As relações internacionais no Cone Sul à época do primeiro centenário da
Independência na Argetina
Introdução
Os países do Cone Sul ofereceram ao mundo uma grande festa para comemorar cem
anos de Independência, numa época de intranqüilidade, de decadência da
liderança inglesa e de ascensão da hegemonia norte-americana. 1 Neste artigo
mostraremos como as elites de Buenos Aires comemoraram cem anos de
Independência em 1910: aproveitaram a festa para colocar em andamento suas
alianças com Europa, Estados Unidos e Chile, e fortaleceram as rivalidades com
países que consideravam um perigo constante, como Brasil e outros que, embora
não perigosos, se apresentavam enigmáticos; projetaram a imagem de país forte
ligado à "raça ibérica", num tipo de relações internacionais pragmáticas;
estreitaram as relações com os vizinhos chilenos e com a Espanha, considerada a
"mãe pátria" e tentaram, na sua política interna, esconder os graves problemas
com os socialistas e anarquistas. Sendo assim, as forças profundas veicularam
esse tipo de relações internacionais. Os argentinos queriam ver confirmada a
imagem de potência do Cone Sul pela Europa e pelos Estados Unidos e ante seu
rival de sempre, o Brasil. Isto se entende na medida que compreendemos que a
função da imagem é a de simplificar e facilitar a comunicação, forjando mitos e
construindo identidades, legitimando as causas das ações, exorcizando medos e
fantasmas no domínio das relações internacionais, para criar a imagem de si, na
imagem dos outros2. Essa imagem de potência socioeconômica e política,
seguramente valeu no momento de decidir, quatro anos depois da festa, pela
neutralidade da Argentina na Grande Guerra.
A rivalidade entre a Argentina e o Chile
Grande parte da historiografia chilena sobre o problema das fronteiras deste
país sempre tenta justificar seu expansionismo durante o século XIX, alegando
que os limites que deram origem ao uti possidetis juri de 1810 estavam
assentados desde o século XVI, quando a Coroa espanhola cedeu, mediante
Capitulações, diferentes franjas do futuro território chileno em forma de
Governações a vários conquistadores e colonizadores. Desta maneira, as
fronteiras, base douti possidetis, estariam determinadas, ao norte, pelo
paralelo 27 e, ao sul, pelo pólo. Em 1563, este alegado território chileno foi
despojado da província de Tucumán e, na criação do Vice-Reinado do Rio da Prata
em 1776, também foi privado da província de Cuyo. O limite norte do Chile
incluía ao fim do século XVIII o Deserto de Atacama, desconhecendo assim uma
antiga Real Cédula que atribuía tal região ao Vice-Reino do Peru3.
Se bem que a Argentina e o Chile encontraram no uti possidetis juri de 1810 a
base da definição de suas fronteiras, a disputa pela hegemonia no extremo Sul e
pelo controle do Estreito de Magalhães e da Patagônia era inevitável. Em 1856
os dois países assinaram um Tratado de Comércio e neste concordaram não
provocar um confronto pelos limites ainda não reconhecidos entre si; em caso de
não se concluir acordo algum, submeteriam o diferendum a arbitragem
internacional. O problema residia em que cada país interpretava o uti
possidetis de 1810 à sua maneira e de acordo com seus interesses. Em 1865, o
governo do Chile encaminhou uma comissão à Argentina para aclarar os limites no
sul. José Victoriano Lastarria, um dos negociadores,
propuso como transacción al gobierno del Plata fijar como frontera,
desde el norte hasta el grado 50, las ramas exteriores orientales de
la Cordillera de los Andes. Desde dicho paralelo el límite sería una
línea recta que llegaría hasta la bahía Gregorio en el Estrecho de
Magallanes. Los territorios al oriente de dicha línea serían de la
Argentina y los del poniente de Chile. En el Estrecho Chile tendría
dominio desde la boca occidental hasta la bahía Gregorio, inclusive,
y así mismo sobre la Tierra del Fuego, y la Argentina sería soberana
desde la citada bahía hasta el Atlántico4.
Este acordo foi desconhecido pela chancelaria chilena: o país não poderia
renunciar ao domínio de todo o Estreito. Nesta época em que o Chile dirigia-se
ao norte para lutar pelo território de Atacama e do deserto em geral, a
Argentina, sob o comando do general Julio A. Roca iniciava suas campanhas para
tomar dos indígenas o deserto. Nestas guerras, os dois países demonstraram seu
equilíbrio de forças, que os faria chegar a um acordo em 1881. Segundo o novo
tratado, os limites passariam pelos Andes, usando como linha demarcatória as
partes mais elevadas da cordilheira. Ainda que este novo tratado colocasse fim
aos problemas limítrofes mais candentes, os dois países não ficaram satisfeitos
por terem perdido saídas para ambos os oceanos. O governo argentino achava que,
tendo aceitado que a linha demarcatória fosse os pontos mais altos dos Andes,
poderia aproximar-se assim do Pacífico. Equação que o governo chileno não
aceitava, alegando que, havendo rios que nasciam a leste destes altos cumes e
que depois cortavam os Andes para desembocar no Pacífico, isto permitiria à
Argentina ter livre acesso ao Pacífico. O Chile argumentava que a demarcação
devia ajustar-se ao divortium aquarum, passando a fronteira, não pelas
eminências absolutas, mas por aquelas alturas que dividiam águas5. Esta
situação seria motivo de confronto entre os dois países, chegando às portas da
guerra6.
Com a intermediação britânica, em 1902 assinaram-se os Pactos de Mayo. Nestes,
finalmente, ambos países renunciaram ao acesso a dois oceanos, passando este
momento a ser lembrado pela historiografia chilena como o Abrazo del Estrecho,
entre Roca e Errázuriz. Mas este gesto "sólo había cubierto con una delgada
capa de cenizas una hoguera que aún tenía un grueso haz de combustible mal
apagado" 7. Ficava ainda por resolver outro problema ligado ao canal do Beagle,
que a partir de 1904 levou os dois países a novas disputas. Neste sentido,
buscou aliados que, em caso de guerra, pudessem socorrê-lo na defesa de sua
hegemonia sobre o Pacífico Sul. Para a Conferência Pan-americana realizada no
México entre 1901 e 1902, o Chile mandou como representante um diplomata que
sabia muito bem das tensões em que os países americanos estavam envolvidos.
Joaquín Walker Martínez foi claro quando afirmou que a situação de seu país não
era ruim, mas que não havia encontrado o apoio que esperava:
Guatemala nos es adversa; Paraguay hostil; Uruguai batiendo siempre
contra nosotros; el Brasil representado por un viejo bastante torpe,
que no es ni ha sido diplomático, levantando en todas partes su
bandera de arbitraje obligatorio; Argentina, Perú y Bolivia unidos
como una tabla para cruzarnos el camino donde y como pueden; Colombia
con un delegado amigo y otro enemigo; Venezuela reservadísima. Amigos
francos sólo el Ecuador y las cuatro pequeñas repúblicas de Centro
América!...8
Como o problema com a Argentina ainda não tivera solução total, e como ainda
era possível uma guerra pela fronteira na Patagônia, os chilenos buscaram
aliados entre países que tinham problemas com seus inimigos. Chile buscou
estreitar as suas relações comerciais com seu parceiro antigo, a Inglaterra, e
com Japão, vitorioso na guerra contra a Rússia, para manter suas posições no
Pacífico diante do poderio dos Estados Unidos9. Torna-se compreensível assim
porque a efeméride do Centenário da Independência apresentou-se como uma
excelente oportunidade para que fosse resolvido de maneira amistosa o confronto
limítrofe entre o Chile e a Argentina. Os dois países tinham uma história
compartilhada; juntos haviam forjado vários lugares de memória que em 1910
facilitariam a invenção de uma tradição de amizade. Na festa comemorativa,
falar-se-ia da antiga amizade, passando por cima das velhas rivalidades. No
entanto, a diplomacia argentina não aproveitou a fsta para estabelecer também
boas relações com o Brasil.
Rivalidade entre a Argentina e o Brasil
No centenário argentino, o Brasil passou totalmente despercebido. Talvez porque
adquirira no ano anterior dois grandes encouraçados, o São Paulo e o Minas
Gerais, incentivando as suspeitas de um possível confronto direto com a
Argentina. Argentina e Brasil não comemoraram, naquele momento, uma história
compartilhada. Os diplomatas sabiam que aquela grande rivalidade não poderia
apagar-se numa festa. Temores e ressentimentos, mal fundados ou verdadeiros,
persistiam entre os representantes de várias esferas de poder dos dois países.
Na historiografia da América Latina do século XIX, desde as perspectivas
analíticas das Relações Internacionais, o Brasil desponta como aquela potência
do Cone Sul que, obedecendo aos desejos das elites imperiais, lutou
incansavelmente pela hegemonia e pela livre navegação do Prata, em constante
confronto com a Argentina; nesse movimento arrastou consigo o Paraguai e o
Uruguai, considerados como tampões entre os dois países10. Demétrio Magnoli
interpretou a política do Império Brasileiro a partir do imaginário geográfico.
Herdeiro do passado luso-americano, o Império tratou, por todos os meios
disponíveis, de dar forma à idéia da Ilha Brasil, incorporando todos aqueles
territórios que ficariam encerrados pelos rios Amazonas, Madeira, Guaporé,
Paraguai, Paraná e Prata. Neste projeto esgotaram-se muitas forças, sobretudo
na guerra contra o Paraguai. Outro grande esforço do Império e logo da
República centrou-se na incorporação do Acre aocorpo da pátria. Diante do risco
de perder parte do território, que correspondia à imagem herdada da colônia, o
Brasil não permitiu que nenhuma potência estrangeira navegasse pelo Amazonas.
Outros governos interpelaram o Brasil por esta atitude contraditória, já que
este exigia da Argentina a abertura do rio da Prata11.
Na história das relações internacionais, o imaginário é sem dúvida uma das
forças profundas apontadas por Pierre Renouvin12. Jean Baptiste Duroselle
enfatiza a importância da opinião pública, do nacionalismo, dos grupos de
pressão e da personalidade dos homens de Estado.13 Amado Luiz Cervo, estudando
as relações externas do Brasil, considera o comportamento psicosocial: estados
de ânimo como o pacifismo brasileiro "que conta com o apoio de fatores socio
culturais, tais como a satisfação com o território e a abundância de recursos
naturais, a heterogeneidade cultural, a tolerância social, a tranqüilidade
diante dos vizinhos"14. Categorias que, sem dúvida, nortearam o relacionamento
entre os países que, em 1910 e 1922, comemoraram o Primeiro Centenário da
Independência. As relações entre a Argentina e o Brasil após o término da
guerra contra o Paraguai (1865-1870) tiveram no relacionamento com o país
vencido um foco inicial de divergências. A Argentina reivindicava já durante a
guerra o Grande Chaco; o Brasil tratou de evitar essa conquista que dobraria a
extensão da sua fronteira com a Argentina, e para isto entendeu-se
unilateralmente com o Paraguai já em 1872, definindo a sua fronteira pelo rio
Apa. Três anos depois, a questão do Chaco foi submetida à arbitragem dos
Estados Unidos que o declarou território paraguaio.
Entretanto, as tensões continuavam, alimentando a possibilidade de uma guerra
frontal entre os dois países. Bartolomé Mitre iniciara um processo de
modernização das forças armadas argentinas antes mesmo da Guerra da Tríplice
Aliança. Nas Campanhas do Deserto contra os índios dos pampas e da Patagônia, a
Argentina aumentou sua capacidade militar, criando novas escolas militares para
capacitação de especialistas, e fazendo bons avanços na reestruturação do
Exército. Em 1884 agregou-se uma seção de Engenharia ao Estado Maior, que logo
se tornou uma Escola de Engenharia Militar; um ano antes fora inaugurada uma
nova fábrica de pólvora. Anteriormente, já em 1872, Sarmiento havia criado uma
Escola Naval e na mesma década a Armada argentina consolidara a sua frota com
aquisições na Europa, especialmente na Inglaterra, país que deu apoio logístico
à Campanha do Deserto15. A inquietação no Brasil aumentou grandemente quando,
sob a presidência do general Roca, em 1880, estreitaram-se as relações com a
Alemanha que, tal como a Argentina, vinha dando grandes passos na construção do
Estado nacional. A Alemanha estendeu sua influência financeira na Argentina,
concentrando investimentos nas áreas de eletricidade, navegação, petróleo e
seguros16. Em 1882, as tensões chegavam a tamanha exasperação que o presidente
Julio A. Roca considerou inevitável a guerra com o Brasil, uma "guerra fatal"
porque os dois países apresentavam "contraposição de interesses" e "choque de
civilizações".17. O imperador D. Pedro II e o presidente Julio A. Roca fizeram
o possível para eliminar esta ameaça de guerra; finalmente, "ambos os
parlamentos, sem dúvida, contribuíram com sua reflexão e palavra, para fechar
de forma civilizada um ciclo de tensão e esfriamento que caracterizou as
relações bilaterais entre Brasil e Argentina, no final do Império"18.
A diplomacia brasileira preocupava-se com a possibilidade de que a Alemanha,
interessada em arrendar terras no Acre boliviano, viesse a impedir a conquista
daquele território. Por outro lado, imigrantes alemães, desde 1898, compravam
terras ao norte da Argentina, onde a influência da Alemanha na área industrial
e bancária crescia vertiginosamente. Esta preocupação cresceu quando a
Argentina passou a contratar assessores militares, a comprar armas e munições e
a enviar contingentes de militares para capacitação na Alemanha19. A Alemanha e
a França fomentavam a disputa entre os dois países para favorecer suas
exportações. O armamentismo e as desconfianças recíprocas não impediram, no
entanto, que em setembro de 1889, poucos antes da queda do regime imperial
brasileiro, o Brasil e a Argentina remetessem o dissídio fronteiriço das
Missões (ou Palmas) à arbitragem do presidente dos Estados Unidos20. A
república brasileira, nos momentos iniciais, "norteou-se por temas herdados do
período monárquico. O objetivo de conter a influência argentina no país
guarani, eixo central da diplomacia imperial, manteve-se e, aliás, exacerbou-
se, a ponto de chegar-se a uma intervenção direta na política paraguaia ao se
incentivar, em 1894, o golpe contra o presidente González"21. Passada a euforia
e manifestações de solidariedade dos países da América pela adesão do Brasil ao
sistema republicano, este se viu preocupado, novamente, com o armamentismo da
Argentina. O ministro das Relações Exteriores, Olinto de Magalhães, considerou
que era urgente, para o Brasil, armar-se, em vista da guerra que certamente
viria a ocorrer entre a Argentina e o Chile.
Tal necessidade levou o Brasil a declinar do convite para participar
da conferência sobre o desarmamento, realizada em 1899 em Haia,
convocada por iniciativa do Czar Nicolau II (...) Não poderia
comparecer para evitar comprometer-se com desarmamento no momento em
que duas das maiores nações do segmento sul do continente, bem
armadas, não eram tolhidas por igual compromisso22.
A Argentina, mais preocupada com seu litígio de fronteira na Patagônia, estava
ampliando seu arsenal de guerra para esse possível confronto aberto com o
Chile, esquecendo provisoriamente sua rivalidade com o Brasil. Em 1901 a guerra
quase explodiu, até que os Pactos de Mayo, em novembro de 1902, congelaram as
compras navais dos dois países, estabelecendo um clima de paz entre ambos. Paz
aparente, pois justamente nesses anos (1901-1902), o Chile buscava aliados na
Conferência Interamericana do México, para o caso de guerra com seu vizinho. A
possibilidade de guerra contra o Chile era, portanto, o principal motivo da
modernização das forças armadas argentinas.
Enquanto isso, o Brasil estava quase desarmado, com sua Marinha de
Guerra reduzida a proporções mínimas, devido aos distúrbios políticos
ocorridos durante a 'República das Espadas'. O Exército, por sua vez,
na prática não existia, sendo composto por soldados analfabetos e
'boçaes', incapazes de entender o conceito de disciplina, exceto por
meio de punições violentas23.
Em 1906, tendo falecido o presidente Manuel Quintana, o vice-presidente José
Figueroa Alcorta nomeou para o Ministério das Relações Exteriores um homem de
temperamento fogoso, Estanislao Zeballos. Este observou, em primeiro lugar, as
relações do Brasil com os Estados Unidos. Zeballos julgava que os Estados
Unidos apoiavam o Brasil na sua política expansionista. Nesse momento as
relações da Argentina com os Estados Unidos não eram boas; complicaram-se as
relações com o Brasil, porque o barão do Rio Branco e Estanislao Zeballos eram
velhos desafetos. Em 1906 realizou-se no Rio de Janeiro a Terceira Conferência
Pan-americana. Nesta, as rivalidades argentino-americanas não deixaram
prosperar a conferência. Os dois países estavam livrando a "primeira guerra da
carne", que durou de 1902 a 1911. Durante este período, tornou-se clara a
disputa entre os frigoríficos de capital norte-americano e os de capital anglo-
argentino24. Enquanto isto, as autoridades brasileiras homenageavam os
americanos. Se a Argentina cultivava amizade com a Alemanha, o Brasil
demonstrava sua aliança preferencial com os Estados Unidos. A diplomacia
argentina não poupou esforços para ganhar aliados entre os vizinhos, convenceu
o Executivo a comprar mais armas, e ofereceu-se para mediar a disputa do Chaco
entre a Bolívia e o Paraguai. O rearmamento brasileiro obedeceria, desde 1905,
ao objetivo de superar a Argentina, sem fins agressivos, mas como medida
cautelar25.
Assim, os anos que antecederam o Centenário da Independência estiveram
envolvidos neste clima de tensão; qualquer movimento militar, numa ou noutra
direção, era tomado como uma nova ameaça alimentando o sensacionalismo da
imprensa. O chanceler Estanislao Zeballos imaginou-se rodeado de inimigos; via
o Brasil buscando isolar a Argentina, com apoio dos Estados Unidos, e atuando
ainda junto ao Chile, ao Uruguai, à Bolívia a ao Paraguai. Com todos estes
precedentes, os organizadores da comemoração do Centenário da Independência da
Argentina dedicaram ao Chile e ao Brasil, seus dois rivais mais poderosos, um
tratamento nitidamente diferenciado. Frente às possibilidades de guerra com o
Brasil, e devido à rivalidade com os Estados Unidos por motivos econômicos e
geopolíticos, a Argentina voltou toda a sua atenção à infanta Isabel de Borbón,
representante da cultura hispânica. As pazes entre Argentina e Chile anunciavam
a união hispano-americana como estratégia para enfrentar o perigo anglo-saxão
representado pelos Estados Unidos.
Os convidados
"A Espanha enviará um príncipe - assegurava com orgulho La Razón - a
Inglaterra, um ministro da Coroa; Itália e França, o mesmo; a Alemanha e a
Áustria tampouco serão menos e assim todas até chegar às repúblicas sul-
americanas"26. Note-se o orgulho que para os argentinos representava a presença
de membros da realeza; mas a Espanha não mandou um príncipe, e sim uma robusta
infanta, Isabel de Borbón, irmã de Alfonso XII e tia do rei Alfonso XIII; a
Inglaterra, em luto oficial pela morte do rei Eduardo VII, a 6 de maio, não
enviou nenhum representante, mesmo sabendo que esta ausência favoreceria os
interesses dos Estados Unidos e da Alemanha. A festa do centenário na Argentina
sugere, por esta circunstância casual, a decadência que se avizinhava sobre o
Reino Unido. Os Estados Unidos efetivamente ocupariam o espaço deixado pela sua
ausência nas festas argentina e chilena, preparando-se desde bem cedo. O
ministro da Marinha designou os barcos que representariam os Estados Unidos nos
festejos; a divisão naval estaria composta pelos quatro couraçados mais
poderosos que jamais haviam passado pelo Rio da Prata. Os Estados Unidos iriam
medir forças com a Inglaterra, seu principal rival, aliado da Argentina na
"guerra da carne" mas, enquanto isto, o rei Eduardo morreu. Na mesma edição, La
Prensa dava a conhecer que o governo do Chile estava preparando os couraçados
O'Higgins e Esmeralda para desfilar no rio da Prata27.
Não viriam apenas delegações diplomáticas a Buenos Aires: também políticos,
arqueólogos, historiadores, médicos, advogados, literatos, dramaturgos e
artistas em geral, como Jacinto Benavente, dramaturgo espanhol, Prêmio Nobel de
1922; Vicente Blasco Ibáñez, novelista espanhol; Anatole France, membro da
Academia de Letras da França, Prêmio Nobel de 1921; Jean Jaurès, político
francês, filósofo, deputado, literato e historiador, teórico do socialismo que
morreria em 1914 assassinado por um fanático; Ramón del Valle Inclán, escritor
espanhol, considerado o mais notável romancista da época; George Clemenceau,
grande estadista francês, apelidadoEl Tigre, deputado, senador, primeiro
ministro, que dirigiria o seu país durante a Guerra Mundial; o advogado
italiano Enrico Ferri e outros28.
Inventando a amizade
No discurso comemorativo das festas do Centenário, tanto na Argentina quanto no
Chile, sempre se falou de uma velha amizade entre os dois países, embora a
verdade fosse outra. A recepção feita ao presidente chileno Pedro Montt em
Buenos Aires não deixava dúvida de que as duas nações seriam verdadeiras irmãs.
As "tradições inventadas" são conjuntos de práticas de natureza ritual ou
simbólica, visando inculcar valores e normas de comportamento pela repetição,
implicando uma continuidade com o passado29. Se não existia uma relação de
amizade entre o Chile e a Argentina, era, no entanto possível buscar esse
antigo relacionamento nas guerras de independência, quando San Martín partiu
para o Chile, atravessando os Andes, para ajudar a libertá-lo dos exércitos
realistas. Nesta retomada de uma relação essencial no passado, não havia
necessariamente que se reviver situações mais recentes, porque nestas apenas
havia rivalidade; o "Abrazo del Estrecho", 1902, não havia conseguido acalmar
os ânimos, e a assinatura de um Tratado de Comércio entre os dois países, a
partir de 1908, era apenas uma possibilidade. Da invenção, do ritual, da
repetição, do simbólico, encarregaram-se as duas festas do Centenário da
Independência30.
No caso da Argentina e do Brasil, era-lhes difícil inventar uma amizade nesse
momento da festa em Buenos Aires. Faltava-lhes uma ligação com o passado,
faltavam-lhes os planos básicos com os quais se poderia armar de novo o prédio
da amizade. Os dois países haviam sido aliados na guerra contra o Paraguai, mas
este não era um tema cabível na comemoração. O presidente do Chile, Pedro
Montt, embarcaria de trem a 18 de junho, com uma grande delegação, incluindo o
Colégio Militar, que programou sua visita ao Colégio Militar Argentino para o
dia 20; assim, desde já, inseriam-se no ritual, na repetição necessária à
invenção das tradições. Na visita que as duas escolas militares fizeram ao
túmulo do general San Martín, na Catedral Metropolitana, no dia 21, às 9 horas
da manhã, começava a consolidar-se a nova tradição. Diante daquele lugar de
memória irmanavam-se por um passado que passava a viver entre eles. "Toda
tradição inventada, na medida do possível, utiliza a história como legitimadora
das ações e como cimento da coesão grupal"31. O presidente chileno era o
primeiro chefe de Estado que cruzava os Andes numa locomotiva. A 5 de abril
ocorrera a inauguração oficial de uma ferrovia que, graças a um túnel
transandino, unia Mendoza a Valparaiso32. O presidente viajou com sua esposa,
detendo-se em vários lugares, recebendo homenagens tanto da população de seu
país como das províncias argentinas.
Falar da história do Chile, sempre havia sido lembrar o seu isolamento colonial
e republicano, de frente para o Oceano Pacífico e de costas para seu vizinho.
Agora, justamente graças à festa, um pedaço do Chile se deslocava até a
Argentina para ser conhecido e reconhecido. A imagem do Chile ir-se-ia
espalhando nas mentes de seus, de agora em diante, "irmãos" argentinos. Agora
que muitas pessoas, de diferentes províncias argentinas, haviam tido o prazer
de conhecer pessoalmente o presidente chileno, era mais possível a consolidação
daquela invenção amistosa. De agora em diante, o corpo diplomático e político
deveria ter isto em mente ao costurar as relações com seu vizinho, tendo
presente as simpatias que desde já havia conquistado o presidente Montt e a
pressão que, em caso de confronto entre as duas nações, a população poderia
exercer. "As iniciativas dos estadistas são largamente determinadas por 'forças
profundas', quer dizer, pela influência das massas"33.
Já em Buenos Aires, na manhã de 23 de maio, a cerimônia de recepção, encabeçada
pelo presidente Figueroa Alcorta, foi comparável àquela oferecida ao general
Mitre em seu regresso da guerra do Paraguai e se realizou num palco erguido em
Cangallo e Paseo de Julio, em plena zona portuária34. O presidente Figueroa
Alcorta caminhou até ali para recebê-lo e conduzi-lo até a Casa Rosada, sob os
aplausos da multidão, acompanhados pela comitiva que seguia em luxuosos coches.
Ao longo do trajeto encontravam-se diferentes regimentos argentinos que
renderam homenagens aos dois presidentes Às 11 horas, chegados à casa de
governo, penetraram no Salón Blanco, recebidos com fortes aplausos dos
presentes, e logo saíram ao balcão para contemplar o povo reunido, o que deu
lugar a estrondosa aclamação35. Aí estava a população para aclamar e abençoar a
nova amizade, que permitia pensar de maneira tranqüila nas novas relações
exteriores sem temor de uma guerra entre os dois países, que em nada os
beneficiaria. Este momento de união entre os presidentes Figueroa Alcorta e
Montt demonstrava que a passagem do cometa Halley, ao contrário do que se
temera, não havia provocado guerra nem catástrofe alguma. "El cometa había,
pues, bendecido la semana de Mayo, la semana que se esperaba con tanta ansiedad
y en que se lucirían el brillo y el status alcanzado por el país ese año de
1910. Y si el firmamento aprobaba, cómo no iban a estar orgullosos de su Patria
los mismos argentinos?"36.
Ao cair a tarde, sob um maravilhoso céu azul refletido nas mansas águas do rio
da Prata, à tarde, houve uma magnífica recepção em homenagem ao presidente
chileno e sua comitiva, com assistência do corpo diplomático argentino; à
noite, Figueroa Alcorta ofereceu ao presidente Montt um banquete na sua
residência particular. Este, logo mais, ofereceu ao mandatário argentino um
almoço a bordo do couraçado O'Higgins, herói da independência chilena que como
San Martín, ajudaria a consolidar a nova amizade. Na homenagem da Universidade
de Buenos Aires ao Centenário da Independência do Chile, que se realizou a 18
de setembro, o acadêmico Vicente C. Gallo lembraria as palavras ditas pelo
presidente chileno a Figueroa Alcorta, a bordo do O'Higgins: "a missão destas
duas repúblicas, fundada pelo gênio daqueles próceres e mantida durante um
século inteiro com sacrifício e com nobres e elevados sentimentos, é o tesouro
de paz e de fraternidade que devemos à nossa comum independência"37. Ao
entardecer do dia 26 de maio teve lugar a recepção à infanta Isabel e ao
presidente chileno pelo Congresso Nacional, reunido em magna assembléia
presidida pelos presidentes de ambas câmaras, presente o presidente argentino e
numeroso séquito. Pronunciaram-se muitos discursos de senadores e deputados,
terminando a reunião com um passeio pela recém-inaugurada praça do Congresso. A
amizade inventada devia passar também pelos corpos diplomáticos e não apenas
pelo Executivo e Legislativo; à noite teve lugar um banquete oferecido ao
presidente do Chile pelo ministro das Relações Exteriores e Culto, futuro
presidente argentino, Victorino de la Plaza, justamente a pessoa encarregada,
de agora em diante, de se entender com o país vizinho sobre os problemas de
limites.
As forças militares também se fizeram presentes. A amizade não era apenas
propósito dos presidentes, ela deveria estar ligada às instituições militares
que sempre foram decisivas, a amizade teria que ser unânime. Na inauguração do
monumento aos exércitos da independência, na praça San Martín, o ministro da
Guerra do Chile descerrou uma placa comemorativa, enquadrado pelos batalhões
escolares da capital federal e das províncias que desfilaram com seus uniformes
de gala diante da estátua do prócer da Independência, aos acordes das marchas
de San Lorenzo e de Ituzaingó"38. O desfile naval foi presenciado pelo
presidente chileno desde a fragata Sarmiento, e por cerca de 15.000 pessoas, a
bordo de vários navios que compunham a frota Mihanovich. Às 9 horas, a grande
frota saiu, liderada pela Sarmiento, rumo ao porto de La Plata, onde os barcos
de guerra estavam esperando. As canhoneiras argentinas dispararam as primeiras
salvas e logo a Sarmiento começou a revista rodeando completamente a formação
enquanto se ouviam salvas e os hinos dos países convidados. A revista naval
durou várias horas, enchendo de entusiasmo a todos os presentes. Retornando, os
barcos mantiveram-se inteiramente iluminados até o fim de sua permanência no
porto de Buenos Aires39.
Talvez algum comissionado brasileiro, observando aqueles 28 barcos de guerra,
terá refletido sobre a rivalidade entre os dois países. A Argentina estava
exibindo ritualmente o seu poder naval, seu arsenal de guerra. A tentativa do
barão do Rio Branco de formalizar em 1908 um pacto entre a Argentina, Brasil e
Chile, havia-se frustrado. Agora os dois antigos rivais estavam desfilando
unidos, na Sarmiento, pelas águas sempre presentes nos sonhos da diplomacia
brasileira. Agora esta diplomacia deveria reconhecer que o corpo da pátria não
podia estender-se até o Rio da Prata. O representante do Brasil nas festas do
centenário argentino guardaria, por acaso, a esperança de ver na revista naval
os seus amigos norte-americanos, rivais da Inglaterra e um tanto da Argentina.
Mas, no afã por destacar-se entre os poderosos do mundo, os barcos de guerra
dos Estados Unidos, tão cuidadosamente preparados para a ocasião, fundearam por
motivos desconhecidos em Puerto Belgrano, perto de Bahía Blanca, não
conseguindo chegar a tempo. O presidente Montt assistiu, das sacadas da Casa
Rosada, a outras demonstrações de poder do seu anfitrião, em especial o desfile
militar do dia 25, que reuniu 20.000 efetivos das Forças Armadas argentinas,
junto às delegações vindas da França, Uruguai, Espanha, Itália, Japão, Chile,
Alemanha, Holanda e Estados Unidos40. O desfile passou pela Plaza de Mayo,
Florida e Plaza de San Martín entre espessos cordões de um público
entusiasmado. Após o desfile, ao entardecer, a multidão encheu de novo o
Congresso, Florida e a Plaza de Mayo para ver a iluminação da cidade. Buenos
Aires inteira se comprimia no centro e não se podia transitar por nenhuma
rua41.
No dia 28 o presidente argentino despediu-se do colega chileno na Casa Rosada
acompanhando-o até a estação ferroviária. A amizade estava inventada. Os anos
de tensão por questões de fronteiras pareciam esquecidos. Não havia lugar para
a lembrança de panfletos virulentos como Por qué nos odia Chile que Eduardo
Biedma publicara em 1898, bem como de tantos preparativos e discursos belicosos
de princípios do século. Quando o Congresso da República de Argentina decidira
erigir um monumento a Bernardo O'Higgins, o presidente Montt havia declarado:
"A melhor homenagem aos patriotas de 1810 será manter a fraternidade entre as
nações às quais eles deram a liberdade"42.
A "raça ibérica" como ponto máximo da identidade argentina
Sem dúvida, a personalidade que, além do presidente chileno, mais se destacou
na comemoração argentina foi a infanta Isabel de Borbón. Desfilou com sua
figura nada esbelta, trajando-se como dama medieval, destacada em todas as
celebrações e solenidades. Trazia um belo presente: um relógio, tão grande como
ela, confeccionado em 1735, adornado com anjos de cobre e feito com as mais
nobres madeiras, seguramente levadas das colônias americanas em tempos que a
dádiva evocava43. Cerca de 300 a 500 mil pessoas deslocaram-se ao porto para
vê-la de perto, se é que isto era possível. Desde ali, passando por várias
avenidas até a mansão onde foi hospedada a princesa, a multidão de gente era
impressionante, como formigas, segundo expressão de La Prensa. Bandeiras
argentinas e espanholas pendiam de todas as casas. O cerimonial diplomático
esteve à altura da embaixada espanhola. O porto estava coberto por centenas de
barcos de muitas nações e as flores caíam sobre os carros que passavam à frente
da multidão. Os uniformes impecáveis e as armas reluzentes davam a sensação de
um conto de fadas, mais do que de realidade, segundo o jornal.44 O grande
séquito de damas encarregado de prestar as atenções necessárias a doña Isabel
foi por ela qualificado como la alta servidumbre45. Se não fosse pelo alto grau
de carinho que conseguiu despertar entre as pessoas de diferente porte, a
infanta poderia ter sido expulsa do país que, justamente neste ano, estava
comemorando a sua independência brilhante, em palavras de Jimena Sáenz, de
várias dessas servidumbres em relação à metrópole46. Foi hospedada na mansão
dos Bary, na Avenida Alvear.
Amante de verbenas y romerías, era muy popular entre el pueblo
madrileño, que la apodaba la Chata. En la historia argentina habría
de ser - para siempre - La infanta, y así corearon su nombre cada vez
que se la vio en público, o durante la manifestación que se reunió
frente a su residencia para saludarla y vivarla47.
Nessa mesma tarde, foi homenageada pelo presidente Figueroa Alcorta na Casa
Rosada, por outros muitos funcionários, assim como pela Igreja na pessoa do
bispo Espinosa. Depois, saíram à sacada da casa de governo para que todos
pudessem aclamar a infanta. Dona Isabel trouxe consigo toda seus servidores,
desde dama de companhia, penteador, camareiras, cozinheiros, mordomo, chefe de
mesa, de quarto, até o pessoal necessário para montar seu próprio escritório de
correios. Revistas e jornais espanhóis veicularam as festas do centenário
argentino graças às crônicas enviadas pela infanta. Segundo Horacio Salas, a
infanta despertou simpatia por ser a única mulher visitante e de realeza, algo
nunca dantes visto. "Simbólicamente era el cierre definitivo de las heridas y
resquemores que se arrastraban desde las guerras de independência" 48.
Além disto, era a representante da maior colônia estrangeira em terras
argentinas. A infanta chegou justamente num momento da crise, de repressão aos
seus conterrâneos; ela trazia, para milhares de espanhóis desterrados na
qualidade de imigrantes, a imagem de mãe protetora. Estes imigrantes,
principalmente espanhóis, aclamaram a infanta e seguramente realizaram, nas
letras dos tangos, uma superposição entre o corpo de Isabel e o corpo das
percantas, paicas o pebetas, mulheres mães, las buenas mujeres deixadas além-
mar ou já falecidas. María Isabel Francisca de Asís y Borbón representava o
arquétipo de mulher ideal, boa, fiel como aquela "mulher materna para a qual
regressam os desejos da humanidade"49. Sem embargo, a visita de um membro da
realeza espanhola demonstrava aos imigrantes italianos, franceses, russos,
judeus, etc., que as elites tradicionais do país tinham suas raízes na Europa e
que pelo seu corpo corria sangue ibérico, não misturado com sangue indígena ou
africano. O confronto nas guerras de independência fora apenas uma questão
política que não desfizera a relação com a Espanha. Vinham sendo criados na
Argentina, naqueles últimos anos, vários institutos de língua, de literatura,
entre outros, de raiz espanhola. O ALBUM historiográfico de Ciencias, Artes,
Industria, Comercio, Ganadería y Agricultura, 1810-1910 dedicou 68 páginas ao
engrandecimento da Mãe Pátria. Destacou várias regiões da Espanha, sua cultura,
arte, economia, etc.50 Um monumento em homenagem à Espanha foi autorizado pelo
Parlamento em fevereiro de 1909, cuja inauguração apenas foi possível em 1936.
O recém-reconstruído Cabildo exibiu de novo o escudo de armas da Espanha. A
Argentinidad deveria estar enraizada nesse país; havia que demonstrar aos
imigrantes que os sobrenomes tradicionais não se confundiam com outros de
duvidosa procedência. Até há pouco anos a elite havia rejeitado o hispânico,
preferindo o anglo-saxão, o francês e o cosmopolitismo, convocando imigrantes
brancos. Não encontrando neles o grau de civilização idealizado, optavam agora
por acentuar a cultura hispânica para distinguir-se deles. O ibérico era mais
nobre que o índio ou que o branco com sabor a anarquismo. Se a infanta Isabel
foi usada pelas elites argentinas para demonstrar sua argentinidade entrelaçada
com os sobrenomes e estirpes espanholas, também estava sendo contraposta como
representante da cultura latina, da "raça ibérica", à cultura anglo-saxônica e
protestante. Cultura latina e 'raça ibérica' - tais haviam sido os conceitos
divulgados pelas embaixadas da Espanha nos países hispano-americanos desde
1871, ano da fundação do Instituto da Língua em Bogotá, arraigando os
sentimentos da mãe pátria, dona da cultura ibérica.
Os visitantes enigmáticos
Excessivas honras à infanta e ao presidente Montt, ausência do Brasil e da
Inglaterra; mas ausência também de países como a Bolívia, e escasso interesse
na visita do vice-presidente peruano.
Después de los festejos, al descender la euforia, el público se
enteraría por comentarios periodísticos de que el gobierno había
dejado pasar algunos días sin atender al vicepresidente del Perú,
Eugenio Larraburu y Unanue, quien viajó con sus hijos en
representación de su patria51.
Igual desinteresse em relação à Costa Rica e ao Paraguai. A ausência da Bolívia
é compreensível se tivermos em conta que entre a Argentina e este país,
existiam ainda problemas pela posse do Chaco52. Mas também é possível que os
argentinos não quisessem lembrar as várias derrotas dos exércitos enviados por
Buenos Aires ao Alto Peru durante o processo de independência, nem a firme
decisão dos patriotas e realistas bolivianos em vincular-se ao mundo andino. Os
demais países vizinhos não eram amigos nem inimigos declarados. A Argentina
podia prever os passos a seguir na relação política com seu rival, o Brasil, e
de agora em diante com seu aliado, o Chile, mas a posição dos diplomatas
bolivianos, peruanos, paraguaios ou uruguaios era indefinida. A indiferença
argentina obedecia a uma evidência: estes "outros" tinham uma arma poderosa nas
suas mãos, a incerteza. "Na melhor das hipóteses, a incerteza é sentida como um
desconforto. Na pior das hipóteses, ela provoca uma sensação de perigo"53.
O Peru compareceu, mas era um tradicional inimigo do Chile. O Paraguai estava
vivendo um clima de insurreição no meio sociopolítico; enviou uma comissão
chefiada pelo ministro da Guerra Albino Jara e o do Interior, Adolfo Riquelme,
que aproveitaram a ocasião para aproximar-se dos generais exilados Ferreira e
Caballero em busca de um pacto de conciliação promovido pela chancelaria
argentina54. Meses depois, Albino Jara alcançaria a presidência. Pelo visto, a
festa serviu para articular alianças multifacetadas, com a firme presença
argentina. Alguns países não tinham poder militar mas eram estranhos. Mesmo que
tenham comparecido, a Venezuela, a Colômbia, e o Equador praticamente não são
citados nas fontes consultadas. Talvez porque "o estranho solapa a organização
espacial do mundo: a coordenação que se busca entre a moral e a proximidade
geográfica, a intimidade dos amigos e a distância dos inimigos. O estranho
perturba a ressonância entre a distância física e a distância psíquica - ele
está fisicamente próximo, enquanto permanece espiritualmente distante"55.
Colombianos e equatorianos não podiam ser muito bem-vindos na comemoração
argentina quando sabido era que, em momentos de grande tensão entre Argentina e
Chile, eles haviam sido os maiores aliados do inimigo. O Chile mantinha boas
relações com estes países pois existiam tensões entre estes e o Peru por
pendências fronteiriças; o Chile seria um dos países privilegiados quando a
Colômbia abrisse o Canal do Panamá, esperanças perdidas em 1903. Assim, caso
houvesse uma guerra entre Chile e Argentina, a Colômbia e o Equador, com
certeza, teriam apoiado o Chile.
Os grandes temas tratados na festa
O tema central do Congresso Pan-americano girou em torno da Doutrina Monroe,
discutindo-se se era possível sua aplicação a todos os países da América. Como
era de se esperar, houve total oposição a respeito. Os Estados Unidos só foram
apoiados pelo Uruguai. Essa rejeição expressava a união dos países latino-
americanos e o ressurgimento dos ideais bolivarianos, tal como aconteceria na
comemoração do Centenário no Chile e na Colômbia. O delegado dominicano,
indignado pelos acontecimentos recentes ocorridos na América Central, propunha
"fundar en París un periódico que proclamando a Hispano-américa para los
hispanoamericanos nos trajese a la idea del gran Bolívar y del primer congreso
peruano"56. Manuel Ugarte editou em Paris El porvenir de la América Española,
preocupado com o expansionismo dos Estados Unidos em prejuízo do México que já
havia perdido várias províncias, com o quase protetorado sobre Cuba e com o
canal que absorvia a América Central; "nadie sabe ante qué río o ante qué
montaña se detendrá el avance del país". A única possibilidade de enfrentá-lo
seria a unidade latino-americana57. Os chanceleres argentinos vinham desde
princípios do século contrapondo a Doutrina Drago à Doutrina Monroe. Invocando
a agressão feita à Venezuela em 1902, quando a Alemanha, Inglaterra e Itália
cobraram o pagamento da suas dívidas pela força das canhoneiras, o Brasil e a
Argentina haviam reagido contra a omissão do governo dos Estados Unidos, que em
tal situação alegou que a Doutrina Monroe não se aplicava a um país que
deixasse de cumprir suas obrigações. A Doutrina Drago não prosperara em razão
das difíceis relações entre as duas nações sul-americanas. Já na Conferência de
Haia, em 1907, o representante brasileiro Rui Barbosa manifestou o desejo de
que os países latino-americanos e os países pequenos da Europa se organizassem
como países iguais entre as nações "grandes", perante a lei58. No Congresso
Pan-americano de 1910, a Argentina preferiu aguardar uma ocasião mais propícia
para o entendimento com o Brasil. Os Estados Unidos representavam perigo para
as nações mais fracas e instáveis; mas, no centenário, os argentinos, ao
contrário da Colômbia e do Chile, pensavam que o país, com seu poderio, não
tinha muito que se preocupar, considerando que seu pertencimento à América
Latina era um mero acidente geográfico. O país era europeu embora estivesse
situado do outro lado do Atlântico59. O sistema econômico argentino beneficiava
naquele momento a todos, "la abundancia era tal, que las migajas que caían de
la mesa del festín de las exportaciones no dejaban de ser sabrosas, sino
siempre suficientes" 60.
Assim, a nação programada pelos homens da Geração dos Oitenta chegara ao limite
de um processo histórico em todas as suas facetas. Estavam demonstrados ao
mundo avanços na medicina, na química, eletricidade, física, engenharia, nas
armas de guerra, na reprodução de melhores sementes e exploração extensiva da
agricultura; estava criado um sistema educativo estatal ideologicamente
liberal; as vantagens do automóvel já estavam sendo desfrutadas em Buenos
Aires. Na Exposição Universal se exibiram aparelhos tecnologicamente avançados,
as santiaguinas mostraram os últimos figurinos trazidos da França; as mulheres
deram a conhecer seus sentimentos e preocupações acerca do mundo. Discutiu-se a
Doutrina Monroe, o Prussianismo, o Socialismo. O principal orador que se
dedicou a este tema, Enrico Ferri, declarou que o socialismo deveria se
desenvolver em países com profundas raízes industriais; o industrialismo
criaria as condições do socialismo; assim, tal ideologia, na Argentina, não
passava de um transplante61.
Com o centenário, no mundo inteiro se falou da Argentina, de seus costumes, da
sua imagem. Foram escritos numerosos livros, crônicas, folhetos sobre as
riquezas e encantos do país, por estrangeiros e nacionais, em muitas línguas.
Se antes de 1910 a Europa tinha apenas uma vaga idéia sobre o país, considerado
exótico, com vantagens sim, mas demasiado distante e selvagem, agora o tom era
outro. Um dos convidados europeus chamou a atenção do orgulhoso Velho Mundo:
"cesa de admirarte, en el mundo hay algo más que tú. Mira por encima del océano
y contemplarás los fulgores del alba de un nuevo día que empieza, los primeros
esfuerzos de la humanidad del mañana, los vigorosos latidos del embrión del
porvenir" 62.
Entretanto, não se tratava de difundir apenas costumes e grandezas do país
austral, era preciso principalmente divulgar a imagem da Argentinidad frente ao
cosmopolitismo e frente aos Estados Unidos, o perigo do Norte. Assim se
compreende a luta infatigável por estabelecer boas relações e afiançar raízes
com a Espanha, a Alemanha e mesmo com o Chile, países brancos, diferentes
culturalmente dos anglo-saxões, mas também distintos da Bolívia, do Peru, do
Paraguai, nações índias. A festa permitia demonstrar aos imigrantes anarquistas
e socialistas, que a elite argentina descendia de heróis da independência, da
guerra contra o Paraguai e das Campanhas do Deserto. Nos desfiles do centenário
reservaram-se palcos e sacadas especiais para os veteranos dessas guerras ou
para seus herdeiros. No dia 23 de maio, várias entidades organizaram uma
manifestação de patriotismo pelas avenidas de Buenos Aires; aí estavam
los veteranos de la guerra del Paraguay con el uniforme de gala y el
pecho cubierto de medallas (...) Los expedicionarios al Desierto se
han reunido en un grupo compacto. Todos ellos desfilan entre vivas a
la patria, a la revolución de Mayo y a los próceres de la
Independencia. Tampoco faltan vivas (...) a España y a la infanta
Isabel63.
Não era uma simples manifestação patriótica; esta era uma resposta clara aos
grevistas, ao anarquismo, ao socialismo e às demais correntes sindicalistas. A
argentinidade se criava mesclada com uma ideologia política bem definida.
Segundo José Luis Romero,
la celebración del Centenario forzó las posiciones frente a la
realidad nacional. Se afianzaron en sus convicciones quienes a la luz
de severo análisis, renegaban de las tradiciones hispano-criollas, y
siguieron esperándolo todo del ejemplo anglosajón; se robustecieron
en sus ideas los que temían la influencia del cosmopolitismo y
propiciaron una política de decidida absorción de la población de
origen extraño; y no faltaron quienes cerraron los ojos a todo examen
y se dejaron ganar por un optimismo fácil y un conformismo
superficial, que derivaron en formas groseras de patriotismo muy a
tono con las formas externas del regocijo oficial propio de la
fecha64.
Os organizadores dos regozijos oficiais exibiram quantos uniformes, medalhas e
demais elementos pertencentes aos heróis da Independência pudessem encontrar. O
Parlamento programou a construção de vários lugares de memória: dez estátuas em
várias cidades do país e de dois monumentos. Reproduziram-se vários documentos
da época da emancipação, e se editaram livros dos mais importantes heróis. Todo
isto demonstraria de onde provinha a elite argentina, quais seus ascendentes,
suas raízes, qual a Argentinidad a implantar no país e divulgar ao mundo. A
construção da Argentinidad não apenas reforçaria as relações internacionais,
também fortaleceria o nacionalismo e o respeito às instituições65.
1 Este artigo é extensivamente baseado na tese de doutorado do autor,
intitulada Festa e forças profundas na comemoração do Primeiro Centenário da
Independência na América Latina (estudos comparativos entre Colômbia, Brasil,
Chile e Argentina), apresentada ao programa de pós-graduação em História da
Universidade de Brasília, em 2000.
2 "Images et imaginaire dans les relations internationales depuis 1938:
problèmes et méthodes. In : FRANK, Robert (org.). Les Cahiers de l'Institut
d'Histoire du Temps Présent, 28. Paris : IHTP, Juin, 1994. Ver ainda VIOTTI,
Paul R. & KAUPPI, Mark V. International Relations Theory. New York: 1994,
cap. I, "Theory, Images, and International Relations: an Introduction", p. 1-
19. Y
3 EYZAGUIRRE, Jaime. Historia de las instituciones políticas y sociales de
Chile. Santiago: Universitaria, 1997.
4 EYZAGUIRRE, Jaime. Breve historia de las fronteras de Chile. Santiago de
Chile: Universitaria, 1968, p. 80.
5 Ibidem, p. 82-87.
6 CASTEDO, Leopoldo. Resumen de la Historia de Chile, 1891-1925. Tomo IV.
Santiago: Zig-Zag, 1982, p. 371.
7 Francisco A. Encina, citado por CASTEDO, Leopoldo. Op. cit., p. 311.
8 OTERO, Delia del Pilar. El sistema de arbitraje y las disputas regionales
latinoamericanas en la Conferencia Interamericana de México (1901-1902). In
CERVO, Amado Luiz & DÖPCKE, Wolfgang. Relações internacionais dos países
americanos. Vertentes da História. Brasília: Ed. da UnB, 1994, pp. 221-229.
9 BERNAL MEZA, Raúl. Chile entre Gran Bretaña y Estados Unidos: evolución
histórica de sus relaciones. Ciclos, año VI, vol. VI, nº 10, 1996, p. 119-160.
10 MONIZ BANDEIRA, L. A., O Expansionismo brasileiro e a formação dos Estados
na Bacia do Prata. Argentina, Uruguai e Paraguai da colonização à guerra da
Tríplice Aliança. Brasília: Ed. da UnB/Ensaio, 1995; JOCHIMS REICHEL, Heloisa
& GUTFREIND, Ieda. Fronteiras e Guerras no Prata. São Paulo: Atual, 1995;
MONTEOLIVA DORATIOTO, Francisco F. A Guerra do Paraguai. São Paulo:
Brasiliense, 1991; As Relações entre o Império do Brasil e a República do
Paraguai, (1822-1889). Brasília: UnB, Dissertação de Mestrado, Departamento de
História, 1989; As Relações entre o Brasil e o Paraguai (1889-1930): Do
afastamento pragmático à reaproximação cautelosa. Brasília: UnB, Tese de
Doutorado, Departamento de História, 1998; CERVO, Amado Luiz & RAPOPORT,
Mario (orgs.). História do Cone Sul. Brasília:Rio de Janeiro; Ed. da UnB:Revan,
1998. Y Y Y Y Y
11 MAGNOLI, Demétrio. O Corpo da Pátria. Imaginação geográfica e política
externa no Brasil (1808-1912). São Paulo: Unesp/Moderna, 1997.
12 RENOUVIN, Pierre. Historia de las Relaciones Internacionales. Madrid:
Taurus, 1964.
13 DUROSELLE, J. B., Tout Empire Périra. Théorie des Relations Internationales.
Paris: Armand Colin Éditeur, 1992; A Europa de 1815 aos nossos dias. São Paulo:
Pioneira, 1985. RENOUVIN, Pierre & DUROSELLE, J. B., Introdução à História
das Relações Internacionais. São Paulo: Difusão Européia do Livro, 1964. Y Y
14 CERVO, Amado Luiz. Relações Internacionais do Brasil. In CERVO, Amado Luiz
(org). O Desafio Internacional. Brasília: Ed. da UnB, 1994, p. 26; Estados
Unidos, Brasil e Argentina nos dois últimos séculos. In: CERVO, Amado Luiz
& DÖPCKE, Wolfgang (orgs). Relações Internacionais dos países americanos.
Vertentes da História,Op. cit., p. 358-367. Y
15 ORTIZ, Eduardo L. Ciencia, enseñanza superior y fuerzas armadas, 1850-1950.
Ciclos, año IV, vol. IV, nº 6, 1994, p. 10-11.
16 LLAIRO, María de Monserrat & SIEPE, Raimundo. Las Relaciones Argentino-
Alemanas y la política exterior del Estado-Nación argentino entre 1880 y 1914.
In: CERVO, Amado Luiz & DÖPCKE, Wolfgang (orgs). Relações Internacionais
dos países americanos. Vertentes da História, Op. Cit., p. 92-102.
17 MONIZ BANDEIRA, L. A. As relações regionais no Cone Sul: iniciativas de
integração. In: CERVO, Amado Luiz & RAPOPORT, Mario (orgs.). História do
Cone Sul. Op. cit., p. 290-333.
18 CERVO, Amado Luiz. O Parlamento Brasileiro e as Relações Exteriores (1826-
1889). Brasília: Ed. da UnB, 1981, p. 122-132.
19 LLAIRO, María de Monserrat & SIEPE, Raimundo, "Las Relaciones Argentino-
Alemanas y la política exterior del Estado-Nación argentino entre 1880 y 1914".
Op. cit., p. 100.
20 MONIZ BANDEIRA, L. A. As relações regionais no Cone Sul: iniciativas de
integração.In: CERVO, Amado Luiz & RAPOPORT, Mario (orgs.). História do
Cone Sul, Op. cit., p. 298; Adelar Heinsfeld A geopolíitica nas relações Brasil
x Argentina. A questão de Palmas. In: MENEZES, Albene Miriam F., LUBISCO
BRANCATO, Sandra Maria et. al.Estados Americanos: Relações Continentais e
Intercontinentais. Anais do II Simpósio Internacional de Relações
Internacionais. Passo Fundo: Ediunpf, 1997, p. 199-206. Y
21 MONTEOLIVA DORATIOTO, Francisco Fernando. Do afastamento pragmático à
reaproximação cautelosa. Brasília: UnB, Tese de Doutorado, Departamento de
História, 1998. Op. cit., p. 119.
22 BUENO, Clodoaldo. Idealismo e rivalidade na política externa brasileira da
República: as relações com a Argentina (1889-1902). In: MENEZES, Albene Miriam
F. & LUBISCO BRANCATO, Sandra Maria (orgs.). Anais do Simpósio O Cone Sul
no Contexto Internacional. Porto Alegre: EDIPUCRS, 1995, p. 41-46.
23 DORATIOTO, Francisco. As Relações entre o Brasil e o Paraguai (1889-1930):
Do afastamento pragmático à reaproximação cautelosa.Op. cit., p. 134-135.
24 CÁRDENAS, Eduardo J. & PAYA, Carlos M. En camino a la democracia
política, 1904-1910. Buenos Aires: La Bastilla, 1980, p. 316. In: Félix Luna
(org.). Memorial de la Patria (Coletânea).
25 DORATIOTO, Francisco. Op. cit., p. 202-203.
26 La Razón, Buenos Aires, 15.1.1910.
27 La Prensa, Buenos Aires, 5.1.1910.
28 PUEYRREDÓN, Victoria, Visitas ilustres. In: PAGGI, Raúl (ed.). Nuestro
Siglo. Historia Gráfica de la Argentina Contemporánea. Buenos Aires: La
Fontana, 1980, p. 72.
29 HOBSBAWM, Eric & RANGER, Terence. A Invenção das Tradições. Rio de
Janeiro: Paz e Terra, 1997, p. 9.
30 O Chile comemorou o Primeiro Centenário da Independência a 18 de setembro de
1910.
31 HOBSBAWM, Eric & RANGER, Terence. Op. cit., p. 21.
32 Caras y Caretas, año XIII, nº 602, Buenos Aires, 16.4.1910.
33 DUROSELLE, J. B. A Europa de 1815 aos nossos dias. Op. cit., p. 133.
34 PAGGI, Raúl (ed.). Op. cit., p. 76.
35 La Prensa, Buenos Aires, 24.5.1910.
36 SÁENZ, Jimena, Entre dos Centenarios, 1910-1916. Buenos Aires: La Bastilla,
1988. In: Félix Luna (org.), Memorial de la Patria (Coletânea), p. 13.
37 Conmemoración del Centenario de Chile. Universidad de Buenos Aires, Facultad
de Derecho y Ciencias Sociales. Buenos Aires, Imprenta de Coni Hermanos, 1910,
p. 27-28.
38 Programa Oficial de las Fiestas del Primer Centenario de la Independencia,
1910, op. cit.
39 SALAS, Horacio. Op. cit.,p. 128.
40 PAGGI, Raúl (ed.). Op. cit., p. 76-77.
41 SÁENZ, Jimena, Miedo y festejos en el Centenario. Todo es Historia, nº 71,
Buenos Aires: 1973.
42 SALAS, Horacio. Op. cit., p. 117.
43 O relógio pode ser visto na Biblioteca Reservada do Congresso Argentino em
Buenos Aires.
44 La Prensa, Buenos Aires, 19.5.1910.
45 As damas eram Elisa Uriburu de Castell, Rosa H. de Elía, Dora de Bary de
Cazón, Carmen Marcó del Pont de Rodríguez Larreta e a senhorita María Baudrix.
46 SÁENZ, Jimena, Entre dos Centenarios, 1910-1916. Op. cit., p. 16.
47 SALAS, Horacio, Op. cit., p. 113.
48 Idem, p. 116.
49 DURAND, Gilbert, As Estruturas Antropológicas do Imaginário. Lisboa:
Presença, 1989, p. 163.
50 Centenario Argentino, 1810-1910. Op. cit., pp. 281-344.
51 Idem, p. 121.
52 DORATIOTO, Francisco. Op. cit., p. 235.
53 BAUMAN, Zygmunt. Modernidade e ambivalência. In FEATHERSTONE, M. (org.).
Cultura Global. Petrópolis: Vozes, 1995, p. 159.
54 DORATIOTO, Francisco. Op. cit., p. 243
55 BAUMAN, Zygmunt. Modernidade e ambivalência. Op. cit. p. 162.
56 Caras y Caretas año XIII, nº 617, 30.7.1910.
57 SALAS, Horacio. Op. cit., p. 305.
58 DE ARAGÃO E FROTA, Luciara Silveira. Brasil-Argentina, divergências &
convergências. Brasília: Centro Gráfico do Senado Federal, 1991, p. 49-53.
59 SALAS, Horacio. Op. cit., p. 305-306.
60 CÁRDENAS, Eduardo J. & PAYA, Carlos M. Op. cit., p. 299.
61 SALAS, Horacio. Op. cit., p. 191.
62 BLASCO IBÁÑEZ, Vicente. Argentina y sus grandezas. Madrid: La Editorial
Española Americana, 1910, p. 93.
63 SALAS, Horacio. Op. cit., p. 135.
64 ROMERO, José Luis. El desarrollo de las ideas en la sociedad argentina del
siglo XX. México-Buenos Aires: F.C.E., 1965, p. 65
65 Em 1919 BELTRÁN, Juan G. publicou La Argentinidad, sus orígenes y sus
características más resaltantes. Destaca, entre os elementos mais importantes
da argentinidade a língua latina como a mais importante língua do futuro, que
haveria de substituir as línguas mais difundidas na época. Define Pátria
Argentina como uma sociedade fundida em um solidário sentimento e em análogas
formas de pensar, de proceder, de mover-se e de buscar um mesmo fim pessoal e
coletivo. "La Patria es la armonia y la concordia de todos sus habitantes,
mancomunados por el afecto y el recíproco respeto; a su amparo la libertad
germina lozana y nadie estorba a nadie". O patriotismo consistia em amar,
honrar e servir à pátria. As inspirações do patriotismo e da cultura haviam
triunfado sobre a anarquia, sobre as violências e as opressões; o ar saudável
da democracia tudo penetrava e vivificava.