"Quem não é geômetra não entre!" Geometria, Filosofia e Platonismo
"Dois e dois são três" disse o louco.
"Não são não!" berrou o tolo.
"Talvez sejam" resmungou o sábio.
Skepsis, José Paulo Paes2
Introdução
Gostaríamos de começar este artigo com uma crônica de nossos dias. A revista
Carta Capital, em sua coluna Brasiliana, de setembro de 2006, comenta o sumiço
do "Professor". Trata-se de uma história da Praça XV, no centro de
Florianópolis, onde vivem diversos moradores de rua. Entre eles, o "Professor":
Se autodenominava revolucionário e falava português, inglês,
espanhol, francês, italiano, alemão, holandês, ao todo sete idiomas.
Antes de ter ido embora, ensinava estas línguas aos colegas, logo
depois do almoço, a divisão dos restos dos pães doados pelo padeiro
do outro lado da rua.3
Falava também de Marx e Weber, e suas aulas acabavam em longas discussões
oportunamente regadas à cachaça de R$1,50. Os amigos contam que pouco antes de
seu desaparecimento, havia feito uma revelação a todos: retirando de sua sacola
uma pasta cinza, teria mostrado papéis com números, desenhos, uns triângulos de
ponta-cabeça. Eram esboços de sua autoria ' havia esclarecido, e concluíra
enfático: "Aqui está a equação matemática, cuja solução será capaz de
explicar... tudo nesta vida!"4
Sim, a equação matemática capaz de explicar tudo... Apesar de infinitamente
distante da Praça XV, o mundo para o qual olharemos, aquele das relações entre
geometria e filosofia na época clássica, parece ter alojado a mesma tensão
gnoseológica: aqui, a brincadeira é aquela de achar, na matemática, a
explicação "de tudo nesta vida". Certamente, essa ambição de compreender o
mundo descobrindo seus números e as relações entre eles é antiga e não está
reservada, exclusivamente, àquele âmbito da cultura que costumamos chamar de
ocidental.5 Hoje, nós a pensamos bastante influenciados, ainda, pelo paradigma
da ciência moderna, aquela fundada por Galileu, que via a natureza como um
livro, encontrando nela um léxico matemático,6 e teorizada por Descartes ao
falar de mathesis univesalis, uma ciência geral relativa à ordem e à medida.7
A relação entre matemática e natureza (phýsis) tornou-se particularmente
diferente, a partir do momento em que foram publicados, em 1638, os Discorsi e
dimostrazioni matematiche intorno a due nuove scienze.8 Uma das razões
principais foi o fato de Galileu romper com a tradição aristotélica que
separava o trabalho do físico daquele do geômetra, pois enquanto o primeiro
examinava coisas reais, o segundo examinava razões em função de abstrações ' os
métodos de cada um não podiam ser os mesmos, dentre outras coisas, porque o
espaço vazio da geometria seria incompatível com a idéia de lugar natural e de
cosmos.9 O "caso Galileu" é, ainda, objeto de muita pesquisa, e alguns
trabalhos recentes mostram as conexões complexas entre o que, hoje, chamamos
física, astronomia, matemática e ontologia. Ao retomar certos pressupostos
platônicos sobre a constituição matemática da matéria, Galileu teria,
inclusive, dado margem a acusações de que suas pesquisas sobre o movimento
possuíam implicações teológicas que ultrapassavam, sobremaneira, o campo da
física.10 Que Galileu tenha herdado de Platão o estilo dialógico ou certos
pressupostos metafísicos, como a circularidade do movimento dos astros, é fácil
de ser constatado, mas o atomismo e o projeto de uma geometrização da natureza
dependem de um esclarecimento que tentaremos fazer, aqui, por meio de um
comentário do renomado helenista Gregory Vlastos. Com sua ajuda, faremos esse
salto de, aproximadamente, dois mil anos, mergulhando no período que nos
interessa nesse momento, a saber, aquele universo em que floresceu Platão.
Vlastos,11 partindo do pressuposto aristotélico de que a teoria da estrutura da
matéria de Platão é uma variante da hipótese atômica de Leucipo e Demócrito,12
analisou o modo como Platão adaptou a concepção atomista ao propor que os
átomos fossem suscetíveis de dois tipos de alterações: a primeira, relativa à
existência de variedades de cada um dos tipos primários de matéria (éter e
neblina são, por exemplo, variedades de ar)13; a segunda, relativa à mudança de
um tipo de matéria em outro, como no caso dos átomos de fogo, ar e água, devido
a eles terem faces idênticas, isto é, triângulos eqüiláteros. Lembremos que o
Demiurgo imprimiu uma forma estereométrica regular à matéria, ao transformá-la
de caos em cosmos; fogo, ar, água e terra são constituídos de tetraedros,
hexaedros, octaedros, icosaedros, respectivamente.14 Esse atomismo geometrizado
será aquele retomado por Galileu, que, defendendo a matematização da natureza
como método para a elaboração de uma nova ciência, deu, como observou Alexandre
Koyré, "uma prova experimental do platonismo".15
Desnecessário lembrar que a exclamação no título deste artigo "Quem não é
geômetra não entre!" se refere à famosa advertência que se podia ler no portal
da Academia de Platão.16 Advertências análogas eram comuns nas entradas de
templos e santuários antigos, nos quais, no lugar da geometria, eram requeridas
pureza e outras qualidades, funcionando como uma "senha" para iniciados. De
maneira análoga, iremos utilizá-la ao longo do ensaio, para indicar-nos o lugar
que a matemática e a geometria assumem em um momento de grande importância na
definição do pensamento ocidental e da filosofia em seu nascer: aquele da
"descoberta" de um "método científico", entre o V e o IV séculos a.C.17 "Quem
não é geômetra não entre!", portanto. Partiremos, daqui, para compreender a
importância do diálogo entre a filosofia, a matemática e a geometria na
construção desse método. Partiremos de Platão, lembrando que a palavra
matemática vem do verbo mantháno, que significa, aprender, compreender, e esse
saber (máthema) pode ser relativo à idéia (suprema) de Bem (República 505a). Hé
mathematiké é o que concerne à ciência da matemática;18 as matemáticas são os
conhecimentos que se apreendem em um corpo de disciplinas que se constitui de
aritmética, geometria em duas dimensões, geometria em três dimensões, a
astronomia e a harmonia dos sons (República525a-531d), e que são fundamentais
na formação do filósofo.19
Desse modo, uma sentença como a do frontão da Academia encaixa-se muito bem
naquela que devia ser a prática das ciências matemáticas no interior da escola
de Platão. Um entre muitos, podemos ficar com o testemunho de Proclo:
Platão (...) deu um imenso impulso a toda a ciência matemática e em
particular à geometria, pelo apaixonado estudo que a isso dedicou e
que divulgou quer recheando seus escritos de raciocínios matemáticos,
quer despertando em toda parte a admiração por estes estudos naqueles
que se dedicam à filosofia.20
Sobre o papel que Platão teria exercido como matemático, os estudiosos
discordam, tendendo mais a considerá-lo um formador de jovens matemáticos do
que um descobridor de novos métodos ou teorias. É o que afirma, por exemplo,
Boyer: "Platão é importante na história da matemática principalmente por seu
papel como inspirador e guia de outros e talvez a ele se deva a distinção clara
que se fez na Grécia Antiga entre aritmética (no sentido de teoria dos números)
e logística (a técnica da computação)".21
A distinção a que se refere Boyer, sem oferecer maiores detalhes, é importante
para nos dar a medida da preocupação platônica e mesmo de sua presença, ainda
hoje, nos debates sobre a natureza da matemática. No Filebo (56d-e), Sócrates
faz distinção entre a aritmética do homem comum e a do filósofo, com base na
diferença dos "objetos" a que se dirige cada um: enquanto o primeiro opera com
unidades que são distintas (ao contar dois exércitos, sabe-se que eles são
diferentes), para o segundo, as unidades são todas indistintas (números são
coleções de unidades puras).22 A rigor, a aritmética (como a geometria) do
filósofo aplica-se apenas ao mundo do ser.23 Um problema decorrente dessa visão
da aritmética e, também, da geometria é o de explicar como essas disciplinas se
aplicam ao mundo físico. Uma tentativa será feita no Timeu, no qual temos uma
teoria especulativa da construção geométrica do mundo, interligada ao realismo
epistemológico e ontológico de Platão.24
Acrescente-se, ainda, que, independentemente das atividades de Platão como
matemático, textos como o Mênon e o Teeteto mostram o quanto as questões
matemáticas estão presentes na discussão sobre os critérios para a aquisição de
conhecimento verdadeiro e sobre impasses gerados devido a problemas internos à
geometria e à aritmética. Desde o famoso artigo de F. Cherniss, Plato as a
mathematician,25 à recente obra de P. Pritchard, Plato's philosophy of
mathematics,26 tornou-se claro como a relação entre matemática e filosofia é
estreita, e um primeiro momento de crise ocorre exatamente aqui, na Academia de
Platão. É desse momento que falaremos a seguir de uma crise que é ocasião de
"afinar os instrumentos" para a ciência antiga e para a filosofia dos séculos V
e IV, de maneira especial. Uma crise que, em seu momento final, levará
Aristóteles a sair "batendo a porta" e ' numa imagem um pouco naïve e pela qual
desde já nos desculpamos ' derrubando, teoricamente, a famosa escrita no
frontão. No entanto, para podermos compreender essa crise, será preciso recuar,
observando como se desenhou a relação entre filosofia e geometria, ao longo de
anos de fecunda simbiose, desde aqueles que a mitologia das origens da
filosofia designou como ponto inicial, por meio de um "fundador", Tales de
Mileto.
Considerações sobre a relação entre a geometria e a filosofia que nasce
Galeno conta uma anedota que ilustra muito bem qual é a imbricação cultural das
ciências matemáticas (e, de maneira especial, da geometria) no mundo grego:
Aristipo teria sido jogado durante um naufrágio numa praia desconhecida, e
vendo desenhadas na areia algumas figuras geométricas, teria ficado aliviado,
pois, naquele momento, sabia não ter caído em terras bárbaras, e sim em terras
gregas.27 Encontrava-se, de fato, na costa da Sicília, próximo da cidade de
Siracusa. É verdade que Tales de Mileto, segundo o testemunho de Proclo, no
Comentário ao primeiro livro dos elementos de Euclides, provavelmente retirado
do sumário da mais antiga História da geometria de Eudemo, teria ido ao Egito
estudar exatamente a geometria, que aqui nasceu para responder a necessidades
práticas: "Foi o primeiro que, tendo ido ao Egito ' trouxe de lá esta doutrina
e a introduziu na Hélade, e ele próprio fez muitas descobertas e, de muitas,
deixou uma idéia aos seus sucessores, abordando alguns problemas de modo mais
geral, e outros de modo mais prático" (InEucl. 65, 3).
Na medida em que o Egito é geralmente considerado o berço da civilização grega,
"o reconhecimento da origem egípcia não era outra coisa senão o corolário da
certeza de que a geometria era um traço essencial da identidade cultural
helênica".28 Entre outras descobertas de Tales, a tradição informou-nos sobre o
famoso teorema, pelo qual o ângulo inscrito em um semicírculo é um ângulo reto,
que parece ter sido o primeiro teorema de geometria demonstrado de forma
dedutiva.29 Com Tales, um dos sete sábios já segundo Platão (Protágoras, 343a),
a matemática insere-se em um programa maior, que poderíamos chamar de
organização racional do conhecimento e do mundo, que passava pela astronomia,
pela política e ' sobretudo ' pela conduta humana, isto é, pela ética. Esse
programa não é invalidado mesmo se concordarmos que algumas célebres "proezas"
atribuídas a Tales sejam de cunho até anedótico, como a de ter conseguido
determinar a distância de um barco a partir da costa (D.L. I, 27) ou a altura
de uma pirâmide (PLÍNIO, N.H. 36, 82). Elas são, claramente, anacrônicas, pois
pressupõem o uso do conceito de proporção (analogía, lógos), um dos conceitos
que nos interessa neste artigo, e que parece ter sido descoberto somente no
âmbito pitagórico ' posteriormente, portanto.30
De fato, tanto o desenvolvimento teórico da matemática como a aproximação entre
ciência (em geral e, especialmente, a geometria) e ética aparecem de forma
ainda mais significativa no pitagorismo,31 constituindo-se como o primeiro
momento daquele que Boyer chamava de "período heróico da matemática":
Praticamente não existem documentos matemáticos ou científicos até os
dias de Platão no quarto século a.C. No entanto, durante a segunda
metade do quinto século circularam relatos persistentes e
consistentes sobre um punhado de matemáticos que evidentemente
estavam intensamente preocupados com problemas que formaram a base da
maior parte dos desenvolvimentos posteriores na geometria.32
É no interior do complexo e multifacetado movimento pitagórico que teriam sido
cunhados os termos-chave de nossa discussão: "filosofia" e "matemática" (aquilo
que se aprende,como dissemos antes).33 Os termos indicam os interesses
fundamentais da escola, articulados no sentido daquele que, para Platão, era o
grande objetivo da historía, da pesquisa pitagórica: um trópos tou biou, um
estilo de vida, uma ética, uma conduta humana que dizia respeito, ao mesmo
tempo, a preocupações religiosas e práticas ascéticas ligadas a uma concepção
da imortalidade da alma reencarnacionista e a preocupações políticas. Uma
geometria, digamos, aplicada à vida, mas em um sentido diferente daquele
técnico ao qual estamos acostumados. É novamente Proclo a nos impedir de pensar
nas pesquisas matemáticas dos pitagóricos como em algo simplesmente
"funcional": "Pitágoras fez do estudo da geometria um ensino liberal, subindo
aos princípios com a investigação e estudando seus problemas sob um ponto de
vista puramente abstrato e teórico. Deste modo foi ele que descobriu o
tratamento dos irracionais e a construção da figuras cósmicas".34
Desde o teorema de Pitágoras até todas as outras "descobertas" geométricas que
Proclo, Euclides e outros atribuem aos pitagóricos, como também o fazem autores
como Eudemo e Aristóxeno com relação ao desenvolvimento por estes da teoria
musical (relações harmônicas de quarta, quinta e oitava)35 e ao campo da
astronomia,36 a filosofia pitagórica tem uma intenção e uma acepção claramente
teóricas, mesmo fazendo parte de um quadro geral filosófico e ideológico, em
que as diversas disciplinas e interesses se compunham. Boyer, também, realça
essa característica: "No mundo grego a matemática era aparentada mais de perto
à filosofia do que a negócios práticos, e este parentesco permaneceu até hoje"
(1974, p. 48). Ao que parece, a aritmética torna-se disciplina intelectual
antes do que cálculo técnico (logística), já com os pitagóricos, o que é
atestado por Aristóteles ao afirmar que aqueles "foram os primeiros a se
dedicar às matemáticas e a fazê-las progredir" (Met. 985b24). Mas, ao mesmo
tempo, diz Aristóteles, dedicaram-se à natureza (phýsis), no sentido do
trabalho filosófico pré-socrático de determinar quais seriam os princípios
(archai) ontológicos e epistemológicos da realidade. Dessa forma, "nutrindo-se
das matemáticas, pensaram que os princípios delas fossem princípios de todos os
seres", concluindo, assim, que "o universo inteiro é harmonia e número" (Met. A
5, 985b25-26).
Vai além dos limites deste ensaio uma análise, ainda que breve, da contribuição
pitagórica à história da matemática e da geometria, ou melhor, da
aritmogeometria ' célebre expressão de Abel Rey ', como se costuma chamar esse
conjunto ainda indistinto de teoremas e teorias que a tradição nos transmite
dos estudos do movimento pitagórico.37Concedemos à paciência historiográfica
somente mais duas obervações. Primeiro, que seria melhor falar não de uma
aritmogeometria, e, portanto, de uma correspondência entre números e figuras
geométricas, mas de uma correspondência mais generalizada (cosmológica) entre
número e todas as entidades constitutivas da realidade. Se é verdade que o
número um é o ponto, o dois é a linha, o três é o plano, é também verdade que
Eurito pensava poder indicar os números do cavalo e do homem, e Filolau o
número que correspondia à memória, ao éros, a certas divindades.38 Segundo, que
é oportuno lembrar uma outra vertente matemático-filosófica pré-platônica não
pitagórica, na qual poderiam estar autores eleatas, como Zenão, e outros, como
Anaxágoras e Demócrito. No entanto, a economia destas páginas não nos permite
um tratamento adequado do tema.39Estamos interessados, no momento, em mostrar
que o conhecimento sobre o princípio (arkhé) da filosofia pitagórica, o
arithmos, o número indivisível, inteiro, que é a base da geometria e da
filosofia pitagóricas (Met., 985b, 990a, 1078b, 1092b), entra em crise, na
metade do século V. É, novamente, Boyer a introduzir muito bem os termos da
questão:
Os diálogos de Platão mostram que (...) a comunidade matemática grega
fora assombrada por uma descoberta que praticamente demolia a base da
fé pitagórica nos inteiros. Tratava-se da descoberta que na própria
geometria os inteiros e suas razões eram insuficientes para descrever
mesmo simples propriedades básicas.40
Trata-se, provavelmente, de uma crise que acontece no âmbito pitagórico: Hipaso
seria seu autor, pela descoberta das grandezas incomensuráveis(asýmmetron, ou
sýmmetroi; álogos).41 A anedótica da história da filosofia conta-nos que, por
esse motivo, teria sido expulso da escola pitagórica.42 A "ciência normal" de
kuhniana memória já fazia aqui, provavelmente, sua primeira vítima. É uma crise
grave nos fundamentos do conhecimento matemático, e não somente uma questão
periférica, uma aporia secundária da geometria. O incomensurável irrompe no céu
puro e imaculado das figuras e dos números racionais e de seus axiomas e
princípios evidentes, dos quais procede a rigorosa cadeia de conseqüências
necessárias. A crise atinge os próprios alicerces epistemológicos, tanto da
matemática como da geometria.
Como já foi observado, frente aos problemas com a incomensurabilidade, muitas
demonstrações perderam seu poder de convencimento, sendo reduzidas a
raciocínios plausíveis. Como números significam, na época, "números racionais",
originou-se o que é chamado hoje "álgebra geométrica dos gregos", por exemplo,
"o retângulo de lado a e b" era usado em vez de "a vezes b". Coube a Eudoxo
(século IV a.C.) a tarefa de fornecer fundamento sólido para a matemática.43
Semelhante reação crítica e busca de rigor só ocorreriam, novamente, no século
XIX, aparecendo, aliás, em um nível de maturidade filosófica semelhante ao de
Eudoxo, que, com sua teoria das proporções, formulou uma primeira abordagem
satisfatória dos números irracionais. Lembremos como Dedekind, para fundamentar
a Análise (que é um desdobramento do cálculo diferencial e integral), seguiu
métodos semelhantes aos de Eudoxo. Outras crises, entretanto, surgiram ligadas,
principalmente, à Teoria dos Conjuntos, de Cantor, cujos pressupostos
metafísicos (dentre eles, a existência de infinitos atuais) levaram, em certos
contextos, a intrincados paradoxos. Um depoimento eloqüente sobre a situação e
suas implicações na própria possibilidade do conhecimento humano é dado por
Hilbert:
O objetivo de minha teoria é estabelecer de uma vez por todas a
certeza dos métodos matemáticos. Essa é uma tarefa que não foi
realizada mesmo durante o período crítico do cálculo infinitesimal
(...) Nós agora chegamos à mais estética e delicada estrutura da
matemática, isto é, a análise (...) em certo sentido a análise
matemática é a sinfonia do infinito (...) O estado atual das coisas,
em que nos chocamos com os paradoxos é intolerável. Apenas considerem
as definições, os métodos dedutivos que cada um aprende, ensina e usa
em matemática, o modelo da certeza e da verdade conduzindo a
absurdos. Se o pensamento matemático é defeituoso, onde encontraremos
verdade e certeza?44
Nessa afirmação de um dos maiores matemáticos dos séculos XIX e XX, constatamos
o eco das propostas tanto platônica como cartesiana do que compreendemos como
mathesis universalis. Resultados de Gödel mostraram que o sucesso do programa
de Hilbert é muito improvável, se não impossível. O debate, ao menos no terreno
filosófico, continua. Temos, deve-se destacar, os que mostram como é possível
aceitar a existência de contradição dentro de um sistema de pensamento, sem
trivializá-lo ou torná-lo irracional, como na lógica paraconsistente ' o que
não deixa de refletir, ainda, a intenção de uma forma lógica, a coexistência da
racionalidade com a contradição.45 Temos, ainda, o apelo para que a filosofia
reavalie a "aversão contumaz à irracionalidade" existente no mundo científico e
em si própria.46 Tais considerações sobre o período contemporâneo permitem-nos
ver, ainda que superficialmente, o impacto das questões filosóficas
relacionadas à lógica e à matemática, em um projeto de salvar a racionalidade e
um critério seguro de conhecimento. Tendo isso em mente, voltemos ao ambiente
grego e, por analogia, compreendamos o impacto de certos problemas no projeto
pitagórico-platônico de alicerçar uma epistemologia e uma ontologia em bases
matemáticas.
Crise nas matemáticas
Os testemunhos de Arquitas,47 Platão48 e Aristóteles49 parecem concordar sobre
o fato de que a preocupação fundamental, e a matriz da pesquisa dos
pitagóricos, é a música, no sentido da investigação da natureza do som e dos
princípios que subjazem à produção dos acordes.50 A vida de Pitágoras, de
Jâmblico, está repleta de referências a esse interesse de Pitágoras. Deve ter
sido exatamente essa experimentação musical a sugerir aos pitagóricos que são
as relações (lógoi) numéricas simples que determinam a harmonia dos acordes. A
passagem da harmonia musical à geometria é quase obrigatória: serão as mesmas
relações a reger as proporções das figuras geométricas. Da mesma forma que os
acordes musicais podem ser reproduzidos em instrumentos e escalas diferentes,
obtendo-se a mesma harmonia e agradando ao ouvido, assim, as formas dos corpos
geométricos que obedecem a relações numéricas simples geram um efeito harmônico
semelhante na vista e podem ser reproduzidas.51 Por isso, provavelmente, o
grande interesse de Pitágoras pelos triângulos, especialmente aqueles casos
particulares de triângulos retângulos cujos lados mediam 3, 4 e 5: é, aqui, que
nasceria a primeira formulação de lógos, de razão, de proporção: todos os
triângulos (de qualquer tamanho) que tivessem a relação (o lógos) 3-4-5 seriam
iguais.
É necessária, aqui, uma observação terminológica com relação à utilização do
termo lógos, no sentido de proporção, de razão geométrica. O termo é utilizado
na expressão tôn autôn lógon ékhein, isto é, "ter a mesma proporção". Como bem
sabemos, lógos significa, fundamentalmente, palavra, mas uma palavra diferente
do épos, que se quer representado na fala, a realidade. O lógos é a palavra (ou
um conjunto discursivo de palavras) penetrante, que aponta para a tentativa de
expressão da natureza da coisa. Nesse sentido, conhecer o lógos, a proporção do
triângulo 3-4-5, é compreender sua razão, seu sentido mais profundo.52 Mas, com
a descoberta das proporções, ocorreu a descoberta da incomensurabilidade: se a
simples relação entre a diagonal e o lado de um quadrado não pode ser expressa
por um conjunto de números inteiros, então, o número inteiro e indivisível não
pode ser considerado como o arkhé da realidade (Met., 983a15).
A crise é, portanto, uma crise que se instaura entre os números(que, até
Aristóteles, são considerados monadikói, inteiros, indivisíveis, não sendo
possível pensá-los diferentemente) e os lógoi, as proporções. O ponto de
partida não discutido é a proposição pitagórica de que "a mônada é
indivisível", o que de fato corresponde a um Axioma de Peano: "1 não é sucessor
de nenhum número". Isso significa que o número 1 não tem predecessor e,
portanto, é a arkhé absoluta, é o início de tudo.53 Não há, também, número
menor do que 1, e, portanto, 1 é indivisível.54 A aritmética pitagórica assume
a contradição conscientemente e encontra ' aparentemente ' uma solução: aquela
de separar números (aríthmoi) de lógoi, afirmando estes últimos não serem
números, e, sim, pares ordenados de números, díades (dyás) finitas. Apesar de
Aristóteles se distinguir dos pitagóricos, na medida em que estes insistiam que
as unidades têm extensão espacial, confundindo a unidade aritmética e o ponto
geométrico (Met. 1080b16-20),55 é de Aristóteles a melhor definição do que foi
a solução pitagórica: "Os lógoi não são definidos como números, e sim como
relações numéricas e afecções do número" (Met. 1021a 8-9). Poderíamos dizer que
"a matemática científica e com ela a filosofia recorreram ao
ostracismo".56Entre outras palavras, aquelas de Imre Toth:
Os pitagóricos perceberam a intolerabilidade desta contradição lógica
entre as duas proporções axiomáticas e (...) Platão compartilhava
plenamente essa opinião. O monstro lógico do folclore matemático, o
número fracionário, foi expulso da teoria superior dos números.
Entretanto o povo vivia feliz nessa desprezível promiscuidade lógica,
e, sem preocupar-se com nada, continuava a fazer cálculos com números
fracionários: pela simples razão de que, com toda maravilha, a
presumida intolerável contradição lógica não levava a nenhum erro no
curso dos cálculos, enquanto as teorias dos savants, logicamente
imaculadas, só podiam tornar insuportavelmente difíceis esses
cálculos. De sua parte o povo achava as aflições lógicas de
consciência dos pitagóricos ' com as quais tornavam deliberadamente
difícil a vida ' não só inúteis, mas, sobretudo, extremamente
"ridículas".57
Como demonstra a comédia aristofânica, satirizando posições filosóficas, o povo
continuava a usar proporções e frações para calcular o preço do pão e outras
trivialidades (Aves, versos 903-1020; Nuvens, versos 607-620). No entanto, não
é só o povo, pois os próprios matemáticos, em determinados momentos de crise,
ignoram os problemas ligados aos fundamentos. Por meio da seguinte afirmação,
feita pelo genial Paul Cohen, comentando o comportamento dos matemáticos, em
função da "crise dos fundamentos" na virada do século, podemos constatar que as
questões radicais de teor metafísico sobre a natureza da matemática e sua
relação com o conhecimento humano não parecem extrapolar, seja na Antigüidade,
seja hoje, o espaço da "Academia", e mesmo dentro dela encontram uma solução
que consiga passar entre Cila e Caríbdis:
A posição realista [isto é, platonista] é a que a maior parte dos
matemáticos gostariam de adotar. Somente quando se torna consciente
de algumas das dificuldades da teoria dos conjuntos é que o
matemático começa a questioná-la. Se estas dificuldades o inquietam
particularmente, ele correrá para o abrigo do formalismo [grosso
modo, este afirma que a matemática é uma combinação de símbolos sem
sentido e que, portanto, seus enunciados não podem ser verdadeiros ou
falsos, pois não se referem a coisa alguma no mundo] enquanto que sua
posição normal será em algum ponto entre as duas, tentando desfrutar
o melhor dos dois mundos.58
Retornando ao contexto da matemáticas na Grécia, observemos que se a crise
aritmética é gerada e, de alguma forma, "resolvida" no interior do movimento
pitagórico, a crise da geometria, que é uma crise de sua fundamentação
axiomática, parece ser toda acadêmica, isto é, interior à escola de Platão. Ao
que sabemos, pelo próprio Aristóteles, o tema da fundamentação axiomática da
geometria era discutido com vivacidade na Academia.59 O que os acadêmicos
percebem é que muitas das proposições fundamentais da geometria são utilizadas
como se fossem teoremas demonstrados, sem, todavia, terem sido demonstrados. A
essa situação é aplicada uma metodologia de demonstração, já utilizada em
muitas outras questões filosóficas: a via da negação, da contradição, já
apontada no Parmênides (136a) da seguinte forma: "Não deves considerar as
conseqüências que emergem da hipótese de que cada coisa exista, mas deves
também supor que essa mesma coisa não exista". Assim, os filósofos-geômetras da
Academia exploram o campo dos axiomas e de suas conseqüências, para tentar
provar a verdade deles. No entanto, eles tropeçam, com o método negativo,
exatamente, naquilo que não queriam encontrar, que queriam refutar: uma
geometria oposta, "onde as paralelas se encontram, as diagonais são
comensuráveis e as retas curvas".60 Claramente, Platão oporá um "outro método"
(álle méthodos), para alcançar aquilo que cada coisa "é" (hò estín), e tal
método está além daquele da geometria e áreas que decorrem dela, as quais,
quanto à apreensão do "ser" (tò ón), têm apenas "sonhos" (República 533b8),
pois não conseguem chegar a alguma demonstração de que sejam verdadeiras as
hipóteses de que partem ' nas demonstrações geométricas, pode-se ter uma cadeia
coerente de conseqüências a partir de uma premissa falsa (Crátilo436c-438d).
Resposta de Platão
A essas crises Platão, e depois Aristóteles, antes de Euclides, respondem como
filósofos. Eles vislumbram, na explicação metafísica, a possibilidade de
resolver o irracional e o incomensurável, fundamentando, para além da
matemática e da geometria, seus postulados. Partamos de um conhecimento geral
da estrutura da epistemologia e ontologia platônicas ' tanto do "raciocínio a
partir das ciências" (lógos ek tôn epistemôn), pelo qual toda ciência tem como
seu objeto um objeto único e idêntico, como a própria Teoria da Idéias. Segundo
esta última, o objeto do conhecimento verdadeiro, da ciência, não pode ser
particular, sensível (todos os quadrados que existem, todos os sons que
existem), pois, dessa forma, seria um objeto móvel (pois a realidade é móvel).
Portanto, objeto da ciência poderão ser somente outras realidades, isto é, as
idéias desses mesmos objetos, pois elas sim são imutáveis.61"Pois das coisas
que são sujeitas a perene fluxo não há ciência" ' dirá, também, ainda que em
outro contexto, Aristóteles (Met. 1078 b 17). Com relação à geometria, no fr. 3
do De ideis,diz: "Se a geometria não é ciência deste determinado igual e desse
determinado comensurável, mas do que é simplesmente igual e do que é
simplesmente comensurável, então haverá o igual em si e o comensurável em si: e
estas são as Idéias".62
As ciências matemáticas, portanto, têm como objeto realidades imóveis,
idênticas a si mesmas, não sensíveis. Surge, naturalmente, uma pergunta, a essa
altura: Isso significa que esses objetos da matemática são Idéias? Isto é,
pertenceriam ao mundo inteligível? Platão responde que não. E responde num dos
lugares centrais de seu pensamento, que é o Livro VI da República. A resposta
constrói-se com uma famosa metáfora, a "metáfora da linha": Sócrates, para
explicar para Glauco a distinção entre mundo sensível e mundo inteligível,
convida-o a "dividir uma linha (grammèn) em duas partes desiguais (ánisos)" '
trabalho de geômetra, portanto ' e a dividi-la novamente em duas, "segundo a
mesma proporção (tòn autòn lógon)".63 A linha é uma linha plasticamente
epistemológica, que distingue, tanto na parte do inteligível (nooménou) como na
parte do visível (oroménou), "imagens" e "modelos destas imagens" a serem
apreendidos. Frente à dificuldade de compreensão que Glauco expressa (oukh
hikanôs émathon), Sócrates desenvolve uma das páginas mais lúcidas de Platão
sobre a epistemologia da matemática de seu tempo:
Suponho que sabes que aqueles que se ocupam da geometria
(geometrias), da aritmética (logismoùs) e de coisas deste tipo
(pragmateuómenoi) supõem (hypotémenoi) o par e o ímpar, as figuras,
três espécies (eíde) de ângulos, e outras irmãs destas, segundo o
método (méthodon) de cada uma. Essas coisas dão-nas por sabidas
(eidótes) e fazendo-as como hipóteses (hypothéseis), nenhuma palavra
(lógon), nem a si nem aos outros consideram mais necessário prestar
conta, como se fossem evidentes (phanerôn) a todos; e partindo destas
e passando ao que resta, caminhando coerentemente atingem ao que
tinham se proposto a alçancar (República 510 c2-d2).64
Da mesma forma, os geômetras:
Servem-se de figuras visíveis (oroménois eidesi) e fazem raciocínios
(lógous) sobre elas, pensando (dianooúmenoi) não nelas, mas naquilo
com que se parecem (éoike), raciocinam com respeito ao quadrado mesmo
e à diagonal mesma, mas não ao quadrado, à diagonal, ou aquela que
desenham, e semelhantemente quanto às outra figuras. Estas mesmas que
estão fazendo ou desenhando, das quais há sombras e imagens na água,
eles usam agora como imagens, buscando ver aquilo mesmo que alguém
não pode ver exceto pelo pensamento (diánoia) (República 510d4-
511a1).
Glauco, finalmente, compreende. Sócrates está se referindo "à geometria e às
artes (tékhnai) afins a ela" (511b 3-8), não à dialética das idéias, ciência
suprema. De fato, Sócrates confirma a distinção entre a parte superior da linha
(a potência heurística da filosofia) e aquela das ciências matemáticas:
Aprende então o que quero dizer com a outra parte do inteligível,
aquela que o raciocínio mesmo atinge com o poder da dialética
(dialégesthai), fazendo das hipóteses não princípios, mas hipóteses
mesmo ' um tipo de acesso, de apoio, para chegar ao não hipotético
(anupothétou), ao que é princípio de tudo. Alcançado isso, retorna,
atendo-se a cada resultado, de tal modo que desça até a conclusão,
sem fazer uso de nada visível, movendo-se das idéias (eídesin) umas
às outras, terminando na idéia (eide) (República 511 b3' c1).
Assim, a matemática, no interior da metáfora da linha, é ciência, e uma ciência
que está na linha na metade do caminho (metaxú) entre o mundo sensível (pístis,
crença e eikasía,conjetura) e o mundo inteligível. Mas, a bem ver, é ciência
apenas analogamente à ciência mesma, à dialética (dialetikè méthodos), aquela
que diz respeito às idéias, destruindo as hipóteses e arrastando, aos poucos,
os olhos da alma do lodo bárbaro (borbóro barbarikó)65 em que ela se encontra.
Tanto que Platão faz Sócrates afirmar que, relativamente à matemática e à
geometria: "Sobretudo por costume (éthos) as chamamos com freqüência de
ciências, (epistéme), mas é necessária outra denominação, mais clara que
opinião e mais obscura que ciência: nesse sentido antes a definimos como
entendimento (diánoia)" (República533 d1). Algo que seja "metade do caminho
entre opinião e intelecto" (hós metaxú tes doxés te kaì nou tén diánoian)
(República 511d). Diánoia, ou seja, conhecimento mediado.
Especialmente na geometria, Platão entrevê uma profunda ambigüidade ou, melhor,
duplicidade, que é, ao mesmo tempo, seu ponto de força: sua irresistível
aproximação ao sensível, sua contaminação com as imagens reais, permite-lhe ser
ponte entre o inteligível e o sensível. Assim, a matemática torna-se,
epistemologicamente, uma "terra de meio" lugar mediano, necessário de ser
atravessado no caminho das Idéias, das verdades não hipotéticas. Ecoa, aqui, o
frontão da Academia "Quem não é geômetra não entre!". A geometria é a porta, a
conexão, entre os dois mundos.
Conexão que se expressa na metodologia do caminho desenhado pela linha: das
hipóteses até os princípios primeiros, e vice-versa. Em um caminho ascendente e
descendente, que é típico da epistemologia platônica (no Banquete, a erótica é
esse caminho de mão dupla, embora seja, muitas vezes, muito mal-interpretada,
sendo apenas lida na visão de uma ascese, de uma ascensão em direção à alma, um
abandono do corpo). No caso da ciência matemática, ela é o caminho, não a meta,
pois seus pressupostos não são demonstrados, e, sim, remetem para um caminho
ulterior, até sua fundamentação na plenitude das idéias. É nesse sentido que a
matemática procede analogicamente: síntese dos dois mundos, as verdades
matemáticas e geométricas são capazes de representar todo o ser, mas apenas em
chave analógica. Pois é no ser inteligível que elas encontram, ainda, seu
fundamento último.
Conclusão
Consideramos pertinente fazer duas observações finais. A primeira diz respeito
a como Aristóteles compreende a solução de Platão. Não podemos nos dedicar à
solução aristótélica da mesma crise por óbvios motivos de economia do texto. A
reclamação dele, na Metafísica (992a33-b1), dirigida contra "os filósofos de
agora, para os quais as matemáticas tornaram-se filosofia", refere-se,
claramente, a Platão e à Academia. O erro de Platão seria aquele de ter
considerado a matemática como parte integrante e indistinta da metodologia da
ontologia: a crítica de Aristóteles é dirigida à "linha" e sua continuidade,
portanto. Para Aristóteles, é inconcebível que o objeto da matemática seja algo
"fora do sensível": a metafisicização da matemáticaé o seu problema. O objeto
de matemática (figura e número) está dentro da realidade, não fora dela,
aproximando, sob certos aspectos, sua posição àquela dos pitagóricos.66
Uma segunda e última observação diz respeito à expressão "platonismo",
utilizada na filosofia contemporânea da matemática para indicar, grosso modo, a
crença de que objetos matemáticos existem independentemente de nós e que, com
eles, não temos nenhuma interação causal; podemos descobri-los, mas não criá-
los. Um importante registro do termo aparece em uma conferência de Paul
Bernays, de 1934.67 Ao tratar da axiomatização da geometria por Hilbert,
comparando-a à de Euclides, Bernays destaca que, enquanto o segundo fala da
"construção" de figuras, o primeiro assume a existência delas, mostrando "uma
tendência de ver os objetos como desvinculados de qualquer ligação com o
sujeito pensante", à qual Bernays chama de platonismo.68 Embora o termo tenha
surgido aqui, a tendência era mais antiga, como vemos pelo que dizia Russell
num ensaio de juventude (1901, na revista Mind): "A aritmética deve ser
descoberta exatamente no mesmo sentido em que Colombo descobriu os índios do
Oeste, e nós não criamos os números, como ele não criou os índios...".69Nossa
observação diz respeito ao fato de Platão ser não "platonista", nesse sentido
acima descrito. Acreditamos que o platonismo descreva, somente de forma
limitada, a "filosofia da matemática" de Platão, que tem objetivos e ambições
bem maiores: aqueles de fundamentar a matemática no interior de um caminho
epistemológico que permita a esta chegar ao princípio de toda a realidade.
Ambições epistemológicas, portanto, mais do que simples afirmações ontológicas.
A matemática e a geometria são portas e, como tais, abrem-se e fecham sobre a
verdade e seus possíveis caminhos dialéticos.
1 Uma primeira versão deste artigo foi apresentada por Gabriele Cornelli no
Seminário "Filosofia, cultura e complexidade", organizado pela Cátedra Charles
Morazé, da Universidade de Brasília, em setembro de 2006, sob a coordenação do
Prof. Dr. Wilton Barroso Filho.
2 Socráticas: poemas. São Paulo: Companhia das Letras, 2001, p. 17.
3 MORESCHI, Bruno. Professor, cadê você? Carta Capital, n. 411, p. 6, set.
2006.
4 Idem, p. 6. Menos pretensioso, mas não menos ambicioso, lembremos como um dos
líderes mundiais, na pesquisa em geometria algébrica, e representante do
chamado "Novo neoplatonismo", Igor R. Shafarevich, concluiu uma conferência
sobre matemática e religião na academia de Göttingen: "Desejo exprimir a
esperança de que... a matemática possa servir agora como modelo para a solução
de muitos problemas de nossa época: revelar um objetivo religioso supremo e
avaliar o significado da atividade espiritual da humanidade" (apud DAVIS,
Phillip J.; HERSH, Reuben. A experiência matemática. Rio de Janeiro: Francisco
Alves, 1985. p. 82).
5 Cf. LLOYD, Geoffrey. La curiositá nei mondi antichi: Grecia e Cina. Roma:
Donzelli, 2003. p. 55.
6 GALILEI, Galileu. Il Saggiatore. Milano: Feltrenelli, 1965. § 6.
7 O termo é sempre associado a ele e aparece nas Regras para a direção do
espírito, mas já havia sido usado antes por Erhard Weigel, professor de
Leibniz. Sobre a história do conceito, ver: DUMONCEL, Jean C. La tradition de
la mathesis universalis: Platon, Leibniz, Russell. Paris: Unebévue, 2002. Ver,
também, o detalhado e cuidadoso artigo de: PATY, Michael. Mathesis universalis
e inteligibilidade em Descartes. Cadernos de História e Filosofia da Ciência,
n. 8, 1998, p. 9-57.
8 GALILEI, Galileu. Duas novas ciências. 2. ed. São Paulo/Rio de Janeiro: Nova
Stella / Istituto Italiano di Cultura/Mast, 1987. Alguns aspectos da nova
abordagem galileana são desenvolvidos em: COELHO, Maria Cecília M. Nogueira.
Matemática e lógica em Galileu. Anais... Brasília: Ed. UnB, 1992. p. 265-291. Y
9 Cf. ARISTÓTELES. FísicaII, 2; IV, 7-8.
10 Sobre o tema, veja: REDONDI, Pietro. Galileu herético. São Paulo: Companhia
das Letras, 1991. Nessa obra, o autor defende que o atomismo de Galileu era um
problema mais grave para a igreja do que sua defesa (realista) do
heliocentrismo.
11 VLASTOS, Gregory. O universo de Platão. Brasília: Ed. UnB, 1987. p. 47 et
seq.
12 De generatione et corruptione, 315b28 et seq.
13 Timeu 58d. PLATONE. Opere complete com il texto greco. A cura di G.
Iannotta, A. Manchi, D. Papitto. Itinerari di navigazione a cura di G.
Giannantoni. Roma: 1999. CD-ROM.
14 Timeu 54c. Ao quinto sólido regular (o dodecaedro), Platão faz corresponder
o universo, Timeu 55c; vemos, aqui, a importância do pressuposto metafísico de
uma simetria universal, na formulação de teorias cosmológicas e cosmogônicas.
Sobre a importância desse conceito de simetria no pensamento racional, veja:
WEYL, Hermann. Symmetry. Princeton: Princeton U.P., 1980.
15 KOYRÉ, Alexandre. Galileu e Platão. In: Estudos de história do pensamento
científico. Rio de Janeiro: Forense, 1982. p. 152-172. Sobre a questão dos
modelos da astronomia (uma das matemáticas) veja: DUHEM, P. Salvar os fenômenos
' ensaio sobre a noção de teoria física de Platão a Galileu. Cadernos de
História e Filosofia da Ciência, Suplemento 3, 1984. Y
16 Ageometrètos mèdeis eisito. A referência é datada posteriormente, nos
escritos de João Filopono e de Olympiodoro, neoplatônicos, que viveram no
século VI d. C.; e por João Tzetzes, autor bizantino do século XII (Chiliades,
8, 972). Cf. SAFFREY, Henry. Ageômetrètos mèdeis eisitô: une inscription
légendaire. Revue des Études Grecques, n. 81, p. 67-87, 1968.
17 Utilizamos a expressão "método científico", mesmo sabendo das discussões
sobre a possibilidade de anacronismo, dadas as diferenças de abordagem entre a
ciência moderna e o que seria a ciência helênica.
18 Máthemata, Leis 817e, no plural designa as ciências matemáticas. Podemos
encontrar, com base em um comentário de Aulo Gélio (Noites áticas, I, 9), uma
diferenciação entre os discípulos da escola pitagórica nas qualidades de
acusmáticos e de matemáticos, referindo-se, respectivamente, a uma fase em que
escutavam e a outra em que perguntavam e exprimiam o que haviam sentido. A
última fase seria quando consideravam os princípios da natureza, e eram
chamados físicos. Cf. ZHMUD, Lonid. Mathematici and akousmatici in the
pythagorean school. In: BOUDOURIS, K. I. Pythagorean philosophy. Athens: Ionia,
1992.
19 República523a-525b. Aristóteles também usará o termo mathematikai (Met.
981B24). ARISTÓTELES. Metafísica. Ed. trilíngüe por V. G. Yebra. Madrid:
Gredos, 1982.
20 PROCLUS. In primum Euclidis elementorum librum, 64. Leipzig: Ed. G.
Friedlein, 1873.
21 BOYER, Charles. História da matemática. Brasília: Ed. da Universidade de
Brasília, 1974, p. 63. No entanto, é o próprio Boyer que defende Platão como
criador do chamado método analítico e autor da fórmula para triplas pitagóricas
(cf. Boyer, idem, p. 64 e 65). Quanto aos matemáticos do círculo de Platão,
Boyer identifica Teodoro, Teeteto, Eudoxo e Menéxeno. Uma das razões para
termos utilizado o livro de Boyer, neste artigo, foi a difusão deste texto no
ambiente universitário brasileiro. A precisão matemática é assegurada pela
tradução da Professora Elza Gomide. Quanto à acuidade em apresentar as questões
da história da matemática, ainda que o texto de Boyer não tenha o mesmo grau de
detalhamento que os de Thomas Heath, por exemplo, pensamos que trata-se de um
manual confiável.
22 A mesma questão aparece no Teeteto 196a, na República 525d-506b, no Gorgias
451b e no Sofista245b.
23 Ver República510 d-e, 507a-c; Sofista 238a.
24 Sobre a utilização desta terminologia, sabemos que pode ser um anacronismo.
Notemos, porém, como está imbricado o debate hodierno e a tradição platônica
por meio do comentário de uma expoente filósofa da matemática contemporânea
"Plato originated the most dramatic version of realism about universals and his
spetacular theory of forms... contemporary thinkers have proposed a more modern
argument, modern in the sense that it partakes ot the "naturalizing"
tendency... The moral for the defender of universals is clear: to show that
there are universals, don't try to give a pre-scientific philosophical
argument; just show that our best scientific theory cannot do without them".
MADDY, Penelope. Realism in Mathematics. Oxford: Clarendon, 1990. p. 12-13.
Penelope esta mais interessada em bloquear uma desanalogia metafísica e
epistemológica entre a matemática e as ciências naturais do que em manter um
realismo estrito em relação a elas. Anteriormente uma defensora do realismo
naturalizado, a autora é, atualmente, uma das importantes defensoras da posição
naturalista Cf. Naturalism in Mathematics Oxford: Clarendon, 1997. Y
25 Review of Metaphysics, n. 4, p. 395-425, 1951.
26 Sankt Augustin: Academia Verlag, 1995.
27 Protreptico 5. Cf. ARISTÓTELES. Metafìsica 996a 29- 36.
28 CAMBIANO, Giuseppe. Figura e numero. In: VEGETTI, M. Introduzione alle
culture antiche II: il sapere degli antichi. Torino: Bollati Boringhieri, 1992,
p. 83. Confira, também, a avaliação negativa com relação a estas tradições da
origem oriental da matemática grega em SALAS, Omar Daniel Alvarez. Pitágoras y
los Orígenes de la Matemática Griega. México: Universidad Nacional Autonoma de
México, 1996, p. 66 et seq. Y
29 11 A 20 DK.
30 Cf. SALAS, op. cit., p. 82. O termo analogia aparecerá em Platão (República
534a6) indicando igualdade de relações entre formas de conhecimento e também,
ao lado de symmetría,indicando como as coisas foram colocadas de maneira
comensurávele proporcional (Timeu 69b3).
31 Lembremos do frag. 11 de Filolau, que diz serem a falsidade e a inveja da
mesma natureza do infinito e do absurdo.
32 BOYER, op. cit., p. 47. O autor identifica como matemáticos desse período:
Árquitas de Tarento, Hipaso de Metaponto, Demócrito de Abdera, Hípias de Élis,
Hipócrates de Quios, Anaxágoras de Clazômenas e Zenão de Eléia.
33 Sobre o uso dos termos "matemática" e "filosofia", veja: 58 B 15 DK; DL, 1,
12 e Fédon 62c; 69e. É interessante lembrar como esse sentido mais amplo
permanece, sendo encontrado, por exemplo, nos próprios títulos atribuídos à
obra de Sexto Empírico. SEXTUS EMPIRICUS. Adversus mathematicus. Trad. de R. G.
Burry. London: Heinemann, 1933-1949.
34 In Pr. Eucli,65.
35 58 B 18 DK.
36 58 A 36-37 DK.
37 Sobre a expressão de Rey, cf. CAMBIANO, op.cit., p. 86.
38 Cf. os testemunhos A12 e A14, como também: ARISTÓTELES, Met. 1092B8. Mais
detalhes, ver: CORNELLI, Gabriele. As origens pitagóricas do método filosófico:
o uso das archai como princípios metodológicos em Filolau. Hypnos, n. 11, p.
71-83, 2003.
39 Cf., nesse sentido, o restante do sumário de Eudemo, presente em PROCLO, In
Pr. Eucl. II, 64. Ver, também, o artigo clássico de OWEN, George E. L. Zeno and
the mathematicians. Proceedings of the Aristotelian Society, p. 199-222, 1958.
40 BOYER, op. cit., p. 53. O problema só foi resolvido no século XIX, quando se
demonstrou a impossibilidade de se fazer a duplicação do cubo com régua e
compasso.
41 Teeteto 147 d 4;An. Post. 1, 10, 3. O termo "irracional" é utilizado,
habitualmente, nesse contexto; lembremos que ratio,palavra latina, também
carrega esse sentido, ligado mais diretamente à matemática ' o conceito de
razão como comparação entre dois segmentos ', bem como o conceito, mais geral,
de faculdade de conhecer (o conhecimento, por sua vez, não deixa de ser um
processo comparativo).
42 18A4DK. O tema é discutido, de maneira particularmente interessante, por
Nussbaum, ao inseri-lo no debate sobre uma ciência da medida no campo ético.
Cf. The Protagoras: a science of practical reasoning. In: NUSSBAUM, Martha
Craven. The fragility of goodness: luck and ethics in Greek tragedy and
philosophy. Cambridge: Cambridge University Press, 1986. p. 89 et seq.
43 AABOE, Asger. Episódios da história antiga da matemática. Rio de Janeiro:
Ed. SBM, 1984. p. 54.
44 HILBERT, D. On the infinity. In: BENACERRAF, Paul; PUTNAM, Hillary.
Philosophy of mathematics. Cambridge: C. U. P., 1983. p. 183-221, p. 184, 191.
45 Para o principal criador da lógica paraconsistente, o filósofo brasileiro
Newton da Costa, "Desde Heráclito, passando por Hegel, Marx e Lênin, e, em
nossos dias, por Wittgenstein, tem havido filósofos admitindo que a contradição
pode ser aceita em teorias e contextos racionais que expressam conhecimento
legítimo. Wittgenstein afirmou: "se uma contradição fosse efetivamente agora
descoberta na aritmética "isso provaria apenas que uma aritimética, com essa
contradição, poderia prestar serviços muito bons". Para alguns pensadores, a
existência de contradição é, aliás, característica básica de toda teoria que
traduza qualquer porção não muito restrita da realidade. No entanto, até há
alguns poucos anos, filósofo algum tratou de desenvolver sistemas lógicos
paraconsistentes que se destinassem a justificar ou tornar plausíveis suas
idéias "o que não deixa de ser surpreeendente" (COSTA, Newton Carneiro Affonso
da. Ensaio sobre os fundamentos da lógica. 2. ed. São Paulo: HUCITEC/Ed. USP,
1994. p. 147-148).
46 GRANGER, Gilles Gaston. O irracional. São Paulo: Ed. UNESP, 2002. Nesse
instigante livro, o autor busca, também, uma tentativa de compreender a
irracionalidade como uma força criativa importante ao desenvolvimento do
pensamento.
47 47 B 1 DK.
48 República 530c-31d.
49 Política VIII, 5, 1341b-42a.
50 JÂMBLICO, Vida, p. 64-65 e p. 68-69. Sobre os sentidos mais amplos do termo
"harmonia" e algumas análises de suas ocorrências na literatura, ver: CORREA,
Paula da Cunha. Harmonia, mito e música na Grécia antiga. São Paulo: Humanitas,
2003.
51 Cf. SALAS, op. cit., p. 104.
52 Ver nota 31.
53 Cf. CATTANEI, Elisabetta. Enti matematici e metafisica: Platone, l'Accademia
e Aristotele a confronto. Milano: Vita e Pensiero, 1996. p. 220.
54 Essa concepção, grávida de conseqüências para a matemática, não é,
obviamente, alheia a sentidos políticos: o 1 constituiu-se desde sempre como um
limite intransponível, uma entidade indivisível, atrás da qual não havia
antecedentes. Até isso podia se revestir de valências políticas: "Um é para mim
dez mil, desde que aristós", afirmava Heráclito (22 B 49a DK). Cf. CAMBIANO,
op. cit., p. 87. Ver, num outro sentido político, o fr. 3 de Arquitas.
55 Aristóteles define monás como substância sem posição, ao contrário de ponto
(stígme), substância com posição (Anal. Post., I, 87a).
56 Cf. CATTANEI,op. cit., p. 222.
57 Apud CATTANEI, op. cit., p. 222.
58 Citado por DAVIS, op. cit., p. 362. Sobre as reflexões acerca da matemática
(por filósofos e matemáticos) e o trabalho dos matemáticos, veja,
especialmente: SHAPIRO, Stewart. Thinking about mathematics: the philosophy of
mathematics. Oxford: O.U.P., 2000.
59 Para uma discussão mais detalhada sobre o problema de uma fundamentação
axiomática, veja: SCHOLZ, Hans. A axiomática dos antigos. Cadernos de História
e Filosofia da Ciência, n. 1, p. 5-20, 1980.
60 Cf. CATTANEI,op. cit., p. 226.
61 República 507b-c; 596a-b.
62 Cf. CATTANEI, op. cit., p. 245, nota 98.
63 República 509d-e.
64 As citações são apoiadas na tradução de M. Helena R. Pereira; porém,
modificadas por nós em alguns trechos. Cf. PLATÃO. República. Lisboa: Fundação
Gulbenkian, 1987.
65 O termo aparece, também, no Fédon (69d), indicando o lugar dos que não se
purificaram por meio de uma iniciação, ao filosofar corretamente
(pephilosophekótes orthôs).
66 Met. 987 b 10-14.
67 Publicado posteriormente. BERNAYS, Paul. Sur le platonisme dans le
mathématique. Le Enseignemant Mathematique, v. 34, p. 52-69, 1935.
68 BERNAYS, ibidem, p. 53. Lembremos que há várias variantes do platonismo. Uma
das abordagens mais heterodoxas pode ser encontrada em: BALAGUER, Mark.
Platonism and anti-platonism in mathematics. Oxford: Oxford Universtity Press,
2001.
69 CATTANEI, op. cit., p. 286, nota 294.