O Topo da Distribuição de Renda no Brasil: Primeiras Estimativas com Dados
Tributários e Comparação com Pesquisas Domiciliares (2006-2012)
INTRODUÇÃO
Na maior parte dos países, há grande concentração de renda no topo da
distribuição, entre os mais ricos. Os levantamentos domiciliares, normalmente
utilizados para analisar a distribuição de renda, no entanto, tendem a
subestimar os rendimentos mais elevados, seja por limitações inerentes à
amostragem e aos desenhos dos questionários, seja por omissão de respostas ou
desconhecimento, por parte dos respondentes, dos valores exatos dos seus
rendimentos. Uma alternativa para lidar com essa subestimação é analisar a
desigualdade a partir de dados tributários.
Construímos uma série de indicadores de desigualdade com base nas declarações
de Imposto de Renda da Pessoa Física. Tratamos aqui do 0,1%, 1% e 5% mais
ricos, ou seja, estamos interessados sobretudo na desigualdade entre os mais
ricos e o resto da população brasileira. Ricos, no caso, são entendidos como
adultos de renda individual mais alta e não como aqueles que têm maior estoque
de riqueza, embora seja possível que haja coincidência entre ambos. A série
cobre o período que vai de 2006 a 2012.
Além de apresentar os indicadores e avaliar sua sensibilidade a diferentes
escolhas metodológicas, também comparamos os resultados obtidos a partir de
dados tributários com os das principais pesquisas domiciliares brasileiras: a
Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios (PNAD), a Pesquisa de Orçamentos
Familiares (POF) e o Censo Demográfico, todas conduzidas pelo Instituto
Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE). Esses levantamentos servem como
fonte para a maioria dos estudos sobre a distribuição de renda no país e,
portanto, a comparação pode ajudar a revelar a parte da desigualdade que não é
bem conhecida por falta de dados apropriados.
Nossos principais achados são que a desigualdade no Brasil é superior à medida
por pesquisas domiciliares e, apesar de um leve aumento, em termos gerais
permanece estável no período 2006 a 2012. O maiornível de desigualdade está
muito provavelmente relacionado à subestimação das rendas mais altas nas
pesquisas domiciliares, em particular a PNAD. No que diz respeito à
estabilidade não temos informações que nos permitam adiantar uma conclusão. As
PNADs apontam uma queda da desigualdade de 2006 a 2012. Nossas evidências são
de que os ricos são mais resistentes à queda da desigualdade do que o restante
da população, mas não sabemos dizer a causa disso a partir dos dados limitados
que dispomos. Aparentemente, os ricos podem ser qualitativamente diferentes,
isto é, não são apenas uma "versão com mais renda" do que o restante da
população, mas é evidente que isso não é mais do que uma hipótese a ser
avaliada com mais cautela.
ESTUDOS ANTERIORES
O estudo da desigualdade a partir do topo da distribuição de renda e usando
dados tributários tem uma longa história nas Ciências Sociais. O tema recebeu
atenção de Marx_(1996), Veblen_(1988) e Pareto_(1964), com Marx_(1996:448,479),
em particular, utilizando informações tributárias para analisar a distribuição
pessoal da renda tributável no Reino Unido entre 1864 e 1865. Existem análises
mais detalhadas, com base em estatísticas tributárias e administrativas, desde
pelo menos o início do século XX (Bowley,_1914; King,_1915; USA,_Commission_on
Industrial_Relations_e_Walsh,_1915). Não seria surpresa alguma encontrar
referências ainda mais antigas sobre o assunto.
O topo da distribuição pode ser abordado por vários ângulos, dentre eles a
análise estatística de grandes populações. No Brasil esses estudos começam a
surgir na década de 1930 e tornam-se mais comuns a partir da década de 1990
(Afonso,_2014; Albuquerque,_1994; Ferreira,_2001; Hoffmann,_2005; Medeiros,
2004, 2005a e 2005b; Souza,_2014). Recentemente o assunto começou a ganhar
maior projeção com o trabalho de Piketty_(2001) sobre altos rendimentos na
França, que ocupou um espaço claro na agenda de pesquisa sobre desigualdade
comum estudo similar para os Estados Unidos (Piketty_e_Saez,_2003),
contribuindo para uma proliferação de estudos em vários países. Boa parte
desses trabalhos refere-se a países ricos, mas a literatura sobre o tema no
resto do mundo já começa a ganhar maiores dimensões.
O aumento no volume desses estudos resultou em artigos de revisão dedicados a
analisar vários tópicos da literatura. Há resenhas sobre a relação entre o topo
da distribuição e o nível e as tendências da desigualdade em diversos países
que tratam o assunto com mais detalhe e profundidade do que somos capazes de
fazer aqui (Alvaredo_et_al.,_2013; Atkinson,_2008; Atkinson_e_Piketty,_2010;
Atkinson,_Piketty_e_Saez,_2011; Keister,_2014; Keister_e_Moller,_2000; Medeiros
e_Souza,_2014; Ohlsson,_Roine_e_Waldenström,_2006; Piketty,_2007; Piketty_e
Saez,_2006; Torche_e_Spilerman,_2008; Wolff,_1996). Há também revisões de
análises das lacunas preenchidas pela literatura baseada em informações
tributárias, em particular a melhor estimativa de mudanças relacionadas aos
rendimentos da população de renda alta, a possibilidade de se estenderem séries
para períodos muito anteriores ao surgimento das pesquisas domiciliares e um
monitoramento mais acurado de rendimentos que não são recebidos com a mesma
regularidade que os rendimentos do trabalho (Atkinson,_2007; DiPrete,_2007;
Kenworthy,_2007; Kopczuk,_Saez_e_Song,_2010; Myles,_2003; Piketty,_2014). Essas
revisões tornam, em parte, redundante nossa discussão de estudos antecedentes.
Em termos gerais, essas revisões mostram que os estudos baseados em informações
tributárias de países europeus e da América do Norte encontram desigualdade
elevada no início do século XX, seguida de uma queda que ocorre entre a
Primeira e a Segunda guerra mundiais, um período de estabilidade que vai até
início dos anos 1980 e um crescimento da desigualdade desde então. A duração de
cada um desses períodos e as velocidades de mudança variam conforme o país. Nas
décadas recentes o crescimento da desigualdade é notadamente mais rápido nos
países anglo-saxões que na Europa Continental, mas mesmo dentro desses grupos
há heterogeneidade.
O que talvez mereça destaque é o uso de informação do imposto de renda para o
estudo da desigualdade no Brasil. Neste sentido, nosso estudo dialoga com
pesquisas recentes sobre a desigualdade de renda, em particular aquelas
realizadas a partir dos anos 2000. Boa parte dessas pesquisas baseia-se em
informações de levantamentos domiciliares como a PNAD, o Questionário da
Amostra do Censo Demográfico (Censo) ou a POF. A maior parte da literatura
especializada sobre o assunto avalia que pesquisas domiciliares, em particular
a PNAD, subestimam as rendas no topo da distribuição e, portanto, fornecem uma
visão parcial da desigualdade no país (Hoffmann,_1988; Hoffmann_e_Ney,_2008;
Lluch,_1982; Souza,_2013). As informações do imposto de renda seriam uma
maneira de contornar, ao menos parcialmente, o problema da subestimação das
rendas no topo da distribuição.
METODOLOGIA
Rendimentos nos Dados Tributários
Definições principais dos dados tributários
Os dados tributários utilizados correspondem ao universo de declara-ções de
ajuste anual do Imposto de Renda da Pessoa Física (DIRPF) à Receita Federal do
Brasil (Receita) nos anos de 2006 a 2012. Embora existam declarantes no
exterior, a grande maioria é residente no Brasil e, por isso, tratamos as
declarações como se todas correspondessem à população brasileira residente.
Nossa unidade tributária é o indivíduo, pois pressupomos que cada declaração
equivale a uma pessoa. De acordo com a legislação tributária brasileira, casais
e famílias podem entregar declarações de renda em conjunto, mas, em geral, isso
não é vantajoso para quem tem rendimentos elevados.
Os declarantes de Imposto de Renda são o conjunto de pessoas físicas que
receberam rendimentos acima de valores que variam para cada ano, obtiveram
ganhos de capital acima de determinado valor, realizaram operações em bolsas de
valores, ou tiveram a posse ou a propriedade de bens ou direitos acima dos
valores estabelecidos pela legislação vigente. Nem toda a população com
rendimentos, portanto, é obrigada à entrega da DIRPF. Aliás, há pessoas que
recolhem tributos (tributação na fonte, por exemplo) e, no entanto, não têm o
dever de apresentar declaração de ajuste anual do imposto de renda.
A renda bruta utilizada inclui todos os rendimentos declarados pelas pessoas
físicas, isto é, a soma dos rendimentos tributáveis, isentos e sujeitos à
tributação exclusiva. Isso inclui rendimentos do trabalho e capital recebidos
por pessoas físicas, como, por exemplo, o recebimento de dividendos de
aplicação financeira, ganhos de capital, lucros, aluguéis e rendimentos
recebidos de outros países. Como há cruzamento de informações e tributação na
fonte, há razões para crer que a maior parte dos rendimentos de aplicações
financeiras e similares, que tendem a ser subdeclarados em levantamentos
domiciliares, esteja muito mais bem representada nas declarações tributárias.
Como não foi possível estimar o nível e a distribuição da elisão e da evasão
fiscal, assumimos, para efeitos operacionais, que as declarações de renda
refletem os rendimentos efetivamente recebidos.
Utilizamos dados provenientes do estudo de Castro_(2014). O objetivo do autor
era estimar os níveis de progressividade tributária no Brasil -e seu achado
principal é o de que o imposto de renda é fortemente progressivo. Nós, no
entanto, aplicamos interpolações a seus dados de maneira a gerar distribuições
de renda. Por questões de sigilo, não tivemos acesso aos microdados, mas, tão
somente, aos resultados agregados em categorias ordenadas pela renda bruta
total, de modo a evitar qualquer possibilidade de identificação individual.
Essas categorias, porém, alcançam pontos altos da distribuição, como 1% no
topo, o que é particularmente importante para o estudo da desigualdade entre os
ricos e o resto da população. O Apêndice II contém as principais ta-bulações
necessárias para replicar nosso estudo.
Declarações com valores extremos ou notadamente inconsistentes foram
inspecionadas individualmente e eliminadas, quando havia indicações de que se
tratava de erros de declaração. Essa depuração resultou na exclusão da base de,
aproximadamente, 2.800 contribuintes no conjunto dos anos examinados, número
pequeno perto das cerca de 25 milhões de declarações anuais observadas em média
entre 2006 e 2012.
Há limitações nos dados tributários que merecem ser comentadas. A primeira
refere-se à distribuição incompleta: apenas uma minoria dos brasileiros
apresenta a Declaração Anual de Ajuste do Imposto de Renda e isso impede o
cálculo direto de medidas como, por exemplo, o coeficiente de Gini. A segunda
limitação refere-se à informação limitada: não dispomos, no momento, de
informações para calcular outras rendas, como a renda domiciliar per
capitadosmaisricos,que são comumente usadas nos estudos sobre desigualdade no
Brasil. A terceira é que as interpolações de Pareto que usamos tendem a
subestimar a concentração da renda no topo extremo da distribuição. Finalmente,
uma limitação adicional é a cobertura insuficiente: rendas que pertencem
nominalmente a pessoas jurídicas, embora seja óbvio que sua propriedade seja,
em última instância, de pessoas físicas (note-se, porém, que uma parte dos
rendimentos de pessoas jurídicas transferidos às pessoas físicas está
corretamente contabilizada em nossos dados). Assim, é possível que nossas
estimativas da desigualdade estejam subestimadas, embora não tenhamos condições
de fazer nenhum tipo de afirmação sobre a magnitude dessa subestimação.
Discussões mais detalhadas sobre o assunto podem ser encontradas em Saez_
(2006), Atkinson_(2007) e Atkinson_et_al._(2011).
Denominador para a população total
Utilizamos como denominador para a população total a população residente com 18
anos ou mais, de acordo com a revisão de 2013 das projeções oficiais do IBGE.
Essa definição é semelhante à da literatura internacional, que em geral usa
como população de base aquela entre 15 anos ou mais e 20 anos ou mais. Mudanças
em um ou dois anos nas idades de corte não têm impacto relevante sobre a série
de tempo, como se discute adiante.
Interpolação para obter frações exatas da população
Partindo de dados tabulados, foi necessário distribuir os rendimentos dentro
das categorias de renda. Embora para esse fim existam várias metodologias
possíveis (Brzezinski,_2014), optamos pela interpolação de Pareto, seguindo a
metodologia mais comum na literatura internacional (Piketty,_2001:593-595,
Anexo B). Uma análise detalhada das características das metodologias de
estimativa de rendas no topo da distribuição encontra-se em Atkinson_(2007). A
fórmula da interpolação encontra-se no Apêndice I.
A interpolação de Pareto depende dos limites de renda das categorias e de dados
observados sobre a população e os rendimentos totais nessas categorias. A
partir dessas informações calculam-se os parâmetros da função de Pareto que
permitem estimar a renda em pontos da distribuição para os quais não há
observações desagregadas.
Como os parâmetros da função de Pareto variam conforme a categoria de renda,
seguimos o procedimento de Feenberg_e_Poterba_(1993) de adotar o limite
inferior da categoria de renda observada que fosse mais próximo do quantil da
distribuição a estimar. A validação da metodologia de interpolação foi feita
por comparação aos dados observados. Em 2010, por exemplo, nos dados
tributários a renda observada no limite inferior do 0,99% da população de 18
anos ou mais era de cerca de R$ 186,6 mil, ao passo que nossa estimativa por
interpolação calcula R$ 179,1 mil, ou seja, o valor observado era apenas 2,5%
maior que o valor interpolado. Evidentemente, a qualidade da interpolação
varia, tendendo a ser melhor no topo (entre os 5% e o 1%) da distribuição do
que em sua base. É possível que nosso nível de desigualdade esteja subestimado,
pois no topo extremo da distribuição a função de Pareto costuma ser
insuficientemente inclinada para representar adequadamente os elevados níveis
de concentração de renda (Brzezinski,_2014).
A Tabela_1 ilustra os resultados da interpolação para os anos de 2006 a 2012.
Os valores são expressos em milhares de reais anuais, correntes do ano de
referência. Em 2012, por exemplo, os limites inferiores de renda do 0,1%, 1% e
5% mais ricos são, respectivamente, R$ 871,7 mil, R$ 203,1 mil e R$ 57,6 mil ao
ano. A renda média do 1% mais rico, obtida por interpolação, foi de R$ 552,9
mil anuais. Nos dados observados de 2012, apenas 1,6% da população adulta, ou
seja, pouco menos de 2,3 milhões de brasileiros, declarou receber renda anual
acima de R$ 149.280. A renda média efetivamente observada nesse grupo foi de R$
406,5 mil anuais.
Tabela 1 Renda Mínima e Renda Média dos 0,1%, 1%, 5% mais Ricos e Renda Média
Total (R$ milhares correntes, anuais) (Brasil, 2006-2012)
2006 2007 2008 2009 2010 2011 2012
0,1% mais rico
Mínima 452,7 508,9 630,9 645,3 732,5 843,2 871,7
Média 1.185,0 1.458,6 1.804,1 1.736,9 1.960,5 2.402,6 2.373,5
1% mais rico
Mínima 109,1 113,6 141,2 151,8 168,7 189,2 203,1
Média 285,6 325,7 403,6 408,6 464,5 539,1 552,9
5% mais ricos
Mínima 30,5 31,5 38,6 41,9 46,7 52,1 57,6
Média 103,5 111,8 140,3 146,2 164,6 188,3 197,7
Média: Brasil12,2 13,5 15,1 15,8 18,1 19,6 20,4
Fonte: Renda dos estratos - interpolação a partir dos dados da DIRPF 2006 a
2012; População - IBGE, projeções de população; Renda das famílias - estimada a
partir das Contas Nacionais do IBGE.
Denominador para a renda total
Com a população total e a interpolação de Pareto, obtivemos a renda total dos
centésimos e milésimos mais ricos da população. Para transformar esses valores
em frações da renda, precisamos calcular o denominador, isto é, a renda total,
que foi obtida a partir das Contas Nacionais, como preconiza a literatura
internacional. Mais especificamente, usamos os dados públicos das séries
trimestrais das Contas Nacionais, elaboradas pelo IBGE para construir a renda
total usando a definição mais compatível com a renda nos dados tributários.
A melhor forma de construir o denominador da renda requer os dados detalhados
das Contas Nacionais anuais. A renda total compatível com a definição de renda
dos dados tributários é obtida pelo cálculo, para o setor institucional
"famílias", dos ordenados e salários maiso excedente operacional bruto maiso
rendimento misto bruto(rendi-mento de autônomos) maisos juros maisdividendos e
retiradas maisos benefícios sociais (exceto transferências sociais em espécie)
maisas outras transferências correntes, menosos aluguéis imputados. Os valores
dos rendimentos foram obtidos nas Contas Econômicas Integradas (CEI), e os
aluguéis imputados estão nas Tabelas de Recursos e Usos (TRU).
Infelizmente, os números necessários para o cálculo desse denominador ideal
para a renda (doravante chamado de Renda Monetária Familiar - RMF) só estão
disponíveis na publicação detalhada das Contas Nacionais anuais, que, devido à
sua complexidade, só são divulgadas com defasagem de alguns anos. Como nossa
série vai até 2012, optamos por um procedimento alternativo, com base nas
Contas Nacionais trimestrais, para todo o período de 2006 a 2012.
Assim, observamos que a razão entre a renda monetária familiar (o denominador
da renda definido acima) e o Produto Interno Bruto (PIB) para o período de 2006
a 2009 equivale, aproximadamente, a 66,7% -ou seja, dois terços - do valor do
PIB. Utilizamos esse valor para definir o denominador de renda monetária em
nosso estudo. Este valor é próximo ao valor médio observado por Vélez_(2012)
para a Colômbia entre 1993 e 2010 (65%). Mais adiante, avaliamos o impacto da
escolha de diferentes denominadores sobre a fração da renda apropriada pelo 1%
mais rico.
Rendimentos nos levantamentos amostrais
As informações utilizadas para comparação com levantamentos domiciliares foram
obtidas dos microdados das PNADs de 2006 a 2012, da POF 2008/2009 e da amostra
do Censo 2010. Em todos os casos, consideramos a renda bruta total dos adultos
com 18 anos ou mais. Indivíduos com rendimentos ignorados ou não declarados em
alguma fonte foram descartados. Diferentemente do que ocorreu com os dados
tributários, obtivemos o total da população e da renda nas informações contidas
nos próprios levantamentos.
Os três levantamentos diferem principalmente quanto à regularidade, ao tamanho
de suas amostras, ao detalhamento dos questionários e à duração dos períodos de
referência para coleta dos rendimentos. Os censos são decenais, as POFs ocorrem
em períodos irregulares e superiores a cinco anos, e as PNADs são anuais
(exceto em anos censitários). A amostra do Censo 2010 contém 14,3 milhões de
registros de adultos de 18 anos ou mais, enquanto as PNADs de 2006 a 2012
contam, em média, com pouco mais de 260 mil adultos, e a POF 2008/2009 com
pouco menos de 130 mil. No entanto, o questionário mais comple-
toecommaiorperíododereferênciaéjustamenteodaPOF,quecoleta os rendimentos
recebidos de dezenas de fontes nos 12 meses anteriores à entrevista. Nas PNADs
e no Censo, os rendimentos estão relacionados a um mês de referência, sendo que
este último apresenta o menor grau de detalhamento.
Para possibilitar a comparabilidade das PNADs e do Censo com os dados
tributários, anualizamos as rendas nas pesquisas domiciliares. Essa anualização
consistiu em multiplicar por 12 todos os rendimentos e acrescentar o
equivalente ao 13o salário para trabalhadores formais e aposentados, além de um
terço de salário como bônus de férias aos trabalhadores formais. No Censo, não
é possível identificar exatamente as aposentadorias e pensões previdenciárias
quando há duas ou mais fontes de rendimento além dos rendimentos do trabalho.
Nesse caso, assumimos que as aposentadorias representavam 80% do total de
outros rendimentos para pessoas cuja renda de outros rendimentos era menor ou
igual a R$ 10.000 e 50% caso a renda de outros rendimentos fosse superior a
esse valor. Ou seja, multiplicamos os "outros rendimentos" por 12,8 e 12,5,
respectivamente. Na prática, a anualização eleva os níveis totais de
rendimento, mas provoca pouca alteração na desigualdade: a mudança no
coeficiente de Gini das rendas individuais de adultos é inferior a 2%.
Os três levantamentos captam a renda total dos indivíduos, mas os resultados
variam em função das características de cada um, como é discutido por Souza_
(2013). As vantagens de uma amostra maior são, em parte, reduzidas por
questionários menos detalhados e períodos de cobertura mais curtos. Em termos
gerais, os rendimentos totais mais altos são captados pelo Censo 2010, seguido
da POF e, em terceiro lugar, das PNADs. Em tese, esses rendimentos equivalem a
rendas brutas. No entanto, é provável que para muitas pessoas a renda
efetivamente declarada corresponda à renda líquida, ou mesmo ao valor líquido
percebido (Rocha,_2002). Não se deve esperar, portanto, comparabilidade
perfeita entre os dados tributários e as pesquisas domiciliares, mesmo com a
anualização das rendas.
Há evidências de que, em outros países, dados tributários e levantamentos
domiciliares amostrais diferem mais no nível que no comportamento da
desigualdade, embora haja exceções. Estudos anteriores mostram que resultados
obtidos a partir de dados tributários e levantamentos domiciliares geralmente
apresentam divergências no topo da distribuição, mas mostram-se comparáveis
para níveis mais baixos (Burkhauser_et_al.,_2012; Kopczuk_e_Saez,_2004; Leigh,
2007). Os níveis medidos de desigualdade com cada fonte de dados tendem a ser
distintos, mas sua evolução costuma apontarasmesmastendências,com uma forte
correlação entre o coeficiente de Gini e a razão entre a renda dos ricos e a
renda total em 13 países estudados por Atkinson_et_al._(2011).
Aumento nas Quantidades de Declarações e Valores Declarados
Entre 2006 e 2012 há um aumento na soma das rendas declaradas na DIRPF (52%).
Chama a atenção porque é um crescimento superior ao observado da renda nas
Contas Nacionais e nas PNADs. Usando os mesmos deflatores (Índice Nacional de
Preços ao Consumidor - INPC, de setembro), para evitar desvios causados pelo
índice de preços, nesse mesmo período a renda das famílias (dois terços do PIB)
cresce 33% e a renda total na PNAD cresce 34%.
O que efetivamente pode afetar nossos resultados não são as variações nos
totais da DIRPF, mas tão somente aquelas variações no topo da distribuição,
visto que descartamos completamente os dados na base da DIRPF. Ainda assim o
assunto merece maior consideração. O aumento do número e do valor total das
declarações pode decorrer de quatro fatores básicos: i) crescimento da renda ou
do número de pessoas que antes estavam abaixo dos níveis de obrigatoriedade de
declaração; ii) mudanças nos valores mínimos de obrigatoriedade de declaração;
iii) aumento do número de declarações no topo da distribuição causado por algum
tipo de enrijecimento na fiscalização tributária; iv) erros de registro.
De fato, como é bem conhecido, ocorreu inequivocamente um crescimento da renda
total (34% de 2006 a 2012 na renda monetária das famílias nas Contas Nacionais)
e do número da população brasileira abaixo dos níveis de declaração (no caso,
entre pessoas que estavam entre os percentis 75% e 85% da distribuição) e
apenas isso seria suficiente para aumentar o número de declarantes e a renda
declarada. Não é possível calcular quanto, no entanto, pois isso depende de uma
distribuição completa de rendimentos e os rendimentos tributários limitam-se ao
topo declarado da distribuição.
Também ocorreu crescimento e envelhecimento populacional que, apesar do pequeno
intervalo de tempo, aumenta o número de adultos (11% de 2006 a 2012). Os
valores mínimos de obrigatoriedade foram aumentados em 18%, o que é muito menos
que o necessário para acompanhar o crescimento da renda das famílias e também
faz o número de declarantes aumentar. Não há evidência de nenhuma mudança
sistemática associada ao enrijecimento na fiscalização tributária que
justificasse, por exemplo, crescimento de 2005 em diante. Na verdade isso é
pouco provável, pois na DIRPF os rendimentos tributáveis têm crescido menos do
que os outros, o oposto do esperado de um enrijecimento da fiscalização.
Finalmente, erros de registro, evidentemente, são sempre uma possibilidade, mas
para afetar nossas estimativas eles deveriam ser crescentes e sistemáticos e é
pouco provável que isto esteja ocorrendo.
Por um lado, não é possível afastar completamente a hipótese de que uma parte
do crescimento da renda captada pela DIRPF pode estar associada a algum tipo de
viés ou erro que não fomos capazes de identificar. Por outro, não há evidência
concreta desse viés. Para estar ocorrendo ele precisaria se manifestar não só
entre os 5% e o 1% mais ricos mas, também, acima do 1% e do 0,1% mais ricos. Se
ele existe, possivelmente está afetando o comportamento da desigualdade no
tempo. O mais provável é que se há algum erro afetando a mensuração é que ele
seja na direção de elevar a desigualdade. Por exemplo, o aumento da
desigualdade observado em 2008 e, novamente, em 2011, pode não ter ocorrido.
Neste caso, a interpretação mais prudente é de estabilidade da desigualdade em
todo o período. Menos provável, mas ainda assim possível, é que a desigualdade
tenha caído levemente.
O NÍVEL E A EVOLUÇÃO DA DESIGUALDADE NOS DADOS DA DIRPF
Percentuais Apropriados pelos Mais Ricos
Os mais ricos apropriam-se de uma parcela substantiva da renda total, sem
mudanças claras entre 2006 e 2012. O Gráfico_1 traz os percentuais apropriados
pelos 0,1%, 1% e 5% mais ricos, de acordo com os dados da DIRPF. Nesse período,
em média, o 0,1% mais rico recebeu quase 11% da renda total, o que implica que
sua renda média foi quase 110 vezes maior do que a média nacional. O 1% mais
rico, incluindo esse 0,1%, apropriou-se de 25%, e os 5% mais ricos receberam
44%, quase a metade da renda total. Na Colômbia e nos Estados Unidos a parcela
do 1% mais rico na renda total situa-se em torno de 20% (Piketty_e_Saez,_2013;
Vélez,_2012). Os resultados para outros países desenvolvidos indicam
percentuais entre 10% e 15%, caindo abaixo disso nos países mais igualitários
(Atkinson,_Piketty_e_Saez,_2011). Todavia, diferenças entre países e sistemas
tributários impedem que esses números sejam diretamente comparados aos nossos.
Gráfico 1 Percentual da Renda Total Apropriado pelo 0,1%, pelo 1% e pelos 5%
Mais Ricos (Brasil, 2006-2012)
Há um pequeno aumento da concentração entre o 1% mais rico no período entre
2006 e 2008, mas o quadro geral é de estabilidade. Vale lembrar que as medidas
de desigualdade exibidas no Gráfico_1 só consideram uma pequena parte da
distribuição da renda, ignorando, por exemplo, tudo o que acontece entre os 95%
mais pobres. Esse possível aumento da desigualdade precisa ainda ser avaliado
levando em conta a distribuição completa dos rendimentos. Porém, é provável que
a queda da desigualdade nesse período, identificada nas pesquisas domiciliares,
não tenha ocorrido ou tenha sido muito inferior ao que é comumente medido. As
pesquisas domiciliares, tudo indica, identificam melhoras na base da
distribuição, mas a desigualdade total depende também do que ocorre no topo.
Análises de Sensibilidade para o Cálculo das Frações da Renda Apropriadas pelos
Mais Ricos
Diferentes denominadores de renda
O denominador para a renda total pode influenciar enormemente os resultados.
Como discutimos anteriormente, usamos 66,7% do PIB (dois terços) em função da
indisponibilidade de informações necessárias para calcular os valores de forma
mais precisa. Nesta seção, comparamos nossos resultados com os decorrentes de
outras escolhas.
O Gráfico 2trazospercentuais da renda total apropriados pelo 1% mais rico entre
2006 e 2012 para quatro denominadores diferentes. Para tornar as diferenças
mais perceptíveis, alteramos a escala do eixo vertical em relação ao Gráfico_1.
[/img/revistas/dados/v58n1//0011-5258-dados-58-1-0007-gf02.jpg]
Gráfico 2 Percentual da Renda Apropriada pelo 1% Mais Rico com Diferentes
Definições de Renda Total (Brasil, 2006-2012)
A série "RMF" usa como denominador a renda monetária familiar, o denominador
mais adequado para a renda, obtido a partir da aplicação da fórmula apresentada
anteriormente aos dados das CEI. Portanto, essa série só é calculável para o
período de 2006 a 2009. A série "66,7% do PIB" é a nossa definição para todo o
período, ou seja, é a mesma série do Gráfico_1. A série "100% do PIB" adota
como denominador para a renda total todo o PIB.
Por fim, a série "RBDF" utiliza como referência a renda bruta disponível das
famílias, que corresponde à soma da despesa final de consumo e da poupança
bruta das famílias. A definição de RBDF aproxima-se daquela utilizada por
Piketty_e_Saez_(2003) no estudo dos EUA. Para o período 2006 a 2009, a RBDF foi
obtida diretamente na CEI (renda disponível bruta do setor institucional
"famílias"). Para os anos de 2010 a 2012, utilizamos valores correspondentes a
103% da despesa de consumo das famílias e instituições sem fins lucrativos
(DCFI) nas Contas Nacionais Trimestrais. Esse multiplicador corresponde à razão
média observada entre a RBDF e a DCFI para os anos de 2006 a 2009. Vale
observar que, entre outros motivos, a RDBF difere com relação ao denominador
ideal porque inclui rendimentos não monetários, como os aluguéis imputados às
famílias que moram em imóveis próprios, bem como as contribuições sociais pagas
pelos empregadores.
Nenhum dos quatro denominadores altera a tendência geral de estabilidade da
desigualdade acompanhada de um leve aumento entre 2006 e 2008. As diferenças
entre o denominador ideal (RMF) e o denominador de dois terços do PIB são muito
modestas, e seus valores médios entre 2006 e 2009 são praticamente idênticos. A
série com a renda disponível bruta das famílias (RBDF) também gera resultados
muito parecidos quanto ao nível e à tendência da desigualdade.
Por definição, a série com 100% do PIB altera apenas o nível de concentração de
renda no topo: em média, a fração de renda do 1% mais rico cai de 25% para 17%.
Como essa escolha é extrema, pode-se interpretá-la como um piso para a
desigualdade. Trata-se de um piso pouco realista, pois o PIB é um conceito
muito mais amplo do que a renda monetária das famílias, mas, como veremos
adiante, mesmo esse valor mínimo é superior ao observado na maior parte dos
levantamentos domiciliares. Em resumo, a concentração de renda no topo é
impressionante. Não importa como a medida seja construída, a desigualdade que
ela expressa é extremamente alta e não dá sinais claros de mudança.
Diferentes denominadores de população
Não existe limite etário para a obrigatoriedade da apresentação da DIRPF, mas,
por razões óbvias, a quantidade de declarantes em idades inferiores a 18 anos é
baixa. Em 2012 essas declarações representavam bem menos que 1% de todas as
declarações e seu rendimento tributável total era de pouca relevância. Nossos
cálculos foram realizados levando-se em conta a população de base de 18 anos de
idade ou mais projetada pelo IBGE. Seria possível, no entanto, selecionar outro
recorte etário, o que poderia alterar a parcela de renda apropriada pelo 1%
mais rico e demais estratos.
Para avaliar a sensibilidade dos resultados a variações nos grupos etários de
referência, refizemos os cálculos utilizando cinco séries diferentes, movendo a
idade mínima para zero, 15, 18, 20 e 25 anos. A trajetória da concentração de
renda entre o 1% mais rico é idêntica nas cinco séries. O nível de concentração
é mais variável: quanto mais alto o corte etário, menor a fração da renda total
apropriada pelo 1% mais rico. É fácil entender o motivo: mudanças no total da
população afetam o número de pessoas no centésimo mais rico e, portanto, o
total de renda desse estrato. Cortes etários mais altos geram grupos menores e,
consequentemente, menos renda total, que é, então, dividida por um denominador
fixo.
Mudanças menores, como a redução da idade mínima para 15 anos, ou seu aumento
para 20, alteram muito pouco o nível da concentração de renda no topo. Na
definição que julgamos mais adequada, população com 18 anos ou mais, o 1% mais
rico se apropria, na média do período, de pouco menos de 25% da renda total.
Grosso modo, se usarmos a população com idade mínima de 15 ou 20 anos, esse
número sobe ou desce apenas cerca de 0,5 ponto percentual. Em termos
substantivos, a mudança de corte para pontos próximos a 18 anos não provoca
alterações na interpretação dos resultados que mereçam atenção.
As escolhas mais extremas provocam mudanças mais perceptíveis visualmente, mas
ainda pouco relevantes na prática. Na opção mais extrema, sem recorte algum de
idade, o 1% mais rico da população acumularia, na média entre 2006 e 2012,
quase 29% da renda. Restringindo-se a população aos indivíduos com 25 anos ou
mais, essa média cai para 23%.
Em suma, os resultados quanto à trajetória são robustos a diferentes
denominadores de renda e população. No que diz respeito ao nível da
concentração de renda no topo, apenas as escolhas mais extremas -como usar toda
a população ou todo o PIB como denominadores - provocam variações dignas de
nota, sendo que os efeitos de cada escolha atuam em direções inversas: usar
toda a população aumenta a fatia do 1% mais rico, enquanto usar todo o PIB
provoca sua redução.
A Desigualdade entre os mais ricos
Para terminar a análise dos dados tributários, cabe apresentar a desigualdade
entre os mais ricos, isto é, a concentração medida pelas razões entre as rendas
dos estratos mais altos. Uma vantagem desse tipo de abordagem é que os
resultados independem da definição de renda total e são muito pouco sensíveis
ao recorte populacional utilizado.
O Gráfico_3 apresenta três séries: a razão entre a renda total do 0,1% mais
rico e a do 1% mais rico; a razão entre o 0,1% e os 5% mais ricos; e a razão
entre o 1% mais rico e os 5% mais ricos. Mais uma vez, há relativa estabilidade
ou flutuação cíclica no período analisado, de modo que as diferenças nos níveis
chamam mais a atenção: há muita desigualdade mesmo entre os mais ricos, com
enorme concentração justamente entre os mais ricos dentre os mais ricos.
[/img/revistas/dados/v58n1//0011-5258-dados-58-1-0007-gf03.jpg]
Gráfico 3 Razões entre as Rendas Totais dos Estratos (Brasil, 2006-2012)
Em média, entre 2006 e 2012, o 0,1% mais rico apropriou-se de 43% da renda
total do 1% mais rico e de quase 25% da renda total dos 5% mais ricos. Isso
significa que, em 2012, os cerca de 140 mil brasileiros pertencentes ao
milésimo mais rico da distribuição tiveram renda média quase sete vezes maior
do que a do o resto dos indivíduos no centésimo mais rico e quase 22 vezes
maior do que a dos indivíduos entre os percentis 95 e 99 (os 5% mais ricos,
excluindo o centésimo mais rico), além de 116 vezes maior do que a média
nacional.
Comparação com resultados de pesquisas domiciliares amostrais
Os trabalhos de Lluch_(1982), Hoffmann_(1988, 2001) e Souza_(2013) indicam que
as pesquisas domiciliares brasileiras subestimam a desigualdade no país, em boa
medida devido à má captação dos rendimentos nos estratos mais ricos da
população. Há, no entanto, ao menos um estudo com opinião diversa, a de que a
subestimação da renda nas pesquisas domiciliares não tem importância para a
desigualdade (Barros, Cury e Ulyssea, 2006). Para avaliar a hipótese de que a
subestimação é relevante para a desigualdade, comparamos os resultados obtidos
com dados tributários aos de pesquisas domiciliares utilizando distribuições
equivalentes: renda individual de todas as fontes das pessoas com idade igual
ou superior a18anos. O Gráfico_4 mostra a fração da renda total apropriada pelo
1% mais rico nos dados tributários, nas PNADs de 2006 a 2012, no Censo 2010 e
na POF 2008-2009. Realizamos cálculos semelhantes para o 0,1% e os 5%, mas não
apresentamos os resultados no gráfico.
[/img/revistas/dados/v58n1//0011-5258-dados-58-1-0007-gf04.jpg]
Gráfico 4 Fração da Renda Total Apropriada pelo 1% Mais Rico nos Dados
Tributários e nas Pesquisas Domiciliares (Brasil, 2006-2012)
Há três aspectos que se destacam. Em primeiro lugar, os levantamentos
domiciliares mostram menor nível de concentração no topo do que os dados
tributários. As PNADs apresentam as estimativas mais baixas, seguidas de perto
pela POF. Nesses dois levantamentos, a fração 0,1% mais rico varia em média em
torno de 3% ou 4% da renda (não mostrada no gráfico), a do 1% mais rico fica
entre 14% e 16% e a dos 5% mais ricos tem média próxima a 35%. No Censo 2010,
esses valores são bem mais altos - respectivamente, 7%, 19% e 40% -, o que
muito provavelmente está relacionado ao maior tamanho da amostra. Os resultados
com base nos dados tributários são ainda mais elevados, com médias arredondadas
de 11%, 25% e 44% para o 0,1%, o 1% e os 5% mais ricos. Mesmo no caso mais
extremo, em que todo o PIB é usado como denominador da renda, a fração do 1%
mais rico nos dados tributários permanece superior à registrada nas PNADs e nas
POFs, e apenas pouco abaixo daquela do Censo.
Em segundo lugar, os números também revelam que a discrepância é maior em
pontos mais altos da distribuição. Comparando as médias nos períodos, a fração
do 0,1% mais rico é mais de 7 pontos percentuais mais alta nos dados
tributários do que nas PNADs, enquanto a fração do resto do centésimo mais rico
- isto é, dos indivíduos entre os quantis 99 e 99,9 - é menos de 4 pontos
percentuais mais alta, e a fração do grupo entre os quantis 95 e 99 - os 5%
mais ricos excluindo o centésimo superior - é bem parecida com a das PNADs e
até um pouco menor. A diferença na POF é semelhante, mas o Censo 2010 é mais
próximo dos números da DIRPF em função da melhor captação da renda dos mais
ricosentre os mais ricos: afração do 0,1% mais rico é pouco menos de 4 pontos
percentuais maior na DIRPF para o ano-calendário de 2010 do que no Censo. A
fração do resto do centésimo mais rico é 2 pontos percentuais maior e a fração
dos 5% mais ricos excluindo o 1% mais rico é 2 pontos percentuais menor.
Em terceiro, também pode-se ver que a tendência de queda na desigualdade geral
que se observa no Brasil não encontra correspondência no topo da distribuição,
nem mesmo nos levantamentos domiciliares. Entre 2006 e 2012, para o 0,1% e o 1%
mais rico, há leve aumento nos dados tributários e estabilidade nas PNADs.
Mesmo quando consideramos os 5% mais ricos, a tendência na PNAD é de queda
suave, de 36% em 2006 para 33% em 2012. Como a fração do 1% mais rico variou
mui-to pouco, quase toda essa queda na PNAD é decorrente da diminuição da fatia
dos indivíduos entre os percentis 95 e 99.
Colocando de modo simplificado, os levantamentos domiciliares amostrais também
indicam que os ricos são mais resistentes à queda da desigualdade que o
restante da população. Essa estabilidade no extremo superior também é
identificada quando se observam outras distribuições, como a dos rendimentos
domiciliares per capitade toda a população. Se essa elite se mantém estável no
tempo, a maior parte da mudança na desigualdade deve ocorrer entre os estratos
que estão mais na base e no centro da distribuição.
Em consequência de tudo isso, as linhas de cortes para pertencer aos estratos
mais ricos são muito mais altas na DIRPF do que nas pesquisas domiciliares,
principalmente a partir do percentil 99, como se vê na Tabela_3. Em 2012, a
renda mínima para pertencer ao 1% e aos 5% mais ricos nos dados tributários era
de R$ 203 mil e R$ 58 mil anuais, respectivamente. Na PNAD 2012 com valores
anualizados (como descritos acima), os mesmos cortes eram de R$ 120 mil e R$ 48
mil. Ou seja, as linhas de corte do 1% e dos 5% nos dados tributários eram,
respectivamente, 70% e 20% maiores do que na PNAD 2012. O mesmo padrão se
repete para as rendas médias: em 2012, a média nacional com os denominadores
escolhidos (66,7% do PIB e população de 18 anos ou mais) era de R$ 20,9 mil,
valor 38% maior do que na PNAD 2012. Já a renda média dos 5% mais ricos nos
dados tributários girava em torno de R$ 200 mil, quase o dobro da PNAD, e a do
1% mais rico era superior a R$ 550 mil, ou 2,6 vezes o valor da PNAD. Em todos
os casos, os valores observados para o percentil 95 nos levantamentos
domiciliares são muito mais próximos aos dos dados tributários do que os do
percentil 99.
Tabela 3 Renda Mínima e Renda Média dos 0,1%, 1%, 5% Mais Ricos e Renda Média
Total (R$ correntes) na DIRF e nos Levantamentos Domiciliares
DIRPF POF DIRPF Censo DIRPF PNAD
2008 2008/2009 2010 2010 2012 2012
0,1% mais rico
Mínima (R$ milhares) 630,9 288,1 732,5 380,0 871,7 300,0
Média (R$ milhares) 1.804,1 466,6 1960,5 911,4 2.373,5 613,5
1% mais rico
Mínima (R$ milhares) 141,2 124,2 168,7 127,0 203,1 120,0
Média (R$ milhares) 403,6 203,7 464,5 263,2 552,9 214,7
5% mais ricos
Mínima (R$ milhares) 38,6 45,0 46,7 46,7 57,6 48,0
Média (R$ milhares) 140,3 95,9 164,6 109,8 197,7 99,7
Média: Brasil (R$ milhares) 15,1 12,4 18,1 13,6 20,4 15,1
Fonte: Renda dos estratos - DIRPF 2006 a 2009; População - IBGE, projeções de
população; Renda das famílias - estimada a partir das Contas Nacionais do IBGE;
PNAD 2006 a 2012; Censo Demográfico 2010; POF 2008/2009.
Por fim, a Tabela_2 traz os cálculos das "parcelas sobre parcelas", isto é, as
razões entre as rendas dos estratos, o que nos permite avaliar como cada
fontededados captaadesigualdadeentre os mais ricos. Esses números são
independentes do denominador de renda. Em comparação com os dados tributários e
mesmo como Censo, as PNADs e as POFs subestimam a desigualdade entre os mais
ricos. Vemos, por exemplo, que nos dados do Imposto de Renda, em média, mais de
56% da renda total do vigésimo mais rico vai para o centésimo mais rico e quase
um quarto vai para o milésimo mais rico. Nas PNADs, em média, pouco menos de
42% da renda dos 5% mais ricos vai para quem está no 1% e apenas um décimo vai
para o 0,1% mais rico.
Tabela 2 Razões entre as Rendas Totais dos Estratos nos Dados Tributários e nas
Pesquisas Domiciliares (Brasil, 2006-2012) (%)
0,1% / 1% Mais Rico 0,1% / 5% Mais Ricos 1% / 5% Mais Ricos
DIRPF* 43,3 24,6 56,7
PNAD* 24,2 10,1 41,6
Censo 2010 34,6 16,6 48,0
POF 2008/2009 23,5 10,0 42,5
Fonte: Renda dos estratos - DIRPF 2006 a 2009; População - IBGE, projeções de
população; Renda das famílias - estimada a partir das Contas Nacionais do IBGE;
PNAD 2006 a 2012; Censo Demográfico 2010; POF 2008/2009.
* Médias do período 2006-2012.
Em resumo, em comparação com os dados tributários, os levantamentos
domiciliares subestimam tanto a renda média quanto o nível de concentração no
topo. No entanto, todas as fontes concordam que, pelo menos no que diz respeito
à concentração de renda entre os mais ricos, a tendência de queda da
desigualdade no Brasil no período de 2006 a 2012 deixa de ser evidente. Na
melhor das hipóteses, pode-se falar em estabilidade, pois o que de fato se
observa é um leve aumento. Não há dúvidas de que, à luz de nossos achados a
partir de dados tributários, o que sabemos sobre a desigualdade nesse período
merece ser avaliado com mais cautela.
CONCLUSÃO
Neste artigo apresentaram-se as primeiras estimativas para a concentração de
renda entre os mais ricos no Brasil calculadas a partir das declarações de
Imposto de Renda de Pessoa Física. Calcularam-se, para o período de 2006 a
2012, as frações da renda total apropriadas pelo 0,1%, pelo 1% e pelos 5% mais
ricos e compararam-se os resultados com os das principais pesquisas
domiciliares brasileiras, as PNADs, a POF e os Censos.
A principal conclusão é de que a concentração de renda entre os mais ricos é,
de acordo com os dados tributários, substancialmente maior do que a estimada
pelos levantamentos domiciliares, sem que tenha havido tendência de queda nos
últimos anos. Em média, entre 2006 e 2012, o1% mais rico do Brasil se apropriou
de pouco menos de 25% da renda total, sendo que o 0,1% mais rico, por si só,
ficou com 11%. A desigualdade entre os mais ricos também é maior nos dados
tributários do que nas pesquisas domiciliares. Nossos dados permitem assegurar
que os mais ricos são resistentes à queda da desigualdade que foi observada nos
levantamentos domiciliares.
Seja no que diz respeito à desigualdade entre os mais ricos e o resto da
população, seja no que se refere à desigualdade entre os mais ricos, as
discrepâncias entre os dados tributários e as pesquisas domiciliares tornam-se
muito mais agudas a partir do centésimo superior. Nos dois casos, o problema é
mais brando para os indivíduos entre os percentis 95 e 99. Não se deve perder
de vista que nosso estudo limita-se a identificar rendas apropriadas e
declaradas por pessoas físicas. É possível que a desigualdade seja distinta se
as rendas declaradas por pessoas jurídicas - que não deixam de ser propriedade
de pessoas físicas - sejam também computadas nas medidas de desigualdade.
Também é possível que nossa metodologia de interpolação subestime a
concentração no topo da distribuição. Em ambos os casos a consequência seria de
que nossos cálculos subestimariam a desigualdade real.