Cenários prospectivos para o comércio internacional de etanol em 2020
1. INTRODUÇÃO
Para auxiliar a elaboração de estratégias em ambientes complexos e marcados
pela incerteza, uma técnica possível é a elaboração de cenários. Wright e Spers
(2006) afirmam que elaborar cenários não é um exercício de predição, mas sim um
esforço de fazer descrições plausíveis e consistentes de situações futuras
possíveis, apresentando os condicionantes do caminho entre a situação atual e
cada cenário futuro, destacando os fatores relevantes às decisões que precisam
ser tomadas. Os cenários podem ser considerados plataformas para conversações
estratégicas que levam à aprendizagem organizacional contínua a respeito de
decisões-chave e prioridades (Schwartz, 2000).
Cenários de larga escala (large-scale scenarios) podem ajudar na formulação de
estratégias e investimentos ao aumentar a robustez da estratégia por
identificar e desafiar premissas subjacentes sobre o futuro; permitir melhores
decisões estratégicas pela identificação e pela modelagem de incertezas antes
de serem feitos comprometimentos substanciais e irreversíveis; aumentar o
conhecimento e o entendimento sobre o ambiente externo e aumentar a velocidade
de resposta a eventos inesperados pela visualização antecipatória de futuros
possíveis.
Aplicados às questões energéticas atuais, desafio para países em todo o mundo,
há um grande potencial de contribuição de cenários devido à identificação do
sistema de forças demográficas, sociais, econômicas, políticas, culturais e
tecnológicas que estão modificando e dando novas formas para a oferta e a
demanda por fontes de energia.
O Brasil tem sido um dos maiores produtores mundiais de cana-de-açúcar ao longo
da história. Em 1975, foi criado o Programa Nacional do Álcool - o
Proálcool, com as finalidades de reduzir a grande dependência do petróleo
importado e criar um mercado adicional para os produtores de açúcar, o que
incentivou a indústria automobilística no desenvolvimento e na fabricação de
carros movidos exclusivamente a álcool (Empresa de Planejamento Energético
[EPE], 2008).
Na primeira fase do Programa, o seu principal objetivo consistia na produção de
álcool anidro para a mistura com gasolina. Esforços em pesquisa e
desenvolvimento (P&D) direcionados à fabricação de carros movidos
exclusivamente a álcool resultaram na criação desses veículos em 1978 (EPE,
2008). Em decorrência ao segundo choque do petróleo em 1979, o governo
brasileiro decidiu aumentar o uso combustível do etanol, assinando acordos com
fabricantes de automóveis e estimulando a construção de grande número de
destilarias autônomas, o que deu início à produção em larga escala do etanol
hidratado (EPE, 2008).
O substancial crescimento das exportações de açúcar, na década de 1990,
resultou em escassez e racionamento do etanol, comprometendo os objetivos
originais do programa com o declínio do consumo desse combustível no Brasil,
que se estendeu até 2003. Nesse ano, surge no mercado nacional o veículo
flexfuel ou bicombustível, cuja tecnologia permitia o uso de álcool hidratado
ou gasolina, em qualquer proporção da mistura deles, possibilitando ao
consumidor final a escolha do combustível para abastecer o seu automóvel (EPE,
2008).
Bastos (2007) pontua que programas da União Europeia e dos Estados Unidos
dedicam cada vez maior espaço ao etanol e, em especial, à utilização da
biomassa como fonte de matérias-primas, com aporte de recursos para P&D de
novas tecnologias e a aposta no desenvolvimento e na construção de
biorrefinarias. As perspectivas de consolidação de seus mercados de etanol e
alcance das metas de expansão do uso do etanol exigem a ampliação da produção
em níveis não passíveis de serem atendidos. A ampliação da produção de etanol
sem aumento da área cultivada requer o uso de fontes alternativas como a
biomassa, que, ademais, poderá tornar o etanol competitivo em custos.
Atualmente isso não ocorre e há diferenças marcantes de custo dependendo da
matéria-prima utilizada e dos processos de produção do etanol (Bastos, 2007).
Segundo Milanez, Faveret Filho e Rosa (2008), a posição do Brasil no que se
refere à produção de biocombustíveis pode ser classificada como privilegiada,
em virtude da conjugação de dois fatores: a grande extensão territorial e o
clima tropical. Isso é particularmente verdadeiro no que diz respeito à
produção de etanol proveniente da cana-de-açúcar. O Brasil possui cerca de 100
milhões de hectares de terras aráveis distribuídas distantes dos biomas
naturais - Amazônia - e, atualmente, o País utiliza apenas sete
milhões de hectares para o plantio dessa cultura, sendo cerca de 50% para a
produção de etanol e o restante para a de açúcar, representando apenas 1% do
total utilizado para plantios, segundo dados da Empresa de Planejamento
Energético (EPE, 2008).
Diante desse contexto, o objetivo neste trabalho é desenvolver cenários para o
comércio internacional de etanol em 2020, apontando incertezas que serão
enfrentadas pelas empresas brasileiras do setor. Os cenários justificam-se,
pois houve grande euforia com o setor no início dos anos 2000. Investimentos
maciços foram realizados para a construção de greenfields; o capital externo
entrou no País adquirindo usinas menores e independentes; a pesquisa
tecnológica em torno do biocombustível está em pleno desenvolvimento, tanto por
empresas do setor como também por outras que estão buscando diversificar os
seus negócios, incluindo empresas petrolíferas. No Brasil, o setor
sucroalcooleiro vem expandindo as possibilidades de negócios gerados a partir
da cana-de-açúcar, com o crescimento de biorrefinarias, P&D em
bioplásticos, apenas para citar negócios que já estão sendo explorados.
Para cumprir o seu propósito, este trabalho está estruturado como segue: na
seção 2 apresenta-se e discute-se o conceito de estudos prospectivos e do
método de cenários; na seção 3 apresenta-se a aplicação do método para o
desenvolvimento dos cenários para o comércio internacional de etanol em 2020;
e, por fim, na seção 4 apresentam-se as considerações finais do artigo.
2. ESTUDOS PROSPECTIVOS E CENÁRIOS
No campo dos estudos do futuro, podem ser identificadas duas áreas de pesquisas
que apresentam pressupostos e técnicas distintas, sendo elas a previsão
(forecasting) e a prospecção (foresight). Jouvenel (2000) afirma que o processo
prospectivo apresenta traços essenciais que os distanciam da previsão em geral.
Em primeiro lugar, a prospecção usa um enfoque pluridisciplinar de inspiração
sistêmica baseada no princípio de que os problemas não podem ser corretamente
compreendidos se reduzidos a uma dimensão, como ocorre geralmente quando são
abordados a partir de disciplinas acadêmicas distintas. Em vez disso, a
prospecção oferece uma abordagem que captura as realidades em sua totalidade
com todas as variáveis que agem sobre elas, baseada no estudo de todos os
fatores e suas inter-relações.
Para o Departamento de Prospecção e Planejamento de Portugal (Portugal, 1997),
pode-se ir mais longe no confronto entre as abordagens da previsão e da
prospecção, conforme mostra o Quadro_1.
A previsão, conforme mostra a coluna esquerda do Quadro 1, é amplamente apoiada
por métodos estatísticos e modelagem econométrica, partindo do pressuposto de
que o passado é um bom preditor do futuro, podendo-se, portanto, privilegiar
continuidades e certezas. Por outro lado, a prospecção, coluna direita do
Quadro_1, considera que o futuro pode ser marcado por incertezas e
descontinuidades, devendo-se considerá-las em uma abordagem flexível e
qualitativa.
Tendo em vista os aspectos específicos que caracterizam a prospecção, uma
técnica adequada para a realização de estudos dessa natureza diz respeito à
Técnica de Cenários. Na literatura, podem ser encontradas diversas definições
para o termo cenário, a partir de seu uso como ferramenta de prospecção do
futuro.
Wright e Spers (2006) afirmam que elaborar cenários não é um exercício de
predição, mas sim um esforço de fazer descrições plausíveis e internamente
consistentes de situações futuras possíveis, apresentando os condicionantes do
caminho entre a situação atual e cada cenário futuro, destacando os fatores
relevantes às decisões que precisam ser tomadas.
Godet (2000) afirma que, na prática, não há um único método para o
desenvolvimento de cenários, mas uma variedade de métodos para a construção,
sendo alguns simplistas e outros sofisticados. Entretanto, pontua o autor, há
consenso que o termo método de cenários somente se aplica para uma abordagem
que inclua um número de etapas específicas inter-relacionadas - análise
de sistemas, retrospectiva, estratégia dos atores e elaboração de cenários.
Para propostas sérias, Coates (2000) afirma que é necessária uma abordagem
sistemática para elaborar cenários. O cenário ideal, para o autor, é
transparente no sentido de que o usuário sabe quais as regras usadas para a sua
construção, entende as etapas do processo e vê o resultado com a percepção de
que poderia obter o mesmo resultado aplicando o mesmo processo. Coates (2000)
sugere que cenários devem ser elaborados a partir da identificação e da
definição do universo de preocupação, definição das variáveis que serão
importantes para moldar o futuro, identificação dos temas para os cenários e,
finalmente, a criação dos cenários. Em linha semelhante, Jouvenel (2000) propõe
que há, basicamente, cinco estágios para o procedimento prospectivo: definição
do problema e escolha do horizonte de tempo, identificação das variáveis e
construção do sistema, coleta de dados e elaboração de hipóteses, exploração de
futuros possíveis e de escolhas estratégicas.
Wright e Spers (2006) descrevem sete etapas: definição do escopo e dos
objetivos dos cenários; identificação das variáveis, tendências e eventos
fundamentais; estruturação das variáveis dos cenários; projeção dos estados
futuros das variáveis e sua probabilidade de ocorrência; identificação de temas
motrizes dos cenários; montagem de uma matriz morfológica para cada cenário;
redação e validação dos cenários. Essas etapas são descritas a seguir.
• Definição do escopo e dos objetivos dos cenários -
caracterização do escopo dos cenários; caracterização das decisões
relevantes a apoiar; os atores centrais e grupos de interesse
(stakeholders); a abrangência geográfica dos cenários; e o horizonte
temporal.
• Identificação das variáveis, tendências e eventos fundamentais
- identificar as variáveis fundamentais, considerando os
stakeholders e outros pontos relevantes para os cenários futuros.
• Estruturação das variáveis dos cenários - identificação de
tendências pesadas e fatores invariantes; eventos incertos e fatos
portadores do futuro e relações de causa e efeito entre as variáveis,
identificando variáveis causais, intermediárias e resultantes.
• Projeção dos estados futuros das variáveis e sua probabilidade de
ocorrência - projeções qualitativas e quantitativas de dois e
quatro estados futuros por variável e estimativas de probabilidades
de ocorrência dos estados futuros identificados.
• Identificação de temas motrizes dos cenários - são definidos
temas distintos para cada cenário, nesse caso com as seguintes
características: um cenário mais provável que considera as forças
históricas continuando a agir como no passado; dois cenários
exploratórios contrastados que consideram o desenvolvimento de temas
ou eventos marcantes, direcionadores do ambiente futuro e um cenário
normativo. De caráter prescritivo, esse cenário deve apresentar uma
situação factível e desejada.
• Montagem de uma matriz morfológica para cada cenário - a
matriz morfológica é utilizada para combinar de maneira consistente
os estados futuros previstos para cada variável dos cenários, com
base na estrutura dessas variáveis.
• Redação e validação dos cenários - o detalhamento dos
cenários, com a descrição de sua evolução e a explicitação das
relações e sequências de causa e efeito entre as variáveis
consideradas, assim como análise da consistência interna, da
plausibilidade de cada cenário e da relevância das variáveis dos
cenários para as decisões a serem tomadas e a validação dos cenários
com especialistas ou grupos de interesse, por meio da apresentação e
da discussão deles. É a etapa final de elaboração.
A premissa dessa abordagem é de que os cenários devem ser elaborados não para
acertar previsões do futuro, mas sim para melhorar a base de informações e a
compreensão sobre decisões que precisam ser tomadas no presente para assegurar
objetivos futuros e estratégias robustas.
3. APLICAÇÃO DA TÉCNICA DE CENÁRIOS NA PROSPECÇÃO DO COMÉRCIO INTERNACIONAL DE
ETANOL
Neste trabalho utilizou-se a abordagem de Wright e Spers (2006) para a
construção dos cenários para o comércio internacional de etanol em 2020. Para
que seja realizada a aplicação do método, é necessário que sejam coletados
dados do cenário atual como ponto de partida. Para tanto, foram coletados dados
primários e secundários, com uso de duas técnicas: dados primários coletados
por meio de entrevista em profundidade com um Diretor da União da Indústria de
Cana-de-Açúcar (UNICA) com a duração aproximada de 90 minutos, realizada
presencialmente na sede da instituição, na cidade de São Paulo; e pesquisa
bibliográfica para a coleta de dados secundários, sendo utilizadas múltiplas
fontes: Estudos Setoriais do Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e
Social (BNDES), reportagens publicadas em revistas especializadas, como
Agroanalysis (FGV), materiais de divulgação da UNICA, além de teses e
dissertações dos bancos de teses da Universidade de São Paulo e da Universidade
de Campinas.
Dado que o objetivo central deste trabalho foi demonstrar a aplicação do método
de cenários, os dados coletados são apresentados e utilizados no decorrer da
aplicação nas subseções 3.1 e 3.2. A fim de facilitar o entendimento, é
retomada brevemente a descrição de cada etapa proposta por Wright e Spers
(2006).
3.1. Contexto atual e perspectivas do etanol
A entrevista com o diretor da UNICA permitiu o levantamento do cenário atual do
etanol e a identificação de incertezas relevantes para o setor. A União da
Indústria de Cana-de-Açúcar é a maior organização representativa de açúcar e
etanol do Brasil. Sua criação em 1997 resultou da fusão de diversas
organizações setoriais do estado de São Paulo, após a desregulamentação do
setor no País. A organização expressa-se e atua em sintonia com os interesses
dos produtores de açúcar, etanol e bioeletricidade, tanto no Brasil quanto ao
redor do mundo. As 119 empresas associadas à UNICA são responsáveis por 50% do
etanol e 60% do açúcar produzidos no Brasil.
No final de 2007, a UNICA abriu seu primeiro escritório internacional nos
Estados Unidos e, em 2008, na Europa, como parte de sua política de prover
informações detalhadas e atualizadas sobre as contribuições socioeconômicas e
ambientais do setor de açúcar, etanol e bioeletricidade a interlocutores como
consumidores, governos, organizações não governamentais, empresas e mídia.
Na visão da organização há a percepção de grandes oportunidades para o
estabelecimento de um mercado internacional para o etanol, tendo destaque o
mercado dos Estados Unidos e o da Europa no ponto de vista das exportações do
Brasil.
Atualmente, o mercado norte-americano com o Renewable Fuels Standard Program
prevê um consumo mandatório de 36 bilhões de galões de etanol até 2022, o que
representará aproximadamente 140 bilhões de litros. Portanto, é um mercado
atraente para o Brasil. Entretanto, para que seja economicamente viável atuar
nesse mercado, será necessário superar dificuldades em relação a barreiras
tarifárias e balanço de CO2.
Até 2011 vigoravam duas tarifas para que o etanol brasileiro entrasse nos
Estados Unidos. A primeira é a tarifa primária que está prevista em acordo da
Organização Mundial do Comércio (OMC), em que uma tarifa de 2,5% é cobrada
sobre o etanol importado. A segunda tarifa, ou tarifa secundária, corresponde a
US$ 0,54 por galão, ou US$ 0,19 por litro, a qual teve como origem a isenção
tributária para os distribuidores de gasolina. Quando foi criada a tarifa, os
distribuidores de gasolina tinham uma isenção de US$ 0,54 por galão. Para
evitar que esse benefício fosse auferido por produtores de fora do país, eles
criaram a tarifação de US$ 0,54 por galão para o etanol importado. Em outras
palavras, ao mesmo tempo em que há uma isenção para o etanol produzido
internamente, há uma taxação para o etanol importado, tendo em vista incentivar
a produção local. O Senado dos Estados Unidos aprovou, no dia 16 de junho de
2011, uma proposta que põe fim aos incentivos fiscais aos produtores de etanol
de milho e que pode abrir caminho para o etanol de cana-de-açúcar produzido
pelo Brasil. A emenda prevê a extinção do subsídio de US$ 0,45 por galão (US$
0,12 por litro) ao etanol de milho misturado à gasolina e também da tarifa de
US$ 0,54 por galão (US$ 0,14 por litro) imposta ao etanol importado.
Quanto à redução de CO2, o mercado norte-americano está dividido de acordo com
a capacidade dos diferentes tipos de matéria-prima para produzir etanol para
fazê-lo. O etanol está classificado em três tipos: o etanol convencional, o
avançado e o celulósico. O etanol convencional é capaz de reduzir o CO2 em até
20% comparado com a gasolina. O etanol de milho enquadra-se nessa categoria e
tem um limite máximo de consumo de 40% em 2022. Para os outros 60%, será
necessário adotar o etanol avançado, que chega a reduzir em 50% a emissão de
CO2 comparado com a gasolina, e o etanol celulósico que consegue diminuir em
60% as emissões quando comparado com a gasolina.
A incerteza envolvida nesse tema é que esses critérios estão sendo revistos com
a utilização de duas metodologias. A primeira é a análise do ciclo de vida, na
qual é observado todo o processo de produção e consumo do etanol, desde
plantio, transporte, industrialização e queima do combustível pelo automóvel. A
segunda metodologia são os modelos de uso indireto da terra, na qual são
avaliados todos os impactos quando há o aumento da produção de biocombustíveis,
em termos do que acontece com as outras culturas que são substituídas -
se para continuarem a ser plantadas essas outras culturas induzem o
desmatamento, liberando o CO2 que estava estocado no solo. Atualmente, essas
análises estão sendo feitas e o Brasil poderá se beneficiar atuando nas
parcelas de etanol avançado e celulósico.
Assim, nos próximos anos o mercado norte-americano é visto como grande
oportunidade, com o maior plano de etanol do mundo, mas ao mesmo tempo com
algumas dificuldades, seja do ponto de vista de barreiras tarifárias, seja do
ponto de vista de garantir que o cálculo que eles estão fazendo para verificar
o quanto o etanol brasileiro produz de CO2 seja correto.
O mercado europeu é o segundo maior mercado hoje e poderá ser atrativo no
futuro. A diretiva da União Europeia determina que até 2020 todos os 27 países
do bloco devem utilizar 10% de combustíveis renováveis em seus combustíveis. É
importante ressaltar que não necessariamente o etanol será utilizado, pois
outras fontes estarão concorrendo, como a eletricidade. Nas estimativas da
UNICA, na hipótese de substituição da gasolina por etanol, poderá haver um
mercado de 14 ou 15 bilhões de litros até 2020. Apesar de representar 10% do
mercado norte-americano de 2022, o mercado pode ser considerado grande, pois
representa quase o consumo total de etanol no Brasil. Além disso, o Brasil
poderá ter maior possibilidade de complementação do etanol local, pois a União
Europeia não tem um programa como o etanol de milho norte-americano - que
pode ser produzido em escalas muito maiores do que o etanol de beterraba e o de
trigo da União Europeia.
Entretanto, existem dificuldades a serem superadas nos próximos anos. A
primeira é a barreira tarifária de 19 centavos de euro por litro, sobre a qual
será necessário discutir nas Rodadas de Doha. A questão é complexa, pois além
de a tarifa ser maior do que a norte-americana, ela está registrada no
compromisso em Doha e depende das negociações na Rodada. O segundo problema são
as barreiras não tarifárias. Atualmente, quase todos os países da União
Europeia estão desenvolvendo fóruns para certificação. A questão será se não
houver um padrão único para certificação, o que dificultará a atuação do Brasil
no mercado europeu. O desafio para o futuro será alcançar convergência entre os
diferentes esquemas de certificação.
Quanto ao terceiro mercado, o asiático, a visão da UNICA é de que se trata de
um mercado que tem bastante perspectiva, mas não em estado tão desenvolvido
como o dos Estados Unidos e o da União Europeia. Na região, pode ser mencionada
a China que tem programas em algumas províncias - normativas de mistura
entre 5 e 10% de etanol. Outros países também estão desenvolvendo programas.
São países em condição de produzir etanol no leste asiático e no sudeste
asiático, como, por exemplo, Tailândia, Indonésia e Filipinas, que já produzem
cana-de-açúcar e mandioca. O programa na Tailândia, por exemplo, prevê parte da
produção de etanol por meio da mandioca, e os tailandeses estão conseguindo
alcançar competitividade com isso. Assim, a visão do mercado asiático é de que
estão surgindo programas na região que poderão gerar uma escala de consumo
importante para o Brasil.
Segundo o entrevistado, a UNICA acredita que o crescimento do consumo de
biocombustíveis não ocorrerá naturalmente como acontece com outras commodities,
pois esse não é um mercado que nasce e cresce espontaneamente. Nos próximos
anos, sua expansão ocorrerá a partir de políticas públicas, como nos casos de
misturas obrigatórias que o governo impõe. Tais políticas continuarão a atuar
em consonância com tendências e necessidades mais amplas da sociedade,
principalmente no que se refere às preocupações com sustentabilidade e à busca
por segurança energética.
A formação de um mercado internacional é um objetivo de longo prazo desejável.
Para isso, será necessário haver mecanismos que gerem liquidez para esses
mercados, como mercados futuros e contratos de longo prazo. Será necessário ter
uma referência de preços e um conjunto maior de informações de oferta e
demanda.
Outra questão é a incerteza da demanda. Ainda não há sinais claros de quanto os
mercados querem e em que ritmo crescerão. Como resposta, os mercados
potencialmente produtores se retraem em seus investimentos. Por outro lado,
muitos dos países demandantes, principalmente os países desenvolvidos, não são
mais ambiciosos nas propostas de seus programas, porque ficam receosos de
depender somente da produção brasileira para suprir sua demanda por etanol.
Assim, mercados demandantes não dão um sinal claro porque ainda não veem uma
capilaridade muito grande da oferta, configurando um impasse no desenvolvimento
do mercado.
Na visão da UNICA, o mercado produtor brasileiro está olhando muito fortemente
para o mercado internacional e está procurando se adequar às exigências,
principalmente no que se refere à certificação dos biocombustíveis.
Outra questão importante são os investimentos que começam a se delinear em
relação aos transportes. Hoje, o mercado consumidor é basicamente concentrado
em São Paulo, Minas Gerais, Paraná e Rio de Janeiro. Entretanto, a expansão da
cana-de-açúcar está ocorrendo cada vez mais longe dessas regiões, como em Goiás
e Mato Grosso do Sul. Como esse mercado não terá um consumo local importante, a
produção terá de ser direcionada para o mercado internacional - com
implicações para os custos de transporte para os portos. Assim, será necessário
viabilizar a construção de alcooldutos, de tal forma que se aumente a
competitividade da produção para exportação desses estados emergentes.
Para a UNICA, além do Brasil, nos próximos anos outros países têm potencial
para entrar no mercado internacional como fornecedores de etanol. Diversos
países da África têm condições agroclimáticas parecidas com o Brasil, como
Moçambique que está na mesma faixa de São Paulo. Em princípio são países com
boa perspectiva, além de estarem bem próximos dos consumidores da Ásia, por
exemplo. Entretanto, apenas as condições climáticas não serão suficientes para
lançar um país como fornecedor, pois 60% dos custos da produção de etanol estão
na parte agrícola. Nesse ponto, o Brasil tem vantagens, pois é bem desenvolvido
nas tecnologias de manejo agrícola. Além disso, os países africanos não dispõem
de mão de obra qualificada, infraestrutura e ambiente institucional
estabilizado. Por outro lado, a possibilidade de produção da bioeletricidade
para gerar energia no campo pode ser um estímulo adicional para países
africanos e também da América Central produzirem etanol.
Segundo a UNICA, um fator que será importante para o Brasil será a aliança com
os Estados Unidos, o que seria muito promissor. O ponto fundamental da aliança
será a cooperação técnica, pois irá se desenvolver na linha de novas
tecnologias e, dentre elas, a mais importante que é o etanol de segunda geração
ou etanol celulósico. Além disso, será importante ampliar o entendimento entre
os países para que se trabalhe um programa de segurança energética nas
Américas, no qual Estados Unidos e Brasil serão os principais players e poderão
fazer parcerias técnicas nas áreas agrícola e industrial com outros países em
condições de produzir cana-de-açúcar. Ainda que em fase embrionária, um ponto
que merece ser observado nos próximos anos é a iniciativa da União Europeia de
firmar parcerias com países da África.
No Brasil, o mercado de etanol foi aquecido com a introdução dos carros
flexfuel. Assim, buscou-se levantar a opinião da UNICA quanto à possibilidade
de introdução e expansão da tecnologia flexfuel em outros países. Dois fatores
limitantes foram identificados. O primeiro é que, para eles, a indústria
automobilística não tem interesse em ter tecnologias diferentes em diferentes
partes do mundo - o ideal é que elas possam produzir em determinado país
e exportar o mesmo produto para outros países. O segundo ponto é a questão dos
canais de distribuição, pela necessidade de criar uma rede que possibilite a
entrega do produto para o consumidor final.
Por fim, foi apontado pela UNICA que merecem atenção os novos usos que estão
sendo desenvolvidos para o etanol e que poderão aumentar a demanda pelo
biocombustível nos próximos dez anos, como a motocicleta flexfuel, o uso em
aviões de pulverização agrícola e os bioplásticos. Existem, ainda, estudos para
aviões comerciais de curta distância e outras pesquisas em etanol para ônibus
movido a diesel.
3.2. Desenvolvimento de cenários para 2020
Neste estudo segue-se a premissa apresentada por Wright e Spers (2006) de que
elaborar cenários não é um exercício de predição, mas sim um esforço de fazer
descrições plausíveis e consistentes de situações futuras possíveis,
apresentando os condicionantes do caminho entre a situação atual e cada cenário
futuro, destacando os fatores relevantes às decisões que precisam ser tomadas.
A seguir é descrita a aplicação das etapas desenvolvidas neste trabalho para se
chegar aos cenários.
3.2.1. Definição do escopo e dos objetivos dos cenários
A primeira etapa é a caracterização do escopo dos cenários e a caracterização
das decisões a apoiar, os atores centrais e grupos de interesse (stakeholders),
a abrangência geográfica dos cenários e o horizonte temporal.
Neste trabalho, foi definido que o escopo dos cenários é a configuração futura
do mercado internacional de etanol. O horizonte de tempo é 2020, uma vez que
grande parte da regulamentação que indica expansão da demanda do mercado
internacional baseia-se nesse ano. As questões que se pretende entender melhor
estão relacionadas ao perfil da demanda e ao perfil da produção, além dos
impactos das decisões tomadas na esfera político-institucional e que afetam os
players do mercado no âmbito internacional. O perfil da demanda será
influenciado principalmente pela adição mandatória de etanol à gasolina,
questão que tem evoluído nos últimos anos, principalmente nos Estados Unidos e
na União Europeia. O aumento da conscientização dos países e as preocupações
com a redução das emissões de dióxido de carbono na atmosfera também afetarão
positivamente a demanda, uma vez que o etanol é, atualmente, um combustível
economicamente viável e em condições de ser ofertado.
Acompanha a viabilidade econômica, os avanços tecnológicos que têm sido
realizados nos complexos agroindustriais. Na agricultura, a modernização dos
processos e a melhoria genética das cultivares têm aumentado a produtividade no
campo, o que impacta diretamente nos custos de produção. Na indústria, as
destilarias têm realizado diversos avanços nos processos produtivos para a
fabricação de etanol.
O perfil da oferta dependerá, em grande parte, justamente das capacitações
tecnológicas dos países em condições de produzir etanol, como Estados Unidos e
Brasil, com destaque para o último em termos de competitividade. Somam-se, ao
fator tecnológico, as vantagens comparativas, como condição de clima e
disponibilidade de solo. Cabe ressaltar que a simples indisponibilidade de
terras não elimina a possibilidade de um país entrar nesse mercado como
produtor. Estratégias para driblar essa deficiência podem ser adotadas, como o
arrendamento de terras na África. Além disso, a própria capacitação tecnológica
pode reduzir vantagens de clima e solo. O aumento da produtividade do etanol
produzido por hectare cultivado é um indicador de que, mesmo com menos terra
disponível, será possível a um país ser ofertante do produto.
Há que se considerar como ponto fundamental na configuração futura desse
mercado a geopolítica mundial que será estabelecida, em termos de acordos entre
os países para oferecer condições de compra e venda do produto no mercado
internacional. Condições que dependerão de negociações em relação à tarifação
para a entrada do produto e o estabelecimento de um padrão mundial para o
etanol. Nessa seara de geopolítica mundial poderão ocorrer acordos entre os
países e indícios dessa possibilidade já existem, haja vista o entendimento
entre Brasil e Estados Unidos expressando a intenção de cooperação e difusão de
biocombustíveis em uma estratégia de três níveis, envolvendo acordos bilaterais
e multilaterais e, também, intenções globais.
No que diz respeito aos stakeholders, podem-se apontar participantes do setor
empresarial (destilarias independentes e grupos empresariais produtores de
etanol), o governo (Ministério do Desenvolvimento, Indústria e Comércio
Exterior; Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento; Ministério de
Ciência e Tecnologia), institutos de pesquisa (Embrapa, Centro de Tecnologia
Canavieira) e entidades de defesa dos interesses do setor (UNICA).
3.2.2. Identificação das variáveis, tendências e eventos fundamentais
Uma vez definido o escopo foram identificados as variáveis fundamentais, as
tendências e os eventos fundamentais que determinarão os possíveis cenários
para o futuro. Para tanto, procedeu-se a uma pesquisa bibliográfica visando a
documentos de diversas naturezas - artigos acadêmicos, estudos técnicos,
estudos setoriais, reportagens de revistas especializadas, dissertações e teses
nas seguintes fontes: Estudos Setoriais do BNDES, reportagens publicadas em
revistas especializadas, como Agroanalysis(FGV), materiais de divulgação da
UNICA, além de teses e dissertações dos bancos de teses da Universidade de São
Paulo e da Universidade de Campinas. Com base nessa pesquisa bibliográfica,
foram selecionadas as seguintes variáveis para compor os cenários
internacionais do etanol:
• preocupação ambiental e mudanças climáticas;
• segurança energética do planeta;
• regulamentação interna dos países;
• capacitação tecnológica para produção de etanol;
• estabelecimento de um padrão internacional para o produto;
• política comercial dos países;
• movimentos contrários aos biocombustíveis;
• desenvolvimento tecnológico na indústria automobilística;
• desenvolvimento tecnológico em outras indústrias de transporte;
• preços internacionais do petróleo;
• preços internacionais do açúcar.
3.2.3. Estruturação das variáveis dos cenários
Após selecionadas, as variáveis foram estruturadas, identificando: tendências
pesadas e fatores invariantes; eventos incertos e fatos portadores do futuro; e
relações de causa e efeito entre as variáveis, identificando variáveis causais,
intermediárias e resultantes.
Assim, as variáveis identificadas foram estruturadas conforme apresentado na
Figura_1, em que a seta indica a relação do tipoafeta.
• Preocupação ambiental e mudanças climáticas - essa pode ser
considerada uma tendência pesada e tem motivado os países a reduzir a
emissão de dióxido de carbono na atmosfera. Comprometimentos têm sido
realizados, como o Protocolo de Quioto. Uma das alternativas para a
redução de emissões é a utilização de combustíveis mais verdes e o
etanol entra nesse contexto por, comprovadamente, reduzir as emissões
de CO2.
• Preocupação com a segurança energética do planeta - as
estimativas apontam para a redução crescente das reservas de petróleo
e a necessidade de haver energias alternativas. Busca-se também
diminuir a dependência de países com grande instabilidade política e
institucional, como é o caso dos países no Oriente Médio e Venezuela.
A preocupação com a segurança energética influencia positivamente a
expansão da produção e do comércio do etanol. Há que se considerar
que essa motivação de expansão ocorrerá no sentido de diversificar os
países em condição de ofertar, para que não haja poder de mercado e
dependência de alguns poucos players no abastecimento do mercado.
Essa pode ser considerada uma tendência pesada.
• Regulamentação interna dos países - associada às preocupações
ambientais e às mudanças climáticas está a regulamentação interna dos
países que prevê um percentual de adição obrigatória de etanol à
gasolina - ela afetará positivamente a demanda por etanol.
• Capacitação tecnológica para produção de etanol - a
capacitação tecnológica será um determinante dos países em condição
de atuar competitivamente na oferta do produto, envolvendo aspectos
da tecnologia de produção dominante e da fonte de biomassa que será
utilizada.
• Estabelecimento de um padrão internacional para o produto -
essa força estabelecerá barreiras no comércio internacional, na
medida em que criará um padrão que demandará dos países a capacidade
de atender às exigências.
• Política comercial dos países - a política comercial externa,
principalmente em termos de tarifação, afetará a dinâmica do comércio
internacional, na medida em que políticas protecionistas poderão
afetar a competitividade internacional dos players ofertantes. Nessa
força também atuam acordos comerciais entre países para a cooperação
na produção e no abastecimento de etanol.
• Movimentos contrários aos biocombustíveis - essa força será
moldada fortemente pela interação da produção de alimentos e da
produção de biocombustíveis, na medida em que commodities destinadas
à alimentação estão sendo destinadas para a produção de etanol (como
é o caso do milho nos Estados Unidos).
• Desenvolvimento tecnológico na indústria automobilística - no
Brasil, principalmente, o desenvolvimento de carros flexfuel
impulsionou o desenvolvimento da indústria de etanol na primeira
década deste século. A evolução dos veículos em termos de fonte de
combustível poderá afetar a demanda por etanol de forma incerta, uma
vez que em outros países a tecnologia flexfuel não tem grande
penetração.
• Desenvolvimento tecnológico em outras indústrias de transporte
- existem alguns sinais de adoção de etanol como combustível em
outros setores de transporte, como pequenos aviões agrícolas e
motores que combinam diesel e etanol.
• Preços internacionais do petróleo - considerando que o etanol
é um produto substituto da gasolina, as variações do preço do
petróleo no mercado internacional afetam a demanda e a oferta do
produto. Preços altos impulsionarão a demanda por etanol; preços
baixos terão efeitos contrários.
• Preços internacionais do açúcar - sendo o açúcar o principal
produto a ser considerado no custo de oportunidade do etanol, seus
preços devem ser considerados. Preços baixos impulsionam a produção
de etanol; preços altos terão efeitos contrários.
3.2.4. Projeção dos estados futuros das variáveis
Considerando os possíveis desdobramentos das variáveis, foram projetados os
estados futuros, por meio de projeções qualitativas. As projeções realizadas
são apresentadas no Quadro_2.
3.2.5. Identificação de temas motrizes dos cenários
Com as variáveis estruturadas e projetadas para o futuro, foi possível definir
os temas distintos para cada cenário, seguindo as características propostas por
Wright e Spers (2006): um cenário mais provável que considera as forças
históricas continuando a agir como no passado; dois cenários exploratórios
contrastados que consideram o desenvolvimento de temas ou eventos marcantes,
direcionadores do ambiente futuro; e um cenário normativo. De caráter
prescritivo, esse cenário deve apresentar uma situação factível e desejada.
Para a definição do tema dos cenários, levaram-se em consideração duas
incertezas principais: Até que ponto o mercado internacional se expandirá? Quão
rápida será a capacitação tecnológica dos players?
3.2.6. Montagem de uma matriz morfológica para cada cenário
A matriz morfológica é utilizada para combinar de maneira consistente os
estados futuros previstos para cada variável dos cenários acima especificados e
com base na estrutura dessas variáveis. A matriz morfológica dos cenários para
o etanol são apresentadas no Quadro_2, que mostra as características das
variáveis em cada cenário, de forma consistente.
3.2.7. Redação e validação dos cenários
Após elaborada a matriz morfológica dos cenários, foi feito o detalhamento dos
cenários, com a descrição de sua evolução e a explicitação das relações e
sequências de causa e efeito entre as variáveis consideradas. Para a proposição
dos quatro cenários, tomou-se como referência a elaboração de: um cenário
tendencial (cenário A), um cenário otimista (cenário B), um cenário pessimista
(cenário C) e um cenário moderado (cenário D). Como resultado do processo,
chegou-se aos cenários descritos no Quadro_3.
É importante frisar que a validação dos cenários é fundamental, de modo que
seja feita a análise da consistência interna, da plausibilidade de cada cenário
e da relevância das variáveis dos cenários para as decisões a serem tomadas nas
diferentes esferas do setor de etanol. Neste trabalho, a validação foi feita
por meio de consulta a especialistas, cuja confidencialidade dos nomes foi
garantida, conforme a descrição no Quadro_4.
4. CONSIDERAÇÕES FINAIS
Tendo como base o contexto da indústria de etanol que apresenta incertezas,
oportunidades e ameaças e a análise de ambientes complexos e com a presença de
incertezas por meio de cenários, neste trabalho foram desenvolvidos e
apresentados cenários para o mercado internacional de etanol em 2020.
Para tanto, utilizou-se o método de elaboração de cenários proposto por Wright
e Spers (2006), seguindo sete etapas estruturadas e sistematizadas combinando
diferentes métodos de coleta de dados e organização deles. O horizonte de tempo
dos cenários é 2020, uma vez que grande parte da regulamentação que indica
expansão da demanda do mercado internacional baseia-se nesse ano.
Por meio deste estudo foram definidas as variáveis relevantes para os cenários
do etanol; as variáveis foram estruturadas em diferentes níveis, projetadas e
organizadas em uma matriz morfológica, com vistas a combiná-las de forma
consistente, garantindo a elaboração de cenários plausíveis e úteis para os
tomadores de decisão, conforme defendem Coates (2000), Godet (2000) e Wright e
Spers (2006).
Como resultado, foram produzidos quatro cenários, a saber:
• Etanol: um biocombustível comercialmente viável.
• Etanol: a commodityenergética global sustentável.
• Etanol: foco no mercado interno.
• Etanol: uma commodity regional.
Cabe ressaltar que o objetivo desses cenários não é o de acertar a situação que
prevalecerá no futuro, tendo em vista que deverá haver de fato uma combinação
entre os diferentes cenários e a realidade futura será moldada ao longo do
tempo. Entretanto, conhecer esses possíveis futuros permite que os tomadores de
decisão e os stakeholders estejam melhor preparados, no momento atual, para
definir estratégias e para lidar com incertezas desse ambiente em mudança.
As empresas, especialmente as empresas brasileiras com interesse em investir no
setor, podem utilizar esses cenários para definir estratégias robustas que,
conforme Wright e Spers (2006), são aquelas estratégias que dão à empresa a
resiliência necessária para lidar com rupturas econômicas, tecnológicas,
mercadológicas e outras que afetam os setores.
Este trabalho também é relevante do ponto de vista acadêmico, apresentando a
aplicação de um método de elaboração de cenários e suas diversas etapas, em um
setor de crescente relevância no Brasil e no mundo.
Como trabalho futuro, propõe-se a ampliação deste estudo, por meio da coleta de
dados primários com todos os stakeholders envolvidos e a aplicação de uma
pesquisa Delphi para coleta de opiniões de especialistas sobre os eventos
futuros das variáveis, de forma a consolidar as projeções quantitativas e
qualitativas realizadas. Também seria interessante fazer um estudo aprofundado
sobre os mercados internacionais do etanol em seu estágio atual e as
perspectivas futuras.
Embora este trabalho apresente limitações, considera-se que foram atendidos com
sucesso os objetivos inicialmente propostos. O trabalho promove um conhecimento
mais aprofundado sobre o contexto atual e as perspectivas de evolução do setor
de etanol no âmbito internacional.