Por uma nova interpretação das doutrinas escritas: a filosofia de Platão é
triádica
Introdução
Já não é sem tempo que se coloque em questão se a filosofia platônica deve ser
compreendida como dualista, ou seja, se ela teria estabelecido uma série de
oposições duais e não distinções em inter-relação. Inúmeros são os autores que
sustentam que Platão teria separado dois mundos ' o mundo sensível e o mundo
das Idéias ', bem como duas instâncias do homem ' corpo e alma ', assim como
duas partes na alma ' uma parte mortal e uma parte imortal, ou, ainda, desejo
versus razão ' recebendo, por isso, o título de racionalista.
Tal leitura, embora não seja e não tenha sido a única existente, parece ter
sido construída no decorrer de séculos e não pretendemos fazer aqui sua
genealogia. Também não nos parece necessário listar os inúmeros autores
recentes (séc. XX-XXI) que adotam tais interpretações, postura seguida também
por professores de Filosofia. Elas são tão tradicionais e freqüentes em livros
de introdução à Filosofia e em aulas de Filosofia que passaram a tomar um valor
de verdade para aqueles que se iniciam nesse estudo, antes mesmo que tenham
lido o texto do próprio filósofo (seja no grego antigo, seja em uma boa
tradução, aquela dotada da máxima fidelidade possível ao texto original).
Quando afirmamos que já passou a hora de problematizar tal leitura, estamos nos
recusando a aceitar tamanha pobreza no pensamento desse filósofo que apresenta
como método aplicado em seus Diálogos algo incompatível com tal interpretação:
a dialética. Nesse sentido, gostaríamos de defender, já nesta introdução, que a
"divisão" (diáiresis) é parte desse método filosófico platônico, do discorrer
através do lógos, e não uma fragmentação da realidade. Trata-se de estabelecer
diferenças para melhor identificar os inúmeros entrelaçamentos que compõem a
realidade nos âmbitos da vida cósmica, política e interior, na natureza e no
próprio discurso.1
Uma objeção poderia ser colocada quanto ao significado de "dualismo", pois esse
termo pode ser compreendido apenas como distinção entre dois elementos. Sem
dúvida, não estamos negando que Platão distingue, em várias passagens, corpo e
alma, sensível e inteligível, raciocínio e apetite. Posicionamo-nos contra a
atribuição de um "dualismo" à filosofia platônica no sentido de que ela
sustentaria várias separações radicais entre dois únicos e impermeáveis
elementos. Estamos reconsiderando tais distinções qualitativa e
quantitativamente, levando em conta a inter-relação e a unidade entre elas,
garantida por um terceiro elemento, intermediário, conforme podemos observar no
texto platônico, dentre os quais destacaremos a República e o Timeu.
Poder-se-ia objetar também que há, aqui, uma questão hermenêutica: ler um texto
é interpretá-lo e nossa interpretação não estaria livre de encontrar-se
distante do que teria sido a expressão e a intenção de Platão, nem estaria
livre de equívocos com relação à compreensão do próprio texto grego. Estamos
cientes disso e é exatamente dentro de tais limitações, e diante dessas
dificuldades, que pretendemos seguir o rastro de algumas passagens de certos
Diálogos para defender a hipótese de que a filosofia de Platão deve ser
reconhecida como, no mínimo, "triádica", por identificar relações de mediação
entre os diversos elementos que compõem a realidade. É nesse sentido que
sugerimos que, antes de avaliar a possibilidade de uma nova interpretação de
Platão a partir da hipótese de doutrinas não-escritas, deve-se buscar entender
os textos escritos por esse filósofo e realizar uma (re)leitura das concepções
presentes no próprio texto platônico.
1. A relação sensível (ousía divisível), alma cósmica (ousía entre o divisível
e o indivisível), inteligível (ousía indivisível) ' e não o dualismo sensível
vs. inteligível
Platão teria separado dois mundos, mundo sensível e mundo das Idéias? Além de
encontrarmos aqui um uso inapropriado do termo "mundo", o equívoco dessa forma
de interpretar o texto de Platão está em desconsiderar sua afirmação da alma
cósmica como "terceira espécie de ousía".
Tratemos do primeiro ponto. Desconhecemos qualquer passagem dos Diálogos em que
Platão tenha utilizado o termo kósmos (mundo, universo) para referir-se às
Idéias. No mito do Fedro, há ocorrência do termo tópos (lugar) em referência
àquelas,2 mas trata-se de uma alusão mítica a respeito da alma alcançar (ou
não) o saber inteligível, e não um lugar físico, pois as essências são
realidades incorpóreas existentes fora do âmbito espaço-temporal do céu (tà éxo
toû ouranoû; 247c1) a serem rememoradas pela alma, igualmente incorpórea.3 As
Idéias ou Formas inteligíveis são entes os mais iluminados pela verdade e que
subsistem em si mesmos, ou seja, a sua existência independe da mente humana,
bem como do todo espaço-temporal do kósmos.4 Daí a afirmação de que as
essências existem para além do conjunto corpo-alma do céu (tòn huperouránion
tópon; 247c3),5 diferentemente dos entes sensíveis, dotados de dimensão espaço-
temporal.
Portanto, dizer que as Idéias encontram-se em um determinado lugar no universo
é fazer uma interpretação isolada e literal de uma passagem mítica,
desconsiderando completamente as propriedades de tais essências e aquelas do
kósmos. Tal incorreção é apontada pelo próprio filósofo em um de seus Diálogos,
o Timeu: "as expressões ele era',ele será' são espécies engendradas do tempo,
e é de modo incorreto que nós as aplicamos ao ser que é eterno (tèn aídion
ousían)" (37e4-e7); pois, "somente a expressão ele é' aplica-se ao ser que é
eterno" (38a1). Portanto, não há um "mundo" espaço-temporal das Idéias. Essa
deturpação do texto platônico ofende e obscurece sua filosofia.
No Fédon, ao afirmar ser preciso postular a existência de essências que
subsistem em si e por si, o Sócrates platônico não as separa, de modo absoluto,
de sua relação com o sensível. É a diferença das coisas sensíveis entre si que
traz a necessidade de admitir (e a possibilidade de rememorar) a existência de
realidades unas e imutáveis, distintas do que é mutável e corpóreo: "Essas
coisas (sensíveis) parecem-nos iguais assim como o que é Igual em si? Falta-
lhes ou não lhes falta algo para poderem convir ao Igual? ' Oh, falta-lhes
muito! (...) ' Portanto, é necessário que tenhamos anteriormente conhecido o
Igual" (74d-e). Há uma inter-relação entre sensível e inteligível, seja do
ponto de vista epistemológico (conhecimento) ou ontológico (participação,
determinação, causalidade). Na República, temos que há distintos modos de
conhecer aquilo que é mais iluminado pela verdade ou menos iluminado por ela.
Os estados (pathémata) da alma são vários (suposição, crença, entendimento,
intelecção; 511d-e) e não apenas dois. Eles resultam, para a alma, em opinião
ou em verdadeira ciência, mas não em uma separação entre dois "mundos".6 Tanto
que Platão não postula "dois" objetos de conhecimento, mas vários (imagens,
seres animados, entes matemáticos, Formas inteligíveis), que podem ser
interpretados também como vários níveis do mesmo objeto.
Aprofundemos, então, o segundo ponto da questão que colocamos inicialmente, a
mediação ontológica entre sensível e inteligível pela alma cósmica (e sua
conseqüente intermediação cognitiva e ética), o que é detalhado por Platão em
um de seus prováveis últimos textos, o Timeu, motivo para darmos crédito a ele,
e não para descartá-lo.
Na narrativa cosmológica do Timeu, o texto platônico não afirma a existência de
"dois mundos" e sim de três espécies de "modo de ser" (ousía)7 em inter-
relação. Segundo 28a-35b, são eles: o que devém (o sensível), o que é sempre
(as Idéias, o modelo), e uma terceira espécie de ousía, a psykhé cósmica,
mistura entre uma terceira espécie de ser, uma terceira espécie de mesmo e uma
terceira espécie de outro, intermediárias entre o divisível e o indivisível.
Vejamos a passagem que narra a composição da psykhéque governa o corpo do
kósmos:
A partir da essência indivisível e do que sempre se mantém conforme
as mesmas coisas e a partir da divisível que, ao contrário, vem a ser
nos corpos, a partir de ambas, no meio, ele [o Demiurgo] misturou uma
terceira espécie de Essência, tanto a partir da (essência) do Mesmo,
no que diz respeito então à Natureza, quanto a partir da (essência)
do Outro (tês te tautoû phýseos {aû péri} kaì tês toû hetérou) e
inseriu-os, do mesmo modo, no meio, tanto do que é indivisível dentre
elas, quanto do divisível conforme os corpos. E tomando esses três
entes, ele misturou numa única idéatodas as coisas, a natureza do
Outro, que é difícil de mesclar-se com o Mesmo, harmonizando pela
força. E tendo mesclado com a Essência, também tendo feito, a partir
dos três, um, de novo este todo ele dividiu em quantas partes
convinha, cada parte a partir do Mesmo e do Outro e da Essência
mesclada (Timeu 35a-b).
De acordo com a narrativa, que é de difícil tradução e compreensão, a partir da
mistura da ousía indivisível (o modo de ser que é comum às Formas inteligíveis)
com a ousía divisível (o modo de ser que devém nos corpos) o Demiurgo mistura
uma terceira espécie de ousía ou essência, ou seja, constitui um terceiro "modo
de ser", distinto do divisível e do indivisível. Esses componentes permitem à
alma a capacidade de relacionar-se com o que é material e com o que é formal,
sem que a alma cósmica seja um ser sensível ou uma Forma inteligível.8
Acrescenta-se, ao primeiro passo da composição, a mistura de uma terceira
espécie de identidade e uma terceira espécie de alteridade, "no meio" do que há
entre elas de indivisível e de divisível. Tais componentes, uma terceira
espécie de ousía (essência, modo de ser) do mesmo (inserida entre o indivisível
e o divisível) e uma terceira espécie de ousía do outro (inserida entre o
indivisível e o divisível),9 permitirão à alma cósmica conhecer o que há de
mesmo e de outro, seja no sensível, seja no âmbito das Formas inteligíveis.
Como pode ser observado, ao final da passagem, os três entes da composição (a
terceira espécie de ser, a terceira espécie de mesmo, a terceira espécie de
outro) são misturados numa unidade, cujas propriedades (distintas daquelas dos
seres sensíveis e das Idéias) fazem dessa "nova ousía" uma alma. A natureza de
tal composição dá à alma cósmica a capacidade de inter-relação com o que "é" e
com o que devém. A existência dessa terceira espécie de ousía, portanto, é que
permite à alma humana o conhecimento inteligível (além de outras propriedades
dinâmicas, cognitivas e éticas)10 e, ao kósmos, a ação da causalidade
inteligente sobre a causalidade necessária.
Ao intermediar a relação inteligível-sensível, a alma cósmica não esgota seu
ser em nenhum desses planos, pois ela distingue-se deles. Como dissemos, há
três categorias ontológicas em inter-relação: o que é, a psykhé cósmica, e o
que devém. Somente pela alma cósmica é que o kósmos constitui-se como conjunto
ordenado (espaço-temporalmente) de todas as coisas. Nesse sentido, o
Timeureafirma a independência ontológica das Idéias (o "para além" do âmbito
espaço-temporal celeste) em relação ao kósmos.
O fato de Platão não reafirmar em outros Diálogos esse estatuto da alma cósmica
como "terceira espécie de ousía", não é motivo suficiente para desprezá-lo. O
Timeufoi o lugar privilegiado para tanto, visto que ele discorre sobre a origem
e o ser do "todo" (27c).
2. A relação apetitivo, irascível, racional ' e não o dualismo apetite vs.
razão
Para muitos autores, Platão teria separado razão e apetite (seja no sentido da
epithimía, do páthos, ou mesmo do éros)11 e isso faria, desse filósofo, um
racionalista.12 O equívoco dessa interpretação está em desconsiderar as
referências do texto platônico à unidade e à interação entre os três gêneros da
psykhé, à importância de órgãos corpóreos e do elemento irascível da alma como
intermediários entre razão e apetite, assim como à diferença entre "apetite em
si" (gênero apetitivo) e "apetite de algo" (resultado da interação entre os
três gêneros da alma).
Desde os Diálogos socráticos aos prováveis últimos Diálogos, pode-se encontrar
referências às potencialidades psíquicas humanas de querer, perceber, desejar,
afetar, ser afetado, agir, ter apetites, escolher, raciocinar, dentre outras.
Destacadamente nos textos da República e do Timeu, a alma humana é vista como
dotada de apetites (alguns benéficos, como o de beber quando se tem sede;
alguns destrutivos, como o de matar), de sentimentos (afecções como ira, medo,
ânimo, temeridade etc.), de opiniões (próximas ou afastadas da verdade). Nesses
textos, pode-se notar a dinâmica interna à psykhé humana, a inter-relação
dialética entre os seus três gêneros (eíde;méros):13 o apetitivo, o irascível e
o racional, o que é denominado por alguns comentadores (e não por Platão) de
"teoria da tripartição da alma". O uso do termo "tripartição" é obviamente
questionável, pois não se trata de partes materiais de algo corpóreo, mas de
princípios psíquicos de motivação para a ação, que conduzem o homem a agir bem
ou mal, conforme forem direcionados ' o que faz da psicologia platônica uma das
bases de sua teoria ético-política.
Em RepúblicaIV, o debate a respeito da possibilidade da justiça na alma humana
culmina com a postulação de três distintos princípios internos à psykhé.
Aprendemos, irritamo-nos e temos apetites com diferentes gêneros da/na alma
(436a-e). Compete ao princípio apetitivo (tò epithymetikón) a satisfação de
suas disposições; ao racional (tò logistikón), deliberar e governar a alma como
um todo, agindo sobre os demais gêneros da alma; ao irascível (tò thymoeidés),
elemento intermediário entre aqueles dois, compete combater como súdito e
aliado do racional, executando os comandos deste e contendo os apetites nocivos
ao todo (441e-442b). Para que tais potencialidades possam atuar plenamente é
necessária a educação da alma, pois tais gêneros voltam-se um para o outro e
encontram-se em constante interação, o que já coloca em questão a interpretação
por um dualismo que opõe razão e apetite; mas o texto vai além disso.
A alma humana possui inúmeros apetites específicos, cuja formação varia segundo
a educação recebida (República IV-IX), sendo exemplos deles: apetite de saber,
apetite de honras, apetite de aquisições, apetites necessários, apetites não-
necessários à sobrevivência, apetites à margem da lei (perversos), apetite de
vingança, apetite de matar, apetite de dinheiro, apetite de poder etc. Isso
porque há um "fluxo apetitivo" a ser direcionado (educado) e porque há uma
diferença entre "apetite em si" e "apetite de algo".
Em República VI 485d-e, o fluxo apetitivo é comparado à imagem de uma torrente
(um rio) que pode ser desviada em diferentes direções,14 o que indica que os
apetites específicos (apetites de algo) resultam de um direcionamento da
energia apetitiva (apetite em si) para determinados objetos de desejo,
conformes à educação.15 Essa inter-relação do gênero apetitivo com os outros
gêneros da alma já havia sido indicada no livro IV pela diferenciação entre
apetite "em si" e apetite "de algo bom". O "apetite em si" restringe-se à
disposição à saciedade, por exemplo, o apetite de beber. O "apetite de algo" é
o apetite por certa quantidade e qualidade de algo específico, por exemplo, o
apetite de beber um tanto de determinada bebida boa (438a-b).16 O ímpeto do
apetite em si (gênero apetitivo) não necessariamente coincide com o
discernimento da razão (gênero racional), podendo o gênero apetitivo, bem como
o gênero irascível (também irracional), opor-se ao gênero racional da alma.17
Os três gêneros da alma encontram-se em constante tensão e mútua influência.
Mas os diversos direcionamentos do fluxo apetitivo, ou seja, os apetites de
algo específico serão construídos exatamente a partir da ação (externa e
interna) do gênero racional sobre o apetitivo e o irascível, isto é, por aquilo
que a razão, os costumes, a educação estabelecerem como benéficos, desejáveis
ou possíveis.
Assim, ainda que alguns apetites de algo possam opor-se às prescrições da reta
razão, são os apetites a ela interligados ' o apetite de conhecimento, o
apetite pelo bem, o apetite pela verdade ' que a fazem lançar-se à busca de
tais objetos. Isso mostra-nos algo significativo (e que abala a interpretação
de que Platão teria oposto razão e apetite, ou razão e desejo): a capacidade de
raciocinar é mobilizada pelo apetite de algo; conhecer, escolher, julgar,
discernir, raciocinar, trata-se todos de estados psíquicos dotados de impulso
apetitivo.18 Em outros termos, o éros é mobilizador e condutor da razão. Daí o
texto platônico (Cf. República, Leis) sustentar que, quando a alma é mal
educada, a razão encontra-se escravizada pelo éros tirânico,19 o raciocínio
encontra-se ofuscado e dominado pela tirania de determinados apetites e
afecções,20 enquanto que, na alma que recebe a reta educação de seus três
gêneros internos, o raciocínio é autônomo, a razão é guiada pelo éros
filosófico.
A inter-relação dialética entre os três gêneros da/na alma é também indicada na
definição das quatro virtudes na alma humana, em República IV, o que é deduzido
exatamente após o debate sobre a estrutura triádica da alma. A posse da unidade
na inter-relação entre os três gêneros da alma caracterizará a conquista da
virtude da justiça (443c-d). Não só a justiça, mas todas as virtudes na alma
são apresentadas não como atributos de uma determinada "parte" da alma, mas
como um modo de relação entre as três fontes internas de motivação para agir:
sintonia entre as três, na temperança; ciência do racional sobre o irascível e
o apetitivo, na sabedoria; ação do irascível sobre o apetitivo pelo
discernimento do racional, na coragem (442b-d).
Diante de todas essas passagens, devemos reconhecer que a psicologia platônica
concebe a alma humana triádica como uma potência de relação.21
A interação, particularmente entre o racional e o apetitivo, ocorre de vários
modos. Dois deles estão expostos em República IV: por meio da ação do gênero
irascível como intermediário na contenção de alguns apetites e pelo
direcionamento do apetitivo à formação de apetites de algo bom segundo a reta
educação (como o apetite de conhecer, o apetite pelo bem, pela verdade). Outro
modo é mencionado na narrativa do Timeu: através da ação de substâncias
corpóreas que executam comandos do racional sobre o apetitivo (como a ação da
bile, recompensando ou penalizando o apetitivo, ao gerar sintomas como náuseas,
ou afecções como medo, alegria, tristeza, adivinhação; 71a-b).
A unidade e a interação entre os três gêneros da psykhé também se encontram
presentes nas passagens do Timeu sobre as três regiões do todo corpo-alma22 e
que subentendem o que consideramos como uma "unidade corpoalma", o que veremos
a seguir.
3. A relação corpo, medula, alma (s) ' e não o dualismo corpo vs. alma
Já afirmamos reconhecer a distinção, apresentada no texto platônico, entre
corpo e alma humanos. A relação entre ambos é complexa e, no tecido de cada
Diálogo, pode-se perceber aspectos importantes e não necessariamente
complementares dessa complexidade. Diante disso, pretendemos aqui apenas
apresentar posição contrária a uma interpretação freqüente (que ocorre mais sob
a forma de discurso oral do que textual) acerca daquela relação, qual seja, a
de que Platão teria "separado" corpo e alma.23 A leitura de uma oposição dual
entre corpo e alma equivoca-se ao desconsiderar que tais instâncias são
apresentadas no texto platônico como uma unidade na raça humana mortal
encarnada. Não há corpo humano vivo sem alma (Fédon). Não há a psykhé triádica
sem encéfalo, coração-pulmão, fígado-intestinos, mediados pela medula (Timeu).
De acordo com o Fédon, o homem é constituído, por um lado, de corpo, por outro,
de alma,24 mas sob uma relação de comunhão (synousía) entre eles (81c). A alma
está unida ao corpo (65c-d, 66e, 67a, 80a), "colada" a ele (82d-e, 83d), ainda
que isso dificulte manifestar-se a ela o que é verdadeiro, invisível e mais
real (65a-c, 82d, 83b). Posição semelhante encontra-se também no Fedro. Nesse
Diálogo, a alma é referida como "fixada" ao corpo (246c) pela encarnação. Antes
desta, seu estado originário teria sido o de pureza, quando a alma teria
contemplado os seres imutáveis e, assim, "não tínhamos a marca (séma) deste que
agora, portando-o, chamamos de corpo, como uma ostra está ligada à sua concha"
(250c-d, grifo nosso).25 O termo "séma", comumente interpretado como "túmulo",
pode igualmente ser traduzido por "signo", "marca", isto é, sem qualquer
caráter negativo, e sim compreendendo o corpo vivo como signo da alma no homem
encarnado.26
No Timeu, corpo e alma do kósmos encontram-se em unidade. No caso do homem,
ainda que a alma encarnada (triádica) possua elementos irracionais que possam
levar o homem ao conflito, ao desequilíbrio (abrindo o campo para um mau
caráter e um modo de agir mal), o estado de completo entrelaçamento entre corpo
e alma, no homem vivo, é destacável em várias passagens. Discutiremos algumas
delas.
A alma ligada (syndouménes) ao corpo torna efetiva a existência da raça humana
mortal (73b4-b5).27 Na narrativa mítica do Timeu, chama à atenção que tanto um
"princípio" imortal da alma humana encontre-se "envolvido no corpo" como aquilo
que há de mortal na alma humana seja "construído no corpo":
[os deuses] após terem recebido o princípio imortal da alma (arkhèn
psykhês athánaton), envolveram-no emum corpo mortal e deram a ele,
por veículo, o corpo todo inteiro; além disso, eles construíram nesse
corpo um outro gênero de alma, que é mortal (thnetón) e que comporta,
nele mesmo, afecções terríveis e inevitáveis (69c5-d1, colchetes e
grifos nossos).
O que da alma participa da coragem e do ânimo, que é amigo da
vitória, eles estabeleceram mais próximo da cabeça, entre o diafragma
e o pescoço para que ouvisse a razão e pudesse estar em comunicação
com ela a fim de conter, pela força, a espécie dos apetites (...) Por
outro lado, tudo o que, na alma, tem apetite de comida e bebida e que
se sustenta como necessidade através da natureza do corpo, eles
estabeleceram na região do corpo que está entre o diafragma e o
limite do umbigo (70a2-70d7, grifos nossos).
Três regiões do composto alma-corpo são constituídas em unidade, a região
apetitiva dotada dos órgãos corpóreos correspondentes, a região irascível com
suas afecções e órgãos afins, a região do racional marcada pelo encéfalo, numa
disposição a melhor possível para que atuem plenamente entre si e na interação
do homem com o sensível e com outros seres.
Esses três sítios têm como ponto de partida, e garantia de sua unidade, a
medula (encéfalo, medula espinhal e medula óssea):
(...) ele fabricou a medula. Depois, ele implantou nela as diferentes
espécies (géne) de almas. (...) E o que da medula, como uma gleba,
deveria receber, nela mesma, a semente divina, ele a fez como figura
esférica e nomeou esta parte de encéfalo (73c, grifos nossos).
Não se trata de uma terceira espécie de ser, pois a medula é composta de uma
mistura bem proporcionada de água, terra, fogo, ar (73c2). No entanto, ela
possui propriedades específicas para permitir a intermediação entre as regiões
do composto alma-corpo e para estabelecer os "laços" da alma "toda inteira"
(73d5). A fim de possibilitar os "movimentos" próprios do que há de imortal e
de mortal na alma, a porção encefálica da medula tem forma esférica e a medula
espinhal é dividida em figuras (skhémata) tanto redondas como alongadas,
permitindo também o movimento retilíneo (73c-d), de modo a intermediar uma
justa unidade corpo-alma e particularmente entre as suas três "regiões".
Além do encéfalo, já referido em ligação ao gênero racional da alma, há órgãos
ligados ao gênero irascível (coração-pulmão), bem como ao gênero apetitivo
(fígado-intestinos) (70a-73d). Não vamos apresentar aqui os detalhes dessa
relação,28 bastando lembrarmos que estes órgãos são constituídos não em
oposição à alma, mas, ao contrário, para servirem a cada um de seus três
gêneros.29
As passagens do Timeu sobre a unidade corpo-alma no homem vivo mostram que os
três gêneros da alma encontram-se em constante inter-relação entre si e com o
corpo, mediados pelas propriedades da medula.
4. A relação inteligência, persuasão, necessidade ' e não o dualismo vida
política vs. vida filosófica
É preciso identificar, ao menos, mais uma "tríade". A filosofia platônica
discute as condições para a conquista de uma constituição política virtuosa no
interior da alma (República, Timeu, Leis) e no âmbito da cidade (República,
Político, Leis), sendo já constitutivamente justo o kósmos, o universo o melhor
possível (Timeu). Em todos esses três âmbitos, o elemento noético30 não é
descartado e, menos ainda, o trabalho da persuasão racional.
Entretanto, é comum haver quem defenda que Platão teria oposto inteligência e
necessidade, vida filosófica (contemplação) e vida política (ação). O equívoco
dessa espécie de interpretação está em desconsiderar ' seja no espaço político
da cidade, seja no plano maior do kósmos, seja no âmbito interno da alma ' o
elemento filosófico (noético) como fundamental para a conquista de uma vida
política virtuosa. Também se desconsidera que, nas relações triádicas apontadas
pela filosofia platônica, o espaço político, permitido pela ação da persuasão,
constitui o elemento intermediário entre racionalidade e irracionalidade,
multiplicidade e unidade, na cidade, no kósmos, e no próprio homem. Vejamos a
tríade inteligência, persuasão, necessidade, nos três âmbitos mencionados.
No âmbito cósmico (Timeu), ela atua na ação persuasiva da causalidade
inteligente sobre a necessidade, esta regida pela causalidade errante. No
kósmos, há aquilo que nasce pela inteligência e aquilo que nasce pela
necessidade (47e4-e5), mediados pela capacidade persuasiva da primeira.
Portanto, a vitória da sabedoria sobre a necessidade predomina no conjunto de
forças presentes no kósmos, pois a primeira age sobre a segunda conduzindo-a de
modo a orientar para o melhor a maior parte das coisas que nascem (48a2-a4).
Esse trabalho da persuasão no âmbito do todo se projeta constantemente, pois a
causalidade errante e seu constante resíduo de irracionalidade encontram-se
constantemente presentes. Diante de tal conjunto de forças, visto que a
irracionalidade também está presente no plano menor da alma humana, fica clara
a importância da educação das potencialidades racionais da psykhé humana, de
modo a permitir essa ação vitoriosa da sabedoria.
Se a posse de uma constituição política justa não é garantida na alma do homem,
no plano maior do kósmos ela é garantida pela ação da alma sobre o corpo do
todo. Segundo a narrativa do Timeu, o deus-artesão "coloca" a inteligência
(noûs) na alma (30b3-b5)31 e a alma, no corpo, formando um kósmos harmônico,
belo. Portanto, dado que o nôus demiúrgico está presente na alma cósmica, ela
não apenas promove movimento e vida a todos os seres nascidos, como garante e
sustenta a harmonia (de forças e de composições distintas) no conjunto corpo-
alma do kósmos.
No âmbito do homem particular, o elemento noético precisa ser despertado pela
educação da alma como um todo (República, Timeu, Leis).32 Tal paidéia
compreende o direcionamento dos apetites e prazeres para fins construtivos; o
apaziguamento de afecções como a temeridade, a inveja, a agressividade, a
tristeza ou o medo; a obediência a leis comuns e o direcionamento da ira para o
combate a injustiças; o questionamento das opiniões dadas como certas e a busca
pela opinião verdadeira (aquela capaz de harmonizar a alma e a cidade), seja
pela dialética (República), seja seguindo-se as melhores leis (Leis). Nessa
educação da alma como um todo, o elemento filosófico age sobre os demais, a
persuasão racional atua como elemento de mediação entre razão e
irracionalidade, conduzindo (e, em alguns casos, contendo) esta última. Um dos
resultados desse direcionamento seria o de o princípio irascível passar a
realizar na ação, na vida ético-política, aquilo que o princípio noético
discerne como o melhor para o todo.
A finalidade do trabalho educativo-persuasivo é a posse da virtude na alma,
condição para o bem agir na vida ético-política. Por isso, seja na alma em
desequilíbrio (Timeu), ou naquela de caráter mau (Leis IX), a prevenção e a
cura de tais estados de injustiça interna dependem fundamentalmente do difícil
trabalho reeducativo da alma. Isso ocorre fornecendo-se o alimento correto aos
três gêneros da alma e belos discursos e regimes políticos (Timeu), bem como
pela formulação de corretos preâmbulos às leis (conjugando persuasão e coação),
junto a penalidades capazes de atuar de modo curativo sobre o gênero da alma
que motivou o modo de agir mal (Leis IX),33 por isso devendo o legislador ter
conhecimento a respeito da psykhé humana.
Quanto à tríade inteligência, persuasão, necessidade, no âmbito da cidade, vale
o que dissemos ao tratarmos da relação corpo e alma: é preciso reconhecer as
diferentes nuances da posição platônica, conformes à problemática de cada
Diálogo. No caso da política, inclusive, não pretendemos defender e sequer
supor que Platão possua uma mesma teoria ético-política do primeiro ao último
de seus Diálogos. Também não pretendemos empreender, neste momento, um estudo
de seus destacáveis Diálogos políticos RepúblicaeLeis. Nossa pretensão
restringe-se a destacar a importância dada ao elemento noético para o todo da
cidade, nesses Diálogos.
NaRepública,o papel do elemento filosófico para a cidade como um todo é mais
evidente que aquele presente nas Leis. Pois, a virtude na cidade depende do
governo do rei-filósofo, aquele que desenvolve ao máximo sua capacidade noética
(Cf. República IV-VII).
Nas Leis, o regime de governo proposto para a colônia em Magnésia envolve
várias espécies de magistratura (jurídica, pedagógica, militar, religiosa etc.)
e uma constituição política que conjuga elementos da democracia e da monarquia,
quais sejam, "a liberdade e a amizade, com sabedoria" (III 693d7-e1). Isto
porque uma excessiva liberdade não conduz à situação de soberania (o ser
mestre/kýrios) de si e de um povo. O elemento noético não está descartado nesse
regime, pois a cidade deverá ser regida pela medida (métron; 689a-c, 698b1),
pela inteligência (noûn; 701d8) e pela virtude (712 a).34 Aqueles que recebem a
educação filosófica (Conselho Noturno) têm uma importância fundamental:
comparados à alma ou intelecto (noûs) da cidade (632c, 961d, 964e, 969b), por
serem guiados pelo discernimento e pela opinião verdadeira (632c3-c7), possuem
as melhores condições para formular leis dotadas dessa sabedoria, e para
modificá-las. Para o todo da cidade, tais leis educativo-persuasivas,
elaboradas por legisladores-filósofos, funcionam como a reta opinião. O agir
ético-político dos cidadãos, decorrente da educação da alma por essadóxacapaz
de harmonizar a alma como um todo, deverá ser um agir justo.35 A sabedoria e o
diálogo filosóficos serão aplicados também para instruir membros mais jovens do
próprio Conselho, os ímpios e jovens futuros governantes.36
Nos diferentes projetos políticos debatidos na República e nas Leis, pode-se
notar que a soberania ' tanto da cidade como da alma ' dependerá da ação da
medida sobre a necessidade (isto é, sobre os elementos que não são, por
natureza, regidos pela razão),37 trabalho a ser exercido por instâncias de
persuasão. Em ambos os Diálogos, no plano (paradigmático) da cidade, o caráter
intermediário da ação da persuasão está atuante no ideal de uma constituição
política que viabilize o bom governo e o exercício de uma cidadania virtuosa,
no caráter regulador das magistraturas e instâncias que compõem a vida política
da cidade e no papel educativo das leis.
5. A importância do elemento intermediário
A alma cósmica, a khôra, a medula, a persuasão, o gênero irascível, são alguns
dos elementos intermediários a outros, apresentados no texto platônico. Tais
elementos intermediários permitem-nos repensar a filosofia platônica, por
vários motivos:
- eles permitem a ligação entre entes inteligíveis (divindades,
segundo o texto) e sensíveis; respectivamente: entre "o que é" e "o
que devém", entre Idéias e seres corpóreos, entre princípio imortal e
gêneros mortais do todo corpo-alma, entre noûs e necessidade, entre o
racional e o apetitivo;
- o caráter de tal ligação é nobre, pois permite a comunicação, a
unidade, a interação dinâmica, a afetação hierárquica e a respectiva
ascese do elemento "inferior" à um estatuto então direcionado ao
melhor;
- a mediação realizada pelo elemento intermediário viabiliza uma ação
inteligente para o todo, pois possibilita a superação dialética de um
estado inicialmente desarmônico entre dois ou mais elementos à posse
de um novo estado de coisas, ou seja, ela torna possível ou a criação
do novo, ou, ao menos, a configuração de uma relação de tensão
harmônica entre eles.
Conclusão
Platão trata como tessitura política ' como entrelaçamento dinâmico de
elementos que se distinguem e se inter-relacionam ' as estruturas da alma
humana, da cidade, do kósmos (aqui incluindo sua relação com aquilo que "é para
além" dele). Esses entrelaçamentos devem ser reconhecidos como (no mínimo)
triádicos, e não duais, pois o texto platônico estabelece uma dinâmica triádica
entre sensível, alma cósmica, inteligível; apetite, thymós, raciocínio; corpo,
medula, alma; noûs, persuasão, necessidade (além de várias outras dinâmicas,
que não discutimos no presente texto, como entre Formas inteligíveis, Demiurgo,
khôra; Demiurgo, deuses auxiliares, o mortal; o ser, a khôra, a geração;
círculo do mesmo, círculo do outro, o irracional; saber inteligível, princípio
imortal, gêneros mortais da alma; nóesis, diánoia, dóxa; identidade, ser,
alteridade; unidade, éros, multiplicidade).
Nessas relações triádicas, o elemento intermediário é fundamental, dado o
caráter da mediação que realiza entre elementos distintos, sem se confundir com
eles, promovendo inter-relação, unidade, harmonia, identidade na alteridade,
entrelaçamento, movimento. Ações de mediação em relações triádicas são
constantes no texto platônico.
Pode ser apresentado como objeção metodológica o argumento de que estaríamos
fazendo uma leitura sistemática da obra de Platão, por admitir que algumas de
suas concepções encontram-se presentes com a mesma função em vários Diálogos.
Entretanto, não consideramos ser nossa leitura "sistemática", pois nosso
pressuposto não despreza as particularidades das problemáticas e das posições
teóricas contidas em cada Diálogo, nem desconsidera que uma mesma teoria não
necessariamente precisa ser encontrada em todos eles. Isto não impede, contudo,
o reconhecimento de que uma concepção ou estrutura encontre-se presente em
vários Diálogos.
Que toda leitura é uma interpretação do texto, isso não há quem questione. Mas,
há leituras e leituras. Uma que seja infiel ao próprio texto estudado é, no
mínimo, ingrata ao esforço do filósofo em questão. É fundamental para todos nós
a leitura cuidadosa do texto do filósofo. É preciso incentivar os alunos a isso
ou a buscarem traduções as mais fiéis possíveis. Mas, antes, é preciso que o
professor faça o mesmo. A propósito, esperamos ter argumentado o suficiente
para instalar a dúvida na alma do professor que, para "explicar Platão", divide
o espaço do quadro-negro ao meio e afirma que Platão dividiu a realidade em
duas partes, assim como o homem. Talvez uma melhor imagem seja desenhar vários
triângulos, ou várias elipses. Ou pedir aos alunos que movam os seus olhares
para dentro de si mesmos, para o lado... (etapa fundamental), e para cima.38