Tendências recentes da mobilidade espacial da população no Estado do Rio de
Janeiro
Introdução
Nas últimas décadas do século XX e início do XXI, estão sendo observadas
profundas alterações no comportamento do fenômeno migratório no Brasil,
destacando-se: inversão nas correntes principais nos Estados de Minas Gerais e
Rio de Janeiro; redução da atratividade migratória exercida pelo Estado de São
Paulo; aumento da retenção de população na região Nordeste; novos eixos de
deslocamentos populacionais em direção às cidades médias no interior do país;
aumento da importância e diversificação dos deslocamentos pendulares;
esgotamento e seletividade na expansão da fronteira agrícola; migração de
retorno para o Paraná; o fato de 14 das 27 Unidades da Federação
caracterizarem-se como espaços de rotatividade migratória, quando calculados os
respectivos Índices de Eficácia Migratória; e a incerteza sobre o comportamento
da mobilidade dos brasileiros na escala internacional, ressaltando-se a
importância das migrações de retorno.
Para tentar apreender essas transformações, focando-se especificamente o Estado
do Rio de Janeiro (ERJ), a hipótese subjacente à presente investigação está
vinculada à noção de que os processos de mobilidade e imobilidade da força de
trabalho são determinados de acordo com as características do padrão de
acumulação que vigoram numa determinada sociedade.
No entanto, para abordar as relações entre os fatores macroeconômicos e o
desenvolvimento dessa componente da dinâmica populacional, é importante situar
o modo como a Demografia, enquanto campo do conhecimento científico, é tratada
no escopo do presente artigo. Aqui, a Demografia é pensada de forma crítica,
sendo a população em estudo produto de relações sociais e de produção, e sua
composição e volume frutos de processos que se desenvolvem ao longo do tempo,
ou seja, a referida população deve necessariamente estar inscrita
historicamente, ao contrário do conceito de população, como se conhece nos dias
de hoje, em que o povo seria o agregado de todos os indivíduos, sendo a
categoria indivíduo (livre) a base do conceito moderno de população. Quer
dizer, tanto no pensamento liberal quanto no demográfico, a unidade anularia a
diversidade, o indivíduo é desprovido de suas roupagens sociais e históricas,
embora esse não faça outra coisa senão fundar a diferença, a distinção, a
diversidade e a alteridade que se escondem atrás dos números. Em suma, a
população, vista na ausência das relações sociais, não passaria de uma
abstração (CANALES, 2001).
O conceito de processo, a ser adotado, é aquele que aponta para a realidade em
movimento, na medida em que ela distingue modos de ser, aspectos, fases,
elementos, referenciados às diferentes ações sociais, econômicas e políticas em
que a população se organiza para produzir e reproduzir suas condições de
existência. Dessa forma, a população evoluiria segundo os meios de reprodução
que dispusesse. A expressão reproduzir guardaria duplo sentido: o produzir,
pelo indivíduo, sua existência pessoal, sua sobrevivência; e o produzir a
existência em geral, a da espécie, ou seja, reproduzir-se (PINTO, 1973).
Colocam-se como objetivos dessa pesquisa: mostrar que as mudanças no padrão de
acumulação, nessa etapa de desenvolvimento do capitalismo, têm impactos sobre
os deslocamentos populacionais; caracterizar como estrutural a crise econômica
no Estado do Rio de Janeiro e descrever as diversas etapas dos processos
migratórios; e relacionar as mudanças ocorridas no fenômeno migratório no
Estado do Rio de Janeiro às transformações gerais implantadas nesse modelo de
desenvolvimento, objetivando evidenciar, particularmente, o impacto dessas
mudanças nas estruturas ocupacionais e na distribuição espacial das atividades
econômicas.
O trabalho é dividido em três partes e considerações finais. Na primeira,
aborda-se o marco teórico e conceitual da discussão, procurando resgatar a
correlação entre migrações e etapas do desenvolvimento do capital, debater com
as mais diversas correntes de pensamento sobre o fenômeno migratório, baseando-
se nas abordagens recentes, além de apresentar a discussão sobre as
transformações do modelo fordista de acumulação do capital para o modelo
flexível.
A segunda parte é dedicada a mostrar que a crise econômica no Rio de Janeiro
teve um caráter estrutural, que data do início do século XX, refletindo no
comportamento dos deslocamentos populacionais até o registro de saldo
migratório negativo nos anos 1980, como também nas transformações na
distribuição espacial das atividades econômicas no Estado a partir dessa
década.
A parte final é voltada ao estudo da inserção nas categorias profissionais e da
precarização da força de trabalho migrante, utilizando-se o quesito de data
fixa,1 que descreverá os períodos de 1986-1991, 1995-2000 e a tendência para
2001-2006, para o Estado do Rio de Janeiro e sua Região Metropolitana.
A mobilidade populacional na esfera do capitalismo
Mesmo antes de o capitalismo se afirmar como modo de produção, os processos de
mobilidade espacial já respondiam aos efeitos daquela transição no modelo de
acumulação.
Marx (1973), ao tratar daquilo que denominou acumulação primitiva,2 apontava os
reflexos desse fenômeno nos deslocamentos populacionais. Esse processo foi
marcado pela expropriação da terra dos antigos lavradores, que se viram
obrigados a se submeterem às ordens dos novos "patrões" ou a se deslocarem para
tentar sua reprodução em outro lugar.
À medida que o camponês era substituído por pequenos colonos, com contratos
anuais, os bens de domínio público eram despojados e ocorria uma depredação
sistemática dos terrenos comunitários, fazendo com que se incrementassem as
grandes possessões, conhecidas, no século XVIII, como as grandes fazendas
capitalistas e fazendas de comerciantes. Esse processo deixou a população
campesina disponível como proletária a serviço da indústria (MARX, 1973).
Com a desapropriação dos camponeses e seu afastamento dos meios de reprodução,
avançou a destruição das indústrias rurais secundárias, possibilitando a
entrada de outra forma de produzir, marcada pelo processo de diferenciação
entre a indústria e a agricultura. Só a destruição da indústria doméstica rural
poderia dar ao mercado interior de um país as proporções e firmeza que
necessitava o regime capitalista de produção (MARX, 1973).
Nessa fase de transição entre os modos de produção, ao mesmo tempo em que a
mobilidade era produzida, as cidades não estavam preparadas para o afluxo de
pessoas, nem para a mudança nas formas de inserções ocupacionais. Diante dessa
situação, o Estado exercia seu papel, editando leis que impedissem a
imobilidade: todos os capacitados fisicamente deveriam trabalhar, nas mesmas
ocupações da situação anterior, ou naquelas em que seu senhor atual
determinasse (CASTEL, 1998). Essas medidas visavam atingir aos vagabundos,
desocupados e mendigos, vistos como imóveis. Estes deveriam se tornar móveis,
no sentido de buscar alguma ocupação. Por outro lado, aos "outros", já
inseridos, desejava-se que permanecessem onde estavam. Essas atitudes levavam
ao paradoxo de desejarem provocar, ao mesmo tempo, a mobilidade dos
"vagabundos" e a imobilidade dos que já estavam envolvidos em algum tipo de
processo produtivo.
Destacam-se, entre os elementos trazidos por Marx e Castel, duas dimensões que
se contrapõem ao pensamento liberal: o grau de liberdade na tomada de decisão
sobre migrar ou não migrar daquelas populações campesinas; e o relevado
destaque do papel do Estado no processo de transição de um modo de produção
para outro. Tratando esses elementos como fatos históricos, a abordagem
clássica, que apregoa a livre escolha individual no processo decisório sobre o
ato de migrar e a "mão invisível" do mercado como fator de equilíbrio,
apresentaria um problema já na sua origem.
Mais à frente, uma reflexão sobre a forma como se desenvolvem os deslocamentos
de população sob a égide do capitalismo sinaliza que a contradição entre
mobilidade e imobilidade permanece, pois é inerente a esse padrão de
acumulação.
[...] nem todas as movimentações de mão-de-obra são equivalentes. Só
interessam ao capital aquelas que asseguram a sua valorização, quer
correspondam a uma intensificação ou a uma produtivização acrescidas,
do trabalho, quer se dirijam para os espaços da polarização
capitalista próprios para os absorver. E é sem dúvida aí, na vontade
de apenas encorajar estas únicas movimentações, que reside o caráter
novo das estratégias contemporâneas da mobilidade. (GAUDEMAR, 1977,
p.19)
Isto significa que os movimentos populacionais que não se enquadrem nessa
lógica do capital seriam indesejáveis, com esse tipo de força de trabalho
devendo ficar imóvel.
A mobilização dos trabalhadores assume aspecto central porque a mobilidade da
força de trabalho seria a mercadoria que faz a distinção entre o trabalhador
livre e o escravo, cuja capacidade de trabalho é estável, sendo empregada de
forma tradicional e local. Essa distinção marcaria também as transformações nas
relações de produção, ou seja, a mudança de um modo de produção para outro
(GAUDEMAR, 1977).
A mobilidade da força de trabalho seria algo que estaria além das mobilidades
geo-gráficas ou migrações; trata-se também de movimentos entre setores de
atividades ou ocupações. O problema da melhor apreensão do fenômeno residiria
no fato de os pesquisadores darem ênfase ao dimensionamento dos deslocamentos
espaciais, ficando a ideia de mobilidade da força de trabalho esquecida ou em
segundo plano nos modelos explicativos (GAUDEMAR, 1977).
Esse modelo de intensa mobilização de força de trabalho, fundado em três
grandes condições históricas,3 se esgota quando o padrão de acumulação fordista
entra em crise e, segundo a hipótese adotada neste artigo, assume nova forma no
modelo de acumulação flexível, com todos os seus reflexos na regulação da
economia, relações de trabalho e política.
Para tratar dos movimentos de população no pós-fordismo, se faz necessário
contextualizar previamente que passagem é essa, de um estágio do processo de
acumulação do capital para outro, de modo a deixar transparecer elementos
teóricos que sustentarão a hipótese aqui defendida.
Na ótica de Harvey (1992), teria ocorrido uma mudança abissal nas práticas
políticas, econômicas, sociais, culturais, etc. que poderiam tratar da
transição da modernidade para a pós-modernidade, em que estariam sendo
verificados a emergência de modos flexíveis de acumulação do capital e um novo
ciclo "compressão do tempo-espaço" na organização do capitalismo. Assim, essas
mudanças mais seriam transformações de aparência superficial do que sinais de
surgimento de alguma sociedade pós-capitalista ou mesmo pós-industrial
inteiramente nova.
O que havia de especial no fordismo era a visão de que produção em massa
significava consumo em massa, um novo sistema de reprodução da força de
trabalho, uma nova política de controle e gerência do trabalho. Os movimentos
populacionais, associados a essa etapa de desenvolvimento do capital, aparecem
pela necessidade de produção e consumo em massa, bem como da rotatividade da
força de trabalho, aspectos intrínsecos ao regime fordista, que geravam a
migração e mobilizavam um exército industrial de reserva.
Todavia, esse modelo de acumulação começou a dar sinais de enfraquecimento nos
anos 1960: a queda de produtividade e de lucratividade deu origem a um problema
fiscal nos EUA, sanado com aceleração da inflação, solapando o papel do dólar
no cenário internacional. Nessa mesma época, os países em desenvolvimento
iniciaram um movimento de ingresso tardio ao fordismo, com políticas de
substituição de importações, ao mesmo tempo em que as multinacionais se
dirigiram para o estrangeiro, gerando uma onda de industrialização fordista em
ambientes inteiramente novos. "O período de 1965/73 tornou cada vez mais
evidente a incapacidade do fordismo e do keynesianismo conter as contradições
inerentes ao capitalismo" (HARVEY, 1992, p. 135).
A forte crise econômica associada à capacidade ociosa das corporações obrigou o
ingresso num período de racionalização, reestruturação e intensificação do
controle do trabalho, dando origem a inovações tecnológicas, automação, novas
linhas de produto, dispersão geográfica para zonas de controle mais fácil e
fusões. Dessa forma, medidas para acelerar o giro de capital passaram ao
primeiro plano, de modo a garantir a sobrevivência num quadro de profunda
deflação.
O modelo de produção fordista seria substituído então por um padrão de
acumulação flexível, que é marcado:
[...] por um confronto direto com a rigidez do fordismo. Ela se apóia
na flexibilidade dos processos de trabalho, dos mercados de trabalho,
dos produtos e padrões de consumo. Caracterizam-se pelo surgimento de
setores de produção inteiramente novos, novas maneiras de
fornecimento de serviços financeiros, novos mercados e, sobretudo,
taxas altamente intensificadas de inovação comercial, tecnológica e
organizacional. A acumulação flexível envolve rápidas mudanças dos
padrões de desenvolvimento desigual, tanto em setores quanto em
regiões geográficas, criando, por exemplo, um vasto movimento no
emprego no chamado "setor de serviços", bem como conjuntos
industriais completamente novos em regiões até então subdesenvolvidas
[...] Ela também envolve um novo movimento que chamarei de
"compressão do espaço-tempo"[...] os horizontes da tomada de decisão
privada e pública se estreitaram, enquanto a comunicação via satélite
e a queda dos custos de transporte possibilitaram cada vez mais a
difusão imediata dessas decisões num espaço cada vez mais amplo e
variado.(HARVEY, 1992, p. 140)
O mercado de trabalho passou por radical reestruturação. Em face da
volatilidade de mercado, do aumento da competitividade e do estreitamento das
margens de lucros, os patrões tiraram proveito do enfraquecimento do poder
sindical e da grande quantidade de mão de obra excedente para impor regimes de
trabalho mais flexíveis, reduzindo o emprego regular em favor do crescente uso
do trabalho em tempo parcial, temporário ou subcontratado.
As economias de escala, buscadas na produção fordista de massa, foram
substituídas por uma crescente capacidade de manufatura e uma variedade de bens
e preços baixos em pequenos lotes. As economias de escopo derrotaram as
economias de escala. A estética relativamente estável do modernismo fordista
cedeu lugar a todo fermento, instabilidade e qualidades fugidias de uma
estética pós-moderna que celebra a diferença, a efemeridade, o espetáculo, a
moda e a mercadificação de formas culturais.
Toda essa transformação, que mantém a essência do domínio do capital, tem
impacto sobre a força de trabalho, em particular pela flexibilização e
precarização. Esses fatores em conjunto gerariam estratégias diferentes quando
os indivíduos buscam garantir sua reprodução, incluindo, nesse escopo, as
estratégias de mobilidade espacial.
Autores como Lipietz e Leborgne (1988) chamaram atenção para a supervalorização
do papel das novas tecnologias na geografia humana e econômica. No caso das
migrações internas no Brasil, deve-se ter alguma cautela ao associar a
reestruturação produtiva como principal fator determinante das transformações
observadas nos deslocamentos populacionais. Para os autores, não é a tecnologia
nem as relações profissionais que modelariam diretamente o espaço, mas sim o
modelo de desenvolvimento vigente. Assim, não seria possível, com base nesse
entendimento, deduzir o modelo de desenvolvimento das novas tecnologias.
Ainda relativizando o papel das novas tecnologias, os autores consideram que
todo modelo de desenvolvimento, mesmo aqueles em crise, como o fordismo, deve
se apresentar como a conjunção de três aspectos compatíveis: uma forma de
organização do trabalho - paradigma industrial; uma estrutura macroeconômica -
padrão de acumulação; e um conjunto de normas implícitas e de regras
institucionais - modo de regulação. Esses três aspectos deveriam estar
associados a uma configuração internacional plausível. As novas tecnologias
teriam um papel a desempenhar, mas não seriam o elemento determinante do novo
modelo de desenvolvimento.
A era fordista caracterizava-se por possuir convenções coletivas, de caráter
compulsório, que tornavam o contrato salarial relativamente mais rígido,
colocando limites à liberdade de demitir trabalhadores, relação completamente
distinta daquela observada nos dias de hoje, em que a desregulamentação dos
contratos busca justamente a flexibilização.
Enfim, as transformações no paradigma industrial não foram suficientes para
determinar os próximos modelos de acumulação e regulação. A flexibilização no
contrato de trabalho, em que o empregador pode contratar e demitir, a seu
critério, foi um ataque definitivo ao "excesso de rigidez" do contrato de
trabalho fordista, abrindo, deste modo, o caminho para um novo padrão de
acumulação (LIPIETZ; LEBORGNE, 1988).
Essa maneira de abordar o processo de transição de um modelo para outro aciona,
em realidade, a dimensão do poder. Um poder hegemônico nas relações sociais
exercido pela classe dominante, tendo o Estado como ente regulador dessas
relações, que são essencialmente capitalistas. Em outras palavras, a regulação
se dá em função da necessidade de garantir a acumulação do capital em condições
mais favoráveis, naquele momento da história, em particular, viabilizando a
superação da crise na qual se encontrava o modo de produção.
Segundo Benko (1996), a passagem do trabalho com certas "garantias" e status
para algo mais transitório e menos cidadão, sem dúvida, haveria de impactar as
estratégias de venda de força de trabalho, em particular aquelas associadas à
mobilidade espacial, sobretudo, ao se observar a flexibilidade da mão de obra,
por meio de reciclagem de pessoal, redefinição de tarefas e redesdobramento dos
trabalhadores. A outra forma de flexibilidade estaria associada à mobilidade do
emprego ou ao custo da mão de obra. A mobilidade dos trabalhadores seria
empregada na mudança entre empresas, profissões e regiões.
A abordagem de Benko (1996) parece bem instigante. A apresentação da relação
capital-trabalho, em suas novas formas de dominação, a convivência de modelos
de acumulação distintos, a inserção das atividades produtivas no espaço e o
papel daquilo que o autor tratou como globalização/mundialização passam a
dimensão de como esses processos poderiam estar afetando a mobilidade espacial
da força de trabalho.
Ainda na linha da relação capital-trabalho no novo padrão de acumulação, o
surgimento dos métodos de produção enxuta seguiu de mãos dadas com as práticas
empresariais reinantes de subcontratação, terceirização, estabelecimento de
negócios no exterior, consultoria, redução do quadro funcional e produção sob
encomenda. A mobilidade da força de trabalho refere-se a trabalhadores tanto
não-qualificados como qualificados. Esse processo de transição histórica para
uma sociedade informacional e uma economia global caracterizou-se pela
deterioração generalizada das condições de trabalho e de vida para os
trabalhadores. A nova vulnerabilidade da mão de obra sob condições de
flexibilidade imoderada afetou não apenas a força de trabalho não-qualificada,
mas também os qualificados, devido ao encurtamento do período de vida
profissional (CASTELLS, 1999).
Pode-se considerar a bipolaridade da força de trabalho na atual etapa do
desenvolvimento econômico, que demanda trabalhadores altamente especializados e
semiqualificados e a estratégia do capital, global e regional, de buscar
espaços onde a mão de obra seja mais barata e não haja restrições ambientais.
Neste caso, poder-se-ia inferir que, se adicionarmos a inserção ocupacional da
mão de obra e a articulação entre espaços às dimensões do poder, inovação
tecnológica, território e relações de trabalho, esse conjunto de fatores
estaria diretamente associado às formas como se comportam as migrações na
contemporaneidade, sejam as de caráter interno ou internacional.
No estágio atual de desenvolvimento capitalista, seu processo de acumulação
estaria degradando o trabalhador como ser político, como sujeito da história,
porque perde o poder de reivindicação. A grande perda da classe trabalhadora no
mundo inteiro é a perda ou atenuação de direitos conquistados em mais de 100
anos de luta social. Ainda hoje, compram-se e vendem-se trabalhadores. Quando
se trata da mobilidade, subjacente à palavra migração existe uma preocupação
maior com o problema social associado a ela. Nem todos os migrantes constituem
"um problema social", mas nas migrações está envolvido, sem dúvida, um problema
social, que reside na dificuldade de inclusão do migrante, na forma patológica
de sua inclusão (MARTINS, 2003).
Ou seja, no atual modelo, recrudesceram-se as relações de poder/dominação, além
do agravamento do problema social associado à exclusão. Estaria sendo gerado um
novo tipo de desigualdade: entre os plenamente incluídos e aqueles cuja
inclusão se situa à margem dessa mesma sociedade, aqueles que se defrontam de
fato com coisas, espaços e situações que lhes são vedados nas próprias relações
cotidianas. A sociedade capitalista atual estaria recriando uma estrutura
social baseada em princípios estamentais (MARTINS, 2003). Mesmo de forma
subalterna, alguns conseguem se inserir como produtores/consumidores de
mercadorias, ao passo que a outros nem isso é permitido, aspectos que estariam
correlacionados aos processos de mobilidade e imobilidade da população.
Até há bem pouco tempo, o modelo socioeconômico dominante levava a movimentos
espaciais fundados na ideia de fixação de residência, ou seja, os deslocamentos
eram considerados definitivos nos locais de destino (DOEMENACH; PICOUET, 1990).
O modelo regulatório das relações de trabalho baseava-se em níveis de
estabilidade maior. Não se pode perder de vista o ideal fordista de "se fazer
carreira dentro da empresa", de o empregado poder consumir a mercadoria que
produzia na fábrica e ainda, num tempo mais remoto, as vilas operárias. Ao se
alterar a forma de regulação, quebra-se o sentido de permanência, sendo que
parcela importante dos deslocamentos populacionais passa a assumir outras
características.
Essa "nova etapa" do desenvolvimento humano também é percebida na figura de uma
metáfora que contrapõe as formas sólidas às líquidas, em que as primeiras
estariam associadas ao paradigma anterior, à modernidade e, analogamente, à
rigidez do fordismo, enquanto as formas líquidas vincular-se-iam ao paradigma
emergente, à pós-modernidade e à flexibilidade. O fluxo seria produto da
pressão deformante, que, por ser contínua e irrecuperável, muda de uma posição
para outra, ao passo que os sólidos não sofrem o fluxo e podem voltar à forma
original. Essa seria a metáfora do estágio presente da modernidade. Os
líquidos, ao contrário dos sólidos, por não manterem sua forma com facilidade,
não fixariam o espaço e nem prenderiam o tempo. Os sólidos, por sua forma mais
rígida, teriam dimensões espaciais mais claras, mas, ao neutralizarem o
impacto, diminuiriam o significado do tempo. Já para os líquidos, por não se
aterem à forma, o tempo contaria mais do que o espaço. "O espaço seria ocupado
só por um momento" (BAUMAN, 1999).
Por fim, Harvey (1992) aponta como pista para melhor compreensão do fenômeno: a
inserção ocupacional dos migrantes vis-à-vis a distribuição espacial das
atividades econômicas seria elemento de fundamental importância.
Cabe ressaltar que, nesse processo de transição, as tecnologias e formas
organizacionais flexíveis não se tornaram hegemônicas em toda a parte, o que
também não ocorreu preteritamente com a passagem da manufatura para o modelo
fordista.
Tendo por base as abordagens discutidas anteriormente, chegou-se aos
fundamentos que norteiam a argumentação: o entendimento de que,
majoritariamente, os deslocamentos de população correspondem à mobilidade da
força de trabalho, na sua capacidade de se colocar como um movimento em busca
de comprador, visando assegurar sua reprodução; e percebendo que se trata de
relações sociais sob domínio do capital, sendo necessário, portanto, entender o
padrão de acumulação vigente. Isto não significa negar: a dimensão da
violência, que engendra os deslocamentos compulsórios (VAINER, 2001); o papel
das redes sociais, que em algumas situações, sobretudo na escala das migrações,
podem ser indutoras desses movimentos internacionais (MASSEY et al., 1993;
FAIST et al., 1997; SOARES, 2003); e de outras motivações, como busca por
melhor qualidade de vida, educação e saúde, que, do ponto de vista aqui
adotado, levam, em menor escala, aos deslocamentos populacionais.
O caráter estrutural da crise econômica e a mobilidade populacional no Rio de
Janeiro
Esta parte do artigo pretende relacionar os processos de mobilidade espacial no
Rio de Janeiro a uma crise econômica de caráter estrutural, que passa pela
mudança no padrão de acumulação do capital, levando a novas estratégias de
inserção espacial das atividades econômicas no Estado.
A cidade do Rio de Janeiro concentrou riqueza, foi um símbolo nacional e
encarnava a ideia de progresso e civilização, como as outras metrópoles latino-
americanas. Foi capital da República entre 1763 e 1960, constituindo-se como
principal centro comercial e financeiro do país nos fins do século XIX. Escoava
a produção cafeeira do interior do Estado e de Minas Gerais, além de ter o
aparato administrativo do país. Isto estimulou uma acumulação local que
determinou um significativo desenvolvimento econômico (MELO, 2001), refletido
também no crescimento demográfico, sobretudo baseado na atração populacional
que exerceu.
Essa hegemonia econômica começou a ruir no início do século XX - transferindo-
se paulatinamente para São Paulo -, em face da crise na lavoura cafeeira do Rio
de Janeiro e da ruptura do comércio internacional, em função da Primeira Guerra
Mundial, que afetou o acesso ao porto do Rio, impactando a acumulação local
(MELO, 2001). Esse movimento inaugurou a primeira grande crise da economia
fluminense; as outras duas foram a perda da capital federal, nos anos 1960, e a
fusão, na década seguinte, entre o Estado da Guanabara (criado após a
transferência da sede do governo central) e o antigo Estado do Rio de Janeiro.
A perda da importância econômica, entre outros fatores, se deu pela utilização
de mão de obra livre e assalariada, sobretudo de imigrantes que se destinaram
às culturas de café, formando os elementos que possibilitaram a transformação
do capital cafeeiro em capital mercantil, o que levou à dinamização da
indústria paulista (CANO, 1995).
Com a transferência da capital federal para Brasília, estava determinado o
segundo grande "golpe" sobre a economia carioca/fluminense, que, até então,
tinha os efeitos de sua crise estrutural suavizados pelo fato de manter a sede
do poder político nacional4 (DAIN, 1991), o que refletia balanços altamente
positivos nas trocas populacionais com as outras Unidades da Federação. Um
paralelo pode ser traçado ao se comparar o desempenho da atratividade
migratória do atual Distrito Federal, que, mesmo girando sua economia em torno
das atividades dos serviços, superou em quatro vezes o volume de população
estimado para 2000, chegando a aproximadamente dois milhões de habitantes,
muitos dos quais migrantes recentes.
Ainda assim, o II Plano Nacional de Desenvolvimento (PND) sinalizava com alguma
esperança, uma vez que aumentava os investimentos no Rio de Janeiro, com a
construção da Usina Nuclear de Angra I, do Porto de Sepetiba, da ponte Rio-
Niterói e da rodovia Rio-Santos, além dos projetos de implantação da Usina II
da CSN e do complexo tecnológico-científico. Contudo, com a crise do petróleo
do final dos anos 1970, o Estado brasileiro viu desestabilizada ainda mais sua
capacidade de financiamento, dado que estava ancorada nos recursos externos,
agora escassos. Em função disso, os investimentos previstos no II PND para o
Rio de Janeiro sofreram uma progressiva desaceleração com a não implementação
de boa parte dos projetos direcionados ao Estado. Cabe ressaltar que a crise do
petróleo, em 1973, foi apenas um dos elementos que contribuíram para a
derrocada do modelo fordista de acumulação, que se manifestou mais intensamente
na década seguinte.
Como o Estado do Rio de Janeiro era basicamente produtor de bens salários para
o mercado local, sua economia foi seriamente afetada pelo arrocho salarial,
demissões e pela transferência de parcela importante do funcionalismo público
federal, o que fez sua indústria chegar aos anos 1990 com aproximadamente 25%
de capacidade ociosa (PPA, 1995, apud SIMÕES, 2004).
Ao realizar a fusão entre os Estados da Guanabara e do Rio de Janeiro, em 1975,
os militares impuseram o terceiro grande "golpe" sobre a economia fluminense.
Esta medida tinha como argumento central tornar mais dinâmicas as economias de
dois espaços que se complementavam e fazia parte do projeto "Brasil Grande
Potência", implementado no governo Geisel (1974-1979), cujo objetivo principal
era o desenvolvimento econômico do país por meio da industrialização pesada
(SIMÕES, 2004). Contudo, mascarava outras intenções de cunho político, pois o
que estava por trás dessas medidas era enfraquecer a forte oposição ao regime
militar, que era intensa no Estado da Guanabara, como comprovaram os resultados
das eleições realizadas em 1974.
Autores como Cano (1989), Lessa (2001) e Motta (2001) entenderam a fusão como
tendo sido feita de forma autoritária. Esse momento marcou a união entre dois
Estados com características estruturais (administrativas e de infraestrutura)
bastante distintas, o que levou ao aprofundamento das contradições existentes
na UF.
Todos esses processos, de caráter estrutural nas dimensões política e
econômica, levaram à perda da pujança do Estado do Rio de Janeiro e
corroboraram com o declínio do dinamismo na sua atração migratória, que já se
manifestava na década de 1970.
O quarto agravamento da economia fluminense veio com a crise da década de 1980,
que atingiu o Estado já combalido em seu desenvolvimento econômico em face dos
fatores listados anteriormente. Nesse período, pela primeira vez, o Estado do
Rio de Janeiro experimentou saldo migratório negativo (57,4 mil pessoas) nas
trocas populacionais com as demais unidades federativas (Tabela_1), no
quinquênio 1986-1991. O Estado perdeu população, sobretudo, para as Unidades da
Federação do Sudeste e Sul, em especial, pela ordem, para São Paulo, Espírito
Santo, Minas Gerais e Paraná, espaços menos afetados pela crise daquela década.
Por outro lado, o Rio de Janeiro seguia exercendo atração populacional sobre a
Região Nordeste, onde a reprodução da força de trabalho encontrava condições
ainda menos favoráveis daquelas observadas no Estado.
Cabe destacar que, mesmo nesse quadro de crise aguda no Estado, as re-giões de
governo do interior apresentaram desempenho melhor do que o observado na Região
Metropolitana do Rio de Janeiro, obtendo saldos migratórios positivos com um
número maior de Unidades da Federação, o que já apontava, naquele momento, para
um melhor desempenho econômico dos espaços extrametropolitanos.
Segundo Penalva Santos (2003), nos anos 1980, a diminuição na renda média
fluminense foi quase três vezes a observada no país, e no interior do Estado a
situação era ainda pior. Isto explicaria, parcialmente, a redução na atração
dos fluxos interestaduais.
Nesse mesmo período, a RMRJ também apresentou perdas em relação à migração
líquida com o interior do Estado. Mais de 50% da população posta em movimento
saiu da metrópole com destino às outras regiões de governo, algo em torno de 82
mil pessoas, que, em especial, se dirigiram para as Baixadas Litorâneas
(27,9%), Serrana (18%), Costa Verde (15,4%) e Norte-Fluminense (13,5%), como
pode ser observado no Mapa_1.
Esses processos de declínio econômico e perda de população nas escalas inter e
intraestadual seriam reflexos da mudança do modelo de acumulação concentrador
das atividades econômicas e de população, que começou a dar sinais de
esgotamento nos anos 1970. Os fatores de aglomeração, como exército industrial
de reserva, infraestrutura urbana e mercado consumidor, já não sobrepujavam as
ditas deseconomias de aglomeração (valor do solo, força de trabalho
sindicalizada, poluição, violência, entre outros fatores). Concomitantemente, o
capitalismo sofria com a crise do fordismo em escala global. Esse processo
exerceu forte influência sobre o comportamento dos fluxos migratórios, que
buscaram novos espaços, passando a ser feitos em menores distâncias e com menor
duração e, em grande medida, destinando-se às periferias e aos centros médios
(FARIA, 1991; ANDRADE; SERRA, 1999; PENALVA SANTOS, 2003).
O novo padrão de acumulação passou a ser flexível. Esse regime de acumulação,
em suas dimensões econômica e política, irradiou-se por todo o planeta. No
Brasil, manifestou-se, primeiramente, na forma da crise dos anos 1980, para
logo na década seguinte aprofundar o modelo político neo-liberal, ficando num
segundo momento o início do processo de inserção no novo modelo econômico
(PIQUET, 2003).
É possível perceber essa forte correlação entre os processos econômicos
operados no Rio de Janeiro e os deslocamentos populacionais ocorridos nas
escalas inter e intraestadual.
No período 1995-2000, com a aludida inflexão econômica, na escala
intraestadual, a corrente principal seguiu partindo em direção ao interior do
Estado do Rio de Janeiro, com a RMRJ tendo contribuído com aproximadamente 55%
das pessoas que empreenderam movimento migratório, acentuando ainda mais a
menor capacidade de retenção populacional da metrópole, quando comparada ao
último quinquênio da década anterior. Esses migrantes seguiram,
preferencialmente, para a Região das Baixadas Litorâneas (46,1%), Serrana
(15%), Norte-Fluminense (11%) e Costa Verde (10,9%), seguindo a rota dos
investimentos econômicos (Mapa_2).
Boa parte desse comportamento nas Baixadas Litorâneas e no Norte do Estado
deveu-se ao fato de, em meados da década de 1970, o Norte Fluminense ter
rompido sua trajetória de desenvolvimento em suas atividades econômicas, com a
descoberta de petróleo na Bacia de Campos, fator que passou a ser a principal
fonte de receita do Estado. As bacias petrolíferas fizeram com que essa região
passasse a estar inserida no contexto da globalização, num mundo de maior
complexidade e pouco relacionado com a cultura local (PIQUET, 2003).
A criação da Organização dos Municípios Produtores de Petróleo e Gás e
Limítrofes da Zona de Produção Principal da Bacia de Campos (Ompetro)
proporcionou uma nova dinâmica no desenvolvimento econômico dos seus
municípios-membros. Em realidade, foram essas cidades, que reúnem parte dos
municípios do Norte Fluminense (Campos dos Goytacazes, Carapebus, Macaé,
Quissamã e São João da Barra) e das Baixadas Litorâneas (Armação de Búzios,
Cabo Frio, Casemiro de Abreu e Rio das Ostras), que melhor se apropriam da
riqueza produzida, tornando-se urbanos e retendo e atraindo população. Destaca-
se o município de Macaé, com sua mão de obra mais qualificada. As cidades
localizadas nas Baixadas Litorâneas desenvolveram atividades de serviços,
particularmente o turismo, que, no caso de Cabo Frio e Armação de Búzios, é
bastante sofisticado (PIQUET, 2003). Como consequência, esses municípios
passaram não só a reter população, como também a exercer forte atração
migratória sobre as outras regiões de governo do Estado do Rio de Janeiro, em
especial sua Região Metropolitana.
Já a Região Serrana beneficiou-se dos investimentos nos setores de outros
serviços e administração pública e a Região da Costa Verde dos setores de
outros serviços e indústria de material de transportes, em que se destacou a
retomada da construção naval.
Em outra escala, no âmbito interestadual, ainda no período 1995-2000, o Estado
inverteu o sinal do saldo migratório, agora positivo (como visto na Tabela_1).
Contudo, esse desempenho foi sustentado pela chegada de imigrantes de alguns
Estados nordestinos e de uns poucos da Região Norte, ou seja, a percepção de
que o Rio de Janeiro teria voltado a ser um bom espaço para oferta de força de
trabalho foi bastante restrita, limitando-se àquelas UFs onde essas condições
eram ainda piores. Destacam-se os ganhos nas trocas com Paraíba, Bahia,
Pernambuco e Ceará, e as perdas para Minas Gerais e Espírito Santo. Mais uma
vez, o interior experimentou saldos positivos no balanço com as Regiões
Nordeste, Sudeste e Norte.
Discutindo os processos mais gerais de desconcentração das atividades no modelo
mundial de desenvolvimento econômico, Guimarães Neto (apud PACHECO, 1998)
aponta, entre outros fatores explicativos da desconcentração: a desaceleração
da economia mundial pós-crise de 1970, cujos efeitos se localizaram mais
fortemente nos espaços mais desenvolvidos; as políticas de incentivos fiscais;
e as políticas de desenvolvimento regional. Com base nessas considerações, é
importante destacar que não se trata de uma questão meramente econômica; há uma
dimensão de poder em todo esse processo, à medida que a presença do Estado se
faz necessária e manifesta-se por meio dos mais diversos tipos de políticas,
sobretudo as de cunho fiscal e dotação de infraestrutura. Por outro lado,
também é possível perceber a forte vinculação desses processos com a escala
econômica global, e, por conseguinte, a relação com a crise mundial e a
emergência de novas formas de acumulação.
Ratificando as observações apresentadas anteriormente, na Região de Governo no
Médio-Paraíba, por exemplo, o setor público assumiu papel importante na atração
dos investimentos industriais. Além disso, em seus municípios estavam os
principais investimentos em empresas de alta tecnologia, que estabelecem novas
formas de relações de produção com a força de trabalho (OLIVEIRA, 2003). Vimos
também a importância da esfera pública no desempenho econômico da Região
Serrana.
No Norte Fluminense, a presença do Estado, ainda que incipiente num primeiro
momento, foi dotando a região com centro de capacitação e formação de mão de
obra, por meio de escolas, universidades e centros de pesquisa, de forma a
suprir parte da demanda por força de trabalho especializada (OLIVEIRA, 2003).
As regiões nesse novo processo adquiriram certa autonomia para se colocarem no
mercado enquanto espaço privilegiado de localização. Para tanto, somente a
guerra fiscal não bastou, sendo necessários investimentos em infraestrutura
industrial e de serviços, formação profissional, sistemas de informação, entre
outros, como já assinalara Pacheco (1998). Contudo, deve-se destacar que todos
esses processos não ocorreram sem a presença de conflitos entre os sujeitos
inscritos nesses territórios, ou seja, são referências a espaços construídos
socialmente (OLIVEIRA, 2003).
Penalva Santos (2003) assinala que a superação da crise econômica do Estado
passou pela economia de serviços, localizada na metrópole, e pela
disponibilidade de novas vantagens locacionais na atração da atividade
industrial para o interior do Estado. As comparações com a participação das
outras áreas na produção de riqueza colocam o Estado do Rio de Janeiro numa
posição ainda inferior, não obstante a contribuição da indústria extrativa
mineral. Isto sugere que a superação da estagnação econômica, associada à
despolarização espacial, ainda não estava presente, pelo menos até o final da
década de 1990. Os resultados nas trocas migratórias corroboram claramente a
visão da autora. Contudo, com os dados do Produto Interno Bruto para as regiões
de governo, é possível perceber que, com exceção do Médio-Paraíba, onde a
indústria metalúrgica é a principal fonte de riqueza, são os setores de
serviços que ditam o ritmo das economias, não apenas a da metrópole como sugere
a autora.
Até aqui procurou-se demonstrar que o pano de fundo no comportamento dos
deslocamentos populacionais no Rio de Janeiro foi a mudança no padrão de
acumulação que ensejou novas estratégias de inserção das atividades produtivas
e busca do desenvolvimento local na ordem econômica mundial vigente. Para
tanto, era importante enfatizar que a crise na economia fluminense antecedia as
mudanças no referido padrão de acumulação, ou seja, seu caráter era estrutural.
Desse modo, a crise econômica dos anos 1980 não surgiu como o principal
elemento explicativo das mudanças no comportamento do fenômeno migratório no
âmbito do Estado do Rio de Janeiro.
Inserção ocupacional e precarização da força de trabalho do migrante no Rio de
Janeiro
Nesta parte da investigação, busca-se discutir a inserção ocupacional5 e a
precarização nas relações de trabalho6 das pessoas que empreenderam algum
movimento interestadual ou intraestadual que tenha envolvido o Estado do Rio de
Janeiro,7 como uma outra dimensão da manifestação da mudança no padrão de
acumulação do capital. Para tanto, adotaram-se como recortes espaciais o Estado
do Rio de Janeiro, em seu conjunto, e a Região Metropolitana do Rio de Janeiro.
O conceito de migrante continuará sendo o daquela pessoa que há cinco anos
antes da data de referência do levantamento vivia em outro lugar, que não o
espaço estudado (migrante de data-fixa). Além disso, foram investigadas as
categorias: População Economicamente Ativa (PEA) ocupada e "não-migrante de
data-fixa",8 sendo essa última resultado da diferença entre a PEA ocupada e os
imigrantes de data-fixa.
Além de buscar evidências empíricas que confirmassem a perda de mão de obra
qualificada pelo Estado do Rio de Janeiro (ERJ) e pela Região Metropolitana do
Rio de Janeiro (RMRJ), como assinalado por Oliveira (2001), Ervatti (2003) e
Simões (2004), também foram seguidas as sugestões apontadas por Harvey (1992),
que tratam da precarização do mercado de trabalho e dos novos tipos de inserção
ocupacional como sintomas da mudança do padrão de acumulação do capital. Esses
são os aspectos que fundamentam a hipótese aqui defendida, os quais teriam como
consequência as alterações no comportamento das migrações. Acredita-se ser esse
um caminho importante para apreender o modo como se operam os deslocamentos
populacionais no Estado do Rio de Janeiro.
Harvey (1992) afirma que, seja qual for a explicação completa, para abordar a
transformação das economias capitalistas avançadas a partir de 1970 é preciso
considerar cuidadosamente essa marcada transformação da estrutura ocupacional.
Tentou-se buscar essa explicação nas migrações que envolveram o ERJ nos
períodos 1986-1991, 1995-2000 e 2001-2006, acreditando-se ser a mudança no
perfil ocupacional a pista adicional para melhor apreender o modo como se
operam os deslocamentos populacionais no Estado, como demonstrado nas Tabelas_2
e 3, que sinalizam essas transformações nos espaços selecionados para análise.
Por aí, foi possível demonstrar como se alterou a estrutura ocupacional do
Estado e de sua Região Metropolitana entre o momento de crise, anterior à
inserção desses espaços na nova ordem econômica, e o período imediatamente
posterior, com esses espaços buscando inserirem-se no padrão de acumulação
vigente. Quando são observados os dados referentes às trocas interestaduais que
se deram no conjunto do Estado (Tabela_2), é possível perceber o deslocamento
do perfil ocupacional da PEA ocupada, em que prevaleciam, inicialmente, as
categorias ocupacionais de escritório (9,18%), empregados domésticos (8,08%) e
serviços especializados (7,64%), para, no período seguinte, destacarem-se os
serviços especializados (11,39%), empregados domésticos (9,10%) e construção
civil (8,16%). Entre 2001 e 2006, os serviços especializados e empregados
domésticos seguiram sendo a principal categoria ocupacional.
Paralelamente, foi possível observar também o aumento na participação relativa
de categorias como profissionais autônomos de nível superior, profissionais
empregados de nível superior, ocupações técnicas e trabalhadores de serviços
auxiliares; ao passo que se reduziam, principalmente, as participações
relativas dos segmentos dos trabalhadores na indústria moderna e na
tradicional.
Para os imigrantes o processo é bastante parecido, mas é importante destacar
que, entre esses, são os empregados domésticos que aportam com a maior
contribuição relativa, porém é visível o aumento no aporte das ocupações
ligadas aos serviços. Já entre os emigrantes a mudança foi mais marcante e
também mais bem distribuída por um leque maior de categorias ocupacionais,
destacando-se, além dos serviços especializados, a segurança pública, as
ocupações de supervisão, as ocupações técnicas, as do comércio e as agrícolas
(essas possivelmente associadas à migração de retorno). Ressalta-se também a
pequena participação dos trabalhadores domésticos e da construção civil entre
os emigrantes que deixaram o Rio de Janeiro.
Observando-se a distribuição relativa das categorias ocupacionais na RMRJ, nos
períodos 1986-1991 e 1995-2000, e considerando-se, além da PEA ocupada, as
trocas intraestaduais, percebeu-se, embora com percentuais distintos, dinâmica
semelhante à da PEA do total do Estado, com os serviços especializados passando
a ter a maior participação relativa e os trabalhadores domésticos apresentando
expressiva contribuição. Aqui também as categorias ligadas ao setor da
indústria, fosse ela moderna ou tradicional, perderam expressão relativa. Esses
aspectos também se repetiram entre os imigrantes.
No mesmo sentido, os emigrantes intraestaduais apresentaram comportamento
semelhante ao daqueles que empreenderam movimento para fora do Estado, naquilo
que significou uma melhor distribuição pelas ocupações ligadas ao setor de
serviços. Contudo, as categorias ocupacionais da construção civil e dos
empregados domésticos apresentaram peso relativo bem mais significativo do que
para os emigrantes interestaduais, o que sugere uma maior seletividade nas
trocas entre as Unidades da Federação (Tabela_3).
O levantamento empírico, com base nos dados do IBGE, corrobora a postulação
teórica nos dois sentidos de percepção da mudança do padrão de acumulação: por
um lado, a redução do papel da indústria e a hegemonia do setor de serviços; e,
por outro, a bipolarização das categorias ocupacionais, sobretudo entre a PEA
ocupada e os imigrantes. Entre outras abordagens, Natal (2001) aponta que o
desenvolvimento econômico fluminense pareceu estar fortemente ancorado ao setor
de serviços, que cresceu dentro do processo de terciarização da economia
metropolitana e da expansão do setor informal. Na linha da bipolaridade, Lessa
(2001) também já havia observado que a estrutura do emprego no Rio de Janeiro
continuou convivendo com profissionais altamente qualificados nas áreas de
pesquisa e desenvolvimento e produção de tecnologia de ponta - ou seja,
serviços especializados9 - e mão de obra pouco qualificada inserida nos
serviços domésticos, ambulantes, biscateiros, entre outros.
De acordo com Sassen (1988), uma das formas de atração populacional das
cidades, em relação a certas atividades mais instáveis, deve ser a facilidade
com que os níveis de emprego podem ser ajustados para cima e para baixo, devido
à fluidez de seus mercados de trabalho.
Ainda de acordo com a autora, observa-se a presença de setores tanto atrasados
como avançados nas economias altamente desenvolvidas, de forma que se
manifestam empregos mal remunerados. Assim, independentemente da posição que a
cidade ocupa nas novas hierarquias transnacionais, ocorrerá participação
significativa de empregos de baixa remuneração, que se revestem em componente
fundamental dessa economia. No Rio de Janeiro isto não é diferente: o problema
reside no fato de, nesse novo modelo de desenvolvimento, o Estado perder mais
mão de obra qualificada do que sua capacidade de atração de migrantes com esse
mesmo perfil.
Outro aspecto que fica evidenciado nas diferentes estruturas ocupacionais dos
segmentos populacionais investigados é o tipo de força de trabalho que
interessa ao capital mobilizar, o que reforça claramente a proposição de
Gaudemar (1977). Constatou-se que as forças de trabalho imigrantes atraídas
para o Estado e para a metrópole são muito semelhantes, ao passo que aquelas
que deixaram esses dois espaços assumiram estruturas distintas e foram se
adequar à necessidade de acumulação de cada área específica de atração. Por sua
vez, a PEA ocupada no ERJ e na RMRJ apresentava conformação diferente da mão de
obra migrante.
Ainda nesse aspecto, percebe-se claramente que, nas trocas migratórias, o
Estado, no geral, e sua metrópole, em particular, perderam mão de obra
qualificada e mobilizaram em maior número população no segmento menos
qualificado da estrutura ocupacional (Tabelas_4 e 5).
O caso do Estado do Rio de Janeiro é ainda mais interessante, tendo em vista
que, mesmo num quadro de saldo migratório positivo nas trocas totais, no
período 1995-2000, o Estado perde população para as demais Unidades da
Federação entre as ocupações de nível superior e médio, embora num volume menor
do que o observado no quinquênio 1986-1991. Destacam-se, entre essas categorias
com saldo negativo, as ocupações técnicas, segurança pública e justiça,
pequenos empregadores e profissionais empregados de nível superior. Cabem aqui
dois parênteses: o expressivo saldo negativo apresentado pelas ocupações
agrícolas, situadas no estrato mais baixo, atribuído possivelmente às migrações
de retorno, sobretudo para o Nordeste; e a perda de trabalhadores nas
indústrias moderna e tradicional, o que sinaliza o esvaziamento dessa atividade
econômica no Estado. Nos dois períodos analisados, o Estado registrou saldo
favorável entre os segmentos menos qualificados, em que sobressaem as
categorias ocupacionais dos trabalhadores domésticos, construção civil e
prestadores de serviços não-especializados.
No caso da RMRJ, a perda foi generalizada em todos os três estratos, nos dois
períodos observados (Tabela_5). Contudo, no geral, a força de trabalho no
segmento inferior foi a menos mobilizada pelos espaços extrametropolitanos,
2.830 e 2.695 trabalhadores, respectivamente, nos quinquênios 1986-1991 e 1995-
2000, enquanto o estrato médio perdeu 4.153 e 8.106 pessoas e o superior 2.515
e 4.444, nos mesmos períodos. Destacam-se, entre essas categorias, as ocupações
técnicas, pequenos empregadores, trabalhadores do comércio e os de escritório.
Esses resultados sinalizam a força da atividade de serviços, sejam eles
técnicos ou administrativos, nas atividades econômicas no interior do Estado,
que também se mostrou mais promissor ao empreendedorismo do que a RMRJ.
Adiciona-se a esses aspectos a intensa precarização do mercado trabalho, também
característica do novo padrão de acumulação, que atingiu de forma mais aguda a
força de trabalho migrante, seja no total do Estado, seja em sua metrópole.
As Tabelas_6 e 7 mostram, para o Estado do Rio de Janeiro, o aumento da
precarização nos três segmentos populacionais investigados, embora esse
crescimento tenha sido mais intenso na PEA ocupada, ou seja, 58% a mais de
pessoas nessas condições. Entre os migrantes, a parcela relativa de força de
trabalho em situação de precariedade é superior, ficando próxima a 30% em 2000.
O detalhe importante é que a mão de obra emigrante coloca-se em patamares
ligeiramente melhores do que aqueles alcançados pelos imigrantes.
Na Região Metropolitana, embora também tenha sido significativo o aumento da
precarização da força de trabalho, esse fenômeno foi menos agudo nos grupos
analisados (Tabelas_8 e 9). Aqui também a PEA ocupada encontra-se numa situação
melhor nos dois períodos. Já entre os que empreenderam movimento, a situação se
alternou, com os imigrantes mais bem posicionados no quinquênio 1986-1991,
invertendo-se a posição no período 1995-2000.
Diante desse quadro, pode-se deduzir que a transformação nas ocupações, com
destaque para um segmento não intensivo em mão de obra, aliada a um mercado de
trabalho em que a flexibilização e a precarização imperam, estaria produzindo
como resultado no fenômeno dos deslocamentos populacionais a baixa atratividade
nos grandes centros. Isto fez com essas categorias ocupacionais fossem buscar
sua reprodução em outros espaços que se apresentaram mais dinâmicos ou onde os
riscos envolvidos na precarização tenham sido menores.
Bauman (2001) coloca a seguinte questão: como poderia alguém se preparar para a
vocação da vida, se habilidades laboriosamente adquiridas passam a ser dívidas
um dia depois de se tornarem bens? Quando profissões desaparecem sem dar
notícias e as especialidades de ontem são os antolhos de hoje? E como se pode
fixar e separar um lugar no mundo se todos os direitos adquiridos não o são
senão até a segunda ordem, quando a cláusula da retirada à vontade está escrita
em todo o contrato de parceria? O mundo construído de objetos duráveis foi
substituído pelo de produtos disponíveis projetados para a imediata
obsolescência. "O nome do jogo é mobilidade: a pessoa deve poder mudar quando
as necessidades impelem, ou os sonhos o solicitam (...)" (BAUMAN, 2001, p.
114).
Conclusões
Por tudo o que foi discutido e demonstrado nessa investigação, no momento
atual, conforme o modelo de desenvolvimento em vigor, a inserção econômica dos
espaços ditaria a nova divisão social do trabalho, mobilizando a força de
trabalho necessária. Consequentemente, a mobilidade espacial também estaria
sendo determinada por esses processos.
Quando os processos migratórios no Rio de Janeiro, nas décadas de 1980 e 1990,
são esmiuçados, nota-se claramente que as formas como os distintos espaços se
inseriram no novo modelo de desenvolvimento, mais uma vez, expuseram a
contradição central da mobilização da força de trabalho sob a dominação do
capital. O modo de inserção determinaria a mobilidade ou a imobilidade da mão
de obra, contradição inerente ao modo de produção capitalista.
De acordo com a proposta aqui defendida para a apreensão do fenômeno da
mobilidade espacial, é com base nos anos 1980, com a ruptura do modelo
anterior, que o capital passou a ter maior flexibilidade para investir e
produzir em qualquer região. "Não é um capital localizado em seu circuito de
reinversão" (PIQUET, 2003, p.3). Isto gera disputas entre os espaços para
receber essas inversões de capital, quadro marcado pelo desencadeamento da
guerra fiscal entre cidades/Estados. Os governos locais passam a ter que
promover o desenvolvimento econômico.
O reflexo disso, do ponto de vista demográfico, é o redirecionamento dos fluxos
migratórios para novos espaços, sobretudo cidades médias, que, nesse caso,
passam a obedecer à lógica de inserção locacional do capital, no seu novo
padrão de acumulação.
As cidades médias no interior do Estado beneficiaram-se em maior medida com a
retomada do crescimento econômico, em face das suas vantagens locacionais na
atração das atividades dos setores primário e industrial, o que significou, na
escala intraestadual, maior atração populacional também (PENALVA SANTOS, 2003).
Embora a obtenção de evidências empíricas ainda seja limitada, conforme
percebeu-se ao longo dessa investigação, as pistas sugeridas por Davidovich
(1986), Lipietz e Leborgne (1988) e Harvey (1992) apontam no sentido de
corroborar a confirmação da hipótese subjacente à pesquisa, na medida em que
foi possível constatar a mudança, de 1991 para 2000, confirmando-se a tendência
em 2006, na estrutura das categorias ocupacionais dos não-migrantes e,
sobretudo, entre os migrantes, notadamente marcando que tipo de categoria
ocupacional foi mobilizada pelo capital.
Observou-se aumento da participação da força de trabalho das camadas
superiores, em especial os profissionais liberais e pequenos empreendedores, e
da mão de obra no estrato de serviços, destacando-se aquela nos serviços
especializados. Concomitantemente, seguiram tendo relevância algumas categorias
nos segmentos mais baixos da escala ocupacional, como os trabalhadores
domésticos, na construção civil e serviços não-especializados.
Outro importante resultado, presente também nas observações dos autores citados
anteriormente, refere-se ao grau de precarização das relações de trabalho, que
atingiu em maior medida a força de trabalho migrante, o que poderia ter
constituído um elemento definidor não só na estratégia de adotar a migração
como forma de garantia da sua reprodução, mas também como definidor do destino
a ser seguido.
Este elenco ainda incompleto de questões, aliando-se a outras contribuições,
poderia ajudar de forma incisiva na melhor compreensão do fenômeno da
mobilidade espacial.
Deve ser percebido que muda o sinal da migração, tanto do ponto de vista
simbólico quanto no efeito real dos balanços demográficos (MARTINS, 2003). Isso
seria uma das consequências da mudança na forma como o capital se organiza para
acumular, que se refletiria no comportamento dos deslocamentos de população,
sobretudo quando se pensa o resultado da metrópole fluminense nas décadas de
1980 e 1990. A atração por ela exercida estaria muito mais para espaço de
sobrevivência do que área percebida como possibilidade de ascensão social, como
no passado.