Necessidades e preocupações dos pais em diferentes etapas do ciclo vital
INTRODUÇÃO
A família é considerada o microssistema mais importante para o desenvolvimento
dos indivíduos e suas funções primordiais residem na sobrevivência e na
socialização primária das crianças e adolescentes. É um espaço de transmissão
de valores, crenças, significados e conhecimentos agregados ao longo das
gerações e promotores do engajamento da criança em diversas interações com
outras pessoas, símbolos e objetos, possibilitando o desenvolvimento de
competências cognitivas, afetivas e sociais(1). Sendo assim, do ponto de vista
social e cultural, os pais e as mães têm a responsabilidade de oportunizar o
desenvolvimento e o bem-estar dos filhos, ambos podendo ser facilitados pela
comunicação estabelecida entre eles e pelas interações que envolvem afeto,
reciprocidade, estabilidade e confiança(2-3).
No contexto da família contemporânea, cada vez mais se observa que o pai, à
semelhança da mãe, manifesta preocupação em desempenhar seu papel nas tarefas
de cuidado e na educação dos filhos, participando mais ativamente da dinâmica
familiar. A afirmativa encontra ressonância em um estudo desenvolvido na cidade
de Maringá (PR), cujo objetivo foi o de conhecer as representações de três
gerações de famílias sobre a criação dos filhos e cujos resultados mostraram
que a relação entre pais e filhos é marcada prioritariamente pela demonstração
dos sentimentos de afeto, pela presença do diálogo e pelo desejo de ter maior
disponibilidade para os filhos(4).
Outro estudo realizado com pais, com o objetivo de analisar os significados
atribuídos à paternidade, em João Pessoa (PB), mostrou que predomina no
discurso masculino a visão de responsabilidade paterna associada ao bem-estar
dos filhos, no sentido de lhes garantir a subsistência e a proteção. Os homens
relataram a importância de estar presentes na vida dos filhos, tornando-se
sensíveis às suas necessidades e mantendo uma relação baseada no diálogo(5).
Os resultados encontrados remetem ao pensamento de que as necessidades e as
preocupações dos pais surgem justamente na relação com o filho, ou seja, as
necessidades dos filhos determinam as necessidades e as preocupações do pai.
Por outro lado, se as interações que promovem o desenvolvimento humano são
influenciadas pelas características pessoais, do contexto e do tempo nos quais
esse homem está inserido, também é possível inferir que as necessidades e as
preocupações experimentadas ao longo do processo de tornar-se pai são
influenciadas por esses mesmos elementos(6).
Dentre as características pessoais do pai, destacam-se a bagagem de
conhecimentos, as experiências prévias de cuidado, o envolvimento e o seu
comprometimento com a família. Essas características são classificadas por
Bronfenbrenner como recursos pessoais(6) que influenciam de forma diferenciada
as necessidades e as preocupações sentidas pelos pais. Por exemplo, a
experiência de cuidar que o pai adquire com o primeiro filho torna-o mais
habilidoso para cuidar dos demais. Da mesma forma, os pais em idade produtiva e
madura já desenvolveram algumas habilidades, pois tiveram experiências de
cuidado, enquanto o pai adolescente pode ter mais dificuldade no reconhecimento
das reações e demandas do filho.
Em relação ao contexto, a literatura mostra que as interações vivenciadas pelo
pai no trabalho, com os amigos e na família de origem, entre outros, também
influenciam no tipo de necessidade e preocupação que experimentam. Destaca-se
especialmente a situação econômica da família, a existência ou não de
estruturas de apoio para a criação dos filhos, como creches, escolas e o
relacionamento com a companheira. Os pais têm, por exemplo, a preocupação com o
sustento financeiro, vinculada, por extensão, ao contexto do trabalho, desde a
descoberta da gravidez, pois se preocupam em oferecer à família uma melhor
qualidade de vida. Tal preocupação gera nos pais a necessidade de ter um
trabalho que lhes proporcione condições de prover o sustento da família(7). No
caso do adolescente, ele está preocupado em atender as necessidades básicas do
filho, buscando inserir-se no mercado de trabalho; no entanto, ainda não
terminou os estudos e não possui renda suficiente, carecendo do apoio
financeiro da família de origem. Já os pais em idade produtiva e madura, que
possuem uma condição financeira estável e emprego fixo, não percebem a mesma
necessidade. Entretanto, não dispõem de tempo para acompanhar mais de perto o
desenvolvimento do filho conforme gostariam, o que também gera preocupação.
É importante destacar que as preocupações dos pais, envolvendo a criação dos
filhos, dependem também das interações vivenciadas no macrossistema, aquele que
abarca os valores, as crenças e a história da própria família. Sendo assim, as
concepções relativas ao papel da criança, da mulher e do homem na família,
assim como o valor atribuído à formação escolar determinam com maior ou menor
intensidade as preocupações e as necessidades dos pais(8).
Da mesma forma, o tempo é um elemento fundamental na definição das necessidades
e preocupações sentidas pelos pais. Nesse sentido, o tempo concebido através
das transformações sociais, tão marcantes no mundo contemporâneo, determina
novas demandas na criação dos filhos, destacando-se, no contexto, a violência
urbana, a disseminação das drogas e o consumismo exagerado. Já a concepção de
tempo em sua dimensão cronológica igualmente pode influenciar de forma
diferenciada as necessidades e as preocupações dos pais. No estudo ora
apresentado, o tempo cronológico é representando pelas diferentes etapas do
ciclo vital em que os pais se encontram, isto é, adolescência, idade produtiva
e idade madura, considerando adolescência o período até 19 anos; idade
produtiva, de 20 a 45 anos e idade madura, de 46 a 65 anos. Sendo assim,
observa-se que as necessidades e as preocupações dos pais são geradas na
relação com o filho e naquelas vivenciadas em diferentes contextos e não apenas
fruto das mudanças sociais, mas, também, em função da etapa do ciclo vital na
qual se encontram.
Nessa perspectiva, o complexo processo de construção da paternidade extrapola
as fronteiras familiares e recai na prática da enfermagem, como profissão do
cuidado. No trabalho desenvolvido com famílias, o enfermeiro precisa conhecer e
compreender as necessidades e as preocupações dos pais, de modo a prestar uma
assistência individualizada. Para tanto, é preciso considerar as
características individuais do pai; as influências que ele recebe dos contextos
onde transita; os valores; as crenças e os significados que constituem sua
história pessoal e ainda a etapa do ciclo vital na qual se encontra. É
importante que os enfermeiros constituam referências para os pais, orientando-
os, criando condições para que os mesmos possam desenvolver habilidades no
cuidado dos filhos, inclusive para implementar práticas disciplinares e
supervisão(9).
Entretanto, mesmo sendo reconhecida a importância de inserir os pais no
planejamento dos cuidados, observa-se que a mãe continua sendo o foco
prioritário das ações dos profissionais de saúde em geral e dos enfermeiros, em
particular. O pai habitualmente é visto como mero espectador, um coadjuvante no
cuidado do filho, o que gera a necessidade de uma reformulação nesse modelo de
assistência, com vistas à inclusão do homem no cuidado às famílias.
Por outro lado, no âmbito da literatura, constata-se a existência de uma
significativa lacuna na produção do conhecimento sobre a paternidade, na área
da Enfermagem. É no campo da psicologia que a produção científica é mais
relevante, especialmente os estudos a respeito da paternidade vivenciada na
adolescência. Na Enfermagem, ainda são poucas as pesquisas que têm a figura do
pai como objeto de investigação. Essa lacuna, de certa forma, explica as
dificuldades encontradas nas práticas de cuidado dos enfermeiros com o pai. O
fato está diretamente relacionado ao cuidado dos filhos, sendo que desses,
muitas vezes, o homem não participa mais ativamente porque não sabe como atuar
no cuidado, ocasionando uma situação na qual o pai não sabe cuidar do filho e o
enfermeiro, por sua vez, não sabe cuidar do pai. Assim, o conhecimento das
necessidades e preocupações dos pais na criação e educação poderá subsidiar
ações de enfermagem direcionadas ao atendimento dos aspectos em questão.
Com base nas considerações alcançadas e utilizando-se o referencial
bioecológico de Bronfenbrenner, o presente estudo objetivou identificar as
necessidades e as preocupações prioritárias que os pais manifestam quanto ao
desempenho do seu papel, em três diferentes etapas do ciclo vital:
adolescência, idade produtiva e idade madura. Foram consideradas não apenas
suas características pessoais, mas também o contexto no qual está inserido e as
mudanças ocorridas ao longo do curso de vida.
METODOLOGIA
Estudo exploratório com abordagem qualitativa, desenvolvido em um município do
extremo sul do Brasil, tendo como sujeitos pais adolescentes, em idade
produtiva e em idade madura. Estabeleceu-se como critérios de inclusão dos
sujeitos: a inserção em uma das faixas-etárias citadas anteriormente; o contato
permanente com os filhos e a assinatura do Termo de Consentimento Livre e
Esclarecido (TCLE). Foram sujeitos quatorze pais, cuja faixa-etária variou
entre 15 e 61 anos, sendo que quatro eram adolescentes (15 a 19 anos), cinco
estavam em uma faixa-etária que denominamos idade produtiva (20 a 45 anos) e
cinco na idade madura (46 a 61 anos). Para preservar o anonimato, os pais foram
identificados por meio de uma codificação representada pela letra "P", seguida
de um número que expressa a idade cronológica do participante. Para os
participantes que apresentavam a mesma idade, foi acrescida a letra "a" ou "b",
visando diferenciá-los.
Os dados foram coletados entre maio e agosto de 2011, por meio de entrevistas
em profundidade gravadas. A teoria bioecológica do desenvolvimento humano, de
Urie Bronfenbrenner, foi utilizada como referencial teórico para a realização
deste estudo. Com base nela, foi construída uma estrutura de análise que abarca
os quatro elementos do modelo bioecológico: processo, características pessoais,
contexto e tempo. Para a avaliação do processo, foram consideradas as
interações entre o pai e os filhos e o pai e o mundo do trabalho. No tocante às
características pessoais, levou-se em consideração a experiência de cuidado com
o filho, o envolvimento com a família e a bagagem de conhecimento. Com relação
ao contexto, foi considerado o status ocupacional ou educacional, o status
conjugal, as estruturas de apoio e a situação econômica da família. Em relação
ao tempo, foram observadas as mudanças ocorridas na sociedade, além do tempo
cronológico, considerando-se as três etapas do ciclo vital.
Além da estrutura de análise para a condução da análise dos dados, utilizou-se
a Análise Textual Discursiva(10). O processo iniciou-se com a unitarização dos
dados, mediante a fragmentação das entrevistas após diversas leituras,
identificando-se e codificando cada fragmento destacado, resultando, daí, as
unidades de análise. Na sequência da unitarização, realizada com a intensidade
e a profundidade pertinentes à pesquisa qualitativa, passou-se à construção de
relações entre as referidas unidades, comparando-as e agrupando os elementos
semelhantes em um processo denominado categorização. Durante tal etapa,
reuniram-se as unidades de análise por semelhança e aproximação, em categorias
intermediárias, gerando, com isso, três categorias de análise, construídas a
partir do referencial teórico utilizado. A primeira engloba as necessidades/
preocupações do pai geradas em sua relação com o mundo do trabalho. A segunda
aborda as necessidades/preocupações que emergem da relação de cuidado com os
filhos. A terceira refere-se às preocupações dos pais com relação ao futuro dos
filhos. O estudo recebeu uma certificação ética do Comitê de Ética e Pesquisa
da instituição à qual está vincula-do (parecer 134/2010). A todos os
participantes foi garantido o anonimato e respeitados todos os preceitos éticos
e legais que regem a pesquisa com seres humanos, estabelecidos pela Resolução
196/96 do Conselho Nacional de Saúde(11).
RESULTADOS
Nesse estudo, a estrutura de análise, construída com base no referencial
teórico, foi utilizada para conduzir a análise dos dados, permitindo visualizar
que as necessidades e preocupações prioritárias dos pais surgem a partir da
vivência dos processos proximais com os próprios filhos. Identificou-se, ainda,
que as diferentes fases do desenvolvimento dos filhos podem desencadear
preocupações e necessidades distintas nos homens. Também foi observado que as
interações vivenciadas pelos pais com outros indivíduos, tanto no microssistema
familiar como no mesossistema e no macrossistema, determinam o modo como os
homens percebem suas necessidades e preocupações no desempenho do seu papel.
Especificamente observou-se, em algumas famílias, a influência do tempo, sendo
que muitos pais estabelecem interações com os filhos com a perspectiva de
interferir e direcionar o futuro dos mesmos.
Caracterização dos participantes
Dentre os quatorze homens que participaram do estudo, dez são casados, sete
possuem apenas um filho; três têm dois filhos; três têm três filhos; e um,
cinco filhos. Quanto ao grau de escolaridade, quatro possuem ensino fundamental
incompleto; cinco completaram o ensino médio; quatro possuem o ensino superior
completo. Um é analfabeto. Todos os entrevistados exercem atividades
remuneradas, assim agrupados: cinco funcionários públicos, dois representantes
comerciais, um pescador, um garçom, um motorista, um serigrafista e três
dedicados aos serviços gerais.
Os pais adolescentes abandonaram os estudos para entrar no mercado de trabalho
após a descoberta da gravidez; dois têm emprego formal e dois encontram-se na
informalidade (pescador e ajudante de pedreiro). Três adolescentes mantêm união
estável com a companheira, dividindo a mesma casa, enquanto um não convive mais
com a mãe de seu filho, apenas mantém o vínculo com a criança. Em relação às
estruturas de apoio utilizadas, todos apontam família de origem, os seus
genitores, como principal auxílio financeiro, emocional ou como suporte para o
cuidado do bebê.
No grupo de pais em idade produtiva, dois têm apenas um filho; dois têm três
filhos e um tem dois filhos. Os cinco participantes dessa faixa-etária são
casados, mantêm relacionamento estável com a companheira e estão inseridos no
mercado de trabalho. Quanto à situação escolar, dois pais possuem ensino
superior completo; dois têm ensino médio completo e um possui ensino
fundamental incompleto. Em relação às estruturas de apoio utilizadas, foram
apontadas a família de origem e as creches.
Dentre os cinco pais em idade madura, um tem apenas um filho; dois têm dois
filhos; um tem três filhos e um pai tem cinco filhos. Três são casados, sendo
que um está no segundo casamento; um é viúvo e um, divorciado. Quatro desses
pais estão inseridos no mercado de trabalho, sendo que dois estão prestes a
requerer a aposentadoria. Apenas um já é aposentado. Um pai reside com um de
seus filhos já adulto. As estruturas de apoio citadas são a família de origem,
incluindo, além dos pais, irmãos e cunhados, os vizinhos, as creches e os
serviços de saúde.
Preocupações e necessidades dos pais na relação com o mundo do trabalho
Esta categoria aborda preocupações relacionadas à situação econômica da
família, apontada pelos participantes das três eta-pas do ciclo vital. São
preocupações que desencadeiam as necessidades referentes à aquisição da casa
própria, ao emprego formal e a uma renda familiar fixa, aspectos que, na visão
dos pais, facilitam o desempenho de seu papel de pai na família.
Dentre os quatro pais adolescentes, apenas um estava inserido no mercado quando
as parceiras engravidaram e, portanto, para três deles a descoberta da gravidez
foi um acontecimento gerador de preocupação adicional. Isto porque ainda não
estavam inseridos no mercado de trabalho, não tinham terminado os estudos e não
possuíam condições de sustentar a nova família que estavam formando. Todos os
quatro adolescentes interromperam seus planos de cursar o ensino superior e,
consequentemente, de preparar-se para alcançar uma boa colocação no mercado de
trabalho. Os estudos seriam retomados somente após o nascimento do filho,
quando a vida estivesse mais estruturada. De forma unânime, os adolescentes
deste estudo se cobram para que nada falte ao filho, desde o provimento das
necessidades básicas, como também o estabelecimento de uma relação pai e filho
baseada no amor, carinho e atenção. Por tal razão, os três adolescentes que
estavam desempregados (P16, P17, P19b) interromperam o estudos, a partir da
constatação da gravidez e ingressaram no mercado de trabalho.
É importante destacar que, apesar de todas as dificuldades encontradas e mesmo
relatando medo em determinadas situações, os pais adolescentes assumiram,
juntamente com a companheira, a responsabilidade com o sustento e com o
compartilhamento das atividades demandadas pela nova família. Ao assumirem tal
responsabilidade, preocupavam-se com a situação financeira e apontaram a
necessidade de ter dois empregos, como forma de conseguirem responder de
maneira satisfatória as necessidades dos filhos, referentes à alimentação,
vestimenta, saúde e educação. No entanto, reconhecem que sua carga-horária de
trabalho aumentada os afasta da vida familiar e, nesse processo, surge o
sentimento de culpa por participar pouco do cuidado do filho.
O apoio emocional e financeiro da família de origem é reconhecido pelos pais
adolescentes. Entretanto, dois (P17, P19a) percebem dificuldade na relação com
a família de origem, em razão dessa interferir muito na vida do jovem casal,
desejando assumir o controle das decisões em relação a como deve ser a criação
dos netos.
Na idade produtiva, a ênfase está na busca da manutenção e do sustento da casa.
Nessa etapa, as necessidades e as preocupações dos pais variaram de acordo com
a fase de desenvolvimento dos filhos. Quando eram pequenos, três pais (P31, P42
P44a) ainda não tinham condição financeira estável e enfrentavam dificuldades
para conciliar o trabalho e a vida doméstica, particularmente pela pouca
convivência com os filhos, devido à carga-horária de trabalho aumentada.
Segundo P31, P42 P44a ausência da vida familiar não lhes permitia estabelecer
vínculo com o filho. P44a destaca que a filha, muitas vezes, não o reconhecia
como pai, considerando-o um estranho e apresentando-se chorosa, irritada e
estressada na sua presença.
Outro aspecto apontado por P40 P44a que vivenciam a paternidade na idade
produtiva, foi o fato de ambos os cônjuges estarem inseridos no mercado de
trabalho. A necessidade de dividir o cuidado dos filhos com outras pessoas da
família gerou desconforto para o P40, porque a filha, além de sentir a ausência
do pai, acabou sendo educada por outras pessoas, cujos valores eram diferentes
dos seus. Portanto, P40 sente a necessidade de a mãe estar mais presente no
microssistema familiar para acompanhar o desenvolvimento da filha adolescente,
a fim de poder exercer um controle maior sobre suas interações com outras
pessoas.
Quando mais tarde P31, P40 e P42 conseguiram organizar-se de modo a obter uma
estabilidade econômica, eles se viram mais tranquilos para criar os filhos.
Assim, após esse período, a necessidade econômica surge apenas como meio de
garantir o futuro desejado para os filhos, ou seja, P40, P42, P44a e P44b
preocupam-se em manter uma condição financeira que possibilite investir nos
estudos dos filhos, visando a um futuro melhor para eles.
Na idade madura, a iminência da aposentadoria pode representar uma ameaça à
estabilidade da família. O fato de não possuir uma renda familiar mensal faz
com que P61 sinta dificuldade para prover as necessidades do filho, priorizando
a busca da subsistência da família e colocando em primeiro lugar a satisfação
das necessidades do filho. Para tanto, busca garantir o sustento da criança
fazendo serviços informais.
Três pais (P46, P57, P58) com emprego formal reconhecem que pouco participaram
dos cuidados básicos dos filhos quando pequenos, já que as companheiras não
trabalhavam e assumiram tal responsabilidade. Contudo, revelam que as decisões
sobre o modo de criar e educar os filhos sempre foram discutidas entre o casal.
Apesar de não realizarem tarefas básicas, P57 e P58 afirmam que contribuíram
para o cuidado, uma vez que sempre proporcionaram aos filhos bens materiais,
como brinquedos, roupas e educação privada. Esses pais, ao atuarem como
provedores materiais da família, percebem que desempenham bem seu papel no que
concerne ao cuidado dos filhos. Acreditam que, desempenhando-o, possibilitam
que a mulher desenvolva seu papel de cuidadora do lar e dos filhos.
Necessidades e preocupações na relação de cuidado com os filhos
Os pais adolescentes (P17, P19a, P19b) apontam dificuldades com os cuidados
básicos dos filhos, principalmente nos primeiros dias de vida da criança. Suas
preocupações giram em torno das reações dela, sendo que qualquer movimentação
do bebê, como respiração mais profunda e choro prolongado, é motivo para buscar
ajuda nos serviços de saúde por não saber o que a criança possa estar sentindo.
À medida que o tempo passa, vão adquirindo experiência e conhecendo mais as
reações manifestadas, aprendem a lidar com as situações cotidianas,
evidenciando que o aprendizado ocorre no próprio processo de cuidar do filho.
Em determinadas situações, os pais adolescentes (P16, P17, P19a, P19b)
necessitaram de apoio da família para lidar com o bebê após o nascimento, pois
se sentiam apreensivos com a fragilidade do filho e revelaram a necessidade de
ter mais segurança e conhecimentos para identificar e responder as demandas da
criança.
Apesar de possuírem muitas dúvidas acerca da criação e educação (P16, P17 e
P19a), afirmam a necessidade de acompanhar o crescimento do filho, participando
de todas as etapas do desenvolvimento infantil. Manifestam o desejo de estar
presente, esperando ser uma referência com a qual a criança possa contar nas
horas boas e ruins. Além disso, verbalizam o desejo de ser um exemplo que o
filho possa seguir posteriormente, quando for adulto.
P16, P17 e P19a acreditam na necessidade de construir uma relação com o filho
baseada no diálogo, no carinho e na confiança, mostrando para a criança o certo
e o errado e sem atender todas as suas vontades. Acreditam que a punição física
não pode fazer parte da educação, embora em determinadas situações seja preciso
ser mais rude e repreender a criança. No entanto, quando isso acontece, o pai
se culpa e mostra-se arrependido. P19b cita que, por não conseguir acompanhar o
crescimento do filho devido ao fato de trabalhar em outra cidade, o que gera a
pouca convivência, quando está presente, tenta compensar o tempo perdido e
acaba sendo mais liberal na criação, ou seja, atende todas as vontades da
criança. P16 e P17 relatam que a pouca convivência com seu próprio pai fez com
que desejassem formar suas próprias famílias para suprir essa carência. Eles
apontam a necessidade de acompanhar o desenvolvimento do filho e de ter uma
relação baseada no amor e carinho.
Na idade produtiva, os pais necessitam estabelecer uma relação próxima com os
filhos, mantendo o vínculo afetivo e o diálogo. Acreditam que o cuidado, a
proteção e a orientação são referências seguras no processo de crescimento e
desenvolvimento da criança. Assim, procuram atuar, direcionando o rumo das
interações dos filhos em outros contextos que não apenas o microssistema
familiar, em especial na escola, na tentativa de controlar suas relações com
outras pessoas, desejando apenas as interações que possam ser positivas para o
desenvolvimento do filho. No entanto, quando os filhos estavam na etapa da
adolescência, P40 P42 sentiram dificuldade em manter um controle mais rigoroso
nas relações, demonstrando a necessidade de equilibrar o papel de direcionador
com as demandas que os filhos apresentam.
Os pais em idade produtiva (P40, P42 e P44b) demonstram preocupação em relação
ao estabelecimento de limites, principalmente quando os filhos são
adolescentes, e aos valores a serem passados para que eles possam enfrentar as
demandas do mundo atual. Preocupam-se, pois não conseguem controlar as
interações do filho em outros contextos. Preocupam-se com o caminho que ele irá
seguir e acreditam desempenhar bem seu papel de pai quando contribuem para que
os filhos possam ir em busca dos seus sonhos e sigam os valores e princípios
aprendidos em casa. Percebem que o processo do filho de tornar-se adulto não
depende somente dos valores adquiridos em casa, mas, também, das influências de
outros ambientes como, por exemplo, a escola e a rede de amizades. No entanto,
preocupam-se com suas atitudes em relação aos filhos e demonstram desejo de ser
exemplo a ser seguido, conforme já havia sido observado também nos pais
adolescentes.
A educação e a saúde são preocupações referidas por todos os pais em idade
madura (P46, P48, P57, P58, P61). P61 que assumiu o cuidado do filho pequeno
após a separação da companheira, demonstra preocupação em cuidar da criança
sozinho, prover o sustento da casa e acompanhar o desenvolvimento do filho, ou
seja, em cuidar, proteger e orientar. Relatou ter havido mudança no seu
comportamento após a chegada do filho, pois começou a cuidar melhor de sua
saúde, percebendo motivação maior para viver, em função das necessidades do
filho.
P46, P48, P58 e P61 priorizam uma relação com os filhos baseada principalmente
no diálogo e na confiança, procurando mostrar o que é certo e o que é errado.
Sentem necessidade de acompanhar mais de perto o desenvolvimento dos filhos, de
modo a não serem criados por outras pessoas. Procuram alertar sobre as
interações dos filhos em outros contextos, principalmente em razão dos
problemas sociais como a violência e o envolvimento com drogas. Entretanto,
possuem dificuldades em conviver com os valores e as regras impostas pelo mundo
atual e, apesar de orientar o filho, o pai se sente impotente diante da
influência de outros contextos e das interações estabelecidas com outros
indivíduos e do modo como isso pode inteferir no desenvolvimento do filho.
Quando esses se tornam adultos, os pais procuram não interferir muito, pois
percebem a necessidade de eles tomarem suas próprias decisões, escolherem seu
caminho, mesmo que para isso cometam erros.
Preocupações dos pais em relação ao futuro dos filhos
Esta categoria agrupa as preocupações que os pais vivenciam no desempenho de
seu papel na família, as quais geram ações realizadas no tempo presente, mas
com a perspectiva de interferir e direcionar o futuro dos filhos.
P16, P17 e P19a desejam um futuro melhor para os filhos, esperando que eles
completem os estudos, com vistas à conquista de um emprego digno. Por essa
razão, referem a necessidade de prover condições para sustentar os filhos a fim
de que, diferentemente da própria história, eles possam investir no futuro.
P19a revela preocupação com o futuro do filho e, dessa forma, não se permite
correr qualquer risco. Em relação ao sustento, ele prioriza as necessidades do
filho; por não possuir situação financeira estabilizada, não se permite correr
risco de perder o emprego, mesmo que não seja exatamente o desejado. Com
semelhante preocupação em relação ao futuro do filho, P19a afirmou cuidar
melhor da sua saúde, evitando adotar comportamentos de risco, pois tem medo que
lhe aconteça alguma coisa, fruto da preocupação com o cuidado do filho.
Os pais que têm filhos na adolescência (P40, P44a, P44b, P46, P48, P57 e P58)
destacaram que desenvolvem ações visando qualificar a vida futura dos filhos.
Especificamente, procuram supervisionar as relações dos filhos com os amigos,
monitorando-as. Na escola, procuram se fazer presentes com vistas a não perder
o controle de tais relações. Para tanto, participam de reuniões escolares e
também levam e buscam o filho na escola. Dois pais (P40 e P57) relataram
acompanhar as filhas nas atividades de lazer, procurando supervisionar as
relações vivenciadas em outros contextos. Assim, P40 destaca que, mesmo após um
dia de trabalho, se dispõe a acompanhar a filha nos shows que ela deseja ir. Já
P57 referiu que sempre levou e buscou a filha adolescente nas festas à noite,
pois se preocupava com as interações dela nesses ambientes. Com isso, observou-
se que a preocupação com o futuro do filho mobiliza os pais a serem proativos
no presente, a fim de garantir um bom desenvolvimento para os filhos, buscando
evitar influências negativas advindas de contextos adversos.
Outra preocupação apontada por P46, P48 e P57 relaciona-se à oportunidade de os
filhos seguirem os estudos. Esses pais atuam de modo a influenciar e direcionar
os filhos para uma profissão, de forma que não passem pelas dificuldades
sentidas por ele. Em tais situações, muitas vezes, projetam nos filhos os
sonhos que não conseguiram concretizar. P46, P57 P58 investem na educação com
vistas a oferecer aos filhos as oportunidades que não tiveram quando jovens. Os
pais de idade madura com filhos adultos, apesar de demonstrarem preocupações em
relação ao seu futuro, principalmente no que se refere à decisão quanto à
profissão a ser seguida, procuram não interferir nas suas opções, pois
acreditam que os filhos têm responsabilidade e maturidade para escolher seu
próprio caminho. Assim, cons-tata-se que as ações desenvolvidas por esses pais
são definidas e estão associadas à idade dos filhos, podendo o papel que lhes
cabe variar de proativo a apenas orientador.
DISCUSSÃO
Os resultados do presente estudo permitiram identificar que as necessidades e
as preocupações dependem da etapa do ciclo vital dos filhos, dos contextos nos
quais os pais estão inseridos e também de suas características pessoais.
A situação econômica da família foi relatada pelos pais como preocupação
primordial para conseguir atender as necessidades básicas dos filhos, sendo
que, atualmente, todos estavam inseridos no mercado de trabalho. Contudo,
percebeu-se que a renda mensal da família referida pelos participantes variou
significativamente e esse fato fez com que alguns deles tivessem dois empregos,
de modo a atender melhor as necessidades dos filhos e da família. O achado
encontra consonância com estudo realizado, segundo o qual o sustento da família
é um aspecto de fundamental importância para os pais, vistos como os provedores
dentro da sociedade(12).
Visualizou-se que, quando os filhos são pequenos, a preocupação dos pais
adolescentes e em idade produtiva é possuir condição financeira estável de modo
a prover as necessidades básicas do filho. Em conformidade com o resultado
alcançado, estudo realizado com os pais identificou que o trabalho e o término
dos estudos poderiam ajudar os homens a serem melhores pais, já que as maiores
dificuldades identificadas por eles estavam associadas à responsabilidade,
particularmente em relação às finanças(13). Contudo, nessas etapas do ciclo
vital, a disponibilidade dos pais para atuar nos cuidados dos filhos está
associada diretamente à sua inserção no mercado de trabalho, com muitos
apresentando dificuldades para conciliar o trabalho e a vida doméstica, o que
influenciou na relação com o filho. Os pais de idade produtiva relataram
dificuldades em estabelecer vínculo com o filho, devido a sua ausência na vida
familiar.
Os pais adolescentes revelam uma preocupação exagerada com o filho logo após o
nascimento, sem saber como lidar com as reações apresentadas por ele, entre as
quais, a dor, o resfriado e o choro. Com a experiência do cuidado e o suporte
da família de origem, ficaram mais tranquilos e aprenderam a lidar com as
situações cotidianas. Em conformidade com os resultados obtidos, estudo aponta
que a sensibilidade e a capacidade de responder as demandas da criança estão
associadas à experiência de cuidado; assim, ao cuidar do filho, o pai vai
desenvolvendo habilidades e conhecimentos que o auxiliam no processo de cuidar.
Contudo, alguns autores afirmam que apesar de os pais terem competência para
atuar no cuidado, a maior parte da responsabilidade com as tarefas básicas é
assumida pela mãe(14).
A totalidade dos pais desse estudo referiram a utilização de estruturas de
apoio em alguma etapa do desenvolvimento dos filhos. Os pais adolescentes
fizeram referência à família de origem como principal auxílio financeiro,
emocional e suporte para o cuidado do bebê. Já os pais em idade produtiva e
madura apontaram a família de origem, as creches, os vizinhos e os serviços de
saúde. Os resultados aqui transcritos encontram ressonância em estudo no qual
os autores destacam que o apoio financeiro e emocional das famílias é
fundamental para que os homens desempenhem seu papel de pai, contribuindo para
a diminuição do estresse e para a experiência e o conhecimento sobre
desenvolvimento infantil(15). Outro estudo faz referência aos numerosos
desafios enfrentados pelos pais nos níveis pessoal, conjugal e familiar, sendo
a rede de apoio um recurso valioso para lidar com os mesmos(16).
No que concerne ao cuidado dos filhos, os pais em idade produtiva apontaram a
necessidade de dividi-lo com outras pessoas, devido ao fato de ambos os
cônjuges estarem inseridos no mercado de trabalho. Já os pais em idade madura
reconheceram que se dedicaram mais à sua vida profissional e pouco participaram
nos cuidados dos filhos, em termos de realização das tarefas como as de
higiene, alimentação, vestuário, entre outras. Relataram que, ao prover
financeiramente a família, possibilitaram à mulher assumir seu papel no cuidado
dos filhos. Esses resultados assemelham-se aos achados de estudo igualmente
desenvolvido com pais, no qual os autores identificaram que os homens dedicam-
se mais à carreira pro-fissional, enquanto a mulher reduz seu horário de
trabalho ou se dedica exclusivamente para as atividades da família(17).
Em outro estudo realizado com pais, com o intuito de cap-tar o sentido dado à
paternidade, os autores verificaram que, na maioria das falas masculinas, uma
divisão tradicional dos papéis se mantém como norteadora das relações. Segundo
ela, cabe ao homem ainda o papel de principal provedor, tan-to que a
paternidade continua associada à imagem do trabalho, como na perspectiva
tradicional. As funções de prover e proteger a família são naturalizadas, sem
maiores questionamentos quanto às construções sociais de gênero(18).
Os pais em idade produtiva apontam a necessidade de estabelecer uma relação
próxima com os filhos, preocupando-se em provê-los afetivamente. Esse resultado
assemelha-se aos achados de outro, realizado com ambos os pais, no qual os
autores identificaram que, apesar de o casal relatar enxergar a criança da
mesma forma, as mães estão mais preocupadas com a obtenção do conhecimento
sobre ela e seus comportamentos e reações, enquanto os pais preocupam-se em
estabelecer uma relação afetiva com a criança(19).
Os pais em idade produtiva demonstraram preocupação em impor limites aos
filhos, destacando a necessidade de mostrar, desde cedo, o caminho certo para
que eles possam seguir. Esses pais preocupam-se em lidar com a imposição de
limites quando os filhos se encontram na adolescência, por não conseguirem ter
controle sobre as interações deles em outros contextos e com outros indivíduos.
Estudo realizado com pais apontou que a educação de um filho adolescente supõe
uma série de negociações, responsabilidades e dúvidas dos pais, desafiando seu
papel e autoridade parental em vista das mudanças do adolescente, sendo a fase
também caracterizada pelo aumento de conflitos entre pais e filhos(20).
Observou-se que, na idade madura, a preocupação dos pais está relacionada à
saúde e à educação dos filhos. Esses pais demonstraram a necessidade de
acompanhar o desenvolvimento dos filhos, repassando seus valores e princípios e
alertando para as interações em outros contextos que não somente o
microssistema familiar. Além disso, notou-se que esses pais projetam nos filhos
os sonhos que não conseguiram concretizar, procurando investir na educação de
forma a oferecer aos filhos as oportunidades que não tiveram quando jovens.
Contudo, com os filhos já na idade adulta, os pais preocupam-se em não
interferir nas sua escolhas, procurando atuar como orientador.
Em conformidade com os resultados obtidos, estudo realizado com pais mostrou
que eles têm sonhos para o futuro do filho, os quais incluem o desejo que
supere suas próprias realizações, geralmente expresso como a vontade de que o
filho seja melhor do que o pai. Nesse estudo, identificou-se que os pais
esperavam que seus filhos completassem os estudos, inclusive o ensino superior,
para que pudessem, futuramente, alcançar sucesso financeiro e educacional(13).
CONSIDERAÇÕES FINAIS
Neste estudo, identificou-se que a preocupação com o futuro dos filhos foi
apontada por pais de todas as faixas-etárias investigadas, fazendo com que ajam
no presente, com vistas a direcionar o futuro dos filhos, com as ações sendo
definidas a partir da idade dos filhos. Observou-se que os pais adolescentes,
apesar das dificuldades, assumem a responsabilidade dos cuidados dos filhos,
preocupando-se em prover o sustento e as necessidades de afeto e carinho. Na
idade produtiva, notou-se que as preocupações dos pais na fase da adolescência
dos filhos, estão mais voltadas ao acompanhamento das interações dos filhos em
outros contextos. Na idade madura, visualizou-se a dificuldade dos pais em
atuar na educação e criação dos filhos, já que necessitam lidar com valores e
regras impostas pelo mundo atual.
Nessa perspectiva, a compreensão das necessidades e preocupações que os pais
experenciam ao cuidar de seus filhos pode contribuir para respaldar as ações
dos enfermeiros, no sentido de ajudá-los a melhor desempenhar seu papel na
família, identificando suas dúvidas e dificuldades no que se refere ao cuidado
dos filhos e podendo constituir-se em estrutura de apoio para que eles
administrem os aspectos citados. É fundamental que os enfermeiros estabeleçam
uma relação de confiança com os pais desde o pré-natal, procurando inseri-los
na assistência e possibilitando que expressem suas necessidades e preocupações.
A identificação desses aspectos pode facilitar o desenvolvimento do papel do
pai na família, uma vez que os enfermeiros têm a oportunidade de auxiliar os
pais a estabelecerem o vínculo com o filho e a manterem relações positivas
dentro da família.