O orçamento de defesa dos EUA: racionalidade X pressões domésticas
Introdução
Com o fim da ordem sistêmica bipolar da Guerra Fria, o governo estadunidense
começou a discutir qual seria o papel do país na Nova Ordem Internacional,
termo utilizado pelo então Presidente George H. W. Bush para descrever a
estrutura internacional que se formava. Apesar de alguns analistas defenderem
que os Estados Unidos deveriam construir uma "era unipolar" (Krauthammer_1990/
1991) com base na força, a Administração Bush (1989-1992) decidiu que o país
deveria reduzir seus gastos militares, transferindo a prioridade do orçamento
para o reequilíbrio da economia nacional, que vinha passando por uma profunda
crise orçamentária. O Presidente defendia que, em um contexto de
interdependência complexa, as responsabilidades de estabilização do sistema
poderiam ser divididas.
Apesar dos esforços de Bush, o Legislativo estadunidense decidiu manter a
maioria dos programas de armamentos que o Presidente pretendia cancelar,
impedindo uma redução substancial do orçamento de defesa estadunidense.
Este artigo objetiva, por meio da análise dos processos decisórios do orçamento
de defesa dos Estados Unidos durante o primeiro governo de Reagan (1981-1984) e
a Administração Bush (1989-1992), compreender as razões para a histórica
tendência de estabilização dos gastos com defesa dos EUA, que, desde o final da
Guerra do Vietnã, em torno de 4,6% do produto interno bruto daquele país1.
As características estruturais em que o orçamento é discutido e as preferências
dos agentes que participam de seu processo de elaboração contribuem para que
seja evidente uma tendência de manutenção dos gastos. Períodos de declínio do
orçamento militar são rapidamente seguidos por aumentos dessas despesas2.
Diferentemente do que prevê a maioria das teorias de Relações Internacionais,
as razões que explicam esse fenômeno estão, eminentemente, no âmbito interno da
política daquele país3. Por isso, as teorias sistêmicas que explicam os gastos
com defesa, como as desenvolvidas por Kenneth Waltz4 e Susan Strange5, precisam
ser complementadas. Para tanto, o artigo propõe a utilização dos modelos de
Graham Allison6, que, apesar de apresentarem contribuições relevantes, também
possuem limitações, pois privilegiam a simplificação metodológica.
Com o intuito de minimizar essa dificuldade, duas adaptações são propostas aos
modelos conceituais de Allison_(Allison_e_Zelikow_1999). A primeira é tratá-los
como parte de um continuum de distribuição de poder entre os agentes do
processo decisório. O modelo I está no primeiro extremo desse continuum, em que
o poder é concentrado nas mãos de um só agente, e o modelo III está no extremo
contrário, marcado por uma extensa divisão do poder de decisão entre agentes
que buscam influenciar o processo decisório e os tomadores de decisão do
governo. A principal contribuição trazida pelo continuumé a noção de que os
modelos de Allison são complementares, e não contraditórios. Entende-se,
portanto, que a análise do orçamento de defesa dos EUA pode ser realizada pela
associação entre os tipos ideais do autor, pois as decisões orçamentárias são
extremamente complexas e possuem características que variam ao longo dos anos,
podendo se aproximar mais de um ou de outro extremo7.
A segunda adaptação é a sua associação aos conceitos do debate agente-
estrutura, minimizando o individualismo excessivo da proposta de Allison8.
Essas adaptações permitirão ao leitor compreender que os movimentos de aumento
e diminuição dos gastos com defesa dos EUA tendem a ser influenciados por
forças estruturais (sistêmicas e domésticas) e agenciais (principalmente
domésticas). Acredita-se que, em grande medida, a análise formulada neste
artigo poderá auxiliar no exame mais geral sobre as discussões do orçamento de
defesa estadunidense, pois mesmo em momentos em que o Executivo pretende
realizar cortes nos gastos, há uma série de pressões que atuam na direção
contrária, como parece estar ocorrendo na Administração Obama.
A análise do orçamento de defesa dos EUA pela associação dos modelos de Allison
com o debate agente-estrutura em Relações Internacionais
O debate agente-estrutura vem sendo desenvolvido, nas Relações Internacionais,
principalmente pela Teoria Construtivista e, mais modernamente, pelo Realismo
Científico. A proposta deste artigo se aproxima da segunda visão, pois leva em
consideração a abordagem de Wight_(2006), que parte da noção de que toda vida
social é estruturada a partir de quatro faces de um mesmo cubo social (Wight
2006,_174). A primeira tem natureza material, marcada pelos recursos ou
atributos físicos das unidades em interação, que são determinados tanto por
suas características individuais quanto pelas estruturas em que atuam; a
segunda é denominada de ações inter-intrassubjetivas, composta pelas regras,
normas, crenças e instituições que constituem a vida social; a terceira se
refere às relações sociais, que determinam a composição da estrutura e também o
posicionamento dos agentes; a última face é a da subjetividade do agente.
Para que sejam compreendidas as relações dos agentes com as estruturas de que
fazem parte, as quatro faces devem estar contempladas na análise. Portanto, o
exame do orçamento de defesa dos EUA precisa considerá-las na análise da
estrutura e do papel dos agentes que dele participam. Isso será realizado pela
exposição das variáveis que estão relacionadas com os agentes que atuam no
processo decisório e, a seguir, pelo exame das variáveis estruturais que o
caracterizam.
O papel dos agentes deve ser compreendido a partir do que Wight denomina de
três níveis de agência9. São quatro os principais agentes que atuam no processo
decisório do orçamento de defesa dos EUA: os membros do Executivo e os membros
do Legislativo são tomadores de decisão, enquanto os militares e grupos de
interesse agem com o objetivo de influenciar seu resultado10.
A partir do conceito de agência1, pode-se afirmar que o indivíduo mais
influente no processo decisório é o Presidente. Por isso, suas características
pessoais, como a "personalidade" e a "popularidade", são importantes. Além
dessas variáveis, o exame da ideologia dos tomadores de decisão do processo
(Presidente e legisladores)11 também é relevante para esse nível de agência.
Com relação ao nível de agência2, as variáveis utilizadas são o partido
político do agente e sua representatividade eleitoral12.
Apesar da importância desses dois níveis, na análise dos orçamentos de defesa
dos EUA, o nível de agência3, que se refere ao papel que os agentes ocupam no
processo decisório, parece ser mais relevante. Isso decorre das diferenças
existentes nas condições de representatividade dos membros do Executivo e do
Legislativo. Os primeiros representam uma parcela muito maior do eleitorado que
os congressistas, o que torna os legisladores mais vulneráveis aos grupos de
interesse (lobbies) de seus distritos de origem (Milner_1997; Shepsle_e
Weingast_1984). Dessa forma, a emergência do Legislativo no processo decisório
tende a privilegiar grupos específicos.
Além do Presidente e dos legisladores, mais dois agentes participam do processo
decisório buscando influenciá-lo. Os membros das Forças Armadas concentram sua
pressão sobre o Executivo, procurando aumentar os gastos e atuando
conjuntamente, de modo a não estabelecer uma concorrência entre si, o que
prejudicaria seus interesses no longo prazo (Stubbing_1984; Smith 1996). Já os
grupos de interesse, no sistema político dos EUA, têm grande intensidade
(Goldstein_1999) e capacidade organizacional (Olson_1999; Smith_1996; Domke
1984) e, por isso, têm papel fundamental nos processos decisórios.
Além de caracterizar os agentes que atuam nos processos de elaboração do
orçamento de defesa dos EUA, é importante observar como a estrutura em que se
inserem influencia seu posicionamento. Para tanto, o exame de dois conjuntos de
variáveis é relevante: as normas que regulam o comportamento dos agentes e as
condições estruturais que determinam o equilíbrio de poder entre eles.
A análise das normas que regulam a construção do orçamento de defesa dos EUA
demonstra que há uma extensa divisão de funções na sua elaboração. O Executivo
tem o poder de agenda, o que lhe dá uma grande vantagem (Barrett_e_Eshbaugh-
Soha_2007; Allison e Zelikow 1999, Bernstein_2000), pois pode moldar as
discussões no Legislativo, criando padrões e estabelecendo os programas que os
congressistas irão debater. Os legisladores, contudo, têm o poder de decisão
final sobre o orçamento.
A lei que regula o processo orçamentário é a Lei do Orçamento de 1974, aprovada
em um momento de grande prevalência institucional do Legislativo sobre o
Executivo13. Por isso, a norma atribui extensas vantagens ao Congresso no
processo decisório. Isso, porém, não é suficiente para que os posicionamentos
dos legisladores prevaleçam, o que somente ocorre se outras variáveis
estruturais estiverem combinadas de modo a privilegiar o Legislativo.
De acordo com a hipótese deste artigo, as variáveis que afetam o equilíbrio de
poder entre Executivo e Legislativo e, portanto, influenciam as características
do processo orçamentário, são as seguintes:
* Estrutura internacional - A estrutura internacional é uma das duas
macroestruturas que interferem no montante de gastos com defesa
realizados pelos Estados Unidos. Como indicam diversos autores (Strange
1999; Berry_e_Lowery_1990, 688; McCormick_et_al._1997,_135), a demanda
por esses gastos aumenta em períodos de maior ameaça internacional e em
situações de conflito militar, pois, nesses cenários específicos, o
equilíbrio das contas orçamentárias fica em segundo plano. Além disso,
nessas ocasiões, a necessidade de decisões rápidas e eficientes
privilegia o papel do Executivo. A diminuição das ameaças internacionais,
por outro lado, abre espaço para a prevalência do Congresso, pois a
preocupação com a eficiência dos gastos diminui (Wittkopf_e_McCormick
1998,_443). Vê-se, portanto, que variáveis sistêmicas interferem
diretamente no equilíbrio de poder entre Legislativo e Executivo.
* Divisão partidária do governo - ocorre quando o Presidente é de um
partido e a maioria do Legislativo pertence ao outro. Sem um amplo apoio
do Congresso, um Presidente não tem condições de aprovar as políticas de
seu interesse ou de promover grandes alterações orçamentárias14. Essa
variável está relacionada com a anterior, pois, como observa Mayhew_
(1991,_195-196), em situações de grandes ameaças externas, a divisão
partidária diminui, já que os legisladores se afastam das disputas
partidárias, e passa a existir uma grande tendência de apoio ao
Presidente.
* Estado da Economia - as diferenças estruturais entre um ambiente de
prosperidade econômica e um ambiente em que há déficits orçamentários e
pressões inflacionárias e empregatícias são profundas. Se o orçamento for
superavitário, o Presidente tem mais liberdade para exigir do Congresso
políticas que o satisfaçam. Além disso, a pressão doméstica sobre os
congressistas tende a diminuir, deixando-os mais livres para atender às
demandas de um Presidente que vem, ao menos teoricamente, construindo
políticas econômicas equilibradas. Ao contrário, se o orçamento enviado
pelo Presidente é deficitário, a pressão dos grupos de interesse sobre os
congressistas aumenta, pois nenhum ator societal está interessado em
perder seus recursos. Como a margem dos legisladores para atender os
grupos específicos será menor, tenderão a cortar gastos que considerem
desnecessários, mesmo que tenham sido requeridos pelo Presidente. Nesse
cenário, cortes de programas de armamentos, que representariam a perda de
empregos importantes em uma indústria politicamente forte, serão
dificilmente realizados. Assim, quando a economia vai mal, o poder tende
a fluir para o Legislativo, que terá maior autonomia para analisar os
pedidos orçamentários do Executivo. Neste artigo, o estado da economia
dos EUA é analisado a partir de indicadores específicos: crescimento da
economia, taxa de juros, inflação, desemprego, índice de miséria e
déficit orçamentário.
* Opinião pública - a importância da opinião pública para a tomada de
decisão acerca do orçamento de defesa dos EUA é inconstante, sendo sua
influência mais relevante e mais claramente perceptível em momentos de
graves crises internacionais ou quando a economia está em situação
precária. O crescimento das ameaças externas, por exemplo, cria um
ambiente de forte nacionalismo e um maior apoio aos gastos15. Ao
contrário, crises econômicas aumentam a pressão popular pelo corte de
gastos militares.
* Ciclo Eleitoral - no primeiro ano de governo, os Presidentes tendem a ter
um maior apoio da opinião pública e do eleitorado, sendo esse período
chamado de lua-de-mel do Presidente. Nesses momentos, grandes alterações
na política orçamentária são mais comuns (Barrett_e_Eshbaugh-Soha_2007;
Edwards_III_e_Wayne_1994; Mayer_1995). No último ano dos mandatos, também
o efeito do ciclo eleitoral é evidente, pois nenhum tomador de decisão
está disposto a cortar gastos que possam gerar desemprego em períodos
próximos de uma nova eleição.
* Distribuição das informações - a distribuição das informações é uma
variável relevante para a análise de um processo decisório, pois os
agentes que possuem informações mais adequadas tendem a ser beneficiados
(Milner_1997). A princípio, o Presidente, pela sua estrutura de
assessores, tem mais condições de reunir melhores informações. Por outro
lado, os grupos de interesse das indústrias de defesa cumprem o relevante
papel de suprir informações aos legisladores. Além disso, a Lei do
Orçamento de 1974 criou o Escritório de Orçamento do Congresso, que
diminuiu a lacuna informacional entre o Executivo e o Legislativo.
Somadas a essas variáveis estruturais, características específicas dos agentes
anteriormente citados têm influência sobre as decisões orçamentárias:
* Personalidade do Presidente - a personalidade do Chefe do Executivo
influencia seu posicionamento sobre o papel dos EUA no mundo e sobre a
necessidade de investimentos em defesa. A variável será mensurada de
acordo com Barber_(1992), que desenvolve quatro tipos ideais de caráter
presidencial16, associando-os a cada Presidente que examina.
* Popularidade do Presidente - um Presidente popular tem mais facilidades
nas relações com o Congresso. Dificilmente o Congresso irá contrariar um
Presidente que se posicione claramente acerca de um tema e seja popular
(Edwards_III_e_Wayne_1994; Andrade_e_Young_1996).
* Ideologia - este artigo utiliza a categorização proposta por McCormick_e
Wittkopf_(1990), que classificam os agentes políticos dos EUA entre
conservadores, moderados e liberais. A consideração da ideologia dos
agentes é importante em dois aspectos: primeiramente, porque se o
Presidente e a média dos congressistas possuem ideologia semelhante, a
decisão tende a favorecer o primeiro, que formula a agenda. Além disso,
se ambos tiverem ideologias conservadoras, como aconteceu durante a
gestão de Reagan, ao menos nos dois primeiros anos do mandato, a
tendência de aumento dos gastos com defesa tende a se concretizar.
* Intensidade dos lobbies - quando são politicamente poderosos, os grupos
de pressão de uma determinada indústria tendem a ter grande capacidade de
influência sobre uma decisão (Goldstein_1999)17. Isso claramente ocorre
nos debates do orçamento de defesa, pois o lobbydas indústrias de
armamentos é considerado um dos mais fortes do cenário político
estadunidense (Smith_1996; Gholz_e_Sapolski_1999-2000; Domke_1984). A
relação simbiótica entre os grupos de pressão da indústria de defesa, os
congressistas e os membros das Forças Armadas, conhecida como Triângulo
de Ferro (Smith_1996), é o principal instrumento político desenvolvido
pela indústria, cuja força pode ser medida pela sua riqueza e pelos
resultados financeiros positivos que vêm obtendo ao longo dos anos (Cobb
1969).
Esse conjunto de variáveis aponta os cenários decisórios em que existe uma
prevalência do Executivo ou, ao contrário, em que há a ascensão dos
legisladores. No primeiro caso, a tendência é de uma decisão que se aproxime
mais do modelo I (racional) de Allison, pois o Presidente está mais isolado das
pressões específicas dos grupos de interesse e é o responsável direto pela
criação de políticas de defesa que aumentem o nível de preparação dos Estados
Unidos contra possíveis ameaças. A ascensão do Congresso no processo de
elaboração do orçamento de defesa, por outro lado, aproxima a decisão do
previsto pelo modelo III (política governamental) de Allison, pois há a
emergência de diversos atores societais no processo.
A seguir, propõe-se um quadro (Tabela_1) em que as variáveis estruturais e
agenciais discutidas neste artigo são relacionadas com os modelos de Allison,
apesar da ressalva de que mesmo uma decisão tomada em um desses "cenários
ideais" não pode ser totalmente associada a um dos modelos do autor18:
Tabela 1. A associação entre os modelos de Allison e o debate agente-
estrutura.
Variáveis Proximidade ao Modelo I Proximidade ao Modelo III
Nível de Alto Baixo
ameaça
Distribuição Bipartidarismo Governo dividido
partidária
Estado da Bom Ruim
economia
Estruturais Opinião Favorável à proposta do Presidente Contrária à proposta do
pública Presidente
Ciclo Período de lua-de-mel do Presidente Anos eleitorais
eleitoral
Distribuição
das Privilégio ao Presidente Privilégio ao Congresso
informações
Personalidade Ativa e positiva Passiva e negativa
do Presidente
Popularidade Alta Baixa
do Presidente
Agenciais Ideologia Semelhante entre Executivo e a média do Ideologias contrapostas
Congresso entre os Poderes
Intensidade Baixa Alta
dos lobbies
Tendência do Prevalência do Executivo Prevalência do
processo Legislativo
O quadro acima pode ser representado de modo mais simplificado em um gráfico
(Figura_1) em que o eixo X representa a concentração de poder na estrutura
doméstica e o eixo Y se refere à estrutura internacional.
Como se nota, o aumento do nível de ameaças internacionais e da concentração do
poder de decisão no Executivo leva a uma tomada de decisão que se aproxima do
modelo I de Allison.
Figura 1 Continuum da concentração de poder decisório.
Caracterização dos debates orçamentários durante as gestões Reagan e Bush
Com base nas variáveis apresentadas, pode-se examinar os resultados dos
processos orçamentários da primeira gestão de Reagan (1981-1984) e da
Administração Bush (1989-1992). O primeiro promoveu grande elevação dos gastos
militares e seu sucessor, ao contrário, objetivou realizar um profundo corte no
orçamento de defesa, com o intuito de se adequar ao fim da corrida armamentista
entre EUA e URSS.
Nos dois primeiros anos da Administração Reagan, diversos fatores contribuíram
para que o Presidente pudesse elevar os gastos militares rapidamente. Havia uma
clara ameaça internacional, que foi potencializada com a invasão soviética ao
Afeganistão e a Revolução Islâmica do Irã. Tais acontecimentos ampliaram a
percepção de ameaça pelos governantes e pela opinião pública19estadunidense, o
que facilitou a criação de um consenso bipartidário no Legislativo. Além disso,
apesar de Barber_(1992) analisar que Reagan era um Presidente passivo, diversos
autores, como Stockman_(1986) e Allison e Zelikow (1999, 276), definem-no como
um Presidente de personalidade extremamente forte, que confrontava quaisquer
possíveis obstáculos para fazer suas ideias prevalecerem, o que foi facilitado
pela sua alta popularidade no início do mandato (Edwards_III_e_Wayne_1994,_104)
e grande capacidade de condução da mídia20.
Politicamente, Reagan encontrou condições de apoio raramente observadas em
outros momentos históricos. Na eleição de 1980, recebeu 489 votos do Colégio
Eleitoral, contra 49 de Jimmy Carter. O pleito também propiciou um grande nível
de apoio ao Presidente no Congresso. Apesar de que a Câmara dos Representantes
teria maioria do Partido Democrata, que elegeu 242 representantes contra 192
Republicanos, Reagan conseguiu um apoio bipartidário constante de Democratas
conservadores do sul dos EUA, os denominados Boll Weevils, nas questões do
orçamento de defesa21.
Na economia, porém, a situação era bastante problemática, o que poderia
significar uma redução do apoio do Congresso à sua proposta orçamentária. Mas,
como o Partido Republicano havia vencido a eleição justamente por ter uma
proposta orçamentária diferente da anterior, embasada no incentivo à economia
do lado fornecedor (supply-side economics), que ficou popularmente conhecida
como Reaganomics, o apoio a Reagan foi potencializado. Seu modelo passou a ser
visto como uma possível solução para os problemas econômicos dos EUA.
A proposta tinha dois objetivos principais: diminuir o tamanho do Estado e os
investimentos na área social, enquanto era maximizado o apoio aos grandes
empresários, que seriam responsáveis por reerguer a economia estadunidense.
Apesar dos grandes esforços para aplicar o novo modelo econômico, a
Administração não conseguiu realizar as reduções que pretendia nos programas
sociais, o que gerou um déficit orçamentário recorde22, pois a ascensão dos
gastos com defesa23 foi mantida.
O buildup da defesa trouxe efeitos negativos também no longo prazo, pois o
aumento dos gastos foi concentrado nas contas de "Pesquisa e Desenvolvimento" e
"Aquisição de Novos Equipamentos", o que ocasionou os chamados efeitos de "onda
de popa" e de "onda de proa"24. Isso comprometeu a capacidade de preparação do
aparato de defesa dos EUA, já que o aumento nessas contas foi compensado pela
redução nos gastos com "Manutenção" e "Treinamento de tropas" (Adams_e_Cain
1989; Steinbruner_1988,_147).
Enfim, Reagan encontrou um ambiente muito favorável ao aumento expressivo dos
gastos militares e decidiu exercer uma ampla liderança no processo
orçamentário.
George H. W. Bush, por outro lado, iniciou seu mandato precisando gerenciar
ambientes muito diferentes, tanto internacional quanto domesticamente. A
derrocada da União Soviética reduziu as ameaças evidentes aos EUA. Além disso,
havia grandes preocupações com os altíssimos déficits orçamentários e com o
grandioso comprometimento de gastos com defesa. Diante dessas condições
estruturais, Bush propôs uma ampla redução das despesas militares, concentrando
os cortes nas contas que Reagan havia priorizado. O Executivo requereu a
redução
ou o encerramento de dez dos principais programas militares25, que considerava
desnecessários ou excessivamente custosos.
A decisão do Executivo, ao propor cortes profundos no orçamento de defesa,
estava embasada na opinião de analistas que haviam feito parte da gestão
Reagan26, que fundamentaram suas escolhas com base em uma lógica simples:
poupar recursos na defesa, em um cenário internacional de diminuição das
ameaças, permitiria aplicá-los no aprimoramento do desempenho macroeconômico do
país, que ainda passava por uma severa crise. Além disso, os altos
investimentos em defesa realizados durante a gestão de Reagan diminuíram a
necessidade de gastos militares elevados nos anos seguintes. Apesar desses
argumentos, o Presidente não conseguiu convencer o Congresso de que os empregos
perdidos na indústria de defesa seriam compensados, com sobras, em outras
áreas27.
Ao propor a redução nos investimentos, Bush percebeu que precisaria enfrentar
um ambiente doméstico bastante desfavorável. O fim da Guerra Fria ocasionou
duas alterações importantes para o cenário político estadunidense: o consenso
bipartidário entre Executivo e Congresso tornou-se menos provável e o poder de
decisão pendeu para o Legislativo, o que foi decorrente da menor popularidade
do Presidente, do agravamento das crises econômicas e do próprio déficit
orçamentário, entre outros fatores. A relação de Bush com o Congresso, enfim,
foi muito mais difícil que a de Reagan.
A composição partidária do Legislativo também era prejudicial aos interesses de
Bush. A aprovação de suas políticas somente poderia ser realizada por meio de
amplas negociações com os Democratas, que possuíam 258 assentos (59,3%) na
Câmara dos Representantes, enquanto os Republicanos ocuparam somente 176 vagas
(40,5%). No Senado, a situação era semelhante, com os Democratas ocupando 55
dos 100 assentos. Decisões que privilegiassem o posicionamento do Presidente,
portanto, eram de difícil costura. Na segunda metade do mandato, a situação se
agravou, com Bush perdendo mais nove assentos na Câmara e mais um no Senado. O
fim da Guerra Fria eliminou o "guia de resposta rápida" (McCormick_et_al._1997,
135) que incentivava o bipartidarismo.
Essas condições trouxeram prejuízos ao Presidente, que, em questões de política
externa, teve apoio bipartidário em somente 19% das votações mais importantes
na Câmara. No Senado, apesar de que o apoio era maior, ainda era muito pequeno
(29%). Ambos os dados representam níveis historicamente baixos. A diferença
entre os apoios dos partidos (Republicano contra Democrata) era de 35% na
Câmara e 34% no Senado, ou seja, o apoio dos Republicanos a Bush girava em
torno de 67,5%, enquanto o apoio dos Democratas representava 32,5%28.
Mesmo diante dessas divisões partidárias, que facilitaram a ascensão do
Congresso, dois fatores poderiam favorecer a aprovação das reduções propostas
por Bush. Em primeiro lugar, a opinião pública estadunidense já não era mais
favorável a um crescimento dos investimentos militares (Bartels_1991). Em
segundo, o Presidente havia assumido em um momento de recuperação econômica,
decorrente da melhora dos índices macroeconômicos na segunda gestão de Reagan.
Em 1989, a economia estadunidense passava pelo seu sétimo ano seguido de
crescimento, sem sinais de retorno da estagnação (Mann 1990, 295); os juros
haviam baixado e continuaram diminuindo durante a década de 90; a inflação
estava controlada e o desemprego decresceu, reduzindo o índice de miséria. O
único problema que permaneceu se agravando, desde a gestão de Reagan, e que
continuou afetando grandiosamente os debates orçamentários durante os anos de
Bush, era o déficit, que batia recordes a cada ano.
A partir do segundo ano de seu mandato, porém, a condição favorável da economia
rapidamente retrocedeu29 e o Presidente se mostrou incapaz de amenizar a grave
crise em que os EUA estavam inseridos30.
Além da ineficiência da política econômica da Administração Bush, a
personalidade e a ideologia dos agentes que participaram dos processos
decisórios do orçamento de defesa não contribuíram para a definição de uma
linha política clara. Ideologicamente, o Congresso, nos anos de Bush, era muito
mais liberal que o Legislativo da gestão Reagan.
Como se observa, a falta de uma ameaça externa, a inexistência de um plano
coerente para lidar com o orçamento de defesa, o governo dividido e a queda no
desempenho econômico do país, a partir do primeiro ano de sua gestão,
contribuíam para a ascensão do Legislativo no processo decisório. Além desse
contexto negativo, deve-se considerar que as características dos agentes que
participaram dos debates orçamentários aumentavam a tendência de prevalência do
Congresso. O Legislativo enfrentado por Bush era mais liberal que o dos anos
Reagan; a popularidade pessoal do Presidente manteve-se baixa durante a maior
parte da gestão31; e, finalmente, o Presidente, apesar de sua personalidade
forte e pró-ativa, adotou uma postura conciliatória com relação ao Legislativo,
cabendo somente ao seu Secretário de Defesa a condução de debates mais rígidos
sobre o orçamento de defesa.
A Tabela_1, elaborada a partir de registros históricos do apoio médio anual de
ambas as Casas do Congresso aos Presidentes Reagan e Bush, demonstra
numericamente a queda na aprovação das políticas deste:
Tabela 1. Aprovação do conteúdo das políticas presidenciais no Congresso (em
percentagem)
Reagan Bush
81 82 83 84 Média89 90 91 92 Média
82,4 72,4 67,1 65,8 71,9 62,6 46,8 54,2 43 52,2
Fonte: tabela elaborada pelo autor com base nos dados descritos no CQA_(1993,
p._9-B).
Como se observa, apesar de o efeito de lua-de-mel entre Bush e o Congresso ter
sido importante nos dois primeiros anos após as eleições (presidenciais e de
meio-termo), a média de Bush, se comparada a de seu antecessor, é muito baixa
(19,7% menor). Mesmo no ano em que Bush teve o maior apoio no Congresso, em
1989 (62,6%), o índice foi inferior ao mais baixo apoio do primeiro mandato de
Reagan (65,8%). Nos anos de 1990 e 1992, os índices de apoio a Bush no
Congresso foram historicamente baixos (CQA_1991,_22). O Presidente, enfim,
obteve a pior média de aprovação desde 1953, quando o índice começou a ser
medido. Na Câmara, em 1990, Bush perdeu em cerca de 7 a cada 10 votações. Além
disso, outra característica interessante da análise das votações em 1990, que
pode estar associada às pressões eleitorais, foi a grande divisão partidária
dos votos, que representou um recorde histórico de diferença no posicionamento
dos partidos (CQA_1991,_32). Mann (1990, 294) considera que "o histórico
legislativo do Presidente Bush no Congresso era medíocre".
Nessa conjuntura, a redução dos gastos com defesa, que deveria ser natural (na
visão das teorias sistêmicas), não ocorreu. Isso está relacionado,
principalmente, com as características estruturais enfrentadas pela
Administração Bush e com o pouco comprometimento dos agentes que participaram
do processo decisório com esse objetivo.
Breve comparação entre os orçamentos de defesa dos anos Reagan e George H. W.
Bush
O exame das diferenças estruturais e agenciais entre as gestões Reagan e Bush
indica que os Presidentes governaram em realidades muito diferentes e as
enfrentaram por meio de visões distintas. A comparação32 entre os resultados
orçamentários obtidos por ambos pode ser realizada, mesmo que de modo breve, de
três diferentes formas, que demonstram que os processos decisórios dessas
gestões se aproximam de extremos opostos do continuum de distribuição de poder
proposto neste artigo.
Primeiramente, serão analisadas as discussões orçamentárias da Administração
Reagan e, posteriormente, os dados da gestão Bush.
A primeira maneira de examinar os níveis de aprovação das propostas
orçamentárias do Presidente pelo Congresso é comparar os valores absolutos de
gastos com defesa requeridos pelo Executivo com as quantias finais aprovadas
pelo Legislativo (Tabela_2).
Tabela 2. Percentual de aprovação dos pedidos orçamentários de Reagan para
apropriações com defesa (valores totais33).
Requerimento da Valor aprovado Valor aprovado Valor final Índice de
Administração pela Casa pelo Senado aprovado aprovação
1981 200.878.234 197.517.189 208.868.645 199.899.264 99,51%
1982 249.612.409 230.750.564 233.749.005 232.026.724 92,95%
1983 260.926.119 247.062.791 253.945.137 249.820.875 95,74%
1984 292.221.823 270.063.432 279.392.105 274.398.173 93,90%
Fonte: tabela elaborada com base nos dados do Congressional Quarterly Almanac
(1982, p. 321; 1983, p. 278; 1984, p. 481; 1985, p. 400).
Como se observa, o Congresso, mesmo nos anos em que houve um aprofundamento da
recessão econômica nos EUA, manteve forte apoio às demandas de Reagan. O
simples exame desses números, porém, não demonstra claramente o nível de
prevalência do Executivo sobre o Legislativo.
A análise precisa ser aprofundada por meio da observação das discussões de
cunho mais geral sobre os programas de armamentos realizadas anualmente durante
a gestão. Os orçamentos aprovados em 1981 e 1982 foram amplamente favoráveis às
propostas do Executivo não somente em termos financeiros, mas também com
relação aos programas aprovados. Todos os armamentos e sistemas concebidos
pelas Forças Armadas e defendidos por Reagan foram aceitos pelo Legislativo
nesses anos.
Nos dois últimos anos da gestão, porém, a situação foi levemente alterada. O
apoio da opinião pública ao Presidente caiu, principalmente pelo aumento dos
déficits orçamentários e pela piora de diversos índices macroeconômicos. A
consequência dessas alterações foi sentida na eleição de meio-termo de 1982,
quando o Partido Republicano perdeu muito espaço no Legislativo. A partir de
então, as negociações orçamentárias passaram a ser mais difíceis para Reagan,
que, mesmo assim, continuou obtendo ampla margem de aprovação para seu projeto
de buildup militar. Mesmo no quarto ano de gestão, apesar de alguns programas
terem sido desacelerados, nenhum deles foi encerrado pelos legisladores.
Por fim, também é possível observar os níveis de aprovação das propostas de
Reagan pelo Congresso pelo exame das discussões sobre programas de armamentos
específicos propostos pelo Executivo nos quatro anos da Administração. Três
deles geraram grandes polêmicas entre Executivo e Legislativo no período e,
assim mesmo, receberam investimentos vultosos: os mísseis M-X34, o bombardeiro
B-135 e o programa da Marinha de 600 Navios. A análise aprofundada desses
programas demonstra que, apesar de terem sofrido alguns cortes em anos
específicos, todos foram amplamente aprovados pelo Congresso.
As três observações demonstram que Reagan foi amplamente atendido pelo
Legislativo, o que indica que as características desses processos os aproximam
das tendências previstas pelo modelo racional de Allison. O Presidente,
teoricamente, representa uma grande parcela da população do país e, estando
mais distante das pressões específicas dos grupos de interesse, tem mais
condições de aproximar suas demandas do interesse nacional.
Por outro lado, se os mesmos critérios forem adotados para analisar os
processos decisórios do orçamento de defesa da gestão Bush, resultados muito
diferentes serão obtidos.
Os índices de aprovação dos requerimentos de Bush pelo Congresso levam a
pressupor que o desempenho desse Presidente foi bastante positivo, mesmo se
comparado ao de Reagan, como se pode observar pela Tabela_3.
Tabela 3. Percentual de aprovação dos pedidos orçamentários de Bush para
apropriações com defesa (valores totais36):
Requerimento da Valor aprovado Valor Aprovado Valor final Índice de
Administração pela Casa pelo Senado aprovado aprovação
FY1990 223.516,2 226.048,3 223.369,2 302.963,7 100%37
FY1991 288.641,7 269.281,4 268.240,9 269.981,5 93,54%
FY1992 270.936,3 270.565,8 270.257,7 269.911,2 99,62%
FY1993 261.133,5 251.866,7 250.685,6 253.786,6 97,19%
Fonte: tabela elaborada com base nos dados do CQA_(1990,_p._452;_1991,_p._813;
1992,_p._622;_1993,_p._599)
O nível de apoio que a tabela ilustra é maior que o de Reagan em seu primeiro
mandato. Novamente, porém, os dados devem ser qualificados, a partir da
observação mais específica das discussões orçamentárias.
Primeiramente, é importante observar que o valor da última aprovação do
Congresso (aproximadamente US$ 253,8 bilhões) é maior que o primeiro
requerimento orçamentário da Administração Bush (aproximadamente US$ 223,5
bilhões). Isso demonstra que a estratégia do Legislativo para evitar reduções
drásticas dos gastos militares durante os quatro anos da gestão foi bastante
agressiva. No primeiro ano, os congressistas garantiram a manutenção dos
programas politicamente importantes, mesmo diante das propostas de corte ou
encerramento enviadas por Bush e Cheney. Com isso, nos três anos seguintes, o
trabalho do Congresso se resumiu a continuar apropriando os valores requeridos
pelo Presidente em sua totalidade, além de incluir valores adicionais.
A análise dos debates orçamentários realizados anualmente (CQA_1990;_1991;
1992;_1993) demonstra que, já nos primeiros anos de gestão, as divergências
entre os orçamentos propostos pelo Executivo e as versões finais aprovadas pelo
Legislativo eram profundas. Desde sua posse, Bush defendeu que os EUA deveriam
concentrar os gastos em armamentos estratégicos, realizando cortes mais
profundos em programas convencionais1, pois muitos se mostravam ineficientes.
Apesar dos esforços do Executivo, o Congresso decidiu manter todos os
programas, independentemente da realização de uma análise profunda sobre a sua
eficiência. O único argumento para a manutenção era a importância política dos
empregos gerados pelo investimento nesses equipamentos.
Nos três anos seguintes, a lógica se manteve. O Executivo propôs o corte de
diversos programas convencionais e o Congresso os manteve, minimizando o ritmo
de redução de gastos. Nos programas mais controversos, a velocidade dos gastos
foi atenuada, mas nenhum programa foi cortado nos quatro anos de gestão,
havendo a manutenção dos efeitos de "onda de popa" e "onda de proa" gerados
pela Administração Reagan.
Entre os programas mais custosos que foram discutidos durante o governo Bush,
estavam o bombardeiro B-2 Stealth, os mísseis M-X e o programa de
reaparelhamento da Marinha. Bush propôs o encerramento dos dois primeiros e a
redução dos investimentos no terceiro, pois entendia que nenhum deles era
essencial para a defesa dos EUA. O único que foi cancelado, apesar da forte
contrariedade dos legisladores, foi o MX. Essa decisão não estava relacionada
com as preferências dos legisladores, mas decorreu da assinatura dos acordos
START entre EUA e URSS, que decretaram o fim dos investimentos nos mísseis.
Se forem comparados os requerimentos orçamentários de Bush com os valores
aprovados pelo Congresso, há, claramente, uma prevalência da política sobre a
racionalização dos gastos, com destaque para a manutenção de programas de
armamentos que eram considerados inadequados pelo Executivo38. A manutenção
desses programas impôs uma grande pressão sobre os investimentos de longo
prazo, sem que houvesse uma ampla discussão acerca da eficiência ou necessidade
dos equipamentos. Antes da Guerra Fria, os EUA se desmobilizavam no fim de suas
guerras, mas isso não aconteceu, pela primeira vez, depois do declínio da URSS
(Gholz_e_Sapolski_1999-2000,_7). A partir de então, mesmo em um ambiente de
poucas ameaças à sobrevivência do país, as aquisições da defesa passaram a ser
dominadas por incentivos clientelistas (Gholz_e_Sapolski_1999-2000,_22).
Motivar politicamente as decisões do orçamento de defesa não era uma prática
nova, mas sua importância aumentou muito a partir dos anos 1990. Nesse período,
o Triângulo de Ferro da defesa passou a dominar as discussões orçamentárias
(Lindsay_1991). A ascensão do Congresso, durante a gestão Bush, tornou a
elaboração e a especificação dos gastos em defesa uma decisão muito mais
complexa, que passou a estar mais próxima da lógica do modelo III (política
governamental) de Allison.
Conclusões
Ao cotejar teses sistêmicas, os modelos conceituais de Graham Allison e os
conceitos do debate agente-estrutura, este artigo examinou o processo de
elaboração do orçamento de defesa dos EUA em duas gestões que apresentaram
características muito distintas.
O objetivo foi apontar o elevado grau de complexidade das discussões
orçamentárias sobre a defesa estadunidense, mais do que esmiuçar essas questões
com o nível de profundidade que o tema mereceria. Apesar disso, as observações
realizadas podem demonstrar que o Executivo, durante os primeiros anos da
Administração Reagan, tinha prevalência no processo decisório, o que levou à
tendência de aprovação de suas demandas pelo Legislativo e à criação de
políticas que se aproximaram mais do modelo I de Allison, apesar de que o
conceito de racionalidade do autor não se encaixa perfeitamente na explicação
desses processos decisórios.
Ao contrário, os orçamentos construídos durante a gestão Bush se aproximaram do
modelo III de Allison, pois a emergência do Congresso, que retomou sua margem
de manobra na discussão orçamentária naquela Administração, impediu o
cancelamento de programas de armamentos que o Presidente considerava
inadequados ao atendimento do interesse nacional dos EUA por interesses
meramente político-eleitorais. A decisão final dos processos foi mais
fortemente influenciada pelos lobbiesdas indústrias de defesa, cujo
comportamento não foi examinado detidamente neste artigo.
Tanto o ambiente internacional quanto o doméstico foram decisivos para que os
processos decisórios sofressem alterações. A análise evidencia que,
independentemente das características específicas que apresentam os processos
decisórios, em todos houve pressões muito fortes pela continuidade de gastos
militares elevados. Essa lógica, que está relacionada tanto com a estrutura
quanto com a característica dos agentes que participaram das discussões
orçamentárias nos EUA, impediu uma redução efetiva dos gastos com defesa
estadunidense que produzisse efeitos de longo prazo.
O atual Presidente daquele país, Barack Obama, vem tendo sérias dificuldades em
seus esforços de reduzir o orçamento de defesa. A conjuntura atual é muito
semelhante à enfrentada por Bush e, por isso, pode-se pressupor que
dificilmente os cortes nos gastos de defesa que vem sendo observados atualmente
produzam consequências duradouras. Novamente, há diversas reduções nas contas
de pesquisa e desenvolvimento que não estão relacionadas com o cancelamento de
programas, mas apenas com seu adiamento. No futuro, é provável a manutenção dos
efeitos de onda de proa e de onda de popa, que provocarão uma nova curva
ascendente dos gastos.