O horizonte regional do Brasil e a construção da América do Sul
Introdução1
Os países sul-americanos têm uma reconhecida vocação costeira. Desde os tempos
em que foram descobertos para a História moderna do ocidente e introduzidos na
vida internacional como colônias de potências européias, as suas principais
conexões com o estrangeiro fluem por via marítima no sentido da Europa, em
primeira instância, e da América do Norte, a partir do século XIX.
A dinâmica contemporânea das relações internacionais não conseguiu inverter
totalmente essa tendência. Todavia, atualmente a América do Sul está muito mais
presente na realidade da sociedade brasileira do que jamais esteve. As
sociedades sul-americanas trilham, já há alguns anos, os caminhos que podem
levá-las a uma maior aproximação.
Acima das sociedades, esse é também um movimento compartilhado pelos Estados,
ou pelo menos por alguns deles. No caso brasileiro, a análise dos discursos e
das articulações endossadas pelos formuladores da política externa nacional
demonstra que a América do Sul está cada vez mais presente como referência
regional do país. A região passou a ser referência para, além do discurso e
retórica diplomáticos, ações concretas que ganham gradativamente espaço e
relevância na agenda nacional.
A escolha da regionalização adequada relaciona-se estreitamente com a
construção de uma coesão interna que viabilize um reconhecimento mútuo de todos
os países da região como partícipes de uma mesma unidade e a percepção desta
unicidade por parte dos atores extra-regionais.
Dentro dessa perspectiva, o presente artigo ancora-se numa linha argumentativa
apoiada em quatro pontos principais. O primeiro deles é de que a articulação do
conceito de América do Sul como componente da sua identidade internacional é um
aspecto recente na história do Brasil. O segundo aspecto está em demonstrar que
essa mudança na referência regional do país não se bastou no plano retórico,
mas foi respaldado por uma série de ações que emprestam concretude às
manifestações políticas, indo além da vertente econômica-comercial.
Esse movimento brasileiro insere-se num contexto no qual a América do Sul
apresenta-se como um conceito ainda fluido. Os dados indicam que ainda não faz
sentido falar de uma região sul-americana para além da sua geografia física.
Assenta-se aí o terceiro aspecto basilar de toda a argumentação desenvolvida.
A constatação de que a América do Sul ainda é uma região a construir não
invalida a iniciativa brasileira, pois se defende que os Estados têm um papel
central na organização dos espaços que estimulem a formação do bloco regional.
Nesse aspecto reflete-se o quarto e último ponto do trabalho, em que se insinua
o tamanho dos obstáculos a transpor e a distância do caminho a percorrer para
se alcançar a efetiva integração sul-americana.
As referências regionais da identidade internacional do Brasil
O Brasil, no curso de sua atuação internacional, utilizou-se de diferentes
referências regionais que forneceram distintas plataformas para a articulação
de seus movimentos no continente americano e no mundo. Essas referências
regionais, que fazem parte da identidade internacional do país, remetem a
conceitos diferentes, muitas vezes dissonantes, e refletem percepções distintas
do arranjo regional e da inserção do Brasil nesse concerto.
A independência política de Portugal não significou ao Brasil a assunção
imediata de sua vertente americana. A sua ligação com a África negra e suas
relações com a Europa, principalmente com a ex-metrópole ibérica e com a
Inglaterra, continuavam a lhe conferir uma vertente geo-econômica atlântico-
africana.2 Além disso, a forma de governo monárquica singularizava o país num
continente que se identificava com a forma republicana.
Com o advento da república, o Brasil imediatamente precipitou-se em promover
uma "americanização" da sua política externa. Associou automaticamente a sua
identificação com o restante dos países republicanos da América a uma ruptura
simbólica com as potências européias.
Principalmente a partir de Rio Branco, a introspecção de uma vertente americana
indicou uma aproximação do Brasil com os Estados Unidos e com sua estratégia
continental. Rio Branco apoiava o movimento pan-americanista advindo de
Washington e tratava de lhe conferir um caráter instrumental para a estratégia
de inserção regional do país. O Brasil enquadrava-se na moldura do pan-
americanismo, e fazia disso parte do seu capital diplomático.
No entanto, ainda no século XIX, a história das Américas acentuaria o grau de
bifurcação entre os caminhos percorridos por suas distintas partes.
Principalmente, a economia distinguiria dois importantes conjuntos de países.
Por um lado, destacar-se-ia uma América Anglo-saxã, incluindo Estados Unidos e
Canadá, que conseguiu promover uma modernização da sua economia e, no caso
particular do primeiro, tornar-se a potência econômica hegemônica do século XX.
De outro lado, a América Latina, que manteria por mais algumas décadas o padrão
de estruturação de sua economia nos moldes observados no período colonial.3
No decorrer do século XX, essa distinção foi se tornando cada vez mais clara. O
termo "América" passou a ser suficiente para remeter aos Estados Unidos, e aos
países ao sul do Rio Grande passou a bastar a generalização de "Latinos". Em
1948 foi criada a Comissão Econômica para a América Latina ' CEPAL (somente em
1984 agregaria "Caribe" no nome), o que significava um reconhecimento
institucional à região.
No período pós-Segunda Guerra Mundial, e mais intensamente com a détenteentre
as duas superpotências que protagonizavam a Guerra Fria, na década de 60, a
América Latina ganhou espaço como ator internacional, num momento em que
surgiam novas forças políticas no cenário mundial. O realce de interesses e
objetivos comuns, em meio à diversidade que sempre marcou os países da região,
incitou uma configuração regional que se contrapunha à América do Norte e aos
Estados Unidos em particular.
Conquanto as disparidades criassem empecilhos à consecução de projetos
integracionistas capazes de abranger todos os países da região, a América
Latina converteu-se na referência regional da diplomacia brasileira. Mesmo que
inconstante, substituiu a vertente "pan" ou interamericana da identidade
internacional do Brasil.
Na década de 1980, a referência latino-americana perdeu força com a crise
financeira que assolou a região e, particularmente, com as mudanças impostas
pela queda do império soviético. O fim da Guerra Fria indicou a queda do
bipolarismo político-militar. Os Estados Unidos contavam com uma poderosa
máquina de guerra advinda da corrida armamentista do período anterior que os
colocava numa posição de incontestável liderança mundial. No campo econômico,
porém, a posição norte-americana era questionada por outros países, como a
Alemanha e o Japão, o que gerava uma diferença entre a concentração do poder
político e do poder econômico mundial.
Do lado soviético, ocorreu um processo de "atomização". Novos países surgiam
alimentados por um nacionalismo até então sufocado por Moscou e ingressavam,
gradativamente, na zona de influência do bloco europeu. Dallanegra4 indica que,
diante desse processo, aos Estados Unidos restou a iniciativa de formar
arranjos regionais para garantir seu espaço estratégico e tentar resolver os
problemas de sua balança comercial.
Nesse contexto, surge o North America Free Trade Area ' NAFTA, que anexou a
economia mexicana à norte-americana. Da mesma forma, os EUA já exerciam um
forte poder de atração nos países centro-americanos e caribenhos. Assim, a
América Latina foi perdendo funcionalidade como elemento identitário dos países
da região.
O processo de aproximação entre Brasil e Argentina, por sua vez, abria caminho
para a formação de um arranjo sub-regional de integração, culminando com a
criação do Mercado Comum do Sul ' Mercosul. Foi, então, no novo bloco comercial
que o Brasil buscou a nova referência regional da sua identidade internacional.
O dinamismo inicial do Mercado Comum reforçava essa idéia, mas o seu rápido
declínio indicava a necessidade de ampliação do horizonte regional que
abrigasse um Brasil que era, em si mesmo, maior que o Mercosul.
Com isso, a América do Sul, que sempre constou das considerações geopolíticas
brasileiras, passou a representar a plataforma regional que referencia a
estratégia de inserção internacional do Brasil. Algumas luzes foram lançadas
nessa direção em meados da década de 1990, mas é no início do século XXI que
essa tendência parece se consolidar.
A distância temporal ainda não permite afirmar se essa referência trará
resultados práticos em termos da integração e do desenvolvimento dos países da
região. O que é passível de constatação é que ela representa um ponto de
inflexão quanto ao período anterior.
O que se pôde perceber é que, de fato, a referência regional da identidade
brasileira, a circunstânciado eudiplomático brasileiro, sofreu um movimento de
retração com o passar dos anos. Se se considera que a identidade internacional
de um país é indicada com o conjunto de predicados que respondem a pergunta
"quem sois?", a resposta a essa pergunta mudou ao longo do tempo. O Brasil já
foi americano, latino-americano e, atualmente, é sul-americano.
De fato, a mudança da referência regional da política externa brasileira, longe
de implicar qualquer incoerência na sua atuação internacional, representa a
busca por uma plataforma mais concreta através da qual o país consiga inserir-
se mais ativamente na política internacional. A proposta de inserção
internacional do Brasil lastreada pela sua identificação sul-americana implica,
assim, a execução de ações paralelas e complementares de afirmação do conceito
de América do Sul, que permanece pouco explorado, e ainda muito abstrato para
os atores da vida internacional.
A absorção de uma "sul-americanidade" na identidade internacional do Brasil
significou, portanto, a construção ou mesmo a moldagem de ferramentas ou
iniciativas que fortalecessem essa nova dimensão.
As ferramentas de afirmação da sul-americanidade brasileira
Ao optar por reforçar o componente sul-americano de sua identidade
internacional, o Brasil lançou mão de uma série de iniciativas em sua política
externa e de instrumentos calcados nas suas políticas setoriais com um foco
estritamente sul-americano. Essas iniciativas podem ser consideradas tanto
reflexos da introspecção de sua sul-americanidade quanto elementos para o seu
fortalecimento.
Sendo causa ou conseqüência dessa nova fase, esses instrumentos fazem parte de
um processo que parece, se não pela sua maturidade, mas por sua concretude,
bastante marcado nos movimentos regionais brasileiros. São ações concretas que
tornam o conceito de América do Sul nítido e inequívoco, instrumentalizando a
política exterior do Brasil baseada na percepção dos seus contornos regionais.
A diversidade de ações voltadas para a região indica que a integração sul-
americana extrapola a estratégia econômico-comercial. No rol de iniciativas
levadas a cabo pelo Brasil, direcionadas a todo o bloco sul-americano, as ações
no campo econômico, lato sensu, continuam tendo papel fundamental, mas
atividades nas áreas cultural, educacional e científica e tecnológica também
têm lugar importante na estratégia brasileira para a região.
Pretende-se destacar as iniciativas brasileiras que, a partir de meados da
década de 1990, e mais fortemente no final do século XXI, na medida em que o
Brasil vai se apropriando do componente sul-americano de sua identidade
internacional, visam a firmar a América do Sul como espaço preferencial de sua
atuação regional. Mais do que fortalecer sua já destacada posição dentro do
continente sul-americano, o Brasil almeja consolidar o espaço geográfico também
como um espaço geoeconômico e político.
A proposta para a criação de uma área de livre comércio que abrangesse toda a
região sul-americana foi a primeira iniciativa brasileira que dava contornos
econômico e comercial a um espaço já bem demarcado pela geografia. Apresentada
pelo Presidente Itamar Franco na VII Reunião de Cúpula do Grupo do Rio,
realizada em 1993, em Santiago, refletia as preocupações brasileiras quanto à
sua inserção internacional num momento em que ocorriam densas negociações
comerciais e se formavam novas zonas regionais que anunciavam um rearranjo no
modus operandido comércio internacional.
Como aponta Moniz Bandeira, o perfil do comércio do Brasil com os países do
Mercosul assemelhava-se ao intercâmbio entre países industrializados e os
países em desenvolvimento, ou seja, exportação de alto valor agregado e compra
de commodities.5 O comércio do Brasil com os demais países da América do Sul
apresenta características semelhantes, donde se tem que, na década de 1990,
cerca de 80% das exportações brasileiras para a região constituíam-se de
artigos manufaturados.6
A ALCSA trazia em si um caráter de complementaridade com o Mercosul. Respondia
aos anseios brasileiros de alargar a abrangência do mercado comum do cone sul
para todo o continente sul-americano. Cabe ressaltar, porém, que os países
caribenhos da América do Sul não estavam incluídos na proposta da ALCSA. Nem a
ALADI, que conta com a presença de México e Cuba, nem a Comunidade Andina
abarcavam a Guiana e o Suriname, que estariam excluídos do novo arranjo
econômico, apesar de geograficamente serem sul-americanos. Foi somente com a
iniciativa do Presidente Fernando Henrique Cardoso de reunir todos os
presidentes sul-americanos em Brasília, no ano 2000, que esse fato seria
corrigido.
Ainda no decorrer da década de 1990, a construção de um bloco sul-americano
continuou no horizonte da política externa brasileira, mas deixou de ser o seu
foco principal. A estratégia adotada para a construção de uma zona regional de
livre comércio a partir da agregação de países ao Mercosul mostrou-se lenta. As
crises financeiras que afetaram o globo na última década do século XX abalaram
especialmente as economias menos desenvolvidas e provocaram divergências
internas ao próprio Mercado Comum do Sul. Foi preciso criar, em 1999, um Grupo
de Trabalho sobre Coordenação de Políticas Macroeconômicas para que os membros
do Mercosul pudessem tentar elevar os níveis de comércio intra-bloco, abalados
pelas crises.
No entanto, isso não foi impeditivo para a conclusão de acordos do Mercosul com
a Bolívia e com o Chile em 1996 e da assinatura de um acordo-quadro entre
Mercosul e Comunidade Andina de Nações (CAN) em 1998. Nessa linha, Fernando
Henrique Cardoso, na reunião de trabalho dos chefes de Estado e de governo do
Mercosul e Chile e da União Européia realizada em 1999, no Rio de Janeiro,
enfatizou os avanços alcançados nas negociações com os dois países,
posicionando-os como parte do processo de construção do espaço sul-americano.7
Já em 2000, o Brasil convidou os chefes de Estado e de governo dos 11 países
sul-americanos para uma reunião de cúpula em Brasília. Em nota oficial de março
daquele ano, o Itamaraty anunciava a reunião e já adiantava a sugestão de
quatro temas que seriam tratados na reunião: Democracia; Comércio; Infra-
estrutura de integração; e Drogas e delitos conexos.8
Ampliando o escopo para outros temas além do comercial, fugia-se do imbróglio
que assolava as relações regionais e retomava-se a idéia de construção de um
bloco sul-americano. Na mesma nota, o governo brasileiro afirmava que, a partir
da experiência acumulada com as iniciativas integracionistas já existentes na
região, se esperava gerar "as condições necessárias para a organização do
espaço sul-americano de acordo com as características, necessidades e
potencialidades que singularizam nossa região".9
A estratégia voltava a ser a construção do novo "espaço sul-americano" a partir
dos blocos já existentes. Por isso, ganhava importância o fato de a reunião ter
focado em temas específicos, para além da esfera comercial. A tentativa de
construção do bloco sul-americano não poderia incorrer no mesmo erro do
Mercosul de se assentar apenas no comércio. Os países da região estavam
dispostos a discutir também a questão democrática no subcontinente, planejar
conjuntamente integração das infra-estruturas, combater o tráfico de ilícitos e
crimes conexos e discutir formas de incentivar a produção de ciência e
tecnologia na região como meio para galgar uma posição mais ativa no sistema
produtivo mundial.
De todos, porém, o tema da integração das infra-estruturas da América do Sul
foi o que recebeu mais atenção na reunião de 2000, ocasião na qual foi lançada
a iniciativa para a Integração da Infra-estrutura Regional Sul-Americana '
IIRSA, e foi o cerne também das reuniões de presidentes subseqüentes. A IIª
Reunião de Presidentes da América do Sul, realizada em Guaiaquil, Equador, em
julho de 2002, elevou as discussões sobre a integração da infra-estrutura ao
centro da agenda. Segundo comunicado do Itamaraty à imprensa, o próprio
presidente Cardoso teria sublinhado a importância que gostaria que fosse
concedida à questão na reunião.10 O fracasso da reunião do Equador poderia
representar o fracasso da iniciativa brasileira de formação do espaço sul-
americano, e por isso o Brasil considerava essencial que a reunião focasse os
avanços alcançados a partir da reunião de Brasília, revelando a continuidade e
a conseqüência das iniciativas lançadas naquela ocasião. Como resultado, parte
substantiva do "Consenso de Guaiaquil sobre Integração, Segurança e Infra-
Estrutura para o Desenvolvimento" versa sobre a infra-estrutura regional e
sobre a IIRSA em particular.
Dois anos depois seria realizada a III Reunião de Presidentes da América do
Sul, dessa vez em Cuzco, no Peru. Essa reunião representou um avanço com
relação às reuniões anteriores, sem implicar descontinuidade. Na ocasião, foi
lançada a Comunidade Sul-Americana de Nações ' CASA, através da "Declaração de
Cuzco sobre a Comunidade Sul-americana de Nações", e assinada a "Declaração de
Ayacucho", que reafirmava o respaldo da IIRSA e apresentava uma lista de 31
projetos prioritários de infra-estrutura a serem implementados até 2010,
resultante dos trabalhos dessa iniciativa.
João Mendes Pereira destaca que a idéia de criação de uma instância que
institucionalizasse o diálogo político sul-americano começou a ganhar força a
partir dos freqüentes encontros entre os mandatários dos países da região nos
anos de 2003 e 2004. No entanto, Pereira ressalta que foi necessário
"desgastante e prolongado esforço negociador", principalmente frente à Colômbia
e ao Uruguai, e em menor escala, com o Chile, para formalizar a constituição da
Comunidade Sul-americana de Nações, em Cuzco, mostrando a existência de
diferentes percepções entre os países sobre a melhor estratégia para a
implementação da integração no continente.11
Com a instituição da Comunidade Sul-americana de Nações, as reuniões de
presidentes da América do Sul seriam substituídas pelas Reuniões de Chefes de
Estado e de Chanceleres da Comunidade Sul-americana de Nações. A iniciativa
lançada em 2000 por Fernando Henrique alcançava, quatro anos depois, resultados
concretos no sentido da "formação do espaço sul-americano": a
institucionalização política da região, apoiada por projetos concretos de
interconexão física capazes de impulsionar uma maior interdependência regional.
A I Reunião dos Presidentes e Chefes de Governo dos países da Comunidade Sul-
americana de Nações realizou-se em Brasília, em setembro de 2005. Nela,
estabeleceu-se uma agenda prioritária para as atividades da entidade, coerente
com o que vinha sendo discutido no fórum anterior. Foram oito os temas
selecionados: diálogo político; integração física; meio ambiente; integração
energética; mecanismos financeiros sul-americanos; assimetrias; promoção da
coesão social, da inclusão social e da justiça social; telecomunicações.12
Ademais, os presidentes aprovaram um programa de ação, com indicações de
atividades que dariam conseqüência aos temas prioritários. Previu-se a
constituição de um foro sul-americano de consulta e coordenação política,
formado a partir de mecanismos já existentes no Mercosul e na Comunidade
Andina, agregando representantes da Guiana e Suriname. A programação de
atividades indicava também ações para eliminar a exigência de vistos para a
circulação de cidadãos entre os países, erradicar a febre aftosa, dengue e
malária, estimular a promoção de comércio e investimentos intra-bloco, integrar
a infra-estrutura, além de estimular a integração turística e cultural, entre
outros.13
Notadamente, a integração da infra-estrutura regional vem ganhando
gradativamente cada vez mais espaço nas discussões acerca das estratégias para
a consolidação da integração sul-americana. Com o advento do Governo Lula, a
estratégia de integração da infra-estrutura ultrapassa a IIRSA.
Em agosto de 2003, o BNDES e a CAF promoveram o Primeiro Seminário
Internacional de Co-financiamento BNDES/CAF: Prospecção de Projetos de
Integração Sul-americana. O seminário objetivava identificar projetos de infra-
estrutura a serem financiados pelos dois organismos nos doze países da América
do Sul, a despeito do processo em curso na IIRSA. Esperava-se, com isso,
inserir o BNDES no processo de integração física sul-americana. Inclusive,
criou-se no Banco um departamento específico, dentro da área de comércio
exterior, para tratar das questões relativas à integração sul-americana.
Mais recentemente, a questão energética começou a ganhar mais espaço na agenda
política regional, ultrapassando também os trabalhos da iniciativa IIRSA. A
suspensão unilateral das remessas argentinas de gás ao Chile e ao Brasil '
termelétrica de Uruguaina, em 2004, a instabilidade política atravessada pela
Bolívia nos últimos anos e a postura venezuelana frente à questão trouxeram à
baila projetos como o Anel Gasífero Sul-americano, que levaria gás do Peru ao
Chile e Argentina, com ligações com Paraguai e Brasil, e o Gasoduto do Sur,
proposta de Hugo Chávez para levar o gás da bacia do Orinoco ao Brasil e
Argentina, principalmente.
Além da integração da infra-estrutura, as questões comerciais receberam atenção
especial. Em maio de 2003, o Brasil lançou um novo programa de estímulo ao
comércio na América do Sul, o Programa de Substituição Competitiva de
Importações ' PSCI. A iniciativa fundamentava-se na premissa de que o estímulo
às importações da região, que substituíssem, competitivamente, importações
procedentes de outras partes do mundo, contribuiria para o crescimento
econômico dos países vizinhos e, conseqüentemente, geraria um círculo virtuoso
de aprofundamento da integração. Dessa forma, amenizariam os déficits
estruturais que os países vizinhos têm nas suas relações comerciais com o
Brasil.
E, não só o déficit comercial dos países da região com o Brasil era
preocupante, mas também a participação da América do Sul nas importações
brasileiras vinha diminuindo sensivelmente. Com o fluxo comercial desbalanceado
em favor do Brasil, tentava-se incentivar, através do programa, os
investimentos brasileiros na região e impulsionar a importações advindas da
América do Sul.
Também como conseqüência da I Reunião de Presidentes da América do Sul, na qual
o Brasil propôs o estabelecimento de um Fundo Sul-americano de estímulo às
atividades de cooperação científica e tecnológica na região, o Ministério da
Ciência e Tecnologia do Brasil, sob a gestão de Ronaldo Sardenberg, criou, por
meio da portaria nº 872, de 20 de dezembro de 2001, o Prosul.
O programa objetiva apoiar atividades de cooperação em ciência e tecnologia que
contribuam para o desenvolvimento científico e tecnológico dos países da
região. Isso inclui atividades de prospecção, identificação e formulação
conjunta de iniciativas que promovam o intercâmbio da comunidade científica
regional.
Na área de segurança, a região andina converteu-se na área mais instável da
América do Sul e, portanto, principal alvo das preocupações geopolíticas do
Brasil. No conflito Peru-Equador, em 1997, o Brasil atuou ativamente como
mediador nas negociações para solucionar o impasse. Seguiu também com distância
cautelosa os desdobramentos da atuação dos Estados Unidos no combate às FARC na
Colômbia.
Mais recentemente, já com o Governo Lula, o Brasil liderou o Grupo de Amigos da
Venezuela, que teve papel ativo na distensão dos ânimos que alimentavam o
conflito interno naquele país. Na mesma linha, o Brasil se fez presente e
atuou, ao lado da Argentina, na resolução das crises recorrentes na Bolívia, do
mesmo modo que adquiriu um papel de destaque na crise equatoriana que levou à
deposição do cargo o então presidente Lucio Gutierrez, em 2005, tendo sido
criticado pela sociedade local pelo auxílio prestado na retirada do ex-
presidente do país e pela concessão de asilo político a este.
Nessa linha de atuação, com a sul-americanização do Brasil e da sua política
externa, o Brasil tem respondido ativamente aos novos desafios de segurança. A
rede de relações que vem mantendo na América do Sul alterou significativamente
a qualidade da presença brasileira na região, inclusive na área de segurança,
ainda que o país continue a dispor de pouca capacidade de ser o fiador de uma
ordem regional.14
Ademais, as áreas de educação e cultura também vêm sendo exploradas no seu
potencial integracionista. No Brasil, promulgou-se, em 5 de agosto de 2005, a
Lei nº 11.161/2005, que adotou o espanhol como segunda língua e regulamentou o
ensino de espanhol nas escolas brasileiras. Além disso, os presidentes
acordaram em desenvolver conjuntamente projetos de erradicação do analfabetismo
e estabelecer um programa de bolsas e formação técnica.15
Além da intenção de se criar uma agenda cultural sul-americana, expressa no
programa de ação da CASA, o Brasil também tomou iniciativas para a promoção da
integração cultural sul-americana. O Canal Integración, voltado para a América
do Sul, com conteúdo cultural e informativo de várias emissoras públicas e
organizações sem fins lucrativos, já transmite programas da TV Brasil, que
resultou da cooperação entre os poderes executivos, legislativo e judiciário
brasileiro. Irmã da Telesur venezuelana, essas iniciativas objetivam divulgar
não só uma "visão sul-americana" dos acontecimentos internacionais e regionais,
mas principalmente a diversidade das manifestações culturais da região.
Obviamente, o levantamento feito até aqui não é exaustivo. Pretende revelar,
contudo, a dimensão e a articulação das iniciativas sul-americanas do Brasil
que, todavia, não excluem outras vinculações internacionais, mas ajudam a
consolidar a América do Sul como referência regional da política externa
brasileira. Em realidade, constituem uma série de iniciativas que, se tomadas
isoladamente, podem não revelar muito em si mesmas. Porém, no seu conjunto,
indicam uma nova orientação estratégica que fortalece os contornos regionais da
identidade internacional do Brasil.
Que América do Sul?
A América do Sul é um continente fortemente heterogêneo. As desigualdades entre
os países se expressam em diversos setores e com várias facetas. Muito além das
características geográficas e populacionais, a situação econômica e social dos
doze países revela condições díspares de desenvolvimento e de capacidade de
inserção no cenário internacional ou mesmo regional.
Essa heterogeneidade expressa-se em termos da constituição dos fluxos intra-
regionais, que se têm estabelecido com intensos desequilíbrios. Isso impacta
sobremaneira na afirmação da América do Sul enquanto região articulada e
integrada solidariamente. A seguir, serão apresentados alguns indicadores que
traduzem as afirmações acima e sinalizam a dificuldade de perceber uma unidade
no continente sul-americano que ultrapasse o seu sentido geofísico.
A análise da participação de cada país no Produto Interno Bruto da região é
reveladora das disparidades intra-regionais. Segundo dados da CEPAL, em 2004 o
Brasil detinha um PIB de US$ 655,35 bilhões, o que representava cerca de 48,1%
do PIB total da América do Sul ' que era de aproximadamente US$ 1.176,60
bilhões. A Argentina participava com 21,09% do total, cerca de US$ 287,40
bilhões. A Venezuela, sobre uma plataforma riquíssima em petróleo, era
responsável por 8,81%, ou US$ 120,07 bilhões. Esses três países respondiam, em
2004, por 78% de tudo que foi produzido na região. Aos demais 9 países,
restavam pouco mais de 20%. Ainda, ao agregar a esse grupo Chile, Colômbia e
Peru, chega-se a 6 países, 50% dos que conformam a região, respondendo por
cerca de 94% da produção regional.
As desigualdades assumem outra feição ao se observar a evolução e o retrato
atual do PIB per capita nos países sul-americanos. Nessa seara, em 2004, a
Argentina, o Uruguai, o Chile e a Venezuela superavam o Brasil. A Guiana
destacava-se em último lugar entre os doze sul-americanos, o único país a ter
um PIB per capita menor do que US$ 1000 anuais. Imediatamente acima apareciam
Bolívia, Paraguai, Equador e Suriname, os quatro com PIB anual por habitante
entre U$ 1000 e US$ 2000. Em posições intermediárias restavam a Colômbia, com
US$ 2074 por habitante/ano, e o Peru, com US$ 2209.
A tornar mais complexo o retrato sul-americano, a situação das desigualdades na
distribuição interna da riqueza em cada um dos países apresenta outra faceta da
realidade sul-americana. Segundo dados do Banco Mundial de 2005, o Brasil
detinha naquela o pior Índice de Gini dos países sul-americanos (0,593),
enquanto o Equador ocupava o primeiro posto (0,437), seguido por Uruguai
(0,446), Bolívia (0,447), Venezuela (0,491) e Peru (0,498). Em seguida, seguem
Argentina (0,522), Chile (0,571), Colômbia (0,576) e Paraguai (0,578) (não
foram encontrados dados para Guiana e Suriname).
A Guiana, o país mais pobre da América do Sul, tanto em termos absolutos como
por habitante, é, inversamente, o país que mais investe em educação em relação
ao PIB, 8,4%. A Bolívia, também um dos países mais pobres da região, vem em
seguida, ao lado da Colômbia, ambos os países com investimentos em educação na
ordem de 5,2% do PIB. Segue a lista com Paraguai, 4,4%, Brasil e Chile, 4,2%
cada, Argentina, 4%, Peru, 3%, Uruguai, 2,6% e Equador, com apenas 1%. Não
foram encontrados dados para o Suriname e Venezuela. Todos os demais referem-se
ao ano de 2002 e têm como fonte a UNESCO. (UNESCO Institute for Statistics.
2005. Correspondence on education expenditure. February. Montreal)
A taxa de analfabetismo entre jovens de 15 a 24 anos indica a qualificação da
mão de obra que ingressa no mercado de trabalho. Nessa faixa etária, o Brasil
apresenta o maior índice de analfabetismo na América do Sul, com 3,9%. O menor
índice pertence à Guiana, que, como se viu anteriormente, investe mais em
educação do que seus vizinhos, em termos relativos. O Peru, que investe apenas
3% do PIB em educação, detinha, juntamente com o Paraguai e Colômbia, o segundo
pior índice de analfabetismo nessa faixa etária em 2005, 2,4%. O Equador vinha
em seguida, com 2,1% de analfabetos jovens.
No campo da saúde, o quadro tem um arranjo novamente diferenciado. Nessa área,
a Colômbia apresentou o maior investimento público em relação ao PIB no ano de
2002, 6,7%. Argentina, com 4,5%, Guiana, com 4,3% e Bolívia, com 4,2%, vinham
em seguida. O Brasil apresentou o mesmo percentual que o Suriname, 3,6%, e logo
abaixo estava o Paraguai, com 3,2%. Com investimentos públicos em saúde abaixo
de 3% em 2002, estavam Uruguai, com 2,9%, Chile, 2,6%, Venezuela, 2,3% e Peru,
2,2%. O Equador, com 1,7% do PIB, era o país que menos investiu em saúde na
América do Sul em termos percentuais16.
Na mesma linha, outros dados poderiam se trazidos à analise fortalecendo a
percepção de que a América do Sul é uma região de países em condições
extremamente desiguais. As desigualdades impõem obstáculos à integração, tanto
pela definição da agenda em cada um dos países, quanto pelas dificuldades
impostas pelas assimetrias na construção das políticas integracionistas.
Com esse quadro, as possibilidades de inserção no mundo global são díspares
entre os doze países, e as relações intra-regionais refletem também esse
desequilíbrio. Os fluxos entre os países sul-americanos sinalizam para algumas
ligações bilaterais fortes, mas que não chegam, de modo algum, a formar uma
rede de relacionamento multilateral consolidada.
Primeiramente, a relação comercial de cada um dos doze países sul-americanos
com seus vizinhos reflete suas estruturas de produção desiguais, graus
diferenciados de modernização de suas economias e níveis díspares de
competitividade regional e global. Isso implica que a participação relativa de
comércio de cada um dos países direcionado aos vizinhos sul-americanos seja
bastante diferenciada, embora seja perceptível um aumento desse grau de
interação ao longo dos anos.
Observando os dados da CEPAL sobre o comércio dos países da região entre 1990 e
2004, nota-se, em geral, um aumento na participação das importações advindas da
América do Sul sobre o total das importações dos países sul-americanos. A
exceção é o Brasil que, mesmo com a implantação do Mercosul e com a adoção de
medidas de incentivo às importações de países sul-americanos, em 2004 viu a
participação das importações advindas da América do Sul cair a um nível menor
do que o observado em 1990.
A Venezuela, de outra parte, foi o país que apresentou um acréscimo relativo
maior nas importações dos países sul-americanos. De 9,77 % em 1990, as
importações com origem no sub-continente representaram 26,49% em 2004,
indicando um aumento de 171% nessa participação, numa trajetória crescentemente
constante. Isso ajuda a explicar, em parte, o aumento da influência venezuelana
na região.
O Equador, na mesma linha, aumentou em 121,89% a participação das importações
dos países sul-americanos no total das suas importações. Em seguida, situam-se
Paraguai e Chile, países em que o aumento da participação das importações sul-
americanas no total das importações representou, respectivamente, 64,04% e
62,44%. No entanto, esse não é o padrão dos países que compõem o Mercosul, como
se poderia pensar. Na Argentina, esse acréscimo foi em torno de 32%, enquanto o
Uruguai, por sua vez, não aumentou a participação relativa das compras sul-
americanas mais do que 3,52%.
O padrão de evolução das exportações para a América do Sul de cada um de seus
países é mais heterogêneo que o das importações, mesmo que, novamente, observe-
se um aumento na participação da América do Sul como destino das exportações de
cada um dos países da região. A exceção, nesse aspecto, é o Uruguai, no qual a
participação das exportações para os países sul-americanos sobre o total das
exportações, em 2004, era 17,22% menor do que em 1990 ' apesar de ter um
acréscimo em meados da década de 1990, refletindo o sucesso inicial do
Mercosul.
Na outra ponta, a Colômbia se destaca com um aumento relativo das exportações
para a América do Sul da ordem de 143,27%, passando de 9,06% em 1990, para
22,04% em 2004, se bem que com um decréscimo nos primeiros anos do início do
século XXI. Equador, Argentina, Bolívia e Venezuela, da mesma forma, aumentaram
a parcela de suas exportações destinada à América do Sul em números
consideráveis: 62,48%, 56,78%, 41,31% e 38,16%, respectivamente.
O Brasil, por seu turno, aumentou em 88,28% a parcela das suas exportações
destinadas à América do Sul, comparando-se 1990 e 2004. A trajetória mostra um
acréscimo considerável na década de 1990, obviamente também reflexo do êxito
inicial do Mercosul. As crises de final dos anos noventa e início dos anos
2000, que acentuaram as dificuldades que as políticas cambiais diferentes e
desarticuladas representavam, fizeram com que essa participação diminuísse,
recuperando-se a partir de 2003, mas ainda sem alcançar os números de 1995 ou
2000.
O aspecto mais relevante destaca-se, no entanto, ao compararmos os dados dos
dois gráficos conjuntamente. Ressaltam-se algumas "situações tipo" que revelam,
novamente, uma integração sul-americana desigual e desequilibrada. Em primeiro
lugar, o Uruguai é o único país que apresenta queda na participação da América
do Sul na sua pauta exportadora ao mesmo tempo em que, comparando-se 1990 e
2004, apresenta o menor crescimento ' excetuando-se o Brasil, que apresentou um
decréscimo ' da participação relativa dos produtos advindos da América do Sul
no total de suas importações. Ou seja, observando-se apenas as relações
comerciais, o Uruguai esteve, nos últimos anos, em realidade, se desarticulando
dos seus vizinhos sul-americanos.
Caso oposto é o do Equador, em que não só a participação da América do Sul como
destino às suas exportações aumentou 62,48% no período, passando de 10,42%, em
1990, para 16,93%, em 2004, como também a participação das importações advindas
dos demais 11 países sul-americanos no total das importações equatorianas
aumentou 121,89%. Em 1990, a América do Sul respondia por 17,82% das
importações equatorianas, enquanto em 2004 esse número era de 39,54%. A
integração do Equador com os mercados sul-americanos foi intensa.
O Brasil, por sua vez, apresentou também uma dinâmica singular. Se, por um
lado, a participação relativa das importações advindas da América do Sul no
total de suas importações diminui, passando de 16,06% em 1990 para 14,94% em
2004, a região tem uma importância crescente na sua pauta de exportações, com
um crescimento de mais de 88%, passando de 8,62% para 16,23%. Revela-se aí uma
integração severamente desequilibrada, que tem seguramente seus reflexos nos
resultados das estratégias de integração regional empreendidas pelo Brasil e no
seu relacionamento comercial bilateral com os países da região. Daí também se
justifica boa parte das queixas que os parceiros comerciais sul-americanos têm
freqüentemente expressado contra o Brasil nos últimos anos.
Em situação inversa à do Brasil está o Chile. O peso da América do Sul como
destino das exportações chilenas vem caindo desde 2001, depois de se manter
estável entre 1995 e 2000. Comparando 1990 e 2004, o aumento foi pequeno, de
apenas 1,06% (11,28%, em 1990, e 11,4%, em 2004). Já a participação da América
do Sul nas importações chilenas aumentou 62,44%, passando a responder por
37,72% do total em 2004, contra 23,22% de 1990.
Ademais, a integração comercial da América do Sul, não só desequilibrada e
desigual, é pequena. Análise do Banco Mundial, com dados do ano 2000, mostra
que o comércio intra-regional no Mercosul ' 25% sobre o total exportado, e na
Comunidade Andina ' 10% ainda estava bastante aquém do nível de regiões como a
União Européia ' 60%, NAFTA ' 55% e Ásia ' 68%
Indo mais além, ao se analisar as relações comerciais país a país percebem-se
grandes eixos bilaterais de comércio que, em si, traduzem a dinâmica regional,
sem, no entanto, envolver toda a região numa rede de relacionamento comercial
consolidada, crescentemente amarrada. Por esse ângulo, a América do Sul revela-
se como um conjunto de relações bilaterais tradicionalmente relevantes, mas que
ainda não foram capazes de integrar-se para conferir unicidade à região.
Nessa linha, segundo dados da CEPAL, apenas quatro grandes pares comerciais
superaram o valor de US$ 2 bilhões em 2004. O principal fluxo comercial na
América do Sul, obviamente, está entre Brasil e Argentina, somando quase US$ 13
bilhões em 2004. Para a Argentina, as exportações destinadas ao Brasil
representaram 16,17% do total de suas exportações. Já para o Brasil, as
exportações para seu principal vizinho representaram 7,64% do total exportado
pelo país.
O segundo maior fluxo comercial na América do Sul é entre Argentina e Chile,
que superou os US$ 4,2 bilhões em 2004. 11,11% das exportações argentinas foram
para o Chile nesse ano, o que significa afirmar que quase 1/3 de tudo o que a
Argentina exporta destina-se a Brasil e Chile.
A relação comercial entre Brasil e Chile é a terceira maior na região,
confirmando que a maior integração sul-americana está, de fato, no Cone Sul.
Brasil e Chile tiveram em 2004 um fluxo comercial de quase US$ 4 bilhões. Em
termos percentuais, no entanto, a participação destes países na pauta comercial
do seu parceiro não chega a 5%.
A quarta maior relação comercial bilateral na América do Sul é entre Colômbia e
Venezuela, apesar das pendências diplomáticas entre os dois países. O fluxo
comercial entre eles superou os US$ 2,6 bilhões de dólares em 2004. Essa
relação é mais importante para a Colômbia, pois a Venezuela sozinha recebe 9,7%
de suas exportações.
Isso revela, sobretudo, que qualquer iniciativa de integração sul-americana
deve considerar as fortes assimetrias entre os países. O Brasil não só é o
grande país em extensão territorial como é o pólo irradiador, pelo tamanho da
sua economia, do comércio intra-regional. Em contrapartida, como se viu
anteriormente, é também o único país que vem diminuindo, da década de 1990 em
diante, as suas importações dos países da região, em termos relativos. O
desequilíbrio é estrutural na América do Sul.
À parte desse critério quantitativo, algumas outras relações bilaterais merecem
destaque pelo grau de relevância para seus parceiros. A primeira delas é a
relação bilateral entre Brasil e Bolívia, que superou US$ 1 bilhão em 2004. As
exportações destinadas ao Brasil representaram 31,66% do valor exportado pela
Bolívia nesse ano, assentado, sobretudo, na exportação de gás natural via o
gasoduto Brasil-Bolívia, inaugurado no início dos anos 2000. O segundo maior
destino das exportações bolivianas na América do Sul é a Venezuela, que
respondeu por mais de 10% do valor exportado pela Bolívia em 2004.
As relações comerciais entre Equador e Peru, embora não tenham alcançado o
nível de US$ 1 bilhão em 2004, revelam uma forte ligação bilateral na qual as
exportações equatorianas ao Peru representaram 7,81% do valor total exportado
por aquele país. Esse percentual alcançou 10,32% em 2003, o que, para países
que recentemente enfrentaram-se em conflito armado, é bastante significativo.
Outra importante relação bilateral dá-se entre Paraguai e Uruguai, na qual este
respondeu, em 2004, por 27,76% do valor exportado pelo primeiro. Em 2004, o
Uruguai foi o primeiro parceiro comercial do Paraguai, surpreendentemente acima
de Brasil e Argentina. O Brasil, que respondia por mais de 30% do valor
exportado pelo Paraguai, curiosamente em 2004 recebeu menos de 20% das
exportações paraguaias em termos de valor exportado.
O fluxo de investimento entre o Brasil e os países sul-americanos retrata uma
redução na importância da América do Sul como região preferencial de atuação
externa. Segundo dados do Banco Central do Brasil, o fluxo de investimentos
brasileiros diretos na América do Sul vinha numa trajetória declinante nos
primeiros quatro anos do século XXI, período em que essa mensuração vem sendo
apurada.
Em 2001, a América do Sul foi o destino de 10,30% dos investimentos diretos
brasileiros, em todas as modalidades ' inclui-se empréstimos intercompanhias,
demais empréstimos, depósitos e financiamentos. De fato, chega a ser um
percentual relevante, tendo em vista que quase 57% do total dos investimentos
diretos brasileiros destinaram-se a apenas três países, todos paraísos fiscais
' Ilhas Cayman, Ilhas Virgens e Bahamas.
Todavia, em 2002, a América do Sul representou 7,21% do total dos investimentos
brasileiros no exterior, um decréscimo de cerca de 30%, a despeito de esses
terem aumentado 5,3% nesse ano. Em 2003, essa participação tem uma leve
recuperação, representando 8,30% do total. Já em 2004, caiu para o nível mais
baixos dos anos para os quais há disponibilidade de dados, tendo recebido 6,46%
do total. É importante frisar que em 2004 os investimentos externos do Brasil
no exterior foram quase 34% acima do que os declarados no ano 2001.
Ademais, compondo o cenário de queda de importância da América do Sul nos
investimentos externos direitos do Brasil e a diminuição da participação dos
países da região nas importações brasileiras, o ingresso de pessoas advindas
dos onze países sul-americanos no Brasil também decresceu em termos de
participação relativa nos últimos anos. De acordo com os levantamentos feitos
pela Embratur e pela Polícia Federal, a América do Sul que em 1993 foi
responsável por 68,76% dos turistas que entraram no Brasil, em 2005 emanou
apenas 37,63% dos estrangeiros que entraram no país, consolidando-se, desde
2003, na segunda posição, atrás da Europa, que em 2005 respondeu por 38,62% dos
estrangeiros que entraram no Brasil. A Argentina, no entanto, continua sendo o
país maior emissor de turistas para o Brasil. Em 2001, 28,80% dos estrangeiros
que entraram no Brasil eram argentinos. De 2002 em diante, esse percentual fica
em torno dos 19%, ainda o suficiente para garantir a primeira posição para a
Argentina. De todo modo, essa queda explica uma grande parcela da diminuição da
importância relativa da América do Sul.
Observando em conjunto o comportamento de outros sete países sul-americanos que
constam na lista dos vinte principais países emissores de turistas para o
Brasil, percebe-se um posicionamento estável do bloco. Uruguai, Paraguai,
Chile, Bolívia, Peru, Venezuela e Colômbia respondiam, em 2001, por 19,61% dos
turistas que visitaram o Brasil naquele ano. Em 2005, esse número ficava em
18,38%. Em suma, a densidade das relações sociais, no que tange ao fluxo de
pessoas, não tem aumentado entre os países sul-americanos e o Brasil. Ao
contrário, em parte devido à crise econômica e social enfrentada pelo nosso
maior vizinho, essa relação tem diminuído.
Conclusão
As regiões são produtos de construções sociais, produzidas e reproduzidas por
discursos e práticas sócio-econômicas e políticas. Não são, portanto, objetos
atemporais, fixos no tempo e espaço. São construções dinâmicas, que se
movimentam a partir das relações entre territórios e comunidades diferentes.
Nessa linha, a América do Sul, para além dos seus contornos geofísicos, ainda
está em construção. Como se viu, a proximidade geográfica não significou, ao
longo da história, uma articulação robusta entre os países da região.
Certamente, o espaço sul-americano está mais articulado no início do século XXI
do que estava há cem anos atrás. No entanto, os dados apresentados revelam que
a dinâmica dos fluxos intra-regionais ainda não apresenta um comportamento que
permita aferir que tenha alcançado o nível que suas potencialidades sugeririam.
Os desequilíbrios e desigualdades observados no interior de seus países
extrapolam para o nível intra-regional. Com essa plataforma, a definição de
objetivos comuns para a região é um exercício bastante complexo. Com tamanha
heterogeneidade, fica inclusive mais complicado a afirmação de uma identidade
regional própria. No entanto, a própria dinâmica da integração regional pode
suscitar processos de socialização que incluem a redefinição de identidades, o
que poderia implicar também a remodelagem dos cálculos para aferição de custos
e benefícios, perdas e ganhos, envolvidos no processo.
Nessa linha, antes de condenar a estratégia brasileira de definição de um
horizonte sul-americano para sua política externa, é importante ter em mente o
papel dos Estados no esforço de construção da região, tanto na área econômica,
quanto nas áreas social, cultural e científica-tecnológica. Os Estados devem
reforçar seu papel de organizadores do território, atentando para a integração
aos fluxos regionais e globais, que condicionam a inserção das sociedades na
economia mundializada.
A integração das infra-estruturas é essencial nessa estratégia. Essa etapa não
deve ser encarada como um fim em si mesma, mas um meio fulcral para alavancar e
dinamizar um processo de construção de redes de interação regional que, coesas,
têm mais condições de se lançar ao globo.
Delimitado o horizonte regional do Brasil, o desafio passa a ser a própria
construção da América do Sul enquanto região. Uma hercúlea tarefa que um país,
a despeito do seu tamanho e importância no concerto regional, não consegue
implementar sozinho. Construir e integrar a América do Sul, antes de tudo, tem
que ser um desejo de todos os seus membros.
1 Este artigo é extensivamente baseado na dissertação de mestrado do autor,
apresentada em 2006 ao programa de pós-graduação em Relações Internacionais da
Universidade de Brasília ' UnB, intitulada O horizonte regional do Brasil e a
Construção da América do Sul (1990 ' 2005).
2 MAGNOLI, Demétrio. O corpo da pátria: Imaginação geográfica e política
externa no Brasil. (1808-1912) São Paulo: Editora da Universidade Estadual
Paulista: Moderna. 1997.
3 SINGER, Paul. América do Sul: 2006 ' da Geografia à História. Artigo
apresentado por ocasião do Seminário América do Sul: 2006, realizado no Rio de
Janeiro, 15 de agosto de 1997. Texto disponível em http://www2.mre.gov.br/ipri/
Papers/AmericadoSul/Artigo17.doc. Último acesso: 20.7.2006.
4 DALLANEGRA PEDRAZA, Luis. Relaciones Políticas entre Estados Unidos y América
Latina: ¿Predominio monroista o unidad americana? Buenos Aires: Edic. del
Autor, 1994.
5 BANDEIRA, Luiz Alberto Moniz ' Brasil, Argentina e Estados Unidos ' Conflito
e Integração na América do Sul. (Da tríplice aliança ao Mercosul 1870-2003) Rio
de Janeiro: Revan: 2ª edição. 2003. p. 499[ STANDARDIZEDENDPARAG]
6 SERRA, José. ALCA, o Mercosul e a Abertura Externa Brasileira. In Política
Externa, vol. 7. nº 1 ' junho-julho-agosto 1998. Disponível em http://
www2.mre.gov._br/ipri/Papers/AmericadoSul/Artigo11.doc Acessado em 17.1.2006.
7 Discurso do Presidente Fernando Henrique Cardoso, na abertura da reunião de
trabalho dos chefes de Estado e de governo do Mercosul e Chile e da União
Européia, 28 de junho de 1999, no Rio de Janeiro, Folha de São Paulo,
29.6.1999.
8 Nota nº 105, de 23.3.2000. Disponível em http://www.mre.gov.br/portugues/
imprensa/nota_detalhe.asp?ID_RELEASE=643 Acessado em 6.2.2006.
9 Idem.
10 Comunicado Oficial à Imprensa, Disponível em http://www.mre.gov.br/
portugues/imprensa/nota_detalhe.asp?ID_RELEASE=1352 Acessado em 22.7.2006.
11 PEREIRA, João Mendes. A iniciativa para a Integração da Infra-estrutura
Regional da América do Sul ' IIRSA como instrumento da política brasileira para
integração da América do Sul. Tese apresentada no XLVIII Curso de Altos Estudo
do Instituto Rio Branco, 2005.
12 BRASIL. Ministério das Relações Exteriores/Fundação Alexandre de Gusmão.
Comunidade Sul-Americana de Nações: documentos , 2005.
13 Idem.
14 SENNES, Ricardo, ONUKI, Janaina & AMÂNCIO, Jorge de Oliveira. La
política exterior brasileña y la seguridad hemisférica. Revista Fuerzas Armadas
y Sociedad. Año 18, nº 3-4. p. 3-26, 2004. Chile. Disponível em http://
www.fasoc.cl/files/articulo/ART41f69fdb82038.pdf Acessado em 27.7.2006.
15 Decisão sobre propostas apresentadas durante o diálogo presidencial.
Comunidade Sul-Americana de Nações: Documentos, 2005. Op. cit.
16 Fonte: PNDU ' Human Development Report ' 2005.