Os processos de partilha da soberania na União Européia
Introdução
William Wallace (1999, p.503-506, 521) identifica um "paradoxo" central no
sistema político europeu ao longo da década de 1990: a governança tornou-se uma
atividade multinível, intricadamente institucionalizada e marcada por processos
que se sobrepõem e se inter-relacionam entre diferentes Estados e níveis acima
e abaixo do antigo lócus da soberania estatal; porém, a representação e a
lealdade - elementos fundamentais na identidade do ator soberano - permanecem
enraizadas nas instituições tradicionais do Estado. Muito da substância da
soberania dos Estados membros da União Européia foi esvaído, mas o sentido de
solidariedade, o foco da representação política e a prestação de contas em
nível nacional ainda permanecem. Embora a soberania não tenha sido transferida
para uma federação européia que lembre um Estado, ela vem sendo congregada
entre governos, negociada em comitês multilaterais e, em algumas situações,
comprometida pela interferência mútua nos assuntos domésticos.
O objetivo do artigo é examinar por que, ao contrário do que afirma Wallace,
não existe paradoxo entre o desenvolvimento de estruturas de governança
multinível1 e a permanência do Estado soberano como fonte de representação e de
lealdade. Concebendo que a cessão de independência constitucional, a
modificação da igualdade soberana e o comprometimento da autonomia econômica
não se processaram de forma homogênea entre os Estados membros do processo de
integração europeu, busco explicar as diferenças entre tais processos de
partilha da soberania dos países membros da União Européia. Esse estudo será
conduzido a partir da análise dos distintos processos de constituição social
das identidades estatais com relação à ruptura da distinção entre assuntos
internos e externos, à interferência nos assuntos domésticos dos outros
Estados, à cessão de competências para instituições supranacionais e
subnacionais e à ampliação da transparência mútua.
Defendo que a soberania é um fato institucional ligado ao processo e baseado em
entendimentos intersubjetivos em vez de existir independentemente como um "fato
natural e bruto". Ela pode assumir diferentes níveis de sedimentação, de
maleabilidade e de partilha pela prática sociopolítica e conviver em múltiplas
formas com o desenvolvimento de estruturas de governança multinível,
preservando ou reforçando alguns de seus pressupostos mais tradicionais - como
a representação e a lealdade em certos casos, por exemplo - e renunciando
outros, como o exercício da autoridade suprema no nível doméstico e a
independência externa.
A partilha da soberania: os Estados da "Europa dos seis"
No pós-Segunda Guerra Mundial, a cooperação entre os Estados europeus
desenvolveu-se inicialmente como um prolongamento de alianças construídas
durante o conflito mundial. Pouco tempo após a criação da Organização Européia
de Cooperação Econômica em 1948, o Conselho da Europa viabilizou a ampliação da
cooperação entre tais Estados em diversas atividades políticas, técnicas,
sociais e econômicas, sendo que tal cooperação permanecia numa dinâmica de
colaboração entre Estados, sem a criação de instituições de caráter
supranacional (Fontaine, 2003). Porém, os Estados que compunham a "Europa dos
seis" - França, Alemanha Ocidental, Itália, Holanda, Bélgica e Luxemburgo -
começaram a dar passos além da cooperação estritamente intergovernamental num
processo gradativo de reconstrução de suas identidades: acirrando a integração
já existente em face da ausência de fronteiras naturais e da intensa atividade
socioeconômica, os governos desses Estados procuraram preservar a estabilidade
doméstica e garantir o bem-estar de suas populações, mas, simultaneamente, sua
autonomia vinha sendo gradativamente limitada por uma estrutura de instituições
internacionais. As atlânticas incorporavam as condições colocadas pelos EUA na
ajuda oferecida pelo Plano Marshall, enquanto as européias buscavam, por meio
da criação e do fortalecimento de normas e princípios comuns entre esses
Estados, conter um possível retorno de intenções hegemônicas por parte da
Alemanha Ocidental e, ao mesmo tempo, buscar maior liberdade de ação em face
dos EUA e evitar o avanço da área de influência da URSS.
Tal redefinição de identidades, que afetava os interesses estratégicos dos
atores envolvidos no processo, já se tornava evidente no período de criação das
comunidades européias durante a década de 1950. O ministro dos Negócios
Estrangeiros francês Robert Schuman propôs a criação de uma "Alta Autoridade",
sob a qual colocavam suas produções de carvão e de aço França e Alemanha
Ocidental, países outrora rivais que buscavam então redefinir os conhecimentos
compartilhados sobre seus papéis e suas expectativas sobre esses papéis. Tal
organização aberta aos outros países da Europa lançou as bases do processo de
integração europeu com a assinatura do Tratado de Paris de 1951. A Comunidade
Européia do Carvão e do Aço (Ceca) permitia que os membros da "Europa dos seis"
sujeitassem-se a órgãos supranacionais cujas competências se limitavam aos
domínios do carvão e do aço, mas que tinham nessas esferas a capacidade de
tomar decisões e de as impor aos seus membros. Um passo além foi dado nos
Tratados de Roma de 1957, que criaram a Comunidade Econômica Européia (CEE) e a
Comunidade Européia de Energia Atômica (Euratom). Enquanto a CEE constituía um
mercado comum e definia políticas comuns em áreas como agricultura e
transportes, a Euratom visava a contribuir para o desenvolvimento da indústria
nuclear européia e garantir que todos os Estados-membro se beneficiassem do
desenvolvimento da energia atômica, além da manutenção da segurança no
continente europeu (Fontaine, 2003). Tais transformações nas formas
institucionais de ação coletiva apontaram para a internalização gradativa de
novos princípios e normas de funcionamento do sistema pela prática desses
Estados, que conduziam a uma maior transparência mútua e reforçavam a
interferência nos assuntos domésticos dos membros.
O conhecimento compartilhado das intenções pacíficas entre os seis Estados
transforma as expectativas de papéis ligados à rivalidade, e uma identidade
ligada à amizade começa a ser internalizada. Tal processo mudou o significado
do poder militar e os interesses político-econômicos e de segurança nacional,
de forma que tais Estados passam a agir com base no auxílio mútuo e na
reciprocidade generalizada. A oferta da França à Alemanha Ocidental de colocar
em comum as produções de carvão e de aço acabou transcendendo a simples
finalidade técnica ou a satisfação dos objetivos políticos no contexto
estratégico em questão: mais do que simplesmente organizar a produção do carvão
e do aço, reduzir a dependência em relação aos EUA ou se opor ao avanço da URSS
(Camargo, 2004, p.77), a integração entre os seis países apontava para a
criação de uma ordem européia que redefinia a identidade desses Estados
limitando sua autoridade suprema no nível doméstico e sua independência externa
em uma série de áreas temáticas. Tal ordem levava à aceitação da reabilitação
alemã pelos seus vizinhos por meio da incorporação da Alemanha Ocidental nas
novas comunidades (Wallace, 1999). Gradativamente, a Alemanha Ocidental e os
outros cinco países reconceituavam e transformavam expectativas, preferências e
identidades (Olsen, 2000, p.2), criando instituições cada vez mais robustas em
relação a alterações no sistema internacional e pautadas em valores comuns,
como a preservação da democracia, do livre mercado e dos direitos humanos.
Embora todos os seis países tivessem compartilhado competências com
instituições européias e as semelhanças quanto ao reconhecimento das intenções
pacíficas de seus vizinhos fossem claras, houve, entre eles, diferenças quanto
ao nível em que a cessão de independência constitucional e o comprometimento da
autonomia política foram desenvolvidos. Enquanto a CEE fortalecia-se na
dimensão econômico-comercial marcada pelo relativo consenso entre os seis, a
Euratom não pôde fortalecer muitas de suas funções devido à política nuclear
francesa desenvolvida por De Gaulle. Além disso, uma tentativa de "federalismo
parcial" pós-Tratado de Paris foi a Comunidade Européia de Defesa em 1954, que
estabeleceria um exército europeu sob a autoridade de um ministro de Defesa
europeu e composto por contingentes oferecidos pelos membros, mas tal
iniciativa não foi aprovada pela Assembléia Nacional Francesa pela orientação
federalista da comunidade proposta (Camargo, 2004, p.77-79).
A França demonstrou maior resistência à cessão de soberania sobre determinadas
áreas, como segurança e política externa, particularmente à partilha de
soberania com instituições sobre as quais não pudesse exercer controle. As
instituições políticas francesas - marcadas por práticas voltadas para a
preservação da autonomia na condução de assuntos de determinadas políticas
públicas, como a política externa - reforçaram a intransigência soberana do
Estado sobre essas políticas, trazendo questionamentos aos princípios
fundamentais da construção européia e motivando crises no avanço do
supranacionalismo. No episódio da Crise da Cadeira Vazia em 1965, a França
opôs-se a propostas da Comissão relativas ao financiamento da política agrícola
comum e, por isso, deixou de participar nas reuniões do Conselho. A solução foi
estabelecida pelo Compromisso de Luxemburgo de 1966, que estabelecia que,
sempre que estivessem em jogo interesses muito importantes de um ou mais
países, os membros do Conselho procurariam desenvolver saídas adotadas por
todos, respeitando interesses mútuos. Tal Compromisso impôs unanimidade ao
processo de formulação da decisão no Conselho, mas, ao final, acabou permitindo
a criação de um núcleo de legislação (Fontaine, 2003; Tsebelis & Garrett,
2001, p.382-383) que fortaleceria a capacidade do bloco de desenvolver
respostas aos desafios das crises mundiais.
Apesar de a década de 1970 ter representado um momento de "euroesclerose" na
visão de muitos autores em face dos obstáculos trazidos pelas crises do dólar e
do petróleo, houve avanços consideráveis como a afirmação do papel das reuniões
dos chefes de Estado e de governo, que conduziu à realização dos Conselhos
Europeus; a eleição do Parlamento Europeu por sufrágio direto e universal; e a
instauração do Sistema Monetário Europeu (Fontaine, 2003). A economia e a
sociedade européias transformavam-se, num momento em que companhias
transnacionais operavam nos territórios dos membros do processo de integração
atravessando as fronteiras nacionais. As novas tecnologias e o avanço nas
telecomunicações permitiam maior integração do espaço socioeconômico europeu,
revelando a porosidade das fronteiras européias num mundo cada vez mais
globalizado (Wallace, 2003). Mais do que fortalecerem a interação a fim de
gerenciar e criar condições para o desenvolvimento de atividades ligadas a
esses processos, os países membros das Comunidades Européias inseriram-se num
processo de aprendizado que construía uma nova concepção de suas próprias
soberanias: a não-intervenção e a autoridade suprema no nível doméstico eram
princípios flexibilizados, e a autoridade do Estado convivia, particularmente
na dimensão socioeconômica, com novos níveis de governança supranacional e
subnacional, o que explicitava a necessidade de princípios, normas e
entendimentos mútuos que transcendessem a rigidez da ordem vestfaliana
tradicional.
Nesse processo, consolida-se, por exemplo, o descentralismo, entendido como o
favorecimento normativo da autonomia e da competência de unidades alternativas
ao Estado e o seu envolvimento num processo mais central de formulação da
decisão. Os discursos normativos sobre o arcabouço institucional europeu deram
atenção aos descentralismos vertical - que remete a processos referentes aos
atores e aos níveis de decisão territoriais, desde o nível subnacional até o
supranacional - e horizontal - que se refere a processos relacionados aos
atores e ao nível funcional, como organizações da sociedade civil (Smismans,
2004, p.1). Várias das iniciativas que caminham na direção de maior
descentralismo vertical e horizontal foram já adotadas no Ato Único Europeu de
1986, que não só propôs reformas destinadas a facilitar a harmonização das
legislações dos países membros do processo de integração e ampliou o recurso à
votação por maioria qualificada num maior número de casos, mas permitiu o
reforço do papel do Parlamento Europeu (Fontaine, 2003).
No Tratado de Maastricht de 1992, a estrutura em três pilares - comunidades já
existentes sob o método comunitário, com o exercício comum das soberanias
nacionais; Política Externa e de Segurança Comum (PESC) e cooperação nos
domínios da justiça e dos assuntos internos - permitiu avançar ainda mais na
flexibilização da concepção vestfaliana da soberania desses países membros. No
domínio comunitário, foi possível flexibilizar o controle unilateral dos
Estados sobre os instrumentos de sua política econômica e monetária com a União
Econômica e Monetária. A instituição da cidadania européia sinalizava que o
cidadão europeu poderia circular livremente, trabalhar e residir em toda a
União, bem como eleger e ser eleito nas eleições para o Parlamento no Estado-
membro em que reside, fortalecendo-se meios de participação política além da
esfera nacional. Na dimensão institucional, o princípio da subsidiariedade no
controle do exercício das competências ressaltou que as instituições européias
só interviriam quando uma ação comum fosse mais eficaz do que uma ação em nível
nacional ou local, e o papel do Parlamento Europeu foi fortalecido ainda mais
com o procedimento de co-decisão e a participação na nomeação da Comissão
Européia. O Tratado de Amsterdã de 1997 não apenas reforçou os poderes do
Parlamento pela extensão da co-decisão e dos poderes de controle, como o método
comunitário passou a ser aplicado a domínios abarcados no terceiro pilar, como
asilo e imigração (Fontaine, 2003).
Tal partilha crescente de soberania pelos Estados membros do processo de
integração tornou-se ainda mais evidente no desenvolvimento e na consolidação
de políticas regionais e sociais do bloco, como as de transferências do
orçamento comunitário para áreas mais desfavorecidas; os instrumentos de apoio
aos países candidatos; a geração de emprego e a Política Agrícola Comum. A
convivência da soberania estatal com outras estruturas de governança
desenvolve-se no contexto da consolidação do mercado único, particularmente com
a abertura das fronteiras por meio do Acordo de Schengen de 1985, que
viabilizou a livre circulação de pessoas, mercadorias e serviços a partir da
eliminação dos controles nas fronteiras internas, num esforço de construção de
um espaço social e econômico mais amplo (Fontaine, 2003).
Porém, o desenvolvimento e a consolidação de estruturas de governança em nível
subnacional e supranacional nessas iniciativas em cujo centro estavam os
membros que compuseram o início do processo de integração não sinalizam a
irrelevância do Estado, mas uma flexibilização de suas prerrogativas soberanas
tradicionais. Ao contrário do que afirma Wallace, as próprias representação e
lealdade já não se mostram tão enraizadas no Estado-nação, pois as identidades
locais, nacionais e européias dos indivíduos podem estar aninhadas, cruzadas ou
modeladas como um "bolo marmorizado" de diferentes formas (Risse, 2003, p.3-7).
As identidades locais ou européias podem ser aquelas mais aninhadas do que as
nacionais. Porém, isso não significa que, para tais indivíduos, o Estado seja
pouco importante ou que seus vínculos com essa autoridade sejam totalmente
rompidos em face de novas lealdades que assumem. Passando do nível individual
ao do relacionamento intersubjetivo entre os Estados, esses países constroem
suas identidades mútuas reforçando sua ação em algumas áreas fundamentais, como
taxação, provisão de bem-estar social, defesa e política externa (Moravcsik,
2001, p.164).
Em várias dessas áreas, o escopo substantivo e as prerrogativas institucionais
da União Européia foram desenhados de forma a ser preservada a limitação de sua
ação: estabeleceram-se regras de decisão por supramaioria, reduziu-se a atuação
de mecanismos administrativos europeus e criam-se provisões estritas para
subsidiariedade. A capacidade fiscal da União é insignificante, tendo em vista
que a maior parte dos fundos públicos ainda são nacionais ou locais, e faltam a
ela poder coercitivo e capacidade administrativa para resolver disputas entre
níveis de governo e garantir o cumprimento das leis. Nessas esferas, a maior
parte das políticas é implementada pelos governos nacionais e subnacionais, e o
controle intergovernamental clássico é preservado (Moravcsik, 2001, p.169-175).
Mantendo seu controle sobre áreas estratégicas fundamentais como a taxação e a
defesa, os Estados europeus - em especial os Estados que iniciaram a integração
- consolidam seus papéis intersubjetivamente como entidades auto-organizáveis
cujas estruturas internas conferem capacidades para ação coletiva
institucionalizada (Wendt, 1999).
A partilha da soberania: os Estados que aderiram à União Européia de 1973 a
1995
As formas estatais diferenciadas são resultados de processos distintos de
construção social. Essa diversidade de formas pode refletir diferentes
entendimentos sobre o próprio conceito de soberania, particularmente sobre seus
distintos níveis de sedimentação, de maleabilidade e de partilha: Estados mais
ou menos orientados a partilhar parte de sua soberania são construídos a partir
da prática sociopolítica. Nesse sentido, ao passo que determinados países como
os da "Europa dos seis" abriram mão de grande parte de sua autonomia sobre
determinadas áreas para instituições européias, outros Estados-membro da União
Européia foram mais resistentes a tal perda de autoridade doméstica e de
independência externa.
Dentre alguns dos principais fatores que explicam tal resistência, podem-se
indicar os receios das conseqüências distributivas de tal partilha de soberania
em nível interno - já que os acordos e as instituições criados em nível europeu
podem prejudicar grupos que apóiam as lideranças que estão no poder desses
Estados - e a perda de controle unilateral sobre instrumentos políticos, o que
acaba fazendo com que se limitem a liberdade de ação e a flexibilidade para
responder a desafios domésticos e internacionais. Transcendendo esses fatores,
alguns Estados europeus demonstram um interesse ainda maior na preservação da
estabilidade de suas identidades nacionais, de forma a perpetuarem
entendimentos e expectativas sobre seus papéis na relação com os seus vizinhos
e as instituições subnacionais e européias. A conservação de alianças especiais
com atores externos ao bloco - que se mostram fundamentais na construção e no
fortalecimento dos papéis internacionais do Estado - e de identidades mais
intensamente enraizadas que podem ser ameaçadas pelo processo de integração
europeu faz com que alguns Estados europeus construam intersubjetivamente uma
concepção menos maleável de soberania, revelando maior resistência a partilhá-
la.
Os Estados que aderiram ao bloco de 1973 a 1995 exemplificam a maior
resistência à perda de autonomia constitucional e de independência externa para
as instituições do processo de integração europeu. O Reino Unido, que se tornou
membro do processo de integração europeu em 1973, não participou no protocolo
social à época do Tratado de Maastricht em 1992 e, como a Dinamarca, reservou-
se o direito de não passar aos estágios finais da União Econômica e Monetária,
com a adoção do euro (Fontaine, 2003). Além disso, resistiu ao fortalecimento
de uma política externa comum, opondo-se à criação do cargo de ministro das
Relações Exteriores do bloco. Tal postura ficou muito visível nos debates
acerca da revisão do Tratado Constitucional Europeu em 2007, procurando deixar
absolutamente claro que as normas sobre direitos fundamentais não teriam
jurisdição nas cortes britânicas nem poderiam alterar a legislação do país. O
então primeiro-ministro Tony Blair defendia a manutenção do controle nacional
sobre as principais capacidades de defesa - como as armas nucleares britânicas
- e sobre política externa, justiça e assuntos internos.
Tais ações do Reino Unido impedem que, muitas vezes, a Europa possa falar em
voz única diante de desafios do sistema internacional, como durante a Guerra no
Iraque de 2003: enquanto França, Bélgica e Alemanha foram contra a ação dos
EUA, o Reino Unido - acompanhado de Dinamarca, República Tcheca, Hungria,
Itália, Polônia, Portugal e Espanha - apoiaram a intervenção norte-americana
(Niblett, 2005). A resposta britânica foi resultado não de uma coordenação
efetiva com seus aliados europeus, mas de uma iniciativa determinada em nível
nacional, numa cooperação efetiva com os EUA (Scharpf, 2003). Nesse sentido, os
interesses particulares do Reino Unido e sua aliança com uma grande potência
externa à região minam uma ação européia coesa diante desse desafio, refletindo
o fortalecimento da relação anglo-americana de amizade e cooperação política
(Camargo, 2004).
A aproximação com os EUA e o compartilhamento de interesses no combate a
ameaças como o terrorismo e os Estados-pária são fundamentais na preservação da
identidade britânica de grande potência no mundo contemporâneo. A partir do
fortalecimento da interação e da relação de amizade com uma potência que fez do
globo terrestre o espaço político de exercício de seu poder, o Reino Unido
constitui sua identidade como um Estado capaz de projetar interesses e ações
político-militares em nível global - não apenas em nível bilateral ou regional
-, afetando os cálculos estratégicos de outros atores no sistema internacional
ao se aliar a tal grande potência. Essa aliança dá-se não apenas na realização
de esforços político-militares conjuntos, mas na coordenação de posições em
fóruns euroatlânticos e universais. Particularmente na dimensão militar, os EUA
até aceitam que, em ações militares nas quais não pretendam intervir, a Europa
possa utilizar certos meios logísticos da OTAN, por exemplo, capacidades de
informação, comunicação, comando e transportes; porém, têm sido historicamente
céticos quanto a iniciativas que desassociem a União Européia da estrutura da
OTAN e contam com a sua relação especial com o Reino Unido para evitar tal
dissociação (Algieri, 2007).
Porém, para se entender tal construção da identidade social britânica, é
preciso primeiramente observar o nível individual: a identidade das elites
britânicas desenvolveu-se com base num relativo afastamento da política
continental, sendo que se envolviam nas alianças e nas instituições
continentais apenas com o objetivo de impedir que o equilíbrio europeu pudesse
ser alterado e, com isso, desenvolvessem-se ameaças ao próprio país. Além
disso, após as guerras mundiais, tais elites ampliaram sua relação com as
norte-americanas, particularmente em face da necessidade de conservação da
posição do Reino Unido como grande potência aliada aos EUA no contexto da
Guerra Fria e, posteriormente, no enfrentamento de novos desafios
internacionais ao longo das décadas de 1990 e 2000, como o terrorismo e os
Estados-pária. No âmbito regional e mundial, o Reino Unido, preservando sua
relação especial com os EUA, resistiu a iniciativas de aprofundamento das
instituições européias que limitassem sua flexibilidade e capacidade de
associação a atores externos ao bloco e que viabilizassem a consolidação de
instituições européias em cuja criação não estava presente e que, a seu ver,
refletem interesses nacionais primordialmente franceses.
O Reino Unido evitou mecanismos europeus excessivamente intrusivos nos seus
assuntos de política externa, militar e comercial, que comprometessem sua
liberdade de ação. Os britânicos podem agir sozinhos com base no princípio da
subsidiariedade para desencorajar o aprofundamento da União Européia em algumas
áreas, buscar alternativas fora da estrutura do bloco em áreas de competência
mista, estabelecer exceções e utilizar provisões que ampliem sua flexibilidade,
como a cooperação reforçada, a partir da qual grupos de países podem avançar
com uma ação em que os restantes não quisessem tomar parte, recorrendo às
instituições comuns para estabelecer a cooperação (Moravcsik, 2001, p.169-175;
Fontaine, 2003). Como muitas leis européias dependem do voto da maioria e o
poder de voto de um país é baseado na sua população, o Reino Unido tem assumido
a posição de "alargador" ("widener"), apoiando a adesão de novos membros como a
Turquia - que em alguns anos será a nação mais populosa da União. Com isso, tem
não apenas o objetivo de expandir ganhos político-econômicos em vista da
complementaridade econômica com a Turquia, das taxas de crescimento econômico
turco e da presença de empresas britânicas no país, mas de estrategicamente
afetar a preeminência da França em várias instituições da União Européia. De
forma compatível com os princípios que regem sua aliança com os EUA, o Reino
Unido também percebe a importância da Turquia na facilitação do diálogo dos
países ocidentais com o Oriente Médio e na limitação da migração oriunda dos
países fronteiriços do bloco (Rachman, 2006).
Nos países da Europa Setentrional que aderiram à União Européia -
particularmente a Dinamarca, que aderiu ao processo de integração em 1973, e a
Finlândia e a Suécia, que aderiram em 1995 - e da Áustria - que entra em 1995
-, a resistência à cessão de autonomia para as instituições européias deve-se
principalmente ao desejo de proteção de suas identidades como Estados de bem-
estar social. Em face de opções de maior desregulação, privatização e corte de
impostos - aceitáveis na visão da União Européia -, a capacidade dos governos
nacionais de influenciar os cursos das suas economias - particularmente
crescimento e nível de emprego - e definir suas ordens sociais é reduzida.
Embora seja necessário combinar políticas de criação e de liberalização dos
mercados europeus para bens, serviços e capital com a harmonização européia das
regulações sociais de correção de mercado, a promessa de dimensão social mais
efetiva na União Européia não pôde ser preenchida com a estrutura institucional
presente, que requer altos níveis de consenso, e os membros discordam sobre a
escolha de soluções comuns (Scharpf, 2003).
Na esfera individual, os cidadãos desses Estados construíram suas identidades
após a Segunda Guerra Mundial baseando suas vidas na consolidação de sistemas
de proteção e de taxação social, e quaisquer tentativas de substituí-los por
soluções européias podem mobilizar grande oposição, tendo em vista a melhoria
substancial da qualidade de vida que tais cidadãos conquistaram com tais
sistemas de orientação social-democrata (Scharpf, 2003). Como lembra Anderson
(1996), a social-democracia surgiu na Europa onde houve uma classe trabalhadora
numerosa, agricultores aliados ao operariado, uma maior participação de massas,
sindicatos mais fortes e o rápido aumento do eleitorado. Ela se torna força
regular após a II Guerra Mundial com a construção do "welfare state", com pleno
emprego e serviços sociais, que motivaram a identificação popular. No início da
década de 1970, pela primeira vez no pós-guerra, os primeiros ministros da
Áustria, Dinamarca, Finlândia e Suécia eram social-democratas.
Porém, ao mesmo tempo em que o auge político era alcançado, as condições
econômicas que permitiram esse sucesso entravam em declínio: os índices de
crescimento caíam, e a inflação e o desemprego aumentavam. Nessa nova
conjuntura, a social-democracia foi associada à própria crise, tendo em vista
que o ressurgimento do monetarismo sinalizou os gastos estatais excessivos e os
sindicatos superpoderosos como a causa básica da estagflação. Nos anos 80, o
resultado foi o revigoramento dos partidos de direita, no poder em toda a
região. Além disso, a social-democracia, que se orientara no passado para a
superação do capitalismo e depois para reformas parciais em direção ao
socialismo, tinha perdido o rumo contentando-se com o Estado de bem-estar
social dentro do capitalismo. Dentre as razões para o enfraquecimento das
instâncias coletivas que abalou a social-democracia, é possível citar a
fragmentação dos partidos de esquerda em diferentes eixos de diferenciação e,
principalmente, o agravamento das restrições que reduzem o espaço objetivo para
as políticas tradicionais da social-democracia: as principais conquistas
social-democratas - o pleno emprego, os sistemas de previdência e as políticas
monetária e fiscal para administrar a economia capitalista de modo a produzir
esses resultados - foram enfraquecidas nos anos 80 em face da
internacionalização de capitais e da desregulamentação dos mercados financeiros
(Anderson, 1996).
Nos Estados da Europa Setentrional principalmente, os elementos responsáveis
pelo êxito da social-democracia no pós-guerra - serviços sociais, extensão
universal da educação, economia mista, democracia parlamentar sustentada por
partidos de massa - permaneceram em declínio durante as décadas de 1990 e de
2000. A onda de privatizações atingiu seu ápice, enquanto a autoridade dos
parlamentos nacionais se enfraqueceu, e a participação do eleitor diminuiu.
(Anderson, 1996). Num momento em que o liberalismo avança estimulado pelo
processo de integração europeu, as populações de tais países de grande tradição
na proteção do bem-estar social receiam que seus governos, ao assumirem
compromissos cada vez mais densos no âmbito da União Européia, admitam cada vez
mais a diminuição do bem-estar e desistam do pleno emprego. Em face das
pressões no nível doméstico, tais Estados não apenas resistem à maior partilha
de soberania com as instituições européias, mas procuram reforçar nas
instituições estatais tradicionais a fonte central de representação e de
lealdade, preservando pelo menos os principais traços de suas identidades como
Estados de bem-estar social. Conservando-se na sua relação intersubjetiva com
os vizinhos e com as instituições do bloco como os responsáveis pela manutenção
da ordem - o que envolve o atendimento às necessidades de sua população - e
pela proteção da integridade dessas condições em relação a outros Estados e
organizações internacionais, eles procuram aproveitar os benefícios das
reformas liberalizantes incentivadas pela União Européia, mas, ao mesmo tempo,
evitar que essas reformas minem completamente sua capacidade de influenciar
crescimento e nível de emprego.
Já os países que aderiram ao processo na década de 1980 - Grécia em 1981 e
Portugal e Espanha em 1986 - passaram por profundas dificuldades econômicas ao
longo das décadas anteriores à adesão e tinham, até bem pouco tempo antes de
sua entrada no processo, governos autoritários: a Espanha foi liderada pela
ditadura franquista até 1975, e Portugal e Grécia foram administrados por
governos militares até 1974. Com o quadro de crise econômica agravante e de
instituições democráticas ainda pouco consolidadas pós-1975, a adesão desses
países às comunidades européias foi bastante controversa, tendo em vista que,
até então, tais comunidades eram compostas predominantemente por países
industrializados e de economias dinâmicas, ao passo que os então candidatos
eram bem mais pobres, com economias voltadas principalmente para a atividade
agrícola. Nesse sentido, o processo de integração europeu precisou ser
redefinido a fim de criar programas estruturais como os Programas Integrados
Mediterrânicos, que fossem destinados a reduzir as disparidades de
desenvolvimento econômico, elevando as condições de vida das regiões mais
pobres às médias européias (Fontaine, 2003). Ademais, o desenvolvimento desses
países era visto como necessário para a consolidação de democracias estáveis.
Ao longo das duas últimas décadas, tais Estados participaram de inúmeros
projetos europeus importantes, tendo particularmente como exemplo a
participação de Portugal e Espanha na criação do euro em 1998. Suas identidades
como Estados europeus eram reforçadas pela sua cooperação crescente com as
instituições européias em face dos grandes incentivos oferecidos pela União
Européia com os planos de auxílio a tais economias, que tornaram elites e
cidadãos nos três Estados mais favoráveis ao aprofundamento da integração,
desde que tal integração permitisse a continuidade dos fluxos de capital e a
ampliação dos investimentos em setores como energia, transportes e
comunicações. Apesar da melhoria econômica substancial promovida pelos
programas estruturais e da consolidação de valores democráticos, tais Estados
ainda estão bem longe de atingir os padrões dos países mais ricos do
continente, consolidando suas identidades como Estados de nível inferior de
desenvolvimento dentro do bloco.
Porém, em face do orçamento limitado da União Européia hoje, tais países temem
a redução de benefícios e de subsídios comunitários diante da necessidade de
políticas de nivelamento e de distribuição de recursos para novos membros de
nível ainda menor de crescimento econômico. Nesse sentido, setores dessas
populações têm cada vez mais pressionado seus governos para que não cedam
autonomia para instituições de um bloco que ameaça favorecer cada vez mais
novos membros com programas estruturais, limitando as transferências feitas a
esses três países. Embora as vantagens da integração tenham sido bem mais
claras para Portugal, Espanha e Grécia do que para o Reino Unido ou os países
nórdicos, os três Estados que aderiram na década de 1980, receosos quanto à
limitação da ajuda que receberam ao longo dessas décadas, procuram hoje
reforçar suas instituições tradicionais de representação e de lealdade e
explorar oportunidades externas ao bloco na busca de maior projeção econômica e
política no nível internacional. Um exemplo foi o apoio de Portugal e Espanha à
ação norte-americana no Iraque na tentativa de fortalecer a cooperação com a
superpotência e explorar alternativas de cooperação fora da União Européia. Tal
mudança aponta para uma busca maior de flexibilidade e de autonomia, que se
reflete numa identidade cada vez mais resistente à partilha de soberania com as
instituições européias se os ganhos obtidos no passado não forem mantidos.
A partilha da soberania: os Estados da Europa Central e Oriental
No Conselho Europeu de Copenhagen de 1993, quando se estabeleceu que os países
associados da Europa Central e Oriental poderiam tornar-se membros da União
Européia, definiu-se também uma série de critérios de adesão que eles deveriam
cumprir, como a criação de instituições estáveis que permitissem garantir a
democracia e os direitos humanos, o desenvolvimento da economia de mercado e da
capacidade para enfrentar a pressão concorrencial dentro do bloco e a adoção do
corpo legislativo que compõe o acervo comunitário da União Européia (Fontaine,
2003). Em maio de 2004, Chipre, Malta, República Tcheca, Eslováquia, Estônia,
Letônia, Lituânia, Hungria, Polônia e Eslovênia aderiram ao bloco após cumprir
tais condições, e, em janeiro de 2007, Romênia e Bulgária também entraram no
bloco após enfrentarem inúmeros obstáculos. A Bulgária teve de mostrar
resultados na luta contra a corrupção e o crime organizado, enquanto a Romênia
precisou comprovar avanços em matéria de segurança alimentar e de gestão dos
fundos agrícolas europeus.
Os Estados do Leste Europeu iniciaram, desde o fim da Guerra Fria, um processo
de redefinição de suas identidades e de suas próprias soberanias da era
comunista - cuja autonomia era restrita pelo controle soviético - ao
expressarem sua determinação em aderir voluntariamente às instituições
européias que limitam sua soberania e incorporarem valores democráticos e
liberais (Wallace, 1999, p.504-506). Embora tais países venham avançando
bastante na partilha de soberania com as instituições européias, as estruturas
de governança multinível ainda têm ação reduzida na área, e a lealdade e a
representação ainda permanecem enraizadas nos Estados-nação. Os interesses
desses Estados claramente se redefiniram para uma ação mais cooperativa com os
países da Europa Ocidental, particularmente em face das perspectivas de sucesso
econômico com a adesão ao bloco, mas suas identidades ainda não foram
plenamente redefinidas: eles não apenas não incorporaram completamente a
característica intrusiva da governança européia e a interpenetração mútua das
políticas domésticas, como não renunciaram seus papéis de principais
definidores da representação de suas populações, particularmente com a
conquista de autonomia em relação à liderança soviética e a necessidade de
afirmação de sua relevância na promoção de segurança e de bem-estar de seus
cidadãos. Embora cedam autonomia de ação em determinadas áreas como a interação
econômica, eles reforçam suas ações em outras, como a política externa e a
taxação.
Os Estados do Leste Europeu permanecem como uma periferia dentro do bloco,
tendo em vista que ainda têm um baixo nível de desenvolvimento econômico em
relação aos países da Europa Ocidental e que suas instituições políticas são
bastante heterogêneas em relação aos standards da parte ocidental do
continente. Dentre os entraves centrais na redefinição de suas identidades e na
adoção de valores voltados para uma maior partilha de soberania, cumpre
destacar primeiramente a ausência de uma tradição federal. Tal falta torna mais
difícil a transposição das regras comunitárias à legislação nacional, ou seja,
a adoção de um acervo comunitário em cuja constituição tais Estados não estavam
presentes e em cuja base estão valores democráticos que nem sempre compuseram a
história desses países. Além disso, a herança da era comunista manifesta-se num
momento em que as dificuldades na construção de uma sociedade civil
participativa e de instituições democráticas tornam-se cada vez mais visíveis
e, com isso, geram-se obstáculos na aceitação do acervo comunitário e na perda
da autonomia constitucional para as instituições européias (Camargo, 2004;
Menéndez, 2003, p.618-622).
Em tais países, setores das elites e muitos cidadãos permanecem desconfiados em
relação aos reais benefícios do processo de integração. Várias elites
consolidaram-se no poder durante a era comunista e aproveitaram-se das
instituições existentes na perpetuação de seu poder no nível doméstico; por
isso, resistem às transformações trazidas pela adesão à União Européia e à
incorporação de novos valores pelas populações, como a liberdade de expressão e
de participação política, que levam à maior conscientização social e ao
questionamento de seu poder. Além disso, nos países do Leste, a mão-de-obra é
barata e, em geral, qualificada (Ramón & Menéndez, 2003, p.621), mas, mesmo
motivada com expectativas de melhores empregos e salários na Europa Ocidental,
vem se deparando com obstáculos como a resistência de governos e cidadãos à sua
chegada, o que, no nível estatal, reflete-se em tentativas de países da Europa
Ocidental de impor, em defesa de seus próprios cidadãos, restrições à entrada
de trabalhadores. Ademais, como o alargamento para o Leste tem impacto na
capacidade da União Européia de adotar novas políticas e altera a distribuição
de poder nas instituições européias, determinados países como a França
inseriram obstáculos à maior participação desses países nessas instituições.
Tendo tais elementos em vista, a resistência à construção de uma identidade
mais compatível com os valores da União Européia vem sendo ampliada, o que se
reflete, no nível estatal, no reforço desses Estados como fonte de
representação e de lealdade e numa maior resistência à cessão de competências
às instituições supranacionais e às entidades subnacionais.
No caso da participação desses últimos atores no processo político, o impacto
da União Européia em países como a República Tcheca, por exemplo, foi limitado
e ambivalente: a União Européia requer a criação de estruturas regionalizadas
para a administração dos programas de desenvolvimento regional, como os
conselhos regionais e os comitês de desenvolvimento regional, necessários para
que atores regionais e subnacionais possam se envolver na administração dos
programas de fundos estruturais; porém, a natureza tecnocrática do processo de
adesão e as exigências da Comissão por eficiência na preparação para a adesão e
a implementação dos programas da União tiveram um efeito contrário, reforçando
preferências centralizadoras de autoridades governamentais nacionais e minando
o apoio da Comissão à descentralização e à parceria (Marek & Baun, 2002,
p.895, 913-914). Nesse sentido, a representação e o exercício da autoridade
para a implementação dos programas do bloco continuam centralizados no Estado-
nação.
Na Europa Central e Oriental, o nível subnacional de governo foi negligenciado
após o colapso do comunismo, de forma que os países dessa região precisaram
criar ou reconstruir instituições subnacionais para cumprir os pré-requisitos
de adesão, procurando ampliar sua abertura à influência da União Européia.
Enquanto promove as regras de autogoverno e descentralização regional, o bloco
também enfatiza a realização rápida da preparação para a adesão e o uso
eficiente dos recursos europeus, assim criando incentivos para a centralização
e o fortalecimento das autoridades nacionais governamentais em face dos atores
e dos interesses subnacionais. Ao passo que governos e demais atores
subnacionais ainda têm um longo caminho a percorrer antes de adquirir a
legitimidade e o apoio populares que permitiriam a eles tornar-se pontos
centrais para a mobilização política, a experiência dos países dessa região com
os programas de ajuda pré-adesão sinaliza a determinação do governo central em
exercer o papel de leão-de-chácara e minimizar o impacto descentralizador da
política regional da União Européia (Marek & Baun, 2002, p.896-897, 914-
915).
Numa perspectiva geral, permanecem evidentes as diferenças quanto à
estruturação da economia e ao nível de salários pagos e de padrões de vida da
população entre o leste e o oeste da Europa, sendo que os países do leste
levarão tempo considerável para atingir os patamares da Europa ocidental.
Existem também obstáculos técnicos e constitucionais para adoção do acervo
comunitário europeu pelos novos membros, mas desafios ainda maiores são
colocados pela falta de uma infra-estrutura institucional eficiente e de
cultura legal. A corrupção e o legado de interferência política no sistema
legal persistem em grande parte dos Estados candidatos. A legislação européia
muitas vezes é incorporada sem que haja consideração dos hábitos, tradições e
recursos locais. Embora todos os países da região devam cumprir o requerimento
democrático básico dos critérios de Copenhagen, a confiança nas instituições
democráticas criadas ainda permanece baixa. Apesar de o tratamento conferido às
diferenças culturais esteja longe de uma aceitação plena da diversidade na sua
dimensão de riqueza na própria Europa Ocidental, as minorias culturais são
vistas, em diversos países do Leste Europeu, como marginais ou ilegítimas
(Zielonka, 2001, p.511-515). Cumpre lembrar que a partilha de valores europeus
- dentre eles, a flexibilização da idéia de autoridade suprema doméstica e de
independência externa - não é instantânea e que tais países ainda estão num
estágio bastante inicial de redefinição de suas identidades; porém, até o
presente momento, os obstáculos apresentados têm feito com que tal redefinição
torne-se, no mínimo, cada vez mais lenta.
Considerações finais
Zielonka (2001) questiona a habilidade da União Européia de adquirir um dos
atributos mais fundamentais de um tipo de Estado vestfaliano: uma fronteira
externa relativamente cristalizada e rígida, conforme vislumbrada pelo projeto
do mercado único e pelo regime de Schengen. Nesse sentido, para o autor
(Zielonka, 2001, p.507-509), a União Européia alargada lembraria bem mais um
império neomedieval - caracterizado principalmente sobreposição de autoridades,
soberania dividida, arranjos institucionais diversificados e identidades
múltiplas - que um Estado neovestfaliano com implicações práticas e conceituais
sérias, cujas principais características são a concentração de poder, a
hierarquia, a soberania e a identidade bem definida dentro das fronteiras do
Estado.
Porém, a "solução neomedieval" trazida por Zielonka (2001) é insuficiente para
lidar com a complexidade do processo de integração ou para apontar para a
superação do paradoxo indicado por Wallace (1999). A concepção de Zielonka do
termo "medieval" apresenta inadequações: embora o sistema europeu contemporâneo
seja marcado pela ausência de fronteiras claras e tenha arranjos flexíveis, as
propostas confederalistas e federalistas atualmente em curso - que buscam a
conciliação de níveis distintos e tipos complexos de partilha de soberania -
não apresentam necessariamente características como uma adesão mais fluida ou o
desenvolvimento de estruturas concêntricas funcionais de cooperação. Apesar de
parecer até mesmo ingênuo o uso do termo por Zielonka (2001), o autor têm o
mérito de apontar custos e desafios do processo de integração europeu,
relevantes para o argumento aqui desenvolvido: a democracia pode ter
dificuldade de funcionar em um sistema de arranjos de múltiplos níveis e
velocidades, além de que a lealdade e a identidade podem dificilmente se
desenvolver num sistema complexo de arranjos abertos. Num sistema sem
fronteiras evidentes, é também difícil vislumbrar a distribuição de bens
públicos numa forma organizada (Zielonka, 2001, p.527).
Para se entender a magnitude desses desafios, é preciso transcender a concepção
vestfaliana da soberania estatal como aponta Zielonka (2001), mas, em vez de se
assimilar a "solução neomedieval" proposta pelo autor, é possível solucionar o
paradoxo apontado por Wallace (1999) concebendo a soberania como um fato
institucional ligado ao processo e baseado em entendimentos intersubjetivos,
podendo assumir diferentes níveis de sedimentação, de maleabilidade e de
partilha pela prática sociopolítica distinta dos 27 países membros da União
Européia e conviver de formas diferenciadas com estruturas de governança
multinível no âmbito do processo de integração. Num contexto de autoridades
sobrepostas e de múltiplas identidades culturais, pode-se compreender como a
sobreposição dos diferentes níveis de governança e a representação e a lealdade
podem ser construídas de formas diversas, trazendo desafios múltiplos no
contexto dos três processos de partilha desenvolvidos.
Este artigo procurou chamar a atenção para os principais desníveis entre os
processos de partilha de soberania e os anseios nacionais nos países membros da
União Européia e inseriu tal discussão no contexto do desenvolvimento de
estruturas de governança multinível. Ao captarmos a complexidade desses
desníveis, é possível apreender por que os líderes dos governos podem desejar
transferir a formulação da decisão para o nível supranacional em graus
distintos de intensidade. Eles não apenas têm diferentes percepções sobre a
forma como os benefícios da perda do controle unilateral sobre instrumentos
políticos podem ultrapassar os custos, como também podem conceber de diferentes
formas os ganhos relacionados à transferência de responsabilidade por decisões
impopulares ou ao insulamento da formulação de decisão em relação às pressões
domésticas, por exemplo. Como apontam os teóricos da governança multinível, não
existe, portanto, consenso entre tais países sobre a cessão de independência
constitucional, a modificação da igualdade soberana e o comprometimento da
autonomia econômica (Marks et al., 1996). Tal política opera em múltiplos
níveis, de forma que a "europolítica" configura-se cada vez mais como um
resultado da tensão e da conciliação entre pressões supranacionais e
intergovernamentais distintas em cada país membro do processo de integração
europeu, e a alocação de competências entre os atores nacionais e os
supranacionais é cada vez mais diversificada em cada um dos membros da União
Européia.