Mobilidade cotidiana e as taxas de vitimização por acidentes de trânsito: o que
é possível enxergar a partir dos dados censitários?
Introdução
De acordo com a Organização Mundial da Saúde (WHO,_2013), aproximadamente 1,24
milhão de pessoas morrem a cada ano vítimas de acidentes de trânsito no mundo.
Cerca de 91% dessas mortes são de pessoas residentes em países com baixa renda,
ainda que esses países tenham apenas metade da frota mundial (WHO,_2013). Ainda
de acordo com a OMS, estima-se que outras 20 a 50 milhões de pessoas sofram
acidentes não fatais, que muitas vezes resultam em incapacidade permanente. A
preocupação crescente com a violência no trânsito levou à criação da Década de
Ação pelo Trânsito Seguro 2011-2020, proposta pela Organização das Nações
Unidas (WHO,_2011).
Dados do Sistema de Informações sobre Mortalidade (SIM) mostram que, em 2012,
44.812 pessoas morreram em decorrência de acidentes de transporte terrestre1 no
Brasil (54,5% de crescimento desde 2000), o que corresponde a 23,1 óbitos por
100 mil habitantes. A partir de dados de mortalidade de 2008, k7 mostraram que
os homens tiveram uma redução de aproximadamente 0,8 ano de vida na expectativa
de vida ao nascer devido às mortes por acidentes de trânsito, enquanto as
mulheres tiveram uma redução de 0,2 ano.
Muitos fatores são apontados como causa do fenômeno: ausência de leis adequadas
e/ou de fiscalização; falta de atenção ou de respeito para com os demais
usuários da via pública (DA_MATTA_et_al.,_2010); uso de álcool por motoristas,
bem como a adoção de comportamentos de risco no trânsito (ANDRADE_et_al.,
2003); e condições de pavimento, fluxo de veículos e de pedestres, sinalização,
velocidade e visibilidade (CARDOSO;_GOLDNER,_2007). Sem negar a importância
destes fatores, o objetivo do presente artigo é avaliar como a exposição ao
risco de acidentes pode ser potencializada pelas condições de vida e de
mobilidade cotidiana dos indivíduos. Entende-se por mobilidade cotidiana a soma
dos deslocamentos individuais para ter acesso às oportunidades, sejam de
estudos, trabalho, lazer, acesso a serviços ou convívio social (MIRALLES-
GUASCH,_2002). Tal termo é usado para diferenciar esse tipo de deslocamento
daquele que é conhecido como mobilidade residencial (mudança de domicílio).
Uma breve revisão da literatura sobre acidentes de trânsito
Nos países da Europa ocidental e na América do Norte, a preocupação com os
acidentes de trânsito como uma das principais causas de lesões e morte surge já
nos anos 1940 (JACOBS;_SAYER,_1983). No Brasil, o tema começa a receber mais
atenção de acadêmicos a partir dos anos 1970, que destacam a incidência de
acidentes de trânsito de veículo a motor entre os jovens e adultos jovens
(LAURENTI_et_al.,_1972). Como ressalta Mello-Jorge_(1980), entre 1960 e 1975, a
participação das mortes por causas violentas, também chamadas de causas
externas, no total de óbitos aumentou de 6,54% para 8,10%, no município de São
Paulo. A autora observou ainda que os acidentes de trânsito,2que em 1960
ocupavam a terceira posição entre os óbitos por causas violentas na capital
paulista, passaram para a primeira colocação, em 1965, respondendo por 30,5% do
total desses óbitos. No início da década seguinte os acidentes de trânsito
permaneceram na primeira posição, com aumento da participação para 43,7% das
mortes por causas violentas que ocorreram em São Paulo (MELLO-JORGE,_1980).
Scalassara_et_al._(1998), analisando os 65 óbitos por acidentes de trânsito que
ocorreram no município de Maringá, no Paraná, em 1992, observaram que a maior
parte das vítimas era do sexo masculino e tinha entre 20 e 49 anos. Quanto ao
tipo de vítima, 19% eram pedestres, 34% eram motociclistas (sendo 28%
condutores e 6% passageiros) e 18% eram ciclistas. Estes percentuais mostram
que, já na década de 1990, os motociclistas começaram a superar os pedestres em
número absoluto de vítimas.
Usando dados de acidentes com vítimas fatais e não fatais também em Maringá,
Soares_(2003) traçou um perfil epidemiológico das vítimas e, por meio de uma
análise de regressão logística, buscou fatores de risco para internação e
óbito. A análise multivariada mostrou associação do risco de internação com as
seguintes variáveis: vítimas pedestres, ciclistas e motociclistas; pessoas com
mais de 50 anos; colisão com transporte pesado ou ônibus; acidentes ocorridos
de madrugada e à tarde; e condutores residentes em Maringá. Já para o risco de
óbito, as variáveis significativas para o ajuste do modelo foram: vítimas
ciclistas, do sexo masculino e com mais de 50 anos; colisão com transporte
pesado ou ônibus; condutores envolvidos em acidentes com três ou mais veículos;
e acidentes com um veículo.
Bastos_et_al._(2005) também destacaram a participação das vítimas do sexo
masculino e dos motociclistas em estudo sobre atendimento pré-hospitalar em
Londrina, no Paraná. Ainda que o objetivo do trabalho tenha sido analisar as
características dos acidentes e das vítimas, as autoras apontam para a
importância das ações intersetoriais "que contemplem a prevenção dos acidentes
de trânsito em todos seus aspectos, executadas de forma coordenada" (BASTOS_et
al.,_2005, p.821).
Analisando as mortes por causas externas no município de Campinas-SP entre 1980
e 2000, Aidar_(2003) observou que, no caso dos acidentes de transportes,3 os
homens representaram 76,5% das vítimas fatais em 1980 e 80,9% em 2000. A partir
do cálculo de Anos de Vida Perdidos, a autora constatou que, em 2000, homens e
mulheres deixaram de ganhar aproximadamente 0,62 e 0,21 ano de expectativa de
vida média, respectivamente, em decorrência dos acidentes de transportes.
Usando as áreas de residência das pessoas que morreram em decorrência de
acidentes de transportes, Aidar_(2003) indica que os subespaços4 com taxas mais
elevadas em 2000 localizavam-se em áreas periféricas e eram cortados por
rodovias de tráfego intenso. "São justamente nessas áreas que a população de
baixo poder aquisitivo tem possibilidade de se estabelecer, muitas vezes de
forma precária" (AIDAR,_2003, p. 78). A autora ressalta que, embora não fosse
possível inferir sobre os locais de ocorrência dos eventos, assim como para os
homicídios, os resultados apontaram para uma condição de vulnerabilidade maior
da população residente nas periferias cortadas por rodovias e "nas áreas com
maior proporção de população com baixa escolaridade e residente em favelas"
(AIDAR,_2003, p.80). No que diz respeito à vulnerabilidade em relação ao
trânsito urbano em particular, Aidar_(2003) reforça a necessidade de
aprofundamento e produção de informações que considerem também os locais de
ocorrência e as características dos acidentes vis-à-vis a distribuição espacial
e as condições de mobilidade cotidiana das populações em risco.
O georreferenciamento por setor censitário e a análise espacial também foram os
recursos utilizados por Souza_(2007) e Souza_et_al._(2008), que comparam locais
de residência das vítimas fatais e de ocorrência dos acidentes no Rio de
Janeiro, em 2003. Os autores utilizaram as Declarações de Óbito, para obter
informações a respeito dos endereços de residência das vítimas e de ocorrência
dos óbitos, e os registros de ocorrência dos acidentes da Polícia Civil, para o
local de ocorrência dos acidentes.5 O estudo indica que, como esperado, os
locais de ocorrência dos óbitos se concentravam em áreas onde se localiza o
maior centro de atendimento de emergência da cidade. Quanto aos locais de
residência das vítimas, os autores identificaram pontos de "alto risco de morte
por acidentes de trânsito", mas com diferenças importantes em comparação aos
locais de ocorrência dos acidentes. Em uma sobreposição dos mapas de risco do
local dos acidentes com as principais vias do município do Rio de Janeiro,
observou-se que o maior risco de morte por colisões se concentrava nestas vias
e os atropelamentos no centro da cidade. O mesmo resultado foi observado por
Maia_(2009) que, ao estudar a distribuição espacial dos acidentes de trânsito
no município de São Paulo e a respectiva relação com a residência das vítimas,
observou que grande parte das vítimas residia nas proximidades das áreas de
concentração de ocorrências. O autor também identificou concentração de vítimas
residindo em áreas mais distantes, padrão encontrado especialmente para os
atropelamentos ocorridos no centro da cidade.
Se, por um lado, a identificação de áreas de risco do local de ocorrência dos
eventos permite avaliação espacial de suma importância para a gestão do
trânsito e segurança pública (SOUZA_et_al.,_2008), por outro, a identificação
dos grupos sociodemográficos mais vulneráveis aos riscos oferecidos em
determinadas áreas e circunstâncias adiciona informações fundamentais para
ações de prevenção no âmbito da educação, saúde, trans-porte público, entre
outras (BERTHO,_2010; MAIA;_AIDAR,_2007).
Usando os locais de residência das vítimas como proxy das condições
socioeconômicas das mesmas, Bertho_(2010) analisou os acidentes de trânsito com
vítimas fatais e não fatais ocorridos nas vias públicas municipais de Campinas
em 2006. O estudo indica que, embora a população residente nas regiões centrais
e norte do município apresente maior índice de mobilidade cotidiana, os locais
de residência das vítimas pedestres de 0 a 14 anos e motociclistas de 15 a 24
anos estavam concentrados em áreas de vulnerabilidade social.
É preciso considerar que o índice de mobilidade - número de viagens realizadas
em média por um indivíduo em um dia útil - varia de acordo com características
socioeconômicas. A Pesquisa Origem e Destino (O/D) realizada em 2011 na Região
Metropolitana de Campinas (STM,_2012) mostra que, quanto menor a renda, menor é
o índice de mobilidade. Na Região Metropolitana, enquanto para a classe
econômica "A" a média foi de 2,21 viagens/dia, entre as pessoas de classe "D"
essa taxa caiu para 1,29 viagem/dia. Ou seja, quem tem maior renda não apenas
possui maior disponibilidade de meios próprios de transporte motorizado, como
também realiza maior número de viagens. A Pesquisa O/D também mostrou que o
índice de imobilidade geral, ou seja, o percentual de população que não se
deslocou para fora de casa nos dias de referência da pesquisa, foi de 29,3%
(SMT, 2012). Quanto ao sexo, observou-se maior imobilidade para as mulheres
(34,5%, contra 23,8% para os homens). Segundo grupos etários, este índice foi
maior para idosos (56,4%) e crianças (30,5%). Desagregando os dados por nível
de instrução, o maior índice de imobilidade foi registrado entre os
analfabetos, reduzindo-se gradativamente com o aumento da escolaridade, exceto
entre os que estudaram até a pré-escola.6 Diante dessas informações, cabe
questionar: a incidência dos acidentes também poderia variar de acordo com as
condições socioeconômicas nas áreas onde residem as vítimas?
Fontes de dados e metodologia
Desde os anos 1970, os Boletins de Ocorrência são usados para os estudos sobre
acidentes de trânsito (LAURENTI_et_al.,_1972). Entre as vantagens do uso dessa
fonte de informação se destaca a possibilidade de coleta de dados como local e
tipo do acidente, tipo do veículo envolvido, número de vítimas e
características das mesmas e residência dos envolvidos.
As informações sobre acidentes foram obtidas no banco de dados produzido e
organizado pela Empresa Municipal de Desenvolvimento de Campinas/Secretaria
Municipal de Transportes (Emdec/Setransp), a partir de cópias de Boletins de
Ocorrência de acidentes de trânsito que ocorreram em 2009 nas vias públicas
municipais. Foram selecionados os acidentes com vítimas fatais e não fatais -
ou seja, pessoas que se feriram em acidentes, mas não morreram em decorrência
deles.
Além das informações dos Boletins de Ocorrência, a Emdec/Setransp complementa
as informações sobre vítimas fatais que não faleceram no local do acidente, a
partir de documentos do Instituto Médico Legal (IML), das 13 Delegacias de
Polícia Civil da cidade, dos Serviços Técnicos Gerais (Setec) e da Polícia
Militar. Após o recolhimento dos dados nesses órgãos, são excluídas as vítimas
fatais que sofreram acidentes em outros municípios e faleceram em Campinas e
incluídas aquelas que faleceram em outros municípios, mas sofreram o acidente
em Campinas. Esse procedimento garante maior cobertura dos óbitos (no caso de
acidentes fatais) (EMDEC,_2010).
A partir do banco de dados da Emdec, foi feita a transcrição7 dos endereços de
residência de 5.168 vítimas fatais e não fatais contidos em 4.187 Boletins de
Ocorrência (BO). O georreferenciamento dos locais de residência das vítimas foi
feito sobre a base de logradouros produzida pela Emdec_(2014). Utilizou-se o
software livre TerraView 4.2.0.
Neste artigo, não foi feita a análise do georreferenciamento dos locais de
ocorrência dos acidentes, por não estar incluída em seu objetivo principal.
Porém, cabe ressaltar que estudo anterior mostrou que a maioria dos acidentes
ocorreu no centro da cidade, bem como em grandes avenidas, locais em que o
fluxo de pessoas e veículos é intenso (BERTHO,_2014). Esse resultado também foi
encontrado por Souza_(2007) que, a partir de dados de acidentes de trânsito com
vítimas fatais no Rio de Janeiro em 2003, observou que grande parte dos
atropelamentos ocorreu no centro do município, o que poderia ser justificado
pelo fluxo intenso de pedestres. Por outro lado, a autora constatou que os
outros tipos de acidentes se concentraram em uma área por onde passa uma das
vias mais importantes da cidade. A informação sobre o local de ocorrência dos
acidentes é relevante e amplamente utilizada pela Secretaria Municipal de
Transportes de Campinas para adoção de medidas preventivas, tais como melhoria
da sinalização, aumento da fiscalização para coibir infrações que coloquem em
risco a vida das pessoas, instalação de radares para controle da velocidade,
entre outras. Entretanto, o presente artigo focaliza apenas os locais de
residência das vítimas fatais e não fatais, pois busca esclarecimentos a
respeito das condições socioeconômicas e de mobilidade das pessoas que sofreram
acidentes e usa a área de residência como proxy das condições socioeconômicas
das vítimas.
Após o georreferenciamento dos locais de residências das vítimas, foi feita a
leitura desses endereços para cada área de ponderação (AP) do Censo Demográfico
2010, que passou a ser a unidade de análise. A área de ponderação é a menor
unidade geográfica de desagregação para os dados provenientes da amostra do
Censo, sendo composta por um conjunto de setores censitários contíguos, com
tamanho mínimo definido em 400 domicílios ocupados na amostra (IBGE, 2013). Em
2010, o município de Campinas foi dividido em 36 APs. Usando como denominador a
população de cada AP,8 foram então calculadas taxas de vitimização. Além da
taxa de vitimização total (total de vítimas que residiam na AP por 100 mil
habitantes da mesma AP), foram calculadas taxas de vitimização de pedestres
(número de vítimas pedestres por 100 mil habitantes) e de motociclistas, sendo
que neste último caso foi considerado apenas o número de motociclistas
(condutores ou garupas) de 15 a 34 anos que sofreram acidentes, dividido pela
população de 15 a 34 anos.
Do Censo 2010 foram selecionadas variáveis de renda domiciliar per capita em
salários mínimos, nível de instrução e duas variáveis que se relacionam às
condições de mobilidade cotidiana: tempo de deslocamento entre a residência e o
local de trabalho; e existência de carro e/ou motocicleta no domicílio. Algumas
considerações devem ser feitas a respeito destas variáveis.9
Para identificação das características econômicas de cada AP, foi selecionada a
variável rendimento mensal domiciliar per capita em número de salários mínimos
em julho de 2010, identificada pelo código V6532 nos microdados do Censo de
2010. Devido à assimetria da distribuição da variável renda, à maior dispersão
das taxas de vitimização entre as AP de mais baixa renda média e à indicação de
relação não linear das taxas de vitimização, em acidentes de moto em especial,
com a média do rendimento domiciliar per capita, optou-se pela categorização
desta em quatro classes de rendimento: menos de um salário mínimo; de 1 a menos
de 2 salários mínimos; de 2 a menos de 3 salários mínimos; e a partir de três
salários mínimos.10 Foram consideradas as proporções de pessoas residentes em
domicílios com determinada faixa de renda, por AP. Elaboraram-se análises
descritivas e diagramas de dispersão entre as taxas de vitimização e as
características socioeconômicas e de mobilidade da população residente nas APs
(tabela e gráficos no Apêndice).
Para análise da escolaridade da população residente, foi usada a variável nível
de instrução (V6400), construída pelo IBGE a partir das informações sobre série
e grau de instrução para as pessoas que frequentavam escola e maior grau
concluído para aquelas que não frequentavam (IBGE,_2013). A variável coletada
em nível individual é categórica e a classificação é a seguinte: sem instrução
e fundamental incompleto; fundamental completo e médio incompleto; médio
completo e superior incompleto; superior completo e não determinado. Para
eliminar os efeitos de composição etária da população da AP, foi feito um
recorte que considera apenas a escolaridade das pessoas de 25 a 39 anos (cerca
de 26% da população), pois é esperado que uma AP com alto percentual de pessoas
idosas, ou de crianças em idade escolar, tenha uma escolaridade média mais
baixa - sem que isso necessariamente signifique piores condições de
escolarização e sociais para a população em questão. Por este motivo, optou-se
pelo uso do nível de instrução dos adultos jovens como uma proxy da
escolaridade da área, em vez da padronização, que, embora permitisse a
comparação entre as APs com distintas estruturas etárias, dificultaria a
interpretação dos resultados. Assim, o indicador usado foi a proporção de
pessoas de 25 a 39 anos em cada faixa de escolaridade mencionada anteriormente.
Para análise das condições de mobilidade dos indivíduos residentes nas APs do
município, foram selecionadas três perguntas do Censo 2010: V0662 - "Qual é o
tempo habitual gasto de deslocamento de sua casa até o trabalho?"; V0221 -
"Neste domicílio existe motocicleta para uso particular?"; e V0222 - "Neste
domicílio existe automóvel para uso particular?" A primeira pergunta é
respondida apenas pelas pessoas que trabalham e se deslocam diariamente por
este motivo. Esta variável é categórica ordinal e foi mantida tal como está no
Censo, sendo que as duas últimas categorias foram somadas: até 5 minutos; de 6
a 30 minutos; mais de 30 a 60 minutos; e mais de 60 minutos.11 Porém, para o
nível de análise do trabalho, também neste caso, foi analisada a proporção de
pessoas da AP por faixas de tempo de deslocamento casa-trabalho. Embora os
acidentes não necessariamente ocorram no trajeto casa-trabalho, parte-se do
pressuposto de que os obstáculos ou facilidades encontrados na realização deste
percurso cotidiano possam se reproduzir em outras situações, como nos
deslocamentos para estudos, acesso a serviços e lazer. A segunda e a terceira
variáveis escolhidas foram agrupadas em uma nova variável categórica nominal,
chamada "existência de meios próprios de transporte motorizado", composta pelas
categorias: nenhum (quando o domicílio não tem moto nem automóvel); somente
moto; somente automóvel; e moto e automóvel. Mesmo que a existência de um meio
de transporte motorizado no domicílio não comprove a utilização do mesmo para
os deslocamentos diários, tampouco informe sobre quais indivíduos do domicílio
utilizam o(s) veículo(s) declarado(s), trata-se de mais um indicador de
condições socioeconômicas e de mobilidade. Uma vez que a unidade espacial de
análise é a AP, as respostas possíveis compreendem, por exemplo, a "proporção
de indivíduos residentes na AP que moram em domicílios que não têm automóvel ou
motocicleta", a "proporção de indivíduos residentes na AP que moram em
domicílios que têm somente automóvel", e assim por diante. Embora as
informações censitárias não tenham sido levantadas para mensurar, ou tratar da
mobilidade cotidiana, considerou-se sua importância para a presente pesquisa
como forma de explorar fontes alternativas para estudos em áreas urbanas onde
não existem fontes de informações específicas como a Pesquisa Origem e Destino.
Foram feitas análises de correlação de Pearson com as informações por AP: taxas
de vitimização (total, pedestres e motociclistas), condições socioeconômicas
(renda domiciliar per capita e escolaridade) e condições de mobilidade (posse
de meios próprios de transporte motorizado e tempos médios de deslocamento
casa-trabalho). Os resultados são apresentados a seguir.
Resultados e discussão
Das 5.168 pessoas que sofreram acidentes nas vias públicas municipais de
Campinas,12 em 2009, 4.419 moravam no município. Todas as análises apresentadas
a seguir referem-se a este total de vítimas residentes em Campinas. Dessas,
70,7% (3.123 pessoas) eram homens e 29,1% (1.287) eram mulheres. O percentual
de vítimas cujo sexo não foi especificado no Boletim de Ocorrência corresponde
a 0,2% do total (nove pessoas). Quanto aos grupos etários, destacam-se as
vítimas com idade entre 20 e 24 anos, com participação de 25,2%, seguidas pelas
pessoas de 25 a 29 anos, que respondem por 16,2% do total. Quando se avalia a
participação por sexo, em cada grupo etário, observa-se que em todas as idades
o número homens é superior ao de mulheres.
Das 4.419 vítimas que residiam em Campinas, foi possível fazer o
georreferenciamento dos endereços de residência de 3.652 (82,6%13). Este total
foi usado para o cálculo das taxas, que têm como denominador a população
residente em cada AP.
A análise das vítimas por tipo de veículo que ocupavam no momento do acidente
mostra que a maior parte era composta por motociclistas (aproximadamente 50% do
total), seguida pelos ocupantes dos demais veículos (30%), pedestres (15%) e
ciclistas (4%). Dada a importância de se estudar separadamente as vítimas
pedestres e os motociclistas, chamados de usuários vulneráveis do sistema
viário14 (GLOBAL_ROAD_SAFETY_PARTNERSHIP,_2008), optou-se por realizar a
análise dessa forma. Por este motivo, as taxas são calculadas para o total de
vítimas,15 para os pedestres e para os motociclistas de 15 a 34 anos, sendo que
neste último caso o denominador é dado pela população deste mesmo grupo etário.
A Tabela_1 mostra resultados já esperados: associação positiva entre a
proporção de pessoas da AP com renda domiciliar per capita de menos de um
salário mínimo e de 1 a menos de 2 salários mínimos e a proporção de pessoas da
AP vivendo em domicílios com nenhum meio de transporte ou somente moto. Também
observou-se correlação negativa entre as proporções de pessoas com renda
domiciliar per capita de menos de dois salários mínimos e de pessoas vivendo em
domicílios com carro.
TABELA 1 Coeficiente de correlação de Pearson entre proporção de residentes em
domicílios com meios próprios de transporte para área de ponderação e proporção
de população, segundo faixas de renda domiciliar per capita para área de
ponderação
Município de Campinas - 2010
Faixas de renda (em salários Residentes em domicílios com meios próprios de
mínimos) transporte
Nenhum Moto Carro Ambos
Menos de 1 SM 0,828** 0,829** -0,868** -0,437**
De 1 a menos de 2 SM 0,423* 0,474** -0,545** 0,02
De 2 a menos de 3 SM -0,507** -0,681** 0,553** 0,317
A partir de 3 SM -0,770** -0,750** 0,843** 0,296
Fonte: IBGE. Censo Demográfico 2010.
*Correlações significativas ao nível de 5%;
**correlações significativas ao nível de 1%.
De maneira complementar, à medida que as faixas de renda aumentam, os
coeficientes mostram relações inversas: a partir de 2 a menos de 3 salários
mínimos de renda domiciliar per capita, a proporção de pessoas por AP mostrou
correlação negativa com a proporção de residentes em domicílios sem meios
próprios de transporte ou somente com moto e correlação positiva com a
proporção de pessoas residentes em domicílios com carro. Os diagramas de
dispersão (Gráficos_1 e 2) possibilitam outra visualização dos resultados que
estão de acordo com o esperado: quanto maior o rendimento médio da AP, maior é
a proporção de pessoas com possibilidade e mobilidade cotidiana individual, ou
autônoma, de carro e/ou motocicleta.
Fonte: IBGE.
Censo Demográfico 2010.
GRÁFICO 1 Percentual de população residindo em domicílios com ou sem carro e
motocicleta por percentual de população com rendimento domiciliar per capita de
menos de um salário mínimo para áreas de ponderação
Município de Campinas - 2010
[/img/revistas/rbepop/v32n2//0102-3098-rbepop-32-2-0257-gf02.jpg]Fonte: IBGE.
Censo Demográfico 2010.
GRÁFICO 2 Percentual de população residindo em domicílios com ou sem carro e
motocicleta por percentual de população com rendimento domiciliar maior ou
igual a três salários mínimos para áreas de ponderação
Município de Campinas - 2010
A Tabela_2 mostra os coeficientes de correlação de Pearson entre as taxas de
vitimização (total - incluindo acidentes automotor, pedestres e motociclistas,
por 100 mil habitantes)16 e a renda domiciliar per capita e escolaridade dos
adultos jovens de 25 a 39 anos. Destaca-se a correlação positiva entre taxas de
vitimização (total e de motociclistas) e a proporção de pessoas com renda
domiciliar per capita de 1 a menos de 2 salários mínimos, bem como a correlação
positiva entre taxa de vitimização total e proporção de pessoas com renda
domiciliar per capita de 2 a menos de 3 salários mínimos. Quanto à relação
entre escolaridade e taxas de vitimização, sobressai a correlação positiva com
a proporção de pessoas com ensino médio.
TABELA 2 Coeficiente de correlação de Pearson entre taxas de vitimização devido
a acidentes de trânsito, proporção de pessoas por faixa de renda domiciliar per
capita e proporção de adultos de 25 a 39 anos por escolaridade para áreas de
ponderação
Município de Campinas - 2009
Taxas de vitimização por 100 mil
Indicadores habitantes
Total Pedestres Motociclistas
(1)
Proporção de pessoas por AP por faixas de renda
domiciliar per capita (em salários mínimos)
Menos de 1 SM -0,07 0,12 0,04
De 1 a menos de 2 SM 0,342* 0,21 0,471**
De 2 a menos de 3 SM 0,375* 0,16 0,32
A partir de 3 SM -0,16 -0,23 -0,30
Proporção de pessoas de 25 a 39 anos por AP por
escolaridade
Nenhuma ou fundamental incompleto -0,25 -0,13 -0,10
Fundamental completo 0,13 0,20 0,28
Médio completo 0,526** 0,445** 0,570**
Superior completo -0,11 -0,18 -0,26
Fonte: IBGE. Censo Demográfico 2010. Emdec/Setransp (2010).(1) Vítimas
motociclistas de 15 a 34 anos divididas pela população de 15 a 34 anos.
*Correlações significativas ao nível de 5%;
**correlações significativas ao nível de 1%.
A Tabela_3 relaciona as taxas de vitimização com indicadores de mobilidade.
Esta análise apresentou apenas dois resultados com significância. O primeiro
indica associação negativa entre a proporção de pessoas residentes em domicílio
com carro e moto e a taxa de vitimização de pedestres. O segundo resultado
significativo encontrado foi a correlação negativa entre proporção de pessoas
que levam até 5 minutos se deslocando de casa para o trabalho e a taxa de
vitimização de motociclistas.
TABELA 3 Coeficiente de correlação de Pearson entre taxas de vitimização devido
a acidentes de trânsito e características da mobilidade para áreas de
ponderação
Município de Campinas - 2009
Taxas de vitimização por 100 mil
Indicadores habitantes
Total Pedestres Motociclistas (1)
Proporção de pessoas por AP residentes em domicílios com carro ou
moto
Sem carro nem moto - 0,237 -0,008
0,088
Com moto - 0,012 -0,020
0,149
Com carro 0,100 -0,098 -0,024
Com carro e moto 0,065 -0,398* 0,101
Proporção de pessoas por AP por tempo de deslocamento casa-trabalho
Até 5 minutos - -0,200 -0,339*
0,215
De 6 a 30 minutos - -0,280 -0,283
0,159
Mais de 30 a 60 minutos 0,114 0,194 0,269
Mais de 60 minutos 0,211 0,318 0,288
Fonte: IBGE. Censo Demográfico 2010. Emdec/Setransp (2010).(1) Vítimas
motociclistas de 15 a 34 anos divididas pela população de 15 a 34 anos.
*Correlações significativas ao nível de 5%; ** correlações significativas ao
nível de 1%.
Considerações finais
Os impactos para a saúde da população em função dos acidentes de trânsito são
motivo de preocupação em todo o mundo, pois a cada ano aproximadamente 1,2
milhão de pessoas morrem por esta causa (WHO,_2013). Em 2012, o Brasil
registrou quase 45 mil óbitos por acidentes de trânsito. A importância de se
estudar o fenômeno está não apenas nos anos potenciais de vida perdidos por
esta causa, mas também por ser reflexo de décadas de contínuo crescimento
urbano no país e da respectiva dinâmica econômica e populacional dentro e entre
as maiores aglomerações urbanas, que acontecem, em grande medida, de forma
desordenada, sem o devido planejamento e ações eficazes para atenderem às novas
demandas para a mobilidade cotidiana e transporte intra e intermunicipal.
Foi com tal preocupação que se produziu esse artigo, buscando acrescentar
conhecimento ao debate existente nas, e entre, diversas áreas que estudam o
tema. A metodologia e as fontes usadas nas pesquisas conduzidas por demógrafos
não são exclusivas deste campo do conhecimento, mas as particularidades emergem
na formulação das hipóteses e na interpretação das informações. No caso do
presente estudo, procurou-se avaliar como a exposição ao risco de acidentes
pode ser potencializada pelas condições de mobilidade da população. Avalia-se
que, mesmo com diversas limitações, o Censo Demográfico 2010 revelou
potencialidades para os estudos sobre mobilidade e exposição aos riscos no
trânsito urbano, a partir do número e tempo de deslocamentos e da existência ou
não de meios próprios de transporte. Este estudo teve como desafio trabalhar
com informações coletadas em nível individual tanto das vítimas de acidentes
quanto das condições socioeconômicas e de mobilidade da população, mas todas
estimadas em um âmbito mais agregado, que é a área de ponderação. Como a
análise só foi possível graças à agregação dos dados, perde-se o detalhamento e
não se pode garantir que as vítimas foram aquelas do grupo mais ou menos
abastado. Por outro lado, os resultados observados para as taxas específicas
por tipo e número de deslocamentos reforçam o entendimento de que o espaço de
residência reflete também os constrangimentos quanto à realização da mobilidade
cotidiana de forma segura.
As análises de correlação entre renda domiciliar per capita e a existência de
meios próprios de transporte no domicílio mostraram resultados que poderiam ser
esperados: associação positiva entre baixa renda e a proporção de pessoas da AP
vivendo em domicílios com nenhum meio de transporte ou somente moto. Por outro
lado, a partir de 2 a menos de 3 salários mínimos de renda domiciliar per
capita há correlação positiva e significativa com a proporção de pessoas
residentes em domicílios com carro ou com carro e moto.
No caso da taxa de vitimização de motociclistas por 100 mil pessoas, observou-
se correlação positiva com a proporção de pessoas com renda domiciliar per
capita de 1 a menos de 2 salários mínimos. Quanto à relação entre escolaridade
e taxas de vitimização total, destacou-se a correlação positiva com a proporção
de adultos de 25 a 39 anos com ensino médio.
Embora as conclusões não possam ser inferidas para o nível individual, observa-
se que, em áreas com maiores percentuais de pessoas com baixa renda, há menor
posse de meios próprios de transporte e menores taxas de acidentes (BERTHO,
2014). A condição que "propicia" a vitimização é intermediária. Talvez porque
as pessoas residentes em áreas intermediárias tenham um pouco mais de condições
de escolha e, para alcançar maior controle sobre o próprio tempo, flexibilidade
e possibilidade de acesso a bens e serviços, incluindo trabalho, decidem pela
utilização de motocicleta, apesar dos riscos que este meio de transporte
oferece.
A pesquisa dá indícios de que a imobilidade, maior entre as pessoas menos
escolarizadas e com menor renda (STM,_2012), reduz o risco de morte por
acidentes por diminuir a exposição das vítimas aos perigos do trânsito, ao
mesmo tempo em que a melhor condição das pessoas que residem em área de maior
riqueza permite que os deslocamentos sejam realizados com maior segurança - em
última instância, porque provavelmente aqueles com maior renda utilizam mais
carros. Mas nenhum dos dois extremos mostra um "ideal" de mobilidade ou de
segurança no trânsito. Eles apenas reforçam o uso desigual das vias públicas,
onde quem pode se desloca muitas vezes e, provavelmente, com maior segurança e
quem não pode se desloca pouco e, quando tem condições econômicas mínimas, o
faz com pouca segurança.
Entretanto, deve ser ressaltado que, embora tais resultados sejam coerentes com
estudos anteriores, o baixo risco de vitimização da população residente nas
áreas urbanas com os piores indicadores socioeconômicos pode ser resultado da
seletividade do sucesso da localização dos endereços das vítimas. Em outras
palavras, caso os endereços não identificados (17,4%) sejam de vítimas
residentes nessas áreas com piores indicadores, a relação será mais linear,
isto é, quanto mais precária a situação socioeconômica e de mobilidade (pouca
e/ou insegura), maior é o risco de vitimização em acidentes de trânsito.
Os resultados mostram que, apesar das dificuldades metodológicas, os Boletins
de Ocorrências são fontes ricas quando se pretende saber, além da idade, sexo,
tipo de veículo envolvido e outras informações referentes à ocorrência, os
endereços de residência das vítimas. Embora os Boletins de Ocorrência não
permitam identificar as características socioeconômicas individuais, por meio
do georreferenciamento dos endereços das vítimas é possível traçar um perfil
das áreas onde residiam essas vítimas, servindo como uma aproximação das suas
condições socioeconômicas. A pesquisa também avança ao buscar no Censo
Demográfico 2010 informações a respeito das condições socioeconômicas e de
mobilidade de áreas menores que compõem o município. É certo que nas grandes
regiões metropolitanas, como é o caso de Campinas, a Pesquisa Origem e Destino
fornece dados mais precisos e detalhados a respeito das condições de mobilidade
da população. Porém, o Censo, dada a abrangência nacional, permite que a
análise realizada nesta pesquisa seja replicada e, claro, aperfeiçoada, em
outros recortes geográficos.
*A primeira autora agradece ao Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico
e Tecnológico (CNPq) pela bolsa de doutorado concedida, sendo este artigo parte
dos resultados de sua tese de doutoramento.
1Categorias V01 a V89 da CID-10. A definição de acidentes de transporte
terrestre refere-se ao meio de transporte usado pela vítima e engloba todos os
acidentes, exceto aqueles que envolveram meios marítimos, pluviais ou aéreos.
Este termo difere de "acidentes de trânsito", usado no presente estudo, que
corresponde a todos os acidentes de transporte terrestre, excluindo aqueles
envolvendo meios de transporte ferroviário. A definição de acidentes de
trânsito dada pelo Denatran é: "evento não intencional, envolvendo pelo menos
um veículo, motorizado ou não, que circula por uma via para trânsito de
veículos".
2A autora denomina mortes por "acidentes de trânsito" aquelas ocorridas por
"acidentes de trânsito de veículos a motor", incluídas nas categorias E 810 a E
819 da 9ª Revisão da Classificação Internacional de Doenças.
3A autora considerou mortes por acidentes de transporte aquelas classificadas
de acordo com os códigos E800 a E848 da CID-9 em 1980 e 1991; e V00 a V99 da
CID-10 para 2000.
4A partir de 45 Unidades Básicas de Saúde, a autora agrupou dez áreas de
abrangência e criou uma nova divisão do município, em 35 unidades de análise
(AAs).
5Neste estudo foram georreferenciados, em nível de setor censitário, 85% dos
endereços de residência das vítimas, 83%dos endereços de ocorrência dos eventos
e 95% dos endereços de ocorrência do óbito, sendo que a maioria desses últimos
corresponde a unidades hospitalares (SOUZA,_2007).
6Cabe destacar que o relatório da pesquisa O/D não menciona a aplicação de
quaisquer filtros para análise somente a partir de determinada idade. Assim,
entre os analfabetos estão incluídas as crianças que ainda não frequentam a
escola, o qu ejustifica a alta imobilidade nesse grupo. O mesmo pode ser dito a
respeito dos que têm grau de instrução "pré-escolar".Se uma criança está em
fase pré-escolar, é porque ela vai à escola (portanto, realiza deslocamentos).
Caso contrário, ela seria analfabeta. Isso justificaria a baixa imobilidade das
pessoas com esse grau de instrução. Para eliminar a dúvida a respeito dos
possíveis efeitos de composição etária no resultado apresentado no relatório da
Secretaria de Transportes Metropolitanos, realizou-se uma nova tabulação destes
dados, selecionando-se apenas as pessoas com mais de 25 anos de idade. Os
resultados obtidos mostram grande semelhança com os do relatório, corroborando
a afirmação de que quanto maior a escolaridade, menor é a taxa de imobilidade
dos indivíduos.
7Uma vez que a Emdec não utiliza a informação de endereço de residência das
vítimas e as cópias dos Boletins de Ocorrência não podem ser retiradas da Emdec
e nem replicadas, a autora passou aproximadamente quatro meses trabalhando
dentro da empresa para transcrever tais informações para o banco de dados já
existente.
8Embora os acidentes tenham ocorrido em 2009 e os dados do Censo Demográficos
refiram-se a 2010, pela proximidade temporal considerou-se que não haveria
prejuízos significativos à análise ao se fazer o cálculo de taxas usando os
dados censitários.
9As definições das variáveis foram obtidas a partir da metodologia do Censo
Demográfico 2010 (IBGE, 2013).
10Com o objetivo de estudar a importância dos extremos em termos de rendimento
domiciliar per capita, inicialmente foram definidas oito categorias: de 0 a
menos de ½ salário mínimo; de ½ a menos de 1; de 1 a menos de 2; de 2 a menos
de 3; de 3 a menos de 5; de 5 a menos de 10; de 10 a menos de 20; e a partir de
20. Quando comparados os coeficientes de correlação entre a proporção de
domicílios em cada uma destas faixas de rendimento e as taxas de vitimização
por acidentes de trânsito, os resultados não indicaram diferenciação entre as
duas primeiras faixas, tampouco entre as quatro últimas. Por esta razão, para o
artigo estão apresentadas apenas as quatro faixas de rendimento.
11No Censo, existem as categorias "mais de 60 a 120 minutos" e "mais de 120
minutos", mas para o artigo essas categorias foram agregadas.
12A expressão "total de vítimas" faz referência a esse universo, composto por
vítimas fatais e não fatais de acidentes de trânsito ocorridos em vias públicas
municipais de Campinas em 2009.
13O missing do georreferenciamento dos locais de residência deve-se não apenas
à incompletude no preenchimento dos dados, mas principalmente à dificuldade de
localização de logradouros cujos nomes são designados por numerais (p. ex.:R.
Dezoito). Das 767 vítimas cujos locais de residência não foram localizados,
quase metade dos endereços tinha o nomedo logradouro designado por numerais.
14Nessa definição também estão incluídos os ciclistas, porém, por totalizarem
apenas 172 vítimas (3,9% do total), optou-sepor não analisá-los separadamente,
como foi feito com pedestres e motociclistas.
15A classificação feita pela Emdec permite identificar condutor de moto,
condutor de bicicleta, condutor de demais veículos, passageiro de moto,
passageiro de bicicleta, passageiro dos demais veículos, pedestres e vítimas
com informação não especificada (esta última categoria inclui menos de 1% das
vítimas).
16Das 4.419 vítimas, apenas 260 (5,9%) sofreram acidentes envolvendo ônibus, o
que justifica essas vítimas não terem sido tratadas separadamente. Entre estas
estão aquelas que foram atropeladas por ônibus, analisadas dentro no
conjuntodos "pedestres". Cabe destacar que, de acordo com a Pesquisa Origem e
Destino (O/D) realizada em 2011 na Região Metropolitana de Campinas (RMC), do
total de viagens com origem dentro do município de Campinas, 34,4% utilizaram
meios de transporte coletivo (STM, 2012), o que mostra que, considerando o uso
dos meios de transporte, o número de vítimas é relativamente baixo.
Apêndice
Apêndice
TABELA 1 Estatísticas descritivas das variáveis incluídas no estudo, segundo as
36 áreas de ponderação
Município de Campinas - 2010
Variáveis e categorias Mínimo Máximo Mediana Média Desvio- Skewness Kurtosis
padrão (a) (b)
Média do rendimento domiciliar per capita 427,06 4.780,94 1.085,95 1.390,04 938,52 1,55 3,36
Mediana do rendimento domiciliar per capita 334,00 3.500,00 704,38 921,70 616,77 2,43 8,02
Taxa de vitimização devido a acidentes de trânsito por 100 mil
hab.
Total 50,0 562,6 327,2 330,4 110,1 -0,10 0,33
Pedestres 0,0 97,7 44,4 47,4 20,5 0,26 0,42
Motociclistas de 15 a 34 anos 72,8 916,1 482,0 465,5 202,2 0,16 -0,46
População (%) residente em domicílios com carro ou moto
Nenhum 5,6 47,2 22,7 23,3 12,4 0,47 -0,87
Somente moto 0,0 1,1 0,4 0,4 0,3 0,61 -0,32
Somente carro 34,0 83,3 58,8 58,8 12,2 0,01 -0,66
Ambos 4,2 23,8 13,1 13,6 4,5 0,12 -0,39
População (%) segundo tempo do deslocamento casa-trabalho
Até 5 minutos 2,0 13,6 5,7 6,5 3,0 0,76 -0,13
De 6 a 30 min. 14,5 74,5 52,1 46,9 14,6 -0,39 -0,73
Mais de 30 a 60 min. 15,0 49,8 31,6 33,4 9,7 -0,07 -1,25
Mais de 60 min. 4,6 38,7 9,4 13,0 8,8 1,67 2,25
Escolaridade da população de 25 a 39 anos (%)
Nenhuma ou fundamental incompleto 2,7 52,1 20,8 21,2 11,9 0,61 -0,04
Fundamental completo 1,6 28,9 17,0 16,0 6,9 -0,14 -0,79
Ensino médio completo 17,3 51,1 37,5 35,7 7,9 -0,43 -0,17
Superior 1,6 78,2 21,3 26,1 21,0 0,67 -0,51
População (%) segundo renda domiciliar per capita em salários
mínimos
Menos de 1 SM 5,5 71,5 34,8 36,5 17,7 0,30 -1,06
De 1 a menos de 2 SM 11,3 40,0 29,2 27,9 7,1 -0,60 0,15
De 2 a menos de 3 SM 3,8 21,2 12,7 11,9 4,1 0,05 -0,53
A partir de 3 SM 1,3 74,6 18,0 23,5 19,3 0,66 -0,42
Fonte: IBGE. Censo Demográfico 2010. Emdec/Setransp (2010).Nota: Não há
evidência estatística para rejeitar as hipóteses: simetria da distribuição; e
adequação de concentração em torno da média.
[/img/revistas/rbepop/v32n2//0102-3098-rbepop-32-2-0257-gf03.jpg]
GRÁFICO 1 Taxas de vitimização devido a acidentes de trânsito por média da
renda domiciliar per capita, segundo tipo de acidente para áreas de ponderação
Município de Campinas - 2010
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GRÁFICO 2 Taxas de vitimização devido a acidentes de trânsito por percentual de
população com renda domiciliar per capita de 1 a menos de 2 salários mínimos,
segundo tipo de acidente para áreas de ponderação Município de Campinas - 2010
[/img/revistas/rbepop/v32n2//0102-3098-rbepop-32-2-0257-gf05.jpg]
GRÁFICO 3 Taxas de vitimização devido a acidentes de trânsito por percentual de
população de 25 a 39 anos com ensino médio completo, segundo tipo de acidente
para áreas de ponderação Município de Campinas - 2010
[/img/revistas/rbepop/v32n2//0102-3098-rbepop-32-2-0257-gf06.jpg]
GRÁFICO 4 Taxas de vitimização devido a acidentes com motocicletas por
percentual da população com tempo de deslocamento casa-trabalho inferior a seis
minutos para áreas de ponderação Município de Campinas - 2010