Do mainframe à nuvem: inovações, estrutura industrial e modelos de negócios nas
tecnologias da informação e da comunicação
1. INTRODUÇÃO
Inovações radicais introduzidas nas últimas cinco décadas nas tecnologias da
informação e comunicação (TIC) vêm afetando radicalmente a forma como as
empresas de rápido crescimento, consideradas paradigmas em determinado período
de tempo, estruturam seus modelos de negócios. A instabilidade da estrutura
dessa indústria difere da expressiva maioria dos demais setores industriais nos
quais trajetórias tecnológicas maduras permitem padrões de concorrência e
modelos de negócios relativamente mais estáveis. Nas TIC, as estratégias de
bens e serviços, os modelos organizacionais, os canais de comercialização, a
infra-estrutura necessária para viabilizar tais modelos e os processos
operacionais adotados por empresas emergentes vêm se alterando sucessivamente
em função de janelas de oportunidades abertas por inovações tecnológicas de
caráter disruptivo.
A abrangência das mudanças nos modelos de negócios frequentemente resulta no
surgimento de novas empresas-paradigma que nascem sem dependência da trajetória
passada e são, portanto, mais livres para inovar. Para Schumpeter (1943) não é
o fabricante de carroças que desenvolve ferrovias, mas sim empresas que surgem
a seu lado, que aprendem com sua experiência e incorporam tecnologias
radicalmente novas. Ele sugere que as empresas estabelecidas tendem a
desenvolver estratégias incrementais de inovação, tendo em vista a inércia de
suas capacitações e o interesse em manter os investimentos realizados.
Abernathy e Clark (1985) analisaram a capacidade de uma inovação influenciar os
sistemas de produção e marketing, mostrando que as inovações estão diretamente
relacionadas a diferentes padrões de evolução e ambientes administrativos. A
dependência da trajetória passada induz inovações de caráter incremental,
visando principalmente retardar ou reverter o processo de maturidade
industrial.
Prahalad e Hamel (1990) argumentam que competências centrais são desenvolvidas
por meio de um processo de melhoramentos contínuos ao longo do tempo e que,
para ter sucesso no mercado global, é mais importante construir competências
centrais do que integrar verticalmente. Eles verificaram que na corrida para
cortar custos e aumentar a qualidade e a produtividade, a maioria dos
executivos não desenvolve uma visão de futuro corporativo, pois esse exercício
exigiria muito tempo e energia intelectual. Assim como Abernathy e Clark
(1985), eles concluem que as empresas tendem a inovar de forma incremental, com
base em suas competências estabelecidas. Tais argumentos, entretanto, não
parecem aplicar-se à indústria de TIC.
O principal objetivo deste artigo é analisar como as grandes inovações impactam
a estrutura da indústria de TIC, ou seja, de que forma o surgimento de
oportunidades tecnológicas transforma o padrão de competição por meio da
reconfiguração de interações entre novos produtos, serviços e modelos de
negócios. Para isso, são levantadas duas proposições com base na literatura de
organização industrial e mudança tecnológica.
A primeira proposição é que as inovações incrementais, embora amplamente
adotadas, dificilmente se sustentam isoladamente por muito tempo na indústria
de TIC devido ao acelerado ritmo de mudança tecnológica que caracteriza o
setor. Empresas que despontam como líderes globais por terem introduzido
inovações de impacto não conseguem manter estratégias tecnológicas incrementais
por muito tempo, porque são sucessivamente desafiadas por novos entrantes que
adotam tecnologias e modelos de negócios radicalmente novos e especificamente
desenhados para explorar as oportunidades tecnológicas.
A segunda proposição diz respeito ao impacto das mudanças tecnológicas na
estrutura da indústria. O paradigma estrutura-conduta-desempenho abraçado pela
teoria de organização industrial tradicional (ver, por exemplo, SCHERER e ROSS,
1990) e adotado na prática pelos órgãos de defesa da concorrência, defende o
princípio de que a excessiva concentração da indústria leva a condutas anti-
competitivas e consequentemente a um pior desempenho econômico. Na TIC,
entretanto, a concentração industrial parece ser um fenômeno temporário não
necessariamente associado a condutas oligopolistas ou a falta de um número
adequado de empresas rivais no mercado, mas, sim, relacionado às mudanças
tecnológicas de caráter mais radical que oferecem oportunidades para a entrada
no mercado de empresas inovadoras.
Tal proposição é coerente com os argumentos desenvolvidos por autores da
chamada corrente neo-schumpeteriana do pensamento econômico. Utterback e Suárez
(1993) rejeitam a hipótese usualmente adotada na literatura de economia
industrial que associa o processo de concentração ao nível de competição e ao
grau de rivalidade entre concorrentes. Eles argumentam que a evolução da
tecnologia em uma indústria pode ser uma causa mais profunda de mudanças na
estrutura da indústria do que a densidade da competição, pois inovações têm o
poder de redefinir a atratividade para entrada no setor. Nelson (1994) apoia
essa percepção ao afirmar que uma nova tecnologia se desenvolve ao longo de uma
trajetória relativamente estandardizada desde o nascimento até a maturidade e
que a estrutura da indústria co-evolui com a tecnologia. A intensidade de
capital e o número de competidores mudam ao longo do ciclo de inovações.
Freeman e Soete (1997) corroboram tal visão ao associar o ciclo de vida do
produto às exigências de capital e, consequentemente, às barreiras a entrada.
A metodologia adotada neste artigo identifica e associa três aspectos-chave da
evolução da indústria de TIC em cada década dos últimos 50 anos: inovações
tecnológicas surgidas nas áreas de microeletrônica e software; empresas
consideradas paradigmáticas ou dominantes em cada período; modelos de negócios
adotados por tais empresas (quadro a seguir). A divisão por décadas é uma
aproximação estilizada em que se visa traçar o quadro evolutivo da indústria.
Uma linha do tempo foi traçada para destacar os principais eventos da
trajetória tecnológica das TIC. A figura na sequência exibe, na parte superior,
as principais inovações tecnológicas que vêm permitindo a reconfiguração da
indústria e, na parte inferior, os primeiros produtos comerciais desenvolvidos
com base nessas tecnologias.
Após associar-se, na seção 2, tecnologias dominantes, lideranças empresariais e
modelos de negócios em cada uma das últimas cinco décadas, neste artigo revê-
se, na seção 3, a recente literatura sobre a economia da informação, procurando
identificar os fatores técnicos e econômicos que provocam mudanças estruturais.
O mercado dos bens da informação é regido por princípios econômicos
característicos como as externalidades de redes, os custos de transação e a não
rivalidade no uso de serviços digitais, elementos que conferem uma dinâmica
diferenciada em relação a bens físicos. Na seção 4 analisam-se as mudanças
estruturais em curso na indústria de TIC, explorando o caso da Google, empresa
considerada paradigma do momento atual vivenciado pelo setor. Por fim, na seção
5 elencam-se as principais conclusões.
Evolução das Tecnologias Emergentes, Empresas-Paradigma e Modelo de Negócios
Nota: * IPO: Oferta inicial de ações.
[/img/revistas/rausp/v48n1/09f01.jpg]
Trajetória Tecnológica da Microeletrônica: Principais Invenções e Inovações
Notas:
MOSFET é acrônimo de Metal Oxide Semiconductor Field Effect Transistor.
DRAM é um tipo de memória RAM de acesso direto que armazena cada bit de dados
num condensador ou capacitor.
CMOS é uma sigla para complementary metal-oxide-semiconductor, isto é,
semicondutor metal-óxido complementar. É um tipo de tecnologia empregada na
fabricação de
circuitos integrados em que se incluem elementos de lógica digital (portas
lógicas, flip-flops, contadores, decodificadores etc.), microprocessadores,
microcontroladores,
memórias RAM etc. (Fonte: Wikipedia).
VLSI: Very Large Scale Integration. De100 a 1000 portas / C.I.
GSI: Great Scale Integration>1000 portas / C.I.
Fonte: Elaborada pelos autores a partir de Kinan e Lee (2007).
2. MUDANÇAS TECNOLÓGICAS, EMPRESAS-PARADIGMA E MODELOS DE NEGÓCIO NAS TIC
Nascida como indústria de computadores, termo que denota o aspecto
manufatureiro que assumiu inicialmente, a indústria de TIC está se tornando
cada vez mais imaterial, baseada em software e serviços de informação e
comunicação. O processo de convergência tecnológica em curso ao longo das
últimas décadas vem alterando os limites de cada segmento da indústria, pois as
empresas líderes passaram a enfatizar soluções completas para o cliente.
No quadro, mostra-se a evolução das tecnologias emergentes, empresas-paradigma
e modelos de negócios predominantes em cada uma das últimas cinco décadas
visando identificar as principais ondas de inovações e discutir seus impactos
na estrutura da indústria e nos modelos de negócios. O quadro mostra que as
empresas líderes foram sucessivamente superadas por novos entrantes que, por
não estarem atrelados a determinadas rotas tecnológicas (path dependence),
puderam inovar com mais liberdade e criar mercados. Apesar de alguns casos de
sucesso perene, a maioria das empresas líderes não conseguiu adaptar-se às
oportunidades e restrições abertas pelas novas tecnologias e manter-se
competitiva no mercado a longo prazo.
A chamada Lei de Moore, que estima que o número de transistores em cada chip
dobra a cada 18 meses, mantendo o mesmo custo, constitui uma referência não só
para chips, mas também para equipamentos que utilizam a microeletrônica como
insumo principal. O avanço dos componentes está na base das mudanças de
paradigma descritas a seguir.
2.1. A era dos mainframes
Nas duas primeiras décadas da história da computação comercial, a IBM dominava
amplamente o incipiente mercado de computadores. Estima-se que a empresa
detivesse cerca de 70% do mercado mundial graças ao pioneirismo e às economias
de escala exigidas pelo desenvolvimento de sistemas de grande porte fabricados
a partir de componentes eletrônicos discretos (TIGRE, 1984). A empresa
desenvolveu, a partir de 1952, o primeiro computador voltado para aplicações
comerciais (série 700), baseado em tubos de vácuo, logo substituído pela série
7000, que já utilizava transistores. Em 1964 surge o IBM 360, que teve um
imenso sucesso comercial até o início dos anos 1980. A concorrência era
pequena, pois se tratava de uma tecnologia nova e complexa, que poucas empresas
e universidades detinham. Não era possível contar com fornecedores externos e
os produtores de mainframes desenvolviam e produziam internamente todo o
sistema, incluindo hardware, software e componentes críticos, integrando assim
toda a cadeia produtiva.
Os altos custos e as economias de escala exigidas pelo desenvolvimento e
comercialização de equipamentos de arquitetura complexa, que utilizavam
componentes discretos, sistemas operacionais e aplicativos exclusivos erigiam
elevadas barreiras à entrada de novas empresas. Estimava-se que um novo
fabricante de mainframes precisaria conquistar pelo menos 7% do mercado mundial
para viabilizar o negócio, dadas as exigências de retorno aos investimentos em
um mercado ainda restrito às grandes organizações (FLAMM, 1987). Poucas
empresas conseguiram participar desse oligopólio global apelidado de "IBM and
the BUNCH" (iniciais de Burroughs, Univac, NCR, Control Data e Honeywell).
Observa-se nessa época o advento de políticas públicas para consolidar campeões
nacionais em países como Reino Unido (ICL), França (Bull) e Japão (Hitachi e
Fujitsu). As políticas consistiam no estímulo a fusões e aquisições e no uso da
demanda governamental para criar uma grande empresa de capital local capaz de
competir no mercado mundial.
2.2. O advento dos minicomputadores
Na década de 1970, o domínio dos mainframes começou a ser desafiado pelo
surgimento dos microprocessadores. O chip Intel 4004, lançado em 1971, era uma
unidade central de processamento de quatro bits e o primeiro microprocessador
disponível comercialmente (figura da página 116). As inovações facilitaram
enormemente a tarefa de desenvolver e fabricar computadores de menor porte -
chamados então de minicomputadores - que podiam utilizar também periféricos
(discos, impressoras, monitores) produzidos por terceiros. Os primeiros mínis
oferecidos pela DEC custavam um décimo do preço e ocupavam apenas uma fração do
espaço requerido pelos mainframes. Além disso, abriram oportunidades para novas
aplicações por meio do processamento distribuído, pelo qual se abriu
alternativa para os centros de processamento de dados (TIGRE, 1987, p.23).
Embora o software utilizado nesses sistemas ainda fosse exclusivo de cada
fornecedor, a oportunidade tecnológica permitia a redução das barreiras à
entrada no setor e o surgimento de novas empresas.
Em geral, inovações de caráter mais radical não são prontamente incorporadas
pelas empresas líderes, pois elas têm razões econômicas para dar sobrevida às
tecnologias existentes. Os mainframes eram alugados em pacotes de hardware,
software e serviços e os fornecedores não tinham interesse em promover a
obsolescência tecnológica de uma base instalada já amortizada, mas que ainda
gerava grandes receitas. Por isso, a onda de inovações foi iniciada por novas
empresas que surgiram como spin-off das grandes corporações. Tais empresas
absorveram parte do mercado de mainframes, oferecendo soluções de menor custo e
maior flexibilidade. A redução dos custos ampliou a gama de aplicações e o
número de empresas usuárias de informática.
No Brasil, assim como na Coréia, o advento do microprocessador permitiu o
surgimento de uma indústria local, já que as barreiras à entrada caíram e
ofereceram uma janela de oportunidade que foi alavancada por políticas públicas
(EVANS, 2004). A política industrial iniciada em 1978 e formalizada pela
chamada Lei de Informática (Lei nº 7.232, de 29 de outubro de 1984) favoreceu o
desenvolvimento tecnológico local e a redução temporária da dependência de
importações em uma época de severas restrições cambiais. Tal política era
baseada na reserva do até então inexistente mercado de minicomputadores para
fabricantes de capital nacional que, em tese, eram mais livres para estabelecer
estratégias tecnológicas autônomas.
2.3. A revolução dos micros
Na década de 1980, a trajetória descrita por Moore provocou novo choque na
indústria de TIC com o lançamento, em 1976, do microprocessador Intel 8080, que
deu origem aos primeiros microcomputadores (Apple, Altair) e forneceu a base
para máquinas que usaram o sistema operacional CP/M. O chip foi sendo
sucessivamente aprimorado e a versão 8088 foi utilizada pela maioria dos
fabricantes de PCs.
Os microprocessadores mudaram a forma como os computadores eram desenvolvidos.
Não era mais necessário produzir o sistema inteiro, incluindo processador,
terminais e software, como o compilador e o sistema operacional. O
desenvolvimento do Apple II em 1977, feito pelos jovens Steve Jobs e Steve
Wosniak praticamente sem capital, mostrou que as novas tecnologias
simplificavam radicalmente o processo de desenvolvimento e a montagem dos
equipamentos. Os custos de um sistema baseado em micros representavam apenas
uma fração dos praticados por fabricantes de mainframes e minicomputadores,
permitindo, assim, o desenvolvimento de servidores. Interligados em redes
locais, os microcomputadores desencadearam uma onda de downsizing e promoveram
a difusão da informática.
A IBM entrou nesse segmento relativamente tarde, com o lançamento do PC
(personal computer), em 1982. Ao contrário de sua prática usual de integração
vertical, a empresa passou a utilizar o chip Intel 8088 e software MS/DOS da
Microsoft, acreditando que sua vantagem competitiva seria mantida graças à
marca forte. Entretanto, o fato de um microcomputador poder ser montado a
partir de kits padronizados permitiu o surgimento de novas empresas que
passaram a oferecer sistemas de custo mais baixo. A liderança da IBM no mercado
de PCs foi derrubada por empresas como Compaq, Dell e Toshiba, tornando o
mercado muito competitivo. Os PCs passaram a ser fabricados em massa, vendidos
a baixos custos, oferecendo margens típicas de uma commodity eletrônica. O
núcleo virtuoso da indústria passou do hardware para os chips e para o
software, tornando a Microsoft a mais lucrativa empresa do setor de TIC. O DOS
e depois o Windows tornaram-se padrões de fato da indústria, em função das
oportunidades geradas com o feedback positivo e as economias de escala da
demanda. O fordismo virara wintelismo
(1)
.
No Brasil, também surgiram diversos fabricantes nacionais de microcomputadores
amparados pela Lei de Informática de 1984. No entanto, as dificuldades
técnicas, econômicas e políticas para manter o regime de proteção resultaram na
abertura do mercado no início dos anos 1990, colocando em xeque a maioria das
empresas locais, diante da maior força competitiva das empresas multinacionais.
Uma nova política de informática (Lei nº 8.248, de 23 de outubro de1991) abriu
o mercado para fabricantes estrangeiros e ofereceu estímulos fiscais para as
empresas que cumprissem o processo produtivo básico (PPB) e investissem em
atividades de pesquisa e desenvolvimento (P&D). Tal política, que vigora
até hoje com poucas modificações, foi perdendo a eficácia à medida que o valor
adicionado da indústria de TIC migrou nas décadas seguintes do hardware para o
software e serviços.
A exemplo do que ocorreu na migração dos mainframes para os minicomputadores, a
maioria das empresas fabricantes desses sistemas não conseguiu adaptar-se à
nova onda de inovações e praticamente desapareceu. As novas líderes eram
empresas que desenvolveram modelos de negócios orientados para a produção de
equipamentos de baixo custo que permitiam o downsizing das operações e a
massificação da informática com a incorporação de usuários domésticos. As
empresas de software transformaram-se na força motriz do mercado.
2.4. O surgimento da Internet
Em 1995, uma nova revolução foi iniciada a partir da liberação do uso comercial
da Internet. Inovações tecnológicas em microprocessadores (linha Pentium),
chips de memória que multiplicaram a capacidade de armazenamento digital e o
desenvolvimento da banda larga permitiram que as empresas de TIC desenvolvessem
novos produtos e serviços. A preocupação com as limitações dos recursos
computacionais foi superada, permitindo maior foco nas necessidades dos
usuários por meio de aplicativos mais atrativos e funcionais, que traziam cada
vez mais utilidades para os computadores pessoais.
A Netscape foi a primeira empresa a lançar um browser que permitia navegar pela
Internet, mas foi superada pela Microsoft em função da integração desse
dispositivo ao sistema operacional Windows, fato que gerou uma prolongada
disputa judicial na Europa. O desenvolvimento comercial da Internet mostrou que
era possível a criação de novos modelos de negócios apoiados não mais na venda
de hardware e no licenciamento de software, mas, sim, na capacidade de
comunicação entre diferentes equipamentos e na criação de comunidades virtuais.
Um dos impactos mais significativos do surgimento da Internet foi a
popularização do comércio eletrônico. Embora ele já existisse entre grandes
corporações, por meio do Electronic Data Interchange (EDI), os sistemas eram
fechados e restritos a grandes redes de suprimentos como a automobilística e o
grande varejo. A Wal-Mart, por exemplo, fez enormes investimentos em EDI para
desenvolver uma cadeia logística com seus fornecedores de forma a reduzir
estoques e aumentar a variedade de produtos oferecida em seus hipermercados
espalhados pelo mundo. Com o advento da Internet, no entanto, foi possível que
pequenos produtores e varejistas reproduzissem o modelo a baixíssimos custos.
Surgem nessa época os novos varejistas puramente virtuais como o Ebay e a
Amazon.
2.5. A computação em nuvem
No início de século XXI, o desenvolvimento da Internet 2.0 e de tecnologias
complementares como celulares inteligentes (smartphones) e tablets, chips
orientados para a comunicação e o desenvolvimento da infra-estrutura de banda
larga com e sem fio resultaram em uma nova revolução no setor. O modelo de
negócios passou a ser menos intensivo em hardware e software a apoiar-se na
prestação de serviços aos usuários e na venda de propaganda dirigida a clientes
específicos. A possibilidade de separar o equipamento do serviço executado,
aliada à tendência organizacional de terceirização de serviços de TIC, permitiu
o surgimento de novos líderes globais.
A computação em nuvem (cloud computing) simboliza a tendência de colocar toda a
infra-estrutura e informação disponível de forma digital na Internet, incluindo
software aplicativo, ferramentas de busca, redes de comunicação, provedores,
centros de armazenamento e processamento de dados. O Protocolo Internet (IP)
constitui a linguagem universal que permite a padronização dos pacotes de
diferentes mídias e comporta o tráfego indistinto de voz, dados e imagens. O
conceito de nuvem é muito importante porque permite que a computação se
transforme em uma utilidade pública, pois os bens da informação são não rivais
e podem ser utilizados simultaneamente por ilimitados usuários. O modelo
oferece grandes vantagens para os usuários, apesar de apresentar também riscos.
A principal vantagem é a possibilidade de utilizar os recursos de hardware e
software disponíveis de forma mais eficiente, permitindo reduzir a capacidade
ociosa em armazenamento e processamento de dados, por meio do compartilhamento
de computadores e servidores interligados pela Internet. A infra-estrutura é
acessada por terminais e dispositivos móveis que conectam a nuvem ao ser
humano. Os riscos estão associados principalmente à segurança e à manutenção do
sigilo de dados armazenados fora da empresa.
A Amazon teve um papel-chave no desenvolvimento da computação em nuvem por meio
da modernização de data centers e o lançamento do serviço Amazon Web Service em
2006. Em termos de software, o impacto fundamental reside na oportunidade de
compartilhar programas (assim como músicas, filmes e outras informações
digitalizáveis) e pagar pelo uso, em vez de licenciá-lo para cada equipamento.
No modelo da nuvem, o usuário não necessita armazenar dados e instalar
programas aplicativos em seu computador. Os sistemas de computação em nuvem
cobram pelo serviço, pelo tempo de utilização dos recursos, sem necessidade de
pagar por uma licença integral de uso de software.
O modelo ainda não está plenamente consolidado, devido principalmente à questão
da segurança. Como os dados ficam sempre online, há o risco de ataques de
hackers e roubo de informações sigilosas. O modelo requer uma infra-estrutura
complexa de gerenciamento de grandes fluxos de dados, incluindo funções para
aprovisionamento e compartilhamento de recursos computacionais, equilíbrio
dinâmico do workload e monitoração do desempenho. Assegurar a confidencialidade
de determinadas informações críticas é fundamental para o sucesso do modelo. A
crescente memória e a capacidade de processamento dos tablets e PCs é outro
fator concorrente que pode atrasar ou limitar a difusão da nuvem.
A nuvem vem afetando o modelo de negócios baseado no licenciamento de software,
pois há cada vez menos razões técnicas e econômicas que justifiquem a compra de
um programa para cada máquina. Novas empresas passaram a oferecer múltiplos
serviços gratuitos de busca, e-mail, armazenamento de dados, informação
geográfica, além de software básico e aplicativos. A receita deixou de vir do
licenciamento de programas ou venda de serviços ao cliente para passar a um
canal indireto, que é a venda de publicidade dirigida a usuários específicos.
Por meio de novas tecnologias como a inteligência artificial, foi viabilizado o
marketing um a um, que dirige a publicidade diferenciada para cada cliente,
oferecendo produtos ou serviços mediante pesquisa de palavras-chave em suas
comunicações.
Diante da tendência, apontada por Prahalad e Hamel (1990), de as empresas
concentrarem-se em suas competências centrais, muitos grandes usuários de TIC
vêm recorrendo a empresas especializadas para suprir suas necessidades
informacionais. Eles buscam, por meio do outsourcing, o acesso a capacitações
tecnológicas não apenas para reduzir custos, mas principalmente para ter acesso
contínuo a inovações em sistemas de informação e comunicação. Empresas usuárias
que não têm como atividade principal a gestão de tecnologias da informação
tendem hoje a contratar plataformas externas para apoiar processos de gestão
empresarial, pagamentos e recebimentos, banco de dados, desenvolvimento de
produtos e apoio a serviços. No modelo de computação em nuvens, as TIC tornam-
se ferramentas de suporte ao negócio, já que o foco do cliente é a informação e
não a forma como ela é mantida e processada.
Empresas como IBM e HP recuperaram sua vitalidade com a venda de soluções e
serviços, reduzindo sua dependência da produção de hardware. A prestação de
serviços tornou-se também o carro-chefe de produtores de software, que passaram
a oferecer soluções tecnológicas mais customizadas e apoiadas no outsourcing.
Os fornecedores de serviços começaram a investir em soluções virtuais,
utilizando indistintamente servidores próprios ou de terceiros para multiplicar
a capacidade de processamento e armazenamento de dados. Esses servidores estão
distribuídos geograficamente, gerando mais necessidade de comunicação e
tornando os novos modelos de negócios menos dependentes de hardware ou software
específicos.
3. ASPECTOS ECONÔMICOS DA INFORMAÇÃO: FORMAÇÃO DE PREÇOS, ESTRUTURA DE MERCADO
E A CAUDA LONGA
A tecnologia influencia a estrutura de mercado em praticamente todos os setores
da atividade econômica, mas é par--ticularmente importante nas indústrias de
alta tecnologia (VARIAN, FARRELL e SHAPIRO, 2004). Forças consideradas
relativamente menores na economia industrial têm se revelado críticas na
economia da informação, tornando efeitos secundários em forças motrizes dos
segmentos caracterizados como bens da informação. Para entender as mudanças em
curso na estrutura da indústria mundial de TIC, podem-se destacar dois aspectos
fundamentais da economia digital, expostos a seguir.
3.1. Diferenciação de preços e produtos
Embora livros textos de economia admitam a existência de indústrias que operam
com custos fixos constantes e custos marginais zero, tais características
raramente são observadas em produtos físicos em função das restrições
existentes ao aumento da capacidade produtiva. Nos bens da informação, em
contraste, tal estrutura de custos é praticamente a regra, não apenas em bens
típicos da informação, ou seja, aqueles que podem ser digitalizados, mas também
produtos físicos intensivos em informação, como os microprocessadores. Uma
fundição de chips pode custar vários bilhões de dólares para ser projetada e
construída, mas o custo marginal da fabricação de um circuito integrado pode
ser de poucos centavos. Os baixos custos marginais ensejam uma dinâmica
econômica dominada, segundo Farrell e Klemperer (2003), pelas externalidades de
rede e custos de mudança.
O fato de a produção de um bem da informação envolver altos custos fixos, mas
baixos custos marginais resulta em grande heterogeneidade na estrutura de
custos de empresas que atuam em setores essencialmente digitais como software,
música, video-games e filmes. A precificação desses bens não pode ser feita
utilizando conceitos adotados nos bens físicos, ou seja, não se pode fixar o
preço de um bem por meio de um markup com base nos custos se estes forem zero
ou bem próximos disso. Nesse sentido, o preço dos bens da informação é baseado
no valor que o consumidor atribui a ele, dando margem para a prática da
discriminação de preços (SHAPIRO e VARIAN, 1999).
A redução radical nos custos dos chips, em relação a sua capacidade de
processamento, vem modificando a forma como a indústria de TIC é organizada. Os
recursos tecnológicos são mais abundantes e eliminam cada vez mais as
restrições para o desenvolvimento de serviços avançados. Segundo Anderson
(2009), toda uma geração de profissionais foi treinada para lidar com os
recursos escassos da computação, em que os operadores de sistemas eram
responsáveis por determinar quais seriam os programas escolhidos para rodar nos
mainframes. Nessa época, a principal preocupação era a utilização eficiente dos
caros transistores; logo, o principal objetivo dos programadores era
desenvolver software estritamente focado no objetivo de negócios e que fossem
extremamente eficientes no que tange à utilização de ciclos de processamento.
Nesse contexto, não existia muito espaço para o desenvolvimento de interfaces
amigáveis, já que o foco era pura e simplesmente a resolução do problema em
questão. Contudo, com as constantes inovações, essas restrições foram pouco a
pouco se dissipando, permitindo máquinas cada vez mais potentes e com menor
custo.
O que condiciona hoje a economia do conhecimento são os efeitos de rede que se
referem essencialmente às economias de escala pelo lado da demanda. Como
explica Anderson (2009, p.80),
"a Web funciona em termos de escala, encontrando formas de atrair a
maioria dos usuários a recursos centralizados, diluindo esses custos
por um público cada vez maior à medida que a tecnologia se torna mais
eficaz".
Tudo isso graças às inovações tecnológicas que levaram à abundância de
transistores, à ilimitada capacidade de armazenamento digital e às transmissões
em banda larga. Esse cenário de barateamento sistemático da infra-estrutura de
redes gera oportunidades para inovações. Tornou-se possível desenvolver
produtos e serviços cada vez mais atrativos e funcionais, focando as
necessidades diferenciadas dos usuários, sem a necessidade de poupar recursos
informacionais.
A formação de preços tornou-se um novo desafio para as empresas que aumentaram
significativamente a parcela de conhecimento embutida em produtos e serviços.
Elas precisam entender melhor as necessidades de seu mercado consumidor para
desenvolver soluções individuais ou segmentar grupos de usuários com
características semelhantes. A Internet abriu a possibilidade de uma
comunicação de mão dupla, ou seja, as empresas que oferecem bens online têm a
capacidade de saber ativamente o que seus consumidores estão procurando, onde
eles gastam a maior parte de seu tempo, permitindo uma resposta muito mais
rápida às especificidades pessoais ou de grupos segmentados de clientes. O
preço que cada cliente está disposto a pagar por um serviço depende de sua
percepção subjetiva do valor que ele pode agregar a seu negócio. A
personalização dos serviços abre espaço para estratégias de discriminação de
preços que podem revelar-se muito lucrativas.
3.2. Do mercado de massa para o mercado de nicho: a cauda longa
O século XX ficou conhecido como a era da economia industrial, cujo modelo de
desenvolvimento, pautado pela ótica fordista de produção e pelo consumo de
massa, teve seu auge nas décadas de 1960 e 1970. Um elemento importante nesse
processo foi o advento dos meios de comunicação de massa, como o rádio e a
televisão. Para Anderson (2006), o apogeu da cultura de massa ocorreu em uma
época em que havia, em cada país, apenas meia dúzia de canais de TV, por meio
dos quais praticamente todas as pessoas assistiam à mesma programação, e poucas
estações de rádio, que eram responsáveis pela imposição de boa parte dos
grandes sucessos musicais ouvidos pela população.
A tecnologia de broadcast (base da comunicação de massa) permite que uma mesma
mensagem seja levada para milhões de pessoas com a mesma eficiência e
qualidade. No entanto, esse tipo de tecnologia possui limitações físicas, ou
seja, o espectro de ondas eletromagnéticas de rádio e televisão comporta apenas
certo número de emissoras simultaneamente, tornando a transmissão um recurso
escasso administrado pelo Estado por meio de concessões. Nesse sentido, o
broadcast enfrenta condições de escassez, assim como todos os outros mercados
da era industrial, sendo, portanto, fundamental para a estratégia de
maximização de receitas que os horários nobres sejam preenchidos com produtos e
serviços os mais rentáveis possíveis, ou seja, produtos de massa (hits).
"A economia movida a hits [...] é produto de uma era em que não havia
espaço físico suficiente para oferecer tudo a todos: não se contava
com prateleiras suficientes para todos os CDs e DVDs e videogames
produzidos; com salas de projeção regulares para todos os filmes
disponíveis; com canais para todos os programas de televisão; com
ondas de rádio suficientes para tocar todas as músicas disponíveis; e
muito menos com as horas necessárias para espremer todas essas coisas
em escaninhos predeterminados" (ANDERSON, 2006, p.17).
Se o broadcast é restrito a uma mesma mensagem para todos, a Internet permite
que milhões de pessoas compartilhem seus arquivos, oferecendo uma infinidade de
possibilidades para todos os interesses e necessidades. A web é em si uma fonte
quase inesgotável de conteúdo e informação, produtos e serviços, cada vez mais
segmentados e precisos. O novo mercado de nichos não está substituindo o
tradicional mercado de hits, mas, pela primeira vez, os dois dividem espaço com
certa igualdade de condições. A escassez dos meios de comunicação restringia o
espaço na mídia aos grandes sucessos, mas, com a redução dos custos de
distribuição por meios digitais, esse monopólio acabou. Por exemplo, a loja
virtual i-Tune, da Apple, oferece um arsenal de mais de um milhão de faixas
musicais disponíveis para venda por meio de downloads em seu portal. Já as
grandes lojas físicas de CDs estocam cerca de 25.000 títulos, concentrando
apenas em hits. Como a loja virtual possui custo marginal muito próximo de
zero, é possível tornar disponível qualquer produção artística, facilitando a
desconcentração do mercado.
O cenário de abundância dos bits fez proliferar o chamado efeito da cauda
longa, ou seja, gigantescos mercados de massa estão se convertendo em milhares
de mercados menores, retirando da equação econômica os tradicionais gargalos
entre oferta e demanda. Anderson (2006) identifica três forças que atuam
simultaneamente para que o efeito da cauda longa ocorra dentro de um mercado: a
democratização das ferramentas de produção; a democratização das ferramentas de
distribuição; e, por fim, uma ligação eficiente entre oferta e demanda.
A primeira força diz respeito à facilidade de acesso às ferramentas que
permitem a produção de conteúdos, produtos e serviços e sua disponibilização em
meio digital. A disseminação dos computadores pessoais, o surgimento de novos
software e o acesso à banda larga permitiram que qualquer pessoa
individualmente tenha acesso a recursos que décadas atrás somente grandes
companhias obtinham. Por isso, a geração de conteúdo tende a ser mais
descentralizada, permitindo o alongamento da cauda.
A segunda força diz respeito à facilidade com que qualquer produtor
independente ou empresa têm de acessar o mercado e divulgar seus produtos,
sejam eles físicos ou informacionais. Comparativamente, o que no mundo físico
pode exigir pesados investimentos em lojas e logística, no mundo digital é
feito por uma fração desse investimento. O efeito dessa força é uma
horizontalização da cauda, ou seja, ela promove um acréscimo de demanda por
bens de nicho.
A terceira e última força é o eixo de ligação entre a oferta e a demanda, ou
seja, são as ferramentas de busca e filtragem de informação que permitem que o
consumidor encontre aquilo que deseja de forma rápida e precisa. O melhor
exemplo é o mecanismo de busca do Google, mas ele não é o único, pois as
ferramentas de recomendação das próprias lojas virtuais e das comunidades
virtuais embutidas em ferramentas como blogs
(2)
contribuem de forma decisiva para construir (ou destruir) a reputação de um
produto ou serviço. Além disso, essas ferramentas agem de maneira singular ao
reduzirem os custos de transação para o consumidor, por meio do fornecimento de
informações específicas sobre o que está sendo procurado. O efeito dessa força
é a maior facilidade pela busca específica, reduzindo a demanda por bens de
massa e aumentando o consumo de bens de nicho.
A importância do acesso aos clientes, diante de uma super oferta de bens e
serviços, foi inicialmente descrita por Simon (1997) para quem, "a riqueza da
informação cria a pobreza da atenção". Segundo essa interpretação, o problema
hoje não seria mais a falta de acesso à informação, mas sim sua sobrecarga.
Seguindo o pressuposto da racionalidade limitada inerente às limitações
neurofisiológicas do cérebro humano de processar uma quantidade muito grande de
informações e da complexidade do ambiente, o excesso de informação pode ser tão
prejudicial quanto sua falta.
Assim, o poder do fornecedor de informação passou a ser associado à capacidade
de filtrar e entregar ao usuário informações as mais próximas possíveis do
desejado. A informação disposta na rede não é previamente organizada nem
hierarquizada, causando a dispersão do público entre diversas variáveis, links
e caminhos distintos. Os mecanismos de busca situam-se numa posição
privilegiada na Internet, dado que qualquer negócio que queira assumir uma
posição de destaque na economia digital, necessitará inevitavelmente adaptar-se
às regras dos buscadores.
Estatisticamente, quanto maior a amostra, melhor a precisão dos resultados
obtidos. Entretanto, no caso da Internet, a crescente velocidade e a capacidade
de armazenamento da informação só fazem aumentar o desafio de realizar bons
filtros que reduzam criteriosamente a quantidade de opções à disposição e
facilitem o processo decisório. Tal dilema pode ser resolvido por
intermediários, especialistas capazes de reduzir a assimetria de informação
existente entre a ponta produtora e o consumidor final. Esse intermediário
seria então responsável por uma prévia filtragem de forma a diminuir a
abrangência de opções e permitir uma análise mais acurada de cada opção. Os
intermediários não são uma novidade trazida pelas TIC, na verdade eles sempre
existiram em qualquer mercado permeado pela assimetria de informação. Por
exemplo, editores de revistas e jornais, TV e rádio, compradores de lojas de
departamentos e executivos de gravadoras musicais têm por função selecionar
bons produtos para os clientes, mas esse papel vem sendo hoje crescentemente
assumido por blogs, recomendações de clientes na Internet mecanismos de busca.
A partir do momento em que é eliminada uma grande quantidade de opções, o
critério de filtragem torna-se o elo crítico do processo de escolha. Nesse
sentido, é possível incorrer em um segundo problema que Vaz (2010, p.119) chama
de "relação promíscua entre o especialista (aquele que define o critério de
filtragem) e suas opções". Em outras palavras, o intermediário deve ser em
primeira instância um agente isento e de alta confiabilidade. Sem esse laço de
confiança, todo o processo decisório fica prejudicado podendo levar o agente
final a uma situação de direcionamento com fins comerciais. Isto é o que a
teoria dos custos de transação chamaria de comportamento oportunista dos
agentes. "Oportunismo está essencialmente associado à manipulação de
assimetrias de informação, visando à apropriação de fluxos de lucros" (FIANI,
2002, p.270).
O desenvolvimento de novos processos de filtragem de informações permitiu uma
nova mudança na estrutura industrial. Em um mercado que se descentraliza cada
vez mais, onde a informação se torna mais abundante, ganha relevo o que
Anderson (2006) chamou de customização de massa. Fornecer acesso a nichos
específicos de forma precisa, aproximando o fornecedor de clientes potenciais e
obter retornos proporcionais ao benefício auferido (e não ao custo do serviço)
constitui o cerne da estratégia da Google, como se verá na próxima seção.
4. O CASO DA GOOGLE
(3)
4.1. Breve histórico
Confirmando um fato recorrente na breve história da estrutura industrial das
TIC (quadro 1), a última onda revolucionária não partiu das empresas
existentes, mas sim de uma startup do Vale do Silício, na Califórnia, que
conseguiu aproveitar oportunidades tecnológicas para tornar-se, em poucos anos,
uma das maiores empresas de tecnologia da informação do mundo. Em 1995, dois
candidatos ao doutorado na Universidade de Stanford - Sergey Brin, engenheiro
eletrônico de 23 anos, especializado em desenho de aplicativos Web, e Larry
Page, de 24 anos, graduado em ciências matemáticas e informática -
desenvolveram um projeto arrojado: a criação de um algoritmo (lógica
matemática) que permitisse a extração de dados informacionais em grande volume
(CARMONA, 2004). Inicialmente o projeto ficou restrito aos bancos de dados da
biblioteca digital da Universidade. Para tornar possível extrapolar essas
buscas para fora da rede acadêmica, era necessário produzir um novo mecanismo
de buscas, com a capacidade de ler conteúdo de toda a Internet na busca por
informações, criando então uma lista de links (conexões entre sites) com
capacidade para interpretar o contexto no qual esses conteúdos estavam
inseridos.
Em 1996, foi lançado o Back Rub, uma ferramenta capaz de buscar links listados
dentro das páginas pesquisadas, aumentando consideravelmente o número de
resultados em relação à geração anterior de buscadores de Internet. Essa foi a
primeira fase do desenvolvimento da Google, cujo principal foco foi a criação
de um motor de busca eficiente e que melhorasse com o crescimento da web em vez
de tornar-se mais lento.
Outro grande salto foi dado em 2000 com a criação da ferramenta de propaganda
Google Adwords (em referência aos termos advertising e word - algo como
propaganda por palavras-chave), que se tornou responsável pelo crescimento
exponencial da empresa. Seu conceito é baseado em um auto-serviço em que
qualquer anunciante pode gerar um texto publicitário e escolher quais palavras-
chave pesquisadas pelos usuários deveriam dar acesso ao anúncio. O modelo de
negócios tornou-se lucrativo ao estabelecer que, além da aderência das
palavras-chave, os anunciantes poderiam dar lances pelas posições de mais
visibilidade no resultado das buscas.
Em 2003, foi lançado o Google Adsense, que serviu como complemento para os
anunciantes exibirem suas propagandas não somente na própria página de buscas
do Google, mas também em sites parceiros, que aceitam inserir um pequeno
código, permitindo que propagandas relacionadas com o contexto do site sejam
mostradas para seus visitantes. Em contrapartida, a receita oriunda do clique
em cada propaganda é compartilhada entre o Google e o parceiro. Essa ferramenta
foi especialmente interessante para sites que não se dedicam à venda de
produtos e serviços, mas apenas à produção de conteúdo. O grande problema
desses produtores de conhecimento é a remuneração de seu trabalho e o Google os
ajuda a fazer isso permitindo a inserção de propagandas relacionadas com o
conteúdo. Ao longo do tempo, a empresa criou inúmeros outros serviços e
produtos gratuitos para estender o alcance do Google e atrair novos usuários à
empresa.
O caso da Google permite explorar as várias dimensões assumidas pela interação
entre inovação e modelo de negócios na criação de um paradigma competitivo.
Para capturar a atenção do usuário e dar sentido e relevância com caráter
individual ao mar de informações hoje disseminado na web, a empresa procurou
atuar na terceira força da cauda longa (ANDERSON, 2006). Por meio de um modelo
de negócios inovador, com foco primário na experiência do usuário e depois no
anunciante, a Google conseguiu criar um mercado publicitário altamente
relevante tanto para seus consumidores quanto para seus intermediários (sites
parceiros).
O fato de a Google deter uma grande parcela do mercado de buscas (cerca de 50%
nos Estados Unidos e 90% no Brasil) a torna uma empresa-paradigma que dita
normas de fato para o setor. O buscador Google processa um bilhão de buscas
diárias digitadas por usuários de todo o mundo, constituindo um claro exemplo
do efeito de feedback positivo, no qual cada usuário novo só tende a reforçar o
padrão utilizado por meioda economia de rede. Isso permitiu que recentemente a
Google se tornasse uma das marcas mais valiosas do mundo (VALOR ECONÔMICO, 16/
9/2010, p.B10), atingindo 43,6 bilhões de dólares.
4.2. A inovação por trás do buscador Google: o sistema Pagerank
Embora os motores de busca já existissem antes da Google, os métodos utilizados
inicialmente, baseados em diretórios (semelhantes a páginas amarelas digitais),
dependiam diretamente da intervenção humana e, quanto mais a Internet cresce,
mais lento e dispendioso se torna esse processo. Segundo Fragoso (2007, p.7),
"o próprio sucesso do negócio de buscas fomentou a concorrência, e
logo havia dezenas de buscadores diferentes na rede. Cada um deles
operava com interface e algoritmos próprios e seus bancos de dados
cobriam diferentes porções da Web. Por conseguinte, consultas a
sistemas diferentes produziam resultados diferentes, e os usuários
passaram a repetir as mesmas consultas em várias ferramentas,
buscando maior amplitude de resposta".
Para corrigir esse problema, surgiram as ferramentas de meta-busca,
integradores que utilizam vários sistemas de busca ao mesmo tempo. Os
buscadores foram considerados particularmente interessantes pelo mercado
publicitário, que no princípio ficou interessado na inclusão de banners ou
propagandas nas páginas iniciais. Não tardou para que os buscadores percebessem
que promover o crescimento da base de usuários era o caminho para atrair mais
anunciantes. A competição entre buscadores aumentou, mas havia, segundo Fragoso
(2007), um problema grave: os usuários estavam relegados ao segundo plano sob a
forma de mera audiência, a matéria-prima para negociação com os anunciantes.
Surge então o terceiro tipo de buscador, utilizado pelo Google e baseado em
crawlers - robôs que varrem a Internet de tempos em tempos procurando a
palavra-chave digitada pelo usuário - que acabou por tornar-se o padrão na web.
O novo sistema de busca fornecia resultados bastantes mais confiáveis do que as
outras ferramentas e não apenas excluía resultados pagos entre os resultados
orgânicos, mas também utilizava um algoritmo de classificação inovador. Outros
pontos fortes do Google eram a velocidade das buscas e a simplicidade da
interface.
Para Vaz (2010), o que fazia o sistema melhor do que os predecessores era um
mecanismo chamado Pagerank
(4)
. Apesar de ter sido desenvolvido sobre um forte embasamento matemático, o
algoritmo do Pagerank tem um princípio bem simples: a importância de uma página
de Internet está associada ao número de referências (leiam-se links) que ela
recebe de outros sites. Essas referências serviam como uma espécie de voto de
confiança no qual um site confiável tem mais influência (credibilidade) do que
um site desconhecido.
O conceito provém do meio acadêmico, no qual as obras consideradas mais
importantes são aquelas que recebem maior número de citações de outros autores.
Analogamente, se autores mais renomados fazem referências a determinada obra,
essa citação, em tese, atribuiu um prestígio maior ao autor citado do que
ocorreria se um autor desconhecido o fizesse. A partir daí, esse conceito foi
extrapolado para o contexto das páginas da Internet. Portanto, uma diferença
fundamental entre o Google e seus predecessores era que ele não somente
contabilizava a quantidade de links de uma página para outra, mas
principalmente conseguia atribuir diferentes pesos a cada link (qualidade do
link) de acordo com uma análise prévia de qual site estava oferecendo. Outro
aspecto fundamental para o sistema de ranking do Google, segundo Vaz (2010), é
o contexto de cada página na Internet, ou seja, o crawler leva em consideração
o que é chamado de texto-âncora, pois o buscador consegue identificar por meio
de diversos critérios de seleção o contexto no qual ele está inserido.
A criação desse algoritmo lógico-matemático foi em si uma inovação, na medida
em que eliminou a deficiência causada pelo viés humano existente nos buscadores
anteriores. Ao colocar a experiência do usuário final no centro de suas
preocupações, relegando ao segundo plano o mercado publicitário, a Google deu
um salto de qualidade e sinalizou ao mercado que o fluxo de usuários não
deveria ser tratado apenas como uma fonte de receita para propagandas inseridas
no meio das buscas (VAZ, 2010).
4.3. Inovação e modelo de negócio
Viu-se como uma indústria de computadores focada na produção física de hardware
foi gradativamente transformando-se em uma indústria de software e serviços ao
longo das últimas décadas. A última onda de inovações vem transformando, mais
uma vez, o modelo de negócios típico, tornando empresas de TIC mais parecidas
com agências de publicidade. Ao fornecer gratuitamente o sistema operacional
Android
(5)
para celulares e o Chrome OS para tablets e netbooks, a Google desafia o
modelo adotado por concorrentes como Microsoft e Apple de cobrar uma licença em
cada unidade vendida. Entretanto, fabricantes de celulares que utilizam o
Android, sistema operacional disponibilizado gratuitamente pela Google, começam
a queixar-se de que a empresa está tornando o sistema mais fechado,
dificultando sua adaptação,deixando-os assim mais aprisionados a um padrão
tecnológico que, embora gratuito, permanece proprietário.
A Google também inovou ao oferecer serviços e aplicativos sofisticados sem
cobrar nada a seus usuários, ao contrário da prática usual adotada na
indústria. Para Eric Schmidt, presidente da empresa, "se você consegue que um
bilhão de pessoas faça algo, há muitas maneiras de ganhar dinheiro com isso"
(VALOR ECONÔMICO, 2010, p.B11). Dominar o mercado de buscas tem proporcionado
excelentes lucros com a propaganda dirigida na Internet, mas a Google entende
que essa situação é temporária, pois concorrentes poderosos estão em seu
encalço.
O que virá a seguir? Schmidt acredita que a "busca" vai virar coisa do passado
e que a maioria das pessoas não vai querer que a Google responda a suas
perguntas, mas sim antecipe o que elas farão. Por causa de todas as informações
que a empresa coleciona sobre seus usuários, tem uma idéia de quem são, de suas
preocupações e de quem são seus amigos. A Google pode saber, com precisão de um
metro, onde a pessoa está.
"Se você precisa de leite e há um lugar perto que o vende, o Google
vai lembrá-lo de comprar leite. Vai avisá-lo de que o assassinato
ocorrido no século XIX sobre o qual você tem lido aconteceu no
próximo quarteirão" (VALOR ECONÔMICO, 2010, p.B11)
Uma nova geração de aparelhos portáteis e poderosos está surgindo e conseguirá
surpreender as pessoas com informações que elas não imaginavam que gostariam de
saber.
A propaganda direcionada está no cerne dos novos modelos de negócios,
viabilizando o marketing um a um. A tecnologia deverá aperfeiçoar-se tanto que
será difícil assistir a algo ou consumir qualquer coisa que de alguma maneira
não tenha sido personalizada para as pessoas. Os avanços na inteligência
artificial vão permitir que as buscas passem da sintaxe para a semântica, ou
seja, do que você digitou para o que você quis dizer. O domínio desta
tecnologia será determinante na esfera do mercado.
5. CONCLUSÕES
As evidências levantadas neste artigo sobre os impactos das inovações na
estrutura da indústria são limitadas ao setor de TIC e não podem ser
generalizadas para a indústria como um todo. Entretanto, a análise conjunta da
evolução tecnológica, das empresas e dos modelos de negócios dominantes nos
permite traçar uma trajetória tecno-econômica plausível para setores em rápida
transformação tecnológica. As conclusões estão ancoradas nas duas proposições
elaboradas neste artigo com base na recente literatura de organização
industrial e mudança tecnológica.
A primeira proposição argumenta que na indústria de TIC as inovações
incrementais dificilmente se sustentam isoladamente por muito tempo devido ao
acelerado ritmo de mudança tecnológica que caracteriza o setor. Ao contrario do
que argumentam Abernathy e Clark (1985) e Prahalad e Hamel (1990) para o
conjunto da indústria, as inovações de caráter incremental que visam retardar
ou reverter o processo de maturidade industrial não se sustentam por muito
tempo no setor de TIC. Observou-se, com base no histórico dessa indústria, que
as competências centrais desenvolvidas por meio de um processo de melhoramento
contínuo se tornam frequentemente obsoletas em função de novas tecnologias e
modelos de negócios introduzidos por empresas sem dependência da trajetória
passada. Em consequência, as empresas líderes são obrigadas, mais cedo ou mais
tarde, a reestruturar-se, abandonando linhas de produtos, práticas comerciais e
modelos de negócios consolidados. A aquisição de novas capacitações geralmente
é feita a partir da incorporação de empresas menores e mais dinâmicas ou por
processos de terceirização e redefinição estratégica.
A IBM quase quebrou na década de 1990, mas recuperou-se graças a um processo de
reestruturação que a levou a sair de negócios com os quais obtinha poucos
lucros, como computadores e impressoras, e a reforçar as áreas de software e
serviços que hoje respondem por 80% de sua receita global (VALOR ECONÔMICO,
2011). A Microsoft, apesar de estar bem estabelecida no mercado corporativo e
contar com uma base sólida de clientes, começa a desenvolver alternativas
baseadas na Internet e serviços de computação em nuvem, pois seu modelo de
cobrar pelo licenciamento de cada cópia de software poderá não se sustentar
diante da distribuição gratuita de sistemas operacionais por concorrentes.
Ambas as empresas são inovadoras, mas, devido a sua posição consolidada no
mercado, tendem a ser mais defensivas em sua estratégia tecnológica do que
novos entrantes sem dependência de trajetórias passadas.
Com relação à segunda proposição, referente ao impacto das inovações na
estrutura industrial, os resultados deste estudo dão suporte ao argumento de
Utterback e Suárez (1993). Os avanços na tecnologia dos semicondutores afetaram
profundamente a estrutura da indústria de computadores, promovendo uma grande
onda de desconcentração ao facilitar o downsizing do mainframe ao
microcomputador. A reconcentração da indústria ocorreu não mais na montagem de
equipamentos, mas nos fornecedores de insumos críticos como microprocessadores
e software. A Internet vem permitindo a abertura de novos mercados como o
comércio eletrônico, home banking e a prestação de serviços de busca que foram
preenchidos principalmente por novas empresas, indicando oportunidades de
desconcentração. É interessante notar que o desafio não vem de concorrentes que
oferecem os mesmos tipos de produtos, como ocorre, por exemplo, na indústria
automobilística, mas de empresas que inovam em serviços e modelos de negócios,
oferecendo soluções inteiramente diferentes.
No modelo de computação em nuvens, acredita-se que o impacto das inovações na
estrutura industrial deva variar segundo o segmento de mercado. O sucesso dos
grandes provedores de serviços como Google, Apple e Amazon é difícil de
reproduzir, devido às externalidades de redes e ao feedback positivo. A Google
adicionou hardware, sistema operacional e redes sociais a seu portfolio,
tirando proveito de seu acesso privilegiado a milhões de clientes em todo o
mundo. A Apple, além de tornar-se um cobiçado ícone em produtos de consumo,
estabeleceu com grande sucesso a própria rede de venda virtual de músicas,
filmes e outros serviços. Já a Amazon constitui a marca de maior exposição
global no mercado editorial e comércio eletrônico, além de oferecer hardware
dedicado. Tais empresas mostram, na prática, como a convergência tecnológica
vem se consolidando e contribuindo para a concentração industrial.
Por outro lado, o modelo em nuvem abre oportunidades para empresas que absorvam
e adaptem inovações tecnológicas a seus modelos de negócios. A demanda por
conteúdo específico está crescendo em função da cauda longa, abrindo caminho
para empresas de nicho. As três forças descritas por Anderson (2006) - ampla
disponibilidade de ferramentas de desenvolvimento, facilidade de acesso ao
mercado e mecanismos de busca que permitem maior independência do consumidor -
atuam como fatores de desconcentração do mercado. Além disso, o foco no
conteúdo e nas relações mais estreitas com clientes e parceiros tecnológicos
está ganhando importância, pois um cliente nunca é exatamente igual ao outro e
isso abre espaço para empresas especializadas em soluções verticais e para
provedores de serviços.
Nos próximos anos, provavelmente, será visto um aprofundamento do modelo de
negócios baseado na personalização previdente dos serviços. As inovações que
permitem que as empresas captem e antecipem demandas potenciais de clientes
cujos perfis são de seu conhecimento, aliadas aos desenvolvimentos tecnológicos
que permitem oferecer, de forma descentralizada e automática, produtos e
serviços personalizados, estão revolucionando a indústria mais uma vez. A
tecnologia deverá se aperfeiçoar tanto que será difícil assistir a algo ou
consumir qualquer coisa que de certa maneira não tenha sido personalizada para
as pessoas.
Observar essas tendências e incorporá-las em estratégias empresariais e
políticas públicas constitui um desafio para os tomadores de decisões. O fato
de a nuvem ser essencialmente um bem público abre espaço para políticas
promissoras para o desenvolvimento da sociedade do conhecimento. Do ponto de
vista das empresas, existem hoje muitas oportunidades tecnológicas para o
desenvolvimento de soluções inovadoras, desde que tenham acesso às competências
necessárias. O modelo de computação em nuvem abre perspectivas inteiramente
novas para a formulação de modelos de negócios, pois descontinuidades no
processo de aprendizado tecnológico abrem janelas de oportunidades para novos
empreendedores. Há razões para ser otimista, pelo menos até surgir uma nova
onda de destruição criadora.
NOTAS
(1) Windows + Intel.
(2) Comunidades de produtores de conteúdos específicos independentes ou
especialistas que buscam retornos de reputação ao divulgarem seu conhecimento
de forma gratuita para a comunidade.
(3) O nome Google, adotado a partir de 1997, é um neo-logismo, retirado da
palavra googol, inventado por Edward Kasner, da Universidade de Columbia, que
batizou, com um nome sonoro e fácil de recordar, a centésima potência do número
10, ou um número 1 seguido de 100 zeros. Não satisfeito, o cientista criou o
googolplex, que equivale a um googol seguido de um googol de zeros. O googol
serviu de inspiração para o Google, fazendo referência à ideia de um número tão
extenso quanto o inesgotável limite da Internet.
(4) Em homenagem a Lawrence Page - um de seus criadores.
(5) Em 2011, o market-share global do Android em sistemas operacionais para
celulares alcançou 40%, tornando-se o mais utilizado.