Argentina, Brasil e Venezuela: as diferentes percepções sobre a construção do
Mercosul
Introdução
Atualmente, o Mercosul é objeto de debate de diversos estudiosos de Integração
Regional. A perspectiva de evolução para um mercado comum assinalada no Tratado
de Assunção não foi implementada. A entrada da Venezuela como membro pleno,
iniciada pela dimensão política, e ainda não concluída, também desperta
reflexões. Um elemento importante que limita seu aprofundamento e consolidação
diz respeito às percepções e expectativas diferentes que existem sobre o
Mercosul no interior de seus Estados-membro perpassando tanto os diplomatas,
burocratas de outras agências governamentais, acadêmicos e a sociedade em
geral.
Nos casos da Argentina e do Brasil, no decorrer da evolução do processo de
integração, foram se desenvolvendo percepções diferentes no interior dos
respectivos aparatos governamentais. No caso da Venezuela, com suas
especificidades como país amazônico, andino e caribenho, a opção recente por
entrar no Mercosul é baseada em uma dinâmica diferente em relação aos vizinhos
do sul.1
No que diz respeito a Argentina e Brasil, no início dos anos 90, quando é
assinado o Tratado de Assunção, suas políticas tanto econômicas quanto externas
experimentavam modificações importantes que tiveram impacto sobre o processo de
integração. Neste mesmo período, a política externa venezuelana orientava-se
mais para a região andina e o Caribe. As relações da Venezuela com os países do
Cone Sul limitavam-se acordos bilaterais de alcance parcial subscritos nos
marcos da Associação Latino-Americada de Integração - Aladi.
A chancelaria argentina é mais permeável pela política que o Itamaraty.
Historicamente, é muito exposta a pressões de outros setores da política. Os
principais atores formuladores e negociadores do processo de integração foram a
chancelaria e o Ministério de Economia. No interior de ambos coexistiram
perspectivas que tiveram influências sobre a evolução do bloco: no econômico
estruturaram-se uma corrente uma ortodoxa e outra heterodoxa, com diferentes
enfoques sobre a necessidade e a forma a ser assumida pelo Mercosul; no campo
da política, conviveram as visões liberal, pragmática e progressistas. O
comportamento do país durante o processo foi marcado também por diferentes
interpretações sobre o papel que Brasil deveria jogar no arco de suas relações
exteriores
O Itamaraty, por seu turno, é uma corporação forte que historicamente concentra
o processo de formulação da política externa. A chegada de Collor de Mello à
presidência foi acompanhada de uma crise de paradigma que pôs em xeque os
princípios do comportamento externo adotado até então, mas que não levou à
consolidação de um novo conjunto de princípios. Levou à divisão basicamente em
duas correntes de pensamento - autonomistas e institucionalistas pragmáticos -
que influenciaram sobre o avanço do processo de integração.2 No entanto, nos
primeiros anos do processo estruturou-se uma coalizão interna entre as duas
correntes que incluiu as duas correntes (LIMA, 2006). Setores mais favoráveis
ao aprofundamento institucional do bloco - os progressistas - virão a ter maior
peso somente durante o governo Lula, quando se rompe essa aliança.3
Igual que no caso argentino, a chancelaria venezuelana sempre foi muito
permeável à forma como se desenvolveu o sistema político do país a partir do
fim da ditadura, em 1958. Baseado no Pacto de Punto Fijo,4 o sistema político
venezuelano teve como fundamento a construção de uma aliança entre as elites
que buscou evitar os conflitos, controlar as demandas populares, atender a
estas últimas por meio de canais limitados e exercer um controle oligárquico
das organizações e canais estabelecidos (CARDOSO DA SILVA, 44). Este marco
político determinou em grande medida a política externa que, como parte do
sistema puntofijista, sustentou-se em uma aliança entre grupos sociais
heterogêneos que reconhecia a legitimidade dos interesses de seus membros e que
contava com um sistema de transações e compromissos entre eles. A ascensão ao
poder de Hugo Chávez, em 1999, significou mudanças radicais na política
venezuelana e na base da sua política exterior.
O objetivo deste artigo é analisar as idéias mais marcantes presentes nos
atores governamentais de Argentina, Brasil e Venezuela em relação ao Mercosul
desde os anos 80 até nossos dias. Para tanto, o artigo será dividido em cinco
partes e as considerações finais. A primeira define o fator explicativo aqui
adotado. As três partes que se seguem apresentam as percepções do processo de
integração que permearam os aparatos governamentais dos três países. A quinta
parte dá destaque para as idéias presentes nos governos dos Kirchner, Lula da
Silva e Hugo Chávez.
O papel das idéias nos processos de integração regional
Existem diferentes teorias explicativas para os processos de integração
regional. Algumas delas, como o neofuncionalismo ou o intergovernamentalismo,
remontam à primeira onda de regionalismo que se desenvolveu entre as décadas de
1950 e 1960. Outras, como a teoria do novo regionalismo ou a aplicação de
enfoques construtivistas aos estudos de integração regional, são mais próprios
da recente onda regionalista.
As novas experiências regionais são vinculadas, entre outras, à globalização
com vistas a atingir um patamar de economia mais aberta, à formação de uma
economia de escala com a articulação entre as economias dos países-membro, à
defesa dos regimes democráticos, à promoção de mecanismos de governança
internacional, e a mecanismos de barganhas estratégicas entre as potências
econômicas. No entanto, desde os anos 2000 que estas condições vêm sendo postas
em xeque. O modelo de economia aberta vem sendo substituído em diversos países
sul-americanos por políticas mais próximas de um neodesenvolvimentismo. Em
geral, estas políticas priorizam mais a cooperação que a integração. A idéia de
se criar uma economia regional em escala não foi posta em prática até hoje. E o
consenso sobre a importância dos regimes democráticos de caráter ocidental
perdeu peso em países em desenvolvimento; novas experiências de cunho mais
nacionalista orientadas para padrões diferentes de democracia vêm tendo lugar
nestes países. A proliferação de acordos interregionais coloca em xeque a
possibilidade de governanças regionais como forma de organização do sistema
internacional.
Neste quadro, as explicações mais tradicionais dos processos de integração
regional não conseguem proporcionar explicações completas dos processos
integração regional fora das fronteiras da Europa. Este artigo propõe avaliar o
caso do Mercosul acudindo à análise do papel das idéias sobre as quais se
fundamentam as iniciativas de integração.
A importância das idéias nos processos de integração foi desenvolvida, por um
lado, por adeptos da abordagem construtivista a partir do trabalho seminal de
Alexander Wendt.5 Esta abordagem partirá da perspectiva de que, para se
analisar um processo de integração deve-se tomar em conta sua vinculação com as
políticas externas dos Estados-membros e os fatores subjetivos que instruem
tanto um como o outro.
Vigevani, K. Mariano e M. Mariano (2001, p.11) apontam para a importância da
identificação do impacto dos "discursos epistêmicos", oriundos do
construtivismo, nos processos de integração regional. Vigevani, Ramazini Jr,
Favaron e Correia (2008) chamam a atenção para a necessidade de se entender a
posição do Brasil em termos de política externa frente ao Mercosul à luz de
fatores cognitivos constitutivos da política exterior, que estão enraizados na
sociedade e no Estado brasileiros.
Por outro lado, nos anos 90 Goldstein e Keohane (1993) ressaltaram a partir do
institucionalismo racionalista (e com vistas a organizar um padrão explicativo
para as idéias) a importância das idéias na formulação de políticas externas.
Buscando uma alternativa ao pensamento construtivista neste campo, os autores
apontam para 3 tipos de crenças que incidem sobre o comportamento dos
formuladores do comportamento de um estado: as visões de mundo (world views,
que criam identidades), as crenças principistas (principled beliefs, crenças
baseadas em princípios que têm um caráter normativo) e crenças cuasais (causal
beliefs, capazes de gerar causa e efeito). Mais recentemente e Malamud e
Schmitter (2006) defendem que as iniciativas de integração requerem como
dinâmica de incentivos não somente recompensas materiais, mas também
recompensas simbólicas para os países envolvidos.
A visão construtivista sobre o papel das idéias também foi criticada pelos
enfoques intergovernamentais. Moravcsik (2001) realizou uma dura crítica à
forma como o construtivismo analisa o papel das idéias nas relações
internacionais. Uma primeira crítica é que boa parte dos estudos
construtivistas partiriam da premissa de que as teorias racionalistas não são
capazes de explicar as variações nas identidades e interesses nacionais. Assim,
a existência de uma correlação entre "idéias" e "políticas" não seria algo
desenvolvido exclusivamente pelos construtivistas. Como assinala Moravcsik
(2001, p.229), autonomous shift in ideas are causally epiphenomenal to more
fundamental underlying influences on state behavior [...] Ideas are present but
not causally central".
Assim, as variáveis "interesse" e "poder" continuam sendo fundamentais para a
compreensão dos processos regionais. Um bom número de enfoques nas Relações
Internacionais busca embasar a conduta dos atores tanto nas idéias quanto nos
interesses. As idéias seriam recursos de poder utilizados por "atores
interessados"; o instrumento em lutas políticas que ajudariam certos atores a
alcançarem certos objetivos. Pode-se observar que esta abordagem torna as
idéias compatíveis com um enfoque de eleição racional, que privilegia por seu
turno o papel dos interesses. Neste artigo avalia-se o papel das idéias e as
percepções sobre o Mercosul, não considerando-as como a variável constitutiva
da política de integração, mas sim como um elemento significativo, importante,
mas em constante inter-relação com variáveis estruturais de poder ou agenciais
de interesse.
O papel da integração regional na diplomacia argentina: dúvidas e diferenças
As posições frente ao Mercosul na Argentina caracterizaram-se pela falta de
consenso interno sobre a necessidade de se estruturar um espaço regional e,
sobretudo, sobre a forma de organizá-lo. A idéia de uma dependência em relação
ao Brasil, os riscos de se ter um parceiro imprevisível com uma economia
instável, o nacionalismo e a autonomia brasileiros foram sempre temas de
debates. As diferenças existentes no interior da chancelaria dificultaram a
consolidação de um quadro de referência que orientasse as reflexões sobre a
inserção internacional do país e, conseqüentemente, também sobre o processo de
integração regional.
Em termos gerais, as visões sobre o Mercosul dividiram-se em três grupos, que
tiveram como referência duas correntes de pensamento econômico mais freqüentes
no país durante o período.6 Em termos estritamente econômicos, os ortodoxos
defendem a abertura indiscriminada da economia, e sugerem o desenvolvimento de
um menor número de setores produtivos mas que detenham maiores vantagens
comparativas e possam ter melhor inserção no mercado internacional. Dão
preferência a áreas de livre comércio em detrimento de uniões aduaneiras. Neste
caso, os acordos de comércio são julgados pelas suas criações e desvio de
comércio, e o quanto o acordo favorece uma maior abertura das economias de seus
Estados membros frente ao exterior.
Os heterodoxos, por seu turno, preferem políticas estatais destinadas a
promover o desenvolvimento industrial com enfoque setorial. Defendem que a
união aduaneira dá aos países-membro acesso preferencial aos mercados do bloco
e gera mais benefícios para os parceiros do acordo. No caso do Mercosul,
sugerem maior coordenação de políticas macroeconômicas e a introdução de uma
agenda industrializante em seu interior. Isto significaria, por um lado, a
unificação de posições nas negociações econômicas internacionais tanto nos
marcos jurídicos do Mercosul quanto em instâncias multilaterais como as
negociações para formação da Alca ou na OMC. Por outro lado, significaria uma
integração estratégica de recursos que assegurasse o desenvolvimento dos
setores produtivos, junto com a incorporação à agenda do bloco da questão
distributiva e de acesso às oportunidades (LAVAGNA, 1997). O fim das
assimetrias entendidas como diferenças nas políticas de incentivos para a
industrialização seria um passo importante.
Em termos políticos, a primeira visão, a liberal, coincide com a corrente
ortodoxa na economia; dá preferência a manter com o Brasil basicamente relações
econômicas e busca aproximar-se dos Estados Unidos em termos políticos. Por um
lado, esta perspectiva identificou durante os anos 90 o mundo sob o predomínio
de uma potência que deveria ser o aliado fundamental. Em seu ponto de vista, o
Brasil é identificado como um país com um projeto de liderança individual
autônomo que dificulta uma aproximação de posições (RUSSELL e TOKATLIAN, 2003).
Dentre os heterodoxos, encontram-se duas posições diferentes: pragmáticos e
progressistas (MALAMUD e CASTRO, 2007). Os pragmáticos defendem um enfoque
prioritariamente econômico de um Mercosul que produza benefícios econômicos
para o país e onde a institucionalização será bem vinda somente na medida em
que aumente sua eficácia neste campo. Têm maior preocupação com o
fortalecimento de procedimentos técnicos e com a integração funcional. Os
progressistas, por sua vez, têm maior preocupação política. O processo de
integração, neste caso, tem uma perspectiva de longo prazo de caráter
estratégico vis a vis terceiros Estados. Entendem que o processo de integração
fortaleceria a posição da Argentina no concerto de nações. Propõem um Mercosul
cuja base seja uma identidade comum no qual a ênfase estaria na participação da
sociedade civil e no fortalecimento da parte institucional do bloco, com
destaque para instituições como um Parlamento. Isto fortaleceria o
desenvolvimento da democracia regional e de uma cidadania mercosulina.
Em relação à possibilidade de uma aliança estratégica com o Brasil, tanto
pragmáticos quanto progressistas são favoráveis, mas dando destaque a dimensões
diferentes. Ambos apóiam-se na crença da superação definitiva da cultura de
rivalidade e na cultura da amizade. Segundo Russell e Tokatlian (2003), o
crescimento mais acentuado da economia brasileira junto do conseqüente fim da
possibilidade da Argentina implementar uma estratégia de contenção do poder
brasileiro através do equilíbrio, a democratização de ambos trazendo maior
convergência em valores políticos e uma maior interdependência econômica,
favoreceram este novo arranjo regional.
No entanto, seria um elemento a se construir e difícil por tratar-se de uma
relação assimétrica onde as partes não têm claro o peso que cada uma delas pode
ocupar. O peso desigual dos dois países no cenário tanto regional quanto
internacional, e as numerosas assimetrias existentes em relação à tradição e à
eficiência de suas respectivas atuações externas, dificultariam tanto a
construção da parceria quanto a formulação de uma posição de consenso dentro da
Argentina sobre o tema.
No arco de uma parceria, as visões tanto pragmática quanto progressista propõem
um comportamento da Argentina no modelo de Estado barganhador, de acordo com
perspectiva de Myers (1991) sobre atuação regional dos Estados. À posição de
Estado barganhador, a visão progressista agrega a idéia de uma aliança
estratégica para atuação internacional e a importância de uma partilha de
valores. Defende uma parceria estável enraizada além do mundo oficial
envolvendo agentes econômicos e a sociedade. Neste caso, o Mercosul deveria
aprofundar sua institucionalização incluindo as dimensões política e social.
Estas idéias estão presentes entre lideranças políticas, diplomatas, agentes
econômicos, assim como intelectuais econômicos e políticos formadores de
opinião. Encontram-se disseminadas tanto na chancelaria quanto no Ministério de
Economia; nem vínculos com um setor específico da burocracia governamental. Não
têm um vínculo direto com partidos políticos ou forças políticas organizadas.7
Foram opiniões muitas vezes difusas e em movimento de acordo com a conjuntura.
As visões brasileiras: o peso dos princípios básicos da política externa
As interpretações existentes no interior da diplomacia e do aparato
governamental brasileiros sobre o Mercosul experimentaram tanto diferenças em
termos de percepções, quanto, diferentemente do caso argentino, a influência de
crenças de longo prazo presentes na política externa brasileira em termos
históricos. Segundo Vigevani, Ramazini Jr., Favaron e Correia, a posição do
Brasil frente ao Mercosul deve ser vista à luz de dois fatores constitutivos da
política externa, enraizados na sociedade e no Estado brasileiros: a autonomia
e o universalismo.8
Nos marcos destas crenças, em termos político-diplomáticos houve três grupos
mais definidos, sendo dois deles mais fortes e com penetração no aparato
governamental. Em termos econômicos, é possível separar entre os mais
favoráveis a um processo de "liberalização condicionada" (Veiga 2002, 18), e
aqueles identificados com o desenvolvimentismo. Apesar do esgotamento do modelo
de crescimento baseado na substituição das importações, o êxito do crescimento
econômico que o teve como modelo proporcionou a consolidação de setores
desenvolvimentistas fortes e estáveis e uma estrutura industrial complexa e
diversificada.9
A visão mais favorável a uma liberalização condicionada (que não renuncia a
política industrializante adotada no período desenvolvimentista), identificava
o Mercosul como um espaço para diminuir os impactos e o próprio ritmo de uma
abertura para o exterior, e oscilou, nos piores momentos, entre a defesa com
pouco vigor do retorno a uma área de livre comércio e a aceitação de uma união
aduaneira incompleta. Em termos político-diplomáticos, estes encontraram
identidade principalmente nos marcos dos institucionalistas pragmáticos. Este
grupo caracterizou-se por, sem abrir mão dos padrões mais profundos da política
externa brasileira de autonomia e universalismo, dar maior importância ao apoio
do Brasil aos regimes internacionais em vigência. Defende a idéia de uma
inserção internacional do país a partir de uma "autonomia pela integração"
(onde valores globais devem ser defendidos por todos). Neste caso, busca, na
América do Sul, uma liderança mais discreta.10 Em relação ao Mercosul, sua
visão aproxima-se dos pragmáticos na Argentina: a institucionalização só será
bem vinda na medida em que potencialize a capacidade do bloco de produzir
benefícios.
Os desenvolvimentistas (que se enquadram nos padrões da heterodoxia) buscavam a
integração como mecanismo de acesso a mercados externos, como impulso para
transformações e de maior eficiência no sistema produtivo interno, assim como
um canal de projeção e fortalecimento nas negociações econômicas
internacionais. Sua maior identidade na esfera diplomática dá-se com a corrente
autonomista, que defende uma projeção mais autônoma e ativa do Brasil na
política internacional; que teria preocupações de caráter político-estratégico
dos problemas Norte/Sul; e que buscaria um papel de maior liderança brasileira
na América do Sul. Por perceber a integração sul-americana sob a liderança
brasileira como prioridade, considera importante a ampliação do bloco pela
entrada de novos Estados. O Mercosul poderia atuar como um instrumento capaz de
proporcionar ao Brasil um melhor posicionamento regional, assim como atuar na
esfera comercial como elemento capaz de abrir caminho para a formação de uma
área de livre comércio na região.
Desde 1991 estas duas abordagens convergiram em torno da formação e evolução do
Mercosul. O modelo baseado em uma união aduaneira incompleta, no não-
aprofundamento da integração política e no baixo perfil institucional atendeu
as diferentes visões. Atuaria como um reforço para a inserção internacional do
Brasil, sem os condicionamentos próprios de um mercado comum ou de traços
supranacionais.11
A perspectiva de uma aliança entre com a Argentina frente aos temas da política
regional também foi objeto de consenso entre as duas correntes diplomáticas e
outros setores do aparato burocrático brasileiro: a política externa brasileira
seria sensível e vista como questão de soberania nacional. Segundo Pinheiro
(2000, 323), no caso das relações com países vizinhos o desejo de autonomia "se
utiliza da concepção (grociana) para a satisfação de sua busca por poder".12
Assim seus espaços de atuação externa em termos individuais e do aumento de sua
projeção no cenário internacional não deveriam ser dificultados por qualquer
"partilha de soberania". Como agravante, a corporação diplomática brasileira
tem uma visão da Argentina como parceiro menor e as mudanças freqüentes que
ocorrem na política externa argentina geram desconfiança.
De forma lateral, a visão progressista desenvolveu-se com pouca influência no
interior da diplomacia e de outras agências do governo. Diz respeito a uma
visão de acadêmicos e lideranças políticas pró-integração, que propõe um
aprofundamento do processo de integração em termos políticos e sociais e que
busca abrir espaços para maior institucionalização do bloco. Neste caso
coincidem com os progressistas na Argentina.
O caso venezuelano: O giro hacia el sur e as percepções dos atores políticos
As percepções presentes na Venezuela sobre integração regional são bem
diferentes das vistas na Argentina e no Brasil. A recente entrada em curso da
Venezuela como membro pleno do Mercosul é resultado de um processo que se
iniciou em meados dos anos 90, quando o governo de Rafael Caldera começou a
redefinir a estratégia de integração do país, no contexto de uma revisão de sua
política externa. Diferentemente dos outros dois países, a Venezuela é um país
caribenho e andino, além de amazônico. A Cuenca do Caribe lhe é um espaço
vital, sendo uma área de enorme importância geopolítica e geoeconômica onde o
país sempre exerceu influência política. É parte da sub-região andina, pois,
apesar de apenas três estados fazerem parte da Cordilheira dos Andes, o país
está historicamente ligado a esta zona do continente. Os laços históricos com a
Colômbia - país com o qual a Venezuela tem uma intensa relação - são às vezes
conflitivos, às vezes cooperativos, mas têm um forte conteúdo societal devido
às interações crescentes entre suas populações. Por fim, a Venezuela é um país
com uma fachada amazônica, certamente a menos desenvolvida, mas que não por
isto é pouco relevante. Estas múltiplas identidades explicam em boa medida a
política externa venezuelana e, como conseqüência, suas estratégias em matéria
de integração e cooperação regionais promovidas pelos governos desde o início
da era democrática.
A política externa dos governos venezuelanos entre 1958 e 1998 esteve
delimitada pela condição de país ocidental, democrático e petroleiro, que
começou a receber importantes recursos desde o primeiro boom do petróleo da
década de 1970. Estes fatores determinaram as prioridades geográficas de sua
política externa, na qual os Estados Unidos apareciam como um parceiro natural
na defesa da democracia e com o qual a Venezuela podia partilhar uma estratégia
assistencialista no Caribe com vistas a evitar a expansão do comunismo. Aqueles
que apoiavam este enfoque podem ser identificados como conservadores, na medida
em que consideravam que a assimetria que gerava a presença dos Estados Unidos
limitava a margem de ação em termos de política externa. Por outro lado, um
grupo que poderia ser descrito como progressista, considerava que o petróleo
era um instrumento que permitia à Venezuela ampliar sua estratégia
internacional e apostar em uma maior independência frente aos Estados Unidos.
Em matéria de integração latino-americana e caribenha, os progressistas sempre
foram favoráveis à participação do país em iniciativas nas regiões andina e
caribenha, nas quais a Venezuela poderia desempenhar uma liderança. Também
promoveram a criação de outros mecanismos de cooperação como o Sistema
Econômico Latino-Americano - Sela, o Tratado de Cooperação Amazônica, e o Grupo
do Rio, no marcos dos quais o país podia estabelecer mecanismos de diálogo e
concertação com os maiores países da região, em relação aos quais mantinha
prudência quanto a promover iniciativas de integração.
Em matéria econômica, também existiam duas posições que haviam tido influência
na política venezuelana de integração com outros países. Por um lado, estavam
os ortodoxos, um grupo muito influente, próximo da poderosa Fedecámaras,
instituição guarda-chuva do setor privado venezuelano. Este grupo sempre havia
sido cético com as propostas de integração latino-americana. Considerava que
devido às características peculiares da economia do país, a integração com os
países vizinhos não era a melhor opção e, ao invés disto, dever-seia optar pela
consolidação das relações com os parceiros extra-regionais tradicionais. Este
grupo era especialmente oposto à integração com países vizinhos de maior
desenvolvimento industrial que pudessem por em risco o incipiente processo de
industrialização que se estava promovendo no país. Frente a este setor,
encontravamse os heterodoxos, mais próximos às idéias da Cepal, que
consideravam a integração regional como um mecanismo para promover a
transformação produtiva na região. Este grupo propunha um tipo de integração
com elementos de intervenção pública, que tomasse em conta as assimetrias
existentes entre os países da região devido aos diversos níveis de
desenvolvimento relativo de cada um.
Conservadores e progressistas, liberais e ortodoxos, atuaram nos marcos do
sistema de conciliação de elites descrito por Rey (1983). A política externa
venezuelana foi expressão do sistema de conciliação de elites que, no cenário
internacional, propunha objetivos similares aos que o Pacto de Punto Fijo
buscava a nível doméstico. Isto explica a permanência de metas como o
compromisso com a consolidação da democracia, a constante busca da conciliação,
do consenso e do compromisso, e a consciência de interdependência,
especialmente em relação aos Estados Unidos. Neste contexto, a política de
integração buscou um delicado equilíbrio entre a necessidade de satisfazer as
demandas dos atores domésticos e de promover a integração latino-americana.
Como conseqüência deste processo, a Venezuela entrou mais tarde na Alalc e no
Pacto Andino. Apesar do interesse governamental nas duas iniciativas, a adesão
do país a elas era rejeitada pelos setores produtivos. Em lugar de optar por
uma política de "entrada imposta" à Alalc e ao Pacto Andino, os governos
venezuelanos optaram por negociar com os atores em conflito, até conseguir que
estes aceitassem a entrada da Venezuela.
O governo de Hugo Chávez produziu um desmoronamento do sistema de consenso das
elites. Durante seu período inicial, foi difícil se ter uma percepção meridiana
de seu projeto político. Briceño Ruiz argumenta que o chavismo era uma confusa
mistura de grupos internos, alguns dos quais estavam inspirados nas idéias
bolivarianas e agrupados em torno a um grupo de militares que haviam
participado do golpe de Estado de 1992; outros estariam vinculados a grupos de
extrema esquerda minoritários na Venezuela; e, finalmente, estava um grupo
pragmático no qual se incluíam aliados do Movimento Al Socialismo (MAS), velhos
políticos e certos setores empresariais. Até 2000, estes três grupos debateram-
se internamente para se incluírem no projeto político chavista. Esta confusão
manifestou-se na política externa. As velhas tendências conservadoras e
progressistas na política externa foram afastadas.
No período entre 1999 e 2001 as tendências existentes no chavismo trataram de
influir na política externa. Os militares nacionalistas e os pragmáticos,
embora apoiassem objetivos de promoção da ordem multipolar, integração latino-
americana e cooperação sul-sul, foram cautelosos em evitar promover um conflito
com os Estados Unidos. Os radicais, por sua vez, favoreceram uma política
externa mais militante, especialmente no que diz respeito à natureza
"estratégica" da integração. Até 2002, nenhum dos setores tinha uma posição
hegemônica no desenho e na aplicação da política de integração.
Desde o final de 2001 o cenário foi se delimitando com mais clareza. Neste ano,
um grupo dos nacionalistas bolivarianos, movimentos políticos como o MAS e
setores empresariais distanciaram-se do governo. O setor radical do chavismo
começa a se impor, incrementando-se a crítica à ordem mundial e distanciandose
dos Estados Unidos. A partir de 2003 Chávez declara seu governo como anti-
imperialista e se propõe a desenvolver um projeto político descrito como
"Socialismo do Século XXI".
Este processo de definição e redefinição da estratégia internacional de
Venezuela manifestou-se em sua política de integração regional. Nos primeiros
anos, o Chávez insistia na idéia de criar uma Confederação Latino-Americana,
que deveria ter um conteúdo majoritariamente político, e criticava a proposta
de criação da Alca. A partir de 2001 anunciava-se a Iniciativa Bolivariana para
as Américas (Alba), embora tenha sido somente a partir de 2003 que se começou a
delimitar o conteúdo da proposta. A partir de 2004 torna-se clara a estratégia
de integração do governo venezuelano, que começa a refletir as reações anti-
neoliberais e antinorte-americanas dos grupos "radicais". A ascensão de
governos de esquerda no Brasil, Argentina e Uruguai e a decisão dos países
andinos de negociar um tratado bilateral de livre comércio com os Estados
Unidos determinaram duas decisões fundamentais que implicaram em uma mudança na
estratégia de integração da Venezuela: a sua saída da Comunidade Andina e a
solicitação de entrada como membro pleno no Mercosul.
Kirchner, Lula e Chávez pós-2004: novos cenários
O novo cenário político pós-2004 abriu novas perspectivas para o bloco. A
ascensão dos governos de Néstor Kirchner e Lula da Silva, na Argentina e no
Brasil, colocou para aqueles da corrente de pensamento progressista a
expectativa de aprofundamento do processo de integração com maior articulação
econômica, mais institucionalização e a construção de uma parceria mais sólida
no campo político. Mas já nos dois primeiros anos começaram a aparecer
limitações nos comportamentos de ambos.
Neste contexto, Chávez intensifica sua aproximação ao Mercosul e seu crescente
afastamento da Comunidade Andina de Nações - CAN. Desde a perspectiva do
governante venezuelano, tanto Lula quanto Kirchner, representavam uma rejeição
ao modelo neoliberal que teria inspirado o Mercosul quando foi criado, assim
como um giro no sentido de uma nova integração. Ambos teriam discursos mais
próximos do levado adiante por ele na Venezuela, que contrastava com as
relações cada vez mais estreitas entre países da CAN - Colômbia e Peru - com os
Estados Unidos.
No entanto, chegando o governo Lula a seu segundo mandato, tendo já o governo
de Kirchner terminado e dado lugar para a presidência de Cristina Kirchner e
estando Hugo Chávez em seu segundo mandato, as perspectivas levantadas em 2003/
2004 parecem não ter se concretizado.
Na Argentina, o governo Kirchner abriu espaços para os pensamentos heterodoxos
tanto pragmáticos quanto progressistas, deixando no ostracismo a corrente
ortodoxa.13 Em relação à economia interna, Kirchner adotou uma estratégia
neodesenvolvimentista de caráter heterodoxo, buscando estabelecer uma política
industrial mais ativa orientada para a recomposição do parque industrial que se
refletiu nas percepções do Mercosul. O reflexo desta estratégia econômica no
processo de integração navegou entre duas alternativas nos marcos da
heterodoxia. Por um lado, recolocou a expectativa do estabelecimento de uma
coordenação de políticas macroeconômicas e cambiais com o Brasil, proposta por
muitos políticos e acadêmicos. Esta coordenação viria acompanhada de um aumento
de eficiência no processo de integração de infra-estrutura e na dimensão
institucional para superar um déficit que obstacularizaria uma maior eficiência
do bloco. Mas, por outro lado, a adoção de características de um modelo
econômico nacionalista e de caráter neodesenvolvimentista junto com o pouco
avanço no sentido de organizar políticas para lidar com as assimetrias, deu
argumentos a outro grupo no interior da corrente heterodoxa que se preocupa com
a dimensão da economia brasileira, e defende o estabelecimento de mecanismos
defensivos e de comércio administrado. Esta corrente priorizaria um modelo mais
cooperativo que integracionista. Neste caso, o temor de perder espaço em
relação ao Brasil em termos regionais aparece claramente.
Nos círculos mais próximos à figura de Kirchner, uma "aliança estratégica" com
a Venezuela começou a desenhar-se como um mecanismo equilibrador da construção
da liderança brasileira, que aumentaria, por sua vez, os instrumentos de
barganha da Argentina. O governo venezuelano dedicou-lhe um caro apoio ao
comprar títulos da dívida argentina exercendo parcialmente o papel de um
paymaster que o governo brasileiro evitava assumir. Como elemento a se agregar,
uma visão consolidada de política externa de sua gestão não é perceptível e sua
preocupação principal é conseguir insumos para o desenvolvimento do país no
curto prazo.
No caso brasileiro, as perspectivas também enfrentaram obstáculos. A atuação do
governo de Lula no Mercosul vem sendo marcada por movimentos oriundos de
distintas correntes de pensamento que compõem o governo. A primeira refere-se à
perspectiva autonomista que prioriza a liderança brasileira na América do Sul
como um todo, que poderia ser enquadrada segundo a classificação de Myers
(1991) no comportamento de "Estado aspirante à hegemonia". Neste caso, a
perspectiva da formação de um bloco sul-americano coloca-se como fundamental
sendo o Mercosul um instrumento para tal fim. Os esforços orientados para a
formação da Comunidade Sul-Americana de Nações agora convertida em Unasul são
um exemplo desta aspiração.14 Em relação ao Mercosul, esta perspectiva
impulsionou a assinatura de acordo de associação com os países da CAN e a
candidatura da Venezuela a entrar como sócio pleno. Ao mesmo tempo, busca
manter um equilíbrio econômico no bloco que favoreça os projetos brasileiros de
desenvolvimento industrial e projeção econômica. A segunda corrente, ligada ao
Partido dos Trabalhadores, diz respeito à visão de acadêmicos e políticos pró-
integração, e sugere o aprofundamento institucional do processo de integração
nos campos político e social.
Mas além das forças que compõem o governo Lula, o fator mais importante que vem
marcando as atuações na gestão é a erosão da coalizão entre institucionalistas
pragmáticos e autonomistas que sustentou os primeiros anos do processo de
integração (LIMA, 2006). Com a ruptura da aliança, a posição a ser assumida
pelo governo de Lula no campo da integração regional tornou-se mais imprecisa,
sujeita a críticas de setores empresariais e de segmentos do aparato
governamental de oposição.
Os custos de uma política cooperativa com os parceiros do Mercosul - referente
à visão heterodoxa dos argentinos de coordenação de políticas macroeconômicas e
aumento de eficiência no processo de integração de infraestrutura - são
politicamente difíceis e as iniciativas neste campo são tênues, como no caso do
Fundo para a Convergência Estrutural do Mercosul, que embora tenha sido criado
é limitado e não atende às expectativas dos demais parceiros.15
Dentro deste quadro, a única perspectiva onde houve coincidência de posições na
Argentina e no Brasil foi no campo dos progressistas. Embora tenham influência
mais limitada nos dois governos, conseguiram alguns ganhos. Para superar o
déficit institucional, o Tribunal Permanente de Revisão entrou em vigor e foi
criada a Comissão de Representantes Permanentes. Em 2006 foi por fim criado o
Parlamento do Mercosul, embora sem poder legislativo.
No caso venezuelano, a polarização e radicalização do conflito político entre
finais de 2001 e 2004, e a vitória de Chávez no referendum revogatório
realizado no período, produziram uma reconfiguração no interior do chavismo. Os
nacionalistas e pragmáticos separaram-se do chavismo e muitos deles passaram às
fileiras da oposição. O controle político do processo foi tomado por radicais.
Algo similar ocorreu em matéria econômica, setor no qual os heterodoxos foram
substituídos pelos radicais.
O ano de 2004 foi um "cruce de caminos" na política externa de Chávez pois este
entendeu sua vitória no referendo como uma autorização para aprofundar o
"processo revolucionário" em suas dimensões tanto interna quanto externa. Como
assinala González Urrutia, neste ano iniciou-se uma nova etapa da política
exterior, manifestada na substituição do esquema tradicional de inserção
internacional da Venezuela. "Así, la consolidación del proyecto revolucionario
y la conformación de alianzas geopolíticas y estratégicas con otros países
pasaron a ser los ejes centrales de la política exterior" (GONZÁLEZ URRUTIA,
2006, p.165).
Estes fatores incidiram sobre a estratégia de integração de Chávez, que passou
a privilegiar a dimensão política com vistas a criar um bloco de poder que
assegurasse aos países sul-americanos poder, autonomia, segurança e influência
nos cenários globais. A dimensão econômica da integração passou a estar
subordinada à política e era criticada por se considerar uma expressão do
"neoliberalismo selvagem" que havia gerado um incremento da dependência
regional e não havia podido superar a pobreza e a iniqüidade na região. Desde
então, a integração afastou-se da dimensão econômica e comercial e se centrou
nos aspectos políticos, ideológicos e militares. A dimensão comercial é
abordada desde uma ótica estatista que privilegia as relações entre empresas do
Estado e exclui a participação de atores não-estatais, especialmente do setor
produtivo. Este seria o início da denominada "integração bolivariana", que
busca promover a eqüidade, a igualdade, a lealdade e a unidade de propósitos.
Neste contexto, a entrada ao Mercosul converteu-se em um elemento de sua
estratégia de promoção de um mundo multipolar. Os objetivos de política externa
do governo coincidiam com alguns elementos da estratégia promovida pelo
Mercosul como a rejeição da Alca ou a idéia brasileira de se construir um bloco
regional sul-americano mediante a criação da Comunidade Sul-americana de Nações
- Casa/Unasul.
Não existe muitas informações sobre como desenvolveu-se o debate no interior do
governo sobre a entrada como membro pleno do Mercosul. Não obstante, dois
elementos são marcantes. O primeiro deles é a influência dos radicais, que
concebiam o Mercosul como elemento central em sua idéia de construir uma ordem
"multipolar". Neste enfoque, o Mercosul deveria ser entendido também como um
fator de luta contra o neoliberalismo. Por isto, em reiteradas ocasiões o
presidente venezuelano propôs a necessidade de "reformatar" o Mercosul e
convertê-lo em um mecanismo a serviço dos povos. Outro elemento marcante é a
crescente marca presidencial no desenho da política de integração.
Neste contexto, o Mercosul converteu-se em uma área de interesse
geoestratégico. Havia-se optado por uma política externa agressiva frente aos
Estados Unidos e um afastamento cada vez maior dos países andinos, notório
inclusive antes do anúncio formal de saída da Venezuela da CAN. O avanço das
negociações do Tratado de Livre Comércio entre os Estados Unidos e os países
andinos isolou a Venezuela no contexto da CAN, ademais de estar em contradição
com objetivos expressos da política exterior do país como a luta contra a ordem
unipolar, a cooperação sul-sul e a integração latino-americana. Foi então
quando, sob o slogan "nuestro norte es el sur", o governo venezuelano decidiu
buscar uma aliança maior com o Mercosul e, em 2005, solicitou a entrada como
membro pleno. Foi uma notícia que surpreendeu a políticos, atores econômicos e
sociais e, inclusive, acadêmicos pois, apenas um ano antes, havia sido admitido
como membro associado do bloco.
Considerações finais
O novo mandato do governo de Lula e o governo de Cristina Kirchner não
introduziram muitas novidades. Por ora, não há perspectivas de aprofundamento
da integração do bloco. A política econômica neodesenvolvimentista adotada pelo
governo argentino e um novo equilíbrio interno ao bloco resultante da (quase)
entrada da Venezuela não favoreceram o avanço pensado em 2003 pelos
progressistas. Pelo lado brasileiro, a ruptura na coalizão das correntes
existentes no interior do aparato governamental, o peso do Itamaraty nas
decisões em detrimento de setores políticos próximos ao Partido dos
Trabalhadores e os avanços autônomos tanto na economia brasileira quanto nas
ações pró-ativas do Brasil no cenário internacional, também não contribuíram.
A perspectiva da entrada da Venezuela, cuja política externa está dominada
pelos setores radicais, complica ainda mais o cenário regional. A visão destes
setores é muito distinta de aquela dos setores dominantes na Argentina e no
Brasil. Dois aspectos são particularmente problemáticos. Um deles é o discurso
anti-capitalista do governo venezuelano. Neste aspecto, as diferenças em
relação a Lula e Cristina Kirchner são substantivas, pois embora estes dois
governos venham tentando reduzir o traço comercialista do Mercosul propondo uma
ampliação de sua agenda, não sugeriram separar-se dos objetivos de inserção
internacional e de aplicação de mecanismos de mercado que caracteriza o bloco.
Em conseqüência, o discurso anti-capitalista de Chávez parece não ter lugar na
estratégia do Mercosul. Inclusive as chamadas do presidente venezuelano no
sentido de reformatar o Mercosul para torná-lo um mecanismo de integração a
serviço dos povos, não encontraram apoio dentro dos parceiros do bloco. Foram
consideradas pouco diplomáticas, dado que a Venezuela é um país ainda em
processo de conversão em membro pleno.
Um segundo elemento que pode afetar a formação de uma "percepção comum" dentro
do Mercosul diz respeito às relações externas do bloco. As relações
conflituosas de Chávez com os Estados Unidos, seus conflitos intermitentes com
líderes europeus, ou as tensões com países sul-americanos como Colômbia e Peru,
são um problema que Mercosul terá que encarar. O Mercosul é uma união aduaneira
que está negociando com a UE e com outros países. Também subscreveu um acordo
de livre comércio com os países andinos. Ademais, não ter uma agenda de
negociações comerciais com os Estados Unidos pode tornar-se um entrave
considerando que Washington reorganizou boa parte de suas relações comerciais
com a América Latina por meio dos tratados de livre comércio. Neste contexto,
resulta complexo como compatibilizar a agressiva política externa venezuelana
com a estratégia comercial externa do Mercosul.
Por fim, cabe ressaltar a importância do impacto das idéias na formulação do
comportamento dos três países frente ao processo de integração. Se tomamos em
conta as divisões e percepções internas existentes nestes países que incidiram
sobre a evolução do Mercosul podemos encontrar algumas explicações para a
distância entre discurso e ação, para a paralisia do bloco em alguns períodos
de sua história, para as dificuldades para se estabelecer um marco mais
institucional. Por outro lado, os interesses também demonstraram sua influência
persistente no destino do Mercosul. As idas e vindas nas prioridades
estratégicas da Argentina e do Brasil, o impacto do comportamento argentino no
compromisso em relação à importância do bloco regional, ou a percepção da forma
como o Mercosul pode ser útil na reconfiguração das relações com potências ou
outros blocos regionais, foram variáveis que, sem dúvida, tiveram um impacto na
evolução do bloco.