a Becherand, ver Scholem, Gershom.
Sabbatai Tsevi. Paris: Verdier, 1983, pp. 118n, 658n e
Bibliografia nos 42, 59, 86 e 92-94. Para as reedições modernas da carta, cf.
ibidem, nos 97, 138 e 180. A carta tornou-se uma das principais fontes sobre o
episódio (cf. ibidem, pp. 117 ss).
[42] Copia de huma carta..., op. cit., pp. 13-14.
[43] Pinamonti, op. cit., pp. 227-28. Sobre essa obra e as condições de sua
tradução, ver Feitler, Bruno. "A Sinagoga desenganada: um tratado antijudaico
no Brasil do começo do século XVIII". Revista de História, nº 148, 2003, pp.
103-24.
[44] Pinamonti, op. cit.
[45] Medici, Paolo. Triunfo da Religiam Christan, Alcançado contra a perfidia
Judaica na Igreja Cathedral de S. Cyrillo em Ancona em 26 do mez de Março de
1735... Lisboa: Antonio Correa Lemos, 1736, p. 7.
[46] Cf. Milano, Attilio. Storia degli ebrei in Italia. Turim: Einaudi, 1992
[1963], pp. 585-612; Prosperi, Adriano. "L'Inquisizione romana
e gli ebrei". In: Luzzati, Michele (org.). L'Inquisizione e gli ebrei in
Italia. Roma/Bari: Laterza, 1994, pp. 67-120.
[47] Medici,Triunfo da Religiam Christan, op. cit., p. 4.
[48] Idem. Dialogo sagrado sobre o Genesis, op. cit.
[49] Idem. Triunfo da religiam, op. cit., p. 3. Sobre Rebelo Leite, ver
Machado, op. cit., vol. 1, p. 546; vol. 4, p. 82.
[50] Idem. Dialogo sagrado sobre o Genesis, op. cit., "Ao leytor".
[51] Cf. Milano, op. cit., p. 594.
[52] Sobre o começo da utilização de textos rabínicos pelos polemistas, a
partir da disputa de Paris (1240), ver Dahan, Gilbert. Les intellectuels
chrétiens et les juifs au Moyen Age. Paris: Cerf, 1990, pp. 457 ss.
[53] Biblioteca Nacional de Lisboa, Fr. cód. 24.
[54] Révah, op. cit.
[55] Aragão, Extinçam do Iudaismo, op. cit., dedicatória a Urbano VIII.
[56] Cf. Révah, op. cit.
[57] Instituto dos Arquivos Nacionais da Torre do Tombo, Conselho Geral do
Santo Ofício, livro 91, docs. 50, 51, 69 e 71.
[58] Arrais, Amador. Diálogos. Lisboa: Liv. Sá da Costa, 1944, pp. 56-64.
[59] Hollanda, Sérgio B. de. A contribuição italiana para a formação do Brasil.
Florianópolis: NTU/NEIITA-UFSC, 2002 [1954], p. 95.
[60] Révah, op. cit., pp. 51-97; Talmage, op. cit.
[61] Paiva, José Pedro. Bruxaria e superstição num país sem "caça às bruxas"
(1600-1774). Lisboa: Notícias, 1997.
[62] Cf. Levack, Brian P. The witch-hunt in early modern Europe. Londres:
Longman, 1995, pp. 66-67.
[63] Cf. Monteiro, Rodrigo B. "A república de Jean Bodin: uma interpretação do
universo político francês durante as guerras de religião". Tempo, nº 15, 2003,
pp. 161-77.