Percepção de enfermeiros sobre o uso do computador no trabalho
INTRODUÇÃO
Atualmente, o computador tem produzido grandes avanços em todos os segmentos da
sociedade e modificado os modos de produção e as relações entre as pessoas. A
informática, definida como a ciência do tratamento automático das informações,
não visa apenas à programação de computadores para executar tarefas
específicas, mas estuda a estrutura e o tratamento das informações, nas mais
variadas formas(1-2).
O computador, por sua vez, é uma máquina cujo sistema é formado por duas
partes: Hardware e Software. O primeiro refere-se às partes físicas e
mecânicas, entendidas como a anatomia de um corpo ou máquina e; o segundo, às
partes não físicas, as quais fornecem instruções para o funcionamento do
hardware e que podem ser comparadas à fisiologia de um corpo(3).
Na Enfermagem, a informática é abordada como a área de conhecimento que
investiga o uso da tecnologia da informação em diferentes áreas (ensino,
assistência e gerenciamento), cuja operacionalização pode ser exercida por meio
de diferentes recursos como: reconhecimento de voz, bancos de conhecimento,
internet, dentre outros(4).
De acordo com a Associação Americana de Enfermagem (ANA), informática em
enfermagem é "[...] uma especialidade que integra a Ciência da Enfermagem, a
Ciência da Computação, e a Ciência da Informação para gerenciar e comunicar
dados, informação e conhecimento na prática da Enfermagem"(3). Outros autores
(5-6) expõem que informática em enfermagem é a informação eletrônica referente
à prática clínica, administrativa, de pesquisa e de educação. É uma
especialidade reconhecida nos Estados Unidos da América (EUA) desde 1992.
No tocante ao tempo que enfermagem vem utilizando computador, existem registros
de que isso ocorre há cerca de cinco décadas, em especial nos EUA. Porém, este
período não está claramente determinado porque, antes de 1984, o termo
"informática em enfermagem" não era mencionado na literatura(5).
A importância das tecnologias informacionais na área da saúde é destacada, no
sentido de que tem sido utilizada em diferentes campos, com resultados
satisfatórios(7). Contribui para tal afirmação o fato de que ao utilizar o
computador, abre-se a possibilidade à Enfermagem de captar um grande número de
informações. Ao mesmo tempo, cria-se a necessidade de coletar e registrar os
dados de forma sistematizada, de modo que resulte em mais agilidade no cuidado
e segurança ao paciente.
O uso da informática ou de sistemas de informação pela enfermagem é ressaltado
nas atividades de mensuração e melhoramento da qualidade do atendimento à
saúde. Isso porque o computador tende a ser um excelente aliado no
gerenciamento de informações necessárias a todo o processo. Nessa perspectiva,
desde que as informações sejam utilizadas de forma adequada, o cuidado pode ser
melhorado quanto à padronização dos registros, redução do tempo, segurança e
simplificação da documentação(8).
Em que pesem os benefícios do uso do computador na enfermagem, uma extensa
revisão bibliográfica(9), indicou a não há evidência de melhoria na prática
atribuída aos sistemas de registros computadorizados. Os autores ressaltam que
os estudos viabilizados indicam existência de problemas metodológicos e
hipóteses inadequadas que podem ter interferido nos resultados e, com base
nisso, sugerem que em investigações voltadas a projetos e provas é importante
que se realizem pesquisas de cunho qualitativo, que explorem a relação entre a
prática e o uso da informação.
Com base no exposto, este estudo se pauta na seguinte justificativa: existe
necessidade de estudos qualitativos, acerca do tema informática na enfermagem,
de modo a subsidiar ações voltadas à qualificação no campo da gestão, do
ensino, da pesquisa e da prática profissional em enfermagem; ademais, estima-se
que os resultados desta investigação poderão contribuir à formação de um corpo
de conhecimento específico voltado ao tema.
Entendendo que os sistemas de informações eletrônicas são viabilizados por meio
de computadores, este estudo aborda o uso deste aparato pela enfermagem e não o
conteúdo das informações processadas. Em assim sendo, o objetivo da pesquisa
consistiu em apreender a percepção de enfermeiros de uma instituição hospitalar
sobre o uso do computador no ambiente de trabalho.
MÉTODO
Estudo do tipo descritivo-exploratório, de abordagem qualitativa, realizado no
período de novembro de 2012 a janeiro de 2013, em um hospital geral de média
complexidade, localizado no interior do Estado de São Paulo. A instituição
conta com um total de 51 leitos e possui sistemas informatizados implantados em
todos os setores. O quadro da Enfermagem, à época, era formado, por 26
enfermeiros e 85 auxiliares de enfermagem(10).
Participaram do estudo enfermeiros que atuam na gerência e supervisão ou na
assistência direta, com tempo de atuação no hospital de no mínimo seis meses e
que assinaram o Termo de Consentimento Livre e Esclarecido (TCLE). O número de
participantes entrevistados foi determinado de acordo com os depoimentos, até
que se atingisse a saturação dos dados.
Os instrumentos de coleta de dados foram: formulário para registro dos dados
sócio demográficos, entregue e preenchido pelos entrevistados, momentos antes
da entrevista, e roteiro de entrevista semiestruturado abordando a temática
central do estudo. No roteiro constava a questão norteadora Fale sobre o uso do
computador no seu trabalho, seguida de questões adicionais, relacionadas à
importância do uso do computador no processo de cuidado, dificuldade no manejo
dessa tecnologia e sugestões de melhorias quanto ao uso do computador no
trabalho, utilizadas conforme a necessidade, no sentido de esgotar a discussão
sobre o tema.
As entrevistas foram registradas em gravador digital, mediante anuência prévia
dos participantes. Os registros foram complementados por notas da pesquisadora
em diário de campo.
Após obter o parecer favorável, sob o número 73.651, em 14 de agosto de 2012,
do Comitê de Ética em Pesquisas Envolvendo Seres Humanos (COPEP-UEM), realizou-
se contato com a Chefia do Serviço de Enfermagem da instituição para apresentar
a proposta do estudo e prestar esclarecimentos acerca de possíveis dúvidas. Na
ocasião, foi solicitada uma lista contendo o nome, tempo de atuação e número do
telefone para contato dos enfermeiros da instituição.
A partir da lista, foram realizados contatos com os enfermeiros para
agendamento da entrevista que foi realizada em ambiente privativo, conforme a
disponibilidade de cada participante, durante o horário de trabalho, nas
dependências do próprio hospital.
No momento da entrevista, os participantes foram (re)informados a respeito do
objetivo do estudo, da técnica de coleta de dados, dos aspectos éticos e da
utilização das informações. Mediante as informações fornecidas, foi entregue o
Termo de Consentimento Livre e Esclarecido (TCLE), em duas vias de igual teor,
para que fosse lido e assinado pelo participante. Destas, uma via foi entregue
ao(à) entrevistado(a) e a outra ficou com a pesquisadora.
As entrevistas tiveram duração média de 12 minutos. Os conteúdos das falas
foram transcritos na íntegra e tratados por meio da técnica de Análise de
Conteúdo, na modalidade Análise Temática(11-12).
Foi realizada a etapa de pré-análise, por meio da organização do material
transcrito e da retomada da questão de pesquisa e do objetivo, necessários à
organização das principais ideias que nortearam o estudo. Todo o material foi
impresso, colocando-se do lado direito e esquerdo, margens amplas para realizar
as anotações pertinentes à categorização.
Organizado o material, seguiu-se a etapa de exploração na qual os dados
transcritos, ainda na fase bruta, foram lidos e relidos várias vezes. Nesta
fase, cada palavra ou trecho que se destacasse, no sentido de servir como
núcleo de compreensão ou de sentido, foi destacado por meio de canetas marca-
texto de cores diferentes. A seguir, os trechos demarcados foram lidos
novamente e copiados na íntegra, na margem esquerda das páginas.
A terceira etapa foi operacionalizada por meio do tratamento dos resultados,
inferência e interpretação. No tratamento dos dados, realizou-se a seleção das
falas significativas dos entrevistados, no sentido de manter ou abstrair a
essência do que foi informado, para que a partir disso, fossem formados grupos
de temas sobre os quais se realizaram interpretações, apoiadas na literatura.
Do processo de análise dos conteúdos expressos pelos participantes do estudo,
emanaram seis categorias temáticas: O uso do computador na enfermagem: buscando
a otimização e a qualificação do cuidado, Aspectos negativos do uso do
computador: instrumento para a mecanização do cuidar?, Refletindo sobre os
obstáculos e dificuldades para a informatização do serviço, A informática e o
registro de informações: repercussões sobre a prática assistencial, Avaliando
os resultados com o uso do computador e Recomendações para o uso do computador
na Enfermagem.
A apresentação dos resultados, inseridos em suas respectivas temáticas será
realizada utilizando trechos, verbatins ou excertos oriundos das falas dos
participantes. Neste processo, algumas correções gramaticais foram realizadas,
no sentido de garantir a clareza dos relatos, sem prejuízo para o conteúdo
expresso nas falas dos entrevistados. Em algumas partes foram acrescidas
palavras, em itálico e entre parênteses, que podem auxiliar a compreensão do
texto pelo leitor.
Ao final de cada excerto foi utilizada a abreviatura "Enf" de Enfermeiro,
seguido de um número que representa a ordem de realização da entrevista.
RESULTADOS
Participaram do estudo 14 enfermeiros, 12 mulheres e dois homens, com idade
entre 25 e 48 anos. O tempo transcorrido desde a conclusão da graduação variou
de dois a 21 anos; o tempo de atuação no hospital variou de um a cinco anos (o
limite superior coincide com o período de tempo em que o hospital em questão
está em atividade); 13 referiram utilizar o computador no trabalho no período
compreendido entre um a cinco anos e um participante relatou utilizá-lo entre
seis e 10 anos. O menor tempo de uso referenciado foi de oito meses e o maior,
de oito anos.
No que se refere às entrevistas, foi possível evidenciar algumas impressões
pertinentes dos profissionais sobre o uso do computador nas práticas. Ao serem
indagados sobre o uso da informática e os principais impactos desta utilização
sobre o processo de trabalho da Enfermagem, as referências aos aspectos
positivos desta ferramenta em muito superaram as considerações negativas. Os
aspectos positivos foram amplamente abordados pelos participantes, de tal modo
que os núcleos de sentido relativos às vantagens do uso do computador
apareceram 89 vezes no conjunto dos relatos, em contraposição a 14 referências
de conotação negativa.
Com relação às vantagens atribuídas ao uso do computador, os participantes
referiram-se, especialmente, à desenvoltura do serviço e confiabilidade das
informações, com impactos sobre a segurança e a qualidade do atendimento
prestado. Os aspectos negativos se relacionaram à mecanização do processo,
contribuindo para o distanciamento do profissional do paciente.
O uso do computador na enfermagem: buscando a otimização e a qualificação do
cuidado
Dentre os atributos relacionados à otimização do tempo, o uso do computador no
cotidiano da atenção e do trabalho dos entrevistados, parece estar associado a
um processo de modernização do fazer profissional e ao sentimento de
valorização das suas atividades:
[...] o computador facilita muito porque dá mais agilidade [...]
porque a gente acaba anotando melhor e mais. Então, acaba sendo uma
ferramenta positiva. (Enf. 1)
[...] o tempo que a gente gasta escrevendo manualmente e o tempo que
a gente gasta digitando é muito menor. Então, otimiza o tempo para
realizar outras atividades assistenciais. (Enf.3)
O computador faz com que o serviço seja mais ágil [...] e assim
consigo me dedicar mais à assistência, à supervisão do funcionário,
ao paciente em si. (Enf. 12)
Nos excertos apresentados, além do entusiasmo demonstrado pelos participantes
ao utilizarem uma tecnologia inovadora, observa-se que é atribuída ao
computador, a propriedade de reduzir o tempo despendido com a realização das
atividades, em especial no que tange às ações relacionadas ao registro e à
disseminação das informações, contribuindo para que os profissionais se
dediquem mais ao paciente. Essa afirmação é corroborada por autores(3) que, ao
abordar a temática da informática em enfermagem, indicam que a redução da carga
de trabalho do enfermeiro nos contextos de sua utilização está relacionada ao
incremento da rotina e da documentação, como possibilidade para a dedicação de
mais tempo do profissional ao cuidado. Outro aspecto importante é que os dados
capturados por meio eletrônico elimina a necessidade de o paciente responder às
mesmas questões referentes a si ou à sua doença, para pelo menos oito
profissionais diferentes da equipe de saúde(3).
Apesar de o computador ainda não ser massivamente utilizado nos diferentes
campos de atuação da Enfermagem, principalmente, na área do ensino e da
prática, o seu uso deve ser ampliado e os seus sistemas aprimorados. Essa
afirmação é corroborada por um estudo(13) que aborda a implantação de um
sistema informatizado voltado ao gerenciamento de indicadores da assistência de
enfermagem e conclui que, apesar das dificuldades e limitações, os benefícios à
atuação da equipe de saúde e à qualidade do cuidado são evidentes.
A satisfação para com o uso do computador foi relatada também do seguinte modo:
[...] eu acho muito bom porque facilita o trabalho da gente, fica
mais organizado. (Enf.8)
Ajuda muito, a gente consegue ter uma programação mais específica,
melhora a qualidade do cuidado. (Enf. 11)
[...] ficou muito mais fácil, é muito mais legível e facilita a
continuidade do cuidado, pois você vê tudo do paciente. É só acessar
o sistema. (Enf. 12)
Os participantes mencionaram vários benefícios proporcionados pelo uso do
computador, destacando-se a facilidade para a visualização das informações
registradas por toda a equipe multiprofissional e isso pode favorecer a
qualidade do cuidado. Esse resultado ratifica os achados de outros estudos(3)e
corrobora com as conclusões de uma pesquisa realizada com enfermeiros
especialistas em informática dos EUA(14) que apontam que a Enfermagem tem
reconhecido o potencial da informática para promover melhorias na prática e
também nos seus salários.
Ainda na perspectiva anterior, autores(8) referem que os sistemas
informatizados na área da saúde resultam em diversos benefícios relacionados ao
paciente, à instituição e aos trabalhadores. Desse modo, apesar das
dificuldades inerentes à obtenção de recursos e à operacionalização de sistemas
computadorizados nas instituições de saúde, os benefícios resultantes parecem
sobrepujar todo e qualquer obstáculo logístico para sua implementação.
Nos verbatins a seguir, são abordados aspectos relacionados ao uso do
computador e à segurança do paciente e da equipe:
A integridade das informações. Não tem como interpretar erroneamente
por conta da letra [...]. Então, eu acho que o principal benefício do
uso do computador diretamente ligado à assistência, é a segurança e a
integridade das anotações, das informações. (Enf. 4)
O erro é muito menor porque está tudo legível, você vê certinho o que
está escrito [...]. (Enf. 6)
[...] nem se compara com aquela prescrição feita a mão que a gente
precisa decifrar aquilo que o médico colocou. Então, fica uma coisa
assim, jogada... você traduz, coloca a hora que você quer [...].
(Enf. 8)
A fala do Enfermeiro 8, em especial, é repleta de termos que enfatizam a
associação entre a falta de clareza dos registros e a potencialização dos
riscos ao paciente e ao comprometimento da qualidade: "decifrar"; "traduzir";
"jogada" e "coloca a hora que você quer". Assim, é possível perceber muitos
problemas atribuídos à caligrafia ruim da prescrição médica que, ao longo dos
anos tem sido criticada e reproduzida em diferentes locais e países, podendo
ser eliminados com o uso do computador. Exemplo disso é a publicação, em 2011,
de uma matéria num Jornal de Angola, na África(15), onde consta que a
dificuldade da leitura das prescrições médicas naquele país, tem levado os
vendedores de farmácias a não fornecerem os medicamentos aos pacientes. Nesse
mesmo texto, há registro de que, nos EUA, a má redação médica tem causado,
anualmente, mais de sete mil mortes e 1,5 milhão de danos por erros médicos,
muitos deles, decorrentes de abreviações e indicações de dosagens mal redigidas
ou redigidas de forma ilegível.
Com base exposto, percebe-se que os riscos e prejuízos decorrentes da má
redação, sejam da prescrição médica ou de outros documentos, inerentes ao
atendimento à saúde, são incalculáveis. Apesar disso, questões que envolvem a
redação da prescrição devem ser vistas com cautela porque, para considerá-la
como boa ou adequada, há que se ter em conta muitas variáveis que não dependem
unicamente da caligrafia ou da redação, mas também da completude e correção das
informações, tais como: tipo de medicamento, horário, dosagem, apresentação,
entre outras.
Aspectos negativos do uso do computador: instrumento para a mecanização do
cuidar?
Embora as referências negativas à utilização do computador na Enfermagem tenham
sido em número muito menor, há que se ter em conta cada um dos aspectos que
dificultam a sua aceitabilidade no cotidiano de trabalho dos profissionais.
Nesta perspectiva, o processo de avaliação permanente de um serviço deve sempre
incluir a detecção de eventuais nós críticos, de modo que seja possível
orientar intervenções que contribuam, de fato, para a superação das
fragilidades do processo organizacional e assistencial.
Entre as 14 referências ou núcleos de sentido negativos, associados ao uso do
computador na Enfermagem, podem ser destacados relatos pertinentes ao
afastamento entre o profissional e o paciente e também do profissional do
cuidado direto.
[...]eu acho que a gente fica mais burocrática, mais mecânica [...]
se distancia do assistencial [...]. A gente fica muito dependente do
computador e isso afasta um pouco do paciente. É, atrapalha um pouco.
(Enf. 11)
A fala do Enfermeiro 11 denota o que possivelmente ocorre nas instituições
informatizadas. Nesse aspecto, o referencial deste estudo(3), embora não
enfatize o assunto ou faça referências diretas a tal problemática, também não
nega a sua ocorrência. Num estudo de revisão, consta que apesar da tecnologia
favorecer o atendimento, principalmente, o imediato, o uso de máquinas pode
contribuir para o processo de desumanização do processo de cuidado com o
paciente, tornando as relações mais distantes e frias(16). Outra pesquisa(17)
se alia a essa discussão e aponta que o avanço científico, tecnológico e do
cuidado tem forçado os enfermeiros a assumirem cada vez mais atividades
administrativas, afastando-os do cuidado do paciente.
Considerando a necessidade e a importância do uso do computador na Enfermagem,
torna-se fundamental que, desde a sua formação, o enfermeiro se aproprie dos
recursos tecnológicos, com objetivo de reduzir a sua carga de trabalho, mas
principalmente, atender as necessidades de saúde do paciente. Nessa ótica, os
riscos e os prejuízos decorrentes do uso excessivo ou da falta da tecnologia
computacional tendem a ser menores.
Um aspecto enfatizado como positivo pode assumir características desfavoráveis,
segundo a percepção de parte dos entrevistados:
[...] a prescrição digitalizada é a melhor coisa que já existiu. Tem
os seus erros? Tem! A gente ainda tem médicos que prescrevem dose
errada, prescrevem via errada, ou repetem a prescrição porque
simplesmente copiam e colam a prescrição do dia anterior. (Enf. 7)
Eles estão fazendo um programa (para a Evolução de Enfermagem), mas
por enquanto a gente faz Control C, Control V (copia e cola) e
atualiza a Evolução de Enfermagem. (Enf. 6).
No primeiro excerto percebe-se, claramente, que é preciso aperfeiçoar o
sistema, visto que a facilidade na duplicação da prescrição médica pode
acarretar sérios danos ao paciente e à instituição. Nesse aspecto, a Resolução
nº 1.821 de 2007, do Conselho Federal de Medicina(18), que normaliza as normas
técnicas referentes à digitalização e uso de sistemas informatizados para a
guarda e manuseio dos documentos pelos médicos, não aborda a ação de copiar
prescrições anteriores e, por isso, essa prática talvez seja permitida. Apesar
disso, deve sempre contar com alta dose de atenção e bom-senso de cada
profissional.
No que tange à Evolução de Enfermagem, o ato de copiar e colar torna o
procedimento mecanizado e pouco refletido. Essa é uma prática que contraria a
Resolução n.º 358 de 2009, do Conselho Federal de Enfermagem(19)(COFEN, 2009),
que dispõe sobre a Sistematização da Assistência de Enfermagem e a
implementação do Processo de Enfermagem, onde se de-nota, a importância da
atuação deliberada, refletida e sistemática do enfermeiro nesse exercício.
Refletindo sobre os obstáculos e dificuldades para a informatização do serviço
Apesar de os participantes terem expressado muitas vantagens para o uso do
computador, percebe-se que falhas ainda existem e algumas melhorias são
sugeridas:
Eu acho que é só essa questão mesmo de cair o sistema, ter alguma
coisa para agilizar, até um gerador [...]. (Enf. 1)
[...] ainda têm algumas quedas do sistema, algumas coisas que
sobrecarregam um pouco ainda. Acredito que seja sobrecarga do
computador [...]. (Enf. 2)
Outra coisa seria o corretor gráfico porque a gente digita
rapidamente e às vezes a redação não fica legal. Ele não te dá o modo
de correção. (Enf. 4)
Só faltam alguns itens como Balanço Hídrico e impresso da Prescrição
Médica para checagem da medicação. (Enf. 9)
As deficiências mencionadas merecem atenção especial porque não necessitam de
grandes investimentos para serem solucionadas e, ao fazê-las, podem
proporcionar muitas facilidades à Enfermagem, relacionadas ao tempo, à
organização e ao estresse no trabalho. A economia de tempo resultante do uso do
computador é um dos fatores mais mencionados nos estudos que abordam o tema,
por favorecer à equipe a promoção de ações voltadas à segurança do paciente(3).
Além da sobrecarga do sistema e da queda de energia, que dificultam o uso do
computador, a falta de terminais também foi mencionada:
Às vezes a nossa dificuldade é a falta de computadores porque o
balcão de enfermagem é aberto. Então, além de enfermeiros e técnicos
de enfermagem, a gente tem os alunos de todas as outras profissões
[...]. Então, às vezes, o que nos atrasa não é nem usar o computador,
mas aguardar por um computador. (Enf. 3)
A falta ou dificuldade de garantir a estrutura física ou material
informatizada, relatada pelo enfermeiro, não é mencionada em detalhes na
literatura da Enfermagem, mas sabe-se que os investimentos iniciais são
elevados e isso pode impedir a sua implantação e utilização. Nesse aspecto, a
instituição que utiliza o sistema informatizado necessita garantir a quantidade
e a qualidade dos hardwares e softwares para que o papel do computador no
trabalho da Enfermagem seja o de auxiliar o enfermeiro na organização e na
administração das informações, com vistas à tomada de decisões eficazes e à
qualidade do cuidado(2).
No que se refere à falta de investimento financeiro no contexto da informática
em enfermagem, as investigações realizadas com enfermeiros especialistas em
informática, nos períodos de 2004, 2007 e 2011, nos EUA(14), também destaca
essa questão. Apesar disso, no último estudo, a dificuldade da operação em rede
ou interoperabilidade, foi a que mais se destacou.
Em que pesem as dificuldades quanto ao número de aparelhos disponíveis e à
necessidade de se criar novos softwares para o atendimento, todos os
enfermeiros aparentavam estar satisfeitos com o sistema implantado na
instituição pesquisada. Um motivo pode ser o fato de que na região, poucos são
os hospitais que utilizam recursos da informática na Enfermagem e esse
pioneirismo, possivelmente, os torna orgulhosos e felizes por fazer parte da
iniciativa.
A informática e o registro de informações: repercussões sobre a prática
assistencial
Algumas dificuldades relacionadas ao processo manual de registros foram
mencionadas de forma direta ou indireta pelos profissionais entrevistados:
[...] tudo que é escrito está meio ultrapassado [...] no computador é
difícil perder (as informações) e no papel é fácil. (Enf. 4)
Já no manual (a escrita), dificultava. A letra ilegível dificultava a
leitura e o entendimento das anotações. Antigamente, quando era no
papel, tudo escrito a mão, eu achava que ficava mais desorganizado.
(Enf. 12)
O papel em si se perde se deteriora e no computador não, está lá ao
nosso alcance [...]. (Enf. 8)
Esta categoria temática remete a discussões sobre a segurança do paciente e da
equipe, apontando riscos e dificuldades relacionadas ao uso de papel na
documentação do paciente. Tais riscos se associam à possibilidade de perda do
impresso (papel) ou, à dificuldade de compreender as informações, que aumentam
os agravos à saúde do paciente. Ademais, nos casos de eventuais processos
éticos ou jurídicos, referentes ao atendimento, tais falhas de registro poderão
acarretar grande ônus, tanto ao profissional como à instituição.
Conforme consta num editorial que enfoca a informática na Enfermagem(6), os
enfermeiros necessitam aprender e utilizar a informática porque não é mais
possível retornar aos papeis. Apesar de os sistemas eletrônicos de registros
não se-rem perfeitos, o seu uso está revolucionando o modo como os cuidados são
oferecidos e documentados e isso tem contribuído para que o trabalho do
enfermeiro seja mais eficiente e efetivo.
Os registros de frequência e horário foram mencionados em relação com a
Enfermagem e também com o médico:
A gente fazia o relatório de enfermagem após a prestação de todos os
cuidados. Muito tempo depois você ia anotar com caneta e então
colocava a hora que você queria. Não tinha o registro da hora que
você anotou [...] ficava tudo muito vago. (Enf. 7)
Como era uma coisa escrita a mão, tinha dia que o médico escrevia (a
Evolução), tinha dia que não escrevia [...]. (Enf. 7)
Conforme se observa no verbatin do enfermeiro 7, os registros no computador
dificultam a ação de profissionais que querem burlar as normas de documentação,
uma vez que o horário de inserção das informações no sistema é automaticamente
registrado. Desta forma, contribui para maior segurança e fidedignidade das
informações, impactando positivamente na qualidade dos dados e da atenção
prestada.
No que tange à anotação de enfermagem, o Conselho Regional de Enfermagem do
(COREN) do estado de São Paulo, publicou em 2009, um manual(20) que orienta
essa prática e nele consta que as anotações devem ser realizadas
cronologicamente e após o cuidado realizado. Com base nisso, apesar de não
estabelecer o tempo, subentende-se que os registros necessitam ser efetuados
logo após a finalização dos procedimentos e não ao final do plantão, conforme
ocorre em muitos serviços.
Avaliando os resultados com o uso do computador
O orgulho pela informatização no serviço pode ser considerado como um resultado
observado na equipe e que contribui para a qualidade do trabalho realizado:
Aqui foi o primeiro hospital informatizado. Então, todo mundo que
vem, nós mesmos, quando começamos, dizíamos: Noooossa! Olha que
chique! E hoje em dia, a gente é exemplo para outras instituições
[...]. (Enf. 7)
Apesar de a literatura consultada não abordar aspectos relacionados ao
sentimento de orgulho por parte dos profissionais face à informatização no
trabalho da Enfermagem, acredita-se que o melhor nível salarial entre
enfermeiros que atuam na informática(14) tende a conferir mais status e também
sentimento de orgulho a esses profissionais.
Como resultado direto do uso do computador na atuação da equipe e no processo
de cuidado, os enfermeiros disseram:
A gente consegue fazer, por exemplo, protocolo de prevenção de
pneumonia. A gente viu que tinha muita pneumonia hospitalar [...] e
hoje, o hospital apresenta uma pneumonia por mês, ou nenhuma. Então,
melhoramos muito com o uso do computador. (Enf. 9)
[...] recentemente a gente observou, através do sistema, algumas
falhas na anotação dos Auxiliares de Enfermagem. Com isso,
proporcionamos um treinamento adequado para eles (Enf. 13)
Ao comparar os índices das enfermarias (uma não tem o beira-leito),
você vê a diferença nos índices de erros de administração de
medicamentos. (Enf. 3)
Com base nos excertos percebe-se a importância da informática para o processo
de cuidado, no sentido de garantir, principalmente, a segurança do paciente,
representada por meio da redução ou até mesmo da ausência de pneumonia
hospitalar, de queda no índice de erros de medicação e também pela viabilização
de treinamentos específicos à equipe.
Vale lembrar que o termo beira-leito se refere ao minicomputador de mão (do
tipo palm top) que é transportado pelo profissional que confere os medicamentos
prescritos, à beira do leito do paciente, antes de administrá-los. Na
instituição estudada, no momento da pesquisa, somente uma das duas enfermarias
possuía esse aparato e por isso, o enfermeiro 3, comparou os resultados do seu
uso entre uma enfermaria e outra.
Considera-se que os resultados referidos pelos enfermeiros 9, 13 e 3,
correspondem aos da literatura(2-3), pois esta indica que a informática em
enfermagem não se restringe apenas ao uso do computador, mas também ao impacto
da informação e do gerenciamento da informação. Essa tecnologia processa grande
quantidade de informações em tempo muito curto, proporciona rapidez e
organização das informações e ainda resulta em margem de erro que se aproxima
de zero.
Recomendações para o uso do computador na Enfermagem
Algumas recomendações ou alertas foram manifestados pelos participantes, no
sentido de que a Enfermagem avance, tendo a informática como ferramenta
essencial:
Eu acho que a ideia do computador deve ser disseminada. Na
Enfermagem, ele tem que deixar de ser opcional, tem que passar a ser
obrigatório. (Enf. 4)
Se todas as instituições implantassem esse sistema, facilitaria a
vida de muita gente. Principalmente da Enfermagem porque, através do
sistema você consegue ver que todos os profissionais digitaram para o
mesmo paciente. (Enf. 13)
[...] o enfermeiro poderia explorar muito mais a questão da
informática, de banco de dados, de levantamento de indicadores, mas
fica meio travado porque talvez, não reconheça que é uma parte que
ele pode trabalhar também. (Enf. 13)
Nas falas dos participantes observa-se que, além dos benefícios e facilidades
que o computador proporciona ao trabalho da enfermagem e ao paciente, essa
tecnologia abre novos campos de atuação para o enfermeiro. Isso foi constatado
não só nas falas apresentadas anteriormente, mas também, no decorrer das
entrevistas, quando os participantes relataram o interesse, a disponibilidade e
a necessidade de conhecer e criar novos sistemas e de atuar em diferentes
esferas da enfermagem. Pondera-se que essa constatação pode se relacionar com a
idade dos sujeitos, cuja média era de 29,3 anos, caracterizada como jovem e,
portanto, com maior aceitação e facilidade para o aprendizado do uso do
computador.
CONSIDERAÇÕES FINAIS
Este estudo, que objetivou apreender a percepção de enfermeiros sobre o uso do
computador no ambiente de trabalho hospitalar, obteve resultados que confirmam
a importância do uso da tecnologia computacional e da informação no trabalho do
enfermeiro, principalmente no que tange à qualificação do cuidado.
Nas categorias temáticas emanadas do processo de análise dos relatos, observou-
se que entre os aspectos positivos relacionados ao uso da informática, destaca-
se a segurança do paciente e da equipe, bem como a otimização das atividades e
a maior confiabilidade dos registros. Com relação aos aspectos negativos, a
mera realização de cópias de prescrições médicas e de enfermagem e o
afastamento do profissional do paciente foram mencionados. Dentre os obstáculos
ou dificuldades para a informatização da assistência, destacou-se a necessidade
de investimento de recursos materiais e financeiros. No entanto, estes
obstáculos parecem ser contornáveis na medida em que se ponderam as vantagens
oferecidas pelo uso dessa tecnologia.
Salienta-se que, além dos benefícios diretos ao cliente, o uso do computador
gera benefícios indiretos sobre a ambiência do trabalho e a moral da equipe,
reportados como sentimento de orgulho do trabalhador, maior efetividade no
processo de comunicação entre os membros da equipe e segurança no processo de
cuidado.
Em que pesem as dificuldades para o uso sistemático, sistematizado e global do
computador pela Enfermagem, a sua utilização deve ser foco de interesse dos
gestores e trabalhadores porque, de acordo com alguns entrevistados deste
estudo, nos dias de hoje, não é mais possível trabalhar sem o auxílio dessa
tecnologia.
Como limitação deste estudo, considera-se a dificuldade de realizar a
entrevista com alguns enfermeiros, em horário e local que não sofressem
interferências da equipe em algum momento. Outro fator foi a escassez de
publicações brasileiras relacionadas ao tema o que, sem dúvida, limitou a
discussão das seis categorias temáticas emanadas da análise dos conteúdos
expressos nos discursos dos participantes do estudo.
No que se refere às perspectivas futuras, sugere-se a realização de estudos que
tenham como objetivo constatar a relação de causa e efeito entre o uso do
computador no trabalho da Enfermagem e a qualidade do cuidado.