O Paquistão e as estratégias ocidentais para a Ásia Meridional
Ao longo de 2002, a situação na Ásia Meridional mostrou-se tensa o bastante
para justificar a preocupação das potências ocidentais. Paquistão e Índia, em
uma de suas crises periódicas, concentraram cerca de um milhão de soldados em
ambos os lados da Linha de Controle (LoC, na usual sigla inglesa) que divide a
Cachemira e da fronteira comum. Embora as tensões diminuíssem, com a retirada
das tropas indianas e paquistanesas para suas posições normais, permaneceu a
animosidade entre os dois países. O governo dos Estados Unidos, potência
externa mais atuante no quadro da Ásia Meridional, continua a manifestar sua
preocupação com o estado político da região. Conforme declarado por Christina
Rocca, Assistant Secretary of State para Assuntos do Sul da Ásia ao Comitê de
Relações Exteriores do Senado norte-americano, "We helped to successfully walk
India and Pakistan back from the brink of war last year".1 Mesmo que se julgue
essa afirmação excessiva, é fato sabido que altos dirigentes dos Estados Unidos
e de outras potências procuraram sucessivas vezes os governantes do Paquistão e
da Índia, sugerindo moderação. Também é conhecida a séria preocupação revelada
pelas autoridades paquistanesas, e por muitos observadores em Islamabade, a
respeito dos riscos de degeneração das tensões com a Índia, a ponto de acabar
em mais um conflito.
Dados gerais da situação
As tensões indo-paquistanesas têm raízes profundas e antigas. Em primeiro
lugar, avulta a questão da Cachemira, vista em Islamabade como o core issue das
relações bilaterais. O Paquistão acusa a Índia de se recusar a tratar, no
âmbito bilateral, da questão que domina as demais, desde a independência de
ambos, em 1947. Islamabade também acusa Nova Délhi de desrespeitar as
resoluções da ONU sobre a matéria. A Índia, por sua vez, acusa o Paquistão de
promover atentados na Cachemira indiana, por agente interposto, a saber, as
organizações da jihad que a seu ver se baseiam em território paquistanês; para
a Índia, as ações da jihadnão passam de cross-border terrorism, segundo a
expressão costumeiramente empregada. A noção tem implicações importantes. Caso
fosse aceita a tese indiana do "terrorismo transfronteiriço", o Paquistão
ficaria contra a unanimidade internacional forjada após os atentados de 11 de
setembro de 2001. O Paquistão, por sua vez, nega a existência de terrorismo
transfronteiriço, através da LoC, e diz que essa acusação constitui tentativa
da Índia de difamá-lo, de maneira a indispô-lo com a comunidade internacional e
a encobrir as violações maciças de direitos humanos que a seu ver são cometidas
pelas forças indianas na Cachemira.
As tensões entre o Paquistão e a Índia não representam apenas mais um quadro de
confrontos, entre tantos outros. A Índia é a segunda nação mais populosa do
mundo e conta com um dos maiores dispositivos militares do planeta. É clara sua
intenção de prosseguir sua trajetória emergente, inclusive pela possível
aquisição de lugar permanente no Conselho de Segurança da ONU. Com cerca de 140
milhões de habitantes, o Paquistão é o país muçulmano de maior população, após
a Indonésia, e projeta constantemente seu papel no âmbito da Organização da
Conferência Islâmica, que congrega cinqüenta e seis nações. Tanto o Paquistão
quanto a Índia dispõem de armas nucleares e desenvolvem novos sistemas de
mísseis.
As implicações internacionais também são consideráveis. O Paquistão é vizinho
do Afeganistão; sua cooperação mostrou-se indispensável para o combate ao
Talibã. Através do Afeganistão, a Ásia Central tem no Paquistão um escoadouro
potencial para seus produtos, sobretudo para petróleo e gás natural. Ainda no
que refere à região de contato entre a Ásia Meridional, a Ásia Central e o
Oriente Médio, o Paquistão faz fronteira com o Irã. O litoral paquistanês, no
Mar da Arábia, permite acesso rápido ao Golfo Pérsico e às rotas internacionais
do petróleo.
A Índia, com sua população e sua massa territorial, escudada em considerável
dispositivo militar, é a potência regional de presença mais marcante entre o
Extremo Oriente e os países árabes do Golfo. Como potência emergente, na
fronteira meridional da China (esta última tida por muitos como uma próxima
superpotência)2, a Índia atrai as atenções de todos os planejadores
diplomáticos. Entre as diversas regiões já mencionadas, que incluem as porções
central e meridional da Ásia, há relações complexas, por vezes submetidas a
grandes tensões, quando não a conflitos armados, e todas mostram acentuado
dinamismo político. No Irã vê-se a disputa entre a ala reformista, favorável à
aproximação com o Ocidente, e a tendência mais tradicional, nacionalista e
islamizante. No Afeganistão observa-se continuada instabilidade, fora de Cabul;
o regime afegane pós-Talibã continua necessitando da proteção de forças
estrangeiras e da assistência econômica internacional. Na Ásia Central ocorre
uma evolução diferenciada, onde as relações com a Rússia ou os Estados Unidos
podem ganhar maior relevo, conforme o caso. Entre a Índia e a China desenvolve-
se uma possível aproximação, em um processo que está longe de ter sido
completado. Para o Paquistão, a China é o all-weather friend (outra expressão
costumeira), o aliado tradicional e infalível,3 ao passo que a Índia é uma
incógnita: das turbulentas relações com a Índia surgiram diversos conflitos e,
no entanto, ela poderia tornar-se um parceiro econômico da maior importância
para o Paquistão.
Interesses ocidentais
Nesse quadro de interesses e de conflitos, as grandes potências têm motivos de
sobejo para projetar suas políticas. Aqui surge um complicador maior para o
quadro já complexo do Sul da Ásia, a saber, as diferenças entre as grandes
potências, que se manifestaram de forma súbita e aguda a partir da crise em
torno do Iraque. Até o fim de 2002, quando ganhou intensidade essa crise, os
projetos das grandes potências mantinham linhas gerais que exprimiam um
consenso: contenção das tensões indo-paquistanesas; não-proliferação nuclear;
cerceamento do desenvolvimento e uso de mísseis; ortodoxia econômica; e
liberalismo político, de maneira a alicerçar regimes constitucionais e civis.
Para tornar operacional essa visão das relações internacionais, havia um duplo
recurso: pressões diplomáticas de monta, sob a forma da promoção de
instrumentos bilaterais, entre eles o Tratado sobre a Não-Proliferação de Armas
Nucleares (TNP); e a aplicação de sanções, que podiam ser bilaterais ou
coletivas. As sanções conferiam força não desprezível a essas políticas, ao
passo que tratados e resoluções da ONU as associavam às noções de consenso e
legitimidade.
O conflito no Afeganistão minou a política de sanções. Os Estados Unidos e seus
aliados precisavam do apoio do Paquistão, sem o qual não seria possível selar a
fronteira afegane nem derrotar o Talibã. As sanções foram suspensas após a fase
de definições e alinhamentos de setembro-outubro de 2001. Entretanto, mantinha-
se a unidade essencial de políticas das potências ocidentais para o Sul da
Ásia. As grandes potências continuavam a exigir a adesão de Islamabade ao TNP e
ao Tratado de Proibição Total de Testes Nucleares (CTBT), assim como
continuavam a esperar seu entendimento com Nova Délhi. Dentro desses mesmo
critérios, exigiam do Paquistão que não intercambiasse tecnologia nuclear nem
de mísseis com outros países. Também exigiam que o Paquistão se abstivesse de
fornecer meios materiais à insurreição na Cachemira indiana ou de apoiar
movimentos da jihad no exterior.
A crise iraquiana introduziu nova e poderosa perturbação nesse quadro
consensual. Na verdade, introduziu uma alteração fundamental, ao provocar a
ruptura da unidade das grandes potências. O Paquistão havia encontrado uma
posição aparentemente segura, ao se alinhar com as potências ocidentais em
2001: obtinha assistência econômica, com o fim das sanções; protegia suas bases
nucleares, apesar da insistência formal das grandes potências no TNP e no CTBT;
e evitava que a coligação internacional antiterror, dirigida contra os
anteriores aliados paquistaneses do Talibã, concedesse carta branca a Nova
Délhi, em seu confronto crônico com Islamabade. Dado do maior relevo, para o
governo paquistanês, as potências ocidentais reconciliavam-se com o regime
militar em Islamabade, antes objeto de sanções específicas, aplicadas quando da
derrubada do Primeiro Ministro Nawaz Sharif, em 1999.
Com a divisão entre as grandes potências, em função da crise iraquiana, e das
conseqüentes disputas no Conselho de Seguranca da ONU, o Paquistão foi chamado
a se definir. O Primeiro Ministro Zafarullah Jamali e o Ministro Khurshid
Kasuri, dos Negócios Estrangeiros, receberam telefonemas de dirigentes dos dois
grupos de potências. Também ocorreram visitas de alto nível, efetuadas tanto
pelos Estados Unidos quanto pelo Iraque. O país mais influente no Paquistão são
os Estados Unidos. Porém a população paquistanesa está contra a guerra. O
prestígio da Rússia, da Alemanha e da Franca aumentou de maneira visível, com
pronunciamentos favoráveis de dirigentes partidários e artigos na imprensa
sobre a atitude desses países. A China, que já dispunha de excelente imagem no
Paquistão, foi mais uma vez louvada por não aderir á coalizão voltada contra o
Iraque. O governo paquistanês anunciou sua posição contrária à guerra no
Iraque, sem entretanto criticar frontalmente os Estados Unidos.
São graves, do ponto de vista paquistanês, as conseqüências da ruptura
ocidental para as relações internacionais no Sul da Ásia. Embora o Paquistão
não tenha interesse em domínios hegemônicos no quadro das relações globais,
conforme o modelo que se convencionou chamar de unipolar, a divisão entre as
grandes potências suscita dilemas graves para Islamabade. Esses dilemas afetam
políticas essenciais do Paquistão, desde seu plano de soerguimento econômico
até as questões de armamentos. É dentro desse quadro de incertezas que se
inserem as estratégias ocidentais para a Ásia, e diante desse quadro o
Paquistão terá de tomar decisões fundamentais. Suas decisões também estão
ligadas a questões igualmente dilemáticas no plano interno, como se verá
adiante.
A tradicional aliança do Paquistão com as potências ocidentais
Diante das questões assinaladas acima, e dos riscos daí decorrentes, como
define o Paquistão suas prioridades e seus alinhamentos? Mehrunnisa Ali, em sua
introdução ao livro Readings in Pakistan Foreign Policy, assinala certas
constantes que a seu ver marcam meio século de política exterior de Islamabade,
desde a independência. O primeiro aspecto é a preeminência concedida às
relações com os Estados Unidos, no afã de garantir a segurança nacional contra
ameaças externas, com a manutenção dos laços especiais entre as elites
dirigentes do Paquistão e Washington, através de sucessivas alterações do
quadro internacional, e apesar de momentos mais frios nas relações bilaterais.
O segundo, a primazia concedida à disputa com a Índia em torno da Cachemira,
que levou à implantação de esquemas maciços de armamentos, tanto convencionais
quanto nucleares. Um terceiro aspecto é a passagem da necessidade de
assistência econômica externa, em seguida à independência (processada de tal
forma que deixou o Paquistão com necessidades imensas e recursos diminutos), à
execução de políticas ligadas a empréstimos do exterior, a tal ponto que a
estabilidade de sucessivos governos passou a ser condicionada pelo fluxo de
empréstimos administrados pelo FMI e pelo Banco Mundial.
Ainda conforme assinalado por Mehrunnisa Ali, estando o Paquistão encaixado
entre a Índia poderosa e hostil e o Afeganistão, pouco amigável (embora nem
sempre), Islamabade procurou garantias em alianças com os Estados Unidos.
Tratando-se porém de uma aliança entre parceiros desiguais, com interesses
muitas vezes divergentes, era inevitável que o Paquistão de tempos em tempos se
visse diante de dilemas e de dificuldades. Em particular, no tempo da Guerra
Fria, a política dos Estados Unidos para a Ásia, como se via em iniciativas e
pactos como a Organização do Tratado do Centro (Cento) e a Organização do
Tratado do Sudeste Asiático (Seato), tinha por objetivo maior conter a
influência soviética, ao passo que o do Paquistão consistia sobretudo no de
evitar pressões, quando não ataques, vindos do exterior.4 Isso teria de
resultar em atitudes não coincidentes com as dos Estados Unidos, a exemplo das
relações com a China. Pode ser acrescentado que em 2001-2003 o Paquistão viu
essa dicotomia ser levada a um ponto extremo, com o conflito no Afeganistão, o
recrudescimento das tensões com a Índia e o ataque ao Iraque. Acrescente-se
ainda que até 2002-2003, antes da crise iraquiana, o Paquistão podia efetuar
seus cálculos em função de uma estratégia relativamente unificada das potências
ocidentais, ao passo que a partir de então tem sido defrontado com um quadro
internacional menos nítido.
Conflitos e negociações que balizam a situação no Sul da Ásia
Serão indicados a seguir, de maneira esquemática, alguns dos momentos que
contribuíram para conformar a situação presente na Ásia Meridional.
1947 ' Independência do Paquistão e da Índia. Primeiro conflito entre os dois
novos países, com deslocamentos maciços de populações, em condições extremas de
violência. A situação da Cachemira permaneceu indefinida.
1965 ' Novo conflito indo-paquistanês, em torno da Cachemira, que continuou
dividida.
1971 ' Terceira guerra indo-paquistanesa. A Índia intervém no Paquistão
Oriental, onde a corrente nacionalista obtém a independência de Bangladesh.
Prejuízos imensos para o Paquistão, que perde o lugar de mais populoso país
islâmico. A Índia conserva 93.000 prisioneiros de guerra do Paquistão.
1972 ' Acordo de Simla, que leva à libertação dos prisioneiros de guerra
paquistaneses e consagra a negociação do contencioso indo-paquistanês por meios
pacíficos, no âmbito bilateral ou por qualquer outro meio pacífico que as
partes indicarem.
1998 ' A Índia efetua testes nucleares em maio, sendo seguida, poucos dias
depois, pelo Paquistão. As potências ocidentais aplicam sanções sobre os dois
países, que têm efeito muito mais pronunciado sobre o Paquistão.
1999 ' No início desse ano o Primeiro Ministro Nawaz Sharif e o Primeiro
Ministro Vajpayee encontram-se na cidade paquistanesa de Lahore, dando início
ao que se espera ser a superação da hostilidade bilateral. Para surpresa geral,
ao começar a estação quente, que franqueia os passos nas altas montanhas entre
os dois países, grupos de mujahideen (segundo o Paquistão), ou forças
paquistanesas (segundo a Índia) tomam posições estratégicas do lado indiano da
Linha de Controle que divide a Cachemira: é a "quase-guerra" de Kargil. A Índia
ameaça com retaliações mais amplas. O Primeiro Ministro Nawaz Sharif comparece
a Washington, onde se encontra com o Presidente Bill Clinton e decide exercer
pressão pela saída dos combatentes antiindianos, encerrando o incidente.
12.10. 1999 ' O General Pervez Musharraf, Chefe do Estado-Maior do Exército
paquistanês, derruba o Primeiro Ministro Nawaz Sharif. Assume o título de
Executivo Principal, com poderes excepcionais, inclusive a faculdade de efetuar
modificações na Constituição de 1973. Essa faculdade é reconhecida pela Corte
Suprema do Paquistão, dentro de limites, e com a ressalva de que eleições
gerais deverão ser efetuadas até outubro de 2002, para o retorno ao regime
civil e parlamentar. O General Musharraf eventualmente assumiu a Presidência da
República.
2001 ' Encontro de cúpula entre o Presidente Musharraf e o Primeiro Ministro
Vajapyee, em Agra. O encontro termina de maneira acrimoniosa, sem qualquer
êxito. Em dezembro do mesmo ano, o Parlamento indiano sofre atentado. Nova
Delhi acusa Islamabade, que devolve as acusações. A Índia desloca efetivos
numerosos para a área limítrofe com o Paquistão, que toma medida simétrica;
dentro em breve cerca de um milhão de soldados tomam posições de ambos os lados
da LoC e da fronteira comum, numa escalada de tensões que causam graves
preocupações junto às potências ocidentais. Ao longo de 2002 essas forças
retornaram aos poucos a suas posições em tempos de paz.
2002 ' O Presidente Musharraf realiza plebiscito, obtendo a prorrogação de seu
mandato. Ainda com as funções de Executivo Principal, determina modificações
constitucionais que fortalecem o papel da Presidência e limitam as faculdades
do Parlamento e do Primeiro Ministro, nos termos da Legal Framework Order
(LFO). Em outubro são realizadas eleições gerais, que dão maioria simples à
Liga Muçulmana do Paquistão(PML-Q), tendência favorável a Musharraf. Com seus
aliados, a PML-Q conquista a Mesa da Assembléia Nacional e assegura a escolha
do Primeiro Ministro Zafarullah Jamali, pertencente a seus quadros.
2003 ' Eleição do Senado, também com maioria da PML-Q e de seus aliados. Nas
duas casas do Parlamento a oposição recusa-se a aceitar a incorporação da LFO à
Constituição. Até abril de 2003 permanecia o impasse entre oposição e maioria
governista.5
A inserção paquistanesa no quadro internacional
O conjunto de considerações precedentes sugere que: a) enquanto havia unidade
ocidental, o Presidente Musharraf podia manter uma política de alinhamento que
implicava concessões importantes aos Estados Unidos e demais potências, que por
sua vez faziam concessões ao Paquistão, em um quadro relativamente estável,
apesar da oposição e das críticas de consideráveis setores internos; b) a
divisão das grandes potências, sobretudo entre os Estados Unidos e o núcleo
"duro", ou mais coerente, da Europa eliminou o caráter óbvio e seguro da opção
em matéria de relações internacionais, tal como vista pela direção
paquistanesa, não sendo mais possível um alinhamento geral, sem dilemas, nem
mesmo ao custo de concessões importantes; c) a passagem do regime militar a um
novo regime parlamentar e civil, justamente no período entre outubro de 2002 e
março de 2003, quando a crise em torno do Iraque criou divisões que eliminaram
a possibilidade de um alinhamento não dilemático do Paquistão, tornou ainda
mais difícil a opção sobre o tipo de alinhamento a ser adotado: ganhou nova
força a oposição ao anterior alinhamento com os Estados Unidos, nas ruas e na
imprensa, sem falar em setores expressivos do aparelho estatal, com inclinação
pela solidariedade islâmica e pela resistência a todo hegemonismo externo;
inclinação que coincide com os partidos de orientação islâmica ou nacionalista,
que se encontram fora do governo, porém em ascensão.
O alcance dessas questões pode ser avaliado ao se analisarem as relações do
Paquistão com diferentes países e centros de poder. Nesse âmbito, cabe destacar
as relações com o Afeganistão, os Estados Unidos, outras potências ocidentais,
a China e a Índia.
Relações com o Afeganistão
As relações afegane-paquistanesas passaram por uma mudança radical, após os
atentados de setembro de 2001 e a decisão norte-americana de atacar o regime do
Talibã. Até então, o governo paquistanês mantinha a esperança de ver o Talibã
controlar a totalidade do território afegane. Após sua expansão rápida, a
partir de 1994, que levou ao controle das cidades de Kandahar, Herat, Cabul e
Mazar-e-Sharif ' ou seja, todos os principais centros urbanos do Afeganistão '
só permaneceram fora do controle do Talibã uma estreita faixa junto a
repúblicas da Ásia Central e o Vale do Panjsher, onde se mantinha a principal
força de resistência aos fundamentalistas, a chamada Aliança do Norte, com seu
núcleo militar composto por tadjiques. As áreas em poder de resistentes
tadjiques e uzbeques, estes últimos dirigidos pelo General Dostam, eram alvo de
repetidas ofensivas do Talibã, que, segundo a Aliança do Norte, contava com o
apoio material do Paquistão. Os sucessivos governos paquistaneses, por sua vez,
declaravam que não tinham qualquer participação no conflito afegane e que sua
ação a esse respeito se limitava à esfera diplomática, com propostas de
negociação.
O Paquistão, basicamente, propunha negociações entre o Talibã e a oposição
dirigida pela Aliança do Norte (que constituía a base militar do regime
dirigido pelo Presidente Rabbani, visto pela ONU e pela maior parte da
comunidade internacional como o poder legítimo no Afeganistão). Diversas
tentativas, todas infrutíferas, foram feitas no sentido de se obter acordo
entre o Talibã e a Aliança do Norte, inclusive por meio de reunião em
Islamabade. O grupo chamado Seis Mais Dois (Estados Unidos, Rússia e os
vizinhos do Afeganistão: Paquistão, Irã, Turcmenistão, Uzbequistão,
Tadjiquistão e China) mostrou-se ativo, da mesma forma que a ONU e a
Organização da Conferência Islâmica. A idéia geral consistia na formação de um
governo de conciliação, amplo e representativo. Esse objetivo esbarrava na
falta de interesse do Talibã, que acreditava em sua capacidade de completar o
controle sobre todo o território afegane. Ao mesmo tempo em que apoiava as
negociações, o Paquistão instava a comunidade internacional a reconhecer o
regime do Talibã como poder legítimo no Afeganistão. Apenas três países
chegaram a dar esse passo: o próprio Paquistão, a Arábia Saudita e os Emirados
Árabes. Islamabade logo tornou-se o principal sustentáculo diplomático do
Talibã, no âmbito internacional. Ao contrário do que propunha Islamabade, a ONU
impôs sanções ao Talibã. Embora o Paquistão as considerasse injustas, desiguais
e contraproducentes, declarou-se formalmente disposto a aplicá-las, por ser
membro da ONU. As sanções não proibiam o comércio de produtos civis, e o
Paquistão continuou a ser a principal rota do comércio exterior do Afeganistão.
Segundo a Aliança do Norte, também continuou a fornecer apoio material e
direção tática às ofensivas do Talibã, o que sempre foi negado por Islamabade.
O regime do Talibã, chefiado pelo Mulá Omar, havia concedido abrigo a Osama bin
Laden, principal dirigente da Al-Qaida, que os Estados Unidos acusavam de haver
concebido e executado os atentados de setembro de 2001. Para fazer a guerra aos
comandados de Omar e de bin Laden, os Estados Unidos exigiram o apoio do
Paquistão, não sob a forma de tropas, mas de concessão de informações
(considera-se que as informações sobre o Talibã e bin Laden, nas mãos do Inter-
Services Intelligence do Paquistão, conhecido pela sigla ISI, fossem
incomparáveis), do uso de bases, de facilidades logísticas e da abertura de um
corredor aéreo (o Afeganistão é um país isolado do mar, que pode ser alcançado
mais facilmente através do Irã, do Paquistão e de algumas repúblicas da Ásia
Central; os Estados Unidos obtiveram suas formas mais importantes de acesso
através do território paquistanês e do Uzbequistão, sendo impensável a
utilização do espaço iraniano). O Paquistão tentou evitar o dilema entre o
abandono de seu aliado afegane e a hostilidade dos Estados Unidos, enviando
missões a Kandahar, capital de fato do Talibã, inclusive sob a chefia de seu
Ministro do Interior. Entretanto, não conseguiu persuadir o Talibã a entregar
bin Laden. Em vista disto, o General Musharraf, Executivo Principal do regime
militar do Paquistão, optou pelo que chamou de "mal menor", a saber, o
alinhamento com os Estados Unidos. Dessa forma, evitava riscos mortais para o
Paquistão, entre eles um ataque seletivo (ou "cirúrgico") contra suas
instalações nucleares, a carta branca do Ocidente a possível expedição punitiva
da Índia e a paralisia do comércio exterior (a moratória da dívida externa só
podia ser evitada pela renegociação constante dos compromissos com o FMI e os
credores ocidentais, e as reservas paquistanesas em moedas fortes só cobriam o
correspondente a algumas semanas de importações). 6
A segurança do Paquistão estava mantida, fato reiterado inúmeras vezes pelo
governo do Presidente Musharraf, para contestar seus críticos nacionalistas e
os partidários dos movimentos islâmicos. Ainda em 12.04.2003 declarou o
Marechal Kaleem Saadat, Chefe do Estado-Maior da Aeronáutica, que as decisões
de longo alcance então tomadas pelo governo Paquistão esvaziaram as manobras de
seus inimigos. Para Saadat, hoje o mundo inteiro vê o Paquistão como um país
amante da paz, com um papel importante na ONU. Em suas palavras, "Durante o
período tumultuado após 11 de setembro, nossos adversários tentaram explorar a
situação em seu favor, porém em virtude de nossas decisões audazes e de longo
alcance, fracassaram em seu intento de nos prejudicar ou de nos isolar da
comunidade das nações".7 O preço pago por Islamabade foi a perda de seu aliado
em Cabul e Kandahar e o fim do sonho de ser a potência mais influente no
Afeganistão, projetos que lhe confeririam profundidade estratégica, em caso de
novo conflito com a Índia. Por outra parte, Hamid Karzai, o presidente apoiado
pelos Estados Unidos, que assumiu o poder no Afeganistão, tem mantido relações
amistosas com Islamabade, apesar dos primeiros sinais negativos dos dirigentes
da Aliança do Norte, que passaram a integrar a cúpula do novo governo afegane.
O Paquistão pode manter seu projeto magno de obter a construção de gasoduto
entre as jazidas turcmenas e o centro industrial de Multan, em território
paquistanês, através do Afeganistão; o gasoduto, caso efetivamente construído,
proporcionará energia a baixo preço para a indústria paquistanesa e realçará a
importância geopolítica de Islamabade, como canalizadora dos recursos da Ásia
Central. Ao mesmo tempo, impediu a ascensão excessiva da influência indiana em
Cabul, inicialmente favorecida pelos ministros oriundos da Aliança do Norte, em
detrimento de Islamabade.
Ainda que vendo sua influência drasticamente reduzida no Afeganistão, este
último continua sendo um fator de primeira importância na política externa do
Paquistão.
O movimento pendular nas relações entre Paquistão e Estados Unidos
A presença mais importante nas considerações paquistananesas em matéria de
política externa é a dos Estados Unidos. Não se trata de presença uniforme ou
tranqüila. Ao contrário, tem sido marcada por avanços e recuos, por fases de
pouco interesse por parte dos Estados Unidos, ou de subordinação a outras
prioridades, assim como períodos de desconfiança mútua, e até mesmo de
imposição de sanções por Washington. O Paquistão responde com a aproximação com
outras potências, nas fases de afastamento dos Estados Unidos, ou pela
colaboração intensa com Washington, quando esta última propõe o estreitamento
dos laços bilaterais. Em uma coisa, entretanto, o Paquistão não cede, qualquer
que seja a atitude dos EUA: na manutenção do cerne de sua política externa, que
compreende a questão da Cachemira e as medidas de defesa, entre elas o
desenvolvimento de sistemas de mísseis e armas nucleares.
As relações entre Paquistão e Estados Unidos, portanto, descrevem um movimento
pendular, de conseqüências consideráveis tanto para Islamabade quanto para toda
a situação da Ásia Meridional, com reflexos sobre o resto do mundo. A atitude
do Paquistão em relação aos Estados Unidos tende a ser constante, com a
conhecida disposição de manter ampla gama de colaboração e de atender uma série
de exigências norte-americanas. Os Estados Unidos, entretanto, conferem um
movimento pendular às relações com o Paquistão, em função de suas políticas do
momento. Entre 1979 e 1989, a fim de obter a saída das tropas soviéticas do
Afeganistão, bem como de conseguir o isolamento dos governos de esquerda em
Cabul, os Estados Unidos cultivaram Islamabade, aceitando o regime ditatorial
do General Zia ul-Haq e tolerando a política nuclear do Paquistão. Em 1990,
após a saída das forças soviéticas, os Estados Unidos aplicaram sanções a
Islamabade, em função de seu programa nuclear, o que causou profundo
ressentimento no Paquistão. Apesar das sanções, os Estados Unidos mantiveram
relações tão cordiais quanto possível com Islamabade, ainda que restringissem
drasticamente as vendas de armas, o que acentuou o desequilíbrio entre o
Paquistão e a Índia, em matéria de armamento convencional. Em 1999, com a
derrubada do Primeiro Ministro Nawaz Sharif pelo General Pervez Musharraf, que
assumiu a chefia do governo, os Estados Unidos aplicaram novas sanções, a
título de represália pela queda do regime democrático. Entretanto, após
setembro-outubro de 2001, quando Islamabade rompeu com o Talibã e apoiou a
campanha norte-americana no Afeganistão, Washington suspendeu a aplicação de
sanções e retomou a assistência econômica, além de procurar conter a Índia, em
momentos de confronto mais grave com o Paquistão. Continua a colaboração entre
Islamabade e Washington no que diz respeito ao Afeganistão, ao Talibã e à Al-
Qaida, porém o governo paquistanês, diante da intensa oposição interna, teve de
se distanciar da política norte-americana em relação ao Iraque. Os Estados
Unidos, por sua vez, em 2003, aplicaram sanções ao laboratório paquistanês KRL
(Khan Research Laboratories). Ao mesmo tempo, porém, assinaram acordo que
confere importantes vantagens econômicas ao Paquistão. Essas questões serão
examinadas a seguir.
A presente colaboração entre Paquistão e Estados Unidos
O que assinala as relações entre Paquistão e Estados Unidos, no presente
momento, é a colaboração, associada a importantes concessões de lado a lado.
Para os Estados Unidos, isso implica certo dispêndio e não pequeno desvio da
ideologia oficial, com suas importantes implicações internacionais. Também
dificulta a satisfação das pretensões da Índia, que no entanto correspondem a
elemento de relevo na estratégia norte-americana para a Ásia. Para o governo
paquistanês, é fonte de desgaste considerável perante a oposição nacionalista e
amplos setores da opinião pública.
A fase atual da colaboração bilateral teve início em 2001, com a crise do
Afeganistão, que pode ser vista como um divisor de águas na política
paquistanesa. O governo paquistanês espera importantes vantagens econômicas de
sua cooperação com os Estados Unidos. Em março de 2003 representantes dos dois
países firmaram em Islamabade documento sobre cancelamento de parcela
importante da dívida paquistanesa com os Estados Unidos. Na ocasião, disse a
Embaixadora dos Estados Unidos que a redução da dívida (debt relief) era apenas
um elemento de um pacote de assistência, envolvendo diversos aspectos, e
bilhões de dólares, que seu país estava proporcionando ao Paquistão.8
Formalmente, o ato assinado em março cancelava dívidas da ordem de 200 milhões
de dólares, cujo pagamento estava previsto ao longo de três décadas, e que com
os respectivos juros chegariam a um bilhão de dólares. No orçamento para o ano
de 2004, o governo norte-americano inseriu despesas de 395 milhões de dólares
com a assistência ao Paquistão. O significado dessas cifras é melhor avaliado
quando se tem em mente que as exportações do Paquistão perfazem cerca de dez
bilhões de dólares ao ano. O Ministro Shaukat Aziz, principal dirigente
paquistanês no domínio econômico, que estava presente à cerimônia, declarou que
os Estados Unidos estavam proporcionando cerca de três bilhões de dólares de
assistência ao Paquistão, em resposta ao apoio sem vacilações do governo
paquistanês à luta contra o Talibã e a Al-Qaida.9 Essa cifra inclui um bilhão
de dólares de debt relief, transferências, novos empréstimos e garantias
fornecidas pelo Eximbank.
A imagem positiva gerada junto às grandes potências pela adesão à luta contra o
Talibã também resultou em apoio econômico por parte de outros países. O Japão,
que antes havia aplicado sanções econômicas ao Paquistão, em virtude dos testes
nucleares de 1998, renegociou em 2003 a dívida consolidada de 4,5 bilhões de
dólares, por um período de 38 anos, a baixas taxas de juros. Foi o décimo sexto
acordo bilateral firmado nos termos estabelecidos no âmbito do Clube de Paris
(Agreed Minutes of the Paris Club), em 13.12.2001, em um total de 12,5 bilhões
de dólares. Entre os credores do Clube de Paris, a Dinamarca e o Reino Unido
cancelaram o débito a ser pago, nos valores respectivos de 18,4 e de 29,5
milhões de dólares.10
As reservas de círculos nos Estados Unidos
Aos críticos, no Paquistão, que vêem na largueza dos Estados Unidos um fenômeno
passageiro, a se dissipar assim que cessar o papel paquistanês no combate ao
Talibã e à Al-Qaida, respondem os dirigentes norte-americanos que o novo
relacionamento bilateral tem caráter permanente e será aprofundado. Conforme
disse a anterior Embaixadora dos Estados Unidos em Islamabade, é preciso olhar
para o futuro, não para o passado. Muitos observadores norte-americanos,
entretanto, relativizam a nova aliança. Intervenções de estudiosos e
especialistas em assuntos da Ásia Meridional, no seminário "The state of
Pakistan", reunido na Paul Nitze School of Advanced International Studies, da
Universidade Johns Hopkins, nos Estados Unidos, um dia após as sanções contra o
KRL, na síntese constante de artigo de Anwar Iqbal, "descreveram o Paquistão
como um país dotado de importância geopolítica, porém politicamente fraco, que
deve enfrentar sérios problemas [...] potencialmente catastróficos".
Diversas intervenções, no mesmo seminário, lançaram dúvida sobre a solidez da
aliança paquistanesa com os Estados Unidos. Conforme as declarações atribuídas
a George Perkowich, Vice-Presidente de estudos no Carnegie Endowment for
International Peace, o Paquistão representa perigo maior para a não-
proliferação que o Iraque, assim como desafio significativo para a política dos
Estados Unidos. Além das questões de guerra atômica e da transferência de
tecnologia nuclear, a fragilidade da estrutura econômica e política do
Paquistão representa ameaça para a segurança do armamento nuclear detido pelo
país; caso emergisse um governo islâmico de atitudes militantes, no Paquistão,
seja através de eleições, seja através de um golpe, isso faria desse país um
Estado muçulmano extremista, nuclearmente armado.
Ainda segundo relatado por Iqbal, Christophe Jaffrelot, diretor do Centre
d'Etudes et de Recherches Internationales, um think tank em Paris, afirmou que
os mujahideen da Cachemira estavam de volta às atividades de costume. Esses
grupos seriam também responsáveis por ataques a alvos ligados ao Ocidente, tais
como o Consulado dos Estados Unidos em Karachi, em 2002. Para Jaffrelot, os
grupos da jihad certamente foram prejudicados pelas políticas de Musharraf após
janeiro de 2002, porém voltaram a se organizar, fundando novos movimentos.
Em outras intervenções, no seminário acima referido, foi dito que:
' bolsões relevantes, no Paquistão, opõem-se à aliança com
Washington, o que lança dúvidas sobre a colaboração na luta contra o
terror;
' os partidos religiosos crescem no Paquistão, e no passado recente
exerceram influência de peso, ao apoiar o Talibã e a Al-Qaida;
' os partidos religiosos mostraram pronunciado crescimento nas
eleições gerais de outubro de 2002;
' acredita-se que milhares de membros da Al-Qaida tenham encontrado
refúgio no Paquistão;
' elementos dentro das forcas armadas e das agências de informação do
Paquistão mantiveram conexões com o Talibã, a Al-Qaida e outros
grupos empenhados em ações violentas, alguns deles empenhados em
minar o controle da Índia sobre sua porção da Cachemira.
Exprimindo os dilemas da situação, que existem não só para o Paquistão, como
também para os Estados Unidos, disse Anatol Liven, senior associate no Carnegie
Endowment, que Washington deve manter seu engajamento em relação a Islamabade;
o Paquistão é um importante parceiro estratégico e a colaboração com os Estados
Unidos deve continuar, caso se queira conter o "terrorismo" originado em
território paquistanês.11
A oposição nacionalista à colaboração com os Estados Unidos
Como foi visto, no âmbito dos governos são freqüentes e enfáticas as
declarações sobre interesse de ambos os lados na colaboração, em que pesem as
recentes sanções aplicadas ao KRL; porém entre as correntes de opinião são
comuns a desconfiança, quando não a hostilidade, e as recriminações. É o que se
vê não apenas entre os think tanks norte-americanos, mas também entre os
partidos nacionalistas no Paquistão. As críticas e propostas de se por término
à colaboração com os Estados Unidos têm origem tanto em questões relacionadas
diretamente com o Paquistão quanto com aquelas que dizem respeito à Ummah
muçulmana, em particular à Palestina e ao Iraque.
Entre as muitas demonstrações de protesto contra o ataque ao Iraque, no
Paquistão, a Aliança dos Partidos religiosos Muttahida Majlis-e-Amal (MMA)
efetuou suas million-men marches nos grandes centros urbanos de Karachi (a
maior cidade do país), Lahore (capital da província mais populosa), Rawalpindi
(contígua a Islamabade) e Peshwar (principal porta de acesso ao Afeganistão),
além de locais significativos como a cidade industrial de Multan. Nesta última,
em 04.04.2003, os oradores exigiram que o Presidente dos Estados Unidos e o
Primeiro Ministro do Reino Unido fossem julgados por uma corte internacional,
por lançarem ataque contra um país soberano e por perpetrarem o genocídio; e
denunciaram a "cruzada" ' termo de conotações sinistras, nos países islâmicos '
de George Bush no Afeganistão e no Iraque. Não apenas os maulanas (sacerdotes
islâmicos) da MMA falaram no comício de Multan; também o veterano político
Nawabzada Nasrullah Khan, principal dirigente da coalizão liberal ARD (Aliança
para a Restauração da Democracia), afirmou que a série de million-men marches
da MMA mostrava que o povo rejeitava a política do governo paquistanês a
respeito de questões vitais, tais como a guerra contra o Iraque (segundo os
manifestantes, o governo paquistanês deixou de apoiar com firmeza o Iraque,
para não desagradar os Estados Unidos, tese rejeitada pelos círculos oficiais).
A conexão entre a oposição à aliança com os Estados Unidos e o movimento pelo
fim do regime autoritário no Paquistão foi ressaltada pela exigência do chefe
da ARD de que se suprimisse a LFO.12 Em Quetta, capital da Província do
Baluquistão, outro portal de acesso ao território afegane, nova demonstração-
monstro manifestou a oposição à guerra contra o Iraque e à colaboração com os
Estados Unidos.13
A oposição à política norte-americana em relação aos países islâmicos chegou a
um ponto em que se tornou elemento de definição das correntes nacionalistas. Ao
que parece, todo futuro apelo ao eleitorado paquistanês levará em conta esse
dado. O ANP (Awami National Party), que perdeu suas tradicionais posições para
a MMA, na Província Fronteira do Noroeste (NWFP), resolveu marcar sua presença
e também organizou comício de amplas proporções em Peshawar. Na ocasião,
declararam seus oradores que:
' a guerra contra o Iraque, dirigida pelos Estados Unidos, não é uma
guerra entre o Islã e os infiéis (kuffar), mas uma guerra contra a
humanidade;
' deve-se condenar o papel do governo paquistanês a esse respeito;
' a guerra acabaria em poucos dias, se os governos árabes parassem de
vender petróleo aos Estados Unidos ;
' como nada fazem para se opor ao domínio norte-americano, os Estados
Unidos virão atacar cada um deles, escravizando nações inteiras;
' os dirigentes árabes devem ser criticados, por sua atitude em
relação à guerra, e o Papa João Paulo II deve ser louvado;
' é inútil esperar ação efetiva da ONU ou da OIC (Organização da
Conferência Islâmica, que congrega cinqüenta e seis países);
' a China e a Rússia deveriam levantar-se e procurar aliados, para
impedir as injustiças cometidas pelos Estados Unidos ;
' convidam-se a França, a Alemanha, a Rússia e a China a criar uma
nova ONU, com outro Conselho de Segurança, para impedir que os
Estados Unidos ataquem os países mais fracos.
Também falando nessa ocasião, disse o ex-ministro federal Haji Ghulam Ahmad
Bilour que era deplorável a atitude dos dirigentes muçulmanos, mudos diante do
ataque ao Iraque. Ele considerou os mulás(outro título dado aos sacerdotes
islâmicos) culpados por estimularem tanto a supressão dos patãs no Afeganistão
quanto as forças que levaram à desagregação da União Soviética, assim
destruindo a balança mundial do poder e levando à miséria tantos muçulmanos.14
Ao falar dessa maneira, Bilour contrastou o universalismo esclarecido do ANP e
o que considera como espírito sectário e atitudes contraproducentes dos
partidos que integram a MMA. Trata-se, naturalmente, de discurso com objetivos
eleitorais, em uma província que a MMA acaba de arrebatar; entretanto, é
significativo que em comício dessas proporções, um orador possa apontar o papel
positivo da União Soviética e criticar a ação dos fundamentalistas no
Afeganistão, isto no Paquistão, e ainda mais em Peshawar, onde as críticas aos
soviéticos costumam constituir artigo de fé. Que o orador possa ter falado
dessa maneira por certo mostra como a guerra contra o Iraque e outras políticas
dos Estados Unidos, sobretudo em relação à Palestina, têm contribuído para
mudar a opinião paquistanesa. Isso também tem levado à publicação de numerosos
textos na imprensa paquistanesa que refletem desencanto com o papel de muitos
governantes árabes.15
O governo paquistanês deu-se conta da indignação suscitada nos mais diversos
setores do país pelo ataque contra o Iraque e negociou com a oposição, no
Senado, o texto de resolução sobre a matéria. Os meios da oposição, sobretudo
os senadores da MMA, desejavam resolução que condenasse os Estados Unidos.
Entretanto, com sua maioria no Senado, o governo conseguiu texto que "deplorava
fortemente" (strongly deplores, conforme a expressão utilizada) a guerra. Pela
mesma resolução, o Senado exigiu o término imediato das hostilidades.16
Perspectivas da ação dos Estados Unidos e do Reino Unido no Sul da Ásia
Após conflito no Iraque, a política dos Estados Unidos para o Sul da Ásia
parece encaminhar-se para alguma forma de mediação que não será destituída de
custos para o Paquistão. A política de Washington para a região deverá manter
certos critérios fundamentais, anunciados e reiterados pela diplomacia norte-
americana, entre eles as gestões de alto nível para se evitar um conflito indo-
paquistanês, a limitação do apoio de Islamabade aos movimentos irredentistas na
Cachemira e, tanto quanto possível, o encorajamento ao diálogo entre Índia e
Paquistão. A isso pode ser acrescentada a tentativa ' dentro de certos limites
' de deter os impulsos que possam conduzir à proliferação nuclear.
Por certo as considerações sobre o controle do Iraque e a situação no Oriente
Médio terão precedência sobre os problemas do Sul da Ásia, mas o interesse dos
Estados Unidos nesses últimos será mantido, conforme atestam as declarações de
Colin Powell, em entrevista a The New York Times. Segundo Powell, ele espera
abordar a questão das relações indo-paquistanesas, que são parte de uma broader
agenda, quando a do Iraque houver sido enquadrada. Os Estados Unidos não
desejam ver a situação no Sul da Ásia reverter ao estado em que estava um ano
atrás (no início de 2002, as tensões entre a Índia e o Paquistão eram fortes o
bastante para que as grandes potências temessem um novo conflito na região,
conforme assinalado acima). Powell ressaltou também a capacidade dos Estados
Unidos de exercerem efeito moderador na Ásia Meridional: "A hell of a lot went
into preventing an Indo-Pakistani nuclear war."17
Apresenta-se a questão de saber qual a direção a ser tomada pelas gestões dos
Estados Unidos. O Paquistão deseja a abertura de negociações com a Índia, a
respeito da Cachemira e dos demais problemas bilaterais. Deseja igualmente a
implementação das resoluções da ONU sobre o território disputado, inclusive no
que diz respeito à sua autodeterminação. A Índia deseja o fim da insurreição na
Cachemira, a seu ver uma série de atentados orquestrados por movimentos
apoiados em território paquistanês. Nesse mesmo sentido opinam os Estados
Unidos e também o Reino Unido, seu aliado mais próximo. Conforme declarado pelo
Foreign Secretary Jack Straw, em entrevista à televisão em Nova Délhi, os dois
países tem solicitado ao Paquistão que contenha o fluxo de militantes
muçulmanos que entram na porção indiana da Cachemira. A Cachemira teria o
potencial de causar novo conflito indo-paquistanês, o que realça a preocupação
com a "increasing evidence of infiltration across the Line of Control from
Pakistan to India".18
Compreendem-se portanto os termos graves do editorial do diário The Nation, de
Islamabade:
The USA's refusal to accept [...] Sinha's [o ministro do exterior da
Índia] contention that the pernicious new US doctrine of pre-emption
applies to Kashmir and thus to Pakistan, is to be welcomed. [...]
However, this should not be viewed with too much complacence. The
recent US-UK joint declaration places Kashmir on the joint agenda for
the post-Iraq world. This does not necessarily bode well for
Pakistan, because the US regards India as its regional strategic
partner [...] [e] Pakistan [...] merely a temporary tactical ally.19
É verdade que Colin Powell rejeitou todo paralelo entre o Iraque e o Sul da
Ásia. Conforme reproduzido pela imprensa paquistanesa, Powell teria dito:
I stay in very close touch with the authorities in both Pakistan and
India [...] We do have a very difficult and dangerous situation with
respect to actions across the Line of Control and the United States
will remain engaged [...] But we don't believe there is need now for
any military action of any kind. 20
Nos termos dessa declaração, o futuro parece incerto; e, conforme observado
acima, o Ministro Sinha havia afirmado existir fundamento para pre-emptive
strike contra o Paquistão, tanto por parte da Índia quanto dos Estados Unidos.
O Ministro George Fernandes, titular da pasta indiana da Defesa, teria prestado
declaração no mesmo sentido: "There are enough reasons to launch such strikes
against Pakistan, but I cannot make public statements on whatever action that
may be taken."21 Declarações, mesmo drásticas, nem sempre exprimem intenções
reais. Por vezes há simplesmente a intenção de enviar sinal ao lado oposto, ou
até mesmo ao eleitorado. Ainda assim, afirmações sobre pre-emptive strikes não
são feitas todos os dias, em qualquer país do mundo.
O governo paquistanês ressalta tanto seu crédito internacional quanto sua
capacidade de autodefesa. Lembra que tem sido aliado relevante das potências
ocidentais no combate ao terrorismo e cita os ganhos efetuados pelo sistema
nacional de pesquisa, desenvolvimento e instalação de meios estratégicos. Essas
noções têm sido reiteradas por diversas autoridades paquistanesas, inclusive
pelo Presidente Musharraf, em sua alocução perante a guarnição militar de
Peshawar, em 11.04.2003.22
Muitos observadores paquistaneses, entretanto, ressaltam o que consideram como
elementos desfavoráveis para seu país. O Coronel Masud Akhtar Sheikh, da
reserva do Exército paquistanês, insta seus compatriotas a não esquecerem que:
o Paquistão, potência nuclear, é sore in the eyesdos Estados Unidos e da Índia;
a Índia é muito mais importante para os Estados Unidos que o Paquistão, no
esquema preparado por Washington após o desaparecimento da União Soviética; os
Estados Unidos fariam qualquer coisa para aplacar a Índia, inclusive a
desnuclearização forçada do Paquistão; a Índia vem instigando Washington contra
o Paquistão, manipulando o assim chamado terrorismo transfronteiriço e não
poupará esforços para difundir rumores sobre um suposto comércio nuclear entre
Islamabade e inimigos dos Estados Unidos.23
Alerta semelhante foi soado por um outro articulista influente, o ex-senador e
ex-ministro Shafqat Mahmood: "Indians are the strategic partners and we are
only tactical partners for the conflict in Afghanistan and for flushing out al-
Qaeda. Tactics are temporary, strategy has depth and duration."24
Um ponto de vista diferente, mas que também lança um alerta, é o de Shireen
Mazari, Diretora-Geral do Instituto de Estudos Estratégicos de Islamabade,
talvez o mais prestigioso dos think tanks paquistaneses. Para a Diretora-Geral
do Instituto, que publica comentários freqüentes na imprensa paquistanesa, "It
is not an issue of being 'next' in terms of US military action. It is an issue
of coming under increasing US pressure to 'fall in line' with US policy aims in
the region." O eventual enquadramento do Paquistão incluiria os seguintes
aspectos: permitir a intervenção norte-americana em assuntos internos,
modificando os dados da vida política paquistanesa; limitação da capacidade
nuclear do Paquistão, já que sua erradicação pura e simples não seria possível;
aceitação, por Islamabade, da situação presente na Cachemira; abandono de
qualquer noção de laços estratégicos com o Irã; e aceitação da hegemonia
regional da Índia. Ao mesmo tempo, os Estados Unidos exigiriam a continuação de
seu acesso irrestrito às estruturas do Estado paquistanês, a pretexto de travar
a guerra contra o terrorismo. Ao contrário do que diz o governo paquistanês,
Shireen Mazari afirma que Islamabade pouco recebeu de sua colaboração com
Washington, a não ser críticas, ameaças e sanções. O maior risco, para ela, vem
do comprometimento da soberania decorrente de possíveis operações de hot
pursuit no rastro de combatentes suspeitos de integrar o Talibã ou a Al-Qaida,
a partir do território afegane, como já foi anunciado por porta-vozes norte-
americanos, e a seguir desmentido, com certa ambigüidade. Segundo ela, a melhor
defesa para o Paquistão, nesse quadro inseguro, residiria em proactive
multilateralism, em vez de fearful and defensive unilateralism.25
Papel de outras potências européias
Até a crise no Iraque, havia relativa unidade de pontos de vista dos Estados
Unidos, do Reino Unido, da França, da Alemanha e da Rússia quanto ao Paquistão,
mesmo que houvesse diferenças no que diz respeito à política dessas potências
em relação à India. Todas elas mostravam interesse na diminuição das tensões
indo-paquistanesas, bem como no soerguimento econômico do Paquistão, ao mesmo
tempo em que exerciam pressões contra o programa paquistanês no domínio
nuclear. A imagem da Rússia, da França e da Alemanha ganhou reforço
substancial, após a crise no Iraque.
Em contraste com o distanciamento entre Islamabade e Moscou, ao tempo dos
regimes de esquerda em Cabul, e à pouca densidade das relações nos anos
subseqüentes, a visita do Presidente Musharraf à Rússia, em fevereiro de 2003,
foi saudada como sinal de importantes desenvolvimentos, no Paquistão. Os
títulos da imprensa paquistanesa foram significativos, a exemplo daquele do
artigo "A rare visit stirring up hopes".26 O mesmo pode dizer-se da opinião dos
articulistas, tais como Khalid Akhtar: a "soldierly diplomacy" do Presidente
Musharraf não produziu resultados de maior significado do lado norte-americano;
tampouco será fácil tirar as relações russo-paquistanesas do atoleiro da Guerra
Fria, mas a possibilidade de um avanço decisivo é visível, diante dos gestos de
boa-vontade de ambas as partes.27
As esperanças depositadas na Alemanha e na França eram evidentes, tanto nos
artigos e editoriais da imprensa paquistanesa quanto nos discursos de
dirigentes partidários em comícios de protesto contra o ataque ao Iraque.
Também no seio da elite dirigente do Paquistão era fácil perceber essa atitude.
Por ocasião da comemoração em Islamabade dos quarenta anos do Tratado do
Eliseu, marco da concórdia franco-alemã dentro do quadro da Europa unificada,
verificou-se o comparecimento de cerca de quatrocentas pessoas, entre
diplomatas, membros do Parlamento paquistanês, jornalistas e figuras de
destaque nos meios profissionais e de negócios. Os discursos dos representantes
francês e alemão, com observações contrárias à guerra contra o Iraque, então em
curso, eram pontilhados de aplausos.
Quem acompanha a imprensa paquistanesa dá-se conta da admiração suscitada pelo
governo francês, ao manter uma posição independente e contrária à guerra,
durante o conflito do Iraque. A imprensa paquistanesa reproduziu constantemente
comentários de fontes européias sobre a posição francesa, quando não divulgava
seus próprios artigos e editoriais. Em um dos artigos publicados pelo diário
Dawn, de Karachi, lê-se esta citação do jornal francês Libération, que no
entanto não costuma apoiar o Presidente Jacques Chirac: "Este é seu grande
trabalho, o que lhe abrirá os livros de história." Nos termos do mesmo artigo,
Chirac acredita que haja um estado de equilíbrio precário, com uma única
superpotência, o que representa ameaça à estabilidadde global. Em um novo mundo
multipolar, a Europa teria lugar indiscutível. As tendências à divisão do poder
global seriam inevitáveis, como se pode ver com a ascensão da China. Seria
então necessário criar uma coalizão com peso suficiente para contrabalançar o
papel dos Estados Unidos.28
Na opinião pública e entre os formadores de opinião, não há dúvida de que as
posições acima expressas granjeiam imenso apoio no Paquistão. Entretanto, não
se pode prever ainda em que medida a atitude da França, da Alemanha e da
Rússia, separada das posições dos Estados Unidos, em questões ligadas ao
Oriente Médio, influenciarão a política paquistanesa. Mas seu potencial é
significativo, sobretudo à medida em que o novo regime parlamentar do Paquistão
se afastar do anterior período autoritário, e que essa evolução incorpore maior
influência da opinião pública e dos partidos nacionalistas.
Questão da não-proliferação no Sul da Ásia
Os observadores paquistaneses temem pressões dos Estados Unidos não apenas em
matéria de acomodação com a Índia. A questão da não-proliferação é essencial.
Os Estados Unidos, depois da campanha contra o Iraque, por certo insistirão no
desarmamento de outros Estados periféricos. No caso da Índia, ao contrário, os
sinais já emitidos sugerem aceitação tácita do programa indiano de armamentos,
como se deduz das missões de alto nível de Washington a Nova Délhi, para a
ampliação da cooperação militar. Mas a Índia tem o papel especial, aos olhos
dos Estados Unidos, de representar possível contrapeso à influência chinesa no
Oriente; de outra forma, a China poderia desfrutar do papel isolado de grande
potência em sua região específica, projetando também sua influência sobre a
Ásia Central e Meridional. O Paquistão atua como aliado da China, e a
influência que ele contribui para diminuir é a da Índia.29
Em particular, os Estados Unidos não desejam que o Paquistão dissemine sua
tecnologia nuclear. Em pleno conflito iraquiano, e ao longo das tentativas
norte-americanas de conter as tensões indo-paquistanesas, Washington aplicou
sanções ao KRL, proibindo o comércio entre esta entidade e organizações nos
Estados Unidos. O KRL, situado em Kahuta, nas cercanias de Islamabade, é o
principal laboratório paquistanês empenhado na pesquisa e desenvolvimento de
tecnologias relacionadas com armas nucleares. Em abril de 2003 foi anunciada a
imposição de sanções ao KRL, alegadamente por ter recebido tecnologia de
mísseis da empresa Changgwang Sinyong Corporation, da República Democrática e
Popular da Coréia. As sanções não foram atribuídas ao programa nuclear
paquistanês; conforme esclarecido pela Embaixada dos Estados Unidos em
Islamabade, elas deviam-se a "specific missile-related transfer", e "do not
pertain to any other activity, including nuclear-related ones" 30.
A amizade sino-paquistanesa
Em contraste com as relações oscilantes, e por vezes tempestuosas, entre o
Paquistão e os Estados Unidos, a amizade com a China é vista como o supremo
modelo em Islamabade. A China, conforme já assinalado, é o all-weather friend,
fonte de longo e tradicional apoio, sobretudo nas horas difíceis. A ênfase nas
relações com a China recai sobre a cooperação diplomática e econômica, embora
ela também se estenda ao domínio do material bélico. Quando o Primeiro Ministro
chinês Zhu Rongji visitou o Paquistão, a imprensa de Islamabade celebrou com
amplas manchetes alguns projetos de grande alcance, a serem conduzidos com
apoio da China, a exemplo da construção do porto de Gwadar e da Rodovia
Costeira, do aproveitamento das jazidas de carvão de Thar e do reequipamento
das ferrovias paquistanesas. Com a visita do Primeiro Ministro Jamali a Pequim,
em 2003, o montante do apoio chinês a esses e outros projetos foi cifrado em
2,4 bilhões de dólares, o que incluiu 700 milhões para a ampliação da Pakistan
Steel e 800 milhões para uma nova central nuclear em Chashma.31 Embora todos
esses projetos sejam de grande importância, chama atenção a construção do porto
de Gwadar, alternativa ao de Karachi. A Índia havia ameaçado bloquear este
último, quando da "quase-guerra" de Kargil; Gwadar situa-se não na direção da
Índia, mas na do Irã, mais perto, portanto, do acesso ao Golfo Pérsico, com
suas rotas de transporte do petróleo.
Apesar da imagem calorosa das relações com Beijing, elas não podem eclipsar as
que o Paquistão mantém com os Estados Unidos. A elite paquistanesa volta-se
para o Ocidente e vê as potências ocidentais como garantia última da ordem
liberal que lhe interessa, ainda que os dirigentes e comentaristas em
Islamabade louvem o êxito do modelo econômico da China. O governo paquistanês
também confere peso elevado ao poderio ocidental, sobretudo dos Estados Unidos,
que poderia exercer um efeito desestabilizador na Ásia Meridional, caso se
alinhasse incondicionalmente com a Índia. Cabe ainda notar que a Índia tem
procurado desenvolver suas relações com a China, o que evitaria uma presença
excessivamente forte de Islamabade nas cogitações de Beijing sobre o Sul da
Ásia. Segundo declarações do Ministro Yashwant Sinha, transcritas pela imprensa
paquistanesa, a Índia e a China puseram de lado a espinhosa disputa fronteiriça
de 1962 para melhor desenvolverem suas relações bilaterais; Nova Délhi agora
veria Beijing como um importante vizinho e amigo.32
Permanência das tensões indo-paquistanesas
As tensões entre o Paquistão e a Índia nunca cessaram por completo, desde a
traumática independência dos dois países, em 1947. Tradicionalmente mencionam-
se três guerras, além de diversas crises, com os intervalos marcados por
acordos sob pressão, negociações nem sempre exitosas ou fases de calmaria pouco
tranqüila. Em análise recente, entretanto, Ahmad Faruqui vê cinco guerras entre
a Índia e o Paquistão, entremeadas de crises e intervarlos tensos nas relações
bilaterais: além das guerras de 1947 (pelo controle da Cachemira, cujo destino
foi mantido em suspenso pelos acordos coordenados pelo Reino Unido), de 1965
(deflagrada pela disputa em torno do Rann de Kutch) e de 1971 (quando a
intervenção indiana levou à divisão do Paquistão, com a conseqüente
independência de Bangladesh), um quarto conflito, em 1984, em torno do controle
da geleira de Siachen, nos Himalaias (o terreno de luta mais elevado do mundo,
e talvez o de menor valor, a não ser simbólico, com seus penhascos e seu campos
de gelo), e por fim o de 1999, novamente na Cachemira, com os choques armados
na área de Kargil.33
Esse último conflito ocorreu no mesmo ano do chamado processo de Lahore, quando
o então Primeiro Ministro Nawaz Sharif e o Primeiro Ministro Vajpayee assinaram
documento, na cidade paquistanesa desse nome, que deveria levar a negociações
sobre o conjunto do contencioso bilateral e talvez à normalização das relações
indo-paquistanesas. O confronto armado em Kargil pôs cobro a essa perspectiva.
Logo em seguida foi derrubado Nawaz Sharif, assumindo o General Musharraf a
chefia do governo. Já à frente do governo paquistanês, Musharraf daria nova
oportunidade às negociações bilaterais, na reunião de cúpula de Agra, também
com Vajpayee. Entretanto, a reunião terminou em recriminações mútuas34, não
tendo outro resultado que o de acentuar o caráter pouco abordável do
contencioso bilateral.
Desde o fracasso da cúpula de Agra, as relações indo-paquistanesas voltaram ao
ponto morto. Islamabade tem insistido na retomada das negociações sobre o
contencioso bilateral, porém Nova Délhi condiciona toda iniciativa nesse
sentido ao término do que denomina cross-border terrorism, cuja existência é
negada pelo governo paquistanês. A situação foi agravada em dezembro de 2001,
com o atentado terrorista dirigido contra o Parlamento indiano. A Índia
imediatamente acusou o Paquistão, que, entretanto, negou qualquer conexão com o
atentado. Em represália, a Índia deslocou grande número de unidades militares
para a fronteira com o Paquistão e para a LoC. Islamabade tomou medida
simétrica, e no primeiro semestre de 2002 as tropas deslocadas por ambos
situavam-se em torno de um milhão de homens. O governo paquistanês afirmou que
teria de desfalcar as unidades mantidas na fronteira do Afeganistão, que
colaboram com os Estados Unidos no rastreamento e captura de grupos
remanescentes do Talibã e da Al-Qaida. Os Estados Unidos, preocupados com o
afrouxamento da vigilância sobre seus inimigos no Afeganistão, e talvez ainda
mais com o risco de conflito indo-paquistanês, efetuaram sucessivos contatos de
alto nível, a fim de obter a diminuição das tensões, no que foram acompanhados
pelo Reino Unido e outras potências européias.
No segundo semestre viu-se a diminuição das tensões bilaterais, com a retirada
da maioria das tropas indianas e paquistanesas para suas posições normais em
tempo de paz. Entretanto, sucessivos atentados na Cachemira indiana mantêm as
tensões, ressaltadas pelos esporádicos duelos de artilharia através da LoC. O
massacre de vinte e quatro indianos na Cachemira, em abril de 2003, constitui o
mais recente episódio terrorista até a data, provocando as costumeiras
recriminações mútuas entre Islamabade e Nova Délhi. Também no Paquistão ocorrem
atentados com freqüência, e a polícia paquistanesa de vez em quando acusa a RAW
(Research and Analysis Wing), serviço secreto indiano, de participação nesses
episódios. Vez por outra as autoridades paquistanesas apresentam à imprensa
indivíduos originários do próprio Paquistão, que teriam sido subornados ou
coagidos pela RAW para perpetrarem atentados em território paquistanês.
Novo foco de tensões foi introduzido com a crise em torno do Iraque, quando o
ministro do exterior da Índia comparou a situação iraquiana com a paquistanesa.
Segundo o Ministro Yashwant Sinha, Nova Délhi tinha maiores motivos para lançar
um pre-emptive strike contra o Paquistão que Washington contra o Iraque. O
massacre de vinte e quatro hindus na aldeia de Nadimarg teria motivado fresh
thinking em Nova Délhi, a respeito do combate ao terrorismo. Mencionando a
posse de armas de destruição em massa pelo Paquistão e acusando este último de
ser "epicentro" de ações terroristas, disse Sinha: "If these were
considerations for a pre-emptive strike against another country, then
definitely India has a better case."35
O governo paquistanês imediatamente contestou o paralelo com o Iraque e
reiterou sua confiança na autodefesa. Segundo Khurshid Kasuri, Ministro dos
Negócios Estrangeiros, "Our missile defense system is at par with the five
major countries in the world". Nessa mesma veia disse Kasuri: "We reject the
doctrine of pre-emption. India should not harbour any illusion."36
Essas declarações e advertências, por drásticas que sejam, não impedem que se
busque a retomada das negociações bilaterais. Quando as especulações sobre pre-
emptive strikes atingiam seu ápice, o Primeiro Ministro indiano recolocou o
jogo na mesa de conversações, ao declarar que seu país estava disposto a
negociar com o Paquistão. É verdade que Vajpayee subordinou essa iniciativa ao
tão citado fim do "terrorismo transfronteiriço", noção, como se sabe,
considerada vazia pelo Paquistão. Ainda assim o Primeiro Ministro paquistanês
logo considerou positiva a oferta de Vajpayee. Dando prosseguimento à idéia,
afirmou Digvijay Singh, junior minister na Chancelaria indiana: "We are ready
the minute Pakistan indicates that it is willing to usher a new era of peace."
Singh disse que as conversações poderiam começar já em junho de 2003, desde que
o Paquistão reagisse adequadamente às preocupações indianas. Para tanto, até
mesmo uma simples declaração contra a violência, por Islamabade, seria
suficiente.37
Perspectivas
A retomada do processo de paz indo-paquistanês mudaria todos os dados políticos
e militares para o Sul da Ásia. Como assinalou o dirigente politíco indiano
Omar Abdullah, anterior junior minister sob Vajpayee, "If India-Pakistan talks
are not initiated sooner rather than later, the American government, after it
is free from the war in Iraq, may thrust a solution on Kashmir which may not be
in the interest of New Delhi and Islamabad".38
Desde a independência do Paquistão e da Índia, as tentativas de resolver a
questão da Cachemira têm tido destino semelhante às de resolver o problema da
quadratura do círculo: o Paquistão exige a implementação das resoluções da ONU
que estabelecem o princípio da autodeterminação, ao passo que a Índia considera
a Cachemira como parte integrante de seu território. Cabe indagar se o novo
quadro mundial, com as tendências tornadas mais agudas pelo conflito no Iraque,
será capaz de introduzir modificações substanciais nas atitudes de Islamabade e
de Nova Délhi.
Caso isso não aconteça, as grandes potências continuarão a se defrontar com o
quadro perigoso da Ásia Meridional, com dois novos aspectos, que o complicam
ainda mais: a divisão que se esboça entre as grandes potências, a respeito do
papel protagônico dos Estados Unidos, e a ascensão das correntes nacionalistas
no Paquistão. Quanto a este último aspecto, deve ser assinalado que o controle
absoluto do Presidente Musharraf sobre as políticas interna e externa do
Paquistão chegou ao fim com o retorno ao regime civil, entre outubro de 2002 e
março de 2003. Musharraf ainda é a principal personalidade política do país,
porém sua capacidade de conservar os alinhamentos externos está ligada à
manutenção dos extensos poderes de que dispõe, nos termos da Legal Framework
Order39. A oposição rejeita a LFO, a ponto de ter mantido quase paralisado o
Parlamento paquistanês, em abril de 2003, com seus prostestos. Caso a LFO venha
a ser revogada, ou suas disposições sejam diluídas, tanto o Parlamento quanto
os formadores de opinião e as mobilizações partidárias de massa (no momento
dirigidas sobretudo pelas formações islâmico-nacionalistas) verão sua
influência aumentar sobre a política exterior do Paquistão. Abre-se, portanto,
um quadro de desdobramentos potenciais de grande importância, para o Sul da
Ásia, para as principais potências e para o conjunto da comunidade
internacional.
Notas
1 Indo-Pakistani conflict most daunting challenge: Rocca. The Nation.
31.03.2003, p. 12.
2 Ver a análise de Victor SUKUP: A China frente à globalização: desafios e
oportunidades. Revista Brasileira de Política Internacional, Brasília,
Instituto Brasileiro de Relações Internacionais, Ano 45, n.. 2, 2002, p. 82-
113.
3 Rafeh A. MALIK, China An Emerging Great Power: Regional And Global
Perspectives, p. 93: "Pakistan is now seeing China as an ally who can be relied
upon more than ever before". National Development and Security (Quarterly
Journal), Vol IX, n. 2, Winter 2000, p. 83-100. Rawalpindi, Paquistão:
Foundation for Research on International Environment National Development and
Security:, Paquistão.
4 Mehrunnisa ALI (ed.). Introduction. Readings in Pakistan Foreign Policy,
1971-1998. Karachi: Oxford Univ Press, 2001, p 1-3.
5 Uma justaposição de dados referentes à política interna, com sua sucessão de
regimes civis e militares no Paquistão, bem como sua correlação com problemas
externos, pode ser encontrada em S. F. MAHMUD. A Concise History of Indo-
Pakistan, p. 272-280 e 285-299.
6 Análise pormenorizada da mudança de regime no Afeganistão e de seu
significado para a política paquistanesa, pode ser encontrado no trabalho de
Abelardo ARANTES JR. O conflito no Afeganistão e a ordem internacional.
Política Externa, Vol II, n.. 1, junho-julho-agosto de 2002, p. 41-65. São
Paulo: USP.
7 Adversaries fail to isolate Pakistan. The Nation. 13.04.2003, p. 5.
8 Mehtab HAIDER. $200 m write-off for backing terror war. The Nation.
04.04.2003, p. 1.
9 Nadeem MALIK. Pakistan, US sign debt write-off accord, The News. 06.04.2003,
p. 1.
10 Ihtasham ul HAQUE. US Congress OKays $1 billion debt write-off. Dawn.
04.04.2003, p. 1.
11 Artigo de Anwar IQBAL. Pakistan needs to be watched: US scholars. Dawn.
05.04.2003, p. 18.
12 Marchers demand Bush, Blair trial. Dawn. 05.04.2003, p. 20.
13 Shahzada ZULFIQAR. MMA asks government to give up pro-US policy. The Nation.
03.04.2003, p. 1.
14 Syed Bukhar SHAH. ANP rally urges Musharraf to announce jihad against US.
15 Syed Mohammad Tariq PIRZADA. The soldout Arab leadership. The Nation.
03.04.2003, p. 7. Ver também editorial "Arab League's cry of
despair". Dawn. 03.04.2003, p. 7: ". .. [há] growing
disillusionment among the members with the efficacy of the group. [O
Secretário-Geral Amr] Mussa specifically refers to the Arab League's 'failure'
to deal with the Palestinian problem and the Iraqi crisis [...]".
16 Rauf ARIF. Senate strongly deplores US war against Iraq. The
Nation.03.04.2003, p. 1.
17 Conforme reproduzido em The Nation, em 02.04.2003, p. 12: US to take up
Indo-Pak issue after Iraq: Powell.
18 US, UK ask Pakistan to stop 'infiltration': Straw. The Nation. 04.04.2003,
p. 12. Note-se que o Paquistão nega terminantemente a tese da
infiltração sistemática a partir de seu território.
19 Not fit for pre-emption. The Nation. Editorial, 07.04.2003, p. 6.
20 No parallel between S. Asia, Iraq.The Nation.11.04.2003, p.1. Ver também mesmos termos em The News, mesmo dia.
21 Fernandes endorses Sinha's comments.The Nation. 12.04.2003, p. 12.
22 "The president said policies of the last three years had contributed to
strengthning the country's security. These policies also safeguarded vital
strategic interests [...]". Country's security insured: president..Dawn.
12.04.2003, p. 16.
23 Masud Akhtar SHEIKH. A wake-up call. The News. 04.04.2003, p. 6.
24 Shafqat MAHMOOD. Winning hearts and minds. The News. 04.04.2003, p. 7.
25 Shireen MAZARI. Murder most foul. The News. 02.04.2003, p. 6.
26 The News. 03.02.2003, p. 1.
27 Khalid AKHTAR. A visit loaded with stakes. The News. 03.02.2003, p. 1.
28 Siegfried MORTKOWITZ. What makes Chirac persist?. Dawn. 14.03.2003, p. 12.
29 Ver análise de J. N. DIXIT: "The prospect of a China-Pakistan defence and
nuclear strategic nexus assumes critical dimensions for India's defence
planning [. ..]". Dixit considera fundamental que se promova a
aproximação entre a Índia e a China. Across Borders: Fifty Years of India's
Foreign Policy. Nova Délhi: Picus Books, 1998, p. 418.
30 N. Korea handed missile technology to Pakistan: US. The Nation. 03.04.2003,
p. 1, e Penalties not N-related, says US. Idem.
31 Sultan AHMED. Chinese investment package. Dawn. 03.04.2003, p.7. Agradecimentos de Musharraf a Zhu Rongji: ver MINISTÉRIO DA
INFORMAÇÃO. President of Pakistan General Pervez Musharraf's Address at the
Ground-Breaking Ceremony of Gwadar Deep-Sea Port. Islamabade, 2002, p. 15.
32 China important neighbour of New Delhi: Sinha.The Nation. 03.04.2003, p. 11.
33 Ahmad FARUQI. Quest for security.Dawn. Caderno Books and Authors, 13.04.03,
p. 1-2, a respeito de seu livroRethinking the National Security of Pakistan:
The Price of Strategic Myopia.
34 "The closure of an epoch-making Joint Declaration was however scuttled
twice, ostensibly by 'invisble hands' in the Indian camp [...]". MINISTÉRIO DOS
NEGÓCIOS ESTRANGEIROS.Pakistan Foreign Relations 2001. Islamabade, p.17.
35 India claims it has a case for pre-emptive strikes.Dawn. 05.04.2003, p. 20.
36 Pakistan warns against pre-emptive strike. The Nation. 04.04.2003, p. 1; e Pre-emptive doctrine rejected. The News. 04.04.2003, p. 1.
37 Talks offer serious, says Indian minister. The News. 23.04.2003, p.12.
38 Ibid.
39 Na definição de Farhan Bokahri, contributing editor do jornal The News, "The
LFO is a package of constitutional amendments introduced by the previous
military regime in August 2002, which effectively institutionalized the
military's role in the government of Pakistan and reduced the executive powers
of the prime minister". Farhan BOKHARI. Political disarray and LFO. The News.
10.04.2003. Para os defensores da LFO, trata-se de medida que
estabiliza o regime civil no Paquistão. Análise das disposições da LFO que
afetam a Constituição encontra-se em HUMAN RIGHTS COMMISSION OF PAKISTAN.State
of Human Rights in 2002. Lahore, 2003, p. 30-40.