A gestão ordinária dos pequenos negócios: outro olhar sobre a gestão em estudos
organizacionais
1. INTRODUÇÃO
No processo de construção da administração durante o século XX, foram
desenvolvidos modelos de gestão que objetivavam conduzir as organizações para
padrões de eficiência no que se refere às práticas do organizar. Nesse
contexto, o gerencialismo (ou management) foi legitimado como modelo
hegemônico, influenciando a forma de gerir organizações em todo o mundo. Nesse
modelo gerencialista, o ambiente organizacional é estruturado de forma rígida e
formal, sendo caracterizado pela divisão hierárquica de cargos e tarefas e,
também, por controles capazes de medir a produtividade e facilitar os processos
gerenciais necessários ao atingimento dos objetivos empresariais. A instituição
de um modelo de gestão atende a uma visão funcionalista das organizações, que
busca determinar e padronizar os procedimentos organizacionais julgados
adequados, desconsiderando que tal padronização é incompatível com a
diversidade nas organizações em termos de forma, estrutura, pessoas, contexto e
história (Alcadipani,_2011; Barros_&_Carrieri,_2013).
As práticas gerencialistas foram difundidas pelas escolas de administração,
empresas de consultoria, mídias de negócios e livros, entre outros, criando o
fenômeno a que Wood_Jr._e_Paula_(2002a; 2002b; 2002c) chamaram de pop-
management. Por meio desse fenômeno, buscou-se apresentar pretensas soluções
capazes de atender aos problemas relativos ao cotidiano organizacional que, por
sua vez, eram intensificados pelo crescente aumento da competitividade no
mercado global. Embora o gerencialismo seja o modelo hegemônico de gestão
organizacional, há outras formas de gestão passíveis de serem adotadas nas
organizações. Como bem observaram Ibarra-Colado_(2006), Misoczky,_Flores_e_Böhm
(2008)e Holanda_(2011), a hegemonia implica a existência de alternativas que
resistem e competem por reconhecimento. Há, portanto, outros tipos de gestão
que fogem ao convencionado pelo gerencialismo e que devem ser considerados no
âmbito dos estudos organizacionais (EORs).
Neste trabalho, pretende-se atender a essa proposta, apresentando ao leitor a
gestão ordinária, que foge aos parâmetros gerencialistas ao focar o cotidiano
do homem comum que administra negócios ordinários. Ao se tratar da gestão
ordinária, não interessa falar dos grandes negócios, globais, internacionais.
Interessa trabalhar o cotidiano do pequeno negociante familiar, o Homem comum
(Martins,_2008), com suas relações sociais estabelecidas, sua forma de
organizar seus negócios, suas estratégias de sobrevivência, bem como tentar
abarcar os usos e os sentidos desses espaços – de negócio e de família – e a
rede de relações ali tecidas por aqueles que os vivem cotidianamente. Essa
significação do insignificante, significação do cotidiano que pode ser
importante para as pessoas, infelizmente não o é para o pensamento
administrativo ou perdeu-se.
Neste ensaio teórico, defende-se que se deve privilegiar a história dos espaços
de passagens, tais como galerias comerciais, feiras, entre outros, onde os
homens comuns empreendem seus negócios e estes misturam-se com o organizar da
família. Acredita-se no cotidiano como um contexto de interferência cultural e
social, mas que, ao mesmo tempo, é construído na vida privada do Homem
ordinário. O cotidiano não é uma reprodução mecânica e constante de gestos,
memórias ou folclores. Ele é, segundo De_Certeau_(1994), reinventado sempre,
todo dia. Assim, o cotidiano e a gestão ordinária são portadores de uma
historicidade que deve ser percebida com a intenção investigativa de dar vozes
aos diversos sujeitos que habitam os espaços de passagens. Surge daí a
necessidade de olharem-se as práticas – estratégias e táticas – utilizadas
pelos sujeitos ordinários a que se refere esse texto, para aprender com eles os
meandros relativos à gestão ordinária que praticam em seus cotidianos. No
levantamento da gestão ordinária, os sujeitos ganham vozes, elaboram textos,
discursos, falam, narram, contam suas histórias para nós, alcançando a
relevância que as abordagens tradicionais não lhes conferem.
Após esta introdução, apresentam-se algumas abordagens teóricas que sustentam
os argumentos em favor de estudos sobre a gestão ordinária. Nesse ínterim,
inicia-se por apresentar as implicações da proposta da gestão ordinária sobre a
área de estudos organizacionais. Na seção seguinte, tratar-se-á das
significações culturais e identitárias, temas imprescindíveis para a
compreensão do Homem Ordinário que a proposta tem como sujeito. Posteriormente,
apresentam-se questões relacionadas ao organizar da família e dos negócios na
gestão ordinária para, então, encerrar-se este texto com as considerações
finais.
2. A GESTÃO ORDINÁRIA E SUA IMPLICAÇÃO PARA OS ESTUDOS ORGANIZACIONAIS
O estudo das práticas cotidianas de pessoas comuns foi também realizado por
Brant_(2004), Vilas_Boas_(2005), Lima_(2009) e Holanda_(2011). Para esses
autores, o conhecimento, dito popular, do Homem comum, as práticas
organizativas de suas atividades, seus negócios são sempre estigmatizados,
sendo considerados amadores, sem profissionalismo, de improviso, sem
credibilidade. Segundo Carvalho_(2006), a gestão de organizações deve ser vista
não como uma ou una, mas como diversa. Para essa autora, algumas pessoas
exercem a gestão de suas organizações pautadas na preservação de práticas, como
que mantendo uma tradição, uma gestão tradicional, ainda outros optam por
desenvolver alternativas para sua forma de gestão, inovando nas práticas
cotidianas. Ambas as possibilidades, segundo a autora, podem nada ter a ver com
o modelo empresarial de organização dominante.
A influência de mudanças – tais como a globalização, o desenvolvimento
tecnológico e científico, a racionalização produtiva e a compressão espaço
temporal – nas sociedades atuais, pode ser representada por fatores como o
relativismo e o pluralismo cultural; que, por sua vez, seriam caracterizados
pela dissipação da objetividade e da racionalidade; pela espetacularização da
sociedade; pela cultura de massa; pela naturalização do caráter efêmero e
transitório de todas as coisas; pela comoditização do conhecimento; e, por fim,
pela mudança cultural e identitária dos indivíduos na sociedade.
Essa mudança cultural e identitária, assim como a deslocalização das atividades
produtivas, assumem papel central neste estudo uma vez que justificam e
evidenciam os dois temas-chave para este ensaio. O primeiro seria o tema da
cultura e da identidade do indivíduo (Carrieri,_Paula_&_Davel,_2008) e seu
papel na sociedade. Essa identidade está se transmutando de uma noção estática,
na qual o indivíduo era visto como um ser racional, uno e estável (em termos de
atitude e comportamento), passando hoje à noção de indivíduo plural,
fragmentado e não necessariamente racional, que usa diversas identidades de
acordo com as diferentes situações e interações que experimenta em sua atuação
cotidiana. O segundo tema, que se desdobra dessas recentes mudanças nas
sociedades contemporâneas, é o fenômeno da deslocalização (Santos,_1979) das
atividades produtivas, econômicas, sociais, culturais e até políticas, que
passam cada vez mais a mudar de espaço no cotidiano conforme a necessidade ou o
desejo de seus atores principais. Tal fato traz consigo de forma subjacente uma
profunda cisão entre o sujeito e os produtos, bens e serviços por ele
fabricados, e o espaço local e suas raízes: sociais, históricas e culturais. Em
um sentido mais amplo, tal deslocalização das atividades produtivas tenderia a
tornar, em última instância, tanto os produtos quanto os sujeitos sociais
responsáveis por sua produção, indiferenciáveis, levando a uma comoditização
das relações sociais materializadas por sua face produtiva. Igualmente, estaria
ocorrendo uma comoditização da vida organizativa dos homens em relação aos
próprios homens.
Procurando entender a interação social, histórica e cotidiana dos sujeitos, de
suas famílias e de seus negócios nos espaços coletivos das cidades, que
anteriormente foram nomeados no texto como espaços de passagens, defende-se a
realização de pesquisas que busquem entender o que aqui se denomina, com base
nas ideias de De_Certeau_(1994), de gestão ordinária – aquela que se faz no
cotidiano dos negócios ordinários, dos pequenos negócios e é uma prática social
e cultural formada por uma pluralidade de códigos, referências, interesses
pessoais e relacionais. As práticas da gestão ordinária podem evidenciar até
mesmo uma resistência contra um modelo imposto, visto como mais racional,
eficiente (Josgrilberg,_2005), como o gerencialismo que se tenta
institucionalizar pelo pop-management (Wood_Jr._&_Paula,_2002a ; 2002b;
2002c).
Tanto para Mattos_(2009) como para Alcadipani_e_Davel_(2003), as teorias
tradicionais da administração constroem discursos de um conhecimento tido como
puro ou neutro (restrito ao racional), absoluto e universal (excludente de
outros saberes concorrentes) e que triunfou política e economicamente por meio
das tecnologias de gestão. Esses discursos fazem da administração uma
disciplina universal, devendo então ser grafada com inicial maiúscula,
Administração, pois, como diz Benjamin_(2006,_p._51), “saber é posse”, ou
Foucault_(1987), saber é poder. Assim, a Administração, como disciplina/saber,
confere posse/poder de um conhecimento que se quer universal, mas para uso e
entendimento de poucos. Então, a gestão dita universal – a gestão não ordinária
– como querem muitos autores da área de administração, as revistas de negócios,
os manuais de administração, enfim o pop-management (Wood_Jr._&_Paula,
2002a ; 2002b; 2002c) ou managerialismo (Chanlat,_2000; Santos,_2000; Holanda,
2011), devem ser vistos como um lugar de saber-poder e um lugar de disputas,
conforme mostram Clegg_e_Hardy_(1996), de ressignificações.
Mattos_(2009) aponta que na área de administração, como campo de saber-fazer,
acredita-se que as teorias se oferecem (sic) em feixes, ou totalidades,
organizados e que, historicamente, um conjunto de teorias estruturalmente
semelhantes surge como de uma articulação da condição histórica específica da
reflexão humana. Supõe-se que as teorias podem ser substituídas umas pelas
outras, pois são resultado de uma preocupação institucional, estrutural.
Entretanto, essa suposição não pode ser mais aceita, porque supor que haja
sempre uma possível síntese disponível desde o início tem sido rebatido desde
as décadas de 1960 e 1970 nos estudos organizacionais (Clegg_&_Hardy,
1996).
Tendo em vista os questionamentos realizados desde os anos 1960 e 1970 sobre a
universalização das teorias do conhecimento (Clegg_&_Hardy,_1996), supor
ainda uma noção instrumental da gestão (universal) é impor uma visão
culturalmente hegemônica sobre o campo social desse saber. É preciso abrir o
termo gestão, gerir, administrar, é preciso contestá-los permanentemente.
Qualquer conceito totalizador da gestão impedirá, como dizem Chanlat_(2000) e
Alcadipani e Rosa (2010), de apresentar a gestão, a administração, como um
lugar de disputa política permanente. Pois, tratar gestão como uma categoria,
não apenas como uma representação, é partir de regras, regulações, estruturas
impondo padrões preestabelecidos de conhecimento e, no fundo, é uma forma de
impor uma visão de mundo única. Assim, pode-se tomar como base Butler_(1998) e
passar a utilizar os termos “gestão”, “administração”, “organização”, entre
aspas, para que se mostre que eles, e seus conceitos fechados, estão sob
críticas. O efeito das aspas é desnaturalizar os termos, designá-los como
lugares de debate.
Nesse momento, vale uma observação para a administração, assim como para os
pesquisadores desse campo de saber, de que, como um saber-poder, deve ser
capaz, se se quer moderno, de fazer reflexões não sujeitas a interpretações
exclusivas e monolíticas. Segundo Latour_(1994), para concretizar-se, a
modernidade deve ser capaz de produzir reflexões híbridas de suas próprias
construções, de sua própria ciência. É preciso apontar, como mostra Gagnebin_
(2005,_p._189), que o conhecimento moderno “é um [eterno] ter. Seu objeto se
determina a si mesmo pelo fato de que a consciência, seja ela transcendental ou
não, deve dele tomar posse. O caráter de posse lhe é imanente”. Para essa
posse, a experiência e a exposição são secundárias.
A administração, como ciência social aplicada, busca um conhecimento sobre a
gestão, a posse de um conhecimento que se quer moderno e imanente. Essa posse
faz com que sejam esquecidos, ou não lembrados, ou ainda silenciados,
conhecimentos ditos tradicionais, outras racionalidades que não a instrumental,
outras formas de gerir que não aquele objeto do conhecimento científico
moderno. Na visão de Benjamin_(2006), pode-se dizer que a razão instrumental é
a derrocada das outras razões. A razão instrumental é típica do capitalismo,
pois é uma racionalidade que se volta para o aprimoramento da técnica, para o
aumento infindável da produtividade. A razão instrumental, para o autor, é um
alucinógeno, porque projeta um mundo de fábula, em que a técnica redime o mundo
(e o homem), gerando progresso interminável. Na perspectiva do autor, deve-se
atacar o mito de que o progresso da humanidade está sempre vinculado ao
desenvolvimento da técnica, ao desenvolvimento das forças produtivas, da
dominação sobre a natureza. Assim, nos lugares em que o discurso hegemônico vê
progresso, Benjamin denuncia a iminência da catástrofe – possibilitada, dentre
outros fatores, pelo aperfeiçoamento técnico dos meios de destruição em massa
da humanidade.
O conhecimento administrativo baseado na razão instrumental, na ideia de
progresso interminável, do aperfeiçoamento técnico das ferramentas e modelos
trazidos na/pela modernidade, busca reforçar uma temporalidade que leva a um
sentimento de que tudo se torna transitório. Contudo, deve o pesquisador ter em
mente que nessa visão da temporalidade capitalista, podem existir outras
temporalidades, outros saberes, outras formas intersubjetivas não tão
deslocadas das relações histórico-sociais. Cabe, então, ao pesquisador
experimentar o mundo olhando, ouvindo e, até mesmo, escrevendo.
Sobre essa experimentação, Oliveira_(1988) e Bourdieu_(2000) dizem que o
pesquisador em uma disciplina social (mesmo aplicada como a administração) deve
buscar concentrar-se em três principais faculdades: o olhar, o ouvir e o
escrever. Ao observar a cidade estranhada, deve disciplinar o olhar, refratando
a realidade. Para esses autores, é necessário não só estar consciente desse
olhar, mas também estar sensível aos eventos não previstos, por isso os
estranhamentos. Em seguida, ao ouvir, o pesquisador deve preocupar-se em
estabelecer uma interação dialógica com os sujeitos. Há de reconhecer-se a
subjetividade dos sujeitos. Antes de serem fontes de dados, fontes de
informação, de conhecimento, são os outros. Agar_(1980) e André_(2007) chamam a
atenção para as descrições e análises (pesquisas) que mostram como o mundo
social investigado faz sentido sob a perspectiva do outro e não do observador/
pesquisador. Para André_(2007,_p.45), o pesquisador deveria “ultrapassar seus
próprios métodos e valores, admitindo outras maneiras de conceber e recriar o
mundo”. Abandonando, ou melhor, buscando abandonar os próprios valores na
interpretação dos fatos observados, o pesquisador estaria tentando capturar a
maneira como os sujeitos, esses outros no mundo, percebem seus contextos e lhes
dão significados. Por fim, o ato de escrever é anotar, registar, historiar,
narrar, descrever. Para De_Certeau_(1994,_p._199), escrever é uma “atividade
concreta que consiste, sobre um espaço próprio, a página, construir um texto
que tem poder sobre uma exterioridade da qual ele foi previamente isolado”.
Para ele, há três elementos importantes: uma página em branco, um texto e o
movimento que mudará a realidade social que lhe deu origem, tormando-a estável,
passível de leitura. Por meio desses elementos, organiza-se um lugar, um
locussocial, uma sociedade, sem, contudo, conseguir representar o real.
O pesquisador deve subverter, como fez Caiafa_(2002), a clássica oposição entre
casa e cidade. A cidade não está só na rua, está nos espaços públicos, nas
galerias, nas passagens, nos mercados. E, nesses espaços, estão as formas de
sobreviver daqueles que exercem a gestão ordinária, com suas vidas organizadas
estrategicamente, onde a casa se mistura com a rua, e a família e o negócio
estão imbricados. Como mostra Benjamin (2006), esses espaços de passagens
constituem uma reformulação dos espaços públicos, em que elementos das vidas
privada e pública ganham novos limites, dado o culto à exposição, à valorização
da visibilidade nas vitrines, nas prateleiras, nas bancadas, e, ao propiciar um
ambiente de intimidade, uma nuança de atmosfera doméstica, da casa na rua.
Ademais, muitas dessas formas da vida organizada podem constituir-se nos
denominados negócios de família, negócios familiares, nos quais se fabricam
sujeitos, relações, corpos, o mundo interior e o mundo exterior fundem-se, as
relações objetivam-se nos espaços e nos corpos da família e dos negócios.
Ao pesquisar a gestão ordinária, privilegiou-se o pequeno negócio, do artesão,
do vendedor ambulante, do lojista, do feirante em espaços específicos da
cidade. Esses espaços de passagens entre ruas, esses lugares de movimentos,
revelam as ambiguidades de espaços públicos: ora cheios, no aperto dos corpos e
na multidão que faz compra, olha, passeia; ora usados por tribos, grupos
específicos; ora vazios, abandonados, esquecidos.
Tanto De_Certeau_(1994) como Benjamin_(2006) buscavam contar a história de modo
diferente. Para ambos, a história está nos pequenos acontecimentos,
acontecimentos rotineiros, cotidianos. Na perspectiva benjaminiana, a história
não pode ser vista como processo linear. A história apareceria como uma
bricolagem, segundo De_Certeau_(1994), onde se descarta o processo linear,
coerente, retilíneo. Para Benjamin, é no uso das alegorias, das metáforas, e,
para De Certeau, é nas práticas dos sujeitos que se poderá evidenciar a
história do cotidiano. As práticas aparecem nas táticas e nas estratégias de
sobrevivência dos sujeitos e, por meio delas, pode-se observar o uso criativo e
oportunista do tempo e do espaço. Outros pontos de ligação entre esses dois
autores são evidenciados por Stambonsky_e_Oliveira_(2010), que apontam o ato de
caminhar, do flâneur e do bricoleur, como uma ação de observação e enunciação
que tem a função de apropriação do sistema topográfico pelo sujeito que se
move, que observa, que flana. Além disso, continuam as autoras, para De Certeau
e Benjamin as formas espaciais são produtos de intervenções humanas,
materializações de projetos elaborados por sujeitos históricos e sociais e, por
trás dos padrões espaciais, das formas criadas, dos usos dos solos, das
repartições e distribuições, dos arranjos locais, estão concepções, valores,
interesses, mentalidades, visões de mundo, enfim, todo o complexo universo da
cultura, da política e das ideologias.
Para Goldenberg_(1997), existem vários personagens que compõem a cidade e seus
espaços e cada um desses personagens da história experimenta esses espaços de
forma diferente. A diversidade de formas de os sujeitos vivenciarem a cidade
moderna sugere a necessidade de registrar, catalogar a vivência e o papel de
cada um dos elementos sociais. Esses espaços representam um fértil campo para
os estudos de administração – dos estudos organizacionais – e das temáticas do
cotidiano, das significações culturais e identitárias, do espaço organizacional
e da gestão do negócio familiar, uma vez que eles conseguem reunir,
simultaneamente, características socioculturais e econômicas que revelam a
forma como determinados grupos sociais se relacionam com a cidade, com os
espaços coletivos, públicos. Assim como esses espaços, tanto físicos quanto
simbólicos, também influenciam a percepção que os grupos podem construir acerca
de si próprios em sua relação com a cidade.
É nesse contexto que, na contramão das abordagens dominantes nos estudos
administrativos em que se preferem os grandes negócios, em que o foco é o
“universo natural do pioneirismo empresarial” (Marcovitch,_2009, p. 303), que
se defende o estudo do cotidiano do Homem comum de negócios, o pequeno
negociante que gere seu negócio com sua família (Martins,_2008). Como Santos_
(2006), concorda-se que há conhecimentos heterogêneos que devem ser admitidos,
conhecimentos tidos como vulgares, práticos. Conhecimentos com base no
cotidiano, nos quais os sujeitos de pesquisa orientam suas ações, dão sentido a
suas vidas e às de suas famílias. Conhecimentos que podem dialogar com os
conhecimentos ditos científicos, que nesse diálogo podem criar oportunidades de
novos conhecimentos. É preciso ver, como Santos_(2008), que dar crédito a
saberes não hegemônicos não envolve necessariamente a descredibilização do
saber científico. Assim, poder-se-ão desvelar as artes de fazer de Homens cuja
relevância para a formação da sociedade não é mormente analisada (De_Certeau,
1994). Poder-se-á buscar uma alternativa à história tradicional da gestão, na
qual as experiências desse Homem comum vêm sendo excluídas diante de um foco
maior nos fatos considerados mais centrais para a sociedade (Souza,_2006).
É esse Homem comum que cria estratégias e táticas para a sobrevivência de seus
negócios, de sua família. Para De_Certeau_(1994), as estratégias assumem o
caráter de prática social, fundamentalmente sob os conceitos de estratégia e
tática, que auxiliam a compreender a multiplicidade das práticas que formam o
cotidiano. Para Souza_e_Carrieri_(2012,_p._45), “as estratégias são cálculos de
relações de força que se tornam possíveis a partir do momento em que um sujeito
de querer e poder é isolável das exterioridades”. Ainda segundo esses autores,
as táticas podem ser definidas como:
contextuais e oportunistas, frutos da inteligência cotidiana. São
práticas que se aproveitam de uma certa situação para gerar
resultados imediatos. No espaço do outro, as táticas se aproveitam do
tempo, para captar possibilidades de ganho. Enquanto as estratégias
se relacionam com o poder exercido em um lugar próprio ou em uma
instituição, as táticas se relacionam com a astúcia popular. A
estratégia é destinada ao acúmulo futuro, à prescrição e ao controle.
Já a tática é contextual e efêmera. “O que ela ganha, não o guarda
(De_Certeau,_1994, p. 47)” (Souza_&_Carrieri,_2012, p. 45).
As práticas sociais, as relações histórico-sociais entre família e negócio,
entre os sujeitos de pesquisa e entre até mesmo os grupos de pesquisadores, têm
por base a construção de significações culturais e identitárias, como será
abordado na próxima seção.
3. AS SIGNIFICAÇÕES CULTURAIS E IDENTITÁRIAS
O uso do termo significações culturais e identitárias parte da concepção de que
os diversos sujeitos interpretam, criando sentido, significações à realidade.
Essas manifestações, assim como suas práticas cotidianas – discursivas ou não –
são historicamente construídas, e suas percepções, memórias, crenças,
experiências, valores, etc. variam. As interpretações do mesmo fenômeno também
podem diferir. Os sujeitos criam, então, formas diferentes de ver o mundo,
criam sentidos diversos, muitas interpretações, é a isso que aqui se denomina
de significações. Essa possibilidade de conhecer o social, o que inclui a nós
também como sujeitos, decorre dos mecanismos que se estabelecem em nossas
relações histórico-sociais. É nessa acepção que Foucault_(1998) assinala os
sujeitos como efeitos dos modos de subjetivação-objetivação, de produção de
subjetividades construídas e vividas por relações de forças dispersas
constituídas sob formas de redes perpassadas em todo o corpo social, sem uma
origem ou ponto fixo, mas sendo produzido a partir dos diversos dispositivos da
ordem social. As significações culturais e identitárias são resultados das
práticas sociais, desse estar no mundo, em meio a uma rede de relações, de
sentidos, de visões de mundo e de ações no mundo.
3.1. As significações culturais
Na administração, cultura é um tema explorado ambiguamente, ou, na visão de
muitos autores (Kroeber_&_Kluckhohn,_1952 ; Cuche,_1999; Carrieri,_2001), é
vulgarmente explorado. Por exemplo, há pesquisadores estrangeiros, como
Hofstede_(1980; 1997), Trompenaars_(1994), Schein_(2004), que influenciam
vários trabalhos de cunho funcionalista. Para esses autores, a ideia é que a
cultura deve ser estudada como uma variável interna à gestão. Ela pode ser
criada, modificada, fortalecida por um gestor. Esses autores constroem listas
de empresas com culturas fortes e culturas fracas, a ideia geral é fazer
relações de causa e efeito da variável cultura com o desempenho da organização,
da gestão. Aqui estão os estudos denominados de cultura coorporativa, cultura
organizacional, nos quais a ideia geral é que a cultura tem uma cultura e
subculturas e, nesse sentido, pode ser mudada, trabalhada.
Por outro lado, há pesquisadores como Aktouf_(1994), Alvesson_(2004; 2007),
Meyerson_e_Martin_(1987), entre outros, que fazem severas críticas aos estudos
funcionalistas. Eles buscam novamente a inserção da cultura como uma categoria
social, objetivando desenvolver pesquisas de cultura nas organizações. Esses
pesquisadores pesquisam o tema cultura desde a vertente interpretacionista até
ao pós-modernismo, passando pelo pós-estruturalismo. Para Linstead_e_Grafton-
Small_(1992), o tema havia sido dominado por uma abordagem interpretativa, do
individualismo e da subjetividade. Já para Alvesson_(2007), o tema caminhou
para trabalhos que buscam a construção e a desconstrução de significados, como
resultado não só de experiências subjetivas, mas também intersubjetivas, até a
crítica da cultura como forma de manipulação dos indivíduos e da limitação da
autonomia pessoal. Nessa perspectiva, o tema cultura aparece como metafórico. A
cultura evidencia o que a organização é ou, como sintetiza Furtado_(2011,_p.
70), “em vez de mais uma ‘peça do quebra-cabeças’, mais uma variável, a cultura
passa a ser o próprio ‘quebra-cabeças’”, e a autora completa lembrando que
metáforas são criações humanas e, por isso mesmo, ficções, simplificações do
real.
No Brasil, o tema também tem semelhantes vertentes de pesquisas. Assim, há um
grupo, como Barros_e_Prates_(1997), Mascarenhas_e_Vasconcelos_(2009), Muzzio_
(2010), entre tantos outros, que usa a perspectiva como variável e atrela
cultura ao tema da mudança organizacional. E há autores, como Fischer,_França_e
Santana_(1993), Carrieri_e_Rodrigues_(2001), Carrieri_(2002; 2008), Cavedon,
Craide_e_Eccel_(2006), Silva,_Junquilho,_Carrieri_e_Melo_(2006), Cavedon,_Davel
e_Pereira_(2007), Cavedon_e_Fachin_(2008), que trabalham a vertente da cultura
nas organizações, buscando a construção e a desconstrução de visões de mundo em
espaços de interação social de trabalho, lazer, etc. Aqui se destacam os
estudos de Cavedon, de Silva e de Carrieri que têm trabalhado o tema da cultura
pela construção e pela desconstrução das visões de mundo dos sujeitos por meio
dos discursos, mais precisamente pela bricolagem discursiva, buscando o que De
Certeau_(1994) chama de táticas e estratégias das práticas cotidianas, termos
já conceituados neste estudo.
Essa lista de pesquisadores que trabalha na perspectiva da cultura nas
organizações apoia-se na concepção de Meyerson_e_Martin_(1987), buscando
analisar as organizações sob três diferentes perspectivas. A da integração –
discurso, ou melhor, produção simbólica da alta administração, ou grupos
dominantes; a da diferenciação – discursos, produção simbólica dos diversos
grupos; e a da fragmentação – discurso, produção simbólica do indivíduo. Neste
ensaio, devido à peculiaridade de sua proposta, optou-se por focar a
perspectiva da fragmentação, reconhecendo-a como a ideal para tratar-se da
temática da gestão ordinária. Não se estão desprezando as outras perspectivas –
integração e diferenciação –, pois elas são úteis para complementar estudos sob
a perspectiva da fragmentação. Assim, concorda-se com Furtado_(2011,_p._81)
quando a autora pontua:
concordo plenamente com a visão de que o mundo, as cidades e as
organizações, inclusive as empresas, estão totalmente fragmentadas.
[...] Parto então da perspectiva de que não existe unidade, nem na
sociedade, nem no interior das organizações, não porque a sociedade
estaria fragmentada, mas porque sempre foi. O que mudou foi que a
heterogeneidade tornou-se mais evidente e perceptível.[...] A
definição formal de cultura na perspectiva da Fragmentação é a
seguinte: [...] uma cultura organizacional é uma rede de indivíduos,
esporadicamente e fracamente conectados por suas posições mutantes em
relação a uma série de aspectos. [O grifo é nosso].
Pela perspectiva da fragmentação, segundo Cavedon_e_Fachin_(2008), podem-se
evidenciar mais facilmente as culturas como um processo historicamente
construído, cujo principal aspecto é centrar-se na interação das pessoas que
compõem o que se denomina de organização. Nesse sentido, os discursos e as
metáforas evidenciadas são influenciados também pela história, pela biografia e
por fatores sociais nos quais estão mergulhados o evento estudado, as pessoas
envolvidas e o próprio pesquisador. Nesse sentido, uma interpretação é uma
compreensão coletiva do evento, da organização, da cultura (Feldman,_1991).
Resumindo, a fragmentação possibilitaria apreender a cultura como um processo
histórico que nasce da interação entre as pessoas nas sociedades, nas
organizações, nos grupos, etc.
Contudo, há de considerar as críticas feitas por Alvesson_(1993), Furtado_
(2011)_e_Silva_(2011), que mostram que a perspectiva da fragmentação se apoia
na ideia de ambiguidades que, para Martin_(1992), são percebidas como falta de
clareza, más definições das responsabilidades, papéis, não ficando claro para
as pessoas o que elas fazem naquela organização nem o que a organização faz na
sociedade. Para os autores, as ambiguidades não podem ser base da perspectiva
da fragmentação, pois elas estão em todos os processos históricos, todas as
construções sociais da realidade, ocorrendo sempre várias explicações,
interpretações sobre os diversos eventos vividos, mas nenhuma adequada o
suficiente para garantir a verdade sobre tal momento, sobre tal acontecimento.
De maneira geral, como aponta Benjamin_(2006), não se pode estudar a cultura
(de um grupo, sociedade) se não se retomarem as concepções de história e da
sociedade que a produz. Assim, quando se fazem as intersecções entre as
pesquisas de cultura nas organizações, ou melhor, as pesquisas sobre o tema da
cultura na administração, nos estudos organizacionais, busca-se ver/estudar as
transformações das relações sociais refletidas da vida cotidiana do Homem
comum, do Homem sem história, de sua família, de seu negócio em espaços de
passagens, com suas exposições permanentes de mercadorias, com seus vidros; na
produção de espetáculos, com imagens supercoloridas, imagens ilusórias, com os
fantasmas de mercadorias fetichizadas. Essas são relações sociais fragmentadas,
construções históricas de um passado refletidas no presente estudado. Relações
que também propiciam a evidência de construções das significações identitárias.
3.2. As significações identitárias
No pensamento tradicional ocidental sobre a identidade, a noção predominante é
a de que todo indivíduo possui uma identidade que o faz ser igual a si mesmo ao
longo do tempo. Nesse sentido, possuir identidade significaria apresentar
características únicas, imutáveis, contínuas e estáveis. Ciampa_(2005) critica
essa visão, pois ela reforça a ideia da identidade como produto acabado, como
algo dado. Uma vez definida a identidade do indivíduo, ele estaria identificado
indefinidamente a partir de determinados atributos. No fazer cotidiano, esse
indivíduo deveria buscar ser coerente com a identidade que lhe foi definida. A
identidade, nesse sentido, torna-se um conceito de selfidealizado, que acabaria
por não corresponder ao que o indivíduo realmente é em sua vida prática, tendo
em vista as transformações vivenciadas ao longo de sua trajetória de vida.
Indo além da identidade como propriedade de ser idêntico a si mesmo e como
características únicas e imutáveis, Heidegger_(1979) aprofunda a discussão ao
afirmar que a identidade se manifesta na singularidade do ser. Segundo o
filósofo, a identidade surge da tensão entre o ser e o não ser, entre o
conhecido/ consciente e o desconhecido/inconsciente, entre a estabilidade e a
instabilidade, ou seja, entre a mesmidade, a percepção de semelhança com algo
ou com alguém, e a diferença, a percepção de ser oposto ou complementar a algo
ou alguém.
Ao colocar-se no mundo, o indivíduo encontra-se cercado por uma teia de
relações já existentes e nela ele é capaz de imprimir consequências imediatas
de suas ações. A construção de uma possível identidade, advinda de uma história
de vida (singular), ocorre necessariamente a partir de uma interação mútua com
as histórias de outras pessoas, com as quais se teve contato ao longo da vida.
A história humana seria fruto dessa interação e dela se constrói uma rede de
reflexões, na qual identidades se refletem e se reforçam (Arendt,_2004; Ciampa,
2005).
Esse jogo de reflexões múltiplas que estrutura as relações sociais é
mantido pela atividade dos indivíduos, de tal forma que é lícito
dizer-se que as identidades, em seu conjunto, refletem a estrutura
social, ao mesmo tempo que reagem sobre ela, conservando-a (ou
transformando-a) (Ciampa,_2005, p. 171).
Nessa perspectiva, o pesquisador que busca compreender as significações
identitárias, deve entendê-las como um processo, sendo necessário “captar os
significados implícitos, considerar o jogo das aparências. A preocupação é ‘com
o que se mostra velado’” (Ciampa,_2005, p. 139). Ao ir a campo, o pesquisador
necessita, primeiramente, observar as práticas cotidianas, os modos de agir dos
indivíduos e suas interações com o outro. Em segundo lugar, é preciso
compreender tais práticas como manifestações de quem o indivíduo é. Para
desvendar a identidade, torna-se necessário inserir as práticas observadas na
esfera discursiva, pois ação desprovida de sentido discursivo não seria ação
propriamente dita, visto que não revela seu ator e não permite sua manifestação
interativa. Nesse sentido, o processo de compreensão dos sentidos embutidos nas
práticas é uma transposição para a dimensão discursiva que revela a
manifestação do indivíduo no mundo, ou seja, sua identidade (Arendt,_2004;
Souza,_2010).
Uma das limitações de pesquisas sobre as significações identitárias é que o
pesquisador nunca será capaz de apreender fielmente os sentidos subjetivos
embutidos no agir de seus sujeitos de pesquisa. Isso porque o processo de
compreensão das práticas cotidianas envolve a construção intersubjetiva de
sentidos. Inevitavelmente, o pesquisador imprime sobre o material coletado e
analisado sua perspectiva. Trata-se, portanto, de um processo dialógico, em que
as práticas identitárias observadas e coletadas pelo pesquisador são tidas como
um discurso dos sujeitos pesquisados. Tal discurso será compreendido e
interpretado pelo pesquisador, gerando sentidos sobre a construção da
identidade desses sujeitos (Bakhtin,_1992; Souza,_2010).
As pesquisas sobre o tema das significações identitárias perpassam modos de
captação das práticas cotidianas e, em seguida, modos de transposição dessas
práticas ao nível discursivo, viabilizando sua apreensão, porém, visando à
compreensão dos sentidos o mais próxima possível dos sentidos dos sujeitos (e
não do pesquisador). É importante destacar que tal transposição envolve a
interpretação de práticas verbais ou não verbais, e a compreensão dessas
últimas passa inevitavelmente pela semiotização para que o pesquisador as
apreenda.
Para Oliveira_(2006), a modernidade ceifa as identidades outrora solidamente
construídas, o estudo das práticas sociais no cotidiano, assim como os
discursos – narrativas – dos sujeitos possibilitam evidenciar as novas
significações identitárias ainda desordenadas. Assim, ao se narrarem as
práticas dos sujeitos de pesquisa, se estarão narrando, também, as experiências
particulares, as frequentações, as solidariedades e as lutas que organizam o
espaço em que essas narrações constroem significações culturais e identitárias.
Segundo De_Certeau_(1994), para ler e escrever as significações identitárias
(ordinárias), é importante ao pesquisador reaprender operações comuns e fazer
da análise uma variante de seu objeto.
Para Santos_(2005), ao se fomentarem os debates sobre a construção cultural das
significações identitárias das narrativas do Homem ordinário, das práticas
sociais no cotidiano, estar-se-ão (re)inventando outras possibilidades de
conhecer o real. Nesse sentido, os estudos das práticas cotidianas de grupos
sociais como problematizações possíveis, e não como premissas fechadas sobre
temas da administração, ampliariam as condições de interpretação das ações e
das motivações dos sujeitos comuns históricos. O cotidiano não pode ser visto
apenas como um lugar/espaço onde se cristalizariam os modos disciplinares, ou
melhor, de construção de hábitos e atitudes, de elaboração e interiorização de
conceitos, mas ele deve ser estudado como o espaço de declaração das
significações identitárias. O cotidiano é um espaço privilegiado, contexto das
necessidades cotidianas, construído pelos fazeres e saberes de grupos sociais
que o compartilham. O cotidiano, como abordado neste ensaio, é um espaço
individual e grupal. Ele caracteriza-se como individual, pois é individualmente
narrado pelos sujeitos de pesquisa que construíram o dia a dia de seus
negócios. E como coletivo, pois são negócios que envolvem suas famílias, há
empregados, há concorrentes, há clientes, há os espaços de passagens
instituídos: mercados, galerias, shoppings e feiras, entre outros.
A formação das significações identitárias coletivas envolveria o
compartilhamento de sentidos por parte dos indivíduos nela inseridos. Tais
sentidos, negociados e propagados em processos dialógicos, precisam ser
constantemente repensados e repassados entre os integrantes da identidade para
que sigam sendo legítimos a todos (Souza,_2010). Contudo, é preciso destacar
que as significações identitárias coletivas não são um grupo homogêneo de
identidades individuais. Cada indivíduo, obviamente, possui sua história de
vida própria e pode ter diferentes motivos para filiar-se ao coletivo. Wry_e
Glynn_(2011) destacam que as identidades coletivas podem ser compreendidas como
conjuntos compostos por indivíduos (e práticas) que pertencem mais ou menos a
um mesmo tipo de categorização e também por indivíduos (e práticas)
divergentes.
Entendendo que as significações identitárias (e culturais) são construídas a
partir das práticas (discursivas e não discursivas), torna-se relevante
investigar como ocorrem as práticas cotidianas no interior dos espaços de
passagens, assim como nas organizações, tanto aquelas referentes a sentidos
individuais, quanto aquelas de orientação comunitária. Tais práticas seriam a
materialização das identidades, representando o material inicial a ser coletado
pelo pesquisador. Já a interpretação desse material passa pela captação dos
sentidos específicos e contextuais e da forma como as práticas são
dialeticamente reconstruídas. No nível coletivo, as identidades poderiam ser
apreendidas como práticas mais ou menos compartilhadas entre os indivíduos, ou
seja, práticas que sinalizam para o compartilhamento de sentidos comuns.
Ademais, as identidades coletivas também são mapeadas a partir da existência de
reconhecimento externo em seu contexto (Souza,_2010).
As significações identitárias, então, podem ser reveladas a partir da produção
discursiva (verbal ou não verbal) do indivíduo, como se fosse uma narrativa que
ele constrói sobre quem ele é ao longo de sua vida. Fairclough_(1992) explica
que os discursos, denominados por ele de textos, podem exercer três funções
básicas: podem ser ações sobre o mundo, estabelecendo relações sociais; podem
ser formas de significações do mundo, pois carregam em seu conteúdo as maneiras
como o indivíduo enxerga o mundo; e podem ser formas de identificação, pois
implicam compromissos, julgamentos e posicionamentos do enunciador. O
desvendamento desses três aspectos contribui para a compreensão das
significações individuais.
Ao se analisarem os discursos, textos individuais, é importante ter em mente
que eles são construídos dialogicamente. Mesmo que sejam pertencentes ao
discurso individual, os sentidos apresentados são provenientes de sentidos
construídos socialmente e mantêm constante diálogo com outros discursos
existentes (Bakhtin,_1992). No caso em estudo, é importante referenciar que os
textos individuais também são cruzamentos, os textos produzidos pelos sujeitos
da pesquisa são polifônicos, isto é, são resultado de relações multicausais das
significações simbólicas – culturais e identitárias –, possibilitando
diferentes formas de pertencimento e, então, diferentes interpretações sobre o
cotidiano, os lugares, a gestão, a casa, a rua, os negócios, a família, etc.
Entendendo que as significações identitárias (e culturais) são construídas a
partir das práticas (discursivas e não discursivas), torna-se relevante
investigar como ocorrem as práticas cotidianas no interior dos espaços de
passagens, assim como nas organizações, tanto aquelas referentes a sentidos
individuais, quanto aquelas de orientação comunitária. Tais práticas seriam a
materialização das identidades, representando o material inicial a ser coletado
pelo pesquisador. Já a interpretação desse material passa pela captação dos
sentidos específicos e contextuais e pela forma como as práticas são
dialeticamente reconstruídas. No nível coletivo, as identidades poderiam ser
apreendidas como práticas mais ou menos compartilhadas entre os indivíduos, ou
seja, práticas que sinalizam para o compartilhamento de sentidos comuns.
Ademais, as identidades coletivas também são mapeadas a partir da existência de
reconhecimento externo em seu contexto (Souza,_2010).
4. O ORGANIZAR DA FAMÍLIA E DO NEGÓCIO NA GESTÃO ORDINÁRIA
Considerou-se neste ensaio, baseado em Damiani_(1991) e Antuniasi_(1993), que
os negócios e as organizações familiares englobam uma gama de atividades que
não estão necessariamente vinculadas ou instituídas sob a disposição formal de
uma empresa. Em outras palavras, englobam atividades produtivas baseadas na
força produtiva da família, mas que nem por isso estão dispostas sob uma
hierarquia, uma estrutura, uma formalidade de relações, ou mesmo a legalização
do negócio. A gestão do negócio familiar pode ser constituída de sujeitos que
agem por meio de uma rede de relacionamentos informais e pessoais envolvendo,
sobretudo, elementos afetivos ligados à família, podendo trabalhar sem vínculos
trabalhistas legalmente formalizados (Lima,_Carrieri,_Soares_&_Pimentel,
2007). As peculiaridades desse contexto, marcado pela afetividade, propiciam o
surgimento de estratégias e táticas específicas por parte dos membros
familiares e exigem dos estudiosos a adoção de alternativas teórico-
metodológicas que deem conta da complexidade da realidade.
Segundo Davel_e_Colbari_(2000), os estudos sobre a gestão dos negócios que
envolvem a família devem buscar contemplar dimensões objetivas ou materiais e
subjetivas ou imateriais. Com base na análise dessas dimensões, os autores
ressaltam que a gestão e a organização podem ser vistas como uma metáfora de
família. Nessa metáfora estariam inseridos elementos simbólicos, por meio da e
na linguagem, que deveriam referir-se à relação da família com a empresa. Por
meio desse processo, ocorreria a criação e a manutenção de um
repertórioideológico-discursivo capaz de conformar as práticas gerenciais, as
formas de agir e de pensar, bem como legitimar a ação social dos atores
organizacionais na empresa. Isso seria possível já que as metáforas gerariam
uma visão mais flexível da organização, baseadas, sobretudo, nos elementos
simbólicos representados pela família (afetividade, proximidade, confiança,
etc.) e introjetados na dimensão racional e objetiva das organizações.
A família como significação cultural e identitária de um negócio, segundo Davel
e_Colbari_(2000), pode ser apresentada como referência simbólica e ideológica
para a sedimentação do trabalho entre seus membros e até mesmo entre os
empregados. Esses autores ainda asseveram que tais significações teriam a
capacidade de promover maior identificação entre trabalhadores e organização.
As bases estariam nas relações pessoais do fundador/dono para com os
empregados, de cunho afetivo e subjetivo (confiança, amizade, carisma, etc.), e
que propiciariam aos membros tornarem-se cúmplices em relação à organização e
seus valores. Além disso, esses autores ressaltam que pesquisas têm buscado
retratar como algumas organizações tentam realizar essa aproximação por meio de
dimensões afetivas no ambiente de trabalho. Assim, a referência à família como
metáfora de uma visão organizacional seria utilizada em outros contextos, por
exemplo, das organizações não familiares, com o intuito de associar os
elementos da realidade objetiva com os elementos da subjetividade associados à
família.
As relações que envolvem parentescos poderiam produzir, como assinala Godelier_
(1978), relações sociais de produção, desde que houvesse: acesso a recursos e
controle dos meios de produção; desenvolvimento de processo de trabalho, ou
redes necessárias à confecção de determinado produto; e circulação e
distribuição do trabalho – individual ou coletivo. Entretanto, Forges_e_Hamel_
(2000) argumentam que tais considerações da antropologia econômica revelam, de
maneira simplória e parcial, a complexidade do fenômeno, por eles denominado de
relações de mediação, em que as relações de parentesco regulariam o
desenvolvimento das empresas e seriam imprescindíveis para a subversão de uma
relação de dominação (nesse sentido, apresentando também certa funcionalidade
econômica). Para esses últimos autores, a metáfora da família no âmbito da
organização teria dois significados: um para os empregados (o de proximidade e
de solidariedade nas relações de trabalho, como de outrora – embora nela não
estejam presentes tais elementos) e outro para os patrões (a família estaria
associada à forma das quais eles se utilizam para manter a viabilidade
econômica das empresas).
Cavedon_e_Ferraz_(2003), ao analisarem a imbricação entre família e negócio,
perceberam que, como há uma diversidade de modelos de família na sociedade
contemporânea, torna-se necessário considerar a possível multiplicidade de
conceitos de organizações familiares. Desse modo, utilizam a noção de família
como critério mais relevante para a definição de organização familiar. Em suas
palavras, “na medida em que cada modelo de família apresenta sua especificidade
em termos de valores, as empresas familiares, por via de consequência, também
constituíram-se a partir de modelos diferenciados” (Cavedon_&_Ferraz,_2003,
p. 89). A importância de partir da família para melhor compreender as empresas
familiares também é ressaltada por Waiandt_e_Davel_(2008), que asseveram que a
dinâmica das organizações contemporâneas pode ser descortinada a partir do
estudo da influência de lógicas sociais aparentemente externas a elas, como a
família.
Waiandt_e_Davel_(2008) concluem que existem diferentes valores familiares que
perpassam o espaço organizacional e implicam novos arranjos híbridos de
organização familiar e empresarial. Esses arranjos fundem valores da família
moderna – na qual há divisão de tarefas no universo doméstico, e a mulher
ingressa e passa a ter papel relevante no universo do trabalho. Por essa razão,
a noção de empresa familiar é conferida não só pelo tamanho da empresa, mas
pelo modelo familiar e suas múltiplas influências e desdobramentos no espaço de
trabalho da organização, pois há uma simbiose entre família e organização
familiar. As autoras apontam ainda que os atores organizacionais e familiares
desempenham seus papéis e apoiam-se incondicionalmente, o que demonstra a
importância da família para o futuro do negócio e deste para a sobrevivência da
família. Aqui se insere outra discussão relevante: o processo identitário de
atores que atuam em contextos familiar e organizacional tão imbricados, com
implicações múltiplas e intensas a partir de qualquer ação ou estratégia
adotada.
As discussões que envolvem organizações familiares exigem um aprofundamento no
tema da construção das significações culturais e identitárias, das influências
que o contexto e o meio cultural exercem sobre essa construção, da mistura
entre os espaços da família e do negócio, das estratégias e táticas construídas
do organizar as atividades de forma coerente com as necessidades sentidas no
cotidiano.
5. O COTIANO E AS POSSIBLIDADES DE PESQUISA DO ORDINÁRIO
O cotidiano ainda é pouco estudado como categoria teórica na administração ou,
mais especificamente, nos Estudos Organizacionais (EORs). É pelo cotidiano, por
seu estudo, que se evidencia que os grupos sociais singularizam sua ação, suas
artes de fazer, sua produção e consumo, configurando um espaço de
interpretações (conflitantes inclusive) sobre suas estratégias e táticas
construídas. O estudo do cotidiano pode ajudar a elucidar por que algumas
estratégias e táticas são apropriadas e outras não, mostrando que o estudo sob
a ótica de uma racionalidade instrumental reduz os sujeitos a apenas indivíduos
definidos socialmente, arbitrariamente determinados pelas estruturas sociais.
O cotidiano só pode ser pensado como um lugar praticado onde se desenvolvem
inúmeras relações sociais de poder (De_Certeau,_1994; 1996). O cotidiano como
categoria de estudo não pode ser compreendido como algo a priori, naturalizado,
mas deve ser interpretado como uma produção da ação humana, que expressa as
relações sociais existentes. As pessoas, os sujeitos da pesquisa, construíram
suas práticas organizativas a partir de experiências no cotidiano do trabalho,
do exercício de suas atividades cotidianas, aprendendo com erros e acertos
(Holanda,_2011). As trajetórias cotidianas narradas são produtos de
intervenções humanas, materializações de projetos elaborados por sujeitos
históricos e sociais. Ao cotidiano estão ligados o uso dos espaços, a produção
e a reprodução de territórios e lugares (e não lugares), a construção de
significações culturais e identitárias, o organizar de um negócio, a criação de
uma família.
O cotidiano, então, impõe-se como uma categoria que pode possibilitar a
recuperação de outras experiências de gestão, de uma gestão aqui denominada de
ordinária, que propiciaria enfocar o mundo de experiência comum da gestão, da
organização de negócio de família como ponto de partida para se evidenciarem as
transformações em nossa sociedade. Não se está falando só do estudo dos hábitos
e rotinas, mas também de análises do movimento das práticas, das estratégias e
das táticas criadas pelos sujeitos, do movimento de ambiguidades e pluralidade,
de interpretações e experiências, de resistências ao processo de dominação
(Matos,_2002).
Na perspectiva que aqui se propõe, a gestão deixa de ser abordada como uma
categoria e inscreve-se no espaço da representação. Interessa o gerir, o
organizar como acontecimentos que se dão no cotidiano e podem ser estudados
nesse cotidiano. As formas de abordar o cotidiano podem ser diversas. Por meio
da análise dos discursos, podem-se apreender as práticas discursivas, os modos
de ação dos sujeitos nas organizações (Medeiros,_Borges_& Miranda,_2011;
Diniz,_2012 ; Souza_& Carrieri,_2012). Na análise crítica do discurso, os
discursos são vistos como processos em curso, práticas discursivas, práticas de
sujeitos que intervêm na realidade (Carvalho,_2004). A apreensão das práticas
discursivas possibilita o entendimento do fazer (o ato) e do dizer (a
representação do ato) no cotidiano da organização.
Outras abordagens usuais nos estudos organizacionais podem ser utilizadas para
o estudo da gestão ordinária. Entre elas, a etnometodologia pode ser um método
profícuo. Conforme Bispo_e_Godoy_(2012,_p._687), a etnometodologia foca a
compreensão e a apreensão dos modos de organização da existência social, na
análise das “práticas ordinárias no aqui e agora”, o interesse está na
compreensão do cotidiano. Os autores apresentam a etnometodologia como
perspectiva teórico-metodológica para a apreensão de práticas organizacionais,
concebidas com base em Gherardi_(2006). Para esses três autores, então, as
práticas poderiam ser evidenciadas como uma maneira mais ou menos constante no
tempo e no espaço social construindo um conjunto coerente de ações. Nesse
sentido, as práticas são significadas no contexto da ação, são historicamente
situadas, reconhecidas socialmente e orientadas por normas institucionais e
sociais, assim como as constituem. Uma das características principais dessa
abordagem das práticas é a visão de processo. O estudo das práticas pressupõe a
análise do acontecimento em processo, o organizar, e não o organizado, feito,
acabado, da organização. A etnometodologia propõe a análise dos modos, dos
métodos de organizar, o como os sujeitos fazem. Como método, seu foco são as
práticas cotidianas, com o objetivo compreensivo de entendimento dos sentidos
atribuídos pelos sujeitos a seus atos. O interesse está na interpretação da
realidade pelo compartilhamento de significados das práticas coletivas, nas
quais o pesquisador também se insere.
Trabalhar com a etnometodologia caracteriza-se por utilizar um aporte teórico-
metodológico compreensivo da fenomenologia, em que se busca produzir
conhecimento do fenômeno, de como as coisas ocorrem sob a perspectiva, olhar e
entendimento compartilhado entre pesquisador e os sujeitos da pesquisa. Busca-
se constituir conhecimento intersubjetivo, que se restringe aos limites da
análise da consciência. A preocupação é interpretativista, limitada à
compreensão de sentido e dirigida pelo interesse prático (Paula,_2012).
Refletindo sobre a etnometodologia nas pesquisas no cotidiano, aparece a imagem
do flâneur. A imagem do flâneur, desenhada por Benjamin_(1987), partindo de
Charles Baudelaire e Edgar Allan Poe, acena para a possibilidade de um caminhar
vivendo experiências nas ruas, nas avenidas, nas galerias, nas exposições, nos
cafés, nos parques e em meio a multidões que ocupam os espaços urbanos. Para
pensar o flanar, é importante adotar a flânerie para além do século XIX, em
Paris. Hoje, nas sociedades modernas, pode-se mencionar a existência de
flâneurs buscando outros ângulos de visualização da produção social citadina.
Cabe ao pesquisador flâneur retomar o passado social-histórico a partir do
presente. O trabalho do historiador é “escovar a contrapelo” (Benjamin,_1987),
para então, descobrir na narrativa histórica tudo aquilo que não foi revelado.
A história linear é a história dos vencedores, mas a história deve reviver as
vozes dos vencidos. Nessa retomada, importa também resguardar o caráter de um
conhecimento que leva em conta a história, a cultura e a tradição coletiva,
quer dizer, a experiência. Para o pesquisador flâneur, as casas e as ruas, as
galerias, os mercados, os shoppings populares têm cada qual sua história
própria e fazem emergir tempos diversos (não lineares) que irrompem no
presente. Para Benjamin_(1994), o flâneur é um observador do mundo em uma
perspectiva panorâmica, para poder ver as diferenças, a diversidade que povoa
os espaços urbanos.
Para Massagli_(2008,_p._57-58),
O flanêur, portanto, é [um] leitor da cidade, bem como de seus
habitantes, através de cujas faces tenta decifrar os sentidos da vida
urbana. De fato, através de suas andanças, ele transforma a cidade em
um espaço para ser lido, um objeto de investigação, uma floresta de
signos a serem decodificados – em suma, um texto. [...] O flanêur,
protótipo do sujeito moderno, por estar no meio do que tenta
descrever e não ter neutralidade e distanciamento na sua observação
(se é que isso alguma vez foi possível), limita-se a apontar as
transformações do cenário urbano e a revelar sua historicidade.
É caminhando pelas cidades/organizações/instituições que os pesquisadores podem
apreender as marcas de uma história que passa despercebida ao olhar apressado
de seus cidadãos/ funcionários/empregados. As ideias do flâneur (Benjamin,
2006) e do bricoleur(De_Certeau,_1994) ajustam-se muito bem à pesquisa do
cotidiano e à gestão ordinária.
Outras possibilidades, tanto quanto as de Benjamin_(2006) e De_Certeau_(1994),
podem concatenar-se à gestão ordinária, como a abordagem da análise crítica do
discurso que, pautada na filosofia dialética, busca as contradições nas
práticas discursivas. Nesse sentido, a proposta de estudo da gestão ordinária
incorporaria mais uma perspectiva crítica e não só compreensiva da realidade
organizacional. Conforme Paula_(2012), o foco da crítica dialética é no que não
se encaixa no padrão. No caso deste estudo, interessa o que não se encaixa na
lógica uniformizadora dos modelos funcionalistas de gestão. A gestão ordinária
pode ser entendida como aquela que não está pautada e não internaliza (ou
internaliza apenas em parte) os princípios de desempenho e disciplina, a
racionalidade instrumental, a universalização efetiva de atuar como produtor/
empreendedor útil para sociedade, a separação do trabalho/negócio/família. A
gestão ordinária pode propiciar ao pesquisador/professor de gestão observar as
intencionalidades institucionais e de grupos sociais em conduzir um acordo
implícito e objetivo da não incorporação do valor humano nas práticas sociais.
Isso devido ao predomínio do mercado, o que implica regimes de verdades –
objetivos e subjetivos –, que desqualificam os indivíduos e os grupos sociais
considerando-os como subgestores, subprodutores e até mesmo como subcidadãos
(Souza, 2006).
A proposta de estudo da gestão ordinária pauta-se no olhar de que a realidade
das organizações não pode ser apreendida por abordagens, pois a realidade
social é permeada de contradições e reconhecer realidades particulares é
reconhecer a diversidade. Teoricamente, possibilita abrir o leque de visão do
gestor e do estudioso de gestão para apreender as atividades de gestão como
realmente acontecem e não como modelos fixos, preestabelecidos. Sempre é bom
lembrar que metodologia, ou mais precisamente sua raiz etimológica (do grego
methodos e do latim methodus), expressa a ideia de caminho (Paschoal,_2001). O
que, então, possibilita criar caminhos para a pesquisa em administração e não
se ficar preso a caminhos já traçados, delineados em outras paragens, por
outras pessoas. A ideia de que os caminhos devem ser repetidos pelos outros
(pesquisadores) não se coaduna com a proposta da gestão ordinária. É preciso
experimentar novos caminhos, descontruir caminhos já feitos, pôr entre aspas os
“caminhos” já percorridos. Trata-se da experiência de construir novos caminhos,
segundo definição de Matos_(2010,_p._69), como modalidade de conhecimento, “é
práxis na qual se adquire um conhecimento que vai além da própria práxis, da
própria produção e seus eventuais resultados”.
6. CONSIDERAÇÕES FINAIS
Neste trabalho, o objetivo foi apresentar a gestão ordinária, que auxilia a
entender o cotidiano do Homem comum, que administra negócios ordinários. Nessa
perspectiva de análise sobre gestão, o interesse voltou-se para o Homem comum
(Martins,_2008), com suas relações sociais estabelecidas, sua forma de
organizar seus negócios, suas estratégias e táticas (De_Certeau,_1994) em
espaços denominados de exposições permanentes e/ou de passagens (Benjamin,
2006), em que esse sujeito, o Homem ordinário, irá realizar suas atividades de
negócio.
Neste texto, questiona-se a administração como única, bem como a ascendência de
uma racionalidade instrumental sobre as outras formas construídas na sociedade
(Benjamin,_2006). Nesse sentido, aceita-se a proposta de Alcadipani_e_Rosa_
(2010) e Alcadipani_(2011) sobre descolonizar o olhar do pesquisador e assumir
a produção do conhecimento científico a partir de uma diversidade científica,
em que diversas epistemologias são consideradas e potencialmente válidas para
compreender o social e fazer o questionamento de que as ciências naturais não
oferecem mais uma segurança epistemológica.
Concorda-se com Carvalho_(2006), quando ela aponta que a gestão precisa e deve
ser vista como diversa. Observa-se isso quando se vê que algumas pessoas
exercem a gestão de seus negócios pautadas na preservação de práticas
aprendidas em sua socialização primária e secundária, no cotidiano de seus
negócios, como que mantendo uma tradição; ainda outros podem optar por
desenvolver alternativas para sua forma de gestão, inovando nas práticas
cotidianas. Carvalho_(2006) e Holanda_(2011), quando fazem uma crítica ao uso
do substantivo organização, olham a gestão como diversa (o real como diverso).
As autoras sugerem usar o verbo organizar, pois ele registraria melhor dinâmica
da busca pelo novo, não legitimado ainda. Para essas autoras, organizar
atividades de forma coerente com as necessidades sentidas é um saber que pode e
deve ser de domínio de todos. Então, organizar é, para Holanda_(2011), um ato
elementar que faz parte da experiência humana de estar no mundo, é condição e
modo de participação na sociedade, nos arranjos sociais. Indo mais longe, pode-
se falar não em estudos organizacionais (EOR), mas em estudos das formas de
organizar (EFOR). Assim, busca-se mudar a condição colonizada de pensar essa
área na administração e fazer registro de uma melhor dinâmica do real, do não
legitimado no momento, do não universal.
Ao se questionar a administração universal, única, a ascendência de uma
racionalidade instrumental sobre as outras formas construídas na sociedade
(Ramos,_1981; Benjamin,_2006), deve-se trazer outros olhares, como o da
racionalidade substantiva (Ramos,_1981; Souza_&_Carrieri,_2011) e da
racionalidade subversiva (Feenberg,_1995; Neder,_2010). Ratifica-se a ideia de
Canevacci_(2004) e Rocha_e_Eckert_(2005), afirmando que, nos discursos dos
sujeitos, o que se apresenta é a ideia da coexistência de múltiplos contrários,
referindo-se, portanto, a contínuos. Deve-se, então, buscar entender esses
contínuos como racionalidades instrumental-substantiva-subversiva nas formas de
ocupação dos espaços, nas possibilidades de gerir um negócio (formal/informal,
legal/ilegal), nas interações entre famílias e negócios, nas relações entre a
casa e rua, etc. Esses contínuos produzem também críticas à gestão una. A um
tipo de gestão universal. Os sentidos, os significados, as significações são
várias.
Deve-se, além de historicizar os conceitos e as categorias na área de
administração, aceitar conscientemente a transitoriedade do próprio
conhecimento dessa área (Matos,_2002). Assim, nada estaria terminado, tudo é
processo histórico-social, várias podem ser as verdades, e é preciso buscar
quem as diz, pois:
como nos lembra Foucault (2008), as verdades são frutos de regimes ou
gêneros discursivos que através de um conjunto de regras constroem
proposições bem coerentes e aperfeiçoadas. São os regimes de verdade
com que cada época, cada homem tem que lidar. Regimes estes que
mudam, não existindo um único regime, mas uma variedade, com regras
específicas, histórica e culturalmente construídas (Pinheiro,
Carrieri_&_Joaquim,_2013, p. 233).
Em síntese, critica-se a visão de uma gestão una, uma pretensa gestão
universal. A proposta aqui apresentada de estudar outra forma de gestão, a
gestão ordinária, não nega a administração, disciplina de um saber científico,
como um saber-poder, mas questiona, põe em questão (Butler,_1998), o conteúdo
ensinado aos alunos do curso de bacharelado em administração. Ao ter como base
do estudo a realidade local, buscou-se descolonizar o olhar do professor e dos
pesquisadores. Assim, concorda-se com Mattos_(2009) e Holanda_(2011), bem como
com Barros_e_Carrieri_(2013), quando esses autores apontam que a naturalização
do saber administrativo retira do contexto sócio-histórico sua origem, fazendo
nas teorias administrativas do século XX um duplo movimento de construção da
realidade organizacional e de ornamentação dessa realidade sob o manto de uma
racionalidade, uma cientificidade e uma naturalização. Além dessa
naturalização, os autores apontam o reducionismo operado pelas teorias
administrativas tradicionais, tal como a tendência de identificar a ideia de
produtividade como sinônimo necessário de eficiência organizacional.
É preciso apartar-se de uma administração sistêmica e contingencial, que
naturalizaria a realidade social e se torna inábil para perceber os sentidos
opacos e tornados intransparentes à consciência científica, que constrói
discursos de um conhecimento puro ou neutro – restrito ao racional – e absoluto
e universal – excludente de outros saberes concorrentes –, e que triunfou
política e economicamente por meio das tecnologias ditas universais de gestão.
Também é preciso separar-se tanto de uma administração subjetivista, que
restringe a complexidade da realidade social à interação consciente entre seus
membros, quanto de uma administração que essencializa somente a dimensão
cultural, como nas teorias mais contemporâneas (Souza,_2006). É preciso mover-
se constantemente.
Sistema de Avaliação: Double Blind Review Editor Científico: Nicolau Reinhard