Modelos organizacionais para parcerias público-privadas na irrigação pública no
Brasil
1. INTRODUÇÃO
Neste trabalho, busca-se analisar as recentes transformações e propostas de
transformações na área de irrigação pública. Denominado Projeto Pontal, em
Petrolina, no estado de Pernambuco, o primeiro projeto de irrigação licitado
via parceria público-privada ocorreu em setembro de 2010. A licitação teve
apenas um grupo concorrente e isso, apesar da conclusão da licitação,
representou uma frustração ao governo brasileiro e em particular à Companhia de
Desenvolvimento dos Vales do São Francisco e Parnaíba (Codevasf), organização
estatal vinculada ao Ministério da Integração Nacional (VALOR ECONÔMICO, 2010).
Todavia, potencialmente no Nordeste brasileiro, existem diversas áreas que
podem ser licitadas via Parcerias Público-Privadas (PPPs) nos próximos anos e
uma análise detalhada desses processos se faz interessante.
O Projeto Pontal foi oferecido mediante uma arquitetura que se denominará aqui
verticalmente integrada, ou seja, um mesmo investidor fica responsável pela
parte de infraestrutura de fornecimento de água e pela parte agrícola do
projeto. Neste artigo, faz-se uma comparação desse modelo com o atual, antes do
advento da PPP, e ainda um alternativo que se denominará arquitetura
contratual. Ambos os arranjos contratuais são considerados hoje pelo governo
brasileiro e são objetos de discussão constante.
Projetos de irrigação são considerados de interesse público porque permitem o
desenvolvimento regional pela disponibilização de água em regiões secas,
podendo, dessa forma, viabilizar a produção agrícola e outros usos da água como
piscicultura e seu uso doméstico. Tal concepção coloca projetos de irrigação em
uma categoria de investimento, tal como infraestrutura básica. Daí sua
vinculação aos projetos de PPP pela Lei 11.079 de 2004, segundo a qual, o poder
concedente atribuiu à iniciativa privada a exploração mediante concessão
patrocinada do serviço público de irrigação. Cabe ao parceiro privado cobrar
tarifas dos usuários (os irrigantes) pelo uso da água e pela utilização da
infraestrutura comum do projeto e assim remunerar sua parcela privada do
investimento total que inclui o investimento público.
No Brasil, a irrigação pública é utilizada na região do semiárido, concentrada
no Nordeste brasileiro, nas regiões dos Vales do Rio São Francisco e Parnaíba.
Em 1974 foi criada a Codevasf, que tem a missão de promover o desenvolvimento
da região. Ela é uma organização que tem como atuação central o desenvolvimento
de projetos de irrigação públicos. No entanto, muitas vezes, a empresa atua em
atividades como eletrificação, construção de estradas e saneamento básico.
Perímetros Públicos de Irrigação (PPIs) são áreas que o poder público
desapropria, indenizando os proprietários, e nas quais desenvolve estudos de
dimensionamento e viabilidade para montar os canais de irrigação. Em
praticamente todos os projetos, a área é dividida em lotes nos quais são
disponibilizados a água, através dos canais de irrigação, um ponto de
eletricidade e a oportunidade de escoamento por meio de acesso às estradas. Um
agricultor que recebe um lote passa a ter as condições básicas de produção
rural, sendo responsável pelo desenvolvimento das atividades agrícolas dentro
de seu lote, tal como a montagem de um sistema de irrigação (o poder público
disponibiliza o ponto de água até a entrada de seu lote, mas a distribuição
para seus cultivos deve ser de responsabilidade dele, conforme culturas
trabalhadas) e a implementação das culturas que irá desenvolver. Iniciada a
produção, é esperado que os produtores montem uma espécie de condomínio para
administrar o perímetro, chamado também de distrito de irrigação, e que as
tarifas pagas por eles sejam suficientes para operar e fazer a manutenção da
infraestrutura comum dos canais e também para repor o investimento da União, em
uma espécie de amortização do investimento público. Até a existência da PPP na
irrigação, a União, por meio da Codevasf principalmente, era a única
responsável por todo o processo desde a identificação e a desapropriação da
área, à construção e operação dos canais, à cobrança de tarifas e finalmente à
manutenção para a continuidade do projeto.
A ideia central neste artigo é apresentar primeiro a forma tradicional como
esses processos têm sido utilizados no Brasil, para depois compará-la a novas
alternativas que passam a ser consideradas. Para essa comparação, será
utilizada a Economia dos Custos de Transação (ECT), uma vez que se faz a
comparação de modelos alternativos a partir de uma discussão de eficiência de
transações selecionadas dentro do contexto dos perímetros de irrigação. É
utilizado o pressuposto de que o modelo que possuir menores custos de
transação, por isso mais eficiência do ponto de vista organizacional, tende a
ser o mais viável. ECT é um aporte teórico que vem sendo aplicado com relativo
sucesso na área de sistemas agroindustriais e que pode auxiliar na compreensão
dos desafios enfrentados pelos perímetros públicos de irrigação, bem como na
vertente de análise das instituições para entender o impacto das regras do
modelo na atratividade para investidores privados. Testa-se, portanto, esse
referencial teórico em um problema novo como um suporte para a busca de
melhores alternativas aos gestores públicos e privados.
Os PPIs existentes no Brasil e de responsabilidade da Codevasf totalizam 29;
desses, 25 estão em operação e mais quatro estão em processo de implementação.
Mandacaru, Bebedouro, Nilo Coelho e Jaíba (CODEVASF, 2006) são alguns deles.
Conforme o Banco Mundial atesta, em um estudo encomendado pelo governo
brasileiro e organizações internacionais que destinaram recursos para os
projetos públicos no Brasil, esses projetos, existentes desde os anos 1970,
consumiram uma enormidade de recursos públicos. No entanto, os resultados por
eles apresentados sobre a eficiência de aplicação desses recursos são pouco
convincentes. De forma geral, o que pode ser visto é que o modelo praticado no
semiárido acabou por gerar grandes estruturas disponíveis de terra irrigada e a
colocação, nesses perímetros, de produtores incapazes de explorar os recursos
ali investidos. Em quase todos os perímetros existentes, é quase impossível
encontrar agricultores que estejam trabalhando o lote desde seu recebimento,
apesar de os projetos serem recentes. O que de forma geral tem sido visto, e
isso não difere do problema de reforma agrária no Brasil, é a incapacidade
gerencial e de capital para produção agrícola do pequeno irrigante. Assentados
em lotes irrigados após certo tempo passam a produzir por subsistência e, pelas
crises recentes, acabam por vender seus lotes para outros produtores que
precisam expandir a produção, ou simplesmente abandonam a terra e o lote fica
ocioso. Esse insucesso do negócio agrícola faz com que esse agricultor se torne
inadimplente com o setor público, notadamente em relação à Codevasf, e as
tarifas que deveriam ser pagas para viabilizar o projeto, não o são, levando à
inviabilização do projeto como um todo ou a sua grande dependência de novos
recursos públicos. Mesmo nos projetos tidos como de relativo sucesso, são
encontradas grandes áreas ociosas (WORLD BANK, 2004).
Esses problemas levaram ao questionamento da real necessidade de o governo
continuar a investir em irrigação pública e, por isso, esses projetos, a partir
dos anos 1990, tiveram os recursos, destinados a sua conclusão e manutenção,
diminuídos, levando a um agravamento da situação.
Esses fracos resultados motivaram estudos a respeito dos reais benefícios de
projetos dessa natureza. Todavia, o estudo constatou que ' nos municípios em
que os projetos conseguiram uma atividade econômica empresarial relevante
(mesmo não totalmente suficiente), ou seja, a comercialização do que era ali
produzido ganhou volumes relevantes ' existiram efeitos sociais interessantes
como aumento do Produto Interno Bruto (PIB) per capita, diminuição do êxodo
rural, aumento da expectativa de vida, entre outros.
É um fato a necessidade de postura gerencial na agricultura e sua prática como
um negócio. Cook e Chaddad (2000) destacam as transformações da
agroindustrialização, referindo-se ao crescimento da importância dos insumos,
industrialização e distribuição em relação à produção agrícola, a mudança da
relação da fazenda com atividades não fazenda e mesmo as transformações
recentes dentro das propriedades rurais com relação a produção e gestão.
Nesse contexto, capacidade empreendedora de vislumbrar oportunidades
estratégicas e tomar decisões, organizar recursos, como descritos em casos de
pequena produção em Saes e Ishikawa (2007), acabam por ser raras exceções.
Polos de irrigação públicos acabam muitas vezes por gerar uma massa de
produtores dependentes de linhas oficiais de crédito, doações de insumos entre
outros fatores dificilmente justificáveis nos dias de hoje. Essa conclusão veio
de estudos como o já citado elaborado pelo Banco Mundial (WORLD BANK, 2004).
Outros trabalhos, todavia, como o de Castro et al. (2010) mostram iniciativas
bem-sucedidas no perímetro Jaíba de irrigação ao norte de Minas, com a produção
e a exportação de limão, onde pequenos produtores foram bem-sucedidos ao se
associarem com exportadores de limão (trading companies) que, por sua vez,
souberam cultivar as relações com esses produtores de limão e tiveram bons
resultados.
Esses fatos mostraram a real necessidade de que os investimentos públicos em
irrigação fossem mantidos, contanto que o problema da adequação da produção
voltada ao mercado, com a capacitação do produtor rural, fosse tratado
adequadamente. Por isso, começam a surgir, a partir de 2003, algumas sugestões
sobre como melhor continuar fazendo investimento público em irrigação e, a
partir de 2005 e mais fortemente em 2006, novas modelagens quanto à arquitetura
organizacional dos PPIs começaram a ser trabalhadas. De 2007 a praticamente
setembro de 2010, o governo concluiu a primeira PPP na área. A grande tentativa
da modelagem do projeto como PPP foi conseguir atrair o parceiro privado para
que ele dinamizasse empresarialmente o projeto e garantisse assim o fluxo de
recursos que viabilizaria economicamente o projeto e geraria as externalidades
positivas esperadas.
Busca-se com isso fomentar a discussão e encontrar na teoria uma ferramenta
para a interpretação de um problema real enfrentado por uma região importante e
carente do Brasil e uma questão organizacional importante, que é buscar um
modelo de licitação mais adequado aos interesses das partes envolvidas: pequeno
produtor, governo brasileiro e iniciativa privada, seja ela de empresas
construtoras, seja de empresas agroindustriais.
O trabalho está organizado da seguinte forma: no tópico a seguir, estão
delimitados os objetivos e o método utilizado; no tópico 3, é descrita a visão
teórica que deve nortear a interpretação dos modelos utilizados na irrigação,
os quais são descritos no tópico 4. Finalmente, no tópico 5 constam os
resultados das entrevistas feitas e no tópico 6 são apresentadas as
considerações finais e recomendações de trabalhos futuros.
2. OBJETIVOS E MÉTODO
O objetivo neste trabalho é comparar o modelo de irrigação pública utilizado
pelo Brasil nos últimos anos com novas propostas de modelagem quanto à
arquitetura organizacional dos projetos que começou a ser proposta partir de
2010 dentro de um contexto de PPP. Deverão ser enfocadas as transações entre os
agentes envolvidos nos PPIs, para serem analisadas conforme a ECT preconiza.
Existem diversas transações entre agentes nos PPIs. Obviamente os produtores
precisam comprar insumos e vender produtos produzidos, sendo essas duas as
transações básicas. Soma-se a isso uma transação especial dos PPIs que é o
pagamento das tarifas de água de manutenção dos canais (espécie de condomínio)
existente nessas áreas, ou seja, uma transação particular, que é o pagamento do
prestador de serviço responsável pela infraestrutura comum no projeto e a água
propriamente dita. A Figura a seguir ilustra essas transações.
Figura_1
Duas alternativas propostas sugerem mudanças em todas essas transações, por
isso cabe uma análise sobre as variáveis dessas transações no que tange a
especificidades existentes, incerteza e risco presentes para entender as
vantagens e desvantagens de cada modelo.
Depois dessa organização conceitual, entrevistas em profundidade são feitas com
roteiros de discussão em que aspectos gerais das duas alternativas ao modelo
atual são propostos. As entrevistas não anteciparam vantagens e desvantagens
apenas apresentaram a ideia geral da nova organização dos projetos públicos,
duas alternativas existentes e buscaram captar dos entrevistados aquela
alternativa pela qual eles se sentiam mais interessados, as razões e finalmente
os temores em relação a um projeto dessa natureza, em qualquer um dos formatos.
A cadeia de produção citrícola foi escolhida como teste de atratividade dos
modelos. O motivo dessa escolha está relacionado a fatores modelados a partir
de dados secundários regionais e validados com entrevistados (por exemplo,
adequação edafoclimática na região, competência em produção de frutas dos
produtores locais, viabilidade econômica/financeira), que tornam essa cultura
uma candidata provável às indústrias interessadas em migrar para a região. Esse
setor necessitava de novas áreas para expansão pelo encarecimento das terras em
em São Paulo, sua região de origem, devido à competição com a cultura de cana-
de-açúcar, ao aumento dos custos e riscos de produção com a incidência do
greening, praga que infestou os laranjais paulistas, e à necessidade de buscar
alternativas com modelos de produção mais produtivos, devido ao encarecimento
geral da produção em São Paulo.
Foram entrevistados sete grupos empresariais, sendo quatro indústrias
processadoras e três grupos de produtores e três cooperativas, uma de São Paulo
e duas do Sul do Brasil. Para cada grupo empresarial, foi entrevistado um
profissional de nível gerencial, dentre eles os gerentes agrícolas, gerentes
industriais e diretor. As entrevistas em profundidade foram planejadas para
durar duas horas, verificando-se o interesse das empresas na adesão e os pontos
de melhoria nos modelos de negócio.
Em todas as ocasiões, foram apresentados oralmente o modelo atual e a proposta
de PPP e suas possibilidades. Após essa apresentação, as percepções do grupo
empresarial eram colhidas de forma semiestruturada, com o uso de roteiro que
consta no Quadro_1.
O entrevistador tinha, todavia, um papel importante em explorar cada objeção
colocada pela organização. Assistentes de pesquisa transcreviam todas as
objeções e sugestões dadas pelos grupos. Eventualmente, alguns grupos enviaram
via correio eletrônico sugestões após a apresentação.
Para elucidar essa discussão, cabe uma breve revisão teórica sobre ECT, seus
pressupostos e alguns desdobramentos e a análise do ambiente institucional,
apresentados no tópico seguinte.
3. ECONOMIA DE CUSTOS DE TRANSAÇÃO E AMBIENTE INSTITUCIONAL
Transação é a transformação de determinado produto por meio de interfaces
tecnologicamente separáveis. A compra de laranja pela indústria para
processamento é um exemplo de transação. Não a produção de laranja nem seu
processamento, mas a relação de compra e venda entre esses dois agentes é a
transação. Segundo Williamson (1985), os custos de transação são os custos de
efetuar uma troca, ou pela troca entre duas empresas no mercado ou, ainda, a
transação de transferência de recursos entre estágios integrados verticalmente
numa mesma empresa (seria o caso de uma indústria ser proprietária dos pomares
de laranja), por meio da consideração de que a informação não é perfeita e tem
custos.
Segundo Shelanski e Klein (1995, apudAZEVEDO, 1996, p.72),
"a economia dos custos de transação (ECT) estuda como parceiros em
uma transação protegem-se dos riscos associados às relações de
troca".
A redução dos riscos implica a redução dos custos de transação. Por isso,
produtores de laranja e indústria vão organizar suas vendas e suas compras de
forma a minimizar o risco dessas atividades que pode estar relacionado a não
ter de quem comprar ou para quem vender, ou ser obrigado a pagar ou receber em
valores diferentes da mínima variação tolerada.
Farina, Azevedo e Saes (1997) comentam que custos de transação são aqueles de
natureza distinta dos custos de produção, são os custos para estabelecer uma
transação, que podem ser divididos entre os custos antes de a transação ocorrer
(ex ante), os custos da transação de fato e os custos depois da transação (ex
post). Por exemplo, uma indústria de suco de laranja, a procura por produtores
que tenham laranja em condições de compra a um preço interessante representa
custo, bem como o estabelecimento de contratos com eles, o monitoramento do
cumprimento do contrato e mesmo os custos de rompimento caso o que tenha sido
preestabelecido não seja cumprido pelo produtor de laranja.
Ainda de acordo com Farina, Azevedo e Saes (1997), a estrutura de governança é
a forma como uma empresa escolhe para governar uma transação com um agente.
Essa forma pode ser desde a relação interna (integração vertical) até a
externa, quando as partes têm relações de compra e venda no mercado. Em outras
palavras, uma indústria pode estabelecer produção própria (integração vertical
' verticalizado), estabelecer contratos com produtores em um prazo mais longo
ou, em outro extremo, simplesmente comprar no mercado spot.
Por isso, as trocas podem ser analisadas sob a ótica dos contratos. A teoria
dos contratos fornece elementos importantes para a compreensão das transações
em geral. Neles são especificadas, na medida do possível, todas as
possibilidades de ocorrência numa relação. As partes incluem salvaguardas para
minimizar riscos de ação oportunista da outra parte. Em um cenário de não
possibilidade de não integração vertical completa e mercado spot, busca-se pelo
desenho de um contrato, governar a transação de forma a minimizar seus custos.
Essas análises poderão ajudar no processo de elaboração das relações entre os
agentes nesse sistema, ressaltando pontos de interesse para salvaguardas.
O entendimento dos pressupostos comportamentais é importante para a compreensão
da análise dos custos de transação e para a relação da empresa investidora no
perímetro com os outros agentes envolvidos nos PPIs. Para a existência de
custos de transação, é necessário reconhecer que os agentes envolvidos têm
racionalidade limitada e são oportunistas. A racionalidade limitada é tratada
no referencial de ECT, principalmente com relação à limitação do agente em
prever todas as futuras condições em um relacionamento por meio de um contrato,
cujo principal problema advindo é a emergência de comportamento oportunista por
alguma das partes envolvidas na relação, segundo Swartz (1997,
apudZYLBERSZTAJN, 2005). Williamson (1985, p.74) define o oportunismo como "a
busca do autointeresse com avidez". Em outras palavras, tanto produtores como
agroindústrias e empresa de infraestrutura buscarão seus interesses e o farão
sobre as partes que menor barreira irão oferecer para o alcance desses
objetivos.
Segundo Azevedo (1996), as transações diferem uma das outras. Esse é o motivo
fundamental para explicar a existência de diferentes arranjos institucionais
para reger cada transação, como mercado spot, contratos ou integração vertical.
Para Williamson (1985, p.85),
"a ECT afirma que essa diversidade é explicada, sobretudo, pelas
diferenças básicas nos atributos das transações".
A ECT utiliza-se de três atributos das transações. O primeiro é a frequência
das transações, ou seja, sua sequência e regularidade. O segundo atributo é a
incerteza, que inclui a variância ou desconhecimento de elementos futuros
relacionados à transação. A incerteza ambiental é tratada na economia dos
custos de transação entre as incertezas ambientais externas. Anderson e
Gatignon (1996, apud NEVES, 1999) destacam as mudanças no macroambiente que
afetam as transações: fatores políticos, econômicos, tecnológicos, entre
outros. Segundo Neves (1999, p.112),
"as transações com maior incerteza deverão ter mais adaptações
futuras em contratos e demandam estruturas de controle mais
complexas, com custo mais elevado, interferindo na forma como as
transações ocorrem".
Zylbersztajn (2005) destaca o papel fundamental dos contratos na agricultura
como mecanismo de desenvolvimento.
O terceiro atributo considerado pela teoria dos contratos é a especificidade de
ativos, que se refere a quanto o investimento é específico para a atividade e
quão custosa é sua realocação para outro uso (WILLIAMSON, 1985). Distinguem-se
seis tipos de especificidade de ativos: locacional, de ativos físicos, de
ativos humanos, de ativos dedicados, de marca, e de especificidade temporal. No
caso da laranja, para exemplificar a amostra utilizada para o artigo, um
produtor só pode vender sua laranja em um raio próximo de sua produção, caso
contrário perde o produto altamente perecível, ele também deve colher e vender
na data certa. Esses são dois exemplos da especificidade local e temporal,
respectivamente, que a atividade de produção de laranja possui. Isso pode ser
desvantajoso ou vantajoso a um produtor dependendo de sua posição em relação a
uma indústria. Se só tiver uma indústria para vender, é natural que ele se
torne dependente dela, sobretudo se a indústria tem muitas alternativas de
compras de produtores.
Portanto, incerteza, frequência e, principalmente, especificidade dos ativos,
representam as três principais dimensões para caracterizar uma transação,
permitindo um arranjo institucional com o objetivo de atenuar os custos de
transação. Conforme Farina, Azevedo e Saes (1997), quanto mais específico for
um ativo numa relação, quanto maior a frequência e quanto maior o risco (esses
fatores agravados pela racionalidade limitada e pelo comportamento
oportunista), maior é a tendência de uma empresa administrar uma relação na
direção de integração vertical, considerando o continuum mercado
versusintegração vertical.
É importante também destacar o papel das instituições (leis, normas, tradições
e cultura) que influenciam o melhor arranjo contratual. Instituições podem
aumentar ou diminuir os custos de transação de determinado modo de governança.
Não confiar em contratos porque estes não serão executados faz com que a
integração vertical seja a melhor opção, mesmo não sendo aparentemente a
preferida de uma empresa (NORTH, 1994). Esse tópico é importante porque as
instituições são fundamentais para a realização de investimentos em
infraestrutura, altamente específicos, como irrigação em uma região como o
semiárido brasileiro.
Williamson (1985), apoiado em conceitos de economia de custos de transação,
apresenta a interação entre o ambiente institucional e as instituições de
governança, demonstrando sua complementaridade. O autor destaca que ambos se
apoiam no mesmo objeto, a economia de custos de transação, porém em níveis
analíticos diferentes, ocupando o quadro institucional posição de destaque no
resultado econômico.
Segundo North (1994, p.15), as
"instituições são restrições (normas) construídas pelos seres
humanos, que estruturam as interações social, econômica e política.
Elas consistem em restrições informais (sanções, tabus, costumes,
tradições e códigos de conduta) e regras formais (constituições, leis
e direitos de propriedade)".
Em modelo proposto por Williamson (1985), o arranjo institucional desenvolve-se
dentro dos limites impostos pelo ambiente institucional e pelos pressupostos
comportamentais sobre os indivíduos. Assim, o ambiente institucional fornece o
quadro fundamental de regras que condicionam o aparecimento das formas
organizacionais que comporão o arranjo institucional. A garantia mais incisiva
de direitos de propriedade reduzirá a incerteza implícita nas transações, o que
altera, por sua vez, a eficiência relativa das diferentes formas
organizacionais, modificando o arranjo institucional eficiente.
As instituições podem tanto acelerar como atrasar o desenvolvimento dos
empreendimentos. Exemplos são aumentar os custos de custos de rompimento de
contratos ou acordos entre os agentes em um sistema agroindustrial, assegurar
critérios de qualidade não auferíveis por consumidores e direitos de
propriedade sobre investimentos realizados e estabelecer critérios para a
competição comercial, determinando o que é válido ou não.
No tópico seguinte serão expostos o modelo existente de PPI e as principais
alternativas para uma nova modelagem proposta. Com o referencial discutido, as
vantagens e desvantagens serão debatidas levando em consideração as transações
existentes.
4. MODELOS ORGANIZACIONAIS DE PPIS EXISTENTES E PROPOSTAS
Como comentado na introdução do texto, ficou evidente a necessidade de mudança
na forma como é feita a exploração das áreas sujeitas a investimento público em
irrigação para governos e instituições de apoio. No entanto, é preciso entender
que um PPI é composto de uma infraestrutura comum de irrigação e de uma parte
agrícola nos lotes. São duas atividades separadas, mas muito interligadas. A
infraestrutura bombeia água para os lotes dos produtores, que irão desenvolver
a produção agrícola e vender a produção. Com o recurso da venda dos produtos, é
possível pagar as tarifas de água e a amortização do canal.
Fazer a concessão de um projeto de irrigação via PPP significa atrair uma
empresa que irá construir canais, operar e fazer a manutenção e irá receber
tarifas que paguem o investimento acima do custo de oportunidade do capital do
investidor. No entanto, é necessário o sucesso agrícola do empreendimento para
que a parte da infraestrutura seja remunerada.
Dessa forma, surgem algumas alternativas. A primeira é buscar um parceiro
privado que faça tanto a construção, operação e manutenção dos canais, como a
produção agrícola. Em outras palavras, um grupo empresarial único administra
todo o projeto. Neste texto, essa alternativa é denominada de modelo
verticalmente integrado, dado que todas as transações são administradas pela
mesma empresa. Assim, a empresa recebe do governo a contrapartida pública do
investimento e fica responsável por todo o projeto em todas as suas dimensões.
Passa a existir uma licitação única que transfere à iniciativa privada todo o
empreendimento e cobraria seu desempenho em termos de ocupação. Outra medida de
eficiência particular seria a inserção de produtores irrigantes locais, para
que os projetos continuassem com seu papel de inclusão para pequenos produtores
do semiárido.
Outra alternativa seria separar a parte de infraestrutura do projeto da parte
agrícola. Essa alternativa implicaria duas licitações separadas que ocorram de
forma paralela ou consecutivamente, uma de infraestrutura e outra da parte
agrícola. Neste texto, essa alternativa é denominada de modelo contratual.
Assim, uma empresa agrícola interessar-se-ia em produzir e então lidar com
pequenos produtores e pagaria as tarifas para a empresa privada de operação e
manutenção dos canais, empresa vendedora de uma licitação de infraestrutura.
A seguir, no item 4.1, será apresentado o modelo atual e depois, nos item 4.2 e
4.3, serão apresentados os dois modelos alternativos em consideração. Essa
análise auxilia na caracterização da arquitetura organizacional atual em
comparação com a alternativa de separar a infraestrutura do projeto da parte
agrícola ou de se ter um único grupo empresarial administrando todo o projeto,
identificando as formas de gestão do relacionamento entre governo e empresa e
da empresa com o produtor agrícola. Esses modelos serão analisados conforme a
estrutura sugerida de ECT e o ambiente institucional.
4.1. Arquitetura organizacional atual
No modelo atual, o governo desapropria terras, desenvolve estudos sobre a
região, constrói ele mesmo a infraestrutura comum, estabelece os lotes de
produtores irrigantes e faz a entrega da propriedade das terras para
produtores.
Nesse modelo, o governo fica responsável pela execução das obras e posterior
operação e manutenção dos canais de irrigação, cobrando por isso duas tarifas,
uma referente à amortização do capital investido, conhecida como K1, de
natureza fixa, e outra em relação à manutenção necessária à infraestrutura
comum dos canais, conhecida como K2, cobrada conforme o consumo de água do
lote.
O governo também acaba por dar assistência aos assentados quanto à parte
agronômica e de gestão. Cabe aos assentados pagar pelo uso da água e
desenvolver a infraestrutura e benfeitorias dentro do lote. Como o lote é do
assentado, ele tem total liberdade para a definição das culturas e tecnologias
de produção, não tendo o governo influência alguma sobre essa decisão.
A ideia inicial desde a criação dos PPIs era de que em certo ponto os
irrigantes assumissem a operação e a manutenção da infraestrutura de irrigação,
formando uma espécie de gerência de condomínio e, por isso, o governo poderia
transferir para esse condomínio a responsabilidade sobre a operacionalização
diária dos canais. Todavia, como foi comentado, pouquíssimos são os casos em
que isso ocorre. A produção agrícola já sobrevive em estado aquém das
expectativas, quanto mais a gestão da infraestrutura, que fica por fim sob
responsabilidade da União, por meio da Codevasf. Um PPI mostra-se viável quando
as taxas cobradas excedem os custos e remuneram o investimento. As três
principais transações existentes nesse modelo estão apresentadas no Quadro_2.
A sustentabilidade desse modelo depende da coordenação eficiente dessas três
principais transações. Como discutido, essas transações não estão sendo
arquitetadas de forma satisfatória já que o produtor não consegue sucesso na
venda de seus produtos, por isso não compra suficientemente os insumos e
diminui sua capacidade de pagamento de água, elevando a inadimplência do
perímetro.
4.2. Arquitetura verticalmente integrada
Nesse modelo, todo o negócio é tratado como apenas uma empresa. Em outras
palavras, a empresa irá investir e realizar depois a operação e a manutenção
dos canais e também explorar as áreas agrícolas, transformar e comercializar a
produção. A empresa ou o grupo formado de diferentes empresas, possivelmente
uma joint venture exclusiva para explorar o PPI, é constituído de apenas um
agente e as transações são organizadas dentro dos limites dessa empresa. A
organização das transações no modelo verticalmente integrado está apresentada
no Quadro_3.
São vários os elementos de mudança. Uma empresa privada fica responsável por
assumir o negócio. Em termos licitatórios, são exigidos dois números, um que
coloca qual a menor contrapartida pública na tarifa de água cobrada aos
produtores que irão ocupar a área do projeto (de administração da empresa) e
qual percentual da área do projeto será destinado a agricultores locais,
denominados de integrados, ou seja, agricultores que serão inseridos no projeto
e serão fornecedores (entre outras atividades) da empresa que comprará sua
produção.
4.3. Arquitetura contratual: infraestrutura, âncora agrícola e agricultores
integrados
Nesse modelo, o governo introduz o conceito de parceria público-privada para a
execução de obras de infraestrutura dos canais e posteriores operação e
manutenção do canal. Portanto, em vez de o próprio governo executar a obra e
operar como no modelo antigo, delega a uma empresa responsável essas
atividades.
O governo desapropria as áreas e logo delega a uma empresa o estudo da área, o
investimento e a construção dos canais de irrigação. O funcionamento dessa
operação ocorre da seguinte forma: uma empresa interessada em executar as obras
faz uma proposta e, conforme a tarifa que oferecer para cobrar a água, pode ou
não vencer a licitação. Tal como pedágios em estradas, quem pela mesma obra
requerida oferecer a menor tarifa cobrada ganha a licitação. No caso de
irrigação, em vez de recuperação e construção de estradas, são canais de
irrigação e, em vez de pedágios, são cobradas tarifas pelo uso da água e tarifa
pela amortização do investimento realizado. Se o governo por meio de estudos
confirmar que a obra necessita de um montante de recursos que levaria a uma
tarifa inviável pela água e isso pode inviabilizar o negócio para o usuário,
complementa a tarifa para tornar o negócio viável para o usuário e
financeiramente atrativo para o investidor privado. Esse mecanismo foi
recentemente regulado pela lei das PPPs (parcerias público-privadas) e também
sua aplicação no setor de irrigação. Caso a contrapartida pública (o
complemento público na tarifa de água) não seja necessária, faz-se apenas uma
concessão de serviço público à empresa de infraestrutura.
No entanto, esses detalhes existem apenas para a parte de infraestrutura de um
perímetro. A parte agrícola, cliente da parte de infraestrutura, fica sujeita a
um mecanismo diferente. O que se sugere é a concessão do direito real de uso
das terras (CDRU). Em vez de doação das terras (como no modelo atual), é feita
a concessão para uma âncora agrícola e não para um produtor agrícola
independente.
Essa empresa, denominada âncora agrícola, deverá por sua vez subconceder o
direito de uso das terras para os agricultores, que deverão produzir,
fornecendo à empresa integradora o que ela definir. Nesse modelo existe uma
segunda licitação para oferecer a parte agrícola de um projeto para uma âncora
agrícola.
Percebe-se que existe uma grande sinalização de mudança com relação ao modelo
utilizado. Primeiro, é reduzido o papel do governo que, em vez de investidor e
operador, passa apenas a orientar e fiscalizar o processo. Segundo, em vez da
doação de terras, procede-se à concessão. Por último, em vez de ser feita
diretamente a produtores, essa concessão é direcionada a empresas do
agronegócio, denominadas de âncoras agrícolas.
Na visão trabalhada pelas instituições envolvidas com o desenho desses novos
modelos, uma âncora agrícola deve ser uma empresa capaz de inserir-se em
subsistemas coordenados e comercializar sua produção de forma eficiente. Devem
ser empresas que consigam acesso a mercados e tenham capacidade financeira e de
gestão para assumir a operação agrícola de uma área pública.
Um aspecto importante desse modelo é que a âncora agrícola deverá centralizar o
pagamento de água à empresa de infraestrutura e descontar esse valor dos
produtores agrícolas no fornecimento dessa produção. Como o pagamento pela água
será centralizado, também é sugerido o fornecimento de um pacote de insumos
estratégicos para os produtores, tal como mudas e principais defensivos e
fertilizantes, e serviços de orientação feitos pela empresa âncora agrícola.
Tudo isso então poderá ser descontado do preço pago no acerto do fornecimento
do produtor à âncora, seja ela uma cooperativa, seja uma agroindústria.
Esse modelo assemelha-se aos sistemas de quase integração vertical do fumo,
suínos e aves utilizados principalmente no Sul do Brasil, como mostram Pinotti
e Paulillo (2006). A organização das transações existentes nesse modelo está
apresentada no Quadro_4.
5. ANÁLISE E COMPARAÇÃO DAS RQUITETURAS ORGANIZACIONAIS À LUZ DA ECT E DO
AMBIENTE INSTITUCIONAL
Assumindo a perspectiva do produtor rural, já que o sucesso dele é fundamental
para o sucesso do PPI, podem-se analisar as três transações selecionadas na
arquitetura organizacional comparando nível de incerteza, frequência da
transação e especificidade. Conforme visto no tópico teórico deste trabalho, na
presença de especificidade de ativos, alta frequência e incerteza, o risco de
comportamento oportunista aumenta e a transação tende a ser organizada de forma
mais controlada pelo agente seja pela integração vertical, seja por contratos
bem detalhados e bem revisados em termos de salvaguardas. No Quadro_5 mostra-se
a comparação e faz-se a sugestão de um mecanismo de governança.
Analisando-se o Quadro_5, percebe-se que, pela compra de insumos mais
normalmente feita pelo produtor no semiárido brasileiro, que tem pouca
especificidade, e sementes, mudas, defensivos, equipamentos de irrigação estão
disponíveis em diversos fornecedores.
No entanto, na ocasião de novas culturas, pode ocorrer alta especificidade no
início da implantação, como no caso de mudas de laranjeira, quando da
implementação da citricultura ainda não presente na região. Isso pode alterar a
relação e fazer com que a compra de mudas se torne de alto custo de transação,
obrigando os próprios produtores a investir em viveiros.
No caso de compra de água, a relação tem pouca incerteza no fornecimento e
baixa especificidade para o produtor e é, logicamente, de alta frequência. Uma
ressalva a ser feita é a segurança institucional sobre a cobrança das tarifas,
o preço e a variação dos valores.
Já na venda do produto, por geralmente a região estar atrelada à produção de
produtos perecíveis como frutas, existe a especificidade local e temporal
sendo, portanto, a relação mais passível de comportamento oportunista da outra
parte. Por isso, é recomendável uma coordenação via contrato bem detalhado ou
integração vertical.
Pode-se, a partir de agora, fazer um quadro comparativo das vantagens e
desvantagens das arquiteturas existentes e das propostas, considerando as três
transações, como mostrado no Quadro_6.
Percebe-se, pelo Quadro_6, que a grande vantagem do modelo atual é a liberdade
que se dá ao produtor. Já foi discutida neste texto a insuficiência dessa
arquitetura em função da incapacidade gerencial dos produtores e da baixa
associação horizontal no elo produtivo.
No modelo contratual, percebe-se a grande vantagem na coordenação da âncora
agrícola do produtor e na venda de seus produtos. A grande desvantagem está na
maior dependência do produtor da âncora agrícola e na concentração do risco do
projeto em seus negócios, que, no entanto, pode ser minimizada por um desenho
contratual mais bem definido. Sem dúvida, uma empresa agrícola e agroindustrial
tem mais chances de inserção na cadeia produtiva. Esse argumento é coerente com
o texto de Sauvée (2001), que sugere que uma rede de empresas, entidades
independentes, beneficia-se da existência de uma autoridade central que possa
criar mecanismos de incentivo privados e de fato coordenar um sistema
agroindustrial.
O modelo integrado seguramente diminui os custos de transação, mas pode trazer
uma complexidade gerencial muito grande por envolver em uma mesma empresa
aspectos de gestão e atividades bem diferentes como investimento em
infraestrutura, manutenção e operação de canais, produção agrícola e
comercialização e/ou industrialização. As ineficiências internas que podem
aparecer são significantes.
Se for relacionado o Quadro anterior sobre as características das transações,
pode-se sugerir que, conceitualmente, a melhor alternativa seria a contratual
porque pressupõe que a transação entre produtor e comprador deve ser coordenada
de forma mais rigorosa e que a compra de insumos pode ser facilitada no caso de
culturas novas em que possam existir especificidades. No caso de culturas
existentes, essa vantagem não seria tão evidente, mas o fato de existir o
pacote de quase integração diminuiria os custos de transação.
Já a transação para a aquisição de água, uma vez que exista boa regulação
governamental e que as condições estabelecidas sejam mantidas, deverá ser bem
regida no modelo contratual.
6. RESULTADOS DE ENTREVISTAS COM POTENCIAIS INVESTIDORES SELECIONADOS
Neste tópico serão analisados os resultados da consolidação das entrevistas em
profundidade em que se explorou a adesão dos respondentes aos modelo e pontos
de melhoria. Um resultado de certa forma marcante é que os entrevistados foram
unânimes na rejeição do modelo verticalmente integrado. Em outras palavras,
todos viram a construção e a operação de canais como uma atividade fora de suas
competências e que, se eventualmente uma oportunidade muito lucrativa nesse
sentido existisse, eles a terceirizariam imediatamente. Vale ressaltar, porém,
que, ao se pensar nessa alternativa, logo surgiram indagações sobre que tipo de
empresa assumiria uma tarefa especializada no mercado brasileiro. Assim, a
alternativa da arquitetura verticalmente integrada foi logo descartada pelos
entrevistados.
Por isso, supondo que o modelo contratual fosse o adotado, cabe aqui destacar
algumas das preocupações dos entrevistados.
• Licitação agrícola feita posteriormente à licitação de infraestrutura ' para
diminuir a incerteza para o investidor agrícola, a obra licitada, em andamento
ou pronta, deve proporcionar-lhe maior segurança. Considerando culturas com
três ou quatro anos para formação de pomares, o investidor não vai iniciar a
ocupação das áreas sem uma sinalização de que existirá infraestrutura
disponível para irrigação e manutenção dos canais. Um comentário que ilustra
esse ponto é o seguinte:
"Eu não vou assumir uma área agrícola e o investimento necessário em
milhares de hectares, sem saber quem exatamente será a empresa que me
fornecerá o insumo mais básico, que é a água."
• Prazo da licitação agrícola coerente com a vida útil de pomares ' devido à
vida útil estimada de uma cultura nas condições do semiárido, esse prazo deve
levar em consideração a recuperação do investimento. Prazos mais curtos
aumentam a incerteza com relação às receitas futuras, tanto para produtores e
agroindústria âncora como para empresas de infraestrutura que receberão as
tarifas de água e amortização (K1 e K2). Este comentário que ilustra este ponto
foi extraído das entrevistas:
"Um pomar pode levar 20 anos e, de repente, em 10 anos eu tenho uma
renovação questionada, isso acaba com meu retorno."
• Reserva de área própria para a indústria com lotes maiores (quando ela for
empresa âncora) ' devido à alta especificidade envolvida em investimento
industrial no PPI, a área própria permite maior segurança de suprimentos pela
potencial existência de custos de transação elevados. Seguramente, toda a
produção contratada seria o mais interessante do ponto de vista social, e mesmo
do ponto de vista de eficiência econômica (em um mundo ideal). Esse critério
(porcentagem de área própria) pode ser utilizado como variável no edital
agrícola, mas deve ser acompanhado de esforços de coordenação para evitar
conflitos e incentivar a cooperação.
"Não se pode exigir de um investidor privado que artificialmente
trabalhe com alguém. Tem a questão regional, treinamento, isso leva
tempo. Quer saber a minha intenção de trabalhar com produtores
locais? Ótimo para avaliação, mas daí exigir, isso parece
ingerência."
• Oportunidade da empresa âncora é comprar a maior porcentagem possível da
produção do produtor ' seguramente, a chance de não ter a matéria-prima
disponível ou a possibilidade de o produtor desviar a produção podem aumentar
os custos de suprimento e mesmo inviabilizar uma indústria dependente de um
grupo de produtores. Contratos com a maior porcentagem de entrega referente ao
total da produção são interessantes porque trazem previsibilidade de
suprimentos em termos de preços, qualidade e quantidade. O recebimento de 100%
da produção facilita o monitoramento, muito mais do que permitir 5% ou 10%
independentes, porque o monitoramento dessas quantidades se torna custoso. Um
comentário que ilustra esse aspecto:
"Não tem como dizer que ele vai entregar 30 ou 40% da produção, temos
que firmar volumes ou o total. É muito difícil gerenciar."
• Lotes maiores coerentes com escala agrícola, contemplando aspectos sociais '
com relação aos lotes a serem licitados, eles devem ser ao menos proximamente
coerentes com uma escala economicamente eficiente de produção.
• Pacote de integração completo ' para desenho de um modelo de maior
coordenação, é preciso a formação de pacotes de integração com a compra de
insumos centralizada pela indústria e a entrega aos produtores com
financiamento e desconto de preço. O modelo de integração requer um contrato
desenhado nesse sentido.
• Desenhos de contratos bem definidos de longo prazo com produtores ' a
licitação deve apresentar os contratos ou as cláusulas mínimas a serem
utilizadas no modelo. As regras devem estar claras porque, assim, diminui
naturalmente a incerteza e aumenta a possibilidade de investimento tanto da
parte agrícola (produtores) como da parte industrial.
• Agilidade na substituição de produtores não seguidores do contrato
estabelecido ' a possibilidade de substituição rápida de produtores que não
seguem o contrato de integração estabelecido pode também reduzir a incerteza ao
investidor agroindustrial. Um comentário que ilustra esse aspecto:
"E se um produtor não estiver desempenhando da forma como esperamos?
Preciso substituí-lo de forma imediata, terei suporte jurídico para
isso? Suponho que não, com a legislação paternalista que temos."
• Critérios profissionais na escolha dos produtores (famílias) que trabalharão
nos lotes ' para o bom desempenho da produção, é importante que o critério
utilizado para a escolha de produtores que irão trabalhar os lotes de produção
seja claro e técnico. A definição de um perfil ideal de produção deve exigir
experiência com produção agrícola e de cítricos e capacidade empresarial.
• Possibilidade de expandir áreas (próprias ou de terceiros) fora do projeto
inicialmente estabelecido (Projeto Codevasf) ' a possibilidade de a âncora
expandir suas áreas para outras pode permitir o crescimento. No entanto,
mecanismos contratuais devem ser estabelecidos para que os produtores no
sistema integrado tenham continuidade em seu negócio.
Feitas as ponderações, apresentadas de forma consolidada, pelos investidores, a
seguir são expostas as conclusões do artigo.
7. CONCLUSÕES
Neste trabalho, buscou-se analisar o modelo, quanto à arquitetura
organizacional, de projetos públicos de irrigação, usando a economia dos custos
de transação, um referencial muito pertinente para esse tipo de problema, já
que se trata da formatação de transações entre agentes para viabilizar
determinada área agrícola irrigada.
Sem sombra de dúvida, é importante que, seja qual for a arquitetura, o elo
produtor consiga inserir-se em um subsistema coordenado, consiga comprar
insumos e escoar sua produção. Fica a análise sobre qual modelo pode melhor
permitir isso. Sob o ponto de vista de incerteza, frequência e investimentos
específicos em cada uma das transações, o modelo contratual tenta melhor
acomodar os custos de transação existentes e reduz a incerteza referente ao
investimento advinda da parte de fornecimento de água.
O conceito trazido pelo uso de ECT é confirmado pelos entrevistados da
iniciativa privada, que se mostraram muito reticentes em assumir a operação de
infraestrutura de canais de irrigação. Vale destacar que, na alternativa de
arquitetura verticalmente integrada, mesmo havendo ganhos na redução de custos
de transação externos, ao não ter de lidar com outras partes, o custo de
transação interno (construir as competências, fornecer os incentivos corretos e
manter o desempenho em gestão de infraestrutura de irrigação de tamanho porte)
fica fora do escopo das organizações entrevistadas. Isso, de certa forma, pode
explicar também, mesmo que parcialmente, a baixa procura pelo primeiro projeto
oferecido, o Pontal, em 2010.
Ainda pensando no modelo contratual como o mais viável do ponto de vista de
eficiência das transações, existe uma série de pontos que precisam ser
observados nas características dos diversos contratos para as licitações. Os
investidores apontam diversas considerações para que incertezas sejam
diminuídas, como a realização da licitação de infraestrutura antes da agrícola
e mesmo a questão da capacidade da empresa agrícola de decidir sobre os
produtores que irão de certa forma originar seus produtos. Muito embora o
governo tenha um interesse genuíno de inserção social e desenvolvimento, existe
um limite à intervenção no negócio de um potencial investidor. Essa
intervenção, ou mesmo chance de intervenção, ficou clara como sendo um elemento
de repulsão de investidores privados, afastando-os do projeto ou fazendo com
que eles cobrem taxas de retorno mais altas para apostar em investimentos dessa
natureza.
O componente institucional passa a ser vital na viabilização disso. O papel da
Codevasf, representando o governo, pode ser, nesse sentido, apoiado pelas
normas criadas para essas novas modelagens, buscando o equilíbrio entre os
interesses público e privado na atração de investidores, mas fomentando o
investimento e o desenvolvimento local.
É importante destacar que a região tem determinadas crenças e valores
(instituições culturais) que são fundamentais para serem consideradas em uma
modelagem como essa. Supor que um modelo contratual ou integrado terá grande
aceitabilidade na região, sem nenhuma barreira cultural, seria ingênuo. Neste
artigo não se analisou o componente cultural regional e mesmo da própria
Codevasf, que certamente influencia na decisão do modelo ótimo.
A atração das competências necessárias ao sucesso dos projetos requer um
arranjo complexo e necessário. Este texto trouxe várias ressalvas com
fundamentação teórica para que esses arranjos possam ser aperfeiçoados.