Fatores associados ao desempenho escolar: uma análise da proficiência em
matemática dos alunos do 5º ano do ensino fundamental da rede municipal do Rio
de Janeiro
Breve histórico: estudos educacionais sobre desempenho escolar
Os fatores que interferem no desempenho escolar são estudados há mais de cinco
décadas no cenário internacional. O marco inicial usualmente apontado é o
chamado Relatório Coleman, publicado em 1966, que analisa as causas para as
diferenças de desempenho entre as escolas norte-americanas (COLEMAN et al.,
1966). Concluiu-se com esse estudo que as diferenças de infraestrutura e
equipamentos entre as escolas, assim como a qualidade do seu corpo docente ou
de seus currículos, sua localização e mesmo o nível socioeconômico das escolas,
não justificavam a grande variação de desempenho entre os alunos de diferentes
escolas, ou seja, não importava a escola em que os alunos estudavam. Segundo a
pesquisa, o principal fator responsável pelas disparidades de desempenho eram
as diferenças socioeconômicas individuais entre os alunos (BROOKE; SOARES,
2008; ALBERNAZ et al., 2002; ALVES; SOARES, 2007; RIANI; RIOS-NETO, 2008).
O Relatório impulsionou discussões e estudos sobre os possíveis efeitos
escolares no desempenho acadêmico. Primeiramente, como as diferenças entre as
escolas americanas eram poucas, havia dúvidas sobre o que aconteceria em
situações em que tais diferenças contextuais fossem maiores. Existiam, além
disso, restrições sobre os procedimentos analíticos aplicados aos dados, que
foram considerados deficitários em diversos aspectos. Desde então, muitos
trabalhos sobre o tema foram feitos por pesquisadores de diferentes países
(principalmente na Inglaterra e nos Estados Unidos), utilizando os mesmos dados
coletados por Coleman e seus colegas, mas aplicando diferentes métodos de
análise, ou realizando novas pesquisas, para conhecer outras realidades
educacionais e buscar novas variáveis passíveis de interferência no desempenho
dos alunos que pudessem efetivamente mensurar a relevância dos contextos
escolares(BROOKE; SOARES, 2008; RIANI; RIOS-NETO, 2008).
Assim, o Relatório Coleman foi alvo de críticas, principalmente no que tange
aos efeitos de agregação, que ocorrem "quando uma variável tem sentidos
substancialmente diferentes para diferentes níveis hierárquicos" (BROOKE;
SOARES, 2008, p. 223), ou seja, as hipóteses sobre o modo como uma variável age
sobre o desempenho podem variar conforme a mudança da unidade de análise.
Outra crítica importante ao relatório foi a falta de variáveis que
caracterizassem os processos internos das escolas, tais como expectativas e
dinâmicas do professor, tempo de aula utilizado para atividades acadêmicas,
organização e gestão da escola, além do clima escolar. Com isso, a linha de
estudo sobre a eficácia escolar começou a ser desenvolvida, a partir de estudos
como os de Hanushek (1970), Bloom (1976), Brookover (1978), Rutter et al.
(1979) e Willms (1992).
Um avanço importante para os estudos sobre o desempenho escolar e, por
conseguinte, sobre o efeito das escolas foi o advento, na década de 1970, dos
modelos hierárquicos, que respeitam a estrutura aninhada dos dados escolares ao
considerarem variáveis ao nível da escola ou da turma, resolvendo o problema do
vício de agregação dos modelos lineares clássicos. Ao mesmo tempo, estes
modelos permitem que a análise do desempenho escolar utilize informações
individuais por aluno conjuntamente com dados dos níveis superiores,
melhorando, assim, as estimativas dos efeitos (ALVES; SOARES, 2007).
A princípio, os modelos de regressão linear foram desenvolvidos para análise de
dados independentes, porém, esse pressuposto não é válido para os dados
escolares, pois estudantes de uma mesma turma podem ter desempenhos mais
próximos se comparados a estudantes de turmas diferentes, devido à sua
convivência diária e por estarem submetidos aos mesmos processos de ensino, ou
seja, as unidades de análise são correlacionadas. A metodologia continuou a ser
desenvolvida, principalmente na Inglaterra pelos pesquisadores Harvey Goldstein
e Anthony Bryk, que reformularam os modelos de regressão para que fossem
adequados aos dados que apresentassem essa estrutura de correlação. Na década
de 1980, a modelagem hierárquica começou a ser utilizada na pesquisa
educacional, permitindo quantificar os efeitos das escolas e avaliar a
influência dos diversos fatores no desempenho dos alunos, por meio da
utilização de variáveis relacionadas aos diferentes níveis de análise, a saber:
escola, turma ou o próprio aluno (BROOKE; SOARES, 2008).
No Brasil, o estudo sobre a qualidade da educação intensificou-se,
principalmente, com a consolidação do Saeb, em 1995. A entrada tardia do Brasil
na pesquisa sobre eficácia escolar "permitiu que os métodos mais adequados
fossem usados de imediato" (BROOKE; SOARES, 2008, p. 11). Nesse sentido, os
primeiros estudos brasileiros que analisaram o desempenho escolar (FLETCHER,
1997; MAMBRINI et al., 1999; FERRÃO; FERNANDES, 2001; CESAR; SORES, 2001;
ALBERNAZ et al., 2002) já dialogavam com outros trabalhos similares
desenvolvidos em outras partes do mundo.
Os estudos realizados no Brasil que consideram a estrutura hierárquica dos
dados educacionais confirmam os resultados internacionais, segundos os quais a
escola tem um claro papel na vida escolar de seus alunos. Porém, os valores
nacionais do efeito-escola são maiores (RIANI; RIOS-NETO, 2008), mesmo
controlando a influência do nível socioeconômico dos alunos (tido como fator
preponderante para o desempenho escolar). Além disso, os percentuais da
variabilidade do desempenho explicada pelas escolas são superiores aos
observados internacionalmente, principalmente quando se consideram
conjuntamente as redes privada e pública, bem como no interior de cada uma
delas (ALVES; FRANCO, 2008).
Assim, o presente trabalho está inserido no âmbito dos estudos que buscam
identificar variáveis com impacto sobre o desempenho escolar, seja por meio da
análise dos efeitos de características pessoais e sociais dos alunos, seja a
partir de recursos e estruturas escolares, fatores estes comuns na literatura
acadêmica sobre o assunto, além de estudar elementos ainda pouco abordados no
Brasil, como o efeito dos pares, efeitos específicos de composição de turmas
dentro das escolas e características dos professores, ou ainda os efeitos
relacionados ao território em que as escolas estão localizadas.
Recortes analíticos: variável dependente e universo de alunos e escolas
Para estudar os condicionantes do desempenho escolar, a variável dependente
utilizada foi a proficiência dos alunos, medida a partir de um teste
padronizado de matemática, com ênfase em resolução de problemas. As pontuações
dos alunos neste teste têm como fonte a Prova Brasil aplicada em 2007, com uma
escala de proficiência que varia entre 0 e 500. A opção em trabalhar com as
provas de matemática deve-se ao fato de que alguns autores (BARBOSA, 2005 apud
ANDRADE; SOARES, 2008; RODRIGUES et al., 2011) apontam que esta disciplina
seria mais afetada pela qualidade das aulas e da própria escola do que a
proficiência em língua portuguesa, sobretudo nas séries iniciais. As
habilidades de leitura, por sua vez, seriam fortemente influenciadas pelo
capital cultural que os alunos trazem de casa.
No que se refere aos alunos, uma informação fundamental é a sua série ou o ano
em que está matriculado. A Prova Brasil é aplicada aos finais de segmento do
ensino fundamental (EF), portanto, ao 5º e ao 9º anos. No presente trabalho,
optou-se por abordar apenas os alunos do primeiro segmento, por dois motivos.
Primeiramente, porque havia o interesse em estudar efeitos das turmas sobre o
aprendizado e o desempenho dos alunos, considerando informações a respeito da
composição das turmas, bem como do papel do professor. No primeiro segmento do
ensino fundamental, a existência de um único professor para todas as
disciplinas tornaria esse papel ainda mais importante, na medida em que os
alunos convivem com ele por mais tempo. Além disso, essa associação unívoca
facilita a produção de indicadores para as turmas, dado que apenas um único
professor preenche o questionário (SOARES, 2005).
Outro fator que pesou na escolha do primeiro segmento remete ao argumento
colocado por alguns autores e pesquisadores do campo da educação de que o
efeito da escola seria mais forte neste segmento (SOARES, 2005). Por serem
alunos mais jovens, o peso das suas trajetórias de vida e escolar seria menor
(FERRÃO; FERNANDES, 2001; RODRIGUES et al., 2011), permitindo que a escola atue
com maior intensidade nestes primeiros anos de formação, em comparação com os
alunos do final do segundo segmento.
No que tange às escolas, são relevantes as informações a respeito das redes de
ensino, de seu caráter público ou privado e do sistema de ensino ao qual
pertencem. Nesse sentido, salienta-se que o universo do presente estudo
restringe-se às escolas da rede pública municipal da cidade do Rio de Janeiro.
Algumas destas escolhas devem-se simplesmente à limitação dos dados, já que a
Prova Brasil apenas avalia alunos da rede pública urbana de ensino. Tal
restrição tem como resultado imediato uma redução considerável da variabilidade
entre as escolas e, por conseguinte, do efeito-escola. Dentro da rede pública
de ensino, por sua vez, foram selecionadas apenas as escolas municipais que
possuíam, em 2007, o 5º ano, as quais respondiam por aproximadamente 97% dos
alunos, segundo os dados da própria Prova Brasil, enquanto as escolas das redes
estadual e federal continham os outros 3%.
O sistema de ensino municipal carioca é um dos mais antigos do Brasil e,
segundo a Secretaria Municipal de Educação, possui a maior rede de escolas
públicas da América Latina, ultrapassando 1.000 estabelecimentos, dos quais
mais de 750 atendem aos mais de 60.000 alunos matriculados apenas no 5º ano.
Nesse contexto, considerando o número de escolas e ainda a própria configuração
geográfica e social da cidade, com todas as suas desigualdades, partiu-se do
pressuposto de que existem diferenças substanciais entre as escolas, em termos
de composição, contextos e práticas escolares, passíveis de serem analisadas em
prol do aprimoramento da qualidade do ensino na cidade.
Finalmente, cabe ressaltar que a análise não incluiu todas as escolas que
participaram da Prova Brasil 2007. Este último recorte metodológico refere-se à
seleção de escolas com pelo menos duas turmas. Esta questão aparece na
literatura sobre modelagem de dados escolares quando é discutido o número
mínimo de turmas a ser considerado em análises hierárquicas com três níveis, em
que o terceiro nível é a escola. Por exemplo, Soares (2005) retirou de suas
análises as escolas com número de turmas inferior a quatro, procedimento que,
segundo o autor, visou assegurar uma variabilidade mínima para a estimação das
estatísticas para o nível da escola.
Assim, dado o interesse em trabalhar tanto efeitos das turmas como o efeito das
escolas, considerou-se a necessidade de assegurar uma variabilidade mínima e,
ao mesmo tempo, visando não perder muitas escolas para a análise, foi reduzido
o ponto de corte para dois.
Informações sobre a base de dados
A construção da base de dados utilizada nas análises teve como ponto de partida
o banco de dados dos alunos que fizeram a Prova Brasil em 2007. A planilha com
as informações sobre a proficiência, que contém basicamente as notas dos alunos
nos testes padronizados, foi inicialmente associada à base de dados com as
informações processadas do questionário socioeconômico, ou simplesmente
Questionário do Aluno, que é respondido após a prova.
A Prova Brasil possui ainda outros instrumentos de coleta de informações sobre
as atividades e as características das escolas. Estes são os questionários
contextuais preenchidos pelo diretor e pelos professores de cada série e
disciplina avaliadas, contendo informações que podem ser utilizadas nos níveis
superiores do modelo hierárquico. Existe ainda o Questionário da Escola, que é
preenchido por um aplicador externo à escola e que possui dados sobre a
infraestrutura física do estabelecimento de ensino, a manutenção das salas e a
conservação dos equipamentos e do prédio em que funciona a escola.
Após a agregação de todas estas planilhas, passou-se a buscar informações em
outras fontes de dados: o Censo Escolar de 2007, também do Inep; e o Censo
Demográfico realizado pelo IBGE em 2000, com informações para os setores
censitários. Do Censo Escolar, foram extraídas informações sobre
infraestrutura, que apresentavam muitos casos perdidos no Questionário da
Escola, da Prova Brasil, bem como dados sobre os totais de professores, alunos
e funcionários, que serviram também como denominadores para alguns dos
indicadores criados.
Com base no Censo Demográfico 2000, por meio de técnicas de análise espacial,
foram identificados os setores censitários que continham escolas, com a
sobreposição entre uma malha de escolas georreferenciadas e a malha dos setores
censitários. A partir daí, para cada um dos setores previamente selecionados,
foram listados todos os setores adjacentes, gerando um banco de dados de
setores/escolas e vizinhos. As variáveis escolhidas foram então agregadas para
produzir um banco de escolas compatível com as demais planilhas. Assim, nesse
novo banco, associaram-se às escolas variáveis que representam sua vizinhança,
ou as características sociais e econômicas de seu entorno imediato. Esse
trabalho permitiu incorporar às análises uma perspectiva associada ao
território em que a escola está localizada, possibilitando ainda considerar a
proximidade das escolas com as favelas da cidade do Rio de Janeiro. Foram
criadas uma variável dicotômica indicando se a escola possuía em seu entorno
imediato algum setor considerado favela, ou aglomerado subnormal, na
terminologia empregada pelo IBGE, e outra variável que contabilizou o
percentual de população residente em favelas no entorno na escola.
Um dos problemas enfrentados para a construção da base de dados foi a
compatibilização dos questionários respondidos por alunos, professores e
diretores, já que em alguns casos existiam turmas ou escolas ausentes da base
de alunos e vice-versa. Além destas compatibilizações, foi necessário retirar
da base de dados as escolas com apenas uma turma, devido à decisão metodológica
de não incorporá-las nas análises. Este procedimento causou uma perda de apenas
13% das escolas em contraposição à perda de aproximadamente 80,9% se fosse
utilizado o critério apontado por Soares (2005).1
Assim, considerando os ajustes na base de dados original, ou seja, a
compatibilização dos questionários e a exclusão das escolas com somente uma
turma, a base final que foi utilizada nas análises contou com 48.238 alunos
dispostos em 1.642 turmas e 584 escolas.2
Outra questão importante sobre o banco de dados construído diz respeito à não
resposta, ou casos com valores faltantes (missings) nas variáveis explicativas,
o que pode ser particularmente sério em variáveis relevantes como a
escolaridade dos pais, para a qual o percentual destes casos chegou a
aproximadamente 30%.
Tendo em vista as características do banco de dados, pensou-se em desenvolver
duas opções de análise. A primeira seria realizar o estudo somente a partir dos
dados presentes, desconsiderando os casos que contêm um ou mais valores
faltantes. Na segunda análise, a não resposta seria imputada, para então
comparar os dois resultados. Porém, os casos que contêm pelo menos um valor
faltante representam mais de 50% do banco de dados, o que sugere que estes não
são aleatórios, ou seja, além de o poder de análise tornar-se menos robusto
pela alta redução dos casos, a análise restrita aos dados presentes teria
possivelmente um viés.
Assim, optou-se por trabalhar somente com a segunda forma de análise. Seguindo
os procedimentos adotados por Klein (2010), imputaram-se estes valores de modo
semelhante ao utilizado pelo autor, a partir de um método de alocação no qual
as respostas faltantes das variáveis explicativas do modelo assumiram as
categorias cujo valor da proficiência média fosse mais próximo da proficiência
do aluno na prova de matemática. O mesmo procedimento foi utilizado para
imputar características dos professores e dos diretores, nos níveis da turma e
da escola, respectivamente.
O intervalo de variação da proficiência em matemática dos alunos do 5º ano do
EF na Prova Brasil 2007, considerando-se as escolas municipais da cidade do Rio
de Janeiro, está definido entre aproximadamente 87 e 359 pontos, sendo que o
desempenho médio dos alunos do 5º ano foi de 193 pontos. A distribuição das
pontuações pode ser interpretada a partir da terceira meta do movimento Todos
Pela Educação (2011). Seu objetivo é ter, no ano de 2022, mais de 70% dos
alunos do 5º e 9º anos do ensino fundamental e do 3º ano do ensino médio, das
redes pública e privada, com "desempenhos superiores a respectivamente 200, 275
e 300 pontos na escala de Português do SAEB, e superiores a 225, 300 e 350
pontos na escala de matemática" (TODOS PELA EDUCAÇÃO, 2011).
Considerando assim o nível 225 satisfatório para a proficiência em matemática
para alunos 5º ano do EF, observa-se que os alunos possuem um nível médio de
proficiência 32 pontos abaixo da meta. Com base nas medidas de posição3,
verifica-se que 25% dos alunos (1º quartil) possuem pontuação inferior a 164,
sendo que 75% não chegam ao ponto de corte que define o nível satisfatório (3º
quartil é igual a 220,83).
Modelo hierárquico para análise dos condicionantes do desempenho escolar
A escolha por um modelo de três níveis hierárquicos se justifica, teoricamente,
pela inclusão de variáveis tanto das turmas quanto das escolas, bem como pela
avaliação de que a inclusão possa ser justificada estatisticamente. Neste
sentido, antes de iniciar o ajuste do modelo contendo as variáveis
explicativas, foram testadas diferentes configurações para os níveis
analíticos, conjugando alunos, turmas e escolas com o propósito de analisar a
contribuição dos diferentes níveis hierárquicos dos modelos. Para tanto,
ajustaram-se inicialmente dois modelos de dois níveis e um de três níveis, a
saber: alunos e turmas; alunos e escolas; e alunos, turmas e escolas. A
partição da variabilidade de cada modelo, de acordo com os níveis, é
apresentada na Tabela_1.
Segundo a terminologia aplicada em Palermo (2011), o percentual de variância
explicada pela turma é denominado efeito-turma, enquanto o percentual explicado
pela escola é chamado de efeito-escola. Na comparação entre os modelos de dois
níveis, observa-se que, para as escolas municipais da rede pública carioca, o
efeito-turma (17,7%) é consideravelmente maior do que o efeito-escola (10,7%).
Esse resultado parece indicar, como já defenderam alguns autores (ALVES;
SOARES, 2007), que os fenômenos que ocorrem no âmbito das turmas seriam mais
incisivos no desempenho dos alunos.
No modelo de três níveis, por sua vez, a variabilidade do nível superior é
dividida em duas componentes, que, se somadas, resultam aproximadamente no
mesmo percentual de variância explicado somente pela turma, estimado pelo
primeiro modelo de dois níveis. Nesse sentido, a partição do terceiro nível
parece proporcionar maior precisão conceitual, uma vez que parte da
variabilidade atribuída à turma era, na verdade, produto das diferenças entre
as escolas. Por outro lado, utilizar um modelo que tem apenas a escola como
nível explicativo também não parece o procedimento metodológico mais
apropriado, pois os resultados mostram que, ao se desconsiderarem as diferenças
entre as turmas, boa parte da variabilidade que poderia ser explicada nos
níveis superiores se perde.
Considerando que o modelo de dois níveis, com alunos e turmas, e o de três
níveis, com alunos, turmas e escolas, possuem resultados praticamente iguais em
termos de percentual da variância explicada pelos níveis superiores, poder-se-
ia questionar se o modelo de dois níveis, o mais simples, é significativamente
melhor do que o modelo mais complexo. Para testar esta significância
estatística entre ambos os modelos, foi realizado o teste da razão de
verossimilhanças, cujos resultados apontam para a significância do modelo com
três níveis em relação àquele com dois níveis, reforçando assim a necessidade
da utilização do terceiro nível de análise.
Com isso, partindo do modelo nulo, é possível iniciar a modelagem dos
condicionantes do desempenho escolar. O modelo hierárquico com intercepto
aleatório, considerando alunos, turmas e escolas, pode ser generalizado a
partir das equações 1 e 2 (BRYK; RAUDENBUSH, 1992).
Onde:
f=, 1,..., F variáveis do nível 1;
s = 1, ..., S variáveis do nível 2;
t = 0, 1, ..., T variáveis do nível 3;
i = 1, ..., Ijk alunos na j-ésima turma da k-ésimaescola;
Yijk: desempenho escolar do aluno i que estuda na turma jda escola k;
β0: média geral do desempenho escolar, considerando os alunos de todas as
escolas;
β0jk: intercepto da turma jda escola k;
Xfijk: variáveis associadas às características individuais dos alunos;
Wsjk: variáveis associadas às características das turmas;
Ztk: variáveis associadas às características das escolas;
βf,γs,πt: efeitos das variáveis dos alunos, turmas e escolas, respectivamente;
eijk, ujk,υk: efeitos aleatórios dos níveis 1, 2 e 3, respectivamente;
eijk ~ N(0,σe2), ujk ~ N(0,σu2),υ~ N(0,συ2).
Com base na revisão bibliográfica foi elaborado um quadro conceitual (Quadro
1), utilizado como referência para orientar a busca por variáveis explicativas
e para interpretar os resultados dos modelos ajustados. Os principais estudos
que serviram de base para o desenho do quadro foram: Alves (2006, 2009); Alves
e Soares (2007); Andrade e Soares (2008); Bourdieu (1999); César e Soares
(2001); Ferrão e Fernandes (2001, 2003); Franco et al. (2003); Klein (2006,
2010); Mambrini et al.(1999); Reynolds e Teddli (2000); Ribeiro e Koslinski
(2010); Soares (2004, 2007, 2009); Soares (2005); Willms (1992).
O quadro tem como base os três níveis explicativos que foram empregados na
modelagem hierárquica: perfil dos alunos; características das salas de aula; e
características dos estabelecimentos de ensino. Os níveis foram divididos em
constructos que representam os atores, práticas e processos capazes de afetar o
desempenho.
Com isso, tomando como base o quadro conceitual, foi realizada uma primeira
avaliação das perguntas e informações existentes nos questionários
socioeconômicos e contextuais da Prova Brasil 2007, bem como dos dados
disponíveis no Censo Escolar 2007 e no Censo Demográfico 2000. Nessa triagem
inicial, na qual foram selecionadas as variáveis que seriam testadas e
verificados os indicadores que poderiam ser construídos, consideram-se como
critérios a relevância teórica da variável para cada um dos constructos, as
variáveis que já tivessem sido utilizadas em outros estudos e a covariação
univariada com a proficiência dos alunos.
A partir daí, as variáveis escolhidas e os indicadores criados foram
organizados e classificados segundo o seu nível, o constructo e os
subconstructos em que se enquadravam, sua fonte, o formato de registro da
variável e o sentido esperado da relação com a variável dependente. No total,
foram testadas 188 variáveis, 17 sobre o perfil dos alunos, 70 para o nível da
turma e 101 referentes às características das escolas.
Condicionantes do desempenho escolar: análise dos resultados da modelagem
estatística
Para analisar os efeitos dos diferentes níveis, constructos e variáveis no
desempenho de matemática, foram utilizados modelos de regressão hierárquica com
três níveis, já que a incorporação dos níveis da turma e da escola, além de
trazer vantagens conceituais, permite testar simultaneamente variáveis destes
dois níveis superiores, sem contar que possui vantagens estatísticas evidentes.
A partir daí, coloca-se a questão da construção dos modelos em termos dos
critérios de inclusão e seleção das variáveis que irão compor o modelo, e ainda
das estatísticas que serão empregadas para testar as significâncias destas
variáveis.
O processo de modelagem partiu do modelo nulo, ao qual as variáveis
explicativas potencialmente capazes de afetar o desempenho foram
sistematicamente adicionadas. A inclusão de variáveis no modelo nulo seguiu
alguns critérios: o nível explicativo da variável; o constructo e o
subconstructo da variável; e a força da associação com o desempenho mensurada
separadamente para cada variável.
Dessa forma, iniciou-se a construção do modelo com a inclusão de variáveis dos
alunos e, em seguida, das turmas e das escolas. Após esse primeiro critério,
foi utilizado o quadro conceitual para orientar a ordem em que os blocos de
variáveis seriam incorporados. De modo geral, os blocos referentes aos
constructos que representam fenômenos mais gerais e mais amplos foram os
primeiros a serem selecionados, considerando-se posteriormente a inclusão de
variáveis dos constructos mais específicos e peculiares das unidades dos níveis
de análise. Assim, para o nível dos alunos, por exemplo, iniciou-se pelos
constructos que representavam aspectos familiares, para só depois incluir as
características pessoais do aluno. Por fim, para cada constructo, a análise foi
iniciada a partir da variável com maior associação com o desempenho. A Tabela_2
traz os resultados do modelo final ajustado4. A descrição das variáveis
significativas incluídas neste modelo encontra-se no Apêndice.
Em relação ao primeiro nível, é importante notar que o indicador de NSE, assim
como as demais variáveis numéricas no nível do aluno, está centrado na média da
turma. Isto significa que seu coeficiente deve ser interpretado em termos do
impacto na nota do aluno, que possui o incremento ou a redução de uma unidade
de seu NSE em relação ao nível socioeconômico médio da turma.
Assim, o coeficiente estimado de 0,1 aponta uma relação diretamente
proporcional entre o NSE5 e o desempenho do aluno, na qual, controlados os
efeitos das outras variáveis presentes no modelo, se o NSE do aluno é maior do
que a média da turma em uma unidade, sua proficiência aumentaria em
aproximadamente um décimo. A título de ilustração, considerando o intervalo de
variação do indicador de NSE (que varia de -21,7 até 29,5), o maior efeito
deste indicador para um aluno seria 2,9 pontos de proficiência e o menor efeito
seria uma redução de 2,2 pontos, ou seja, uma diferença líquida de 5,1 pontos
de proficiência.
As outras variáveis do constructo capital socioeconômico parecem ter maior
impacto do que o indicador de NSE. O indicador de densidade domiciliar
apresentou um coeficiente negativo, que indica uma relação inversamente
proporcional com o desempenho, seguindo os resultados achados por Alves (2006),
apesar de a autora ter trabalhado com o total de crianças na residência. Assim,
a diferença entre o aluno que possui o valor mínimo e aquele que possui o valor
máximo para este indicador chega a aproximadamente 7 pontos de proficiência. Já
a variável que representa o trabalho infantil registrou o maior efeito do
constructo, na medida em que os alunos que trabalham fora de casa perdem em
média 8 pontos de proficiência em relação aos que não trabalham, corroborando
com achados de Machado et al. (2008) e Gonçalves et al. (2010).
No que tange ao capital cultural familiar,6 a análise dos coeficientes foi
iniciada a partir da variável escolaridade máxima dos pais, mensurada como uma
variável indicadora, apontando os pais ou responsáveis pelo aluno que
completaram o ensino médio, mas não o ensino superior. O coeficiente de 24,7
confirmou a importância atribuída a essa variável em outros estudos, como em
Sores (2005) e Alves e Soares (2009), porém, para estes, a categoria com maior
influência foi o ensino superior. O efeito mais elevado desta variável, em
relação àquele obtido ao se considerarem também os pais com ensino superior,
constitui um resultado intrigante não explicado pela teoria.
Ainda no que se refere ao capital cultural, os dois indicadores sintéticos
utilizados foram positivos, indicando que quanto maior o capital cultural da
família maior será o desempenho do aluno, de acordo com os achados em Soares
(2005), Gonçalves et al. (2010), Machado et al. (2008) e Couri (2008), apesar
de calculados de modo diferente em relação aos outros estudos. O coeficiente
estimado para o capital cultural incorporado (NCCI)7 foi de 2,7, indicando uma
diferença de até 28 pontos entre alunos nos dois extremos da distribuição da
proficiência. Os incrementos em termos de capital cultural objetivado (NCCO)8
são mais modestos, de modo que a variação nos níveis de NCCO do aluno pode
chegar a 5,2 pontos, considerando-se o pior e o melhor cenários.
A última variável do constructo capital cultural mensura o tempo gasto com
televisão, medido em horas. A variável possui um termo linear e um termo
quadrático que modelam uma relação na qual a proficiência cresce em um primeiro
momento, chegando a um efeito máximo de acréscimo sobre a proficiência, a
partir do qual a relação se inverte e o tempo que o aluno gasta com a TV passa
a atrapalhar seu desempenho escolar, reduzindo sua proficiência. Assim,
controlados todos os efeitos das demais variáveis, o impacto da TV seria
benéfico até aproximadamente uma hora de diferença em relação à média da turma.
É importante notar que a literatura, como em Couri (2008) e Mambrini et al.
(1999), considera a influência da televisão no desempenho dos alunos, porém,
sem estudar o efeito quadrático desta variável.
Maiores níveis de capital social familiar9 também estão associados a maiores
notas, resultado também observado por Klein (2010) e Couri (2008). Assim, cada
incremento de uma unidade no indicador de capital social (NCS) em relação à
média calculada para a turma se traduz em um aumento na proficiência de 0,8.
Esta variável mensura um tipo bastante específico de capital social, que é
aquele relacionado ao interesse dos pais na educação dos filhos e à supervisão
que estes exercem na vida escolar do aluno, por meio de incentivos, presença na
escola e conversas com os filhos sobre o cotidiano escolar.
Com o constructo estrutura e arranjos familiares, seria possível esperar que
ambos os pais poderiam intervir na vida escolar da criança, ou existiriam pelo
menos maiores possibilidades de que um dos pais se preocupasse diretamente com
a educação, como mostra Alves (2006). Nesse sentido, a última variável que
trata do papel da família na vida escolar procura representar o arranjo
familiar com o qual o aluno convive, indicando se ele vive com os dois
responsáveis, mesmo que não sejam pais biológicos. Esta variável apresentou um
peso relativamente pequeno, uma vez que os alunos com a presença de ambos os
responsáveis em casa apresentaram, em média, um incremento de apenas 1,2 ponto
em suas notas, controlando pelas outras variáveis presentes no modelo.
No que se refere aos aspectos pessoais dos alunos que afetam seu desempenho,
uma primeira dimensão relevante foi a sua trajetória escolar. Dessa forma, se o
aluno já possuía um histórico de repetência, com mais de uma reprovação ou
muitos abandonos, por exemplo, sua proficiência, como de fato era esperado, em
termos de resultados a serem preditos, é menor, da mesma forma que observam os
estudos de Albernaz et al.(2002), Franco et al. (2007), Machado et al. (2008) e
Ribeiro e Koslinski (2010). Cada reprovação ou abandono adicional do aluno em
relação à média da turma representa uma redução de 3,7 pontos de proficiência.
O diferencial em um cenário que compare o aluno com máximo observado em termos
de repetência e um aluno que nunca foi reprovado, ou abandonou os estudos,
chega a 22 pontos de proficiência.
As outras duas variáveis de trajetória escolar dizem respeito a dois eventos
específicos. A primeira indica se o aluno estudou em uma escola particular
antes de ingressar na rede pública de ensino, o que aumentaria sua
proficiência, em média, 4,3 pontos. A segunda variável indica se o aluno cursou
a pré-escola, o jardim de infância ou mesmo o maternal. Os alunos que ingressam
mais cedo na escola têm, em média, uma proficiência superior em 6 pontos, de
acordo com os achados em Soares (2005), Gonçalves et al. (2010) e Klein (2006,
2010).
Construiu-se apenas um indicador para medir as atitudes e o compromisso dos
alunos com os estudos e com a escola. Este constituiu um indicador sintético
construído a partir dos relatos dos alunos sobre a frequência com que faziam os
deveres de matemática e português. Os resultados do modelo apontaram que um
maior compromisso implicava notas mais altas, em consonância com os modelos
teóricos de Andrade e Soares (2008) e Franco et al. (2003). Assim, o aumento de
uma unidade em relação à média da turma leva a um incremento na nota de 2,2
pontos, em média. No limite, a diferença entre um aluno que nunca faz os
exercícios e um que sempre cumpre suas tarefas pode chegar a 21 pontos de
proficiência.
No que diz respeito às características sociodemográficas do aluno, observam-se
variações na proficiência segundo sexo, cor e idade do aluno. Na variável sexo,
os meninos formaram a categoria de referência, de modo que o coeficiente
estimado mostra que os meninos possuem, em média, uma proficiência superior à
das meninas em 5,7 pontos, em consonância com os estudos de Mambrini et al.
(1999), César e Soares (2001), Albernaz et al. (2002), Franco et al. (2007),
Klein (2010) e Ribeiro e Koslinski (2010). No modelo final, a cor do aluno
conta com apenas duas categorias (pretos e não pretos10). Os alunos que se
declararam pretos têm em média 6,8 pontos a menos na proficiência, diferença
também apontada por Andrade e Soares (2008b). Considerando-se que o modelo
controla os efeitos de outras variáveis e que no modelo existem variáveis
diversas que mensuram condições tanto materiais quanto culturais das famílias,
é possível afirmar que esta categoria possui importância a despeito do nível
social e econômico dos alunos.
A idade do aluno, calculada em anos completos e ajustada para 30 junho,11 foi
incluída no modelo com um termo linear e outro quadrático, coeficientes
igualmente estimados por Klein (2010). Estes dois coeficientes modelam uma
relação na qual a proficiência dos alunos é maior quando sua idade está próxima
à média da turma. Grandes defasagens em relação à turma na qual o aluno estuda,
em termos tanto de atraso quanto de adiantamento, diminuem o desempenho. Os
alunos atrasados possuem piores resultados para um mesmo intervalo de variação.
Dos resultados do nível da turma, pode-se inferir que, de modo geral, turmas
cujo alunado possui maior capital (socioeconômico e cultural), em relação à
média da escola, possuem melhores resultados em termos de desempenho. Dessa
forma, o incremento de uma unidade na média da densidade domiciliar dos alunos
de uma turma, por exemplo, em relação à média desta mesma variável calculada
para sua escola, significa, em média, uma redução de 9,1 pontos na proficiência
dos alunos desta turma. Na prática, considerando o intervalo de variação desta
variável (de -0,3 a 0,4), este coeficiente se traduz em uma diferença máxima de
6,3 pontos de proficiência entre alunos de turmas com a melhor e a pior
situação, como pode ser visto na Tabela_3. O mesmo exercício pode ser realizado
para as demais variáveis.
Estes coeficientes de composição do alunado da turma, por serem centrados na
média da escola, referem-se à diferenciação entre as turmas dentro de uma mesma
escola, podendo, nesse sentido, evidenciar políticas de composição de turmas,
segundo critérios de proficiência ou idade dos alunos. Essa relação parece
bastante clara quando nos referimos às variáveis de trajetória escolar, como a
repetência, por exemplo, mas o mesmo raciocínio pode ser aplicado às variáveis
que representam os capitais.
Assim, as políticas de atribuição de alunos às turmas, ao dividir os alunos
pelo seu desempenho, os dividiriam também em termos de seu capital cultural e
socioeconômico, devido à correlação de todos estes elementos. Tais políticas
podem induzir desigualdades no âmbito da escola, como mostram Costa e Koslinski
(2008). Os efeitos de pares, decorrentes da composição diferenciada, podem
ainda produzir efeitos positivos de interação para as turmas "boas" e negativos
para as turmas "ruins", aumentando ainda mais as desigualdades iniciais entre
as turmas. Por outro lado, Rodrigues et al. (2011) discutem que a composição
heterogênea das turmas pode provocar a queda de rendimento dos alunos com
melhor desempenho.
Em relação ao impacto das percepções do professor sobre o desempenho, traduzido
pelo constructo expectativas e percepções do professor, somente foi
significativa a variável sobre as percepções que atribuíam aos alunos as
dificuldades de aprendizado.12 Os outros indicadores deste constructo, que não
foram significativos no modelo, procuravam representar o modo como as
percepções e avaliações subjetivas do professor a respeito de diversos atores e
situações de seu convívio escolar se convertem em efeitos positivos ou
negativos para seus alunos.
Ainda fazem parte das características do professor as variáveis que indicam
suas experiências concretas com violência e outros atos ilícitos em sala de
aula. Este constructo é composto por diferentes tipos de agressões e faltas
disciplinares mais ou menos graves, que vão desde agressões verbais, pequenos
furtos, depredações e presença de bebidas alcoólicas na sala de aula, até
eventos mais graves, como agressões físicas e atentados à vida do professor,
roubos e armas de fogo nas aulas. O mesmo procedimento metodológico adotado na
definição dos indicadores de percepção das dificuldades de aprendizagem foi
utilizado para definir que variáveis seriam agregadas para a produção de
indicadores, conjugando uma interpretação inicial sobre a proximidade das
variáveis com a utilização de análise fatorial como técnica exploratória. Os
indicadores foram gerados a partir de somas simples de variáveis que indicavam
se o professor havia ou não sofrido violência ou presenciado atos ilícitos em
sala de aula.
As únicas variáveis significativas foram o indicador de agressões verbais e uma
variável indicadora para a presença de armas brancas em sala de aula. O
acréscimo de uma unidade no indicador de agressões verbais em relação aos
valores médios da escola leva a uma redução de 1,5 ponto na proficiência dos
alunos desta turma. Comparando o pior e o melhor cenários, há uma diferença
máxima de 3,3 pontos de proficiência. Nas turmas em que o professor relatou ter
presenciado alunos frequentando as aulas portando armas brancas (facas e
canivetes, por exemplo), há uma redução média da pontuação dos alunos de 2,8.
O último constructo do nível da turma é aquele referente ao estilo do professor
e às suas práticas pedagógicas em sala de aula. Neste constructo encontravam-se
variáveis sobre prática de elogios e estímulos do professor aos alunos, estilos
pedagógicos de ensinar matemática (voltados para automatização e execução de
cálculos, ou para raciocínio interpretativo), uso do livro didático, nível de
cobertura do conteúdo da disciplina previsto para o ano e prática de correção
de trabalhos em sala de aula. Apenas as últimas duas práticas foram
estatisticamente significativas.
Assim, os resultados para o segundo nível estão de acordo com o estudo
apresentado por Ferrão e Fernandes (2001), que discute o impacto das
instituições escolares sobre o desempenho dos alunos, o qual seria, em boa
parte, produto do que ocorre nas salas de aula. No mesmo sentido, Alves e
Soares (2007) e Reynolds e Teddlie (2000) têm reafirmado que os principais
processos escolares acontecem dentro da sala de aula, sendo caracterizados por
estas relações entre professores e alunos, indicando, sobretudo, o peso do
papel do professor. Os estudos de Cibele e Soares (2001) e Alves e Soares
(2007) apontam ainda que a influência mútua entre os alunos que compõem uma
turma também constitui um fator significativo para a obtenção de bons
resultados escolares.
Após estas considerações sobre os dois primeiros níveis, cabe analisar os
coeficientes do terceiro nível. As variáveis numéricas (percentuais e
indicadores sintéticos) deste nível foram centradas na grande média, ou média
global, e devem ser interpretadas em termos de diferenças médias da escola para
a média do conjunto de todos os alunos da base de dados estudada.
Entres os fatores exógenos, apenas a variável que representou o nível de
pobreza no território da escola foi significativa, apresentando uma relação
inversamente proporcional com o desempenho. Assim, controlando por outras
variáveis, o aumento em uma unidade nesta variável para determinada escola, em
relação à média geral dos alunos, implica uma redução de 10,7 pontos de
proficiência para os alunos desta escola. Porém, considerando o intervalo de
variação do indicador (de -0,41 a 0,44), o efeito da pobreza no território pode
variar de -4,7 a 4,4 pontos na proficiência média da escola.
É interessante notar que esta variável resistiu à inclusão das variáveis de
composição de nível socioeconômico, que poderiam ter maior influência por
representarem efeitos mais específicos, das famílias dos próprios alunos, e à
incorporação de outras variáveis com efeitos fortes e consistentes, como as de
composição de capital cultural, entre elas a escolaridade dos pais, e o
histórico médio de repetência dos alunos da escola. Desse modo, a pobreza no
território remete à noção de efeito-vizinhança, relacionada aos efeitos que os
contextos sociais e condições de vizinhança presentes em determinados bairros e
comunidades teriam sobre a vida das pessoas que habitam esses espaços, como é
discutido por Ribeiro e Koslinski (2010).
Além disso, dadas as dificuldades de se obter uma boa estimativa para o nível
socioeconômico dos alunos das escolas, a partir de variáveis que consideram os
bens de consumo presentes nos domicílios, a variável sobre a pobreza no
território da escola se mostrou uma alternativa promissora. Por fim, cabe ainda
ressaltar que estes efeitos do território foram significativos, apesar da
distância temporal entre as fontes (Censo Demográfico 2000 e Prova Brasil
2007), o que mostra uma grande estabilidade desta variável medida para os
setores censitários.
Entre as variáveis de composição estão os maiores efeitos no nível da escola. O
efeito de composição para a escolaridade dos pais, mensurado pelo percentual de
alunos cujos pais completaram o ensino médio (mas não o superior), foi a
variável com impacto mais relevante. O coeficiente expressivo de 42,05
atribuído à variação de uma unidade média da escola, em relação à média geral,
precisa ser relativizado, na medida em que o intervalo de variação desta
variável está entre -0,2 e 0,3. Assim, na comparação entre o pior e o melhor
cenários, esta variável possui impactos que vão de -8,5 até 13,7 pontos de
proficiência, o que resulta em uma diferença bastante elevada: 22 pontos,
aproximadamente.
O nível médio de capital cultural incorporado da escola foi a segunda variável
mais forte do terceiro nível, evidenciando a importância deste constructo para
a explicação do desempenho dos alunos. Esta variável possui um coeficiente
menor, mas um intervalo de coeficiente maior em comparação com a escolaridade
dos pais. Estes resultados se traduzem em uma diferença máxima entre os
cenários de 19,5 pontos. Completa o constructo dos efeitos de composição dos
alunos da escola uma variável de composição racial: o percentual de alunos que
se declararam pretos. O coeficiente de -20,56 se traduz, na prática, em uma
variação que vai de -4,9 a 4,1 pontos de proficiência, uma diferença de 9
pontos. É interessante notar que essa variável, ao contrário das outras duas
referentes à composição do alunado, não foi significativa no nível da turma,
apenas no da escola, o que talvez possa ser explicado pela ausência, neste
nível, de outras variáveis de composição de nível socioeconômico (como a
densidade domiciliar média e o percentual de alunos que trabalham fora) e de
trajetória educacional (como o histórico de repetência) presentes no nível da
turma. Nesse caso, esta variável de composição poderia estar, de certa forma,
compensando parte da variabilidade explicada por estas variáveis, mas não
explicada pela variável que mensura pobreza no território da escola. Pode ainda
ser explicada por diferenças entre os públicos das escolas que não seriam
refletidas entre as turmas. Assim, estes efeitos de composição poderiam ocorrer
a partir da seleção diferencial de alunos pelas escolas, não fazendo diferença
posteriormente, durante as práticas de atribuição de alunos às turmas. Se os
alunos que ingressam em determinada escola já são predominantemente pretos ou
brancos, por exemplo, as políticas de composição de turmas podem não fazer
diferença nesta dimensão.
Em relação à modelagem, as variáveis de composição das escolas deveriam ser
utilizadas para garantir estatisticamente a comparabilidade entre as escolas,
controlando a origem social diferenciada dos alunos. Repetições de uma mesma
variável em diferentes níveis, como apontam Reynolds e Teddlie (2000), poderiam
aumentar o poder explicativo dos modelos e possibilitar uma maior compreensão
das relações entre estes níveis.
No constructo características específicas das escolas, o número médio de alunos
nas turmas de 5º ano apresentou uma relação inversamente proporcional com o
desempenho do aluno, de modo que o acréscimo de uma unidade neste indicador, em
relação à média global, representa uma redução de aproximadamente 0,2 ponto de
proficiência. A outra variável significativa deste constructo foi o tempo na
escola medido em horas, que possui uma associação positiva com o desempenho. O
incremento de uma unidade neste indicador, em relação à média global, se traduz
em um ganho de proficiência de 0,8 ponto. Na comparação das diferenças entre os
cenários pior e melhor, a primeira variável obteve 5,6 pontos de diferença,
contra 4,5 pontos do tempo na escola.
Se a correção com regularidade dos deveres de casa pelo professor representa um
fator positivo para a turma, o fato de essa prática fazer parte da rotina
pedagógica da escola, sendo incentivada pelo diretor e entre os professores,
pode ser um indicador importante de um clima acadêmico com foco no aprendizado
e que produz melhores resultados educacionais. O coeficiente com sinal positivo
desta variável traz o percentual de alunos que afirmaram que seus professores
corrigem sempre os trabalhos, indicando que quanto mais recorrente e
generalizada é essa prática, maior é a proficiência média da escola. No limite,
em escolas onde esta prática é muito pouco usual, onde este indicador é mínimo,
apontando um ambiente escolar pautado por outras prioridades, como o bom
andamento de processos burocráticos, por exemplo, em que os professores se
envolvem fortemente com tarefas administrativas, os alunos teriam seu
desempenho reduzido, em média, em 9,6 pontos. Por outro lado, em escolas onde
este indicador é máximo e que possuem um clima escolar prioritariamente
acadêmico, os ganhos de proficiência dos alunos podem atingir, em média, 3,6
pontos. A diferença entre os dois cenários mais extremos é de 13 pontos de
proficiência.
No que tange às políticas de atribuição de professores às turmas ' assunto
discutido por Costa e Koslinski (2008) e Soares (2004, 2009) ', sendo outra
variável categórica, as opções e critérios possíveis eram muitos, incluindo
desde critérios baseados na preferência dos professores, passando por sorteio e
aqueles com base na manutenção ou revezamento de professores até, talvez os
mais interessantes em termos das práticas escolares, os critérios específicos
de alocação dos professores mais experientes.
Sobre estes últimos critérios, é identificada, no questionário do diretor, a
prática de alocar professores experientes em turmas de aprendizagem mais rápida
ou de aprendizagem mais lenta. As análises preliminares mostraram que apenas a
primeira destas duas categorias representava um resultado significativamente
diferente dos demais critérios, de modo que a variável original foi
recodificada como uma variável dicotômica, que contrapôs a prática de alocar
professores experientes em turmas de aprendizagem mais rápida aos outros
critérios, ou mesmo à falta de critérios estabelecidos. Como resultado no
modelo final, observou-se que, quando existe este critério, a proficiência dos
alunos aumenta, em média, 5,9 pontos em relação aos alunos das escolas em que
outros critérios são empregados.
A Tabela_4 mostra os coeficientes aleatórios estimados para o modelo final.
Como era esperado, as maiores diferenças em termos do percentual de
variabilidade explicada do modelo final em relação ao modelo nulo ocorreram no
segundo e terceiro níveis. O primeiro nível do modelo final somente explicou
22,7% das diferenças iniciais entre os alunos, indicando que é necessário
analisar outras variáveis sobre os aspectos pessoais e, principalmente,
familiares dos alunos, pois as relações familiares são um constructo de difícil
representação, por apresentar diferentes dinâmicas e, consequentemente,
influências nas características pessoais dos alunos.
Considerações finais
De acordo com o objetivo deste trabalho ' a identificação de fatores que
condicionam os desempenhos dos alunos do 5º ano do EF nas escolas municipais da
cidade do Rio de Janeiro ', foi possível realizar a modelagem de níveis
analíticos ainda pouco recorrentes nos estudos brasileiros, bem como de
constructos ainda pouco explorados. Por um lado, a incorporação da turma como
nível explicativo possibilitou testar características dos professores e das
dinâmicas experimentadas pelos alunos em sala de aula, a partir tanto da
relação com o próprio professor quanto de efeitos de grupo pela interação com
os pares. Por outro lado, a utilização de modelos de três níveis divide em dois
o que os autores comumente apontam como efeito-escola, permitindo vislumbrar o
peso diferenciado dos fenômenos que ocorrem nas turmas em relação às
características mais gerais da escola.
Procurou-se ainda utilizar variáveis que representassem o território em que as
escolas estavam inseridas, uma linha de pesquisa ainda relativamente recente no
campo e com alguns resultados promissores. Outro constructo que vale ser
mencionado refere-se àquele que buscou mostrar a influência de contextos
violentos, com incidência de agressões e eventos ilícitos, e ambientes
degradados, sujos e depredados, mensurados a partir dos relatos de professores
e diretores.
Observou-se que os fatores que mais incidem no desempenho escolar são
provenientes do background do aluno, sejam relativos a características
intrínsecas ou provindos de condições familiares. Porém, é possível afirmar que
a escola, mesmo que possua um poder explicativo limitado em relação ao aluno,
apresenta processos característicos que influenciam o desempenho e os demais
resultados escolares, direta ou indiretamente.
Uma das dimensões teoricamente relevantes para explicar esse desempenho diz
respeito às dinâmicas que ocorrem cotidianamente nas salas de aula, na gestão
da classe e do conteúdo e cobertura das disciplinas, assim como nas diferenças
das características dos alunos dentro das turmas e do ambiente da classe. Todos
esses elementos fazem com que diferentes resultados educacionais possam ser
encontrados para alunos com o mesmo background, mas sujeitos a diferentes
contextos escolares e das turmas.
Assim, escolas eficazes possibilitariam a transmissão de competências, valores
e hábitos aos estudantes, diminuindo as influências de seus contextos de origem
e as dificuldades impostas pela deficiência de background inicial (COSTA;
KOSLINSKI, 2008). Consequentemente, a escola aumentaria o capital cultural do
aluno, elevando probabilidades de acesso a oportunidades e trazendo benefícios
materiais e imateriais (BOURDIEU, 1999).
Finalmente, cabe ressaltar a necessidade de analisar as diferentes interações
entre as variáveis, sejam do mesmo nível ou não, intensificando assim a
descrição e análise das diferentes dimensões que representam o dia-a-dia dos
alunos e, principalmente, permitindo a identificação de variáveis que
interferem no aprendizado e, ao mesmo tempo, são passíveis de intervenção por
meio de políticas institucionais da própria escola ou de políticas públicas.