Teste de um modelo teórico sobre o valor percebido do preço de um produto
1. INTRODUÇÃO
O preço é considerado uma das mais importantes variáveis da gestão de marketing
(Bolton, Warlop & Alba, 2003). Vários esforços têm sido dirigidos para
analisar a percepção do preço dos produtos e sua influência na decisão de
compra (Zeithaml, 1988; Zielke, 2006; 2010). Neste estudo, buscou-se entender o
processo de construção do valor percebido do preço de produto, identificando
inicialmente as dimensões-chave de sua formação e operacionalizando um modelo
conceitual que auxilia em seu entendimento. Para tanto, foi formulada uma
escala de mensuração do valor percebido do preço de produto como uma ferramenta
para melhor compreender como ele pode ser configurado junto aos consumidores e
servir de apoio na tomada de decisão das empresas no que tange ao gerenciamento
de estratégias de preço.
Neste estudo, o foco é avaliar esse conceito em um dado contexto e mercado,
como fator relevante para entender o comportamento de compra do consumidor e
para direcionar melhores estratégias de formação de preço. O valor percebido de
preço é formado por um conjunto de representações mentais, impressões,
convicções e redes de significados armazenado na memória dos consumidores. Essa
multidimensionalidade está refletida nas dimensões funcional, emocional,
simbólica, de justiça, axiomática e social da percepção do preço, como
construtos antecedentes do valor percebido do preço de produto e da consequente
intenção de compra (De Toni & Mazzon, 2013).
Com base na proposição inicial de um modelo teórico integrativo feita por De
Toni e Mazzon (2013), neste trabalho o objetivo é operacionalizar, testar e
validar empiricamente esse modelo, por meio da proposição e da validação de uma
escala para a mensuração do valor percebido do preço de produto. Tal modelo é
apresentado com vários diferenciais em relação aos modelos recentes disponíveis
na literatura especializada, seja em termos de seu caráter integrativo, seja em
relação às escalas dos construtos antecedentes considerados. Assim,
inicialmente foi gerado um conjunto de itens associados a cada construto do
modelo proposto; em seguida foram efetuados os ajustes necessários nas escalas
por meio da análise de indicadores de confiabilidade calculados junto a duas
amostras de 114 e 45 consumidores, respectivamente. Por fim, procedeu-se à
análise da validação e confiabilidade das escalas purificadas com base em outra
amostra composta por 337 consumidores. Nessa etapa, analisaram-se a validade e
a confiabilidade de cada construto, por meio da técnica de modelagem de
equações estruturais. A análise da qualidade dos índices de ajustes das
dimensões que compõem o modelo teórico pode ser considerada satisfatória. Com
base nos resultados alcançados, neste estudo, apresenta-se uma contribuição ao
estado da arte desse tema em marketing pela proposição e teste do modelo e
pela formulação das escalas de mensuração e subsidiam-se dirigentes de
organizações para o redirecionamento de estratégias de precificação de produtos
ou serviços.
2. FUNDAMENTAÇÃO TEÓRICA
O preço é considerado uma das variáveis mais impactantes na rentabilidade das
organizações. Tanto preços baixos demais quanto altos demais podem reduzir
significativamente a lucratividade das organizações (Simon, Bilstein &
Luby, 2008). Assim, estudos do preço e de sua formação, tanto numa perspectiva
da microeconomia quanto do marketing, passam necessariamente pela identificação
do valor percebido na oferta pelo consumidor.
Dentro da microeconomia, Adam Smith foi um dos pioneiros a estudar o papel do
preço no consumo de bens e serviços a partir do conceito de valor. Valor, para
Smith, significa tanto o valor de uso, dado pela utilidade do objeto, quanto o
valor de troca, dado pelo poder de compra que o objeto possui em relação a
outras mercadorias (Smith, 1976). Outros estudos do preço na microeconomia,
como a curva de demanda, a elasticidade de preços, a teoria da firma, a
concorrência e a teoria dos jogos (Besanko, Dranove, Shanley & Schaefer,
2006), têm um papel importante no entendimento do preço e em sua formação,
levando em conta características da demanda e da oferta. No entanto, a função
do preço é um processo multidimensional e multidisciplinar muito mais complexo
que um simples indicador de custo monetário de compra para o consumidor e sua
relação com o mercado. Como afirma Diamantopoulos (2005, p. 248), "o preço é
uma declaração de valor e não uma declaração de custo". A percepção de valor é
uma escolha mental obtida pelo consumidor derivada de uma relação entre
benefícios percebidos e sacrifícios incorridos (Mittal, Holbrook, Beatty,
Raghubir & Woodside, 2007).
Sheth, Newman e Gross (1991) sugerem um modelo de valor para o consumo,
incorporando diferentes dimensões do valor atribuído a um produto ou serviço.
Os autores tratam de cinco dimensões da percepção do valor para o consumo, a
saber: o valor funcional (a utilidade percebida no desempenho funcional,
utilitário ou físico); o valor social (utilidade percebida da oferta em relação
a um ou mais grupos sociais); o valor emocional (habilidade do produto ou
serviço em despertar sentimentos, estados afetivos, os quais podem ser
positivos, como o prazer, ou negativos, como a raiva); o valor epistêmico (a
utilidade percebida quando o produto provoca curiosidade, traz novidade ou
satisfaz desejo de conhecimento), e o valor condicional (percepção que ocorre
em função de situações específicas). Para esses autores, a decisão de compra
baseia-se numa rede complexa de valores, em que as diferentes dimensões da
percepção do valor se manifestam com ênfases diferentes, em distintas
situações, em que tais dimensões de valor são independentes.
Para Holbrook (1999), o valor para o cliente é interativo, relativo,
preferencial e fundamentado na experiência. É interativo, pois baseia-se na
interação entre o objeto e o consumidor, podendo ser o objeto um produto,
serviço, local, etc. É relativo, pois envolve comparação (preferência entre os
objetos) e é ainda pessoal (varia entre os indivíduos). É situacional, pois
depende do contexto em que o julgamento de valor é feito. É preferencial, pois
envolve valores pessoais na escolha ou não do objeto. Por fim, o valor é
experiencial, dado que decorre da vivência de consumir. A tipologia de Holbrook
é multidimensional, pois captura os componentes econômicos, sociais, hedônicos
e altruístas do valor percebido; dessa forma, a criação de valor para o cliente
tem se constituído em um imperativo à construção e à sustentação de uma
vantagem competitiva (Sánchez-Fernández & Iniesta-Bonillo, 2007).
É certo que o valor percebido per se já incorpora um componente de preço, que
está relacionado ao sacrifício monetário ou custo para a obtenção do produto;
no entanto, em uma adaptação do termo valor percebido do produto, Zielke (2010,
p. 751) utiliza a expressão "valor para o dinheiro". Nesse sentido, valor para
o dinheiro é definido como uma escolha entre o que é dado e o que a organização
recebe pelo dinheiro do consumidor. Em um contexto de produto, o valor para o
dinheiro é o resultado dessa escolha entre o sacrifício de despender o dinheiro
e a utilidade derivada do produto ou de seus atributos. Os conceitos valor do
produto e valor para o dinheiro são distintos; o segundo expressa o valor
percebido associado ao preço do produto e sua relação com os benefícios
relacionados a ele. Um jovem pode avaliar um jeans como muito barato, mas não
necessariamente com valor agregado. Da mesma forma, ele pode perceber um jeans
que ofereça um bom valor para seu dinheiro, mas não o percebendo como barato
(Zielke, 2010).
Neste estudo, ampliou-se o conceito de valor para o dinheiro, ao se considerar
que valor retrata uma percepção de imagem e que a palavra dinheiro traduz
apenas uma ideia restrita à dimensão monetária. Optou-se, desse modo, por
denominar valor percebido do preço, uma vez que foram incluídos na escala itens
que compõem o construto no sentido de que ele represente unidimensionalmente a
concepção de valor percebido do preço de produto, traduzindo melhor a percepção
do preço associada aos benefícios derivados do consumo do produto e dos custos
de sua aquisição. A maioria dos itens que compõe a escala para mensurar o valor
percebido do preço de produto refere-se especificamente ao componente de preço.
Portanto, quer-se avaliar fundamentalmente a questão do preço, seja a avaliação
de uma oferta de preço, seja a de um desconto de preço. Dessa forma, não se
poderia ampliar o conceito de valor percebido de preço de produto para o de
valor percebido ou valor percebido de produto, no mínimo, por estarem ausentes,
do lado de benefícios percebidos, a dimensão emocional contemplando outros
aspectos que não o preço, bem como, na dimensão de sacrifício, itens de
natureza psicológica, de tempo e de energia despendida para a aquisição do bem
ou serviço (De Toni & Mazzon, 2013). A decisão de compra de um produto ou
serviço é afetada pelo valor percebido do preço de produto. É usual que o
processamento mental do consumidor utilize a informação do preço como uma pista
auxiliar na mensuração da qualidade inferida e de valor na escolha de um
produto ou serviço (Zeithaml, 1988; Bolton & Drew, 1991; Mittal et al.,
2007), em que um maior valor percebido do preço próximo das expectativas do
consumidor tende a levar a um aumento na intenção de compra e na rentabilidade
(Cross & Dixit, 2005). Portanto, melhorias no valor percebido do preço de
um produto estão associadas a incrementos no valor do produto para o
consumidor. Tomando-se por base esses pressupostos teóricos, tem-se a primeira
hipótese a ser testada nesta pesquisa:
H1a O valor percebido do preço de um produto ou serviço tem um
impacto direto e positivo nas intenções de compra do consumidor.
2.1. Dimensões que impactam no valor percebido do preço do produto
O valor percebido do preço pode ser definido como uma variável latente
impactada por dimensões que traduzem uma convicção subjetiva, funcional,
social, epistêmica, emocional e condicional associada ao preço de um produto ou
serviço (Sheth et al., 1991; Zielke, 2006; 2011).
A partir de estudos realizados por Sheth et al. (1991), Sweeney e Soutar
(2001), Zielke (2006; 2010; 2011), Mittal et al. (2007) e Schuler, De Toni,
Milan, Panizzon e Larentis (2010), foram identificadas 11 dimensões
relacionadas com a percepção dos benefícios do produto e do sacrifício exigido
para sua aquisição. Essas dimensões referem-se aos aspectos de natureza físico/
material, emocional, de autoestima, funcional, de poder, social, de justiça,
simbólica, visionária, axiomática e teleológica. Com base na análise dos
conceitos associados a cada dimensão, foi possível efetuar um refinamento delas
de forma a assegurar que cada dimensão fosse agrupada apropriadamente,
eliminando-se dimensões que não apresentaram relevância para o presente estudo.
Sete dessas dimensões compõem o modelo final a ser testado: funcional,
emocional positiva, emocional negativa, simbólica, de justiça, axiomática e
social e estão relacionadas entre si.
Uma síntese do conceito associado a cada uma dessas sete dimensões e as
hipóteses de pesquisa formuladas são apresentadas a seguir (para maior
detalhamento da fundamentação teórica, ver De Toni e Mazzon (2013)). Na
perspectiva da dimensão funcional, Zeithaml (1988) argumenta que, quando não há
outras sugestões de qualidade, o consumidor utiliza o preço para inferir a
qualidade de um produto. Porém, quando o preço é apresentado com outras
indicações intrínsecas, sua evidência é menos convincente. Dessa forma, o uso
do preço como um indicador funcional da qualidade de um produto depende de
diversos fatores, como disponibilidade de informações para poder avaliar a
qualidade do produto; variação de preço entre marcas concorrentes; nível de
consciência de preço pelo consumidor; habilidade do consumidor em perceber a
variação de qualidade existente em uma categoria de produtos; e, ainda,
percepção de que baixa qualidade implica risco de perda. A marca também
representa uma característica da dimensão funcional do produto, uma vez que
comunica reputação e confiança na organização. Assim, para inferir a qualidade
de um produto, o consumidor pode guiar-se pela marca em vez do preço (Zeithaml,
1988; Monroe, 1990; Nagle & Holden, 2003). Nesse sentido, o valor funcional
está normalmente associado ao construto qualidade ou marca e sua relação com a
percepção de preço (Sweeney & Soutar, 2001; Costa, 2007). Conclui-se,
assim, que quanto maior o valor dessa variável latente, maior a qualidade
percebida pelo consumidor. Essas ideias embasam as duas hipóteses de pesquisa
apresentadas a seguir:
H1b A dimensão funcional tem um impacto direto e positivo nas
intenções de compra do consumidor.
H2a A dimensão funcional tem um impacto direto e positivo no valor
percebido do preço de um produto ou serviço.
O valor da dimensão emocional é derivado de um sentimento ou estado afetivo que
pode impactar em diferentes situações de escolha de um objeto (Sheth et al.,
1991). Nesta pesquisa, a dimensão emocional corresponde a um sentimento ou
estado afetivo que o preço de um produto suscita no consumidor. O preço pode
evocar, simultaneamente, tanto uma emoção positiva quanto negativa. Emoções
positivas (por exemplo, alegria) estão associadas com um comportamento do
consumidor proativo, de aproximação ou ativação em relação a uma marca ou
produto; já emoções negativas (por exemplo, medo) estão associadas com um
comportamento passivo, de inibição ou de evitar uma marca (Peine, Heitmann
& Herrmann, 2009; Zielke, 2011). Depreende-se, assim, que valores mais
elevados da variável latente emoções sentidas pelo consumidor estão diretamente
relacionados com a percepção de preço. Em consequência, podem-se formular duas
hipóteses de pesquisa:
H2b A dimensão emocional positiva que o consumidor tem em relação a
um produto ou serviço tem um impacto direto e positivo no valor
percebido de seu preço.
H2c A dimensão emocional negativa que o consumidor tem em relação a
um produto ou serviço tem um impacto direto e negativo no valor
percebido do preço do bem transacionado.
A dimensão de justiça de preço compreende o processo de julgamento que o
consumidor faz em relação ao preço do vendedor. Segundo Xia, Monroe e Cox
(2004) e Munnukka (2006), há quatro fatores que influenciam a percepção de
justiça ou injustiça no preço: transações percebidas como similares, mas que em
uma o preço é maior do que em outra, levando a um julgamento de preço injusto;
a não compreensão do motivo pelo qual a empresa realizou alguma alteração de
preço também pode denotar uma situação de injustiça percebida; a confiança
entre o cliente e a empresa, derivada de relacionamentos feitos ao longo do
tempo, em que, quanto maior a confiança depositada, maior a percepção de
justiça no preço; as crenças do consumidor sobre as normas de trocas
comerciais, salientando-se que, quanto maior for a percepção de existência de
regras comerciais adequadas, maior a sensação de justiça no preço. Segundo
Kukar-Kinney, Xia e Monroe (2007), quanto mais justo um preço é percebido pelo
consumidor, maior é sua intenção de compra, reforçando a suposição também de
que, quanto maior é a percepção de injustiça no preço, mais o consumidor se
sentirá estimulado a buscar outras alternativas de compra, podendo inclusive
trocar de marca. Assim, a percepção de justiça com relação ao preço do produto
significa que, quando aumenta o valor dessa variável latente, aumenta também a
intensidade do valor percebido do preço do bem transacionado e a intenção de
compra por parte do consumidor. Pode-se conjecturar assim que:
H1c A percepção de justiça de preço por parte do consumidor tem um
impacto direto e positivo em sua intenção de compra.
H2d A dimensão de justiça tem um impacto direto e positivo no valor
percebido do preço de um produto ou serviço pelo consumidor.
Como dimensão axiomática, Vinson, Scott e Lamont (1977) sugerem uma estrutura
hierárquica para o entendimento dos valores pessoais dentro do contexto de
comportamento do consumidor:
* o primeiro nível, de natureza inclusiva e genérica, corresponde ao nível
global de valores, formado por crenças duradouras que guiam os
julgamentos, as decisões e os comportamentos de uma pessoa;
* o nível de valores específicos corresponde a valores adquiridos pelas
pessoas a partir de experiências dentro de certos ambientes e domínio de
atividades, é o caso, por exemplo, de indivíduos que adquirem valores
relativos às transações econômicas por meio da vivência de trocas e
consumo, ou, ainda, da aquisição de valores sociais por meio de vivências
familiares e grupais;
* o nível de valores relativos a crenças descritivas e avaliativas
corresponde àquelas por meio das quais os consumidores avaliam produtos e
serviços em seu processo de decisão de compra e de consumo e, em
decorrência, identificam os atributos que consideram desejáveis para um
bem dessa natureza.
Assim, quanto maior for a dimensão axiomática de um produto ou serviço, maior
deve ser a intensidade do valor percebido do preço pelo consumidor. Essa ideia
sustenta a formulação da hipótese a seguir:
H2e A dimensão axiomática do consumidor tem impacto direto e
positivo no valor percebido do preço de um produto ou serviço.
A dimensão simbólica ressalta a ideia de que um consumidor, ao comprar um bem,
leva também em conta seus atributos simbólicos, ou seja, aquilo que representam
para ele e para os demais elementos de seu convívio (Levy, 1981; Lichtenstein,
Ridgway & Netemeyer, 1993). O consumidor percebe, nessa dimensão, o
benefício do produto como símbolo, como representação de algo para si mesmo ou
para os outros. O principal elemento do simbolismo de um produto ou serviço
relaciona-se com o sentimento de poder, ou de falta dele. Essa percepção pode
promover um maior desejo de adquirir, por exemplo, produtos associados com
status ou com reconhecimento, levando à propensão de pagar mais por esses
produtos (Rucker & Galinsky, 2008). O preço pago pelo consumidor na
aquisição de um bem pode sugerir diferentes simbologias: poder, posição social,
sofisticação, ou fraqueza, desleixo e mau gosto. É comum a dimensão simbólica
representar ideologias, quer sejam consumistas, quer sejam imbuídas de valor
social. Depreende-se, assim, que maiores valores na dimensão simbólica estariam
associados com valores percebidos de preço mais elevados. Esse pensamento
embasa a seguinte hipótese de pesquisa:
H2f A dimensão simbólica associada com um produto ou serviço tem
impacto direto e positivo no valor percebido do preço do bem
transacionado.
A dimensão social faz parte do processo de socialização do indivíduo para
desenvolver atitudes de compra relacionadas com o grupo social em que está
inserido. O preço é um dos fatores que mais se destacam dentro desse contexto
(Zielke, 2006). Disseminou-se, em marketing, o conceito de atitude de preço
(Zielke, 2010), que representa uma forma de participação em um grupo social.
Esse conceito pode ser exemplificado em marcas de luxo. O consumidor costuma
perceber, até mesmo antes de entrar em uma loja, qual a expectativa que tem do
nível de preço e que tipo de postura de compra é dele esperada (Galhanone,
2008). O indivíduo costuma preocupar-se com o que as outras pessoas pensam
sobre ele e com aquilo que os outros compram e usam (Bearden, Netemeyer &
Teel, 1989). Desse modo, o valor social existe quando o produto ou o preço está
associado a uma percepção positiva do grupo social (Sheth et al., 1991),
salientando-se que, quanto maior for a dimensão social associada a um bem,
maior deve ser o valor percebido do preço do produto pelo consumidor, conceito
que fundamenta a próxima hipótese de pesquisa:
H2g A dimensão social relacionada com um produto ou serviço tem
impacto direto e positivo no valor percebido de seu preço pelo
consumidor.
2.2. Relação entre as dimensões que influenciam o valor percebido do preço
Um importante aspecto da modelagem estatística refere-se à independência, ou
não, entre os construtos antecedentes do valor percebido do preço. Na
literatura, identifica-se que, na modelagem de eventos multidimensionais,
construtos costumam ser relacionados entre si (Sweeney & Soutar, 2001;
Zielke, 2011). Procurou-se, desse modo, encontrar suporte teórico de como esses
construtos estariam inter-relacionados.
Há décadas discute-se a relação entre preço e qualidade percebida (Zeithaml,
1988). Lichtenstein, Ridgway e Netemeyer (1993) argumentam que o preço, em
geral, corresponde a um indicador relevante da qualidade de um produto. Pode-se
deduzir, assim, que o preço, como uma variável proxy de qualidade, impacta
positivamente a percepção de justiça do preço de um bem. O ditado popular "é
caro, mas é bom" revela que o consumidor, mesmo pagando mais caro por um
produto, tende a perceber que o preço pode ser justo, em vista do significado
simbólico e social para ele e pelos benefícios funcionais que recebe.
Igualmente, a crença de que "o melhor é mais caro" também reflete a relação
entre a dimensão funcional e a simbólica (Hawkins, Mothersbaugh & Best,
2007). Nesse contexto, a marca e o preço são importantes aspectos para
evidenciar simbolismos relacionados com o produto (Rucker & Galinsky,
2008). Da mesma forma eventos e situações específicas vivenciadas pelo
consumidor podem levar a diferentes percepções de justiça e de emoções
associadas com o preço de um produto (Bagozzi & Dholakia, 1999; Adaval
& Monroe, 2002; Zielke, 2011). Com isso, pode-se inferir que:
H3 A dimensão funcional tem um impacto positivo na dimensão de
justiça de preço do produto ou serviço.
H4 A dimensão funcional tem um impacto positivo na dimensão
simbólica do produto ou serviço.
Um segundo aspecto está relacionado à busca de prestígio, poder ou status
proporcionado pela compra e pelo uso de um produto motivada pela necessidade de
criar uma imagem social positiva do indivíduo perante outros. O preço, em
especial o de elevado valor, assume essa dimensão simbólica, provocando emoções
positivas no consumidor (Zielke, 2011). Como ressaltam Levy (1981) e Stern,
Zinkhan e Jaju (2001), produtos são adquiridos e consumidos não somente por sua
utilidade, mas também pelo que eles representam ou projetivamente podem
significar.
Um terceiro aspecto a ser destacado refere-se à associação entre a dimensão
simbólica do produto e a axiomática, representada esta pelo quão importante e
necessário o produto é para o consumidor (Vinson et al., 1977). Sweeney, Soutar
e Johnson (1999) e Nagle e Holden (2003) ressaltam que a compra de um produto
com forte poder simbólico é feita, muitas vezes, com o propósito de comunicar
às pessoas de seu grupo social que teve condições de adquiri-lo, como, por
exemplo, um automóvel, um sapato ou uma roupa de luxo. O produto, representando
uma simbologia, promove a dimensão social do consumidor a partir do momento em
que ele percebe nele um maior poder de inserção em seu círculo social. Derivam-
se daqui, portanto, as seguintes hipóteses de pesquisa a serem testadas:
H5 A dimensão simbólica tem um impacto positivo na dimensão
emocional positiva de um produto ou serviço.
H6 A dimensão simbólica tem um impacto positivo na dimensão
axiomática de um produto ou serviço.
H7 A dimensão simbólica tem um impacto positivo na dimensão social
de um produto ou serviço.
Uma quarta dimensão a ser considerada em termos de relacionamento com outros
construtos é a emoção vivenciada pelo consumidor no ato da compra. O preço de
um produto ou serviço tem impacto significativo nas emoções do comprador. A
percepção da justiça do preço impacta os sentimentos do consumidor (Zielke,
2011). Se o consumidor percebe o preço como justo, o impacto nas emoções é
positivo. Em caso contrário, sentindo ser o preço injusto, o consumidor tende a
gerar emoções negativas (Xia et al., 2004). Pesquisas mostram que preços altos
considerados injustos causam sentimentos de angústia, raiva ou de indignação no
consumidor (Zielke, 2010; 2011). Serpa (2006) mostra que injustiça percebida no
preço de um produto afeta não apenas o estado emocional do consumidor, mas
também a dimensão axiomática, por meio da redução da importância desse bem para
o consumidor. Com base nesse suporte teórico, propõe-se testar as seguintes
hipóteses:
H8 A dimensão de justiça tem impacto favorável na dimensão
emocional positiva.
H9 A dimensão de injustiça tem impacto desfavorável na dimensão
emocional negativa.
H10 A dimensão de justiça tem impacto positivo na dimensão
axiomática.
Na Figura_1, apresenta-se o conjunto das hipóteses de pesquisa propostas neste
estudo e discutidas com maior profundidade conceitual em De Toni e Mazzon
(2013).
Apresentado o suporte conceitual para cada uma das hipóteses de pesquisa, que
resultou na proposição do modelo teórico a ser testado o qual integra
diferentes dimensões e inter-relações mais significativas derivadas de inúmeros
autores e abordagens da literatura de marketing , discutem-se, em seguida, os
procedimentos metodológicos empregados na pesquisa e particularmente na geração
e na purificação da escala de mensuração de cada um dos construtos
considerados.
3. MÉTODO
O desenvolvimento das escalas para mensurar cada um dos construtos e o modelo
teórico proposto, com confiabilidade e validade satisfatórias, foi feito
tomando-se por base procedimentos metodológicos propostos por Churchill (1979),
Devellis (2003), Du Preez, Visser e Noordwyk (2008), Hair, Black, Babin,
Anderson e Tatham (2009) e Tabachnick e Fidell (2011).
3.1. Operacionalização e ajustes do instrumento de coleta de dados
A composição dos itens foi baseada no modelo proposto na Figura_1, a maioria
dos quais foi adaptada de escalas constantes na literatura. A escala inicial
foi composta de 68 itens, e as denominações originais em inglês foram vertidas
para o português por meio do método de tradução reversa feita por dois
professores de marketing que dominam essa língua. Subsequentemente, cada item
da escala foi revisado para clarificar o máximo possível seu entendimento.
Buscando a purificação da escala, foi realizado um estudo-piloto com 114
estudantes de uma universidade do interior do Rio Grande do Sul. A escala
utilizada foi do tipo bietápica de Likert de 6 pontos, que permite sua
aplicação em dois momentos: o primeiro, avaliando o sentido (discordância ou
concordância com o item); e o segundo, a intensidade (pouca, muita ou total) da
discordância ou concordância (Mazzon, 1981). Nessa escala, cada respondente foi
convidado a imaginar uma peça de vestuário ou um acessório, cujo preço
aproximado de venda nas lojas fosse ao redor de R$ 500,00, que podia ser
parcelado. A proposição do preço surgiu a partir de um estudo exploratório com
as cinco principais lojas de confecções da mesma cidade onde foi realizada a
pesquisa.
Os resultados indicaram que o público jovem de classe média entre 20 a 30 anos
costuma gastar, em média, de R$ 300,00 a R$ 600,00 quando compra vestuário.
Desse modo, as respostas aos itens que compuseram as escalas dos diferentes
construtos levaram em consideração esse particular tipo de produto e nível de
preço. A análise do banco de dados dessa amostra-piloto foi direcionada para
avaliar a consistência interna das escalas dos construtos e as relações entre
eles. Para isso, utilizou-se a técnica de análise fatorial e efetuou-se o
cálculo dos coeficientes alfa de Cronbach e estatísticas associadas (Hair et
al., 2009). Observou-se, pela análise fatorial, que alguns itens relacionados
com a percepção de justiça e com o valor percebido do preço não se agruparam
conforme a primeira proposição da escala. Os alfas calculados possibilitaram
identificar itens que pouco contribuíam para a consistência interna das
escalas. Apesar disso, os resultados mostraram-se mais adequados que os obtidos
por Sweeney et al. (1999), que identificaram que alguns construtos eram
indistinguíveis. A partir dos resultados do estudo-piloto, pôde-se efetuar uma
série de ajustes nos itens das escalas dos diversos construtos que compõem o
modelo teórico da pesquisa.
Com base em uma nova versão do questionário, procedeu-se à validação de face e
de conteúdo (Netemeyer, Bearden & Sharma, 2003; Hair et al., 2009), em que
o instrumento foi novamente submetido à avaliação de dois experts da área. Na
validade de conteúdo, os especialistas analisaram o quanto os itens das escalas
refletiam efetivamente o conteúdo de cada construto. Na validade de face, os
especialistas julgaram a facilidade de compreensão, o estilo de redação, as
instruções para resposta, leiaute e outros aspectos do uso da escala. Após esse
refinamento, o instrumento foi pré-testado com uma nova amostra de 45
estudantes universitários. A análise estatística dos resultados referentes à
confiabilidade e à validade convergente e discriminante não apresentou
problemas que exigissem nova purificação das escalas. A partir desse segundo
estudo-piloto, pôde-se finalizar o instrumento de coleta de dados e efetuar sua
aplicação à amostra final deste estudo.
3.2. Procedimentos para a análise de confiabilidade e validade dos construtos
do modelo
A coleta dos dados junto à amostra final de respondentes foi realizada em uma
universidade da Serra Gaúcha, sendo utilizado o método de amostragem não
probabilístico de conveniência. Dos 337 casos válidos da amostra, 54,6% são do
gênero masculino. Com relação à idade, 65% da amostra tem menos que 25 anos. A
renda bruta pessoal de até R$ 1.000,00 correspondeu a 29,4% da amostra; 52,8%
ganham entre R$ 1.001,00 e R$ 2.000,00 e 17,8% ganham mais de R$ 2.000,00. Em
relação à forma de pagamento, apenas 35% pagariam em até duas vezes o vestuário
imaginado com valor aproximado de R$ 500,00, enquanto os outros 65% pagariam em
mais de três vezes. Pode-se pressupor, assim, que a forma de pagamento para o
valor informado é coerente com a renda dos entrevistados.
O processamento dos dados foi feito nos software IBM SPSS Statistics e Amos,
tendo-se utilizado as técnicas de análise fatorial exploratória (EFA) e análise
fatorial confirmatória (CFA) para a avaliação dos construtos, enquanto a
modelagem de equações estruturais (SEM) foi empregada para testar o modelo
estrutural proposto. Para atender aos pressupostos para aplicação dessas
técnicas, foram ainda analisados:
* missing values, tendo-se omitido oito observações em que ocorreu essa
condição;
* outliers, tendo-se excluído nove casos que apresentaram valores
padronizados superiores a |3| desvios padrões;
* análise das condições de normalidade dos dados na amostra remanescente de
337 casos, tendo-se testado o pressuposto de normalidade univariada
(Skewness e Kurtosis) e multivariada (teste de Mardia). A condição de
normalidade univariada foi atendida em todas as variáveis do modelo, em
que a assimetria se situou entre-0,740 e 0,543, com um valor médio de -
0,071. A amplitude da Kurtosis situou-se em -1,150 e 0,172, com um valor
médio de -0,708. A partir do recomendado por Hau e Marsh (2004),
identifica-se que os dados são moderadamente não normais. Na perspectiva
do teste de Mardia, a estimativa da Kurtosis multivariada foi de 140,78
com uma razão crítica de 33,86. Quando esses valores estimados são
elevados, tem-se Kurtosis significante e positiva. No caso, a magnitude
dos valores obtidos no teste de Mardia sugere uma moderada normalidade
multivariada (Byrne, 2009). Há um razoável consenso na literatura quanto
às dificuldades de serem obtidos dados normais em estudos empíricos em
ciências sociais (Byrne, 2009; Hair et al., 2009; Tabachnick &
Fidell, 2011). Nesse sentido, quando os dados apresentam não normalidade
adequada, há algumas medidas corretivas para o tratamento de amostras não
normais. Um desses procedimentos consiste na estimação dos parâmetros
pela abordagem ML (maximum likelihood) com aplicação do procedimento de
bootstrapping;
* a condição de homocedasticidade foi analisada utilizando-se o teste M de
Box e o teste de Levene, tendo duas variáveis ("O tempo gasto para
encontrar preços mais baixos desse produto geralmente vale o esforço"; e
"Eu frequentemente reúno informações de amigos ou familiares sobre o
preço do produto antes de comprar") apresentado padrões de
heterocedasticidade, as quais foram retiradas do modelo de mensuração;
* a condição de linearidade, segundo Hair et al. (2009) e Pestana e Gageiro
(2000), foi avaliada com base no gráfico de resíduos padronizados. Por
meio da verificação dos scatterplots, constatou-se que todas as dimensões
do modelo estudado apresentaram relações lineares;
* por último, a multicolinearidade foi analisada por meio do teste de
tolerância, tendo-se identificado que todas elas apresentaram níveis
aceitáveis, situando-se a tolerância entre os valores de 0,468 a 0,914
com o fator de inflação da variância (VIF) entre 1,1 a 2,5.
As propriedades psicométricas de validade e confiabilidade do instrumento foram
analisadas por meio das técnicas de EFA e CFA, dos coeficientes alfas de
Cronbach e de indicadores específicos da SEM. Antes de validar o modelo
integrado, foi realizada a validação individual de cada um dos construtos do
modelo teórico, tendo-se avaliado as condições de: unidimensionalidade;
confiabilidade composta; validade convergente; e validade discriminante dos
construtos.
A análise da unidimensionalidade foi feita a partir da (EFA com o método de
componentes principais com rotação fatorial oblíqua, enquanto a de
confiabilidade foi realizada por meio do cálculo dos coeficientes alfas de
Cronbach. A EFA possibilitou avaliar o agrupamento das variáveis e a qualidade
dos fatores extraídos. Os testes de Kaiser-Meyer-Olkin (KMO) e de esfericidade
de Bartlett indicaram um KMO de 0,87 com significância de p<0,000. A
comunalidade calculada para cada variável situou-se acima de 0,50, enquanto a
variância explicada foi de 55%, considerada adequada na área de ciências
sociais (Hair et al., 2009). Em termos da confiabilidade dos construtos,
observou-se que todos os alfas de Cronbach situaram-se acima de 0,70, indicando
satisfatória confiabilidade interna dos construtos, conforme recomendado pela
literatura (Tabachnick & Fidell, 2011).
Efetuou-se a análise da validade convergente baseada na variância extraída,
tendo-se identificado que as dimensões emocional negativa (0,45) e social
(0,41) apresentaram valores pouco abaixo do recomendado (0,5) (Fornell &
Larcker, 1981, Hair et al., 2009). Optou-se por manter esses itens nos
construtos do modelo a ser estimado uma vez que há suporte teórico que sustenta
sua permanência (Zielke, 2011). Para a validade discriminante, utilizou-se o
teste de Fornell e Larcker (1981). Para aplicá-lo, uma análise fatorial
confirmatória por máxima verossimilhança foi conduzida para o modelo com as
sete dimensões antecedentes do valor percebido do preço de produto, tendo-se
obtido valores estatisticamente significativos. De acordo com o teste de
Fornell e Larcker (1981), a validade discriminante é alcançada quando a
variância extraída de cada construto é maior do que as variâncias
compartilhadas (correlações ao quadrado) com outros construtos, condição que
pode ser observada na Tabela_1.
Na Figura_2 há os itens utilizados para mensuração dos fatores antecedentes e
consequentes do valor percebido do preço de um produto. As dimensões
apresentadas (antecedentes) foram justificadas pela revisão da literatura e
pelos indicadores estatísticos de validade e confiabilidade. Quanto a fatores
consequentes do valor percebido do preço, poder-se-ia ter utilizado diferentes
construtos, tais como lealdade, satisfação, confiança e outros. No entanto,
decidiu-se utilizar a intenção de compra, pois, segundo Sheth et al. (1991),
preço tem um forte impacto na decisão de compra e escolhas do consumidor. Por
fim, destaca-se que todos os construtos contemplaram pelo menos três itens para
efeito da estimação do modelo estrutural, conforme recomendam Hair et al.(2009)
e Tabachnick e Fidell (2011).
Nas Figuras_2 e 3 apresentam-se os itens que compuseram cada um dos construtos
antecedentes e o construto central da pesquisa: o valor percebido do preço de
produto. Nota-se que esse construto é constituído por seis itens, quatro dos
quais se referem especificamente a componente de preço, um deles genericamente
como benefício e outro como relação custo/benefício. Aqui se está medindo
fundamentalmente preço, e a introdução de dois itens não preço serviu, em
relação a esse construto, para avaliar sua consistência interna
(unidimensionalidade). Vale ressaltar que os construtos componentes do modelo
teórico integrativo proposto estritamente sobre dimensões de valor percebido de
preço de produto, oriundos da revisão de literatura efetuada, não se propõem a
mensurar a avaliação de uma oferta de preço ou de um desconto de preço.
Certamente os itens que comporiam essa dimensão seriam totalmente distintos dos
que estão sendo medidos no construto proposto do modelo teórico.
Da mesma forma que as sete dimensões antecedentes, a proposição da escala de
valor percebido do preço de produto foi baseada na revisão da literatura,
integrando-se itens provenientes de diversos autores. De forma similar aos
procedimentos metodológicos empregados para os construtos antecedentes, essa
escala foi submetida à validação de face e de conteúdo por dois experts da área
e pré-testada em duas amostras-piloto visando à sua purificação, conforme
descrito anteriormente. Na amostra final da pesquisa, os testes de Kaiser-
Meyer-Olkin (KMO) e de esfericidade de Bartlett indicaram um KMO de 0,86 com
significância a p<0,000. Com exceção do item "O preço deste produto é adequado
ao que eu recebo pelo meu dinheiro", a comunalidade calculada das demais
variáveis situou-se acima de 0,50, enquanto a variância explicada foi de 52%.
Com relação à confiabilidade do construto, observou-se que o alfa de Cronbach
foi de 0,813. Todas as relações interitens foram significativas, evidenciando,
assim, que a exclusão de qualquer um dos itens da escala reduziria o valor do
alfa. Dessa forma, os resultados indicaram uma confiabilidade interna
satisfatória do construto valor percebido do preço, conforme recomendado pela
literatura (Hair et al., 2009).
A partir dos resultados dos testes para mensurar a validade e a confiabilidade
do instrumento proposto, pôde-se verificar que o construto valor percebido do
preço de produto, bem como seus construtos antecedentes e consequentes,
atenderam aos pressupostos de unidimensionalidade, confiabilidade e de validade
convergente e discriminante. É provável que esses resultados positivos decorram
principalmente da validade de conteúdo e de face realizadas e das aplicações
prévias realizadas com duas amostras-piloto relativamente homogêneas, visando à
depuração das escalas utilizadas.
4. RESULTADOS
4.1. Validação do modelo estrutural
A validade do modelo de mensuração depende da qualidade dos ajustes (Goodness
of Fit ' GOF), ou seja, quão bem o modelo especificado reproduz a matriz de
variância-covariância entre os itens. A partir da modelagem de equações
estruturais utilizando o método de estimação de máxima verossimilhança, foi
possível identificar a qualidade dos ajustes, conforme mostram os resultados
apresentados nas Tabelas_2 e 3.

A análise desses vários índices leva a concluir que a qualidade do ajustamento
das dimensões propostas pode ser considerada satisfatória, contemplando os
valores de referência propostos na literatura (Hair et al., 2009; Tabachnick
& Fidell, 2011). Assim sendo, pode-se afirmar que o modelo teórico proposto
para a mensuração do valor percebido do preço de produto e de fatores
antecedentes é adequado em função dos indicadores obtidos.
Com o propósito de testar se as estimativas (betas) dos coeficientes são
estáveis, aplicou-se o teste de bootstrapping para o modelo estrutural
proposto. Aplicou-se o teste t para avaliar se o beta estimado para as relações
entre os construtos do modelo teórico apresentavam diferenças estatisticamente
significativas ao nível de p<0,001 ante os betas médios de um conjunto de
subamostras aleatórias. Observou-se que os resultados não diferiram
significativamente, ou seja, não se rejeitou a hipótese nula de igualdade entre
os betas, atestando-se, assim, que os coeficientes estimados do modelo
estrutural são estáveis. O poder explicativo do modelo teórico proposto foi
bastante elevado (R2=0,935), denotando a influência dos construtos antecedentes
e o significativo papel mediador desempenhado pelo valor percebido do preço
sobre as intenções de compra de um produto ou serviço.
4.2. Teste das hipóteses
Um bom ajuste do modelo por si só não é suficiente para sustentar uma teoria
estrutural proposta (Hair et al., 2009). É necessário verificar também as
estimativas paramétricas individuais associadas a cada hipótese de pesquisa.
Com isso, procedeu-se ao teste das hipóteses do modelo teórico, examinadas a
partir da magnitude, da dispersão e da significância dos coeficientes de
regressão estimados. Na Tabela_4, apresentam-se os resultados consolidados dos
testes realizados, salientando-se que das hipóteses testadas apenas três delas
não apresentaram níveis aceitáveis de significância estatística.
A H1a (β=0,776, p=0,012) é suportada, indicando, como levantado na revisão da
literatura, que o valor percebido do preço de um produto ou serviço tem uma
influência significativa nas intenções de compra do bem pelo consumidor. Além
de identificar a significância da relação entre a dimensão funcional (H1b) e a
dimensão de justiça de preço (H1c), observa-se que a dimensão funcional
(β=0,433, p<0,001) também apresentou impacto direto significativo nas intenções
de compra. No teste da H1c, observa-se que não foi significativo o impacto da
percepção de justiça sobre a intenção de compra (β=-0,23, p=0,445). Apesar de
essa hipótese não ter sido confirmada neste estudo, verificou-se a existência
de um coeficiente negativo, o que merece alguns comentários. Segundo Kukar-
Kinney et al. (2007), quanto mais justo um preço é percebido, maiores são as
intenções de compra de um consumidor. Verificou-se que, para a maioria dos
respondentes, o preço informado do vestuário foi considerado pouco justo.
Talvez a isso se deva o fato de a dimensão justiça não ter tido impacto direto
significativo nas intenções de compra. No entanto, verificou-se que essa
dimensão de justiça de preço tem um substancial efeito indireto sobre as
intenções de compra, pois tem um impacto significativo no valor percebido do
preço, conforme se observa em H2d (β=0,578, p<0,001). Esse resultado demonstra
que o valor percebido do preço desempenha importante papel mediador entre a
percepção de justiça e a intenção de compra.
No teste das hipóteses das relações estruturais expressas por H2a, H2b, H2c,
H2d, H2e, H2f e H2g sobre o valor percebido do preço de um produto ou serviço,
observou-se que a hipótese H2a pode ser confirmada (β=0,386, p<0,001),
denotando que a dimensão funcional revelou uma forte explicação na formação do
valor percebido do preço. No teste das hipóteses relativas às dimensões
emocionais positivas, foi possível confirmar H2b como tendo um efeito direto e
positivo sobre o valor percebido do preço (β=0,158, p=0,06). Contudo, a
hipótese H2c não foi confirmada (β=-0,066, p=0,228), mostrando que as emoções
negativas não apresentaram uma relação significativa com o valor percebido do
preço. Considerando que as emoções positivas impactaram o valor percebido do
preço de um produto ou serviço em um nível mais elevado do que as emoções
negativas, é razoável inferir que o consumidor mostra-se mais sensível às
emoções positivas, procurando evitar aquelas que lhe causam dissabores.
A relação estrutural H2e também foi confirmada (β=0,258, p=0,004), evidenciando
que a dimensão axiomática tem um impacto direto e positivo na formação do valor
percebido do preço. Com relação à dimensão simbólica, verificou-se que a
hipótese H2f foi confirmada (β=-0,143, p=0,032); no entanto, com um coeficiente
de regressão negativo. Verifica-se, pela análise descritiva, que a média das
quatro variáveis que compõem o construto simbólico é relativamente baixa
(2,96), indicando que, na amostra pesquisada, o produto considerado não traria
mais status ou poder ao consumidor, tendo tido assim essa dimensão um impacto
negativo significativo sobre o valor percebido do preço do bem considerado. É
razoável supor que esse produto tenha sido percebido mais em termos utilitários
do que hedônicos. Por último, a hipótese H2g relacionada com a dimensão social
não apresentou um impacto direto significativo na formação do valor percebido
do preço (β=0,08, p=0,13). Isso indica que a dimensão social, por meio da qual
se manifesta uma preocupação com a valorização do produto por outras pessoas,
não apresentou relação com o valor percebido do preço do produto, coerentemente
com o resultado obtido na dimensão simbólica.
Conforme Zielke (2010), as dimensões do preço podem estar relacionadas entre
si. Nesse sentido, no teste das hipóteses H3 até H10, em que se buscou mensurar
o quanto cada dimensão se relaciona com ou impacta outras dimensões, observou-
se que todas as hipóteses propostas foram confirmadas em nível estatisticamente
significativo. Destaca-se H3 (β=0,78, p<0,001), a qual apresenta o maior
coeficiente de regressão no conjunto de relações entre os construtos
considerados. Verifica-se claramente o quanto a dimensão de justiça de preço é
impactada pela dimensão funcional do produto. Um produto percebido
positivamente nessa dimensão reflete uma maior percepção de justiça de preço.
Merecem também análise as hipóteses H8 (β=0,628, p<0,001) e H9 (β=-0,377,
p<0,001), em que o impacto da dimensão justiça nas emoções negativas é
significativo e com sinal negativo, enquanto é positivo no que tange à relação
com a dimensão de emoções positivas. Portanto, consumidores que percebem a
existência de justiça de preço mostram-se positivamente relacionados com a
manifestação de emoções positivas. Esses resultados são semelhantes aos
identificados no estudo de Namkung e Jang (2010), em que a percepção de justiça
de preço tem um efeito positivo nas emoções positivas e um efeito negativo nas
emoções negativas. Analisando-se em conjunto os resultados de H1c, H2d, H8 e
H9, observa-se que o impacto direto da justiça de preço na intenção de compra
não se mostrou significativo, sendo, contudo, esse efeito mediado pelo
construto de valor percebido do preço e pelas relações significativas de
justiça com emoções positivas e com emoções negativas. Esses resultados
reforçam, pois, o relevante papel mediador exercido pelo valor percebido do
preço entre os construtos antecedentes e a intenção de compra de um produto ou
serviço.
5. CONSIDERAÇÕES FINAIS
Neste estudo, apresenta-se uma contribuição teórica ao tema valor percebido do
preço de produto. Observou-se ao longo da revisão da literatura que o estudo do
valor percebido ou da imagem de preço é um tema pouco abordado. Zielke (2006;
2010; 2011), um dos poucos pesquisadores que estudam essa área de conhecimento,
tem trabalhado com a questão de imagem de preço de estabelecimentos comerciais,
mas não se identificaram pesquisas que tratem diretamente da imagem de preço de
um produto ou serviço. Sendo um assunto, como um todo, pouco abordado, nesta
pesquisa buscou-se testar e validar o modelo inicialmente proposto por De Toni
e Mazzon (2013), procurando compreender como a imagem ou o valor percebido do
preço impacta o comportamento de compra, uma vez que possui forte influência
sobre as intenções de compra dos consumidores e, consequentemente, no volume de
vendas das organizações (Monroe, 1990; Nagle & Holden, 2003).
Estudos realizados com imagem e valor percebido (Albarracin, Johnson &
Zanna, 2005; De Toni, 2009) identificaram que esse é um construto latente
associado a diferentes dimensões. No modelo teórico integrativo testado, o
valor percebido do preço está associado a sete dimensões: funcional, emocional
positiva, emocional negativa, simbólica, de justiça, axiomática e social. O
coeficiente de determinação do valor percebido do preço em relação a esses
construtos correspondeu a um expressivo R2=96,5%, indicando que variações no
valor percebido do preço do bem considerado, e para a amostra deste estudo,
estão fortemente associadas a variações nas percepções dos sete construtos
antecedentes identificados e no relevante papel mediador desempenhado pelo
construto valor percebido do preço. Esse resultado é um importante indicador de
validade de critério da escala desenvolvida para este estudo.
Consistentemente com esse resultado, a escala proposta para a mensuração do
valor percebido do preço de produto mostrou-se robusta nos testes de validade e
confiabilidade realizados, inclusive em termos do procedimento de bootstrapping
para testar sua estabilidade. A proposição de um modelo teórico que integrou
várias dimensões consideradas isoladamente ou de forma parcial na literatura
científica de marketing, bem como de uma escala de medida para analisar cada um
dos construtos que compõem o modelo teórico, caracteriza a contribuição deste
estudo. Entende-se que a academia e a comunidade empresarial careciam de um
instrumento para a mensuração do conceito de valor percebido do preço de um
produto ou serviço e de seus fatores antecedentes, bem como de sua relação com
as intenções de compra dos consumidores. O teste das hipóteses confirmou o bom
ajuste do modelo teórico e da escala propostos na situação pesquisada. De todas
as dimensões testadas, apenas a social e a emocional negativa não tiveram um
impacto significativo na formação do valor percebido do preço. Esse resultado
não invalida os construtos nem sua relação, pois, como visto, apresentaram
suporte teórico em outros estudos. É razoável conjecturar que esse resultado
esteja relacionado ao perfil da amostra, composta exclusivamente por estudantes
de uma dada universidade. Por ser um público jovem, que busca independência
financeira e social, talvez o que os outros pensem sobre o preço pago no
vestuário não seja tão significativo na formação do valor percebido do preço.
No entanto, para um público mais heterogêneo, que busca uma identidade social,
talvez essa dimensão venha a ser significativa na constituição da imagem de
preço ou valor percebido do preço.
Outra contribuição da pesquisa refere-se à avaliação de relações entre as
dimensões antecedentes do valor percebido do preço. Das oito hipóteses (H3até
H10) testadas no que tange ao relacionamento entre as dimensões, todas
apresentaram coeficientes de regressão estatisticamente significativos. Isso
indica que o valor percebido é um construto com traços multi e
interdimensionais, ou seja, além de receber influência de várias dimensões
(multi), essas dimensões relacionam-se entre si (inter). Essa condição reveste-
se de enorme importância visto que a análise do comportamento do consumidor
poderia estar mais fortemente fundamentada em uma visão de interdependências do
que meramente em uma abordagem multidisciplinar ou multidimensional (Foxall,
2001; Deighton, Macinnis, McGill & Shiv, 2010). Dado o suporte propiciado
pelos indicadores de validade e confiabilidade, bem como pelos índices de
ajuste e pelo poder de determinação da relação entre o valor percebido do preço
e construtos antecedentes que impactam em sua formação, não se pode rejeitar,
para a amostra e bem considerado neste estudo, que a escala composta por seis
itens para medir o valor percebido do preço seja adequada. Desse modo, o modelo
teórico proposto por De Toni e Mazzon (2013) mostrou-se empiricamente suportado
nas dimensões consideradas de validade e confiabilidade para a mensuração do
valor percebido do preço de um produto.
5.1. Implicações gerenciais
Identificar e mensurar as dimensões que influenciam o valor percebido do preço
de um produto ou serviço auxilia na definição de estratégias de preço,
principalmente se focadas na satisfação e na retenção do consumidor dentro de
uma perspectiva de customer lifetime value como forma de atingir a
lucratividade da organização (Kamakura, Mittal, De Rosa & Mazzon, 2002). O
entendimento da configuração do valor percebido do preço pode levar, assim, a
melhorias no direcionamento das estratégias de formação do preço de um dado
bem.
As dimensões influenciadoras do valor percebido do preço evidenciam também um
importante subsídio para direcionar a estratégia de comunicação,
possibilitando, de um lado, tornar o consumidor menos sensível ao preço (menor
percepção de sacrifício) e, de outro, aumentar o valor percebido de benefícios
derivados do preço de um produto ou serviço. Mesmo em produtos do tipo
commodities, é possível agregar valor e maior preço, contanto que seja
executada uma estratégia de valor superior aos atributos extrínsecos do
produto, tais como prazo de entrega, relacionamento, dentre outros (Nagle &
Holden, 2003). Tornar o consumidor menos sensível ao preço é um desafio
importante que as organizações podem buscar, uma vez que esse é um dos
elementos do mix de marketing que diretamente geram receita e,
consequentemente, lucratividade (Monroe, 1990). Dentre as várias competências
da organização, a gestão de preço assume um papel importante nas decisões
estratégicas, na rentabilidade e na geração de receita nas organizações
(Vorthies & Morgan, 2005).
Os resultados do estudo alinham-se também com a visão expressa por Monroe
(1990), segundo a qual há dois pré-requisitos para tornar o apreçamento
proativo mais efetivo. O primeiro é a necessidade de entender como o preço
funciona, quais seus impactos sobre consumidores, clientes, fornecedores,
pessoal de venda, distribuidores e competidores. O segundo é a identificação de
como os consumidores e os clientes percebem o preço e suas mudanças. Empresas
proativas na formação de preço devem aprender como os consumidores e, em
particular seus clientes, percebem o preço e como essa percepção influencia sua
intenção de compra ou recompra, comunicação boca a boca positiva, indicação do
produto ou serviço a parentes e amigos, dentre outros itens relacionados com a
retenção e a lealdade do cliente.
5.2. Limitações e direcionamentos para futuras pesquisas
Dentre as principais limitações deste estudo, podem-se destacar quatro. A
primeira refere-se ao modelo teórico proposto, que foi testado apenas para uma
categoria de produto e com um preço relativamente alto para as características
da amostra estudada. Trata-se de uma amostra razoavelmente homogênea, o que
pode ser um indicativo de menor variabilidade em relação ao mercado consumidor
da categoria de produto pesquisada. Essa situação, aliada à condição de amostra
não probabilística, não permite nenhuma generalização dos resultados. Essa
limitação remete à necessidade de que novas pesquisas sejam efetuadas com as
escalas propostas em condições distintas da empregada neste estudo, focando-se
outros produtos ou serviços e outros tipos de consumidores. Uma segunda
limitação refere-se ao fato de a pesquisa empírica ter sido operacionalizada em
uma situação hipotética de compra, em que cada respondente foi convidado a
imaginar uma peça de vestuário ou um acessório cujo preço aproximado de venda
nas lojas fosse ao redor de R$ 500,00. A manipulação proposta é demasiadamente
genérica para possibilitar a formação real do valor percebido do preço de um
produto dentro da categoria proposta. É possível que tal cenário possa ter
influenciado o elevado poder explicativo do modelo (R2 = 96,5%), em face das
elevadas correlações existentes entre os itens e construtos considerados. Nesse
sentido, futuras pesquisas com cenários mais específicos, focando um produto
particular e um preço de mercado ou até mesmo um experimento com diferentes
preços para um mesmo produto, poderiam dar novos elementos para suportar o
modelo proposto. Uma terceira limitação corresponde ao uso exclusivo de
opiniões nas escalas empregadas, o que enseja um provável commom method bias
decorrente do efeito halo. Futuros estudos poderiam considerar no construto
dependente itens relacionados com comportamentos. Uma quarta limitação
relaciona-se com o conceito de que a dimensão preço do produto de per si não é
inteiramente responsável pelas intenções de compra dos consumidores. Como a
própria teoria de marketing destaca, há outros fatores que são também
importantes na explicação da intenção de compra, não estudados aqui por
transcenderem os objetivos deste estudo, tais como estado da demanda, promoção
de venda e fatores situacionais de compra. Nesse sentido, a própria abrangência
do estudo poderia ser revista visando à replicação do modelo com a incorporação
de novas dimensões que afetam a intenção de compra de um produto.