Governança em estruturas proprietárias concentradas: novas evidências para o
Brasil
1. INTRODUÇÃO
A questão da separação entre propriedade e controle pode prejudicar o
desempenho da empresa. Estruturas de propriedade mais concentradas
possivelmente sejam mais efetivas para dirimir esse problema, mas também podem
facilitar a expropriação de acionistas minoritários. Em compensação, existe
pouca evidência de que essa separação venha diminuindo ao longo do tempo.
Holderness, Kroszner e Sheehan (2000) investigaram como o nível da estrutura de
propriedade se desenvolveu desde 1935 até 1995 e identificaram que, ao
contrário do que se esperava, a relação propriedade-controle é maior do que era
antigamente. Então, o que explicaria essa dicotomia?
O impacto do sistema de governança corporativa sobre o desempenho da firma é
ambíguo. Grandes acionistas preocupam-se com o problema de agência, pois têm
interesse na maximização da riqueza e um controle suficiente sobre os ativos
das firmas para que seus interesses sejam respeitados. Nesse caso, era esperado
que o desempenho aumentasse com a estrutura de propriedade concentrada. No
entanto, se a concentração de propriedade cresce em grandes proporções, os
proprietários ganham controle completo e podem tornar-se ricos o suficiente
para preferir usar a firma para gerar benefícios privados do controle que não
são divididos com os acionistas minoritários, gerando efeitos prejudiciais no
desempenho (Destefanis & Sena, 2007).
Nesse contexto, La Porta, Lopez-de-Silanes, Shleifer e Vishny (1998)
classificam quatro diferentes tipos de leis referentes à proteção legal dos
acionistas, que influenciam significativamente a estrutura de propriedade.
Países com leis comuns (como Estados Unidos, Reino Unido, entre outros) possuem
mais proteção aos acionistas, fazendo com que existam menos expropriações de
minoritários; já países com leis civis francesas (como Brasil, Bélgica, França,
entre outros), germânicas (como Japão, Alemanha, Áustria, entre outros) e
escandinavas (como Dinamarca, Finlândia, Suíça, entre outros) possuem menos
proteção para os acionistas, fazendo com que se facilite a expropriação de
minoritários. Como resultado, esses países acabam tendo mercados de capitais
menores e menos desenvolvidos (La Porta, Lopez-de-Silanes, Shleifer &
Vishny, 1997).
Essa é uma questão pertinente do ponto de vista acadêmico, pois a descoberta da
forma com que a estrutura de propriedade é desenhada pode influenciar os
resultados da empresa, auxiliando de várias maneiras a obter um ponto ótimo
entre essas duas variáveis. No entanto, o grande impasse está em como
identificar o desempenho da empresa. Belkaoui e Pavlik (1992), assim como Hitt
e Ireland (1986), usaram como variável dependente, representando o desempenho
da empresa, o logaritmo da receita ou a capitalização de mercado. Em seu
estudo, Frydman, Gray, Hessel e Rapaczynski (1999) consideraram a lucratividade
como medida de eficiência. Megginson, Nash e Randenborgh (1994) indicaram essa
medida por meio da receita da empresa dividida pelo número de funcionários. No
entanto, esses autores negligenciam o fato de que o foco estratégico de uma
organização é sua função operacional, ou seja, o processo de transformar inputs
em outputs (Sheu & Yang, 2005).
O uso da eficiência técnica para mensurar o desempenho das empresas, segundo
Destefanis e Sena (2007), pode ser justificado de várias maneiras:
•em mercados de capitais pouco desenvolvidos, pode impedir a
utilização de medidas de desempenho baseadas em preços das ações,
partindo do pressuposto que esses mercados não refletem completamente
as informações disponíveis;
•onde há separação entre capital e controle, os administradores têm
incentivos a investir em projetos que gerem poder e prestígio, mas
que podem não gerar acréscimo algum na produtividade. Esse
comportamento será refletido diretamente na redução da eficiência
técnica;
•na literatura econômica, vários autores já comprovaram a existência
de uma relação substancialmente grande entre estrutura de propriedade
e eficiência (Jensen & Meckling, 1976; Belkaoui & Pavlik,
1992);
•para Zheka (2005), a eficiência técnica é uma proxy útil, porque
representa uma única medida agregada da utilização de fatores de
inputs para produzir os outputs desejados, relativa a fronteira
eficiente, possibilitando ir à raiz do problema de governança
corporativa e, especificamente, ao uso ineficiente dos recursos, que
usualmente não é observado por investidores, acionistas e governos.
De acordo com esse pressuposto, no presente artigo o objetivo é analisar a
influência da estrutura de propriedade na eficiência das empresas de capital
aberto brasileiras, em que é identificada maior concentração de ações em um
grupo restrito de pessoas.
O estudo oferece uma contribuição empírica significativa para o campo de
finanças corporativas, identificando condições particulares do estudo de
estrutura de propriedade no Brasil em que é identificada uma concentração maior
de ações. No trabalho, unem-se técnicas de otimização estática por meio de
análise envoltória de dados (Data Envelopment Analysis - DEA) ao longo de 16
anos para identificar a eficiência das empresas de capital aberto, com dados em
painel por Generalized Method of Moments (GMM - Método dos Momentos
Generalizados), para identificar a influência da estrutura de propriedade na
eficiência das empresas, complementando estudos prévios que consideram somente
os outputs como medidas de eficiência.
A estrutura do trabalho está dividida em cinco partes, sendo esta introdução a
primeira delas. Após, é feita uma revisão de literatura evidenciando as
principais contribuições dos autores a respeito do tema, seguida da metodologia
aplicada no estudo. Por fim, são apresentados os resultados alcançados, assim
como as conclusões, contribuições e limitações do estudo.
2. ESTRUTURA DE PROPRIEDADE: CONCEPÇÕES E HIPÓTESES
A estrutura de propriedade (forma em que é distribuído o capital da empresa
relativo aos votos e ao grau de concentração dos proprietários do capital) é
considerada como um importante mecanismo de governança corporativa. Esse
mecanismo difere significativamente entre países por causa das disparidades
nacionais nas estruturas de propriedade e composições do conselho, exercendo a
propriedade grande influência nessa composição e, por consequência, no
desempenho da empresa (Harris & Raviv, 1988; Li, 1994).
De acordo com esse pressuposto, a seção foi dividida em duas partes para melhor
explicitar os aspectos peculiares da estrutura de propriedade, são elas:
propriedade e eficiência em estruturas dispersas e propriedade e eficiência em
estruturas dominantes e concentradas.
2.1. Propriedade e eficiência em estruturas dispersas
Existem alguns países em que a estrutura de propriedade é bastante dispersa, ou
seja, os acionistas majoritários geralmente não possuem mais do que 20% das
ações das empresas. Holderness e Sheehan (1988) e La Porta, Lopez-de-Silanes e
Shleifer (1999) argumentam que esse tipo de estrutura é benéfico devido ao fato
de diminuir a possibilidade de expropriação dos acionistas minoritários pelos
majoritários. Essas questões podem ser atenuadas dependendo da proteção legal
dos acionistas existente nos países. A seguir são descritos estudos favoráveis
à propriedade em estruturas dispersas.
Comparando a estrutura de propriedade em 34 países, Foley e Greenwood (2010)
identificaram que, após a Initial Public Offering (IPO - oferta pública
inicial), as firmas em países com proteção efetiva dos investidores são mais
propensas a diminuir a concentração de propriedade, o que ocorre em resposta às
oportunidades de crescimento da empresa. Já em empresas em que a proteção para
os investidores é fraca, esse resultado não é encontrado, principalmente pelo
risco de expropriação dos acionistas minoritários.
Analisando a relação entre desempenho da firma, mensurado por meio do Q de
Tobin, e propriedade na Bélgica (lei civil, fraca proteção aos investidores
minoritários), Hamadi (2010) encontrou uma relação negativa entre essas duas
variáveis, evidenciando que a fraqueza das leis de proteção aos acionistas pode
influenciar negativamente o desempenho das empresas, como preconizado por La
Porta et al. (1998).
Nesse mesmo contexto, ao analisar a concentração e propriedade na Rússia,
Filatotchev, Kapelyushnikov, Dyomina e Aukutsionek (2001) identificaram que a
concentração é negativamente associada ao desempenho das empresas. Esse
resultado é consistente com o pressuposto de que as leis que protegem os
acionistas minoritários não são adequadas nesse país. Miguel, Pindado e La
Torre (2004) e Kirchmaier e Grant (2006) identificaram a mesma relação negativa
na Espanha e no continente europeu, respectivamente. Johnson, La Porta, Lopez-
de-Silanes e Shleifer (2000) identificaram que a expropriação dos acionistas
minoritários também ocorre em países desenvolvidos com leis civis germânicas e
francesas.
Mesmo sendo incomum, a expropriação pode acontecer em países com sistema da
proteção forte, dado que Anderson e Reeb (2003) encontraram indícios de
expropriação em empresas com estruturas familiares (geralmente mais
concentradas) dos Estados Unidos. Gedajlovic e Shapiro (1998) identificaram uma
relação negativa entre estrutura de propriedade e desempenho em empresas dos
Estados Unidos e do Reino Unido. Attig (2007), Bozec e Bozec (2007) e Bozec
(2008) encontraram os mesmos resultados para o Canadá, evidenciando que
pequenos investidores são vulneráveis à expropriação em grandes empresas. Esses
autores comprovam que, mesmo em países com proteção legal forte, as estruturas
dispersas podem gerar ineficiências.
Lin, Ma, Malatesta e Xuan (2011) mostraram que o excesso de controle gerado
pela concentração pode afetar negativamente o valor da empresa devido à
incidência de tunneling (transações com benefícios privados) e atividades de
risco moral. Lin, Ma e Su (2009) identificaram que a relação entre propriedade
e eficiência tem o gráfico em forma de U na China, devido à existência de
tunneling por parte do acionista majoritário.
Outra questão bastante pertinente é a profissionalização da estrutura de
propriedade. Silveira (2004) identificou que a estrutura de propriedade
influencia a qualidade da governança corporativa. Especificamente, encontrou
uma relação negativa significante entre o excesso de direito de voto em posse
do acionista controlador e a qualidade da governança, mostrando que
administrações mais profissionalizadas, geralmente mais pulverizadas, possuem
melhor qualidade e que a concentração da decisão em uma só pessoa, ou em uma só
família, gera ineficiências.
Analisando a evolução da estrutura de propriedade nas empresas de capital
aberto do Brasil, Aldrighi e Mazzer (2007) identificaram que famílias
preponderam entre os acionistas últimos majoritários (54,7%), seguidas de
investidores estrangeiros (18,4%), governo (7,5%) e fundos de investimento
(5,2%); os fundos de pensão representam apenas 2,0%. Os resultados encontrados
pelos autores mostram a incipiência do mercado de capitais no Brasil, devido
principalmente à alta concentração de propriedade das empresas nas mãos de um
só acionista (em torno de 51% do capital e quase 73% dos direitos de votos) e
indícios de expropriação de minoritários, evidenciando a falta de
profissionalização das empresas brasileiras. Andrade e Rossetti (2006) também
identificaram essa inexpressividade do mercado de capitais brasileiro,
mostrando que o conflito predominante é entre majoritários e minoritários, já
que, pela concentração da propriedade e pela sobreposição com a gestão, são
menos expressivos os conflitos de agência. Também identificaram que apenas 20%
das empresas consideram sistematicamente os interesses dos minoritários, por
ser a proteção legal a eles fraca.
A partir desses pressupostos, a seguinte hipótese é formulada:
Hipótese 1 - A estrutura de propriedade concentrada é negativamente
relacionada com a eficiência no Brasil devido à maior possibilidade
de expropriação dos acionistas minoritários e à menor
profissionalização na empresa.
2.2. Propriedade e eficiência em estruturas dominantes e concentradas
Ao contrário do que ocorre nas estruturas dispersas, a propriedade em
estruturas dominantes e concentradas pode diminuir, segundo Jensen e Meckling
(1976), o problema de agência. A seguir são descritos estudos favoráveis à
propriedade em estruturas dispersas.
Oswald e Jahera (1991), Cole e Mehran (1998), Thomsen e Pedersen (2000) e
Hotchkiss e Strickland (2003) identificaram que a estrutura de propriedade está
diretamente relacionada com o desempenho da empresa; Khorana, Servaes e Wedge
(2007) mostraram que, nos fundos de investimento dos Estados Unidos, o
desempenho da empresa aumenta três pontos percentuais para cada aumento em um
ponto percentual na estrutura de propriedade. Joh (2003), Kapopoulos e
Lazaretou (2007), Kaserer e Moldenhauer (2007), Ganguli e Agrawal (2009) e
Mandaci e Gumus (2010) encontraram os mesmos resultados para empresas coreanas,
gregas, alemãs, indianas e turcas, respectivamente. Por meio de um experimento
natural, Giannetti e Laeven (2009) também identificaram uma relação positiva
entre propriedade e eficiência na Suécia, utilizando fundos de pensão como
instrumento exógeno.
Morck, Shleifer e Vishny (1989) e Ng (2005) identificaram uma relação não
monotônica entre essas variáveis nos Estados Unidos e na Ásia, respectivamente.
O valor da empresa no mercado (Q de Tobin) aumenta quando a concentração é
baixa, declina no ponto intermediário e volta a crescer à medida que a
propriedade se torna mais concentrada. Já Tian e Twite (2011) encontraram uma
associação fraca entre estrutura de propriedade e eficiência produtiva na
Austrália.
Loderer e Martin (1997) e Ang, Cole e Lin (2000) confirmaram as predições de
Jensen e Meckling (1976), afirmando que os custos de agência são maiores entre
firmas que não são concentradas e esses custos aumentam à medida que as ações
dos executivos diminuem. Nesse mesmo contexto, Bruton, Filatotchev, Chahine e
Wright (2010) identificaram que estruturas de propriedade concentradas aumentam
o desempenho das empresas em IPOs.
De acordo com esse contexto, a seguinte hipótese é formulada:
Hipótese 1A (Alternativa) - As estruturas de propriedade dominantes e
concentradas são positivamente relacionadas com a eficiência, pois
geram maior monitoramento e diminuem os problemas de agência.
3. ASPECTOS METODOLÓGICOS
Para analisar a influência da estrutura de propriedade na eficiência das
empresas de capital aberto brasileiras, a seguir serão relatados os passos para
o desenvolvimento do trabalho.
3.1. Coleta de dados
São utilizados dados secundários extraídos de bancos de dados específicos do
Brasil. Os dados básicos relacionados a estrutura de propriedade, balanço
patrimonial, Demonstração do Resultado do Exercício (DRE), entre outros, foram
extraídos do Economática. Já os referentes ao número de funcionários foram
extraídos dos sites das empresas, do Portal Exame e da Security Exchange
Comission (SEC).
3.2. Abrangência
O presente trabalho abrange as empresas de capital aberto brasileiras que
possuem ações ordinárias negociadas na Bolsa de Valores de São Paulo (Bovespa),
devido ao fato de que, na análise de estrutura de propriedade, as ações mais
representativas são as que dão direito a voto, ou seja, as que podem
influenciar nas decisões e, consequentemente, na eficiência das empresas.
3.3. Amostra
Os dados coletados são em base anual, nos anos de 1995 a 2010, constituindo uma
amostra de 515 empresas ou 8.250 empresas-ano.
3.4. Software
Os dois software utilizados foram: DEA-Solver-Pro® - software desenvolvido por
Cooper, Seiford e Tone (2006) e específico para o cálculo da DEA (Análise
Envoltória de Dados); e Stata SE® - software utilizado para o cálculo das
regressões econométricas do estudo.
3.5. Análise dos dados
A análise dos dados é realizada em duas etapas, descritas na sequência.
3.5.1. Cálculo da eficiência relativa das empresas
A primeira etapa é constituída pelo cálculo da eficiência relativa das empresas
de capital aberto brasileiras por meio da DEA (Data Envelopment Analysis)
adaptado do modelo de Farrell (1957) e Ehrlich, Gallais-Hamonno, Liu e Lutter
(1994), em que são considerados dois tipos de variáveis de input: capital -
estoque de capital (tangibilidade dos ativos), investimento (duas medidas de
gastos com investimento de capital, uma baseada nas vendas e outra nos ativos
totais) e capital de giro; e trabalho - Log do número de funcionários. Somente
é considerado um tipo de variável de output: resultado - Retorno sobre o Ativo
(ROA), Retorno sobre o Patrimônio (ROE) e Retorno sobre as Vendas (ROS). As
fórmulas utilizadas no estudo constam na Figura_1.
O modelo utilizado no estudo é o Slack Based Model (SBM), pois corrige os
problemas decorrentes dos demais modelos considerando retornos constantes de
escala (CCR) e retornos variáveis de escala (BCC), que podem considerar uma
Unidade de Tomada de Decisão (Decision Making Unit - DMU) eficiente apesar de
apresentar excessos de inputs e faltas de outputs (Tone, 2001). Para o cálculo
da DEA, são necessárias três etapas, descritas a seguir:
•as variáveis são winsorizadas, ou seja, é gerada uma nova variável
idêntica à anterior, exceto pelos valores extremos inferiores e
superiores. Foi convencionado utilizar 5% na winsorização;
•é aplicado o teste de correlação e, caso existam variáveis altamente
relacionadas, uma delas é retirada do estudo;
•as variáveis são separadas por ano e por indústria, gerando 208
análises (16 anos e 13 tipos diferentes de indústria).
Essa medida foi tomada, pois, como a DEA é um cálculo da eficiência relativa (é
eficiente com relação às outras empresas que estão contidas na amostra), não
poderiam ser comparadas empresas com elas mesmas nos anos anteriores nem
empresas que pertencem a indústrias diferentes, cujas medidas, padrões e
convenções são totalmente díspares. O índice gerado constitui a eficiência
relativa das empresas e é usado como variável dependente na regressão.
3.5.2. Análise da influência da estrutura de propriedade na eficiência
Para verificar a influência da estrutura de propriedade na eficiência das
empresas, é utilizado o modelo de dados em painel não balanceado por GMM,
ferramenta que considera uma dada amostra de indivíduos ao longo do tempo e
possibilita observações múltiplas de cada indivíduo na amostra.
No caso, foi aplicado o modelo dinâmico (que considera a variável dependente
defasada como explicativa) e em diferenças (GMM-Sys). Os instrumentos
utilizados são as próprias variáveis defasadas, conforme proposto por Almeida,
Campello e Galvão (2010). Quando existem mais de três observações por unidade
cross-sectional, instrumentos adicionais estão disponíveis. De acordo com Bond
(2002), caso o modelo tenha T > 3 e o termo de erro do modelo em primeiras
diferenças apresente correlação serial de primeira ordem (supondo que os termos
de erros nas equações em nível sejam não correlacionados), os estimadores OLS
(Mínimos Quadrados Ordinários) e 2SLS (Mínimos Quadrados em dois estágios) não
são assintoticamente eficientes mesmo que o conjunto completo de instrumentos
seja utilizado. Nesse caso, segundo Bond (2002), o GMM, desenvolvido por Hansen
(1982), provê uma estrutura conveniente para obtenção de estimadores
assintoticamente eficientes, como no caso do GMM em diferenças (GMM-Dif) e o
GMM sistêmico (GMM-Sys). Teoricamente, a diferença entre os dois estimadores
está nas condições de momento utilizadas por estimador que, por sua vez,
implicam um conjunto menor ou maior de instrumentos disponíveis nas referidas
abordagens. As condições de momento dependem de suposições quanto à condição
inicial das séries do modelo. Assim, o conjunto de instrumentos disponível no
estimador GMM-Sys é maior e permite estimativas mais precisas em certos
contextos, porém as suposições acerca das condições iniciais são mais
restritivas. Nesse caso, supõe-se que as condições iniciais satisfazem a
propriedade de estacionariedade na média, de forma que as séries possuam média
constante para cada indivíduo i. Essa suposição de estacionariedade na média
implica que
para i = 1, 2, ..., N, a qual, por sua vez, dada a estrutura autorregressiva do
modelo e a suposição de que
[/img/revistas/rausp/v49n2/09s2.jpg]
para i = 1, 2, ..., N e t = 3, 4, ..., T, implica as seguintes T - 2 condições
de momento não redundantes:
[/img/revistas/rausp/v49n2/09s3.jpg]
para i = 1, 2, ..., N e t = 3, 4, ..., T, adicionais àquelas especificadas para
as equações em primeiras diferenças. Assim, no caso do GMM-Sys, além dos
instrumentos disponíveis para o estimador GMM-Dif, as variáveis em diferenças
podem ser utilizadas como instrumentos para as equações em nível. O estimador
GMM-Sys tem muito menor viés de amostras finitas e muito maior precisão quando
é necessário estimar parâmetros autorregressivos usando séries com alta
persistência, sendo mais indicado para a análise (Bond, 2002). Por fim,
conforme Bond (2002), investigar as propriedades das séries temporais das
séries individuais é altamente recomendável quando se usam estimadores GMM para
modelos de painel dinâmico. O modelo dinâmico é obtido utilizando a variável
endógena defasada como explicativa do modelo. No caso, os ganhos de eficiência
permitidos pela condição de homocedasticidade são reduzidos com a análise de
painéis dinâmicos, podendo ser dispensada a referida condição, por possuir um
pressuposto mais robusto (Mátyás, 1999).
Para realizar a análise, são aplicados os seguintes testes: teste de
correlação; teste Arellano e Bond (1991), que testa a existência de correlação
serial; teste de sobreidentificação de Hansen J (1982); e teste Qui-quadrado
(χ2). Assim como na análise da DEA, as variáveis são winsorizadas a 5%. A
Equação [4] apresenta a variável dependente, assim como as variáveis
independentes do modelo.
[/img/revistas/rausp/v49n2/09s4.jpg]
em que E representa a eficiência das empresas;αé o intercepto;γ,δeθsão os
coeficientes das variáveis; Zit são as variáveis referentes à estrutura de
propriedade; Wit são as dummies do modelo; Cit representa as variáveis de
controle; EFind representa os efeitos fixos industriais; EFtemp representa os
efeitos fixos temporais; eεit representa o termo de erro.
Com relação à estrutura de propriedade, são utilizadas as seguintes variáveis:
estrutura de propriedade do acionista principal ordinário; estrutura de
propriedade dos três primeiros acionistas ordinários; estrutura de propriedade
dos cinco primeiros acionistas ordinários. Essas variáveis serão utilizadas
separadamente por apresentarem uma correlação muito alta entre elas. São
utilizadas as estruturas de propriedades dos três e dos cinco principais
acionistas, pois, segundo Laeven e Levine (2008), um terço das empresas
europeias possui múltiplos grandes acionistas, cujo valor de mercado difere das
empresas que possuem dispersão ou concentração de ações, mostrando a
necessidade de analisar não só o acionista principal, mas também os demais
majoritários. Na literatura, conforme evidenciado na revisão, essas variáveis
podem ter um efeito tanto positivo quanto negativo. La Porta et al. (1999)
argumentam que estruturas dissipadas são benéficas para a eficiência da
empresa, principalmente em países com fraca proteção legal, devido ao fato de
diminuírem a possibilidade de expropriação dos acionistas minoritários pelos
majoritários, corroborando a hipótese 1. Contrários a esse argumento, Jensen e
Meckling (1976) afirmam que estruturas dominantes e concentradas são mais
eficazes, pois podem diminuir o problema de agência, corroborando a hipótese
1A.
Algumas outras variáveis podem afetar os resultados e, por esse motivo, foram
acrescentadas as seguintes dummies:
•controle acionário de pessoa física - esta variável pode ter um
efeito ambíguo. Para Holderness (2009), as empresas que possuem como
acionista principal pessoa física, geralmente são fundadas por
famílias que passam de geração para geração a propriedade. Essa
estabilidade faz com que o empenho pela busca da eficiência seja
maior, contribuindo positivamente para a eficiência. Em compensação,
Lemmon e Lins (2003) afirmam que, quando existem famílias no poder,
geralmente as estruturas são mais concentradas, facilitando a
expropriação de acionistas minoritários e podendo gerar um efeito
negativo na eficiência;
•estruturas piramidais - também possuem um efeito ambíguo. Masulis,
Pham e Zein (2011) identificaram que essas estruturas aliviam as
restrições financeiras ao nível de país e ao nível de firma em países
com disponibilidade limitada de capital, trazendo benefícios para a
empresa. Já Bertrand, Mehta e Mullainathan (2002) identificaram
possibilidades de expropriação dos acionistas minoritários e
diminuição da eficiência nas empresas com estruturas piramidais;
•controle acionário público - Boubakri e Cosset (1998) identificaram
aumentos significativos em lucratividade, eficiência operacional,
gastos com investimento de capital, produto, nível de emprego e
dividendos em empresas após a privatização, mostrando que empresas
estatais são menos eficientes;
•controle acionário estrangeiro - o controle estrangeiro possui uma
relação controversa com a eficiência das empresas, pois, ao mesmo
tempo em que a distância pode prejudicar o andamento dos negócios por
não se poder realizar um monitoramento substancial das atividades da
empresa (Gaspar & Massa, 2007), o controle estrangeiro pode
dificultar os benefícios privados de controle e aumentar receitas das
empresas por terem maiores comprometimento e envolvimento de longo
prazo (Park & Chung, 2007);
•takeover - geralmente uma empresa que muda sua propriedade principal
está passando por dificuldades e uma nova propriedade acionária pode
trazer recursos e esforços para melhorar seu desempenho (Stulz,
Walkling & Song, 1990);
•acordo de acionistas - também gera um efeito ambíguo. Bennedsen and
Wolfenzon (2000) mostraram que a diluição do poder entre grandes
acionistas pode ser benéfica para a empresa, pois pode gerar
coalizões para obter o controle da empresa e, assim, gerar mais fluxo
de caixa sem haver muita divergência entre as partes. Já Zwiebel
(1995) argumenta que grandes investidores podem criar o próprio
espaço, formando blocos de acionistas grandes o suficiente para
dissuadir outros blocos de investidores de serem criados, gerando um
efeito negativo no desempenho da empresa.
Com relação às variáveis de controle, foram inseridas na equação as seguintes
medidas: tamanho; receita líquida e ativo total; alavancagem; efeitos fixos da
indústria; e efeitos fixos temporais (ver Figura_1).
4. ANÁLISE DOS RESULTADOS
Esta seção é dividida em quatro partes para melhor explicitar os resultados
alcançados: estatística descritiva e correlação; análise geral da influência da
estrutura de propriedade na eficiência; análise setorial da influência da
estrutura de propriedade na eficiência; e teste de robustez.
4.1. Estatística descritiva e correlação
Antes de realizar-se a análise dos resultados, é necessário verificar a
correlação entre as variáveis e a estatística descritiva (Tabela_1). Como era
previsto, foi identificada uma correlação forte (acima de 0,7) entre as
variáveis MCV (maior acionista principal com voto), TCV (três maiores
acionistas principais com voto) e CCV (cinco acionistas principais com voto), e
entre a receita, o ativo total e o patrimônio líquido. Nenhuma dessas variáveis
é utilizada na mesma regressão, para não haver problemas de multicolinearidade.
Por motivos de síntese, a tabela de correlação foi suprimida.
Depois de verificada a correlação entre as variáveis, é feita uma análise da
estatística descritiva do modelo geral. Como se pode observar na Tabela_1, após
aplicar a winsorização, as variáveis referentes à eficiência e à estrutura de
propriedade apresentam médias e medianas muito próximas. Em média, as empresas
brasileiras são eficientes em 56,68%, o acionista principal com direito a voto
(MCV) possui, em média, 58,74% das ações da empresa, evidenciando estruturas
altamente concentradas, e os três e os cinco principais acionistas com direito
a voto possuem, em média, 80,41 e 84,37% das ações da empresa, destacando a
importância de levar-se em consideração mais acionistas na análise, para evitar
muitas distorções que poderiam ocorrer caso somente o primeiro acionista fosse
considerado. Nesse caso, a variância e o desvio padrão foram significativos,
evidenciando a necessidade de utilizar logaritmo nessas variáveis.
Na alavancagem, é percebida uma disparidade grande entre a média e a mediana,
mostrando que, nessa variável, também deve ser aplicado logaritmo neperiano. Na
análise, as empresas são alavancadas, em média, 2,85 vezes, ou seja, para cada
R$ 1,00 de patrimônio líquido, essas empresas endividam-se no curto e no longo
prazo em torno de R$ 2,85. Tratando-se de Q de Tobin, as empresas, em média,
possuem um valor de mercado que supera em 50% o valor patrimonial.
Por fim, as variáveis de controle referentes ao tamanho das empresas (receita
líquida, ativo total e patrimônio líquido) apresentaram padrões similares e uma
proximidade grande entre a média e a mediana (depois de aplicado logaritmo
neperiano). A variabilidade e o desvio padrão também foram pequenos.
4.2. Análise geral da influência da estrutura de propriedade na eficiência
Para verificar a consistência dos resultados, foi aplicado o teste de Arellano
e Bond (1991) [ABond AR(1) e ABond AR(2)], cuja análise é evidenciada na Tabela
2. Em grande parte das análises, rejeita a hipótese nula de ausência de
correlação serial nos resíduos de primeira ordem e não rejeita a hipótese para
segunda ordem. Portanto, o modelo apresenta correlação serial de ordem 1,
pressuposto importante para a validade dos instrumentos baseados em defasagem
dos regressores, como o caso do GMM-Sys usado na análise.
Na Tabela_2, é evidenciada a análise da influência do acionista principal, dos
três e dos cinco principais acionistas na eficiência. Para garantir a robustez
dos resultados, foram calculadas três regressões para cada modelo, inserindo-se
variáveis de controle para analisar se os resultados se mantêm significativos.
Na parte inferior da tabela, é apresentado o teste de sobreidentificação de
Hansen J (1982), para mostrar que, em todas as análises, não é rejeitada a
hipótese nula, indicando que os instrumentos aparentemente não são
correlacionados com o termo de erro da regressão. No Teste Qui-quadrado (χ2), é
rejeitada a hipótese nula, indicando que as frequências observadas não são
diferentes das frequências esperadas, ou seja, existe associação entre os
grupos de variáveis.
Em todas as análises apresentadas, a propriedade do acionista principal
influencia negativamente a eficiência em um período posterior, com um nível de
significância de 1% nas regressões 1 e 6; com um nível de significância de 5%
nas regressões 2, 3, 4, 7 e 9; e com um nível de significância de 10% nas
regressões 5 e 8. O fato de a variável explicativa ser defasada em um período é
bastante lógico pelo fato de que uma mudança na estrutura de propriedade
somente repercutirá na eficiência em um período posterior, até porque os dados
analisados são consolidados anualmente, expondo o reflexo dessa mudança somente
no outro ano. Nos resultados, mostra-se que a mudança em 1% da estrutura de
propriedade do acionista principal afeta negativamente a eficiência de 0,49 a
1,15%. Em termos econômicos, considerando um desvio padrão que varia de 0,23 a
0,39, o aumento de 1% na propriedade do acionista principal diminui de 0,11 a
0,45% a eficiência das empresas.
Em termos de variáveis de controle, as relativas ao tamanho (ativo total e
receita líquida), que não foram colocadas na mesma regressão por apresentarem
correlação muito alta, mostraram-se negativamente relacionadas com a
eficiência, mas nas regressões 6 e 9, somente, mostraram-se significativas ao
nível de 10 e 5%, respectivamente. Esse resultado está em compasso com Klapper
e Love (2004), os quais afirmam que o efeito do tamanho sobre a governança pode
ser negativo, pois geralmente nas maiores empresas ocorrem mais problemas de
agência (devido à maior dificuldade de monitoramento), exigindo a busca de
mecanismos de governança mais eficazes.
A variável referente à alavancagem apresentou-se negativa e significativamente
relacionada com a eficiência ao nível de 1% pois, de acordo com Boubakri e
Cosset (1998), existe uma tendência de que haja diminuição na alavancagem à
medida que aumenta a eficiência, porque o aumento do endividamento pode
dificultar a alocação eficiente dos recursos.
O fato de existir acordo de acionistas na empresa, conforme a análise, afeta
positivamente a eficiência em 1,10 e 1,06%. Em termos econômicos, considerando-
se um desvio padrão de 0,49 a 0,52, o aumento de 1% na existência de um acordo
de acionistas na empresa, aumenta em 0,54 e 0,55%, respectivamente, a
eficiência das organizações. Essa inferência está em compasso com Aldrighi e
Mazzer (2007), os quais afirmam que os acordos de acionistas garantem o
controle em uma fração substancial das empresas que dispõem deles, fazendo com
que o acionista principal não seja tão soberano sobre as decisões que afetam a
eficiência da empresa, diminuindo os benefícios privados focados em uma só
pessoa e afetando positivamente o desempenho da empresa. Por fim, foram
utilizadas dummies temporais e industriais em todas as regressões, contemplando
as particularidades setoriais e condições de cada ano abrangido na análise.
Nas regressões 3, 6 e 9, foram testadas as dummies referentes ao fato de o
acionista principal ser pessoa física (PF), à existência de estrutura piramidal
(EP), controle acionário estatal (CAP) e estrangeiro (CAE) e takeover (TO).
Praticamente em nenhuma variável se apresentou relação significativa com a
eficiência, com exceção do takeover nas regressões 3 e 9, que foi negativa e
significativamente relacionada com a eficiência em 0,57 e 0,49%, ao nível de
10%. Em termos econômicos, considerando um desvio padrão de 0,30 para as duas
análises, o aumento de 1% na existência de takeovers nas empresas aumenta em
0,17 e 0,15%, respectivamente, a eficiência delas. Esse resultado vai contra os
estudos de Stulz, Walkling e Song (1990), os quais identificaram que, quando
existe um takeover, os ganhos da empresa que está sendo adquirida estão
diretamente relacionados com a estrutura de propriedade.
A variável dependente defasada, nas regressões 5, 8, 15 e 17, apresentou-se
positiva e significativa ao nível de 10% nas duas primeiras e 5% nas duas
últimas, mostrando que a eficiência em um período anterior a afeta
positivamente em um período futuro.
4.3. Análise setorial da influência da estrutura de propriedade na eficiência
Com a finalidade de verificar se a influência da estrutura de propriedade na
eficiência muda dependendo do setor de atividade em que a empresa está
inserida, foi realizada análise separada nos 13 setores classificados
anteriormente na análise da DEA. Para identificá-los, foram utilizados os
mesmos critérios do Economática, que classifica 21 setores diferentes, alguns
deles rearranjados por critério de homogeneidade, ficando, assim, dispostos:
•finanças e seguros;
•construção;
•siderurgia, metalurgia e mineração de produtos metálicos;
•prestação de serviços;
•alimentos e bebidas;
•indústria de veículos, máquinas, peças e eleletroeletrônicos;
•telecomunicações;
•têxtil;
•química, petróleo e gás;
•celulose, agro, pesca e mineração de produtos não metálicos;
•comércio;
•administração de empresas e empreendimentos;
•energia elétrica.
Nessa análise, também foi considerado o modelo de eficiência relacionado à
estrutura de propriedade do acionista principal, dos três principais acionistas
e dos cinco principais acionistas, que são apresentados resumidamente na Tabela
3. Foram consideradas todas as variáveis do modelo geral assim como aplicados
todos os testes, os quais foram, porém, suprimidos da tabela por motivos de
síntese.
Como pode ser percebido na Tabela_3, o setor de finanças e seguros (1)
apresentou um resultado dúbio, em que a mudança de 1% na propriedade afeta
positivamente a eficiência em 0,68% ao nível de significância de 10%,
considerando-se somente o acionista principal, e afeta negativamente a
eficiência em 2,13% ao nível de 1%, considerando-se os cinco principais
acionistas. Em termos econômicos, considerando-se um desvio padrão de 0,41, o
aumento de 1% na propriedade do acionista principal aumenta em 0,28% a
eficiência das empresas nesse setor. Já para os cinco principais acionistas,
com um desvio padrão de 0,54, o aumento de 1% na estrutura de propriedade
diminui em 1,15% a eficiência das empresas. No setor de construção (2) é
evidenciada uma relação positiva entre estrutura de propriedade e eficiência,
mostrando que a mudança em 1% na propriedade do acionista principal afeta
positivamente a eficiência em 0,52% ao nível de 1%. Em termos econômicos, a um
desvio padrão de 0,19, essa mudança afeta positivamente a eficiência em 0,10%.
No setor de siderurgia, metalurgia e mineração de produtos metálicos (3), nos
resultados evidenciou-se uma relação positiva significativa entre propriedade e
eficiência nas análises com três e com cinco acionistas principais, em que o
aumento de 1% da propriedade influencia em 2,11% a um nível de 10 e 2,09% a um
nível de 5%, respectivamente. Em termos econômicos, a um desvio padrão de 1,14
e 0,86, a estrutura de propriedade, nessas análises, influencia positivamente a
eficiência em 2,41% e 1,81%.
No setor de prestação de serviços (4), essa relação positiva foi encontrada em
todas as análises, em que o aumento de 1% na propriedade do acionista
principal, três e cinco acionistas principais afeta positivamente a eficiência,
respectivamente, em 0,88% ao nível 5%, em 1,10% ao nível de 5% e em 7,53% ao
nível de 1%. Em termos econômicos, a um desvio padrão de 0,42, 0,55 e 1,55, a
mudança de 1% na propriedade do acionista principal, três e cinco acionistas
principais influencia positivamente a eficiência em 0,37%, 0,61% e 11,68%,
respectivamente.
Esse mesmo padrão é encontrado no setor de alimentos e bebidas (5), em que o
aumento de 1% na propriedade do acionista principal, três e cinco acionistas
principais afeta positivamente a eficiência em 0,98%, 1,41% e 1,19%,
respectivamente, ao nível de 10%. Em termos econômicos, a um desvio padrão de
0,60, 0,85 e 0,69, a mudança de 1% na propriedade do acionista principal, três
e cinco acionistas principais influencia positivamente a eficiência em 0,58%,
1,20% e 0,82%, respectivamente. Tratando-se da indústria de veículos, máquinas,
peças e eleletroeletrônicos (6), o aumento de 1% na propriedade dos três e
cinco principais acionistas influencia positivamente a eficiência em 1,24% e
0,99% a um nível de 10%, respectivamente. Em termos econômicos, a um desvio
padrão de 0,75 e 0,52, a mudança de 1% na propriedade influencia positivamente
a eficiência em 0,93% e 0,52%, respectivamente.
No setor de telecomunicações (7), o resultado foi controverso: o aumento de 1%
na propriedade do acionista principal afeta negativamente a eficiência em
1,09%. Em termos econômicos, com um desvio padrão de 0,54, essa influência
negativa é de 0,59%. Em compensação, nas demais análises, o aumento de 1% na
propriedade dos três e cinco principais acionistas influencia positivamente a
eficiência em 1,64% e 1,68% a um nível de 1%. Em termos econômicos, a um desvio
padrão de 0,66 e 0,52, a mudança de 1% na propriedade influencia positivamente
a eficiência em 1,07% e 0,87%, respectivamente.
No setor têxtil (8), todos os resultados foram consistentes, mostrando que a
relação entre propriedade e eficiência é negativa, e o aumento de 1% na
propriedade dos três e cinco principais acionistas influencia negativamente a
eficiência em 1,44% a um nível de 1% e 2,08% a um nível de 5%, respectivamente.
Em termos econômicos, a um desvio padrão de 0,52 e 0,93, a mudança de 1% na
propriedade influencia negativamente a eficiência em 0,74% e 1,95%,
respectivamente. No que diz respeito ao setor de química, petróleo e gás (9),
os resultados foram negativamente significativos em todas as análises, e o
aumento de 1% na propriedade do acionista principal, três e cinco principais
acionistas influencia negativamente a eficiência em 0,57% a um nível de 5%,
0,29% a um nível de 10% e 0,54% a um nível de 5%. Em termos econômicos, a um
desvio padrão de 0,39, 0,17 e 0,23, a mudança de 1% na propriedade influencia
negativamente a eficiência em 0,16%, 0,05% e 0,13%, respectivamente.
Já no setor de celulose, agro, pesca e mineração de produtos não metálicos
(10), a propriedade afeta negativamente a eficiência, com exceção da análise do
acionista principal, em que o aumento de 1% na propriedade afeta positivamente
a eficiência em 0,25% a 10% de confiança. Em termos econômicos, com um desvio
padrão de 0,15, essa influência positiva é de 0,04%. Nas demais análises, o
aumento de 1% na propriedade dos três e cinco principais acionistas influencia
negativamente a eficiência em 0,58% a um nível de 10% e 0,87% a um nível de 5%,
respectivamente. Em termos econômicos, a um desvio padrão de 0,33 e 0,44, a
mudança de 1% na propriedade influencia negativamente a eficiência em 0,19% e
0,39%.
No setor comercial (11), os resultados foram consistentes, mostrando que a
propriedade é inversamente relacionada com a eficiência, e o aumento de 1% na
propriedade dos três e cinco principais acionistas influencia negativamente a
eficiência em 0,32% a um nível de 5% e 0,30% a um nível de 10%,
respectivamente. Em termos econômicos, a um desvio-padrão de 0,17 e 0,16, a
mudança de 1% na propriedade influencia negativamente a eficiência em 0,19% e
0,39%, respectivamente.
Em compasso com o anterior, no setor de administração de empresas e
empreendimentos (12) os resultados mostraram-se consistentes, evidenciando uma
relação positiva significativa entre propriedade e eficiência na análise com o
acionista principal e com os três principais acionistas, em que o aumento de 1%
da propriedade influencia em 0,39% a um nível de 5% e 0,97% a um nível de 1%,
respectivamente. Em termos econômicos, a um desvio-padrão de 0,20 e 0,33, a
estrutura de propriedade, nessas análises, influencia positivamente a
eficiência em 0,08% e 0,32%, respectivamente.
Por fim, no setor de energia elétrica (13) o resultado foi controverso, e na
análise da influência dos cinco principais acionistas sobre a eficiência o
aumento de 1% na propriedade afeta negativamente a eficiência em 4,69%, a um
nível de significância de 10%. Em termos econômicos, com um desvio padrão de
2,78, essa influência negativa é de 13,04%. No entanto, nas demais análises o
resultado foi oposto, em que o aumento de 1% na propriedade do acionista
principal e dos três e principais acionistas influencia positivamente a
eficiência em 1,44% a um nível de 5% e 5,95% a um nível de 10%,
respectivamente. Em termos econômicos, a um desvio padrão de 0,74 e 3,39, a
mudança de 1% na propriedade influencia positivamente a eficiência em 1,07% e
20,18%, respectivamente.
4.4. Teste de robustez
Conforme descrito anteriormente, a descoberta da forma com que a estrutura de
propriedade é desenhada pode influenciar os resultados da empresa, auxiliando
de várias maneiras a obter um ponto ótimo entre essas duas variáveis. No
entanto, o grande impasse está em como identificar o desempenho da empresa.
Belkaoui e Pavlik (1992), assim como Hitt e Ireland (1986), usaram como
variável dependente, representando o desempenho da empresa, o logaritmo da
receita ou a capitalização de mercado. Em seu estudo, Frydman et al. (1999)
consideram a lucratividade como medida de eficiência. Megginson et al. (1994)
indicaram essa medida por meio da receita da empresa dividida pelo número de
funcionários. No entanto, esses autores negligenciam o fato de que o foco
estratégico de uma organização é sua função operacional, ou seja, o processo de
transformar inputs em outputs (Sheu & Yang, 2005).
Por esse motivo, os cálculos da Tabela_2 foram refeitos, contemplando, como
variáveis dependentes, medidas comumente utilizadas por acadêmicos a fim de
compará-las com os resultados alcançados. Foram calculadas 15 regressões
abrangendo cinco medidas de eficiência baseadas somente em outputs (Q de Tobin,
ROA, ROE, ROS e Receita Líquida) para o acionista principal (M), três
principais acionistas (T) e cinco principais acionistas (C), mas, na Tabela_4,
por motivos de síntese, são apresentadas cinco regressões contemplando somente
a concentração do acionista principal (M).
Conforme as análises anteriores, os testes de sobreidentificação de Hansen J
(1982), o testeχ2 e o teste de Arellano e Bond (1991) [AR(1) e AR(2)] foram
aplicados e os resultados são similares aos encontrados. No entanto, ao
utilizar somente variáveis de output como medidas de eficiência, a relação
entre estrutura de propriedade e eficiência foi bem menos representativa, mesmo
que continue apresentando uma relação negativa entre as variáveis. Quando
utilizado o Q de Tobin, única medida de eficiência de mercado, a influência não
foi significativa em nenhuma análise. Esse mesmo resultado foi encontrado
quando considerado o retorno sobre as vendas (ROS). Tratando-se de retorno
sobre o ativo (ROA), a estrutura de propriedade, nas três análises, influencia
negativamente essa variável de 2% a 4%, com um nível de significância de 10% a
5%. Já considerando o retorno sobre o patrimônio (ROE), a análise foi
significativa somente quando considerado o acionista principal, influenciando
negativamente a eficiência em 11%, a um nível de significância de 10%. Por fim,
a receita bruta foi a que apresentou resultados mais próximos aos encontrados
no estudo, em que a estrutura de propriedade influencia negativa e
significativamente essa variável de 43% a 75%, a um nível de significância que
varia de 10% a 5%.
Em termos de variáveis de controle, as relativas a tamanho (receita líquida e
patrimônio líquido - quando a variável dependente foi a receita) foram
positivas e significativas nas regressões que envolvem ROS e receita líquida. A
variável referente à alavancagem apresentou-se negativa e significativamente
relacionada com a eficiência ao nível de 1% nas regressões que envolvem ROA,
ROE e ROS, sendo positiva e significativa, também ao nível de 1%, nas
regressões que envolvem Q de Tobin e receita líquida. O fato de existir acordo
de acionistas na empresa não foi significativo em nenhuma análise. Por fim,
assim como nas outras analises, foram utilizadas dummies temporais e
industriais em todas as regressões, contemplando as particularidades setoriais
e condições de cada ano abrangido na análise. Os resultados apresentados deixam
claro, também empiricamente, que a medida de eficiência por meio da DEA é mais
significativa e mais representativa do que as medidas comumente utilizadas para
medir o desempenho das empresas.
5. CONCLUSÕES, CONTRIBUIÇÕES E LIMITAÇÕES DO ESTUDO
Existe uma grande controvérsia sobre como a estrutura de propriedade afeta a
eficiência. Artigos seminais, como o de Jensen e Meckling (1976), afirmam que a
estrutura dispersa é prejudicial para a empresa, pois aumenta os custos
decorrentes do problema de agência. Já La Porta et al. (1999) argumentam que
esse tipo de estrutura é benéfico devido ao fato de diminuir a possibilidade de
expropriação dos acionistas minoritários pelos majoritários em países em que a
proteção legal é fraca, como no caso do Brasil, no qual predomina a lei civil.
Partindo desses pressupostos, em todas as análises realizadas foi comprovado
que a estrutura de propriedade influencia negativamente a eficiência, ou seja,
estruturas mais concentradas prejudicam a alocação eficiente de recursos das
empresas no Brasil. Esse resultado corrobora os encontrados por La Porta et al.
(1999), mostrando que o Brasil possui uma proteção legal contra expropriação de
acionistas minoritários muito fraca decorrente de fatores históricos provindos
da formação legal no País. O Brasil, assim como grande parte dos países
subdesenvolvidos, possui leis civis, evidenciando, mais uma vez, problemas de
proteção legal. Os resultados não rejeitam a hipótese 1, mas rejeitam a
hipótese 1A, formuladas na seção 2. Essa questão é corroborada pelos estudos de
Aldrighi e Mazzer (2007), que evidenciam a incipiência do mercado de capitais
no Brasil, mostrando que o conflito predominante é entre majoritários e
minoritários, já que, pela concentração da propriedade e sobreposição com a
gestão, são menos expressivos os conflitos de agência. Outra possível
explicação para o resultado é identificada por Silveira (2004), que mostrou que
administrações mais profissionalizadas, geralmente mais pulverizadas, possuem
melhor qualidade e que a concentração da decisão em uma só pessoa, ou em uma só
família, gera ineficiências nas empresas brasileiras.
Quando existe um takeover, a influência da propriedade do acionista principal
sobre a eficiência é negativa e inconsistente com os estudos de Stulz et al.
(1990). Já o acordo de acionistas apresentou uma relação positiva com a
eficiência, sendo justificada por Aldrighi e Mazzer (2007), que afirmam que
esse acordo pode garantir o controle em uma fração substancial das empresas,
dirimindo problemas de expropriação e formando uma massa crítica para intervir
ativamente no andamento da empresa. As demais dummies referentes a pessoa
física, estrutura piramidal, capital estrangeiro e capital estatal, apesar de
apresentarem sinais condizentes com a teoria, não se mostraram significativas.
Na análise setorial, percebeu-se que, para alguns setores, a relação entre
estrutura de propriedade e eficiência é negativa, como nos casos: têxtil;
química, petróleo e gás; celulose, agro, pesca e mineração de produtos não
metálicos; e comercial - corroborando a hipótese 1 e a análise geral. Em alguns
outros casos, essa relação é positiva, como construção; siderurgia, metalurgia
e mineração de produtos metálicos; prestação de serviços; alimentos e bebidas;
indústria de veículos, máquinas, peças e eleletroeletrônicos; e administração
de empresas e empreendimentos - corroborando a hipótese 1A. O resultado obtido
neste trabalho corrobora o dos estudos de Thomsen e Pedersen (2000), Hotchkiss
e Strickland (2003), Khorana, Servaes e Wedge (2007), dentre outros, que
identificaram uma relação positiva entre estrutura de propriedade e eficiência
em outros países. Esse fato indica que, em alguns setores no Brasil, a
expropriação de acionistas minoritários pode ocorrer em menores proporções, ou
os problemas de agência podem ser mais pronunciados, fazendo com que essa
questão se sobreponha às demais. Alguns outros setores, como finanças e
seguros, telecomunicações, e energia elétrica, apresentaram resultados
ambíguos.
Os resultados encontrados evidenciam as condições particulares das finanças
corporativas no Brasil no que tange à governança corporativa. A incipiência do
mercado de capitais brasileiro, destacada por Aldrighi e Mazzer (2007), é
percebida em várias análises que ressaltam ser o histórico do sistema
corporativo brasileiro um dos fatores limitantes da eficiência das empresas.
Esse sistema apresenta-se sob condições que dificultam a expansão e prejudicam
o desempenho, como:
•o pequeno número de empresas que têm expressão mundial, tanto do
ponto de vista de suas dimensões como de seus graus de inserção no
ambiente global de negócios;
•a presença extensiva de empresas de origem externa entre as 100
maiores do setor financeiro e, principalmente, entre as 500 maiores
do setor real;
•a preponderância, entre as sociedades anônimas, das de capital
fechado;
•a expressiva participação do capital privado tanto nacional quanto
de origem externa, relativamente ao controle do estado;
•o pequeno e decrescente número de empresas listadas na Bolsa;
•a participação expressiva de investimentos estrangeiros e
institucionais no mercado de capitais;
•a forte presença de grupos familiares e alta concentração da
propriedade entre as empresas de capital privado nacional.
Todos esses fatores também estão atrelados e, muitas vezes, são decorrentes da
fraca proteção legal existente no País. As relações das empresas com os
acionistas minoritários são conflituosas e é reduzido o número de companhias
que consideram explícita e sistematicamente os interesses dos minoritários.
As inferências encontradas no estudo mostram que a estrutura de propriedade
influencia negativamente a eficiência, contrariando grande parte dos estudos
baseados no modelo norte-americano e evidenciando que as peculiaridades dos
países devem ser levadas em consideração, principalmente com relação a sua
origem legal.
Em compensação, o trabalho possui algumas limitações. Por ser utilizada DEA
para o cálculo da variável dependente do modelo, o estudo sofre as mesmas
críticas referentes a esse método, por ser uma medida de eficiência relativa.
Outra restrição da pesquisa diz respeito ao fato de que a relação entre a
eficiência e a estrutura de propriedade pode ser endógena. Por fim, Papke e
Wooldridge (1996) indicam que quando a variável dependente é uma proporção pode
causar distorções na análise, devido ao fato de constituir uma variável
truncada, limitada aos valores que vão de 0 a 1. Então, nesse caso, deve-se
aplicar uma transformação logística (logit). Embora essa transformação tenha
sido feita, os resultados foram qualitativamente similares.