Argentina e Brasil: políticas exteriores comparadas depois da Guerra Fria
Introdução
O começo dos anos noventa trouxe importantes modificações que se refletiram
sobre o comportamento externo da Argentina e do Brasil, introduzindo diferenças
em políticas exteriores que haviam alcançado um significativo grau de
coincidência durante a década anterior.
Durante os anos 1980, quando tiveram lugar os primeiros passos do processo de
integração entre os dois países, existiam coincidências entre as linhas de ação
de suas políticas externas. No decorrer dos governos de Raúl Alfonsín e José
Sarney, ambos mantiveram os países com perfis semelhantes, orientados por um
padrão mais autônomo de política externa. Ambos atuaram de forma conjunta
frente a temas regionais como a participação em foros latino-americanos (Grupo
de Cartagena, Apoio e Grupo do Rio) e a criação da Zona de Paz no Atlântico
Sul; assim como mantiveram, da mesma forma, uma política nuclear autônoma.
Compartilhavam, também, a vontade política de implementar um processo de
integração regional.
A partir da década de noventa, as políticas externas argentina e brasileira
experimentaram transformações com vistas à adaptação ao novo contexto
internacional, mas as percepções da ordem internacional estruturada por estes
países adquiriram diferenças que influíram marcadamente sobre seus esforços de
inserção externa.
O objetivo deste artigo é analisar comparativamente as diferenças estabelecidas
entre as linhas mais gerais das políticas externas da Argentina e do Brasil nos
anos 90 orientadas para o espectro político mais global, com ênfase na
percepção de cada um desses países sobre a nova ordem internacional.1 Neste
marco ressaltaremos as relações com os Estados Unidos, as questões de segurança
e as relações regionais.
Com tais propósitos, o artigo está dividido em três partes. A primeira parte
analisa as mudanças no cenário internacional que influenciaram as políticas
externas argentina e brasileira. A Segunda discute o caso argentino, dando
destaque inicialmente à crise doméstica e sua influência no desenho da política
exterior. Em seguida, analisa as mudanças nessa política, especialmente nas
relações com os Estados Unidos e nas questões de segurança, e examina as
relações regionais.
A terceira parte está dedicada à política externa brasileira. Como a anterior,
inicia com os fatores internos que incidiram sobre a política exterior do
período, passando em seguida para a visão brasileira da ordem internacional e
da inserção externa do país, para as relações com os Estados Unidos e alguns
exemplos do comportamento externo brasileiro. Encerra com a análise das
relações do Brasil com o entorno regional.
As conclusões comparam os dois casos em estudo. A ênfase está posta na
percepção dos agentes formuladores da política exterior no que se refere à
inserção internacional e ao processo de integração regional.
O colapso da Guerra Fria
A ordem internacional durante a Guerra Fria era de caráter bipolar, mas
existiam de fato três mundos diferenciados: o primeiro mundo, capitalista e
desenvolvido; o segundo, comunista e relativamente desenvolvido; e o terceiro
mundo, subdesenvolvido. O primeiro combinava inclusão econômica -a maioria da
população participava ativamente da vida econômica do país ' individualismo e
democracia política. Com a queda dos sistemas comunistas de produção e dos
regimes autoritários, os princípios de inclusão econômica, individualismo e
democracia política foram adotados pela grande maioria dos países (Dahrendorf,
1996).
O colapso da Guerra Fria foi resultado de um processo histórico que começou em
1971, quando o então presidente Richard Nixon, com a finalidade de incrementar
a liberdade de ação econômica e política, suspendeu a convertibilidade do
dólar, destruindo o já questionado sistema de Bretton Woods. Esta medida pode
ser, por seu turno, considerada como o ponto de partida do processo de
globalização do capital. Finalmente, em 1973 o sistema de Bretton Woods caiu de
vez com a decisão de se permitir a flutuação da taxa de câmbio. Estas medidas
provocaram um crescente movimento de capitais que, junto ao avanço tecnológico
dos anos 80, originou o processo de globalização econômica. Neste contexto, o
sistema soviético foi incapaz de seguir esta nova etapa de desenvolvimento
(Chomsky, 1992).
Esta superação definitiva da ordem bipolar da Guerra Fria com a decomposição
súbita da União Soviética e a estruturação de uma nova ordem baseada, no campo
político, na defesa de valores vinculados ao pluralismo democrático e, no
econômico, nos preceitos da economia de mercado, abriu uma série de
interrogações sobre a nova ordem e, particularmente, sobre o papel a ser
exercido nela pelos Estados Unidos. Isto criou espaços para a estruturação de
distintas percepções por parte de formuladores de política externa e incidiu
nas mudanças que tiveram lugar nos comportamentos externos específicos da
Argentina e do Brasil.
Na América Latina, em geral, estas transformações da ordem internacional,
combinadas com problemas internos, tiveram impacto sobre as políticas externas
dos países da região.2 Até o final dos anos 80, estes conviviam com problemas
resultantes da crise da dívida externa, do esgotamento dos modelos econômicos
anteriores e das dificuldades de inserção na economia internacional. Assim, o
comportamento externo de corte mais autonomista seguido anteriormente por estes
países foi substituído por visões mais pragmáticas vinculadas aos padrões
neoliberais que pautaram a reorganização do cenário internacional dos anos 90,
e assumidos por novos governos nacionais.
Em relação aos processos de integração regional, houve um período de avanços.
Na economia globalizada, os estímulos e pressões para a abertura econômica dos
países, uma menor intervenção governamental na economia, assim como a
desregulamentação de diversas facetas das economias e equilíbrio fiscal
passaram a ser freqüentes para os países de menor desenvolvimento. A noção de
economia de mercado veio acompanhada de uma internacionalização crescente dos
circuitos produtivos e da transnacionalização dos movimentos de capitais e dos
investimentos (Schirm, 1996).
Neste contexto, o novo modelo de integração adaptado ao padrão econômico
neoliberal foi considerado, inicialmente, como uma forma de aumentar a
competitividade econômica e de enfrentar desafios e pressões internas e
externas resultantes da economia globalizada. Assim, com a passagem de década,
houve um novo impulso no processo de integração Centro-Americano e no Pacto
Andino, orientado para o estabelecimento de uma união aduaneira, e formou-se o
Mercosul, com o mesmo propósito. Estes grupos, ao contrário do modelo de
integração cepalino, caracterizaram-se por sua abertura para o exterior com a
liberalização das economias e, ao mesmo tempo, buscaram tornar-se mais
atrativos para o capital estrangeiro. A opção por um processo de integração de
caráter aberto e funcionando como canal de inserção na economia internacional
converteu-se em um mecanismo importante no arco das ações externas.3
Argentina: uma política exterior em movimento
Redefinindo a política externa
Entre 1983 e 1989, o governo de Raúl Alfonsín experimentou o fim de uma longa
crise do Estado argentino.4 Este período foi marcado pela recriação das
coalizões políticas e de classe, enquanto distintas facções lutavam para manter
ou modificar sua cota de poder. Neste jogo de poder, as relações sociais foram
profundamente modificadas. O resultado destas mudanças nas relações sociais
trouxe consigo um forte questionamento do Estado. O primeiro governo de Carlos
Menem, percebendo a situação como uma crise de dominação, implementou uma série
de reformas do Estado com o objetivo de reestruturar seu poder de dominação.
Assim, nos primeiros anos da década de 90, existiu uma redefinição de alianças
políticas e econômicas tanto a nível doméstico quanto a nível internacional,
posto que a Argentina não foi alheia à reconsideração das alianças
internacionais que se originaram com o desmembramento da União Soviética. No
marco das reformulações, a política externa, sendo vista como, em parte,
responsável pelos fracassos econômicos do passado, foi questionada dentro de um
processo de revisionismo mais geral do modelo ' confrontativo ' de inserção
externa adotado historicamente pelo país.
Neste contexto, a política externa foi utilizada como um instrumento para
estabelecer ou consolidar alianças internacionais que ajudaram a redesenhar e/
ou manter as novas relações sociais domésticas. O primeiro chanceler de Carlos
Menem foi Domingo Cavallo, um economista que abraçou o conceito de "Estado
comercial" (trading state) de Rosecrance (1986). As transformações do cenário
internacional foram cruciais para delinear as percepções de Cavallo. A política
exterior foi vista como um instrumento para redesenhar o Estado seguindo as
novas tendências da ordem mundial.
O primeiro governo de Menem estabeleceu um Estado neoliberal. Este tipo de
Estado domina através da imagem de um Estado guardião da democracia, da lei, da
eficiência, e como provedor do marco legal adequado para o desenvolvimento dos
mercados, da sociedade civil e do indivíduo. Um dos objetivos cruciais do
Estado neoliberal é a liberalização da economia com o fim de atrair capitais
estrangeiros. Para isso, o país deve ser considerado como um sócio confiável e
previsível. A política externa argentina teve, assim, esta missão. O
restabelecimento de relações diplomáticas com o Reino Unido, por exemplo, foi
considerado como condição essencial para o estabelecimento de uma nova relação
com os Estados Unidos, entendida esta como o elemento chave para se alcançar
estabilidade e crescimento econômico. Neste contexto, os conceitos de interesse
nacional e soberania foram redefinidos de acordo com suas relações com o
desenvolvimento econômico doméstico e a integração com a economia
internacional.
Em resposta à profunda crise doméstica, as mudanças foram dramaticamente
implementadas. A famosa frase do Chanceler Guido Di Tella (1991-1999) sobre o
estabelecimento de "relaciones carnales" com os Estados Unidos foi parte desta
estratégia de mudanças abruptas. Esta consistia em estabelecer medidas ou
expressar idéias de grande impacto que pudessem ajudar a estabilizar a
economia. Como a Argentina não tinha ameaças externas, os decisores de política
exterior perceberam que o interesse nacional, no contexto da pior crise
econômica até então experimentada, devia estar ligado à saída desta crise. As
mudanças na política externa estiveram, então, profundamente relacionadas com a
economia doméstica, e seu objetivo principal foi facilitar o crescimento
econômico. O argumento principal, neste quadro, foi o reconhecimento dos
Estados Unidos como líder regional e internacional. Portanto, a Argentina
deveria estabelecer uma boa relação com este país, na medida em que esta
relação não prejudicasse interesses materiais da Argentina (Escudé e Fontana,
1998:54).
Esta nova percepção da estratégia externa argentina encontrou aceitação na
diplomacia.5 A lógica de formulação de política externa concentra-se sobretudo
no vínculo entre a presidência e a cúpula da Chancelaria, integrada basicamente
por funcionários de origem política, enquanto o corpo diplomático de carreira
fica mais afastado deste núcleo.6 Isto contribuiu para que a Chancelaria tenha
sido permeável às novas idéias gestadas na arena política.
A política externa de Menem foi teoricamente analisada por Carlos Escudé
(1995).7 Em sua análise, Escudé define diferentes tipos de racionalidades no
processo de tomada de decisões: cidadano-cêntricas, estado-cêntricas, governo-
cêntricas, elite-cêntricas ou estadistas-cêntricas. Estas distintas
racionalidades definem-se pelos "diversos sujetos a los que una política
exterior puede servir" (Escudé, 1995:32). Escudé argumenta que a lógica da
política exterior de Menem sustentava-se numa nova hierarquia na qual a geração
de recursos econômicos era mais importante que a geração de recursos político-
militares (1995:97). Sugere que a política exterior menemista foi uma
combinação de dois tipos de idéias relacionados à idéia do trading statede
Rosecrance (1995:171).
No entanto, acreditamos que uma combinação entre a racionalidade elite-cêntrica
e a estado-cêntrica poderia nos ajudar a entender melhor esta política. Se a
política exterior é um instrumento da política econômica, é possível analisar a
racionalidade da primeira com base nos resultados da última. A Argentina tem,
depois das reformas dos anos 90, uma pior distribuição de renda que em 1980. O
incremento da desigualdade demonstra-se através da análise do coeficiente Gini
que passou de 0.365 em 1980 a 0.412 em 1985; 0,443 em 1994; e 0,459 em 1997
(Tedesco, 2000). Enquanto o crescimento do PIB foi de 11.6% de 1993 a 1998; no
mesmo período, 80% dos salários industriais diminuíram em 23.1% (Tedesco,
2000). Se os salários baixavam enquanto crescia a produtividade, a taxa de
lucro absoluta também crescia, o que produz um forte impacto na distribuição de
renda e ajuda a entender a evolução do coeficiente Gini. Uma estratégia
econômica definida, por conta de seus resultados, como elite-cêntrica
(parafraseando Escudé "por los sujetos a los que tiende a servir") produzirá,
provavelmente, uma política exterior iluminada pela mesma racionalidade que
sustentaria a dinâmica da política econômica.
Da teoria à prática
A nova política externa baseava-se em duas idéias: realismo e pragmatismo.O
primeiro princípio que a alentava era que a ordem internacional devia ser
entendida como realmente era,mais que como deveria ser. Isto significava
aceitar o lugar marginal da Argentina nesta ordem. E, ademais, implicava no
estabelecimento de uma nova relação com os Estados Unidos baseada na forma na
qual a ordem internacional se apresentava na realidade.
O primeiro passo da política foi o restabelecimento de relações diplomáticas
com o Reino Unido. Isto foi visto como uma medida que melhoraria as relações
com os Estados Unidos, a União Européia e, em termos mais gerais, a imagem
internacional do país. Guido Di Tella apresentava as mudanças como uma
continuação da grande transformação da Argentina em um país democrático e
economicamente estável.
As mudanças eram, assim mesmo, resultado da reconceitualização da idéia de
soberania e interesse nacional. De acordo com Di Tella, a essência do interesse
nacional era sustentar os princípios democráticos, "defender el derecho al
bienestar de los pueblos, sin arriesgar el valor más importante, que reside en
lo que hace al bienestar" (Clarín, 12/11/91:13). Portanto, o conceito de
interesse nacional estava relacionado ao bem-estar do povo. A idéia da
soberania também foi relacionada com o desenvolvimento econômico. Um país,
argumentava-se, somente poderia ser soberano se fosse desenvolvido. Neste
sentido, a política externa era entendida como um braço da política econômica
cujo principal objetivo era criar uma imagem da Argentina como um país
confiável e previsível, ou seja, um "país normal".8. Tulchin (1998:164)
capturou esta idéia ao assinalar que "foreign policy has come to be understood
as a reflection of how the nation sees itself and how it wishes to be seen, as
well as an instrument for national development".
Neste novo marco, o restabelecimento de relações diplomáticas com o Reino Unido
era considerado muito mais importante que a disputa pela soberania das Ilhas
Malvinas/Falklands.9 O resultado final desta política de cooperação foi o
restabelecimento de viagens aéreas com as Ilhas em 1999. Esta medida foi
provocada, em parte, pela detenção de Augusto Pinochet em Londres em outubro de
1998, mas é impossível ignorar o papel que jogaram os oito anos de relações
diplomáticas para melhorar as relações em geral.
O tema mais importante, como já assinalamos, foi a relação com os Estados
Unidos. Certamente, as mudanças efetuadas estavam vinculadas a este
relacionamento, e basearam-se em "três percepções: o papel unipolar por eles
exercido ao término da Guerra Fria, sua capacidade de influência nos órgãos
multilaterais, e a capacidade de consumo de seu mercado e a disponibilidade de
capitais para investimentos externos" (Cervo, 2000b:p.45). A nova política
externa substituía a confrontação pela cooperação.
Dentro desta perspectiva, uma das primeiras medidas foi modificar os votos da
Argentina nas Nações Unidas com vistas a conseguir maior coincidência com os
votos norte-americanos. Ademais, Argentina começou a dar maior importância a
temas estratégicos como o futuro do míssil Cóndor II e o plano nuclear. Em
setembro de 1989, o recém-empossado presidente Carlos Menem viajou aos Estados
Unidos com uma agenda que incluía o desmantelamento do míssel que havia sido
financiado pelo Egito e pelo Iraque em 1984. O governo norte-americano exigia a
sua destruição.
O desmantelamento do míssel, porém, produziu discrepâncias no Gabinete
Nacional. Enquanto Domingo Cavallo, desde a Chancelaria, insistia que o
desmantelamento era crucial para melhorar as relações com os Estados Unidos,
Humberto Romero, desde o Ministério da Defesa, sustentava que o governo devia
afirmar que somente utilizaria a tecnologia para fins pacíficos, o que
permitira continuar seu desenvolvimento. O Brasil era um exemplo a seguir,
argumentava-se especialmente nos meios de comunicação, já que mantinha, por seu
turno, boas relações diplomáticas com os Estados Unidos independentemente de
sua política nuclear, de sua indústria de armamentos e de seu desenvolvimento
missilístico (Ámbito Financiero, 27/4/90:11). Logo depois da mudança no
Gabinete em abril de 1991, Di Tella manteve a posição de Cavallo e em maio
deste mesmo ano foi anunciado que o míssel seria desmantelado e que o país se
integraria ao Regime de Controle de Tecnologias Missilísticas (MTCR).
Em relação à política nuclear, o governo considerava que mudando-a, também
seriam beneficiadas as relações regionais. O presidente Menem deu continuidade
ao processo de integração com o Brasil iniciado em 1985 e prestou especial
interesse à política de cooperação em matéria nuclear. A partir dos anos 90 os
dois países conjuntamente abriram mão de suas políticas nucleares autônomas.
Depois de mais de duas décadas de resistência ao instrumento de não-
proliferação nuclear; ambos ratificaram o Tratado de Tlatelolco e assinaram o
Tratado de Não-Proliferação (TNP) de armas nucleares. Esta integração de suas
políticas nucleares, coordenadas com uma aceitação das disposições
internacionais dominantes sobre o tema, contribuiu para que os dois países
aparecessem como parceiros mais confiáveis frente aos Estados Unidos e à União
Européia.
Estas mudanças foram possíveis, internamente, pela desmobilização política das
Forças Armadas depois da queda da ditadura militar. Em princípio dos anos 90,
os militares estavam sob controle civil, o que explica, em parte, o êxito do
presidente Menem em modificar a política exterior e os temas estratégicos que,
historicamente, haviam estado abaixo da esfera militar.
Durante o período o feito mais controvertido foi, sem dúvida a participação
argentina na Guerra do Golfo. O presidente Menem decidiu enviar os navios de
guerra sem consultar previamente o Congresso e os países vizinhos. O Chanceler
Cavallo argumentou que esta decisão ajudaria a integração da economia argentina
no mundo, incrementaria os níveis de investimento estrangeiro e, portanto,
significava uma continuidade das reformas econômicas domésticas (Clarín, 19/9/
90:5). Neste caso, a política externa aparecia, novamente, atada à estratégia
econômica.
A participação na guerra provocou um importante debate interno. A União Cívica
Radical, desde a oposição, defendia que o fim da Guerra Fria não havia
significado o fim do conflito Norte-Sul. Neste conflito, a Argentina formava
parte do Sul e, portanto, devia identificar-se com os interesses deste grupo de
países. Segundo seus argumentos, a Argentina deveria coordenar sua política
exterior com estes países, especialmente com os de sua região. O radicalismo
sustentava que o país deveria condenar a invasão do Kuwait e aderir ao embargo
imposto pelas Nações Unidas.
Nesta questão, a diferença mais importante entre Peronistas e Radicais era a
conceitualização do interesse nacional. O governo considerava que o interesse
nacional era uma aliança com países do Primeiro Mundo através da qual a crise
econômica poderia ser superada. O Partido Radical considerava que o interesse
nacional da Argentina se definia por consolidar uma aliança com os países em
desenvolvimento (em continuidade à política externa do governo radical
anterior). Esta aliança permitir-lhe-ia integrar-se à economia global.
Em termos gerais, o fato abriu caminho para uma nova política de segurança mais
geral, marcada pela aproximação com os norte-americanos. Durante o período,
somada à política nuclear e de desarmamento, a Argentina participou de um
grande número de Operações de Paz das Nações Unidas e tornou-se aliada, extra-
Otan, dos Estados Unidos.
Outro debate foi gerado com a decisão de se abandonar o Movimento dos Não-
Alinhados em outubro de 1991. O governo argumentou que o Movimento não havia
mudado, apesar das transformações no sistema internacional com o fim da Guerra
Fria, e Di Tella sintetizou a posição expressando que "el interés que impone la
cooperación con los países de quienes depende nuestro bienestar converge con la
defensa de nuestros principios" ( La Nación, 4/11/91:7).
Também a questão das relações com Cuba e a posição no que diz respeito ao
conflito no Haití ajudaram a configurar a nova política exterior. Em março de
1991 a posição argentina frente a Cuba modificou-se. Nas Nações Unidas, a
Argentina votou, junto aos Estados Unidos e países europeus, a favor de uma
resolução que propunha o envio de uma Comissão com vistas a investigar a
situação dos direitos humanos na Ilha. O presidente Menem se reuniu em
distintas oportunidades com o lobby anti-castrista de Miami e sustentou que
Cuba deveria mudar sua ideologia para terminar seu isolamento do resto da
América Latina. O tema cubano foi discutido em várias ocasiões em Cúpulas
Ibero-Americanas e no Grupo do Rio. Nestes foros, o governo argentino
enfrentou-se com o mexicano, que rechaçava a consideração do tema por
identificá-lo como uma violação ao princípio da não-intervenção. O governo
argentino também divergiu inicialmente da posição brasileira quando, em 1994, o
então presidente Itamar Franco propôs a entrada de Cuba na Organização dos
Estados Americanos (OEA). Em linhas gerais, a maioria dos países latino-
americanos seguia a posição do Brasil e do México, com exceção do Chile, cuja
postura era bastante próxima à argentina.
O golpe militar no Haití, em 1991, foi um teste para a reação regional em
defesa da democracia. Depois de muitas discussões sobre o princípio da não-
intervenção, o caso ficou esquecido por dois anos. Em outubro de 1993, o
governo norte-americano, junto com o Conselho de Segurança das Nações Unidas,
decretou um embargo naval ao Haiti com vistas a pressionar o governo militar
para a implementação dos acordos de Julho que consideravam o retorno à
democracia. A Argentina decidiu enviar navios de guerra e, com a passagem do
tempo, foi aproximando-se cada vez mais de um apoio à posição norte-americana
sobre uma intervenção militar. Venezuela, Uruguai, Jamaica, Paraguai, Colômbia,
Nicarágua e México opunham-se a uma intervenção militar. O Brasil, como país
membro do Conselho de Segurança, se absteve.
A atitude do governo argentino frente a estes dois temas regionais deve ser
entendida nos marcos mais amplos das novas relações com os Estados Unidos. Este
relacionamento significava, nos planos internacional e regional, uma
reconsideração das alianças baseada na reconceitualização do interesse nacional
que, de acordo com o chanceler Di Tella, significava a cooperação com os países
mais desenvolvidos na medida em que deles dependia o bem-estar econômico da
Argentina.
O marco regional
No tocante às alianças regionais, o governo aprofundou as relações com o Brasil
especialmente através da assinatura do Tratado de Assunção e criação do
Mercosul. O Tratado previa uma tarifa zero a partir de 1995. Esta foi uma
política que teve consenso entre os partidos políticos, embora tenha tido que
passar por períodos de pouca popularidade, especialmente em situações onde o
déficit comercial com Brasil se fez sentir; por exemplo, em 1992. Neste
período, argumentos protecionistas adquiriram força especialmente na União
Industrial Argentina (UIA), assim como rumores, provindos de outros setores
empresariais, que incentivavam a abandonar o Mercosul para integrar-se à Área
de Livre Comércio da América do Norte (Nafta). Esta dicotomia Nafta/Mercosul
esteve presente no discurso do governo durante os primeiros anos da década de
noventa. Desde a imprensa argentina, se acusava o Brasil de manter uma atitude
protecionista frente à liberalização da economia argentina. O Brasil era
considerado o poder hegemônico cuja autonomia crescia graças ao Mercosul,
enquanto a Argentina incrementava a sua dependência.10 Apesar dessas dúvidas
acerca de suas limitações e possibilidades, o Mercosul significou uma das
grandes transformações do período: o tradicional adversário convertia-se no
maior sócio comercial colocando-se, de fato, como aliado no campo.11
Em um marco de negociações e de alternância entre momentos de avanço e momentos
de estagnação, da assinatura do Tratado de Assunção até o final da década, o
comércio entre ambos teve um crescimento significativo.12 Mas este crescimento
não veio acompanhado de uma articulação no campo industrial e cambial, e a
desvalorização do real em 1999, em contraste com a convertibilidade da moeda
argentina, teve um impacto negativo sobre o comércio entre ambos.
Este fortalecimento no campo comercial não significou, porém, uma aliança
política no âmbito internacional. Nesta área, os Estados Unidos seguiram como
referência principal.
Dentro deste contexto, alguns passos no sentido da segurança entre ambos foram
implementados pelo governo menemista, com especial atenção à política nuclear.
Em novembro de 1990, Argentina e Brasil firmaram uma Declaração Conjunta para
uma Política Nuclear Comum, que foi o ponto de partida de uma série de acordos
bilaterais. Ambos países acordaram em usar energia nuclear somente com
objetivos pacíficos, em ratificar o Tratado de Tlatelolco e em solicitar
conjuntamente à Comissão Internacional de Energia Atômica o controle do uso
pacífico da energia nuclear (Tulchin, 1998:185). A Argentina ratificou
Tlatelolco junto com o Brasil em 1994, e aderiu ao Tratado de Não Proliferação
pouco depois (em 1997, o Brasil também aderiu ao Tratado). Ambos os países
criaram o Mecanismo de Consulta sobre Defesa e Segurança Argentino-Brasileiro
junto com uma agência bilateral para administrar o sistema (Abacc).
Ademais, em setembro de 1996, pela primeira vez os exércitos de ambos os países
realizaram um exercício conjunto na província de Corrientes. O Brasil fez
pública sua política de defesa onde eliminavam-se as hipóteses de conflito com
a Argentina. Finalmente, as armadas também participaram de forma conjunta em
exercícios tais como o Operativo Camas, Araex, Fraterno e Atlasul (Escudé e
Fontana, 1998:61), além de estruturarem o Mecanismo de Consulta sobre Defesa e
Segurança Argentino-Brasileiro. No entanto, isto não significou a formação de
uma política de defesa comum, mantendo-se a Argentina uma inserção diferente
nos marcos da segurança internacional.
Outro rival tradicional, o Chile, também transformou-se em sócio comercial. Mas
em termos gerais, a relação com o Chile esteve, em parte, concentrada na
carreira armamentista. As Forças Armadas de ambos países seguiam utilizando o
discurso sobre o suposto poderio militar do país vizinho para justificar a
aquisição de novos armamentos. Para os militares argentinos, a maior
preocupação era o míssil El Rayo,que não havia sido desmantelado como o Cóndor
II.13 No entanto, os argumentos das Forças Armadas foram, finalmente,
neutralizados. E, neste terreno, a Argentina foi um caso excepcional. Em
seguida à transição democrática, os governos argentinos conseguiram diminuir o
poder político e econômico das Forças Armadas. O gasto militar como porcentagem
do PIB era 3.8% em 1985, 3.5% em 1989, e 1.9% em 1991 (Escudé e Fontana, 1998:
63). Outras medidas, como a abolição do serviço militar obrigatório e o
desmantelamento do míssel Condor, reforçam este argumento. Entretanto, esta
situação não poderia ser sustentada em relação ao Brasil ou Chile. Enquanto o
gasto militar foi apenas 1,9% do PIB na Argentina em 1991, no Chile alcançou
3,4% no mesmo ano. O contingente militar alcançava o número de 75.000 na
Argentina, 93.000 no Chile e 300.000 no Brasil (Escudé e Fontana, 1998:63).
Porém, e apesar destas diferenças, ninguém pode duvidar que o cenário mudou
drasticamente no Cone Sul. Na Argentina, a desmobilização política das Forças
Armadas começou nos anos oitenta a partir da derrota no conflito pelas ilhas
Malvinas. O processo de democratização, junto com as políticas de Raúl Alfonsín
com respeito às violações aos direitos humanos, minou ainda mais o papel das
Forças Armadas. O movimento carapintada,14 apesar de Ter, a curto prazo,
parecido dar poder às Forças Armadas, no longo prazo erodiu ainda mais o papel
político dos militares.
O caso brasileiro: redefinição da política externa
No caso brasileiro, as modificações ocorridas no cenário internacional vieram
acompanhadas de mudanças de ordem doméstica que impactaram sobre a política
externa. Durante o período, o Brasil experimentou uma situação diferente da
Argentina. Enquanto esta manteve uma regularidade em função da longevidade do
governo Menem, a política doméstica brasileira foi menos contínua, com três
presidentes distintos que, com características diferentes, não deram seqüência
a um mesmo projeto. No campo da política externa, o avanço da globalização, que
levou ao esvaziamento definitivo do eixo Norte/Sul da política internacional,
trouxe restrições ao projeto nacional de política exterior que vinha sendo
seguido anteriormente e abriu espaço para novas reflexões e formulações sobre o
comportamento brasileiro vis a vis o exterior.
Política interna, estratégia de desenvolvimento e o papel do Itamaraty
Internamente, o final da década de 80 foi marcado pela consolidação do processo
de democratização e pela crise econômica resultante de uma crise do modelo de
desenvolvimento adotado há muito tempo. O esgotamento do modelo de crescimento
baseado na dinâmica da substituição das importações, junto com os problemas
financeiros resultantes da crise da dívida externa, já era perceptível nos anos
80. O Brasil entra nos anos 90 com uma confrontação entre um pensamento liberal
e outro nacionalista sobre os rumos da estratégia de desenvolvimento a ser
adotada. A ascensão de Collor de Mello, de corte liberal, à presidência em
1990, favoreceu um processo de abertura da economia com vistas a um crescimento
da produção articulado com os mercados externos como estímulo à renovação do
parque produtivo e como garantia de uma inserção mais competitiva na economia
internacional. Mas estes esforços de reformulação do modelo de desenvolvimento
a partir da abertura econômica tiveram menos êxito que no caso argentino. No
Brasil, enfrentaram problemas e resistências internas, assim como dificuldades
na gestão presidencial que levaram ao impeachmentdo presidente ao final de
1992.
Oimpeachment de Collor e a ascensão de Itamar Franco à presidência
comprometeram, por um tempo, o pensamento mais liberal na política brasileira.
O corte mais nacionalista de Franco que, rapidamente, deu sinais de que não
manteria igualmente o processo de abertura da economia, trouxe alterações
internas e impactou sobre a política externa. A reforma estrutural da economia
seguiu, mas de forma mais incerta, com avanços e recuos, entre posturas de
resistência ao ajuste aberturista por parte de setores do empresariado nacional
e de esforços do governo em implementar o programa. A indefinição da estratégia
de desenvolvimento a ser adotada, que não se situava no espectro da
substituição de importações, mas tampouco tratava-se exatamente da ideologia
econômica do neoliberalismo, dificultou a formulação do comportamento externo.
O lançamento do Plano Real, em meados de 1994 e a eleição de Fernando Henrique
Cardoso reorientaram os esforços do governo no sentido das reformas
aberturistas e deram mais credibilidade ao país no exterior. A nova coalizão de
governo expressou um maior consenso interno 'entre as elites políticas e
empresariais- em torno às reformas econômicas e estatais, mas conviveu ainda
com certa tensão entre uma vertente mais reticente ao processo de adaptação às
mudanças internacionais (propensa a uma consideração caso a caso), e outra mais
definidamente neoliberal.
Uma questão importante no caso brasileiro é a participação intensa e
tradicional da corporação diplomática no processo de formulação da política
externa. Por muito tempo, a política externa era vista como área de
especialistas, não sendo objeto de interesse por parte da maioria dos políticos
e da sociedade brasileira em geral. O longo período de governo autoritário,
onde o Itamaraty pode exercer um papel importante no processo decisório,
distanciou ainda mais outras dimensões políticas dos temas externos, deixando a
chancelaria acima de questões político-eleitorais (Lima, 2000).
O processo de democratização da vida política trouxe à tona esta questão, mas
não resolveu as difíceis relações entre a política e a diplomacia, nem
conseguiu levar a bom termo um diálogo entre a chancelaria e setores
importantes do empresariado nacional e da sociedade civil.15 Esta centralização
da formulação de política externa, se tradicionalmente contribuiu para um
comportamento mais estável, em termos gerais, apesar de mudanças ocorridas no
quadro político, criou certas dificuldades de renovação e de adaptação à nova
realidade nacional (democratização e abertura econômica) e internacional.
Contribuiu, assim, para que a diplomacia enfrentasse dificuldades em
negociações ou em representar distintos interesses sociais, e fez com que a
inflexão experimentada pela política externa brasileira fosse mais lenta, com
avanços e recuos.
As diferenças na percepção da ordem internacional, as relações com os Estados
Unidos e as questões de segurança
Conforme já foi visto, o início do governo Menem trouxe uma mudança de rumo
importante na política externa argentina. Para a nova administração, colocava-
se como fundamental romper a tradição de desafio aos Estados Unidos e buscar
uma aliança efetiva com o parceiro do norte em relação a temas gerais da
política internacional como forma de garantir recursos para o projeto econômico
interno e para uma inserção internacional mais ativa junto e próxima ao
diretório dos grandes. A diplomacia brasileira, por seu turno, pôs em xeque o
paradigma que regia a política exterior do país desde os anos 70 e buscou
redefinições, agregando aos conceitos tradicionais da atuação externa
brasileira novas categorias de interpretação da realidade internacional.16
Com a ascensão de Collor, as linhas gerais que nortearam o comportamento
externo brasileiro durante muitos anos foram questionadas, abrindo-se o que
poderia qualificar-se de crise de paradigma da política externa.17 Com a
conjugação de fatores externos e internos, as premissas vinculadas ao
desenvolvimentismo, que já vinham perdendo seu dinamismo, foram definitivamente
superadas, e o consenso que existia internamente nas elites sobre o projeto de
política externa se rompeu.
Durante esta administração, as linhas gerais baseadas no paradigma globalista
que nortearam o comportamento externo brasileiro durante muitos anos deram
lugar a uma percepção que sustentava que abandonando as queixas em relação à
economia internacional e aproximando-se dos Estados Unidos, o Brasil poderia
colocar-se como interlocutor válido no cenário internacional. Assim, o governo
se propôs a modificar o perfil internacional do país atualizando a agenda de
acordo com os novos temas, construindo uma melhor relação com os Estados Unidos
e desfazendo o perfil terceiro-mundista do Brasil. Buscava uma inserção externa
mais competitiva que aproximasse o país do Primeiro Mundo (Abdenur, 1994).
Entretanto, o governo procurou manter, em continuidade com os traços mais
perduráveis da política externa brasileira, o caráter vinculante da mesma com o
modelo de desenvolvimento, orientada então para suscitar o respaldo externo às
reformas econômicas nacionais.
Estas modificações introduzidas pelo governo Collor, contribuíram para o
surgimento de diferenças dentro da diplomacia brasileira. Esta, que
historicamente teve uma forte influência sobre a formulação da política
exterior mantendo uma aparência de coesão em termos de idéias, encontrou sua
autonomia na formulação da política limitada.
As linhas de política externa definidas pelo governo Collor foram de difícil
implementação devido aos problemas na gestão do plano econômico e pela crise de
governabilidade que atravessou Brasil (Lima e Hirst, 1994:58). Um dos poucos
exemplos positivos foi a Conferência do Meio Ambiente, de 1992 no Rio de
Janeiro, com vistas, entre outras, à acumulação de um capital diplomático para
o país.
O fim prematuro do governo de Collor e o questionamento do pensamento
neoliberal que isto acarretou, tornaram ainda mais complicada a construção de
consenso em política exterior. A interrupção do ajuste estrutural da economia
limitou as reformas ao âmbito do comércio exterior, no sentido de uma maior
abertura relativa, e trouxe debates.
A ascensão de Itamar Franco à presidência teve impacto na política externa pois
esta recuperou em parte a preponderância de seus pressupostos anteriores dando
um fôlego maior à vertente mais desenvolvimentista. Abre assim um fosso em
relação ao comportamento da Argentina frente aos Estados Unidos.
Neste período, a visão da Chancelaria da ordem internacional pautou-se na
existência de um cenário de "polaridades indefinidas," onde não estava pré-
definido o lugar que cada um dos principais atores viria a ocupar (Lafer e
Fonseca Jr, 1994). A diplomacia brasileira estava ainda assimilando o processo
de globalização, e a ordem internacional era vista como transitória e
instável.18
As premissas principais da política externa brasileira deste período se baseiam
em um paradigma globalista, em um projeto de inserção externa de um país
continental em um cenário internacional descontínuo, com interesses na dinâmica
de globalização da economia mundial, e como parceiro importante no processo de
regionalização da América Latina e do Norte. Assim, o Brasil atuou mais
ativamente nos foros multilaterais; aprofundou a integração regional com
destaque para o Mercosul; buscou a aproximação com novos parceiros externos
como a Índia e a China (Hirst e Pinheiro, 1995:11). No que diz respeito aos
Estados Unidos, embora a diplomacia brasileira tenha buscado "desdramatizar" as
relações evitando tanto alianças incondicionais quanto enfrentamento, o recuo
no processo da abertura da economia desestabilizou as relações, e as
coincidências diminuíram.19
O início do governo Fernando Henrique Cardoso reviveu os padrões que haviam se
delineado no governo Collor. A inflexão mais relevante foi a aceitação de um
novo conceito de "soberania compartilhada", diferente do conceito clássico de
soberania (Silva, 1999). Isto se baseava em um mundo marcado por valores
universais, onde os Estados estariam sujeitos às normas oriundas dos regimes
internacionais. Da perspectiva da diplomacia brasileira, isto significa
modificações no conceito de autonomia ' a idéia da "autonomia pela integração",
em detrimento de uma autonomia que visasse o isolamento ou a auto-
suficiência.20 Esta modificação refletia um esforço da diplomacia brasileira de
combinar, ao mesmo tempo, o caráter mais autônomo de orientação multilateral
assumido tradicionalmente pela política externa com as características no novo
contexto internacional.21
O argumento da diplomacia argentina da necessidade de aliar-se aos Estados
Unidos incondicionalmente é substituído no Brasil pela percepção de ser um país
com mais recursos de poder, mas com uma relativa inércia para aplicá-los.22
A meados dos anos 90, desde a percepção brasileira existiria um "concerto"
homogêneo de defesa da democracia, direitos humanos, livre mercado, e a
tendência à formação de regimes em sua defesa. Mas as condições de manutenção
deste "concerto" dependeriam da grande adaptabilidade da liderança norte-
americana às demandas das demais potências e, em Segunda instância, dos países
médios e pequenos (Fonseca Jr., 1999:32). Este cenário abriria espaço para que
Brasil -em busca de mecanismos para ampliar sua capacidade de atuação
internacional- pudesse adotar uma posição que não significasse nem alinhamento
automático e nem uma postura de free rider. Uma posição que se orientasse, em
primeiro lugar, pela percepção de que a política de blocos da ordem bipolar
seria substituída por alinhamentos variáveis de acordo com o tema em questão e,
em segundo, pela adesão aos regimes internacionais referentes aos temas
vigentes (Fonseca Jr., 1999:39).
Com base nesta perspectiva, no que diz respeito aos Estados Unidos, a política
externa brasileira manteve, por um lado, divergências tanto em temas da
organização do comércio internacional e do protecionismo dos países
desenvolvidos quanto em temas relacionados ao processo de integração do
continente americano. Enquanto os Estados Unidos mostravam mais pressa em
concluir a Associação Americana de Livre Comércio (Alca), o Brasil preferia
atrasar a conclusão dando ênfase às experiências subregionais como o Mercosul.
A partir de uma coincidência de opiniões entre a maioria dos setores
empresariais e a diplomacia brasileira, esta adotou uma postura reticente
frente à idéia da Alca. Mas, por outro lado, não subsistiu o aspecto de
enfrentamento que ocorreu durante as décadas anteriores. Ao contrário, a
"desdramatização" já experimentada no governo de Franco contribuiu para abaixar
o perfil das exigências brasileiras. Por sua vez, o sucesso do Plano Real atuou
como fator de maior credibilidade do Brasil junto a seus parceiros do Norte.
Além do vínculo com os Estados Unidos, destacaram-se também as questões
relacionadas ao Conselho de Segurança, à participação nas Operações de Paz das
Nações Unidas e à política nuclear.
Em relação à candidatura brasileira ao Conselho de Segurança, diante da
perspectiva de reforma deste, a diplomacia nacional buscou incluir a Brasil
como membro permanente23. Durante o governo de Itamar Franco esta perspectiva
foi recolocada com base na idéia de que o Brasil deveria ser um global player,
com participação na formação das regras de convivência e valores de uma nova
ordem internacional em formação. A candidatura brasileira explicava-se pela
capacidade do país de participar e exercer influência sobre o processo de
tomada de decisões em questões da política internacional.
Na presidência de F.H.Cardoso a persepctiva manteve-se, embora com ênfase
menor. A defesa de uma reforma das Nações Unidas com vistas a proporcionar-lhe
condições de ocupar um papel relevante na ordem internacional, assim como da
candidatura brasileira ao Conselho, seguiram nos discursos de diplomatas e do
presidente. 24
As Operações de Paz das Nações Unidas são outro exemplo importante de
diferenças com a Argentina. Esta inaugurou um período de divergências com o
Brasil com sua decisão unilateral de participar da Guerra do Golfo enquanto o
Brasil aumentava sua distância em relação aos Estados Unidos, ao não
participarem do esforço de guerra. Desde a perspectiva brasileira, a diplomacia
manteve um discreto discurso de defesa do princípio da não-intervenção,
tendendo a considerar -como tradicionalmente- as medidas coercitivas como
instrumento de última instância. Em sua declaração do voto de abstenção quanto
ao envio de uma operação de paz ao Haiti, em 1994, a questão da soberania e da
independência dos Estados foi ressaltada (Resenha, 7/12/1994:15). O compromisso
brasileiro somente com as Operações de Paz que visassem unicamente a manutenção
da paz atuou como obstáculo. Neste caso, as limitações da corporação
diplomática de se automodificar tiveram influência nesta postura. Com base
então nestas premissas, o Brasil resguardou suas atuações para Operações que
guardavam maior convergência com os interesses do país; em 1993 o Brasil
participava de 5 Operações que incluíam os casos de Angola e Moçambique. Da
virada da década até 1997 a Argentina havia participado em quase o dobro de
Operações que o Brasil e, em muitos casos, a posição assumida por ambos foi
distinta dando o Brasil prioridade para a participação com observadores.25
Com o governo de Fernando Henrique Cardoso iniciou-se uma lenta revisão dos
comportamentos tradicionais da política externa brasileira. Em relação às
Operações de Paz, em 1999 o Brasil participou de uma de imposição da paz no
Timor Leste. Neste mesmo ano, frente à crise dos Balcãs, a diplomacia adotou
uma posição de apoio discreto às iniciativas contra a Iugoslávia.
No campo da defesa dos direitos humanos também houve uma mudança de
comportamento, neste caso em relação a Cuba. A reincorporação de Cuba à
Organização dos Estados Americanos era defendida incondicionalmente pela
diplomacia brasileira desde o fim do governo militar. Surpreendentemente, em
junho de 1998 o chanceler brasileiro afirmou que o país deveria democratizar-se
antes de voltar à Organização. Suas declarações abriram uma crise entre os dois
países, mas não tiveram muito impacto nos meios de comunicação e políticos
domésticos (Jornal do Brasil, 12/6/98:7).
Outra dimensão da postura brasileira frente à segurança internacional diz
respeito à política de não-proliferação nuclear e de armamentos. Nesta esfera,
como já foi visto, o comportamento brasileiro foi convergente com o de seus
principais parceiros externos, especialmente a Argentina. Os governos de Collor
de Mello e Menem aprofundaram uma política de cooperação no campo nuclear.
Junto com o governo argentino, Brasil vai desistindo de sua política nuclear
autônoma, tão apreciada anteriormente por setores militares. Em 1994, o Brasil
ratificou, por fim, o Tratado de Tlatelolco, e em 1997 assinou o de Não-
Proliferação de Armas Nucleares. No que diz respeito à questão de armamentos,
em 1995 efetivou-se a adesão brasileira ao MTCR. Esta modificação na posição
brasileira em sua política nuclear e de armamentos se deu de forma coordenada
com a aceitação mais geral das disposições internacionais dominantes sobre o
tema.
O Brasil e a dimensão regional
O tema de integração regional ocupou um lugar de maior relevo na política
externa brasileira durante a década, embora não tenha sido implementado de
forma linear.. Durante o governo de Collor de Mello, e seguindo um impulso
iniciado na gestão de José Sarney, as preocupações integracionistas se
apresentaram de forma clara. Em 1991, com a assinatura do Tratado de Assunção,
o Mercosul passou a ser um elemento fundamental para o comportamento externo do
país. A coincidência na aplicação de políticas econômicas de corte mais liberal
pelos governos de Collor e Menem ' embora com menos êxito no caso brasileiro '
contribuíram para a adoção do modelo de integração de novo tipo com abertura
para o exterior.26
Do ponto de vista da diplomacia brasileira, uma união aduaneira parecia
favorecer a articulação de um projeto de desenvolvimento ao contribuir, em
geral, para uma economia de escala mais especializada, com maiores vantagens
comparativas e maior eficiência na produção. Com relação à inserção econômica
externa do país, o Mercosul ' tratando-se de uma experiência de integração
aberta ' poderia contribuir para melhorar o comércio exterior e converter-se em
pólo de atração de investimentos privados externos.
O comércio com a Argentina, no primeiro momento, não apareceu como elemento
principal em função da tendência do Brasil de posicionar-se como um global
trader, com seu comércio exterior multilateralizado. No entanto, na prática
terminou funcionando como um dos setores onde a integração avançou mais.
No que se refere às relações externas do Mercosul, o bloco desempenharia um
papel fundamental nos diálogos com outros grupos de países. A atuação dos
quatro ganhou espaço especialmente depois da assinatura do Protocolo de Ouro
Preto, que lhe conferiu uma personalidade jurídica.27 Isto favoreceu a
estratégia brasileira de maiores contatos com mercados desenvolvidos.
A presidência de Itamar Franco trouxe consigo uma percepção um pouco diferente
sobre o tema. Partindo de uma visão mais nacionalista, apontava para um projeto
de integração de caráter mais introspectivo, dando mais importância à formação
de uma Área de Livre Comércio na América do Sul (Alcsa) que ao próprio Mercosul
(Cervo, 1998). Este último poderia atuar como um instrumento capaz de
proporcionar ao Brasil um melhor posicionamento regional, assim como atuar na
esfera comercial como elemento capaz de abrir caminho para a formação de uma
área de livre comércio na América do Sul.
Mas na prática, a integração nos marcos do Mercosul foi impondo-se (enquanto o
projeto da Alcsa ficou em nível de discurso). Apesar de suas limitações, o
Mercosul assumiu um papel importante na política externa brasileira, passando a
ocupar um lugar de relevo na agenda. Também diversos setores econômicos
internos foram se engajando no processo, outorgando-lhe maior consistência.
Entretanto, as assimetrias entre as economias dos sócios e as diferenças nas
políticas cambiais de Brasil e Argentina obstacularizaram uma aproximação
maior. Uma coordenação macroeconômica, importante para a consecução do projeto
inicial, não foi considerada prioritária. A preservação de autonomia, no que
tange as decisões internas de política econômica, era considerada mais
relevante. O ritmo do processo também ficou subordinado a crises econômicas e
planos de estabilização.28 Desta forma, com certo pragmatismo, a integração
caminhou pelos setores onde encontrou menor resistência.
Com a aplicação do Plano Real de estabilização, em 1994, e o início da
presidência de Cardoso, as diferenças em relação à abertura da economia e ao
câmbio diminuíram, aproximando-os no campo macroeconômico. No entanto, mesmo
com o êxito do Plano, continuaram no Brasil as divergências internas sobre a
aplicação de uma nova estratégia de desenvolvimento, divergências que, por sua
vez, tiveram grande impacto nas relações entre Brasil e Argentina.29 Apesar
destas fricções, o processo de negociação da formação da Alca e o diálogo
estabelecido com a União Européia desenvolveram-se nos marcos da integração
regional. Embora a diplomacia argentina tenha dado preferência a uma aliança
com os Estados Unidos no campo político-estratégico, em termos econômicos a
aliança com o Brasil prevaleceu.
Em termos políticos, a formação do Mercosul era vista como um instrumento de
reforço da capacidade de negociação brasileira, proporcionando-lhe um maior
peso na arena internacional. A complexidade assumida pelas relações
internacionais apontava à importância de se coordenar suas ações com outros
parceiros. Deste modo, tornou-se importante para o Brasil trabalhar a partir de
um acordo de integração; o que poderia consolidar sua posição negociadora com
terceiros Estados e sua projeção no contexto regional. A harmonização das
relações de Brasil e Argentina já se apresentava como um fator relevante para o
estilo de inserção externa que a política exterior brasileira defendia.
A percepção do processo de integração, porém, não chegou a superar os limites
do que uma perspectiva realista (típica da diplomacia brasileira) entenderia
por soberania nacional. A diplomacia brasileira buscou sempre evitar que o
arranjo de integração viesse a significar uma soberania partilhada no que se
refere ao comportamento com outros parceiros externos. Os espaços de atuação
externa do Brasil em termos individuais ' relações bilaterais, negociações
multilaterais e atuação em foros internacionais ' não deveriam ser
obstacularizados.
Desta forma, em termos institucionais o Mercosul respondeu às preocupações da
diplomacia brasileira no que se refere à manutenção da soberania. As
instituições estruturadas desde o Tratado de Assunção tiveram um caráter
estritamente intergovernamental e não fizeram referência à política exterior,
deixando assim livres os parceiros para atuarem por sua conta.
Apesar das diferenças mencionadas, no âmbito regional houve esforços de
unificação de posições com a Argentina, em relação a temas que, até então, não
eram consensuais, como parte de um processo de aproximação dos comportamentos
na esfera regional. Os principais casos foram de posições assumidas em foros
como o Grupo do Rio e a Organização dos Estados Americanos no que se refere,
por exemplo, à questão cubana (embora com resultados, às vezes, de malabarismo
diplomático). O grupo Garante da pacificação do conflito entre Peru e Equador
contou também com a presença de ambos países.
No âmbito interno ao Mercosul, a defesa da democracia assumiu um papel
importante, materializado na crise vivida pelo governo paraguaio, em 1996.
Outros setores onde houve coincidências, já assinalados, foram a política
nuclear e manobras militares.
Por fim, em outras questões de caráter regional, o Brasil buscou uma maior
articulação com os países da região. As ações da diplomacia brasileira no Grupo
do Rio e nas Cúpulas Iberoamericanas (embora estas com a presença também da
Espanha e de Portugal) foram importantes, assim como a aproximação do Chile e
da Bolívia do Mercosul. Em relação à fronteira norte, a chancelaria buscou
estreitar os contatos com os vizinhos amazônicos, em particular no tocante aos
problemas da Colômbia.
Conclusão
A análise apresentada demonstra que as políticas externas do Brasil e da
Argentina experimentaram grandes transformações nos anos 90 como conseqüência
de crises domésticas e do colapso da Guerra Fria. A política exterior argentina
foi redesenhada de acordo com o estabelecimento de um novo modelo de
desenvolvimento depois da crise do final dos anos 80, adotando uma nova postura
frente aos grandes temas da política internacional. Graças à longevidade do
governo de Carlos Menem (1989-1999), a nova política exterior teve uma grande
continuidade durante o período. As mudanças bruscas do início da década marcam
uma forte diferença em relação ao Brasil. Em primeiro lugar, a crise doméstica
argentina apresentou-se como mais caótica que a crise brasileira. Em segundo
lugar, a política externa brasileira não necessitava de grandes gestos por
haver evitado, no passado, uma política de grandes confrontações. Finalmente, o
corpo diplomático argentino não havia conseguido o grau de autonomia do
Itamaraty e, portanto, era muito mais permeável e flexível frente às mudanças
de política. Apesar de Ter havido resistências a certas políticas e gestos, em
termos gerais o corpo diplomático acomodou-se rapidamente às transformações de
políticas e idéias.
No caso do Brasil, a política externa experimentou transformações importantes
como resposta às mudanças ocorridas na ordem internacional e no cenário
doméstico. No entanto, estas transformações não se deram de forma linear. A
própria trajetória interna de avanços e recuos nas reformas econômicas, assim
como o forte predomínio da chancelaria e suas tradições no processo de
formulação da política externa, contribuíram para que o processo fosse mais
lento. A ascensão de Collor esteve acompanhada da denominada crise de paradigma
que pôs em xeque os princípios da política externa anterior, mas não foi capaz
de consolidar um novo conjunto de princípios. O governo de Collor foi seguido
pela administração mais nacionalista de Franco, e dentro da chancelaria também
conviveram estas duas visões.
Portanto, a estrutura das corporações diplomáticas como também o grau de
continuidade dos governos, ajudam a entender o processo de transformação nas
políticas externas de ambos países. Estes dois elementos explicam as diferenças
nos processos de mudança e ajudam a descobrir a lógica das semelhanças. A
diferença mais importante foi que a Argentina implementou mudanças profundas e
abruptas no que se refere também às idéias que embasavam a formulação da
política externa, enquanto o Brasil ' devido às mudanças de governo, à
autonomia do Itamaraty e a uma situação menos crítica que a Argentina ' sofreu
avanços e recuos que resultaram em um processo gradual de transformações no
padrão de política exterior, combinando conceitos tradicionais com novas
perspectivas.30 A semelhança mais destacável é que ambos implementaram
modificações nas linhas gerais de sua política exterior no sentido de maior
coincidência com regimes internacionais. Em termos específicos, a política
nuclear e a adesão ao MTCR são exemplos relevantes de coincidência.
Dentre as diferenças a serem destacadas, a mais importante está relacionada à
percepção que os decisores de política externa desenvolveram do lugar que o seu
país tem no mundo. Enquanto o governo argentino destroçou a percepção
tradicional que reservava um lugar de privilégio para a Argentina na América
Latina e em suas relações com a Europa, os Estados Unidos e o mundo (seja como
parceiro privilegiado ou como feroz opositor), o governo brasileiro manteve a
posição que sustenta que o Brasil ocupa um lugar especial em termos político-
estratégicos.
Em relação aos Estados Unidos, a percepção do governo argentino concebia o
mundo sob o predomínio nítido de uma potência que, portanto, deveria ser o
aliado fundamental. A visão da diplomacia brasileira foi organizada a partir do
conceito das "polaridades indefinidas" do período de Itamar Franco até a idéia
que defende que a principal potência ' os Estados Unidos ' buscaria adaptar-se
às necessidades dos parceiros de maior relevância, e de outros menores, entre
os quais encontrava-se Brasil.
Estas diferentes percepções tiveram como resultado uma modificação na política
externa argentina, pautada pela relação que o governo gostaria de estabelecer
com os Estados Unidos, enquanto o Brasil não parecia Ter um eixo tão claro em
suas mudanças. A Argentina relacionou a grande maioria dos temas de política
externa com os Estados Unidos. As mudanças no Brasil estiveram mais
relacionadas às estratégias domésticas. Ademais, enquanto o governo argentino
redefiniu radicalmente conceitos como soberania e interesse nacional
relacionando-os aos objetivos econômicos domésticos, os governos brasileiros
foram mais cautelosos na redefinição das idéias.
A política econômica jogou um papel crucial no desenho da política externa de
ambos os países. A continuidade do Plano de Convertibilidade e a abertura
econômica argentina ajudaram a estabelecer mais claramente as relações
econômicas externas. No Brasil, a tensão entre os defensores de um
neoliberalismo mais puro e os que resistiam a uma inserção nacional de caráter
aberturista, que marcou a trajetória das políticas econômicas do período, levou
o país a Ter relações econômicas externas mais incertas. Esta diferença é
fundamental para se entender os avanços e retrocessos do processo de integração
do Mercosul.
Sem dúvida, a transformação mais importante se dá nas relações entre ambos
países. O re-desenho do papel interno das Forças Armadas, da política econômica
e da política nuclear, e da visão estratégica são os elementos-chave para se
entender o nascimento de uma relação de cooperação entre os dois, até então,
rivais. Em termos econômicos, no tocante à integração regional, existem mais
coincidências que em suas abordagens de temas de política internacional.
Durante os anos 90, as políticas externas tanto argentina quanto brasileira
experimentaram modificações, mas viveram mais distância do que proximidade
entre elas. Suas diferenças, que o artigo buscou ressaltar, foram resultantes
de fatores internos e de distintas percepções da ordem internacional por parte
das respectivas diplomacias. Com a ascensão de Fernando Henrique Cardoso houve
uma relativa aproximação das visões dominantes do novo ordenamento
internacional, embora mantendo estilos e graus de autonomia distintos Depois
desta década de transformações, o cenário atual de políticas exteriores
encontra-se em uma etapa de indefinição. Se no caso brasileiro as posições
vigentes estão mais consolidadas, no caso argentino a ascensão de Fernando de
la Rúa à presidência sugere modificações na política externa, sem um regresso,
contudo, ao paradigma dos anos 80 do último governo radical. Urgida por
problemas internos, a nova administração ainda não definiu um perfil claro em
matéria exterior.
Notas
1 Sobre o papel da dimensão cognitiva na análise de política externa, Silva
(1998a) é um artigo interessante.
2 Sobre as mudanças nas politicas externas latino-americanas no período, ver
Cervo (2000a).
3 Sobre os processos de integração regional neste período, ver Saraiva (1999).
4 Sobre a crise do Estado na Argentina, ver Tedesco (1999).
5 Arbilla (2000) fornece elementos para se entender a lógica da formulação da
política externa argentina.
6 Arbilla (2000), citando Roberto Russell (1990), Política Exterior y Toma de
Decisiones en América Latina, Buenos Aires, GEL.
7 Carlos Escudé foi assessor do chanceler Di Tella e suas idéias sobre o
realismo periférico correspondiam e davam base conceitual à percepção do
chanceler da estratégia externa a ser seguida pela Argentina.
8 Cervo (2000b:52) chama a atenção aos esforços da Argentina de apresentar-se
de acordo com a visão norte-americana da realidade internacional.
9 Lafer (1997:257) assinala para um substrato próprio da política externa que
reflete a sociedade e suas experiências históricas e comenta a opção ocidental
da Argentina.
10 Ver, por exemplo, Ambito Financiero (9/8/90:16; 31/12/9:14; 3/8/94:20),
Clarín (2/5/93:2; 13/3/94:15; 9/12/94:15; 12/1/95:23; 23/6/94:12-13), e La
Nación (18/6/95:8).
11 Lafer (1977:259) ressalta que, apesar da reincidência destes comentários
Nafta/Mercosul, apenas 8,64% das exportações argentinas dirigiam-se para os
Estados Unidos, enquanto 32% orientam-se para o Mercosul.
12 O comércio passou de 3,0 bilhões de dólares (FOB) em 1991 para 14,8 em 1998.
Cervo (2000b).
13 Os sócios do Chile haviam sido Suíça e Reino Unido.
14 Os carapintadas organizaram quatro rebeliões militares entre 1987 e 1990.
Seu maior objetivo era terminar com os julgamentos pelas violações dos direitos
humanos.
15 Sobre a questão da corporação diplomática e sua relação com a classe
política e os setores sociais, ver Lima e Hirst (1994), e Lima (2000).
16 Sobre la cuestión del discurso diplomático do período, pode-se ver o artigo
de Silva (1999).
17 Sobre a política externa dos governos de Collor e Itamar Franco, Hirst e
Pinheiro (1995) proporcionam um quadro importante de consulta proveitosa para
qualquer pesquisa sobre o período.
18 Em relação à percepção da diplomacia brasileira da ordem internacional pós-
1990, o paper de Silva (1998b) coloca uma discussão interesante.
19 Lima e Hirst (1994:59) indicam as áreas de interesse de ambos lados: temas
econômicos por parte do Brasil e democracia, meio ambiente, tráfico de drogas,
e direitos humanos, por parte dos Estados Unidos.
20 Luiz Felipe Lampreia (chanceler do governo de Cardoso) sustentou: "Acabaram-
se os tempos de isolacinesimo e auto-suficiência. A soberania nacional deixou
de ser argumento para comportamentos que atentam contra os valores
fundamentais"; "A autonomia pela integração significa apoio aos regimes
internacionais". Lampreia (1998:8:11).
21 Pinheiro (2000) levanta um discussão interessante sobre a política externa
brasileira atual apontando para o institucionalismo pragmático como norteador
do comportamento externo da diplomacia.
22 O texto de Fonseca Jr. (1999) ' representante atual do Brasil nas Naçõess
Unidas- contribui enormemente a se entender a percepção da diplomacia
brasileira.
23 Ver Amorim (1995) e Abdenur (1994). Ambos são diplomatas de primeira linha
tendo sido o primeiro chanceler do governo de Franco. Sobre a percepção
brasileira do "lugar devido" entre os grandes, ver Silva (1998b).
24 Ver na Folha de São Paulo (25/6/95:1-3) a defesa da reforma do Conselho de
Segurança da ONU em relação a sua eficácia baseada na representatividade e
legitimidade onde Brasil deveria ter um assento permanente; e no Jornal do
Brasil (6/10/2000:11) onde Cardoso ressalta a candidatura brasileira.
25 Argentina participou entre 1988 e 1997 de 17 Operações com observadores ou
efetivos, enquanto Brasil participou de 9, e com efetivos apenas nos casos de
Angola e Moçambique. Em 1998 se apresentou, como já assinalamos, una diferença
no caso do Haití, quando a Argentina apoiou e Brasil se absteve (junto à China)
de apoiar o envio da força multinacional.
26 Sobre a política externa brasileira e o Mercosul, ver Saraiva (1996).
27 A partir de negociações coletivas foi firmado um Acordo Marco com a União
Européia e Acordos de Livre Comércio com o Chile e a Bolívia.
28 A subordinação às "ditaduras das conjunturas econômicas" foi assinalada por
Pedro Motta Veiga em mesa redonda que teve lugar na Fundação Getúlio Vargas/
CPDoc, setembro de 1995.
29 As diferenças e conflitos entre as diplomacias e agentes econômicos dos dois
países por divergências em política cambial, política de investimentos e
setores específicos de importação/exportação são um marco constante nas
relações, agravado sobretudo depois da desvalorização do Real no início de
1999.
30 Esta discussão pode ser vista em Arbilla (2000).